Entre os cafezais herdados dos avós e o sonho de conquistar novos mercados, Leonardo Amorim transformou uma tradição familiar num projeto que procura valorizar o café de Maubisse e levá-lo mais longe.
Nas montanhas de Maubisse, as primeiras horas da manhã chegam acompanhadas pelo frio e pelo aroma das plantações de café. É neste cenário que Leonardo Amorim Pereira, de 42 anos, encontrou uma forma simples de contar a história da sua terra: preparar uma chávena de café.
Quando chegam visitantes à pousada, Leonardo costuma desaparecer por alguns minutos. Enquanto os convidados percorrem o espaço, conversam ou tiram fotografias, ele vai buscar aquilo que melhor conhece.
Pouco depois, regressa com uma chávena nas mãos. Não é uma chávena qualquer. É café produzido em Maubisse.
Leonardo aproxima-se dos visitantes e oferece-lhes a bebida. Quer que provem. Quer saber o que pensam. Mas, sobretudo, quer que percebam que aquele sabor nasceu ali, entre as montanhas e os cafezais de Maubisse.
Para o produtor, cada chávena é uma oportunidade de apresentar o seu trabalho, valorizar a herança deixada pelos avós e mostrar que, por detrás de um simples café, existe uma terra, uma família e uma história.
É nesse gesto aparentemente pequeno, preparar e oferecer uma chávena, que se encontra parte da relação de Leonardo com o café. Não quer apenas produzir. Quer que Maubisse seja reconhecido pelo café que produz.
Uma herança transformada em projeto
A história de Leonardo começa em Maubisse, região conhecida pelas montanhas, pelo clima fresco e pela produção agrícola. Foi ali, entre os cafezais herdados da família, que nasceu a vontade de transformar uma tradição familiar numa atividade com potencial económico e cultural.
Atualmente, é fundador e responsável pela Cooperativa Agricultura Café Orgânica Maubisse (CACROM), criada em 2011.
A sua trajetória começou com o café produzido pela própria família, mas ganhou outra dimensão quando percebeu que o produto timorense poderia conquistar espaço no mercado nacional e internacional.
A motivação surgiu também daquilo que observava fora do país. “Eu via nos meios de comunicação muitas pessoas a falar sobre café e percebi que Timor-Leste também tinha um produto que podia representar o país.” A partir desse momento, decidiu olhar para o café não apenas como um produto agrícola, mas também como parte da identidade de Maubisse e de Timor-Leste.
Os primeiros conhecimentos sobre a produção foram-lhe transmitidos pelos avós. Na família, o café fazia parte da vida há gerações. Mas Leonardo percebeu que os métodos tradicionais não seriam suficientes para responder aos requisitos de um mercado cada vez mais exigente.
“Aprendi primeiro com os meus avós, mas isso não era suficiente para entrar no mercado mundial. O mundo precisa de um produto limpo e de qualidade.”
Procurou, por isso, formação e conhecimento técnico. Participou em formações nas áreas da gestão e da produção de café e procurou aprender com produtores e empresas estrangeiras. Teve também contacto com empresas japonesas e participou em organizações de produtores, aprofundando os seus conhecimentos sobre produção e qualidade.
Com o tempo, percebeu que produzir o café era apenas uma parte do processo. Era necessário saber transformá-lo num produto capaz de chegar ao consumidor com qualidade.
Continuou, por isso, a aprender por conta própria. O objetivo era não se limitar à venda do café em grão. Queria que as pessoas pudessem conhecer, provar e reconhecer o sabor do café produzido em Maubisse. E queria, sobretudo, que esse sabor estivesse associado ao lugar onde nasce.
Quando Maubisse chegou a Jacarta
Um dos momentos mais marcantes da trajetória de Leonardo aconteceu entre 2012 e 2013, quando recebeu um convite do Ministério do Comércio e Indústria para participar numa feira relacionada com o café, em Jacarta, na Indonésia. Posteriormente, visitou também Bandung.
Para Leonardo, aquela não era apenas uma oportunidade para apresentar um produto. Era uma ocasião para perceber como o café de Maubisse poderia ser recebido num país com uma longa tradição cafeeira.
Levou amostras de dois tipos de café, incluindo café natural e café luwak. Na altura, recorda, Timor-Leste ainda enfrentava limitações ao nível dos laboratórios, da tecnologia e dos equipamentos necessários para análises mais avançadas. Mesmo assim, decidiu apresentar o produto com aquilo que tinha: o café e a história que o acompanhava.
Na feira, não se limitou a falar do sabor. Contou também a história do café em Timor-Leste e a relação histórica dos timorenses com esta bebida.
Para Leonardo, contar essa história era tão importante como apresentar o produto. “Não basta levar o café. É preciso explicar de onde ele vem, quem o produz e qual é a identidade que existe por trás dele.”
A experiência permitiu-lhe comparar diferentes formas de produção. A Indonésia tinha produtores com maior acesso a tecnologia, equipamentos e processos de torrefação e embalagem. Timor-Leste continuava muito dependente do trabalho manual.
Ainda assim, Leonardo ficou convencido de que o café de Maubisse tinha características próprias que podiam distingui-lo. “Aquele momento foi mais do que uma simples participação numa feira. Foi uma confirmação de que o café de Maubisse podia competir fora de Timor-Leste.”
Mais do que um resultado numa feira, a experiência tornou-se uma espécie de ponto de viragem. Leonardo percebeu que a qualidade do café timorense podia ser uma vantagem, mas que seria necessário trabalhar também o processamento, a certificação, a embalagem e a forma de apresentar o produto.
O território também está na chávena
Leonardo atribui parte das características do café de Maubisse às condições geográficas e climáticas da região. Os cafezais são cultivados em zonas montanhosas, num clima fresco e sob a proteção de árvores como o kakeu e o samutuku.
Na região são cultivadas sobretudo variedades de arábica e moca, enquanto o robusta está mais associado a outras zonas de Timor-Leste.
Depois da experiência na Indonésia, Leonardo continuou a procurar oportunidades para apresentar o seu café. Participou em feiras de produtos em Díli e em Maubisse, levando diferentes amostras e aproveitando cada ocasião para conversar diretamente com consumidores e visitantes.
Nas feiras, não ficava apenas atrás da mesa à espera dos compradores. Explicava. Respondia a perguntas. Falava sobre a produção e sobre o território. Observava as reações de quem provava.
Cada feira tornou-se, assim, uma espécie de laboratório. Era ali que podia perceber o que despertava interesse, ouvir opiniões e descobrir novas formas de apresentar o produto. “O café é realmente muito bom”
O trabalho de Leonardo tem recebido também o reconhecimento de quem prova o seu café. O visitante local Tomás dos Santos destaca o sabor e a qualidade da bebida. “O café que bebemos é realmente muito bom e tem um sabor excelente.”
Tomás deixa ainda uma mensagem de incentivo ao produtor, apelando a que continue a desenvolver e a melhorar o produto, de forma a conquistar novos consumidores e fortalecer a produção de café no futuro.
Natalino Ximenes também manifesta apreço pelo trabalho de Leonardo e pela dedicação que tem demonstrado ao setor. “O café é realmente muito bom.”
Para Leonardo, estas reações são um incentivo para continuar a apostar na qualidade e no desenvolvimento da produção local. Mas há desafios que não dependem apenas da vontade dos produtores.
O clima muda, os cafezais envelhecem
As alterações nos padrões de chuva e a redução dos períodos de sol têm afetado a produtividade dos cafezais de Maubisse.
Leonardo recorda que, em anos anteriores, a época seca era mais previsível, começando normalmente entre agosto e outubro. Atualmente, porém, há períodos em que a chuva se prolonga durante vários meses, dificultando a maturação e a secagem do café.
“Quando há muitos dias de chuva e poucos dias de sol, o fruto não se desenvolve da mesma forma. O clima também afeta a produção do café.”
Os efeitos das alterações climáticas não se limitam a Maubisse. Segundo o Market Development Facility (MDF), o aumento das temperaturas e a maior irregularidade das chuvas podem reduzir a produtividade e afetar a qualidade do café produzido em Timor-Leste.
Um estudo realizado pelo MDF em parceria com a Australia Pacific Climate Partnership (APCP) prevê que, até 2050, a área do território considerada adequada para o cultivo de café arábica poderá diminuir significativamente. Num cenário de baixas emissões, essa área poderá passar dos atuais 33,2% para 22% do território. Num cenário de elevadas emissões, poderá cair para 16,6%.
Mas o clima não é o único problema. Entre as árvores, há outro desafio que cresce silenciosamente: o envelhecimento dos cafezais.
Muitas das plantas existentes na região são antigas e já não apresentam a mesma capacidade produtiva. Árvores que durante anos sustentaram famílias produtoras começam a produzir menos, obrigando os agricultores a pensar não apenas na próxima colheita, mas também no futuro das plantações.
Leonardo decidiu enfrentar esse problema através da reabilitação dos cafezais antigos. “Recuperar os cafezais é uma forma de garantir que a produção não desapareça com o envelhecimento das árvores.”
No último ano, conseguiu produzir pouco mais de uma tonelada de café. Para manter o stock e continuar a responder às necessidades dos clientes, precisou de comprar café a outras famílias produtoras da região.
Um problema que ultrapassa Maubisse
As dificuldades encontradas por Leonardo fazem parte de uma realidade mais ampla do setor cafeeiro timorense.
Segundo os dados mais recentes do MDF, a produção nacional de café foi estimada em cerca de 8 200 toneladas em 2025, um aumento de 72% face às 4 746 toneladas registadas em 2024.
Apesar da recuperação, o MDF alerta que ainda é cedo para falar numa mudança estrutural do setor. A produtividade continua abaixo dos 200 quilogramas de café verde por hectare, uma das taxas mais baixas do mundo. O aumento registado em 2025 esteve associado a um ciclo de produção mais favorável e a melhores condições climáticas.
O envelhecimento dos cafezais continua também entre os principais desafios. Experiências apoiadas pelo MDF mostram, contudo, que a recuperação das árvores pode produzir resultados significativos. Em plantações reabilitadas, a produção de café cereja passou de uma média de 0,7 quilograma por árvore para 2,3 quilogramas.
Para além do clima e do envelhecimento das plantações, os produtores enfrentam dificuldades relacionadas com o transporte, o processamento, o armazenamento e a certificação.
Para Leonardo, ultrapassar estas limitações é essencial para aumentar o valor do café produzido localmente. O produtor quer, por isso, ir além da venda do café em grão. Pretende criar condições para processar, torrar, moer e embalar o produto em Maubisse.
Mas ainda faltam equipamentos, um espaço adequado, capacidade de armazenamento, laboratório e certificações. “Sem essas condições, torna-se difícil avançar para uma produção maior e entrar em mercados mais exigentes.”
Um espaço onde o café conta a sua própria história
Apesar das dificuldades, Leonardo não olha para o futuro apenas como uma corrida para produzir mais café. O seu sonho é transformar Maubisse num lugar onde o café possa ser produzido, valorizado, estudado e apreciado no próprio território onde nasce.
Uma das suas maiores ambições é criar um espaço dedicado ao café. Um lugar que reúna produção, aprendizagem, investigação e turismo e que permita aos visitantes conhecer não apenas o sabor da bebida, mas também a história e o trabalho que existem por detrás de cada grão.
Leonardo imagina um espaço aberto a investigadores, produtores, turistas e apreciadores de café. Ali, seria possível acompanhar diferentes etapas do processo, conhecer as variedades cultivadas na região e provar o café diretamente na montanha.
A ideia inclui também preservar a memória dos próprios cafezais. Leonardo imagina mesas e cadeiras feitas com madeira proveniente das árvores de café, criando um ambiente onde a matéria-prima deixaria de estar apenas dentro da chávena e passaria a fazer parte de toda a experiência.
Para ele, não se trata apenas de construir uma casa ou abrir uma loja. Trata-se de criar uma identidade capaz de ligar o café à terra, à cultura e às famílias que, durante gerações, cuidaram dos cafezais de Maubisse.
“Não podemos apenas vender o grão para outras pessoas. Precisamos também de preparar o café para consumo, para que quem vem de outros municípios ou de outros países possa provar o nosso produto.”
O projeto poderia também criar novas oportunidades para os agricultores da região. Se conseguir desenvolver uma estrutura de processamento e comercialização, Leonardo acredita que poderá trabalhar com outras famílias produtoras, criando um mercado mais estável para o café de Maubisse.
Uma nova geração para o café timorense
O futuro do café de Timor-Leste passa também pela capacidade de envolver uma nova geração.
Para o MDF, os jovens não são apenas herdeiros das plantações deixadas pelas gerações anteriores. Podem tornar-se agentes de inovação, criação de emprego e transformação da agricultura.
A participação dos jovens pode contribuir para introduzir novas técnicas, melhorar a produtividade e acrescentar valor ao café produzido localmente.
A questão ganha particular importância perante o envelhecimento de muitos cafezais. Sem uma nova geração disposta a cuidar, recuperar e modernizar as plantações, existe o risco de se perder não apenas parte da produção, mas também uma importante fonte de rendimento para as comunidades rurais.
A trajetória de Leonardo mostra uma possibilidade diferente. Em vez de abandonar a atividade herdada dos avós, decidiu investir no café. Procurou formação, experimentou novas formas de produção, levou o café para fora de Timor-Leste e começou a pensar para além da venda do grão.
É precisamente esse tipo de transformação que o MDF identifica como necessário para o futuro do setor: uma agricultura capaz de conservar o conhecimento das gerações anteriores, mas também de incorporar novas ideias, técnicas e modelos de negócio.
Esta realidade ganha particular importância num país onde quase 75% da população tem menos de 35 anos. Segundo o MDF, o desenvolvimento de negócios ligados à agricultura pode criar oportunidades concretas de emprego e aprendizagem para os jovens, sobretudo nas zonas rurais.
O futuro do café timorense dependerá, por isso, não apenas da capacidade de preservar os cafezais, mas também de encontrar quem esteja disposto a dar-lhes uma nova vida. Leonardo quer fazer parte desse futuro.
De volta à pousada, continua a repetir o gesto que o acompanha há anos. Quando chegam visitantes, desaparece por alguns minutos. Depois regressa com uma chávena nas mãos e estende-a a quem chega.
É uma pequena amostra do que Maubisse produz. Mas, para Leonardo, é também uma forma de dizer que, naquele café, há muito mais do que sabor: há uma terra, uma família, uma memória e uma possibilidade de futuro.
Em Maubisse, esse futuro começa com uma chávena.























