Ciência, tecnologia e instituições: os caminhos para a transformação económica de Timor-Leste

James A. Robinson e Robert C. Merton durante a sessão Science and economic transformation, na Science for Development Summit, em Díli/ Foto: Media PR

A transformação económica de Timor-Leste exige mais do que a exploração dos recursos disponíveis. Tecnologia, produtividade, investimento, acesso ao financiamento, gestão do risco e instituições inclusivas foram apontados como elementos essenciais para o desenvolvimento do país, durante uma sessão da Science for Development Summit, em Díli.

O desenvolvimento económico de um país é um processo de longo prazo, que depende da capacidade de transformar recursos em valor, aumentar a produtividade e responder às mudanças da economia mundial.

Para os países em desenvolvimento, o desafio é particularmente complexo: as decisões têm de ser tomadas com recursos limitados, enquanto as necessidades da população aumentam e as condições da economia global podem mudar rapidamente.

Foi neste contexto que a ciência e a transformação económica estiveram no centro do debate sobre Science and Economic Transformation, uma das sessões da Science for Development Summit, realizada em Díli.

O economista James A. Robinson e o especialista em finanças Robert C. Merton apresentaram perspetivas diferentes, mas complementares, sobre os caminhos que os países em desenvolvimento podem seguir para acelerar o crescimento económico.

Robinson centrou-se na importância da tecnologia, da inovação e da produtividade. Merton destacou o papel do sistema financeiro na mobilização e afetação do capital, bem como na gestão dos riscos associados às decisões de investimento.

Adotar tecnologia para aumentar a produtividade

James A. Robinson explicou que o desenvolvimento da economia mundial desde a Revolução Industrial está estritamente relacionado com inovações que permitiram aumentar a produtividade.

No entanto, nem todos os países se encontram na mesma posição em termos de desenvolvimento tecnológico. Enquanto um grupo restrito está na fronteira tecnológica mundial, a maioria dos países ainda se encontra a alguma distância dessa fronteira.

Para Robinson, esta diferença representa também uma oportunidade para os países em desenvolvimento. Em vez de terem de criar, desde o início, tecnologias completamente novas, podem estudar, adotar e adaptar tecnologias já utilizadas noutros países. “A maioria dos países do mundo não está na fronteira tecnológica mundial”, afirmou.

Para explicar de que forma a adoção de tecnologia pode contribuir para a transformação económica, Robinson apresentou o exemplo da indústria de micro-ondas na Coreia do Sul.

Em 1976, a Samsung ainda não produzia fornos micro-ondas. A empresa adquiriu um produto fabricado pela General Electric e colocou os seus engenheiros a estudar o seu funcionamento.

O aparelho foi desmontado e reproduzido, mas as primeiras tentativas não tiveram sucesso. “Desmontaram-no. Fabricaram um forno micro-ondas. Explodiu. Fizeram outro. Derreteu. Fizeram outro. E continuaram a tentar”, contou Robinson.

O processo repetiu-se até que a empresa conseguiu desenvolver um produto próprio. Surgiu, depois, outro desafio: a dependência de componentes provenientes do Japão.

A Samsung começou então a desenvolver a capacidade de produzir esses componentes internamente, permitindo-lhe aumentar progressivamente o seu domínio tecnológico e a capacidade de competir nos mercados internacionais.

Para Robinson, este exemplo demonstra que a transformação tecnológica não depende apenas da invenção de novos produtos, mas também da capacidade de aprender, adaptar e melhorar tecnologias existentes. “Há ciência, engenharia inversa, adoção de tecnologia. Essa é, na verdade, a grande história do crescimento económico mundial nos últimos 50 ou 60 anos.”

O economista sublinhou que os países em desenvolvimento não precisam necessariamente de tentar reproduzir o percurso das economias que estão na fronteira tecnológica.

A adoção de tecnologias existentes pode gerar ganhos significativos, mas exige conhecimento científico, capacidade técnica e instituições capazes de apoiar esse processo. “Há enormes benefícios para a sociedade através da adoção e da inovação. Mas isso também requer ciência. Requer conhecimento. É preciso compreender como estas coisas funcionam.”

Um sistema financeiro capaz de apoiar o desenvolvimento

Enquanto Robinson destacou a tecnologia e a produtividade, Robert C. Merton centrou a sua intervenção na importância do sistema financeiro para o crescimento económico.

Segundo Merton, um sistema financeiro eficiente é uma componente fundamental do desenvolvimento, porque permite mobilizar recursos, direcionar o capital para onde é mais necessário e gerir diferentes tipos de risco.

O especialista comparou o sistema financeiro ao sistema circulatório do corpo humano, responsável por transportar recursos de uma parte do organismo para outra. “É como o sistema circulatório do nosso corpo. Retira capital de uma parte do sistema e faz com que este flua para onde é necessário, identificando onde é preciso e encaminhando-o para lá. E, se funcionar bem, fá-lo de forma eficiente.”

Merton identificou várias funções fundamentais do sistema financeiro. Entre elas está a capacidade de reunir as poupanças da população e canalizá-las para projetos que necessitam de grandes volumes de capital. “A segunda função é reunir as poupanças, para que possamos financiar grandes projetos individuais.”

O sistema financeiro permite também transferir recursos económicos de um lugar para outro e disponibilizar informação que ajuda os investidores e outros agentes económicos a tomar decisões.

Os mercados, segundo Merton, desempenham um papel importante nesse processo. “Os preços nesses mercados contêm uma enorme quantidade de informação de muito elevada qualidade.”

Diversificação e flexibilidade para gerir o risco

A questão do risco ocupou igualmente um lugar central na intervenção de Merton.

Segundo o especialista, a incerteza é inevitável nas decisões económicas e de desenvolvimento. Por isso, os decisores políticos e os investidores não devem tratar o resultado mais provável como se fosse uma certeza.

Um dos princípios que considera fundamentais para reduzir o risco é a diversificação. “Isso é um grande erro, especialmente num ambiente de incerteza. Há duas coisas que considero extremamente importantes em qualquer situação de incerteza. Uma delas é a magia da diversificação.”

A concentração de todos os recursos numa única opção pode aumentar significativamente o impacto de uma eventual falha. Pelo contrário, a distribuição dos investimentos por diferentes opções permite reduzir o risco global.

Para Merton, este princípio pode ser aplicado a diferentes decisões económicas e de desenvolvimento.

O especialista destacou ainda a importância da flexibilidade. Num contexto de elevada incerteza, um projeto ou uma política não deve ser concebido como se todas as condições futuras fossem conhecidas antecipadamente.

A indústria farmacêutica é, para Merton, um exemplo desta abordagem. O desenvolvimento de um novo medicamento envolve custos elevados e uma probabilidade significativa de insucesso. Por isso, os candidatos são avaliados de forma faseada. Os projetos que não apresentam resultados promissores são interrompidos numa fase inicial, enquanto aqueles que demonstram potencial recebem maiores investimentos nas etapas seguintes.

Este modelo permite ajustar as decisões de investimento à medida que surgem novas informações. “A flexibilidade, em geral, é extremamente valiosa num contexto de incerteza. Não tem qualquer valor num mundo de certeza. Por isso, se os seus modelos fingem que tudo é certo, age como se soubesse o que vai acontecer.”

O futuro da moeda de Timor-Leste

A utilização do dólar dos Estados Unidos e a possibilidade de Timor-Leste vir a adotar uma moeda própria foram também abordadas durante a sessão.

A utilização do dólar proporciona estabilidade e facilita as transações internacionais, mas uma moeda nacional poderia permitir ao país maior autonomia na condução da política monetária. Para Robinson, esta decisão deve ter em conta a capacidade das instituições timorenses para gerir uma moeda própria.

O economista alertou para os riscos associados à instabilidade monetária, dando como exemplo o Zimbabué. “Esse tipo de instabilidade é uma espécie de desastre.”

Segundo Robinson, uma situação de instabilidade monetária pode afetar negativamente o investimento, o empreendedorismo e o crescimento económico. “Cria uma enorme instabilidade, trava o investimento, trava o empreendedorismo e trava a economia.”

Robinson reconheceu, contudo, que a criação de uma moeda própria também pode apresentar vantagens. “Há vantagens e desvantagens.”

Para Robert C. Merton, Timor-Leste poderá vir a precisar de uma moeda própria, mas considera que a decisão não tem de ser tomada no imediato. “Haverá um momento em que penso que vão querer ter a vossa própria moeda.”

Merton entende que a criação de uma moeda nacional neste momento poderia aumentar os riscos, tendo em conta os vários desafios de desenvolvimento que o país ainda enfrenta. “É o momento errado, não é a ideia errada; é o momento errado.”

Por outro lado, considera que a utilização do dólar oferece vantagens nas transações e nas relações económicas internacionais. “Acreditem ou não, é realmente muito conveniente usar o dólar. Toda a gente compreende o dólar.”

Por isso, aconselhou que a criação de uma moeda própria não seja, por enquanto, uma prioridade. “A minha opinião seria deixar isso em segundo plano.”

Instituições inclusivas e uma “coligação ampla”

Robinson destacou ainda a qualidade das instituições como uma componente fundamental do desenvolvimento de Timor-Leste.

Segundo o economista, a transformação de instituições extrativas em instituições mais inclusivas não pode ser alcançada apenas através da substituição do grupo de elites que se encontra no poder.

Na sua perspetiva, uma mudança sustentável exige uma competição política capaz de envolver uma parte ampla da sociedade.

Robinson argumentou que as elites tendem a preservar o poder e os privilégios de que beneficiam, podendo criar obstáculos à participação de outros grupos. “A grande lição da história mundial é que as elites, por si só, não criam sociedades inclusivas.”

O economista salientou que a forma como ocorre a competição política é determinante. Uma mudança de poder não significa, necessariamente, uma transformação das instituições. Para ilustrar esta dificuldade, mencionou a Primavera Árabe, apontando que, em alguns países, as mudanças políticas acabaram por ser seguidas pelo regresso a padrões de instituições extrativas.

Em contrapartida, Robinson considera que existem maiores possibilidades de mudança quando as forças que desafiam o poder são sustentadas por uma coligação ampla.

Quando um grupo político depende do apoio de uma parcela significativa da população, argumenta, terá maior necessidade de apresentar políticas capazes de responder aos interesses de diferentes setores da sociedade.

No caso de Timor-Leste, Robinson destacou o capital social construído ao longo da história da luta pela independência como uma das forças importantes do país. A experiência partilhada dessa luta, na sua perspetiva, pode servir de base para uma cooperação mais ampla entre diferentes setores da sociedade. “Timor-Leste tem este enorme capital social.”

A construção de instituições inclusivas, concluiu Robinson, não depende apenas da forma como são desenhadas as instituições do Estado. Depende também da capacidade da sociedade para construir coligações amplas, promover uma competição política efetiva e garantir que o poder não seja exercido exclusivamente em benefício de determinados grupos.

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