As histórias escondidas nos objetos da resistência

Comemoração do 51.º aniversário das Falintil/Foto: DR

No Dia das FALINTIL, o Diligente percorre o Arquivo e Museu da Resistência Timorense através de rádios, telefones, uniformes, armas e outros objetos que testemunharam mais de duas décadas de luta. Cada peça guarda uma história sobre comunicação, sobrevivência, combate e resistência.

Em 1995, um telefone satélite chegou às mãos da guerrilha timorense. Para quem hoje está habituado a utilizar um telemóvel, pode parecer um objeto banal. Mas, nas montanhas de Timor-Leste, aquele aparelho abriu uma possibilidade que até então era difícil de imaginar: falar diretamente com alguém que estava fora do território.

José Agostinho Sequeira, conhecido como “Somotxo Matar Mimiraka”, foi uma das primeiras pessoas da guerrilha a utilizar o equipamento. “Fui uma das primeiras pessoas da guerrilha a utilizá-lo. Tive de aprender praticamente do zero. Os amigos da solidariedade ensinaram-me durante cerca de três dias como utilizar o equipamento. Hoje, até uma criança está habituada a utilizar um telefone, mas, para um guerrilheiro naquela época, aquele aparelho representava uma tecnologia completamente nova”, recorda.

A primeira chamada foi feita para o Gouveia. Membros da Organização de Solidariedade tinham passado pela Austrália e trazido o número de telefone. A partir desse momento, aquele contacto tornou-se uma ligação direta entre a resistência em Timor-Leste e o exterior.

Para realizar a chamada, era necessário marcar primeiro o código internacional e depois o número correspondente. Depois de algumas dificuldades iniciais, a ligação foi finalmente estabelecida.

“Foi um momento de grande emoção. Pela primeira vez, era possível falar diretamente com alguém que estava fora de Timor. No início, pedi que o Gouveia falasse português ou inglês, uma vez que pensava que tinha nascido no exterior e não sabia tétum. Mas o Gouveia respondeu logo em tétum”, conta.

A conversa foi gravada e tornou-se um registo de uma das primeiras comunicações realizadas através de telefone satélite. Mais tarde, foram obtidos outros números em Portugal e noutros países, ampliando progressivamente a rede de comunicação entre Timor-Leste e o exterior.

O primeiro telefone satélite tinha chegado em 1995. Modelos mais modernos chegaram posteriormente, em 1998. A nova tecnologia permitia comunicações mais longas e mensagens mais completas do que as que eram possíveis através dos rádios.

Mas a história daquele telefone é apenas uma das muitas que permanecem guardadas no Arquivo e Museu da Resistência Timorense (AMRT).

Neste 20 de agosto, Dia das FALINTIL, o Diligente revisita, através de alguns desses objetos, diferentes momentos e dimensões da resistência timorense.

Uma voz que atravessava as montanhas

Rádio Maubere / Foto: Diligente

Durante os primeiros anos da ocupação, a Rádio Maubere foi muito mais do que um simples meio de comunicação. Era uma voz capaz de atravessar as montanhas e chegar para além do mar.

As mensagens transmitidas eram posteriormente gravadas. Algumas dessas gravações sobreviveram e constituem hoje importantes documentos históricos sobre os primeiros anos da ocupação e da resistência. Existem coleções de gravações e registos das transmissões preservados por organizações e arquivos na Austrália.

A Rádio Maubere teve um papel particularmente importante entre 1975 e 1978, período em que a resistência estava concentrada nas montanhas e procurava reorganizar-se perante a ofensiva militar indonésia. As fontes históricas registam transmissões da Rádio Maubere até dezembro de 1978.

À medida que a situação militar se agravava, a rádio foi perdendo capacidade de operação. A última fase das transmissões ocorreu em 1978, quando as condições tornaram extremamente difícil manter o funcionamento do equipamento.

Alarico Fernandes é identificado nos registos históricos como uma das principais figuras associadas à operação da rádio e às transmissões da resistência.

Perante a situação, o equipamento acabou por ser entregue. Alarico Fernandes, responsável pelas comunicações, esteve diretamente ligado a esse processo. A rádio acabou nas mãos das forças indonésias, que levaram o equipamento.

Comunicar podia significar arriscar a vida

Aparelhos de comunicação / Foto: Diligente

Os rádios eram essenciais para manter o contacto entre os diferentes responsáveis e acompanhar a situação militar em várias zonas. Mas eram também equipamentos difíceis de conseguir e que exigiam extremo cuidado na sua utilização.

Durante a guerra, alguns foram capturados, enquanto outros eram comprados pelos membros da frente clandestina em lojas de Timor-Leste e posteriormente enviados para a guerrilha.

Entre os equipamentos utilizados estava um rádio Racal, destinado às comunicações militares. No início, nem sempre existiam condições para utilizar aparelhos deste tipo. Mais tarde, por volta de 1998, um comandante chamado Manuel começou a utilizá-lo.

Os walkie-talkies também eram importantes, mas não estavam ao alcance de todos. A sua utilização dependia da quantidade de equipamentos disponíveis e da responsabilidade atribuída a cada pessoa.

Normalmente, o responsável político ou militar recebia um walkie-talkie para comunicar com outro responsável. Quando chegavam equipamentos em maior quantidade, alguns guerrilheiros também podiam utilizá-los.

Ter um rádio significava, por isso, assumir uma responsabilidade. Era através dele que se recebiam e transmitiam informações sobre o que estava a acontecer noutras regiões. As mensagens tinham de ser rápidas e curtas. Os militares indonésios procuravam acompanhar as comunicações da guerrilha e tentavam localizar a origem das transmissões.

Por isso, não era seguro dizer diretamente onde estavam os guerrilheiros, para onde iam ou onde pretendiam encontrar-se. Cada comunicação tinha de ser cuidadosamente pensada.

Para proteger as mensagens, os guerrilheiros utilizavam códigos e cifras previamente combinados. Uma palavra podia ter um significado diferente daquele que aparentava ter.

“Matebian”, por exemplo, podia ser utilizada para transmitir determinada informação. Quem estivesse do outro lado conhecia o código e compreendia o verdadeiro significado. Para quem estivesse a escutar a comunicação, a palavra podia parecer apenas uma referência ao monte Matebian.

Havia também sistemas de cifras em que as letras eram substituídas por outras. “A” podia significar “M”, enquanto “M” podia significar “A”. A correspondência era previamente estabelecida entre os elementos que comunicavam.

Quanto maior fosse a mensagem, maior era também o risco de cometer erros ou de revelar informação. A língua utilizada também podia variar. Os guerrilheiros podiam comunicar em português, tétum, makasae ou noutra língua ou variante local que o interlocutor compreendesse.

Essa diversidade linguística podia, por si só, ajudar a proteger as comunicações, já que nem todos compreendiam as mesmas línguas.

Quando o rádio avariava, até a reparação era perigosa. Os guerrilheiros não eram técnicos e nem todos sabiam reparar um rádio quando este avariava.

Muitas vezes, os equipamentos tinham de ser enviados para membros da frente clandestina, que procuravam encontrar alguém capaz de os reparar. Mas transportar um rádio era, por si só, uma operação arriscada. Um elemento da população que fosse encontrado com um equipamento destes podia levantar suspeitas.

Por vezes, era necessário recorrer a militares que pudessem ajudar na reparação. Um dos locais onde essas reparações eram realizadas era Fatumaka, onde havia estudantes e pessoas com conhecimentos de mecânica e capacidade para trabalhar com este tipo de equipamento. Alguns estudantes que passavam por Fatumaka também podiam ajudar a guerrilha.

Tudo era feito em segredo. Uma simples reparação podia colocar em risco não apenas o equipamento, mas também as pessoas envolvidas.

Quando um rádio não podia ser reparado, deixava de ser utilizado. Estes aparelhos contam, assim, uma parte menos visível da resistência. A luta não dependia apenas das armas. Dependia também da capacidade de comunicar, transmitir informação, proteger mensagens e manter o contacto entre pessoas separadas por diferentes regiões.

Uma palavra mal escolhida ou uma localização revelada podia colocar vidas em perigo.

Ver a guerra e fazer o mundo vê-la

Máquina de filmar e binóculo militar / Foto: Diligente

Entre os objetos preservados no Museu estão também equipamentos que representam duas formas diferentes de olhar para a guerra.

Uma máquina de filmar entrou clandestinamente em Timor-Leste em 1997, trazida por um jornalista português da Rádio Renascença.

Naquela época, a entrada de jornalistas estrangeiros em Timor-Leste era fortemente controlada. A chegada daquele jornalista e do seu equipamento tinha, por isso, um significado especial.

A máquina permitia registar imagens da realidade vivida em Timor-Leste e da situação da resistência, levando para fora do território imagens de uma realidade que dificilmente chegava ao mundo.

Ao lado deste equipamento está um binóculo militar utilizado pelos guerrilheiros para observar à distância, localizar o inimigo e acompanhar os seus movimentos e posições.

Num contexto de guerrilha, um equipamento aparentemente simples como este podia ter grande importância. Permitia observar determinada zona sem necessidade de aproximação e ajudava os combatentes a compreender melhor os movimentos das forças indonésias.

A máquina de filmar permitia guardar imagens da realidade vivida. O binóculo ajudava a observar o campo de batalha. Dois objetos diferentes, duas formas de ver uma mesma guerra.

Uma farda que também conta a história da guerrilha

Uniforme das FALINTIL / Foto: Diligente

Nem todos os guerrilheiros tinham uniforme. Conseguir uma farda durante os anos da resistência não era fácil.

Um dos uniformes preservados no Museu pertenceu à atual deputada do CNRT Maria Rosa da Câmara, “Bi Soi”. “É um uniforme completo, composto por chapéu, camisa, calças e cinto. Todo este conjunto lhe pertenceu e foi utilizado por ela durante o período da guerrilha”, explica José Agostinho Sequeira.

Maria Rosa da Câmara começou a utilizar o uniforme em 1983, quando passou para a guerrilha, e continuou a usá-lo durante os anos seguintes. “Parece que alguém lho ofereceu naquela altura. Em 1992, veio para a vila, mas não sabemos se continuou a utilizar o mesmo uniforme depois dessa altura”, acrescenta.

O uniforme foi entregue ao Museu em 2004. Grande parte do fardamento utilizado durante os 24 anos de resistência era conseguido através da captura aos militares indonésios ou às milícias. Outros equipamentos eram obtidos através da frente clandestina.

“Os membros da frente clandestina procuravam obter fardas e outros equipamentos e depois enviavam-nos para a guerrilha. Havia ainda militares indonésios que colaboravam connosco e que, em alguns casos, enviavam materiais para apoiar a guerrilha”, conta.

Uma farda como esta não era, por isso, apenas uma peça de roupa. Alguns guerrilheiros utilizavam uniformes capturados, outros recebiam-nos através da frente clandestina, enquanto muitos continuavam a combater sem fardamento completo.

Esta farda guarda também a memória de uma época em que até uma peça de roupa podia representar sobrevivência, resistência e apoio à luta.

Sobreviver no mato

Equipamentos para transportar comida / Foto: Diligente

As marmitas e os cantis podem parecer objetos banais. Para os guerrilheiros, porém, eram equipamentos essenciais para a sobrevivência diária no mato.

Dentro das marmitas levavam aquilo que conseguiam encontrar ou receber, de acordo com as condições de cada momento. A alimentação era muitas vezes simples: arroz, milho, mandioca, batata-doce, banana e outros alimentos disponíveis nas comunidades. Mas nem sempre havia comida suficiente.

Os guerrilheiros dependiam do apoio da população e das condições encontradas durante as deslocações. “Estas são marmitas capturadas aos militares indonésios. Naquela altura, não era fácil conseguir este tipo de equipamento. Também não sabemos exatamente a quem pertenciam”, explica José Agostinho Sequeira.

Em alguns casos, conseguir uma marmita ou um cantil significava capturá-los aos militares indonésios durante os combates. Mas nem tudo vinha do inimigo.

Alguns materiais eram doados por pessoas ou enviados pelos membros da frente clandestina para apoiar a guerrilha. Outros objetos eram feitos pelos próprios guerrilheiros, utilizando os materiais disponíveis.

Naquelas condições, cada objeto tinha o seu valor e a sua própria história.

Armas que passaram de guerrilheiro para guerrilheiro

Armas / Foto: Diligente

Ao contrário de outros objetos, estas armas não podem ser facilmente associadas a um único guerrilheiro. “Não é fácil identificar quem utilizava estas armas, porque muitos guerrilheiros utilizaram armas deste tipo. Alguns morreram posteriormente e a arma foi recuperada e passou para outro guerrilheiro”, explica José Agostinho Sequeira.

Uma das armas expostas é uma SKS, de fabrico soviético. A arma tinha originalmente uma pequena caixa onde eram colocadas as munições, em quantidade inferior a 20. Os guerrilheiros fizeram uma adaptação para utilizar um carregador de 30 munições.

É uma arma semiautomática e o carregador também constitui uma adaptação feita pelos guerrilheiros. A outra arma exposta é uma arma de pressão de ar. Durante a guerra, foi utilizada pelo pessoal da vila para defesa quando as milícias começaram a matar pessoas.

Não é possível determinar exatamente quem utilizava esta arma. Equipamentos deste tipo existiam em várias regiões. “Lembro-me de que, quando estava na fronteira, passou uma arma deste tipo para a nossa região e um agente ficou com uma arma igual. No entanto, ninguém sabe a que região pertencia esta arma”, recorda.

A principal limitação dos combatentes estava nas próprias armas e nas munições. “Não tínhamos armas suficientes e, além disso, havia poucas munições.”

Apesar disso, todos os guerrilheiros recebiam formação para saber manejar as armas e combater.

Uma bandeira que representava a resistência

Bandeira / Foto: Diligente

No final do percurso, uma bandeira. Normalmente, eram os comandantes que tinham acesso a estas bandeiras. As bandeiras das FALINTIL e do CNRT são muito semelhantes, mas a bandeira das FALINTIL tinha um significado particular.

Era uma bandeira oficial da luta, que estava no Estado-Maior e estava associada à liderança da resistência. Por isso, era utilizada sobretudo pelas principais figuras da resistência e aparecia em cerimónias e acontecimentos oficiais.

Entre essas ocasiões estavam o 20 de agosto, Dia das FALINTIL, e o 28 de novembro, Dia da Proclamação da Independência. Transportar aquela bandeira significava mais do que transportar um pedaço de tecido. Representava a organização, a liderança e a identidade da resistência timorense durante os anos da luta.

Durante as cerimónias, quem transportava a bandeira para o local encontrava-se numa situação completamente diferente: já não era uma operação clandestina, mas um ato oficial.

Objetos que sobreviveram à guerra

A Revolução dos Cravos, em Portugal, abriu, em 1974, um novo caminho político para Timor-Leste. Com a autorização para a criação de organizações políticas, surgiram a FRETILIN, a UDT e a APODETI, cada uma com uma visão diferente para o futuro do território.

As diferenças políticas aprofundaram-se e, em agosto de 1975, a UDT lançou um movimento armado contra a FRETILIN. O confronto espalhou-se por várias partes do território, dando origem a um período de violência e guerra civil.

A 20 de agosto de 1975, a FRETILIN respondeu com uma insurreição armada. Nesse contexto, foram estabelecidas as FALINTIL — Forças Armadas de Libertação Nacional de Timor-Leste — que passaram a constituir o braço armado da resistência.

José Agostinho Sequeira entrou para a guerrilha em 1976, nas montanhas, numa altura em que as forças indonésias avançavam sobre várias regiões de Timor-Leste. Em setembro desse ano, recebeu a sua primeira arma e passou a integrar as FALINTIL.

Décadas mais tarde, a sua ligação à resistência assumiria uma nova dimensão.

A partir de 2002, participou na recolha e organização de documentos e objetos relacionados com a luta, primeiro em Portugal, no âmbito da cooperação entre Timor-Leste e a Fundação Mário Soares.

Esse trabalho esteve na origem do desenvolvimento do Arquivo e Museu da Resistência Timorense, onde viria a exercer funções como primeiro diretor.

Hoje, como assessor na área de História, continua ligado ao Museu e à preservação da memória da resistência. É através desse trabalho de preservação que rádios, telefones, máquinas de filmar, binóculos, uniformes, marmitas, armas e bandeiras continuam a contar aquilo que aconteceu.

Objetos aparentemente comuns, muitos deles gastos pelo tempo e pela guerra, transformam-se em testemunhos de uma luta que atravessou 24 anos. Cada um guarda uma parte da história. E, juntos, ajudam a contar a história da resistência timorense.

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