O Presidente da Associação dos Doutorados Timorenses – CPLP defende uma Comunidade mais próxima dos cidadãos, com maior mobilidade, cooperação científica e participação dos jovens. Para o académico, a Presidência timorense constitui uma oportunidade para transformar a língua portuguesa numa ferramenta estratégica e reforçar o papel de Timor-Leste como ponte entre a CPLP e o Sudeste Asiático.
Timor-Leste assumiu recentemente a Presidência Pro Tempore da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP) para o período 2026-2027, num momento particularmente exigente para a organização. Sob o lema “A Consolidação do Estado de Direito Democrático e os Desafios da CPLP”, a Presidência timorense coloca no centro da agenda temas como a democracia, os direitos humanos, o Estado de Direito, a cooperação e o futuro da Comunidade.
Para Alexandre Corte Real, Presidente da Associação dos Doutorados Timorenses – CPLP, a Presidência não deve ser encarada apenas como uma responsabilidade política e diplomática, mas como uma oportunidade para Timor-Leste demonstrar a sua capacidade académica e científica e contribuir de forma concreta para os objetivos da Comunidade.
Em entrevista, o académico defende uma CPLP mais próxima dos seus povos, com maior circulação de estudantes, professores, investigadores e profissionais, mais bolsas de estudo e uma verdadeira rede científica lusófona.
A língua portuguesa, afirma, deve deixar de ser vista apenas como património histórico e passar a ser entendida como uma ferramenta estratégica para a educação, a ciência, a diplomacia e a cooperação internacional.
Alexandre Corte Real aborda ainda os desafios da democracia e do Estado de Direito, a situação na Guiné-Bissau, o papel dos doutorados timorenses, a participação dos jovens, a cibersegurança, a investigação científica e as oportunidades que a localização de Timor-Leste no Sudeste Asiático pode criar para uma maior projeção da CPLP.
“Assumir a Presidência significa também demonstrar que Timor-Leste está preparado para desempenhar um papel mais ativo na Comunidade”
Depois da recente reunião da Comunidade, o que significa para Timor-Leste assumir a Presidência Pro Tempore da CPLP neste momento?
É um acontecimento muito importante para Timor-Leste. A CPLP assenta em princípios fundamentais como a democracia, o Estado de Direito, os direitos humanos e o respeito pela vontade popular. Assumir a Presidência significa também demonstrar que Timor-Leste está preparado para desempenhar um papel mais ativo na Comunidade Lusófona.
A Presidência deve ser uma oportunidade para demonstrarmos que Timor-Leste está preparado para assumir responsabilidades dentro da CPLP. Não se trata apenas de uma responsabilidade política ou diplomática.
Enquanto Associação dos Doutorados Timorenses da CPLP, entendemos que este é um momento para demonstrarmos que Timor-Leste pode contribuir concretamente para os objetivos da Comunidade, sobretudo nas áreas da educação, da ciência, da tecnologia, da língua portuguesa e da cooperação académica.
Quais devem ser, na sua visão, as prioridades e os resultados concretos que Timor-Leste deve alcançar durante a Presidência da CPLP?
Existem algumas áreas prioritárias, como a língua portuguesa, a educação, a ciência, a tecnologia e a cooperação académica. A língua portuguesa tem uma importância especial. Está presente em Timor-Leste há vários séculos, embora não seja maioritariamente falada pela população. Hoje, a língua de Camões já não é apenas uma herança histórica: é uma das nossas línguas oficiais e faz parte da identidade nacional.
Os portugueses trouxeram a sua língua, mas, hoje em dia, a língua portuguesa pertence também aos timorenses.
Ao mesmo tempo, temos de reconhecer que ainda existe um longo caminho a percorrer para aumentar o domínio e a utilização do português pela população. Precisamos de mais formação de professores, intercâmbios, bolsas de estudo e cooperação com os restantes países da CPLP.
O português não deve ser visto apenas como património cultural, mas como uma ferramenta para o futuro, sobretudo nas áreas da educação, da investigação científica, da diplomacia, da comunicação internacional e da cooperação entre universidades.
Contudo, a Presidência não pode ficar limitada à língua. Temos também desafios relacionados com o analfabetismo, a exclusão social, a corrupção, as práticas antidemocráticas, a criminalidade cibernética e o ciberterrorismo. São problemas que ultrapassam fronteiras e que exigem cooperação entre os Estados-membros.
O lema da Presidência — «A Consolidação do Estado de Direito Democrático e os Desafios da CPLP» — responde aos principais desafios atuais?
Considero que é um lema muito pertinente, sobretudo tendo em conta a história dos países da CPLP, onde a democracia ainda não está plenamente consolidada. A democracia não se constrói de um dia para o outro. Exige educação cívica, respeito pelas instituições, cultura política e respeito pela vontade popular. O princípio fundamental é que o poder pertence ao povo.
Se o povo é a origem do poder, então o poder público deve depender da vontade popular, expressa sobretudo através das eleições. Mas a democracia não termina no momento em que se vota. Está também ligada aos direitos humanos, à possibilidade de participar na vida política e ao direito de ser eleito.
Da mesma forma, os representantes escolhidos pelo povo devem governar de acordo com a Constituição e as leis. Sem instituições fortes, respeito pela lei e proteção dos direitos fundamentais, a democracia fica fragilizada.
Por isso, a democracia e o Estado de Direito devem caminhar juntos. E esse deve ser um compromisso permanente da CPLP, que não deve ser apenas uma comunidade de governos, mas uma comunidade de povos, unida pela defesa da democracia, da liberdade, dos direitos humanos e da dignidade de cada cidadão.
“Timor-Leste deve manifestar solidariedade para com o povo da Guiné-Bissau e contribuir para o diálogo e para uma solução pacífica”
A situação na Guiné-Bissau coloca uma responsabilidade adicional sobre Timor-Leste?
Sem dúvida. Quando os princípios democráticos são colocados em causa, é necessário recordar que a legitimidade de um Governo deve estar ligada à vontade popular, expressa através do voto, e ao respeito pela Constituição.
A democracia significa, entre outras coisas, permitir que o povo escolha livremente os seus representantes. Sem respeito pela vontade popular, a legitimidade das instituições fica comprometida.
Timor-Leste, enquanto membro da CPLP, deve manifestar solidariedade para com o povo da Guiné-Bissau e contribuir, dentro das suas possibilidades, para o diálogo e para uma solução pacífica.
O objetivo deve ser criar condições para a estabilidade e para que o povo guineense possa exercer livremente o seu direito de escolher os seus representantes através de eleições democráticas. Para nós, isto também representa solidariedade entre países irmãos.
Timor-Leste conhece bem a luta pela autodeterminação. Após a invasão de 1975, o povo timorense só conseguiu expressar livremente a sua vontade no referendo de 1999, alcançando a independência em 2002. Por isso, defendemos o diálogo, a paz e a democracia sempre que um país irmão enfrenta dificuldades.
Que papel podem desempenhar os doutorados timorenses na Presidência da CPLP?
Nos estatutos da nossa Associação estão definidos objetivos relacionados com a investigação científica e tecnológica, bem como com a realização de reuniões, colóquios, seminários e conferências entre os países da CPLP. Esses espaços são fundamentais para transformar os princípios da Comunidade em ações concretas.
Não basta escrever princípios em documentos. Precisamos de produzir conhecimento, investigar problemas comuns e apresentar propostas que possam contribuir para a tomada de decisões. Os doutorados podem transformar conhecimento em políticas públicas.
Através da investigação científica podemos identificar problemas, comparar experiências entre países e apresentar soluções. Depois, esse conhecimento pode ser colocado à disposição dos Estados e contribuir para políticas públicas e legislação.
A CPLP reúne países com realidades muito diferentes. Não podemos simplesmente copiar o modelo de um país para outro, mas podemos encontrar pontos de convergência através da ciência, do diálogo e da cooperação académica.
Somos uma associação relativamente nova e temos limitações financeiras e institucionais. No entanto, temos procurado fazer o máximo possível, sobretudo através das universidades. Já realizámos atividades na Universidade Nacional Timor Lorosa’e e vários membros participaram em seminários e apresentaram trabalhos académicos.
O que precisamos agora é de uma maior aproximação às instituições do Estado. Gostaríamos que, quando o Governo de Timor-Leste participar em reuniões ou atividades da CPLP relacionadas com a educação, a ciência, a investigação ou o conhecimento, a nossa Associação também pudesse ser considerada como parceira.
Não queremos substituir o Estado. Queremos complementar o trabalho do Estado através do conhecimento científico e da experiência dos nossos membros. Estamos preparados para cooperar com o Estado de Timor-Leste e contribuir para os programas e objetivos da CPLP.
Como facilitar a circulação de estudantes, investigadores, professores e profissionais dentro da CPLP?
A mobilidade é uma das grandes questões para o futuro da CPLP. Precisamos de começar a discutir seriamente mecanismos que permitam uma maior circulação entre os cidadãos da Comunidade. Naturalmente, isso não pode acontecer de um dia para o outro. É necessário harmonizar regras e alcançar acordos políticos entre os Estados.
Mas podemos começar por estudantes, professores, investigadores e profissionais. No futuro, poderíamos até imaginar mecanismos próprios de identificação e mobilidade da CPLP, incluindo um documento de identificação comunitário ou um passaporte da CPLP.
É uma visão de longo prazo. Talvez daqui a cinco ou dez anos possamos ter avançado significativamente nessa direção. Se somos uma comunidade de países irmãos, precisamos de criar condições para que os nossos cidadãos possam estudar, trabalhar, investigar e conhecer-se com maior facilidade.
“A ciência precisa de passar dos discursos para projetos concretos”
Como pode a Associação dos Doutorados aproximar Timor-Leste das universidades da CPLP e transformar conhecimento em projetos concretos?
Consideramo-nos uma ponte entre Timor-Leste e o espaço académico e científico lusófono. A Associação dos Doutorados Timorenses da CPLP foi criada precisamente para aproximar universidades, investigadores e instituições dos diferentes países da Comunidade, promovendo intercâmbios, seminários, conferências e projetos conjuntos de investigação.
Muitos dos nossos membros são professores e investigadores ligados a instituições de ensino superior, como a Universidade Nacional Timor Lorosa’e, a Universidade da Paz, o Dili Institute of Technology, entre outras. Muitos realizaram os seus doutoramentos no estrangeiro e regressaram ao país com novos conhecimentos, metodologias, experiências e contactos.
Esse conhecimento adquirido deve ser colocado ao serviço da sociedade. Não queremos que fique apenas com cada investigador. Queremos partilhá-lo com universidades, estudantes e instituições, contribuindo para formar novas gerações de académicos e aumentar a capacidade científica de Timor-Leste.
Ao mesmo tempo, precisamos de transformar a cooperação académica em resultados concretos. Seminários e conferências são importantes, mas devem ser o ponto de partida para projetos de investigação, redes académicas e propostas capazes de apoiar políticas públicas.
Uma das áreas que consideramos prioritárias é a cibersegurança e a criminalidade cibernética, porque são desafios que ultrapassam fronteiras e exigem conhecimento científico, legislação adequada e cooperação internacional. Com Timor-Leste integrado na ASEAN, esta área torna-se ainda mais estratégica.
A Associação tem procurado contribuir através de colóquios, conferências e seminários, mas queremos ir mais longe. A ciência precisa de passar dos discursos para projetos concretos, e o conhecimento dos nossos doutorados pode ser uma das principais ferramentas para transformar essa visão em resultados para Timor-Leste e para toda a CPLP.
Como aumentar a mobilidade e envolver mais os jovens na CPLP?
Precisamos de criar programas permanentes de mobilidade que aproximem universidades, investigadores, professores e estudantes dos diferentes países da CPLP. As universidades públicas poderiam estabelecer acordos de cooperação, programas conjuntos de investigação e intercâmbios regulares, com seminários científicos realizados em Díli, Maputo, Lisboa, Luanda, Brasília e noutras cidades da Comunidade.
Para isso, são necessários acordos institucionais, financiamento e vontade política dos Estados e das universidades. A nossa Associação pode contribuir para a apresentação de propostas, a mobilização de investigadores e a criação dessas redes académicas.
Mas a mobilidade não deve limitar-se ao mundo académico. Precisamos também de criar oportunidades para que os jovens se encontrem, convivam e descubram que pertencem a uma comunidade maior. Bolsas de estudo, intercâmbios, eventos culturais, desportivos e artísticos podem desempenhar um papel fundamental nesse processo.
Quando um jovem timorense conhece jovens de Portugal, Brasil, Angola, Moçambique, Cabo Verde ou São Tomé e Príncipe, percebe que a CPLP não é apenas uma organização de governos, mas uma comunidade de pessoas, culturas e oportunidades.
“Quando um professor estrangeiro vem ensinar em Timor-Leste, não está apenas a transmitir conhecimento. Está também a criar relações humanas e académicas”
Como transformar a pertença à CPLP em oportunidades concretas de estudo, emprego, investigação e empreendedorismo para os jovens?
Precisamos de aumentar a cooperação entre as instituições. Não podemos ter apenas estudantes timorenses a sair para estudar. Precisamos também de trazer professores e investigadores dos países da CPLP para Timor-Leste.
A Universidade Nacional Timor Lorosa’e já tem essa experiência, recebendo professores do Brasil, de Portugal e de Cabo Verde. Quando um professor estrangeiro vem ensinar em Timor-Leste, não está apenas a transmitir conhecimento. Está também a criar relações humanas e académicas.
Precisamos de fazer isso em maior escala e criar programas permanentes de mobilidade de estudantes, professores e investigadores. Ao mesmo tempo, devemos criar oportunidades de bolsas, estágios, investigação e empreendedorismo.
É uma questão de recursos, mas também de decisão política. Se queremos que os jovens sintam verdadeiramente que pertencem à CPLP, temos de transformar essa ideia em oportunidades concretas.
O que Timor-Leste pode aprender com os países da CPLP nas áreas da educação, ciência e tecnologia?
Principalmente nas áreas da educação, da ciência e da tecnologia. Portugal e Brasil têm uma experiência muito importante no ensino superior e disponibilizam bolsas de estudo para estudantes timorenses.
Precisamos de aproveitar melhor essas oportunidades e incentivar mais jovens a candidatarem-se. Quando um estudante timorense estuda no estrangeiro, não adquire apenas um diploma. Aprende novas metodologias, conhece diferentes sistemas de ensino e investigação e pode trazer esse conhecimento de volta para Timor-Leste.
Também podemos aprender com a experiência diplomática dos países da CPLP. Portugal e Brasil têm uma longa experiência diplomática e uma presença internacional significativa.
O Governo deve intensificar a cooperação para que Timor-Leste possa aproveitar melhor aquilo que a CPLP oferece nas áreas da educação, da ciência, da tecnologia, da diplomacia e da formação de recursos humanos.
A localização de Timor-Leste no Sudeste Asiático pode dar uma nova dimensão estratégica à CPLP?
Sem dúvida. A localização de Timor-Leste é uma das maiores vantagens estratégicas. Estamos no Sudeste Asiático, numa região dinâmica, mas temos também uma ligação histórica, cultural e linguística muito forte com a CPLP.
A integração de Timor-Leste na ASEAN torna esta posição ainda mais relevante. Um exemplo é a Indonésia, que tem interesse no desenvolvimento do ensino da língua portuguesa. Isso demonstra que o português pode ultrapassar as fronteiras tradicionais da CPLP.
Timor-Leste pode aproveitar a sua proximidade geográfica e cultural com a Indonésia para aproximar a CPLP do Sudeste Asiático.
Podemos levar a língua portuguesa, a cultura e as oportunidades de cooperação da CPLP para mais perto da Ásia e, ao mesmo tempo, aproximar os países asiáticos do espaço lusófono. É uma posição estratégica muito importante.
Na região, os nossos vizinhos sabem que Timor-Leste não está sozinho. Temos a CPLP e temos a ASEAN. Isso dá-nos uma rede de relações muito significativa.
Por isso, Timor-Leste pode desempenhar um papel construtivo dentro da ASEAN e, simultaneamente, contribuir para uma maior projeção internacional da CPLP. Se a Indonésia e outros países asiáticos demonstrarem interesse pelo português, pela cultura lusófona e pela cooperação com os nossos países, Timor-Leste pode desempenhar um papel importante nessa aproximação.
“A CPLP não deve ser apenas uma organização de Estados, mas também uma comunidade de povos”
Que CPLP gostaria de ver daqui a dez, vinte ou trinta anos?
Imagino uma CPLP com maior mobilidade de cidadãos, maior circulação de estudantes e investigadores, mais cooperação científica, maior integração económica e cultural e uma participação muito forte dos jovens.
A longo prazo, podemos imaginar mecanismos comuns de identificação e mobilidade, um passaporte comunitário e formas mais avançadas de cooperação económica e institucional. São propostas ambiciosas, mas uma comunidade precisa de ter uma visão de futuro.
Os países da CPLP são diferentes, têm economias e realidades políticas distintas, mas partilham uma língua, uma história e relações culturais muito fortes.
A CPLP não deve ser apenas uma organização de Estados, mas também uma comunidade de povos, onde a língua portuguesa se transforma em oportunidades de conhecimento, mobilidade e cooperação.























