Recrutamento atrai sobretudo recém-licenciados. Candidatos relatam horas de espera, aglomeração e casos de desmaio. Ministério da Saúde garante que seleção seguirá regras e procedimentos estabelecidos.
Desde as primeiras horas da manhã, centenas de candidatos concentraram-se no Hospital Nacional Guido Valadares (HNGV), em Díli, para entregar a documentação necessária ao processo de recrutamento de profissionais de saúde. Para as 478 vagas disponíveis, candidataram-se 8 084 pessoas, segundo dados divulgados pelo HNGV.
Entre os candidatos estavam sobretudo recém-licenciados, muitos dos quais procuram a primeira oportunidade de emprego permanente na área em que se formaram.
As filas começaram a formar-se por volta das 06h no local destinado à inscrição. Com pastas que continham os documentos exigidos, os candidatos aguardaram durante várias horas pela sua vez.
A longa espera, o calor e a aglomeração fizeram com que alguns candidatos apresentassem sinais de cansaço. Houve também pessoas com dificuldades respiratórias e algumas que chegaram a desmaiar. Outros candidatos ajudaram-nas a deslocar-se para locais onde pudessem recuperar.
Depois de recuperarem, algumas regressaram à fila para continuar o processo de inscrição. O recrutamento contempla 478 vagas para diferentes profissionais de saúde, incluindo médicos, enfermeiros, auxiliares de enfermagem, parteiras e outros técnicos de saúde.
A forte procura ocorre num contexto em que muitos licenciados na área da saúde continuam à procura de emprego. Dados do MESC indicam que 15 322 pessoas concluíram a sua formação e participaram em cerimónias de graduação na área da saúde, no período registado pelo ministério.
Entre os candidatos estava Januário Fernandes, de 23 anos, licenciado em Enfermagem desde 2025. “Depois de terminar os estudos, não fazia nada. Ficava em casa todos os dias. Queria trabalhar, mas ainda não tinha conseguido encontrar emprego. Por isso, agradeço muito ao HNGV por ter aberto este recrutamento e por nos dar a oportunidade de concorrer”.
Apesar das dificuldades provocadas pela elevada afluência, o jovem decidiu permanecer na fila. “Formámos uma fila muito longa, ficámos apertados uns contra os outros e tivemos de aguentar a fome. O processo não foi fácil, mas, vejo isto como uma oportunidade de conseguir um emprego permanente”, afirmou.
Recém-licenciados procuram primeira oportunidade
Liandra da Costa Ximenes, licenciada em Enfermagem Geral e formada em 2025, encontra-se numa situação semelhante. O recrutamento do HNGV é uma das primeiras oportunidades que encontrou para tentar trabalhar na área em que se formou.
A longa espera não diminuiu a sua determinação. Liandra chegou ao local por volta das 06h e permaneceu na fila durante várias horas. “Continuo aqui, porque vejo o grande esforço dos meus pais para me dar educação. Às vezes, sinto-me cansada com processos como este, mas não penso em desistir”, afirmou.
A candidata relatou ainda situações de mal-estar entre as pessoas que aguardavam pela sua vez. “Havia pessoas a empurrarem-se umas às outras. Algumas tiveram dificuldades em respirar e desmaiaram. Alguns colegas ajudaram-nas a deslocarem-se para um local onde se sentissem mais confortáveis. Depois de recuperarem um pouco, voltaram à fila”, disse.
Para Leopoldina Soares, de 40 anos, a procura de emprego na área da saúde já dura há vários anos. Natural de Baucau e licenciada em Enfermagem desde 2016, já trabalhou como voluntária em algumas clínicas e participou anteriormente num processo de recrutamento do Ministério da Saúde, sem conseguir passar à fase seguinte. “Por isso, continuo a tentar e vim novamente procurar uma oportunidade”, afirmou.
Sem conseguir um emprego permanente, Leopoldina criou, entretanto, um pequeno negócio na sua zona de residência para ajudar a suportar as despesas diárias. “Num dia, posso ganhar até 50 dólares e, quando o movimento é maior, posso chegar aos 100 dólares ou mais”, contou.
A candidata diz que os pais fizeram igualmente grandes sacrifícios para garantir a sua formação e que, atualmente, procura sustentar-se através da sua atividade. “Os meus pais venderam e compraram carros, construíram uma casa e colocaram-nos na escola”, disse.
Apesar de voltar a concorrer, Leopoldina não cria grandes expectativas quanto ao resultado. A candidata deslocou-se de Baucau para Díli para participar no processo de recrutamento. Chegou no dia anterior e ficou em casa de familiares, antes de se dirigir ao HNGV para entregar a documentação.
Candidata questiona modelo de recrutamento
A experiência anterior levou Leopoldina a questionar alguns aspetos do sistema de recrutamento de profissionais de saúde. Para a candidata, o elevado número de pessoas que procura emprego demonstra a necessidade de criar mais oportunidades.
“Quanto a passar ou não, talvez tenha 50 por cento de possibilidades, porque ainda estamos na fase de análise dos documentos. Em Timor-Leste, o nepotismo ainda é muito forte. Não sabemos quem tem contactos e está a ser ajudado”, afirmou.
Leopoldina defende que os futuros processos de recrutamento sejam mais acessíveis e que possam ser criadas mais oportunidades para os profissionais de saúde.
Uma das mudanças que propõe é a possibilidade de realizar parte do processo de inscrição através da internet, sobretudo para reduzir os custos suportados por candidatos provenientes de outros municípios.
Ministério garante transparência no processo
As preocupações manifestadas pelos candidatos foram também colocadas ao Ministério da Saúde.
A ministra da Saúde, Élia dos Reis Amaral, garantiu que o recrutamento será realizado “de forma justa, legal, de acordo com as regras existentes, para que possa decorrer de forma transparente”, afirmou a ministra aos jornalistas.
Segundo Élia dos Reis Amaral, o Ministério da Saúde criou uma comissão de recrutamento responsável por conduzir o processo de seleção.
Após o encerramento das inscrições, o HNGV iniciou a análise da documentação apresentada pelos candidatos. O diretor do Serviço de Apoio Diagnóstico e Terapêutico do HNGV, Vidal de Jesus Lopes, explicou que esta fase decorre entre 21 e 26 de setembro.
Os candidatos que forem aprovados na análise documental avançarão para a fase seguinte, que consiste num exame escrito. O júri é composto por representantes do HNGV, do Ministério da Saúde e da Comissão da Função Pública.
Questionado sobre as preocupações relacionadas com o possível favorecimento de candidatos, Vidal rejeitou essa possibilidade, “porque estamos a seguir todos os procedimentos normais”, afirmou.
Segundo Vidal, o número de vagas disponibilizadas foi definido tendo em conta a capacidade orçamental do HNGV. A necessidade de contratação de novos profissionais é determinada em função dos recursos disponíveis e da capacidade do hospital para assegurar o financiamento dos lugares.
Com 8 084 candidatos para 478 vagas, o recrutamento coloca milhares de profissionais de saúde perante um processo altamente concorrido. Para muitos dos candidatos, no entanto, a inscrição representa mais do que uma tentativa de conseguir um emprego: é uma oportunidade de começar a exercer uma profissão para a qual passaram anos a preparar-se.
As questões relativas à possibilidade de realizar as inscrições online e à existência de mecanismos de primeiros socorros para responder a eventuais problemas de saúde dos candidatos durante a espera ficaram, contudo, sem resposta por parte do responsável do HNGV.
O período de inscrição para o recrutamento de profissionais de saúde do Hospital Nacional Guido Valadares decorreu entre 7 e 18 de setembro de 2026.























