Inovação e sustentabilidade – BNU Timor incentiva jovens empreendedores

Na sala do Hotel Timor, foram debatidos caminhos para o empreendedorismo sustentável em Timor-Leste/Foto: Diligente

São três as dimensões – financeira, social e ambiental – fundamentais para garantir um futuro sustentável de modelos de negócio em Timor-Leste. Mais uma vez, o BNU associou-se à feira organizada pelo MOVE, com o objetivo de incentivar o setor privado a impulsionar a economia do país.

Com o tema “Três Dimensões, Um Futuro: Sustentabilidade em Timor-Leste”, a 6.ª edição da Feira do Empreendedor teve lugar no Hotel Timor, no início de julho (05.07). O evento foi organizado pelo MOVE e contou com o apoio do Banco Nacional Ultramarino (BNU) de Timor-Leste.

Reunindo empreendedores e oradores, a Feira serviu de plataforma para a partilha de ideias sobre potenciais medidas para garantir a sustentabilidade dos negócios no país.

“Sustentabilidade. É isso que se espera quando se pensa que um negócio é independente e que não precisa de mais apoio para se estruturar. Para isso, é importante conseguir atingir um bom nível no mercado — ter clientes, ter vendas, rede de fornecedores estabelecida, produção de produto, boa gestão de stock e, associado a isso, uma boa gestão do fluxo de caixa”, foi deste modo que Alexandra Freire, ex-MOVE, apresentou as linhas gerais do tema da mais recente edição da Feira do Empreendedor.

Alinhado com os ideais empreendedores veiculados pelo MOVE, o BNU não podia deixar de se associar à iniciativa e assume-se como um parceiro fundamental da organização em Timor-Leste, como explica a diretora-geral adjunta do BNU Timor, Ana Andrade. “A feira é o culminar de um trabalho” de instrução e formação, que desperta os jovens empreendedores para novas realidades do mercado.

A diretora acrescentou ainda que, além da ajuda na preparação, em termos logísticos e de conteúdos, o BNU facultou uma aula sobre conceitos financeiros básicos, na qual se discutiram formas de financiamento para os negócios dos formandos.

A proximidade de uma referência no mercado financeiro como o BNU é uma mais-valia, como explicou Alexandra Freire, tanto para a estrutura do MOVE em Timor-Leste, sendo uma organização de cariz voluntário, como para os empreendedores que podem encontrar no banco a alavanca necessária para dar início ao sonho de estabelecer o seu próprio negócio.

“Muitas vezes, é difícil passar do plano de negócio para um negócio real por falta de investimento inicial. Além disso, o BNU também nos dá um apoio financeiro que é fundamental para podermos organizar as nossas atividades e mantermos uma equipa de voluntários em Timor-Leste”, afirmou Alexandra.

A antiga fellow ainda mantém uma ligação à organização e apoia os elementos que estão no terreno. Alexandra destacou que o MOVE já existe há muito tempo, mas ainda está muito dependente do apoio das entidades locais, que “acreditam na nossa missão e tornam possível que voluntários venham de Portugal até Timor-Leste e estejam presentes durante seis meses em formações e consultorias. Nesse sentido, o BNU é um parceiro fundamental”.

Desafios para a sustentabilidade em Timor-Leste

Com o tema “O Caminho de uma Empresa para a Sustentabilidade”, a mesa-redonda contou com os seguintes oradores: Ana Vieira de Andrade, diretora-geral adjunta do BNU; Bruno Lencastre, assessor técnico-chefe do PNUD (UNDP, em inglês) em Timor-Leste; e Joana Gusmão, empreendedora da Fundação Rai Matak. Na discussão, moderada por Karin Indart, professora internacional convidada do Programa de Pós‑Graduação e Pesquisa (PPGP) da UNTL, foram abordados os desafios que Timor-Leste precisa de superar para garantir um desenvolvimento sustentável.

Ana Andrade, diretora-geral adjunta do BNU Timor, destacou que o banco tem estado consistentemente ao lado do MOVE, para apoiar as suas atividades, com o objetivo de contribuir para o desenvolvimento do setor privado em Timor-Leste.

“De facto, as pessoas passaram a ver os negócios de outra forma, graças à instrução e formação que vão recebendo. Isso é pensar no futuro e na transformação”, constatou, acrescentando que “o BNU tem muito orgulho em ser parceiro do MOVE”, considerando o impacto das ações do grupo ao longo das várias gerações.

“Esta ONG traz jovens para Timor-Leste que vão trabalhar com outros jovens. É uma abordagem cooperativa, o que é muito interessante, porque não atua de forma competitiva, mas sim em cooperação”, destacou Ana.

A diretora-geral adjunta do BNU acrescentou que o MOVE tem uma visão para o futuro dos empreendedores em Timor-Leste e os resultados do seu trabalho mostram que esse é um caminho viável. “Acho que o ‘MOVE se move’ por bons valores – não são só ideias, são práticas reais”, concluiu.

Na sua intervenção, Bruno Lencastre afirmou que as Nações Unidas, o setor privado e as ONG, como o MOVE, estão presentes no terreno para apoiar os empreendedores, não só em termos financeiros, mas principalmente com estratégias para conseguirem alcançar a sustentabilidade. São os próprios cidadãos, sobretudo os empreendedores, que têm de pensar nos problemas e encontrar soluções.

“Não somos nós – até podemos trazer ideias – mas isto tem de partir de vocês. Os representantes políticos também têm o papel de dialogar e cocriar políticas que também sejam parte da solução. Os problemas têm de ser resolvidos de forma sustentável, ou criam-se enormes desequilíbrios na sociedade”, destacou.

O assessor do PNUD afirmou que, no passado, foi implementado um programa chamado “Yes Project”, que atribuiu subsídios a jovens para desenvolvimento de pequenos negócios. Ao analisar os resultados, “vemos que os jovens acabam quase sempre por criar o mesmo tipo de negócio — restaurantes, quiosques e pequenos negócios agrícolas. Não pode ser assim. É para isso que a comunidade internacional está aqui, para ajudar a fazer diferente. Porque, na verdade, o mindset está virado para aquilo que já conhecem”, argumentou.

Bruno considera que as organizações internacionais estão em Timor-Leste para ajudar a abrir novos horizontes, principalmente para os jovens. “Na cadeia de negócios, se calhar é preciso que faças uma atividade diferente, que faças outra coisa, que não te foques só naquilo que conheces até agora”, destacou.

O assessor considera que a educação é importante para expor os timorenses a outras atividades, de modo a ajudar a pensar em novas formas de negócio. “Por exemplo, na agricultura, o minifúndio não leva a lado nenhum. Olhamos para o café em Ermera: são vários pequenos produtores, mas nenhum é rico. Nenhum vive exclusivamente daquilo, porque têm propriedades pequenas e ninguém vai ficar a vender só café”, exemplificou.

Ainda sobre o exemplo do café, Bruno Lencastre falou da necessidade de criar políticas públicas que promovam a criação de cooperativas e que facilitem a exportação. “Essas são questões em que podemos ajudar e o Estado deve estar atento. Há formas de assegurar que os nossos negócios são sustentáveis nestas três dimensões. Não têm de os procurar lá fora. São vossos. São vocês que os têm de resolver. Nós podemos ajudar, mas tem de partir de vocês. Tem de partir do que já existe. E tudo nasce pequeno”, afirmou.

Segundo Joana Gusmão, existem fatores importantes para que as empresas possam acelerar a sustentabilidade em Timor-Leste: fortes relações locais e de confiança com as comunidades e com os líderes; compreensão da cultura, normas, idiomas e costumes locais; e desenvolvimento de infraestruturas como estradas, energia e conectividade, especialmente nas áreas rurais.

“Precisamos também que as instituições tenham conhecimento das leis e políticas públicas. Porque, se falarmos sobre sustentabilidade, todas as instituições estão inter-relacionadas”, defendeu.

A empreendedora acrescentou que os setores da agricultura, educação e saúde são muito importantes para o desenvolvimento de Timor-Leste e precisam de compromisso social e ambiental. Além disso, para Joana Gusmão, o governo e as instituições devem reconhecer e apoiar as organizações que já servem as comunidades e que trazem benefícios ambientais e económicos.

“O tema da sustentabilidade em Timor-Leste é muito complexo, porque há muitos desafios, mas também há muitas estratégias. O desafio é dar oportunidades ao empreendedorismo em Timor-Leste para surgirem novas ideias e soluções para os seus problemas.”

Joana tem constatado que, nas comunidades em áreas rurais, há muitos jovens que não têm acesso a educação, porque as famílias não têm capacidade financeira para os apoiar. “Eles têm ideias brilhantes, mas não têm apoio, então torna-se muito difícil implementá-las”, lamentou.

A jovem apelou ainda a uma descentralização da ação do MOVE, de modo a chegar aos municípios, não se concentrando apenas em Díli. “A Fundação Rai Matak pode colaborar com o MOVE. Podemos mobilizar comunidades e jovens com iniciativas para os motivar a concretizar as ideias, por exemplo em Baguia, em Laga ou noutras zonas onde a fundação já atua e onde o MOVE pode dar apoio”, sugeriu.

Empreendedores superam desafios

Os jovens empreendedores que participaram na feira mostraram-se satisfeitos com a atividade promovida pelo MOVE.

Inês do Carmo, uma jovem empreendedora que desenvolve um negócio ligado ao tais (tecido tradicional timorense) e à inovação da produção de aguardente timorense (tua sabu), afirmou que o evento é uma boa oportunidade para promover a criatividade dos jovens e “incentivar indivíduos e grupos a desenvolverem atividades de negócio, com impacto positivo na economia familiar”, disse.

A empreendedora contou que conheceu o MOVE através dos seus colegas empreendedores, mas ainda não recebeu qualquer formação oferecida pela equipa. “Estou a pensar em pedir-lhes conselhos, porque é um programa internacional que se foca nos jovens, trabalhando a criatividade individual e coletiva, com o objetivo de alcançar a sustentabilidade”, afirmou.

Inês continua motivada, apesar de enfrentar dificuldades financeiras para expandir o seu negócio e garantir espaços de venda dos seus produtos. “Estes são desafios comuns que os empreendedores timorenses enfrentam, mas não matam a nossa vontade de continuar”.

No mesmo local, Júlio da Silva, um jovem que criou um negócio chamado Herbal Saudades, focado na produção e venda de bebidas saudáveis, feitas com ingredientes frescos e naturais, com a marca “Moris Diak Herbal Drink” (Vida Boa/Saudável Bebida Herbal, em português). Licenciado em engenharia industrial na Universidade da Paz, o jovem está muito satisfeito com a presença do MOVE em Timor-Leste, por considerar que pode ajudar os jovens empreendedores.

Júlio da Silva contou que chegou a participar numa formação sobre negócios, promovida pelo PNUD. No entanto, a formação foi curta e sentiu que não aprendeu o suficiente. Em 2024, descobriu o MOVE no Facebook, candidatou-se e conseguiu contacto com um dos voluntários. Participou na formação Wake e agora encontra-se na fase Make.

“Tenho dificuldades em falar português, mas a comunicação com os fellows foi fácil. Consegui compreender tudo. Recebi formação detalhada e orientaram-me no sentido de tornar o meu negócio sustentável.”

Antes de participar na formação, “não sabia registar as despesas e os rendimentos do negócio. Sabia apenas comprar, produzir e depois vender, mas ficava sem saber se tinha lucro ou não. Só depois da formação é que tomei consciência da importância de registar todas as despesas relacionadas com o meu negócio”.

Além das mudanças na gestão, Júlio conseguiu inovar na apresentação do produto. “Antes usava apenas água para o sumo herbal. Agora o produto melhorou e já consigo usar embalagens de vidro, permitindo-me vender a um preço que oscila entre os três e os dez dólares americanos”.

O jovem empreendedor também confessou que é difícil gerir o espaço e os materiais para a produção. “Muitas vezes, os clientes fazem encomendas grandes, mas como ainda uso máquinas semiautomáticas, nem sempre consigo dar resposta à procura”, justificou.

O próprio mercado acaba por ser um desafio para a Herbal Saudades, já que “alguns timorenses vendem medicamentos tradicionais produzidos na Indonésia”. Ainda assim, o jovem confessou que a concorrência acaba por ser um elemento que o motiva e que a melhoria constante pode trazer resultados positivos no futuro, já que o objetivo passa por “desenvolver uma verdadeira indústria de medicamentos tradicionais em Timor-Leste”.

5.ª Feira do Empreendedor

Com um programa diversificado, a feira começou com um quiz, seguiram-se mesas redondas, momentos de networking, uma dinâmica interativa sobre o MOVE e o habitual concurso de Pitch dos formandos do Shake.

A Feira do Empreendedor, segundo Alexandra Freire, é importante para celebrar o espírito empreendedor e debater os desafios, de modo a garantir sustentabilidade nos vários modelos de negócio. “Queremos mostrar às pessoas que, num país cheio de desafios, com dificuldades no acesso a financiamento, a formação e a informação, com infraestruturas frágeis, etc., é possível pensar em soluções para superar esses desafios e converter ideias em negócios”, afirmou.

“Três Dimensões, Um Futuro”, a sustentabilidade em Timor-Leste assenta em três bases, de acordo com a organização do evento – “as três dimensões são: financeira, social e ambiental”.

O contexto atual levou à escolha do tema, como explica Alexandra Freire, já que tem havido uma tendência para se confundir sustentabilidade com ambientalismo. A jovem considera que muitas empresas procuram apenas a sustentabilidade financeira para maximizar os seus lucros, apesar de haver outras dimensões a considerar.

“O grande objetivo do MOVE passa pela sustentabilidade financeira dos nossos empreendedores. No entanto, é importante que todos nós — associações, entidades públicas, internacionais e entidades privadas — possamos também procurar a sustentabilidade social e ambiental, contribuindo para o bem-estar das pessoas e para o nosso ecossistema”, destacou.

A atual metodologia MOVE divide-se em três componentes: Wake – formação “do zero à ideia de negócio”; Shake – formação “da ideia de negócio ao modelo de negócio”; e Make – consultoria “do modelo de negócio à sustentabilidade”.

Alexandra explicou que é no Shake que os empreendedores apresentaram os seus planos de negócio em forma de pitch, passando a estruturar o seu negócio e a mostrar condições para se iniciarem no mercado em Timor-Leste.

Depois, vem a fase de consultoria gratuita – Make – em que, todas as semanas, os voluntários (fellows) acompanham os empreendedores e discutem ideias ou medidas para tornar o negócio cada vez mais sustentável.

Fundado em 2009, o MOVE encara o empreendedorismo como uma ferramenta fundamental para o desenvolvimento económico e combate à pobreza. A organização está em Timor-Leste desde 2011 e já conta com uma carteira de 50 entidades empreendedoras timorenses, que têm usufruído do apoio dos agentes – fellows – no terreno.

O MOVE em Timor-Leste conta ainda com outros patrocinadores como a Caltech, a Timor Telecom, a Catalpa, o Hotel Timor, ou a NoLimit events, no apoio operacional e na produção da Feira do Empreendedor.

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