Cozinhar com lenha em Timor-Leste: entre o sustento das famílias e os riscos do fumo

Em 2024, 70,9% da população de Timor-Leste vivia em agregados familiares que usavam sobretudo lenha ou carvão vegetal para cozinhar, segundo o INETL./ Foto: Diligente

A lenha permite preparar refeições e obter rendimento a famílias que nem sempre conseguem pagar outras fontes de energia. Os testemunhos revelam dificuldades em mudar de combustível, queixas de saúde e tensões entre o sustento das comunidades e a proteção das florestas.

O fornecimento de eletricidade tornou-se mais regular e a família de Mateus Magalhães Gonçalves, em Ermera, passou a utilizar um fogão elétrico e uma panela elétrica de arroz. A lenha, porém, continua a ser necessária para reduzir as despesas.

“Mas, como temos de gastar dinheiro para comprar crédito de eletricidade, continuamos a utilizar lenha, embora com menos frequência do que antes”, explicou.

A experiência da família mostra que ter eletricidade não significa deixar de cozinhar com combustíveis sólidos. Segundo o Relatório Sumário sobre a Pobreza do Inquérito às Condições de Vida em Timor-Leste 2024, publicado pelo Instituto Nacional de Estatística de Timor-Leste (INETL) em outubro de 2026, 70,9% da população vivia em agregados cuja principal fonte de energia para cozinhar era lenha ou carvão vegetal. Em 2014, a proporção era de 86,8%, uma diferença de 15,9 pontos percentuais.

A dependência é maior entre a população pobre: o mesmo indicador atinge 86,7%, contra 61,7% entre a população não pobre.

Em Viqueque, Benvinda Hornai conta que a sua família recolhe lenha seca na floresta uma vez por mês, numa atividade partilhada pelos familiares.

“Desde há muito tempo que utilizamos lenha para cozinhar. Nas zonas rurais ainda há muita madeira, por isso podemos aproveitá-la para cozinhar, em vez de utilizarmos outros tipos de fogão”, afirmou.

O relatório temático sobre género dos Censos de 2022 permite distinguir especificamente o uso de lenha: era o principal combustível para cozinhar em 75,5% dos agregados familiares, com uma diferença acentuada entre as zonas rurais, onde a proporção chegava a 89,4%, e as urbanas, com 39%.

Quando a falta de ar é considerada normal

Para algumas famílias entrevistadas, cozinhar com lenha também significa conviver com sintomas que nem sempre levam à procura de cuidados de saúde.

Evangelina Francisca Ximenes, natural de Baucau, cresceu a ver os pais cozinhar com lenha.

“Quando estamos expostos ao fumo, por vezes sentimos falta de ar, mas não procuramos assistência médica porque consideramos isso normal. Pensamos que todas as pessoas que cozinham com lenha sentem o mesmo”, explicou.

Benvinda afirma que a mãe deixou de cozinhar por ter problemas respiratórios. Já Gracinda de Jesus, natural de Ainaro, residente em Taibessi e vendedora de lenha, relata queixas nos pulmões e nos olhos. Além de comercializar este combustível, utiliza-o diariamente em casa.

“Quando fui à consulta, o médico aconselhou-me a não ficar perto do fumo”, afirmou Gracinda.

Os riscos da exposição estão, contudo, documentados pela Organização Mundial da Saúde (OMS). A combustão em fogueiras e fogões ineficientes liberta partículas finas que podem penetrar profundamente nos pulmões e entrar na corrente sanguínea.

As mulheres e as crianças suportam uma maior carga de doença associada à poluição doméstica, por passarem mais tempo junto ao fogo e participarem na preparação das refeições e na recolha de combustível.

Numa atualização divulgada em junho de 2026, a OMS indica que cerca de dois mil milhões de pessoas ainda dependiam de combustíveis e tecnologias poluentes para cozinhar em 2024. A organização estima também que a poluição do ar doméstico tenha provocado cerca de 2,9 milhões de mortes prematuras em 2021, incluindo mais de 309 mil crianças menores de cinco anos. Estas estimativas são mundiais e abrangem vários combustíveis, não apenas lenha.

Entre as doenças associadas à exposição encontram-se infeções respiratórias, doença pulmonar obstrutiva crónica, doença cardíaca isquémica, acidentes vasculares cerebrais e cancro do pulmão. Para reduzir os riscos, a OMS recomenda alargar o acesso a soluções mais limpas, como eletricidade, biogás e gás de petróleo liquefeito (GPL), bem como a fogões de biomassa que cumpram os seus limites de emissão.

Vender lenha para sustentar a família

Gracinda vende lenha em Taibessi há quase 20 anos. Compra cinco molhos por um dólar norte-americano e vende quatro pelo mesmo preço. O dinheiro que obtém, juntamente com o que os filhos ganham a vender legumes no terminal, ajuda a pagar as necessidades da família.

“Por mês, o rendimento da venda de lenha não chega aos 20 dólares”, contou. O valor corresponde ao total das vendas, antes de descontar o custo da compra da lenha.

A vendedora relata ainda que agentes florestais lhe apreenderam lenha em duas ocasiões, causando, segundo as suas contas, perdas de 60 dólares em cada uma. Uma das apreensões terá ocorrido por volta de 2018, mas Gracinda já não se recorda da data exata. O valor indicado corresponde à lenha apreendida.

O Regime Geral das Florestas, aprovado pela Lei n.º 14/2017, de 2 de agosto, prevê, no artigo 33.º, que as entidades responsáveis pelas florestas, comércio e ambiente promovam estudos sobre a recolha, comercialização e utilização de lenha e a sua contribuição para o rendimento familiar. Prevê também programas para aumentar a eficiência do seu uso e explorar outras fontes de energia.

O artigo 34.º atribui ao Governo a definição do enquadramento legal e dos incentivos para controlar o corte e a comercialização de produtos florestais. Estas disposições gerais não permitem, por si só, determinar a norma aplicada nas apreensões relatadas por Gracinda.

O lia-na’in Eugénio Sarmento, uma autoridade tradicional, defende que a fiscalização deve ter em conta a origem da madeira e a dependência económica de quem a vende. Dá o exemplo de famílias de Fatu Ahi, Darlau e Dare que levam lenha para vender em Díli.

“Por vezes, vemos pessoas a transportar lenha das zonas montanhosas para a vender. Depois, regressam com arroz ou outras necessidades básicas. Isso significa que a sua sobrevivência depende da venda de lenha”, afirmou.

Segundo Eugénio, algumas famílias recolhem madeira nos seus próprios terrenos ou hortas, pelo que a comercialização não significa necessariamente abate indiscriminado.

“O Governo deve primeiro verificar de onde vem a madeira”, sublinhou, defendendo também que a utilização deste recurso não seja excessiva.

Recolher madeira não é sempre abater árvores

Mateus diz que a família utiliza madeira seca que já caiu das árvores. Evangelina também procura lenha seca na floresta ou noutras aldeias. Quando não a encontra, recolhe ramos e deixa-os secar.

“Também plantamos árvores de teca e mogno. Por isso, não queremos cortar árvores indiscriminadamente, porque também temos de cuidar da natureza”, afirmou.

Os relatos mostram práticas distintas de obtenção de combustível. A reportagem não dispõe de dados que permitam quantificar o contributo da recolha de lenha para a perda de floresta em Timor-Leste.

O ambientalista Delvio Siqueira afirma que as comunidades justificam o abate de árvores e a queima de terrenos com necessidades económicas, mas alerta para as consequências ambientais.

“O abate de árvores, sobretudo nas encostas das montanhas, pode provocar inundações, deslizamentos de terras e o aumento da temperatura ambiente”, explicou.

Para reduzir essa pressão, Delvio defende a criação de oportunidades de emprego e de outras fontes de rendimento, acompanhada por um número adequado de guardas-florestais para fiscalizar o abate.

As regras tradicionais sobre a madeira

As famílias entrevistadas também descrevem proibições tradicionais que condicionam a escolha da madeira utilizada para cozinhar. Em Viqueque, Benvinda identifica como siik, em makasae, uma madeira considerada sagrada pela sua família.

“Essa madeira não pode ser utilizada para cozinhar porque acreditamos que, se a utilizarmos, o corpo pode ficar com feridas ou desenvolver algum problema”, explicou. Segundo a entrevistada, se isso acontecer, a família deve realizar um ritual para que a pessoa recupere.

Evangelina refere uma proibição semelhante, associada, na sua família, à crença de que queimar determinada madeira pode fazer adoecer o pai. Em Ermera, Mateus menciona uma madeira conhecida como salmema, em mambae, utilizada na construção de casas sagradas e que, segundo a tradição da sua comunidade, não deve servir de combustível.

Eugénio Sarmento explica que as regras variam entre casas sagradas e podem abranger o abate, a recolha de ramos, a queima ou a utilização de madeira na construção.

“Estas práticas existem desde os tempos dos nossos antepassados. Há regras tradicionais que proíbem as pessoas de cortar árvores indiscriminadamente”, afirmou.

O lia-na’in refere áreas de Balibó, Alas e Lospalos onde se mantêm restrições tradicionais à recolha de madeira. Segundo os entrevistados, estas proibições fazem parte das crenças e normas das comunidades a que pertencem.

Delvio critica a realização de tara bandu — prática tradicional de estabelecimento de regras e proibições comunitárias — quando se limita a projetos ou cerimónias simbólicas. Defende que as regras tenham aplicação contínua, acompanhada de rituais e refeições comunitárias.

“Se ficar apenas pelo simbolismo, sem continuidade na sua aplicação todos os anos, o objetivo de proteger o ambiente não será alcançado”, afirmou.

Em algumas comunidades de Timor-Leste, as regras tradicionais determinam quais as árvores que podem ser cortadas ou usadas como combustível. Dionísio Babo Soares, antropólogo, representante permanente de Timor-Leste junto das Nações Unidas e presidente do Conselho Diretivo Nacional do CNRT, partido que lidera o Governo, descreve como certas árvores adquirem um estatuto sagrado.

“O estatuto sagrado não depende apenas do tipo de árvore, mas sobretudo da relação entre essa árvore e os antepassados, a história de origem da casa tradicional, os locais sagrados, as nascentes de água, os cemitérios ou os espaços rituais”, afirma.

Estas regras são transmitidas de geração em geração através do lisan, o conjunto de normas e práticas tradicionais que orientam a vida das comunidades. A sua preservação envolve estruturas como a casa sagrada, os lia-na’in, os anciãos e mecanismos comunitários de proteção, entre os quais o tara bandu.

“A casa sagrada não é apenas uma casa, mas também um centro de identidade, história e autoridade espiritual de uma determinada casa tradicional”, observa Babo Soares.

As árvores associadas aos antepassados, às nascentes sagradas ou aos locais rituais são geralmente protegidas, enquanto outras podem ser utilizadas para cozinhar, construir casas e satisfazer diferentes necessidades quotidianas. Em algumas comunidades, o corte de árvores de grande dimensão exige autorização dos responsáveis tradicionais ou a realização de pequenos rituais.

“Em algumas comunidades, acredita-se que cortar ou queimar árvores junto de nascentes sagradas, sem autorização tradicional, pode provocar a diminuição ou até a secagem da água”, afirma o antropólogo.

Dionísio Babo Soares sublinha que estas regras variam de comunidade para comunidade. Uma árvore considerada sagrada numa aldeia pode não ter o mesmo significado noutra, uma vez que as crenças dependem da história local, da origem das casas tradicionais e das decisões dos antepassados transmitidas através do lisan.

Segundo Babo Soares, a violação destes tabus pode ainda ser associada a doenças, à perda de animais domésticos, a danos nas culturas agrícolas ou a conflitos comunitários. Para além das necessidades económicas e domésticas, a utilização da lenha está, assim, ligada a valores culturais e espirituais que também podem contribuir para a proteção de determinadas árvores e dos espaços naturais considerados importantes pelas comunidades.

Uma meta para mudar a forma de cozinhar

A dependência de combustíveis poluentes também persiste noutros países da região. O 8th ASEAN Energy Outlook, publicado em 2024, indica que 75,4% da população dos dez Estados então membros tinha acesso a combustíveis e tecnologias de cozinha limpos em 2022. No Camboja, Laos, Myanmar e Filipinas, a proporção era inferior a 50%.

Em Timor-Leste, a contribuição climática nacional para 2026-2035, disponibilizada pela Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Alterações Climáticas, prevê expandir as soluções modernas de cozinha com baixas emissões a 50% dos agregados familiares e instituições até 2030, avançando para o acesso universal até 2040. O documento associa essa transição a mecanismos de financiamento de carbono e a parcerias internacionais. Trata-se de uma meta, não de um resultado alcançado.

O Diligente contactou a Secretaria de Estado das Florestas para obter esclarecimentos sobre o uso de lenha, a proteção das florestas e o desenvolvimento de alternativas energéticas. Até à conclusão desta reportagem, não tinha recebido resposta.

Para as famílias entrevistadas, a mudança depende também das despesas do dia a dia. Em Ermera, a eletricidade já permite a Mateus cozinhar de outra forma. O custo de a utilizar continua, porém, a reservar um lugar à lenha.

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