Apesar do aumento das doações e das transfusões no Hospital Nacional Guido Valadares (HNGV), muitas famílias continuam a ser chamadas a procurar dadores quando um doente necessita de sangue. A Cruz Vermelha, o Banco de Sangue e a Organização Mundial da Saúde defendem o reforço da doação voluntária e regular para garantir reservas suficientes e reduzir a dependência das famílias em situações de emergência.
Para muitas famílias de doentes internados no HNGV, em Díli, encontrar sangue para uma transfusão continua a ser uma corrida contra o tempo. Quando o stock disponível não é suficiente, os familiares são frequentemente chamados a procurar pessoas saudáveis que possam doar sangue e ajudar a repor as unidades utilizadas pelo hospital.
Embora existam pessoas dispostas a ajudar, a procura pode tornar-se mais difícil quando é necessário um determinado grupo sanguíneo ou quando a transfusão é urgente.
Famílias enfrentam dificuldades para encontrar sangue
Edgar Afonso Freitas, de Baucau, viveu recentemente essa situação. A irmã mais nova está internada há cerca de uma semana no HNGV devido a uma anemia e necessita de sangue do tipo A+.
Quando a família procurou o Banco de Sangue para saber se havia disponibilidade, foi informada de que familiares ou outras pessoas saudáveis poderiam fazer uma doação para ajudar a repor o stock utilizado pelo hospital.
Como os familiares disponíveis tinham grupos sanguíneos diferentes, foram orientados a fazer doações para reposição, permitindo que a unidade de A+ disponível fosse utilizada pela doente.
“Encontrar sangue é sempre uma dificuldade para nós quando o paciente precisa. Quando os médicos dizem que é urgente, é muito difícil encontrar rapidamente pessoas que possam vir fazer uma doação”, relatou Edgar.
A irmã foi inicialmente levada para o Hospital Vera Cruz, depois de adoecer no domingo da semana anterior, e posteriormente transferida para o HNGV, onde permanece internada.
Segundo Edgar, o Banco de Sangue já disponibilizou uma unidade, mas a irmã voltou a necessitar de sangue. A família teve, por isso, de procurar novamente pessoas dispostas a doar.
Desta vez, a família conseguiu encontrar rapidamente quatro dadores. “Ligámos para os familiares e eles vieram imediatamente. Hoje, quatro pessoas vieram e conseguiram fazer a doação de sangue”, contou.
Para Edgar, a experiência demonstra a necessidade de aumentar o número de dadores regulares no país. O jovem considera que instituições públicas, incluindo a Polícia e as Forças de Defesa, poderiam participar em campanhas periódicas.
“Talvez, se fosse possível organizar doações de sangue de seis em seis meses, seria possível ajudar a manter o stock de sangue e evitar que este se esgotasse”, sugeriu.
Rofina de Jesus Nascimento, de Aileu, enfrentou uma situação semelhante. A diferença foi que, neste caso, vários familiares tinham o mesmo grupo sanguíneo. O sobrinho sofreu um acidente de mota e foi internado no Hospital Vera Cruz. Posteriormente, foi transferido para o HNGV, onde os médicos verificaram que necessitava de uma transfusão.
O doente tem sangue do tipo O+. Como vários familiares pertencem ao mesmo grupo sanguíneo, a família conseguiu responder rapidamente ao pedido. “Todos os membros da nossa família têm sangue O+, por isso os familiares puderam vir diretamente fazer doações”, explicou Rofina.
Segundo os médicos, o sobrinho precisava inicialmente de duas unidades. Um familiar fez uma doação no dia anterior e outro levou a filha para fazer uma segunda doação.
Neste caso, Rofina não precisou de recorrer às redes sociais para procurar dadores. “Não tivemos a mesma dificuldade que outras famílias que precisam de fazer pedidos no Facebook, porque o meu irmão, a minha irmã e os filhos têm sangue O+”, afirmou.
A experiência levou, contudo, a família a reforçar a importância da doação para além das situações de emergência. Rofina diz que ela própria e outros familiares também costumam doar sangue para outros doentes.
“Não podemos ficar apenas doar porque o paciente é nosso familiar. Quando vemos que outra pessoa precisa de ajuda, também devemos oferecer sangue”, defendeu.
O sobrinho continuava a ser acompanhado pelos médicos. Depois de sair da Unidade de Cuidados Intensivos, foi transferido para uma enfermaria.
Jacinta Marques, de Baucau, também recorda uma experiência difícil na procura de sangue para uma familiar.
Segundo Jacinta, a cunhada sofreu um aborto em 2025 e perdeu uma quantidade significativa de sangue. Como tinha sangue A+, a família foi orientada pelos médicos a procurar pessoas que pudessem fazer uma doação.
Jacinta procurou ajuda junto da Cruz Vermelha e da Polícia Marítima, em Lecidere, mas não conseguiu encontrar um dador disponível.
“Disseram-me para deixar o meu número de telefone e que, caso encontrassem alguma pessoa que voluntariamente quisesse fazer uma doação, entrariam em contacto comigo. Mas esperei dois dias e não obtive nenhuma resposta”, contou.
Quando se dirigiu ao Banco de Sangue, recebeu outra informação: não havia stock de A+ disponível. “Como não havia sangue no banco de sangue e também não consegui ajuda de outras pessoas, não sabia o que fazer pela minha cunhada”, relatou.
Apesar das dificuldades, a doente acabou por recuperar e recebeu alta. Atualmente, segundo Jacinta, encontra-se bem de saúde.
Constantino de Assunção, de Baucau, foi um dos familiares que participou numa doação para ajudar uma paciente que precisava de sangue A+ no HNGV.
Segundo Constantino, embora o hospital tivesse alguma quantidade disponível, a família foi solicitada a contribuir para a reposição do stock. “A minha prima precisava de quatro unidades de sangue, por isso quatro familiares vieram fazer doações para repor o stock do hospital”, explicou.
Esta foi a segunda vez que Constantino doou sangue. A primeira ocorreu de forma voluntária, através da Cruz Vermelha. “Não faço doações apenas quando é um familiar meu. Quando há algum paciente que precisa de sangue, também ofereço o meu sangue”, disse.
Para o dador, a população deve encarar a doação como uma forma de solidariedade e não apenas como uma resposta às necessidades de familiares. “Não devemos ter medo de doar sangue, porque o nosso sangue pode salvar a vida de outra pessoa”, afirmou.
Cruz Vermelha mobiliza dadores, mas reconhece necessidade de reforçar participação
A Cruz Vermelha de Timor-Leste (CVTL) considera que as dificuldades enfrentadas por algumas famílias estão relacionadas, em parte, com o reduzido número de pessoas que doam sangue de forma voluntária e regular.
Segundo o secretário-geral da organização, Agapito da Silva, uma das principais funções da CVTL é mobilizar dadores voluntários. A recolha, análise, armazenamento e distribuição do sangue são, por sua vez, responsabilidades técnicas do Banco de Sangue do HNGV.
A atuação da Cruz Vermelha está enquadrada no Decreto-Lei n.º 6/2005, que reconhece a organização como a única organização humanitária nacional e como auxiliar das autoridades públicas. O Plano Estratégico 2025-2029 da CVTL prevê igualmente ações destinadas a reforçar a mobilização de dadores voluntários.
A organização mantém uma base de dados de voluntários identificados pelos respetivos grupos sanguíneos, incluindo O+, A+, B+ e AB. Quando surge uma necessidade urgente, a Cruz Vermelha contacta os dadores registados e, caso estejam disponíveis e cumpram as condições necessárias, encaminha-os para o Banco de Sangue.
“Tecnicamente, retirar o sangue, testar o sangue no laboratório e determinar se pode ou não ser utilizado é competência do Banco de Sangue”, esclareceu Agapito.
A CVTL realiza campanhas de sensibilização em coordenação com o HNGV. Segundo o secretário-geral, são promovidas cerca de dez ações por ano, muitas delas em parceria com o Banco de Sangue.
A organização apoia também instituições que pretendam organizar campanhas de doação durante celebrações ou aniversários. Nestas atividades, o Banco de Sangue realiza a recolha e a CVTL apoia o registo e a mobilização dos voluntários.
No ano passado, cerca de seis mil pessoas participaram em ações de sensibilização ou campanhas relacionadas com a doação de sangue, segundo dados apresentados pela organização. Destas, aproximadamente duas mil chegaram a doar sangue. Este ano, até ao momento, a CVTL conseguiu mobilizar cerca de 300 pessoas para fazer doações.
Para Agapito, os números mostram a necessidade de ampliar a base de dadores, sobretudo entre aqueles que estão disponíveis para doar regularmente.
Nem todos os dadores registados, porém, estão disponíveis quando surge uma necessidade urgente. Alguns podem estar a viajar, noutro local ou não reunir, naquele momento, as condições necessárias para doar.
“Às vezes, as famílias dos pacientes vêm pedir sangue com urgência à Cruz Vermelha. Nós temos de telefonar aos doadores registados. Alguns conseguem ajudar, mas outros dizem que beberam na noite anterior, estão a viajar ou estão noutro local. Nesses casos, não podemos permitir que doem sangue”, relatou.
Para a organização, a mudança passa por fazer da doação uma prática regular, e não apenas uma resposta quando um familiar está internado.
Banco de Sangue regista aumento das doações e das transfusões
O Banco de Sangue do HNGV mantém atualmente 77 unidades de sangue em stock: 15 do tipo A, 22 do tipo B, 13 do tipo AB e 27 do tipo O.
Segundo Alexandrino Mendonça, chefe do Departamento do Banco de Sangue do HNGV, apesar do stock disponível, a recolha de sangue é mantida diariamente para substituir as unidades utilizadas nas transfusões.
“O stock sai, mas a doação continua. É preciso continuar a recolher sangue para substituir aquilo que foi utilizado e garantir as transfusões nas diferentes salas do Hospital Nacional Guido Valadares”, afirmou.
Existem diferentes formas de doação, incluindo a doação voluntária individual, as campanhas realizadas em instituições públicas e privadas e a doação de familiares de doentes internados.
Nas campanhas institucionais, equipas do Banco de Sangue deslocam-se a escolas, universidades e outras instituições quando estas solicitam atividades de recolha.
Uma parte significativa das doações continua, contudo, a ser feita por familiares de doentes que necessitam de transfusões.
“A doação voluntária é muito importante. Quando uma pessoa sofre um acidente ou uma mulher perde muito sangue durante o parto, não podemos esperar que a família apareça para procurar sangue. Precisamos de ter sangue armazenado para responder imediatamente às situações de emergência”, explicou Mendonça.
Os dados do Banco de Sangue mostram um aumento das doações nos últimos anos. Em 2024, foram registadas 5.660 doações: 1.421 do tipo A, 1.397 do tipo B, 352 do tipo AB e 2.480 do tipo O.
Em 2025, o número aumentou para 7.204 doações, das quais 1.841 do tipo A, 1.639 do tipo B, 367 do tipo AB e 3.357 do tipo O.
Até ao segundo trimestre de 2026, foram registadas cerca de 4.800 doações de sangue. Entre os diferentes grupos sanguíneos, o AB foi o que registou menos doações, com cerca de 300.
As transfusões também aumentaram. Em 2024, o Banco de Sangue realizou 7.928 transfusões para doentes do HNGV e de hospitais de referência, incluindo os hospitais de referência de Baucau e Maubisse.
Em 2025, foram realizadas 8.831 transfusões. Durante os primeiros seis meses de 2026, o número já chegava a 5.938.
Para Alexandrino Mendonça, a evolução demonstra a necessidade de manter uma doação regular e contínua. “As transfusões de sangue aumentam todos os anos. Por isso, devemos continuar e fazer doações para podermos salvar quem precisa. O sangue vem de nós; não existe uma fábrica que o produza”, afirmou.
Entre os diferentes grupos sanguíneos, o tipo AB é apontado pelo Banco de Sangue como um dos mais difíceis de encontrar no país, devido à menor proporção de pessoas com este grupo entre doentes e dadores.
“O tipo AB é difícil de encontrar e os pacientes com este tipo também não são muitos. Mas, quando uma pessoa com sangue AB fica doente e precisa de sangue, pode ser difícil encontrar um dador compatível, porque a maioria dos dadores não é desse grupo”, explicou Mendonça.
Os grupos com fator RH negativo, como O-, A- e B-, também são menos frequentes. O Banco de Sangue mantém contactos de alguns dadores destes grupos para recorrer a eles quando necessário.
Doação depende de avaliação médica
Antes da recolha, o potencial dador passa por uma avaliação para verificar se reúne as condições necessárias.
Entre os critérios estão o estado geral de saúde, o descanso adequado, a avaliação física e a medição da pressão arterial e da frequência cardíaca. É também recolhida uma amostra de sangue para testar infeções como hepatite B, hepatite C, sífilis e HIV.
O sangue só pode ser utilizado para transfusão depois de cumpridos os critérios clínicos e laboratoriais.
Em situações de necessidade urgente, quando o stock disponível não é suficiente, o Banco de Sangue pode mobilizar familiares do doente para serem avaliados e, caso cumpram os critérios exigidos, fazerem uma doação.
Os casos hospitalares são classificados segundo o grau de urgência. Em situações de emergência, especialmente em hemorragias durante o parto ou acidentes graves, o Banco de Sangue procura disponibilizar rapidamente as unidades necessárias.
As campanhas são realizadas junto de escolas, universidades, instituições públicas, empresas privadas e organizações religiosas. Algumas, porém, acabam por ser canceladas devido à indisponibilidade das instituições ou dos potenciais dadores.
“Recentemente, uma atividade prevista numa universidade foi cancelada porque os estudantes estavam em período de aulas. Outra campanha prevista numa igreja em Comoro também foi cancelada porque muitos membros da comunidade estavam fora da cidade”, disse Mendonça.
Apesar dos obstáculos, o Banco de Sangue pretende continuar a promover campanhas e a incentivar a população a doar regularmente.
O Diligente procurou também saber que políticas e medidas estão a ser desenvolvidas pelo Governo para aumentar a sensibilização da população para a importância da doação voluntária. A ministra da Saúde, Élia de Jesus Amaral, remeteu os esclarecimentos para os técnicos do HNGV. “Não posso falar sobre questões técnicas. Pode perguntar aos técnicos no HNGV”, respondeu a governante.
OMS defende aumento da doação voluntária
A Organização Mundial da Saúde (OMS) defende um aumento significativo da doação voluntária e regular em Timor-Leste para reduzir a dependência de familiares que procuram dadores apenas quando um doente necessita de sangue.
Num artigo publicado em 15 de junho de 2026, o representante da OMS em Timor-Leste, Arvind Mathur, descreveu situações em que familiares são mobilizados para procurar dadores perante emergências e cirurgias programadas. Mulheres com complicações durante o parto, vítimas de acidentes rodoviários e doentes submetidos a intervenções cirúrgicas estão entre as pessoas que podem depender da disponibilidade de sangue.
Segundo a OMS, pelo menos 1% da população deveria doar sangue todos os anos para garantir um fornecimento seguro e fiável. Para Timor-Leste, a referência corresponde a cerca de 13 mil dadores por ano.
Em 2025, foram registadas 7.204 doações de sangue, segundo dados do Banco de Sangue citados pela organização. A OMS usa como referência para Timor-Leste a necessidade de cerca de 13 mil dadores por ano.
A OMS alerta para o facto de a dependência deste modelo tornar o abastecimento menos previsível e coloca uma responsabilidade adicional sobre as famílias num momento de vulnerabilidade.
A dependência das famílias já tinha sido assinalada pela organização em junho de 2023. Na altura, a OMS afirmou que as doações voluntárias permitiam ao Banco de Sangue do HNGV responder a menos de 40% da procura associada a pedidos urgentes para doentes em estado crítico.
Nos restantes casos, os familiares eram chamados a mobilizar dadores de reposição. A publicação não esclarecia quantos desses pedidos acabavam por ser satisfeitos nem quanto tempo os doentes esperavam pela transfusão.
A OMS defende, por isso, uma transição para um sistema baseado numa participação voluntária, regular e não remunerada, em que as pessoas doem sangue independentemente de terem ou não um familiar internado.
Desigualdade no acesso ao sangue mantém-se a nível mundial
Segundo dados da OMS relativos sobretudo a 2023, divulgados em junho de 2026, a taxa mediana anual de doação de sangue total era de 28,9 doações por mil habitantes nos países de rendimento elevado, contra 8,5 nos países de rendimento médio-baixo e 4,5 nos países de rendimento baixo.
A nível mundial, a OMS estima cerca de 120,4 milhões de doações de sangue por ano. A organização defende que os sistemas nacionais devem privilegiar doações voluntárias, regulares e não remuneradas para garantir reservas suficientes e reduzir a dependência de familiares e dadores de reposição.
Em Timor-Leste, o desafio passa agora por aumentar o número de pessoas que doam sangue regularmente, antes de uma emergência surgir. A mudança permitiria reduzir a pressão sobre as famílias e garantir reservas capazes de responder tanto às transfusões programadas como às situações urgentes.























