Timor-Leste debate as taxas de pobreza. Nas famílias, a conta é diária

O mercado de Taibessi, Díli/Foto: Diligente

O Governo anunciou que 37% dos timorenses viviam abaixo da linha nacional de pobreza em 2024. O Banco Mundial estimou 71,7% para 2026 com uma linha internacional mais alta. Nas casas de Jacinta, Joana e Domingos, as vendas diárias, um salário de 500 dólares e a ajuda dos filhos mostram o que as taxas não dizem: como se paga a comida e o que acontece quando surge uma despesa a mais.

Às cinco da manhã, em Bidau Santa Ana, Jacinta Kaet, de 45 anos, aquece água para o café que vai vender. Antes de sair, prepara o pequeno-almoço das crianças. Desde que o marido morreu, em 2024, é ela quem sustenta a casa: as duas filhas, de seis e dez anos, e dois familiares de 18 e 19 anos que vivem com ela e frequentam o ensino secundário.

Trabalha seis dias por semana. Não recebe pensão nem ajuda regular do Estado ou dos familiares dos dois jovens. O que entra em casa depende das suas vendas. Num dia normal, vende cerca de 20 dólares. Num dia bom são 30. É o que os clientes lhe pagam, não o que lhe fica. Desse dinheiro saem o café, o açúcar e os noodles que terá de comprar para voltar a vender no dia seguinte. Jacinta não regista todas as entradas e saídas e não sabe dizer quanto lucra num mês.

A família faz três refeições por dia. Enquanto o arroz é comprado regularmente, o frango, as salsichas e ovos entram apenas na alimentação quando há dinheiro.

“Por dia, normalmente gastamos cinco dólares em comida ou um pouco mais se as crianças quiserem ovos”, conta.

Quanto é preciso para não ser pobre em Timor-Leste? A pergunta ganhou peso político em setembro, quando o Governo anunciou que 37% da população vivia abaixo da linha nacional de pobreza em 2024, contra 41,8% em 2014. O número surgiu depois de o Banco Mundial ter estimado que 71,7% dos timorenses estariam abaixo de uma linha internacional mais alta em 2026. As duas percentagens passaram a disputar espaço no debate público, embora meçam a pobreza com critérios diferentes e se refiram a anos diferentes.

O valor da linha nacional calculado com os preços de 2024 ainda não foi divulgado. O INETL anunciou a publicação do relatório completo para outubro. A última linha conhecida, calculada para 2014, era de 46,37 dólares por pessoa e por mês, em média, para necessidades básicas como alimentação, habitação e outras despesas.

As contas de Jacinta e de outras duas famílias mostram, porém, o que uma taxa isolada não revela: quanto trabalho é necessário para chegar ao fim do mês, que despesas são adiadas e como uma alteração pequena pode desfazer o orçamento.

Em casa, Jacinta compra legumes todos os dias e, quando o dinheiro chega, ovos ou salsichas. O arroz vem em sacos que duram duas semanas, menos quando há visitas. Nos dias de aulas, dá um dólar a cada um dos dois estudantes mais velhos e 50 cêntimos à filha de dez anos, que vai a pé para a escola. São 2,50 dólares por dia de aulas, cerca de 50 dólares se houver 20 dias letivos no mês.

A eletricidade custa aproximadamente quatro dólares por semana. O fogão elétrico serve para cozinhar para a família e para aquecer a água do café que vende. Assim, uma parte da conta da casa também é uma despesa do negócio. Jacinta não paga a água e vive numa casa situada num terreno de um tio. Quando o centro de saúde não tem os medicamentos de que precisa, compra-os na farmácia.

Diz que costuma pôr de parte entre dois e 2,50 dólares por dia. Quando as vendas não chegam, é a essa reserva que recorre.

Um salário de 500 dólares que não resiste a doenças na família

Jacinta não sabe quanto ganhará amanhã. Joana nome fictício, de 32 anos, funcionária pública, residente em Díli, sabe quanto recebe no fim do mês: cerca de 500 dólares. Para uma casa de cinco pessoas, essa previsibilidade faz diferença. Mas não lhe diz quanto sobrará depois de pagar comida, renda, escola e juros — nem o que fará se alguém adoecer.

O pai dos filhos contribui para as despesas, com cerca de 150 a 200 dólares, e Joana ganha, de vez em quando, algum dinheiro com croché e explicações a estudantes.  Estima gastar cerca de 200 dólares por mês em comida — arroz, legumes, ovos, óleo, fruta, tofu, tempe e, quando pode, carne. Deixou de comprar alguns temperos para reservar o dinheiro para o essencial. Os três adultos da casa nem sempre tomam o pequeno-almoço. As crianças comem mais vezes ao longo do dia.

“Raramente tomamos o pequeno-almoço. Além de ser uma forma de poupar, esse hábito já não existe em casa para os três adultos. Fazemos duas refeições principais por dia, enquanto as crianças comem cinco vezes, incluindo duas refeições principais”, explica.

Depois vêm a renda de 200 dólares, que representa 40% do seu salário, a água, a eletricidade, a escola, os transportes, o telefone e a manutenção da mota. A água da rede pública chega em pouca quantidade ou de forma irregular. A de beber, a família vai buscá-la ou compra-a em quiosques.

Há ainda uma dívida de mais de 500 dólares numa cooperativa informal, com juros de 5% ao mês. Por enquanto, Joana paga apenas os juros: pelo menos 25 dólares mensais. Se o montante em dívida e a taxa se mantiverem, pagará pelo menos 300 dólares de juros num ano sem reduzir o capital. Já conseguiu liquidar outra dívida, de 600 dólares, contraída quando o pai adoeceu.

Para o orçamento fechar, deixou de pagar as deslocações da irmã, comprou menos livros e suspendeu a ajuda que enviava à mãe e a outra irmã. Segundo as suas contas, retomar essas despesas exigiria mais 110 a 140 dólares por mês: 20 para o transporte da irmã, 40 a 70 para livros e pelo menos 50 para a família.

O salário permite-lhe saber quanto vai entrar. Uma doença pode, ainda assim, obrigá-la a pedir dinheiro emprestado.

“Nesta casa, sou eu que trabalho. Todos os outros estudam. Quando alguém fica doente, as despesas aumentam para comprar alimentos importantes para a recuperação e medicamentos. Se a situação for mais grave, contraímos dívidas. E é difícil pagá-las.”

Embora o seu salário seja superior à média timorense, Joana não considera que a sua família esteja completamente segura do ponto de vista financeiro.

Porque é que 37% e 71,7% não medem a mesma pobreza

A taxa anunciada pelo Governo vem de um inquérito a cerca de 7.500 agregados familiares e usa a linha nacional de pobreza. Segundo os primeiros resultados, 37% da população vivia abaixo dessa linha em 2024: 45,5% nas áreas rurais e 18,4% nas urbanas.

Os 71,7% publicados pelo Banco Mundial referem-se a outra medida: a percentagem estimada da população abaixo da linha internacional de 4,20 dólares por pessoa e por dia, expressa em dólares de paridade do poder de compra de 2021.

O Banco Mundial publicou também uma estimativa com a linha internacional de três dólares por pessoa e por dia: 44,3% para 2026. Considera esta linha mais próxima das condições de Timor-Leste, embora o país pertença ao grupo de rendimento médio-baixo, ao qual corresponde a linha internacional de 4,20 dólares. Em paridade do poder de compra, a última linha nacional conhecida equivalia a 2,93 dólares por dia.

Há ainda uma diferença de tempo e de origem dos dados. Os números internacionais de 2026 não resultam de entrevistas feitas nesse ano às famílias timorenses. São estimativas construídas a partir do último inquérito aos padrões de vida então disponível, realizado em 2014, e de pressupostos sobre a evolução da economia. O Banco Mundial anunciou que atualizará as estimativas internacionais depois de publicados os dados do inquérito de 2024.

Em setembro, a estimativa mais alta de 71,7% entrou no debate político. O primeiro-ministro, Xanana Gusmão, manifestou discordância em relação ao número do Banco Mundial. Dias depois, o Governo apresentou os primeiros resultados do inquérito de 2024. O representante do Banco Mundial em Díli, David Freedman, esclareceu que os 71,7% eram uma estimativa baseada nos dados de 2014.

As duas taxas não permitem concluir, por si só, que uma instituição encontrou quase o dobro da pobreza identificada pela outra. A linha nacional procura medir o custo das necessidades básicas nas condições do país. As linhas internacionais permitem comparações entre países e estabelecem patamares distintos. O próprio Banco Mundial adverte que as taxas obtidas com essas linhas não devem ser comparadas diretamente com as taxas nacionais.

Em 2014, a linha nacional também variava dentro de Timor-Leste, para refletir diferenças nos preços e nos padrões de consumo. Era mais alta em Díli do que em Ermera.

De pedir emprestado para comer a receber ajuda dos filhos

Quando as despesas aumentam, Joana pode voltar a contrair uma dívida que já lhe consome parte do salário. Em Riheu, Ermera, Domingos de Jesus, de 68 anos, agricultor, conhece o caminho inverso. Os filhos que trabalham em Díli e na Coreia do Sul não fazem parte deste agregado, mas ajudam-no com dinheiro. Por isso, já não precisa de pedir dinheiro. Essa melhoria, porém, depende de dinheiro que ele próprio não controla.

Domingos e a mulher cultivam parte do que comem e vendem produtos da horta quando aparecem compradores.

“Da nossa horta, podemos vender taro, mandioca e outros produtos. Mas as pessoas não compram todos os dias. Às vezes, num mês conseguimos apenas 15 dólares”, conta.

Em 2014, último ano para o qual estão publicados dados de pobreza por município, 56,7% dos habitantes de Ermera viviam abaixo da linha nacional, contra 41,8% no conjunto do país. A taxa municipal de 2024 ainda não foi divulgada.

A família compra cerca de 50 dólares de comida por mês — arroz, óleo, carne —, além do que colhe e consome. O que as lojas de Riheu não vendem obriga-a a deslocar-se a Gleno, sede do município. A água não se paga. A eletricidade e os medicamentos, sim. Uma consulta ao matan-dook, praticante de medicina tradicional, pode custar 50 dólares: tanto como um mês das compras de comida que Domingos contabiliza.

O que mudou a vida da casa foi o dinheiro dos filhos. Três trabalham em Díli e ajudam como podem. Um está na Coreia do Sul e, segundo Domingos, há meses em que consegue enviar até 500 dólares. O dinheiro enviado por timorenses que vivem fora do país faz parte das remessas que, em 2025, somaram 181,9 milhões de dólares, segundo o Banco Central.

“Antes, quando os meus filhos ainda não trabalhavam, tinha de pedir emprestado para comprar óleo e legumes. Agora, como eles já trabalham e me dão dinheiro, já não precisamos de pedir emprestado como antes.”

Mais de 300 dólares por mês para uma dieta adequada

Jacinta calcula as compras de comida à medida que o dinheiro entra. Joana deixou de comprar alguns alimentos e os adultos da sua casa raramente tomam o pequeno-almoço. Domingos compra arroz, óleo e carne, mas também come o que cultiva.

Num estudo de 2023, o PAM calculou que a dieta de menor custo capaz de cobrir as necessidades nutricionais de uma família de cinco pessoas custava, em média, 10,09 dólares por dia em Timor-Leste: mais de 300 dólares num mês de 30 dias, antes de pagar habitação, escola, água ou saúde.

O custo estimado era 78% superior ao de 2019 e variava entre municípios: 7,15 dólares por dia em Aileu e 13,91 em Covalima. O valor nacional mensal era mais do dobro do salário mínimo de 115 dólares, fixado em 2012.

O cálculo do PAM estima o custo de uma alimentação capaz de satisfazer necessidades de energia e nutrientes. A componente alimentar da linha nacional de 2014 partia de uma cesta que fornecesse 2100 calorias por pessoa e por dia. Calorias suficientes e uma dieta nutricionalmente adequada não são a mesma medida.

Desde que a última linha nacional de pobreza foi calculada, os preços mudaram. Na série atual do Instituto Nacional de Estatística de Timor-Leste, que tem agosto de 2018 como base, o índice geral subiu 25,1% até abril de 2026. No mesmo período, os alimentos e bebidas não alcoólicas subiram 34,5% e o arroz 47%. O grupo dos alimentos e bebidas não alcoólicas representa 54,1% da cesta de referência usada para calcular o índice. Em abril de 2026, os preços gerais estavam praticamente ao nível de um ano antes, mas continuavam acima dos de agosto de 2018.

Jacinta guarda dois ou 2,50 dólares nos dias em que consegue. É desse dinheiro que tira quando vende menos. Joana suspendeu a ajuda à mãe e à irmã para continuar a pagar as despesas da sua casa. Domingos já não pede alimentos emprestados, desde que os filhos começaram a enviar dinheiro.

Nenhum destes gestos aparece nas taxas de pobreza. São as decisões que estas famílias tomam para que a conta do mês feche — e o que terão de voltar a decidir quando não fechar.

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