Cabo submarino já chegou. Mas chegará aos timorenses?

O primeiro cabo submarino internacional entrou em operação comercial e promete reforçar a conectividade digital do país /Foto: DR

Há quase três anos, o Diligente mostrava um país onde a internet era tão lenta que muitos utilizadores diziam, em tom de ironia, “A internet descansa em paz”. Hoje, o primeiro cabo submarino internacional já entrou em funcionamento. Falta saber se será suficiente para tornar a internet mais rápida, acessível e chegar a todos os timorenses.

Para milhares de timorenses, abrir uma aula online sem interrupções, enviar um ficheiro pesado ou fazer uma videochamada continua a ser um desafio diário. A lentidão da internet e o elevado custo dos dados limitam estudantes, empresas e serviços públicos há vários anos.

Um exemplo das dificuldades sentidas no país encontra-se também no Diligente. A publicação de um vídeo com cerca de uma hora no YouTube pode demorar entre três e quatro horas devido à reduzida velocidade de carregamento.

Foi precisamente para responder a esse desafio que Timor-Leste iniciou, esta terça-feira, a operação comercial do seu primeiro cabo submarino internacional de fibra ótica, uma infraestrutura considerada estratégica para o futuro digital do país. A ligação direta à Austrália marca o fim de décadas de dependência quase exclusiva de satélites e ligações por rádio, que limitaram a velocidade da internet, aumentaram os custos e tornaram o serviço mais vulnerável a falhas.

Contudo, a entrada em funcionamento do cabo não significa que os consumidores passem, de imediato, a pagar menos pela internet. A redução dos preços dependerá das condições comerciais praticadas pelos operadores de telecomunicações, da concorrência no mercado e da expansão das redes que distribuem o serviço até aos utilizadores finais.

Durante a cerimónia de lançamento, realizada na estação de aterragem de Bebonuk, em Díli, o primeiro-ministro, Xanana Gusmão, afirmou que o investimento só fará sentido se produzir benefícios concretos para a população.

“Esta infraestrutura só fará sentido se melhorar a vida dos estudantes, dos professores, dos profissionais de saúde, dos agricultores, das pequenas empresas e de todos os timorenses.”

O projeto é gerido pela empresa pública Cabos de Timor-Leste (CTL, E.P.) e integra o Plano Estratégico de Desenvolvimento 2011-2030, que identifica as telecomunicações como uma das infraestruturas essenciais para o crescimento económico, a par das estradas, dos portos, dos aeroportos, da energia e do abastecimento de água.

O cabo submarino chegou a Timor-Leste em junho de 2024 e, após mais de um ano de instalação e testes, entrou agora em operação comercial. Segundo a UNCTAD, esta infraestrutura poderá reforçar a conectividade internacional e responder a um dos principais obstáculos ao desenvolvimento digital do país: a reduzida velocidade da internet e o elevado custo do serviço.

Apesar das expectativas, especialistas e utilizadores lembram que o verdadeiro impacto do investimento só será sentido quando uma internet mais rápida se traduzir também em preços mais acessíveis e numa cobertura mais alargada, sobretudo nas zonas rurais, onde milhares de famílias continuam sem acesso regular à rede.

Um cabo mais rápido não significa, por si só, internet mais barata

Apesar da entrada em funcionamento do cabo submarino representar um avanço histórico para as telecomunicações timorenses, a nova infraestrutura não irá fornecer internet diretamente às famílias, empresas ou instituições.

A empresa pública Cabos de Timor-Leste (CTL, E.P.), responsável pela gestão do sistema, funcionará como operadora grossista. Ou seja, venderá capacidade internacional aos operadores de telecomunicações e aos fornecedores de serviços de internet, que serão depois responsáveis por disponibilizar o serviço aos consumidores finais.

Na prática, caberá a empresas como a Timor Telecom, a Telemor, a Telkomcel e outros operadores licenciados decidir de que forma essa nova capacidade será refletida nos serviços e nos preços praticados junto dos clientes.

Foi precisamente por isso que, durante a cerimónia de lançamento, o ministro dos Transportes e Comunicações, Miguel Manetelo, reconheceu que a redução do custo da internet não dependerá apenas da existência do cabo submarino.

Segundo o governante, o Executivo pretende dialogar com os operadores para incentivar uma descida dos preços e tornar o acesso à internet mais acessível à população. No entanto, admitiu que essa evolução dependerá igualmente da concorrência no mercado e das opções comerciais de cada empresa.

Para incentivar a utilização da nova infraestrutura, o Governo anunciou um desconto de 50% sobre o preço da capacidade internacional vendida pela CTL aos operadores e fornecedores de serviços de internet, uma medida que estará em vigor até 31 de agosto de 2026.

O investimento total no projeto ronda os 42 milhões de dólares norte-americanos, dos quais cerca de 39 milhões foram destinados à construção do cabo submarino.

Segundo o ministro dos Transportes e Comunicações, Miguel Manetelo, a nova ligação dispõe de uma capacidade aproximada de 13,5 terabits por segundo, muito superior à procura atual do país, estimada em cerca de 40 gigabits por segundo, o que permitirá responder ao crescimento da utilização da internet nos próximos anos.

Para Xanana Gusmão, esta infraestrutura poderá impulsionar a diversificação da economia, atrair investimento privado e criar novas oportunidades nas áreas da tecnologia e dos serviços digitais.

Ainda assim, o chefe do Governo frisou que o cabo submarino, por si só, não resolverá os desafios do desenvolvimento do país. “Não basta esperar que o Estado crie empregos. É necessário que cada cidadão pense também na forma como pode contribuir para o desenvolvimento de Timor-Leste.”

Segundo Xanana Gusmão, o sucesso deste investimento dependerá também da formação de técnicos qualificados e da capacidade do país para gerir e desenvolver esta nova infraestrutura.

Mais oportunidades, mas também novos desafios

Uma ligação à internet mais rápida poderá criar novas oportunidades para Timor-Leste. No entanto, quanto maior for a conectividade, maiores serão também os desafios relacionados com a segurança digital.

O Governo reconhece que o aumento da capacidade da rede poderá facilitar não apenas o acesso ao conhecimento, aos serviços públicos e aos negócios digitais, mas também ser aproveitado por redes criminosas envolvidas em burlas informáticas, ciberataques e outras formas de criminalidade transnacional.

Nos últimos meses, as autoridades timorenses detiveram vários cidadãos estrangeiros suspeitos de integrarem redes dedicadas a burlas informáticas e à exploração de plataformas ilegais de jogo online, casos que voltaram a colocar a cibersegurança no centro do debate público.

Perante este cenário, o Executivo afirma estar a reforçar a cooperação entre as entidades responsáveis pela segurança, justiça e fiscalização, ao mesmo tempo que prepara alterações legislativas destinadas a fortalecer o combate aos crimes informáticos e a proteção de dados pessoais.

A proteção da própria infraestrutura passou igualmente a ser considerada uma prioridade nacional. Por se tratar da principal ligação internacional de Timor-Leste à internet, qualquer interrupção, falha técnica ou ataque ao cabo submarino poderá afetar serviços públicos, empresas e milhares de utilizadores em todo o país.

Além de ligar Timor-Leste à Austrália, através da cidade de Darwin, a nova infraestrutura aproxima o país das principais redes digitais da região Ásia-Pacífico. O Governo acredita que esta ligação poderá facilitar a integração económica e institucional de Timor-Leste na ASEAN, abrindo novas oportunidades para o investimento, o comércio e a cooperação regional.

Segundo o primeiro-ministro, o objetivo passa agora por reforçar a resiliência da rede nacional através da criação de novas ligações internacionais, incluindo futuras interligações com a Indonésia e outras infraestruturas da região.

Parceiros defendem que o verdadeiro desafio começa agora

Embora a conclusão da infraestrutura represente um marco para o país, os parceiros internacionais envolvidos no projeto sublinham que a fase mais difícil poderá começar precisamente agora: transformar a capacidade instalada em benefícios concretos para a população.

O responsável pela equipa de redes submarinas da empresa australiana Vocus, Simon Harris, considera que Timor-Leste dispõe finalmente de uma ligação internacional de alta velocidade integrada nas principais redes da região. No entanto, defende que o sucesso do investimento dependerá da capacidade da empresa pública Cabos de Timor-Leste (CTL, E.P.) para gerir a infraestrutura de forma sustentável e desenvolver a sua atividade comercial.

Segundo Harris, a Vocus continuará a prestar apoio técnico à CTL, tanto na operação da rede como na formação de equipas e no desenvolvimento de novos serviços internacionais.

Também a embaixadora da Austrália em Timor-Leste, Caitlin Wilson, considera que o cabo submarino “representa um passo importante para o desenvolvimento da economia digital timorense.”

A diplomata recordou que a Austrália apoiou tecnicamente o projeto através do Australian Infrastructure Financing Facility for the Pacific (AIFFP), colaborando nos estudos de engenharia, na definição da rota do cabo, nos processos de aquisição e na preparação das estações terrestres.

“O desafio passa agora por garantir que os benefícios desta infraestrutura chegam efetivamente às famílias, às empresas, às escolas e aos serviços públicos de todo o país, e não apenas aos grandes centros urbanos”, alertou Caitlin Wilson.

A promessa da fibra ótica só fará diferença quando chegar às pessoas

Apesar da entrada em funcionamento do cabo submarino, a realidade de muitos timorenses continua marcada por ligações lentas, cobertura limitada e preços elevados.

Segundo dados de 2024 do Lowy Institute, apenas 44,3% da população de Timor-Leste tinha acesso à internet. A velocidade média das redes móveis era de 4,85 Mbps e a da banda larga fixa de 6,10 Mbps, valores muito inferiores aos registados noutros países da região, como Singapura, onde a velocidade média ultrapassava os 396 Mbps, ou a Tailândia, com cerca de 262 Mbps.

Além de lenta e pouco fiável, a internet continuava a ser cara. Num país onde muitas pessoas vivem com pouco mais de dois dólares por dia, o acesso podia custar até um dólar diário, colocando Timor-Leste entre os países com os serviços de internet mais lentos e dispendiosos do mundo.

Segundo os dados mais recentes do Banco Mundial, baseados em estatísticas da União Internacional das Telecomunicações (UIT), a utilização da internet ultrapassava, em 2024, metade da população em praticamente todos os países da ASEAN com informação disponível. A percentagem variava entre 66% no Laos e 98% na Malásia. O Banco Mundial não apresenta, contudo, dados de 2024 para Timor-Leste nem para Myanmar.

Em Timor-Leste, a informação nacional mais recente consta do inquérito Tatoli! 2025, realizado pela Asia Foundation. O estudo concluiu que 51% dos inquiridos utilizavam a internet, mas revelou fortes desigualdades no acesso. Enquanto 76% dos residentes em áreas urbanas afirmavam utilizar a internet, essa percentagem descia para 40% nas zonas rurais. A utilização era também muito superior entre os adultos dos 18 aos 34 anos (69%) do que entre as pessoas com 55 ou mais anos (11%).

A falta de infraestruturas de telecomunicações, a cobertura limitada das redes móveis e os elevados custos dos serviços continuam a ser alguns dos principais obstáculos à inclusão digital em Timor-Leste.

Para Marciano da Costa Gomes, estudante universitário, a chegada da fibra ótica representa uma oportunidade para aproximar os estudantes timorenses do conhecimento e das ferramentas digitais utilizadas no ensino superior.

Durante anos, explica, a fraca qualidade da ligação e o elevado custo dos dados móveis dificultaram o acesso a bibliotecas digitais, cursos online, aulas virtuais e programas internacionais de formação.

Com uma ligação mais rápida, acredita que será mais fácil participar em cursos à distância, realizar pesquisas e acompanhar a evolução tecnológica.

Ainda assim, deixa um aviso. “Ter uma internet mais rápida não significa muito se muitos estudantes continuarem sem condições para pagar o acesso ou se as escolas nas zonas rurais permanecerem sem uma ligação adequada.”

Na opinião de Marciano, o verdadeiro sucesso do projeto será medido quando a melhoria da conectividade chegar também às escolas fora de Díli, às comunidades rurais e aos estudantes com menos recursos económicos.

A empresária Verónica Freitas partilha da mesma expectativa. Considera que uma internet mais rápida poderá aumentar a competitividade das empresas timorenses e facilitar o crescimento dos pequenos negócios. No entanto, salienta que essa transformação só acontecerá se os custos dos serviços diminuírem.

“A fibra ótica abre novas possibilidades, mas as empresas precisam de sentir essa mudança na fatura da internet. Se os preços continuarem elevados, muitas pequenas empresas continuarão excluídas da economia digital.”

Também a União Internacional das Telecomunicações (UIT) considera que a existência de infraestruturas, por si só, não garante a inclusão digital. A organização sublinha que fatores como o preço dos serviços, a qualidade da ligação e a cobertura das redes continuam a ser determinantes para que a população beneficie plenamente das novas tecnologias.

Operadores acreditam que o potencial ainda está por concretizar

Para os operadores de telecomunicações, o cabo submarino representa apenas o primeiro passo de uma transformação mais ampla.

Em declarações ao Diligente, o diretor-executivo da Telkomsel Timor-Leste, Benedictus Asdiyanto Priyo, considera que o início da operação comercial do TLSSC constitui um momento histórico para o setor das telecomunicações.

O responsável acredita que a nova infraestrutura permitirá lançar novos serviços, melhorar a qualidade da internet e aumentar a satisfação dos utilizadores.

Benedictus elogiou ainda o desconto de 50% concedido pelo Governo na aquisição de capacidade internacional junto da Cabos de Timor-Leste, considerando que a medida poderá facilitar a adesão dos operadores durante esta fase inicial.

Ainda assim, alerta que o cabo submarino, por si só, não resolverá todos os problemas do setor.

Segundo o responsável, será necessário continuar a investir nas redes móveis e fixas, garantir um fornecimento de energia estável e reforçar a cooperação entre todos os intervenientes para que a nova capacidade internacional chegue efetivamente aos consumidores. “O cabo submarino cria uma oportunidade que Timor-Leste nunca teve. Agora é preciso garantir que essa oportunidade chega às pessoas.”

O primeiro cabo submarino internacional de Timor-Leste já entrou em funcionamento e abriu uma nova etapa para as telecomunicações nacionais. Mas o verdadeiro teste começa agora.

Se, nos próximos anos, estudantes conseguirem assistir a aulas sem interrupções, pequenas empresas expandirem os seus negócios e famílias de todo o país tiverem acesso a uma internet de qualidade a preços acessíveis, o investimento terá cumprido a sua missão.

Caso contrário, o cabo submarino correrá o risco de ficar na história apenas como uma grande obra de engenharia, sem conseguir resolver um dos problemas que mais condicionam a vida digital dos timorenses.

Comente ou sugira uma correção

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *