Atraso de crescimento infantil: Timor-Leste continua no topo da ASEAN e afasta-se ainda mais da região

Uma criança é medida por profissionais de saúde durante uma atividade de avaliação da saúde escolar em Timor-Leste/Foto: OMS (2022)

Quase 45% das crianças timorenses com menos de cinco anos têm atraso de crescimento, segundo um novo inquérito nacional. As estimativas internacionais mais recentes confirmam que Timor-Leste continua a ter a taxa mais alta da ASEAN e que a distância para o segundo país aumentou. O problema é mais frequente nas famílias mais pobres e nas zonas rurais e pode afetar a saúde, a aprendizagem e as oportunidades futuras das crianças.

Em 2012, Timor-Leste, Laos, Indonésia e Camboja enfrentavam o mesmo problema em grande escala. Entre um terço e mais de metade das crianças com menos de cinco anos tinham atraso de crescimento. Doze anos depois, os quatro países continuam a enfrentar o problema, mas já não estão próximos uns dos outros.

O atraso de crescimento mede a proporção de crianças com menos de cinco anos cuja altura é demasiado baixa para a idade, segundo o padrão de crescimento da Organização Mundial da Saúde (OMS). É um indicador que reflete dificuldades de crescimento acumuladas ao longo do tempo.

Segundo as estimativas conjuntas da UNICEF, da OMS e do Banco Mundial, publicadas em março deste ano, 45,4% das crianças timorenses tinham atraso de crescimento em 2024. No Laos, o segundo valor mais elevado entre os 11 membros da ASEAN, a estimativa era de 29,9%. A Indonésia e o Camboja tinham descido para 22,6% e 22,0%.

Timor-Leste reduziu a taxa mais devagar do que os vizinhos

A distância entre Timor-Leste e o Laos aumentou de 12,2 para 15,5 pontos percentuais entre 2012 e 2024. Os dois países começaram o período com prevalências muito elevadas, de 52,7% e 40,5%. O Laos reduziu a sua estimativa em 10,6 pontos e Timor-Leste em 7,3.

A Indonésia e o Camboja mostram outra trajetória. Tinham, respetivamente, 34,6% e 34,0% em 2012 e reduziram ambos a prevalência estimada em 12 pontos até 2024.

A diferença é mais clara em termos relativos. Entre 2012 e 2024, Timor-Leste reduziu a prevalência em cerca de 14%, o Laos em 26% e a Indonésia e o Camboja em cerca de 35%. Em média, Timor-Leste baixou 0,6 pontos por ano, contra 0,9 no Laos e cerca de um ponto na Indonésia e no Camboja.

Os dados mostram que o ritmo de redução timorense ficou aquém do alcançado por outros países da região que também partiram de valores elevados.

Dados nacionais confirmam a dimensão do problema e o fosso no país

O Inquérito Demográfico e de Saúde, realizado entre setembro de 2025 e janeiro de 2026, apurou que 44,9% das crianças com menos de cinco anos tinham atraso de crescimento. No total, 16,5% tinham atraso de crescimento grave.

O novo inquérito mostra que a prevalência varia muito entre grupos de crianças timorenses. No quintil mais pobre, 56,5% das crianças tinham atraso de crescimento, contra 32,3% no quintil mais rico. A prevalência era de 47,6% no meio rural e de 36,7% no urbano.

As diferenças entre municípios também são amplas. Ermera registou 57,4%, Oe-Cusse 56,9% e Viqueque 54,7%, enquanto Díli e Manatuto registaram 34,9%, os valores mais baixos do país. Mesmo estes municípios ficavam acima da estimativa de 2024 para o Laos.

O problema começa cedo. Entre os 12 e os 23 meses, 49% das crianças já tinham atraso de crescimento. Entre os 24 e os 35 meses, a proporção era de 55,5%.

A alimentação das crianças mais pequenas ajuda a explicar estes números. No inquérito de 2025–2026, apenas 19,1% das crianças dos seis aos 23 meses tinham consumido, no dia anterior, alimentos ou bebidas de pelo menos cinco dos oito grupos usados para medir a diversidade alimentar mínima.

O custo de uma alimentação nutritiva também pesa. Segundo dados de 2023 citados pelo Programa Alimentar Mundial, 75% dos agregados timorenses não conseguiam pagar uma dieta nutritiva, cujo custo aumentara 78% desde 2019.

O que fizeram outros países da ASEAN e Timor-Leste

No Laos, o Governo reuniu nas mesmas comunidades medidas de nutrição, apoio às famílias, cuidados de saúde, água e saneamento, segundo o Banco Mundial. Nas estimativas conjuntas da UNICEF, da OMS e do Banco Mundial, a proporção de crianças com atraso de crescimento desceu de 40,5% em 2012 para 29,9% em 2024.

A Indonésia adotou uma estratégia nacional que coordena intervenções de saúde, nutrição, proteção social, água e saneamento, desde a administração central até às aldeias, de acordo com o Banco Mundial. No país, a taxa estimada passou de 34,6% para 22,6% entre 2012 e 2024.

No Camboja, a taxa nacional estimada caiu de 34,0% em 2012 para 22,0% em 2024. No mesmo período, o país executou vários programas de saúde e nutrição materno-infantil. Um deles, apoiado pelo Banco Mundial, reforçou os serviços para grávidas, mães e crianças pequenas. Até junho de 2024, tinha financiado a contratação e formação de 4.459 agentes comunitários em nove províncias.

Embora os dados não permitam atribuir a descida em cada país a uma única medida, as três experiências têm pontos em comum: coordenaram vários setores e levaram as intervenções até às comunidades.

Em Timor-Leste, o Plano de Ação Nacional Multissetorial de Nutrição para Combater o Atraso de Crescimento 2024–2030, lançado em 2025, segue a lógica de coordenação entre setores adotada pelos vizinhos. O plano pretende reduzir o atraso de crescimento para menos de 25% até 2030.

Atingir a meta de 2030 implica que Timor-Leste chegue a valores próximos dos que a Indonésia e o Camboja já registavam em 2024. Para isso, terá de reduzir a taxa em mais de 20 pontos percentuais face aos 44,9% apurados no inquérito de 2025–2026. Entre 2012 e 2024, a redução estimada foi, em média, de 0,6 pontos por ano. A meta exige, portanto, uma descida muito mais rápida.

O que os números revelam sobre o presente e o futuro das crianças timorenses

Não há uma causa única. Segundo a OMS, uma alimentação inadequada, infeções repetidas e problemas de saúde e nutrição desde a gravidez podem afetar o crescimento. As condições em que as famílias vivem e cuidam das crianças também contam.

As consequências podem prolongar-se para lá da infância. O atraso de crescimento está associado a maiores riscos para a saúde, o desenvolvimento e a aprendizagem, com possíveis efeitos nas oportunidades futuras.

O Banco Mundial alertava, em 2024, que o atraso de crescimento infantil está associado a uma menor capacidade de aprendizagem e à perda de produtividade na idade adulta. Por isso, a instituição defendia investimentos na nutrição das mães e das crianças desde a gravidez até aos dois anos de idade. Com quase metade das crianças afetadas, o efeito não se limita ao percurso de cada uma e pode pesar na capacidade futura do país.

Ver os comentários para o artigo

Comente ou sugira uma correção

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *