Felisberto de Deus transforma em força e vence os 21 quilómetros da Dili International Marathon

Felisberto de Deus venceu os 21 quilómetros da DIM/ Foto: Arquivo Pessoal

Depois de não ter conseguido terminar os 42 quilómetros no ano passado, Felisberto de Deus regressou à Dili International Marathon com outra estratégia. Aos 27 anos, o atleta de Ermera apostou nos 21 quilómetros, preparou-se durante dois meses e acabou por conquistar o primeiro lugar, transformando uma experiência difícil numa lição para voltar mais forte.

Felisberto de Deus venceu os 21 quilómetros da Dili International Marathon (DIM) em uma hora e dez minutos. A competição realizou-se no passado sábado, 8 de agosto, numa iniciativa promovida pela Presidência da República que reuniu atletas nacionais e internacionais em diferentes categorias.

A Dili International Marathon contou com quatro provas: 42 quilómetros, 21 quilómetros, 10 quilómetros para pessoas com deficiência e cinco quilómetros de “fun run”, aberta ao público em geral. A prova dos 42 quilómetros teve início 15 minutos antes da corrida dos 21 quilómetros.

Cerca de 400 atletas nacionais e internacionais participaram nos 21 quilómetros, com a partida a ser dada às 6h45, junto ao Palácio Presidencial. O percurso passou por Kampung Alor, Farol, Palácio do Governo, Metiaut, Cristo Rei e Dolok Oan, antes de regressar pelo mesmo trajeto até ao ponto de chegada.

Felisberto partiu com o dorsal número um, mas os primeiros momentos da corrida não foram fáceis. “Nos primeiros quilómetros, mantive-me atrás de um atleta australiano e pensei que seria difícil ultrapassá-lo”.

A situação mudou quando os dois atletas chegaram novamente à zona de Metiaut. Felisberto conseguiu ultrapassar o corredor australiano e, a partir desse momento, passou a correr sozinho na frente da prova, mantendo a liderança até à meta.

A estratégia acabou por resultar. Felisberto cruzou a linha de chegada junto ao Palácio Presidencial com um tempo de uma hora e dez minutos, conquistando o primeiro lugar nos 21 quilómetros.

“Força Timor” deu ainda mais confiança

Durante a corrida, Felisberto contou também com o apoio do público. Ao longo do percurso, muitos cidadãos saíram à rua para acompanhar a prova e incentivaram os atletas com gritos de “Força Timor”.

Para o atleta, esse apoio teve um papel importante, sobretudo quando percebeu que era o primeiro timorense a seguir na frente da corrida. “O incentivo do público deu-me mais confiança e motivação para continuar a correr até à meta”, explica.

A vitória ganhou um significado ainda maior por surgir depois de uma experiência difícil na edição de 2025. No ano passado, Felisberto participou nos 42 quilómetros, mas não conseguiu terminar a prova como esperava. Em vez de encarar o resultado como uma derrota definitiva, decidiu transformá-lo numa aprendizagem.

A experiência levou-o a optar, este ano, por uma distância mais curta. A decisão de competir nos 21 quilómetros esteve também relacionada com o tempo disponível para preparação, a falta de equipamentos e outras dificuldades que, segundo o atleta, condicionam a preparação dos corredores timorenses.

“Para enfrentar uma maratona de 42 quilómetros é necessário um período de preparação mais longo e um treino específico”, justifica.

Durante os dois meses que antecederam a Dili International Marathon, Felisberto e outros atletas concentraram-se na corrida, na preparação física e na alimentação. Os treinos decorreram de manhã e à tarde, seis dias por semana, com cerca de duas horas por sessão.

Durante esse período, conseguiram também ter uma alimentação mais adequada à preparação desportiva. “Fora das competições é mais difícil manter uma dieta saudável, sobretudo devido aos custos”, lamentou.

Ser atleta em Timor-Leste não é fácil

Por trás da vitória de Felisberto existe uma realidade que, segundo o atleta, nem sempre é conhecida pelo público. Em Timor-Leste, ser atleta continua a significar enfrentar dificuldades relacionadas com equipamentos, condições de treino e alimentação.

Felisberto considera que falta investimento no desporto e que muitos atletas têm de contar sobretudo com o próprio esforço para continuar a treinar e competir. “Muitos treinadores e atletas trabalham de forma voluntária. Apesar das limitações, continuam a representar Timor-Leste em competições nacionais e internacionais.”

Os equipamentos são outra das dificuldades. Para Felisberto, ter calçado adequado pode fazer diferença na preparação e no desempenho de um corredor. “Podemos ter uma boa preparação, mas, se os sapatos não forem bons, não ajudam o atleta”, defende.

Outro problema está relacionado com o tempo de preparação antes das competições. Felisberto conta que, em algumas ocasiões, os atletas são chamados pelo Governo pouco tempo antes de uma competição, o que dificulta uma preparação adequada.

“A situação torna-se ainda mais exigente quando os atletas timorenses competem contra corredores internacionais que dispõem de melhores condições de treino e preparação”, acrescenta.

Apesar das dificuldades, Felisberto encontra inspiração em pessoas que admira no atletismo. A sua primeira referência é a própria treinadora, que também foi atleta.

Entre os corredores estrangeiros, “destaco o queniano Eliud Kipchoge, um dos maiores nomes da maratona mundial. Uma das ideias que mais me inspira está relacionada com a disciplina, fundamental para qualquer atleta.”

Para Felisberto, a disciplina permite manter a regularidade dos treinos, cuidar da alimentação e preservar o foco, mesmo perante dificuldades.

Uma paixão que começou na infância

Além de atleta, Felisberto de Deus é estudante da Universidade Nacional Timor Lorosa’e (UNTL), onde frequenta o Departamento de Língua Inglesa.

A relação com o desporto começou ainda na infância. Jogava futebol e praticava outras modalidades, mas foi o atletismo que acabou por mudar o seu percurso.

Em 2013, assistiu a uma maratona realizada em Gleno, Ermera. A experiência despertou o seu interesse pela modalidade e, depois da competição, começou a procurar informações junto dos colegas da escola.

Mais tarde, através do filho da sua atual treinadora, teve oportunidade de conhecer a treinadora de atletismo. “Em 2015, quando frequentava o sétimo ano do ensino básico, comecei a treinar. Apesar de ter apenas três meses de preparação, consegui integrar a seleção para o campeonato nacional destinado a atletas dos 15 aos 16 anos e terminei a competição em primeiro lugar”, conta.

A partir daí, começaram também as experiências internacionais. “Participei numa corrida de três quilómetros na Tailândia, onde terminei em quarto lugar entre atletas de seis países.” Foi a sua primeira experiência numa competição internacional e uma das primeiras oportunidades de representar Timor-Leste fora do país.

Felisberto, terceiro a contar da esquerda, segura a medalha após a conquista nas Filipinas. /Foto: Arquivo pessoal.

Em 2016, voltou a competir no ASEAN Youth, na Tailândia, onde terminou na quarta posição.

Em 2017, participou no Philippines Open, onde conquistou o primeiro lugar. Desde então, tem competido em diferentes distâncias, tanto em pista como em estrada, nos 5, 10, 21 e 42 quilómetros. Em 2018, conquistou o terceiro lugar numa maratona em Macau.

Em 2022, alcançou o segundo lugar nos ASEAN University Games, na Tailândia. “No mesmo ano, participei nos SEA Games, no Vietname, uma das experiências mais importantes da minha carreira.”

Nos SEA Games, alcançou o segundo lugar, tornando-se, segundo o próprio, o primeiro atleta timorense a conquistar uma medalha nesta competição. “Foi a primeira vez que um atleta timorense conquistou uma medalha nos SEA Games, ao ficar em segundo lugar. Muitos atletas timorenses já tinham participado nesta competição, mas, até então, nenhum havia conseguido conquistar uma medalha”, afirmou.

Passados dois anos, voltou a subir ao pódio, desta vez com o terceiro lugar nos ASEAN University Games, realizados na Indonésia.

O sonho de voltar aos 42 quilómetros

Depois da vitória nos 21 quilómetros, Felisberto já pensa no próximo desafio. “Se a Dili International Marathon voltar a realizar-se no próximo ano, quero preparar-me melhor e tentar novamente os 42 quilómetros”, confessa.

O objetivo é regressar à distância que, em 2025, não conseguiu terminar, mas desta vez com uma preparação mais longa e condições adequadas.

O sonho de Felisberto, no entanto, vai além dos seus próprios resultados. O atleta quer também incentivar outros jovens timorenses a praticarem desporto e acredita que o atletismo pode contribuir para o desenvolvimento do país e para a projeção de Timor-Leste no estrangeiro.

Defende que o atletismo está aberto a todos e incentiva os jovens a aproximarem-se da modalidade e a praticarem desporto. Ao mesmo tempo, reconhece que muitos jovens estão hoje menos interessados no desporto e considera que esta área ainda não recebe a atenção necessária.

“Apesar disso, pretendo continuar a conciliar o atletismo com os estudos na UNTL”. Para Felisberto, o desporto continua a ser sobretudo uma paixão e um hobby, numa realidade em que, segundo afirma, ainda não é uma prioridade nacional.

Entre a pista e a sala de aula, o atleta de Ermera continua a construir o seu percurso. A vitória nos 21 quilómetros da Dili International Marathon representa mais do que um troféu: é também a resposta a uma derrota, às dificuldades de preparação e aos treinos realizados com poucos recursos.

Agora, a próxima meta está definida: preparar-se melhor, regressar aos 42 quilómetros e tentar provar, mais uma vez, que um atleta timorense pode chegar longe mesmo quando as condições estão longe de ser ideais.

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