A igualdade entre mulheres e homens constrói-se longe dos discursos e das datas comemorativas: nas escolhas de todos os dias, no reconhecimento do trabalho, na possibilidade de viver com liberdade e no direito de decidir o próprio futuro. No Dia Nacional da Mulher Timorense, celebrado a 3 de novembro, quatro mulheres partilham experiências marcadas por desafios muito diferentes — da violência às responsabilidades familiares, passando pela procura de autonomia e pelo empreendedorismo.
A 3 de novembro, Timor-Leste assinala o Dia Nacional da Mulher, uma data que homenageia a participação das mulheres na luta pela libertação nacional e recorda o sacrifício da heroína Maria Tapó, morta em combate a 3 de novembro de 1975. A comemoração teve início em 1976 e, em 2023, a data passou a ser também feriado nacional. Em 2026, assinala-se o seu 50.º aniversário, sob o tema “Mulheres de Timor-Leste: Celebrando 50 Anos de Igualdade e Inclusão”.
Cinquenta anos depois, as mulheres timorenses continuam a enfrentar diferentes desafios para conquistar autonomia, reconhecimento e igualdade de oportunidades. Para além da memória histórica, esta data constitui uma oportunidade para ouvir as suas experiências e compreender as dificuldades que atravessam as suas vidas.
Entre uma jovem que vive no estrangeiro e procura conquistar a sua liberdade, uma empreendedora que quer criar oportunidades para outras mulheres, uma sobrevivente de violência sexual e uma mãe que concilia as responsabilidades familiares com os seus próprios sonhos, cada história revela uma realidade diferente. São percursos marcados por dificuldades, mas também pela vontade de continuar, escolher e construir um futuro próprio.
Reconhece que existe uma ideia muito enraizada de que uma mulher não deve viver sozinha, sobretudo quando está no estrangeiro, sendo frequentemente questionada sobre quando terá marido.
Viver longe de casa e aprender a conquistar a liberdade
Nívia Cristóvão, estudante timorense a viver em Inglaterra, considera que um dos seus maiores desafios é conciliar o trabalho com os estudos e as responsabilidades pessoais.
A jovem trabalha como barista num café e estuda psicologia. No final do dia, precisa ainda de preparar as refeições, realizar os trabalhos universitários e organizar as tarefas do dia seguinte. Uma rotina exigente que, por vezes, a deixa sem energia.
“Um dos maiores desafios para mim é conseguir conciliar tudo. Trabalho e estudo ao mesmo tempo e, no final do dia, também tenho de cuidar de mim. Há dias em que chego a casa cansadíssima”, contou.
Para além da gestão do tempo, Nívia identifica as expectativas sociais sobre as mulheres timorenses como outro desafio. Reconhece que existe uma ideia muito enraizada de que uma mulher não deve viver sozinha, sobretudo quando está no estrangeiro, sendo frequentemente questionada sobre quando terá marido.
Na sua perspetiva, muitas mulheres crescem num contexto em que é considerado normal permanecer em casa dos pais até ao casamento, como se a possibilidade de viverem sozinhas dependesse da presença de um homem. Mesmo quando saem do país à procura de maior liberdade, continuam a sentir o peso dessas expectativas.
A experiência de viver no estrangeiro permitiu-lhe questionar essas ideias e descobrir outras possibilidades para a sua vida. Quando saiu de Timor-Leste, aos 18 ou 19 anos, numa primeira viagem que representou também a sua primeira saída de casa, não imaginava que poderia viver sozinha e construir o seu próprio percurso.
Hoje, considera que essa experiência lhe deu uma nova perspetiva sobre as escolhas que uma mulher pode fazer. “Só que não somos árvores, somos pássaros. Podemos voar para longe e também podemos regressar a casa quando queremos, dar beijinhos e abraçar os nossos pais e voltar a voar”, afirmou.
Para Nívia, a valorização das mulheres também passa pelo reconhecimento do trabalho que realizam, incluindo aquele que muitas vezes permanece invisível. Considera que o esforço, o cansaço e as preocupações que cada mulher transporta consigo nem sempre são reconhecidos, mesmo quando consegue cumprir todas as suas responsabilidades e manter uma atitude positiva perante os outros.
Defende, por isso, que valorizar uma mulher significa também ouvi-la, levar a sério as suas dificuldades e reconhecer o seu trabalho.
A sua mensagem passa ainda pela importância da solidariedade entre mulheres. Gostaria que existissem mais conversas entre mães, filhas, irmãs, amigas e colegas, em que fosse possível falar sobre o cansaço, pedir ajuda ou simplesmente admitir que, naquele dia, não se consegue fazer tudo, sem receio de julgamentos.
“Espero que consigamos cuidar umas das outras, ouvirmo-nos e encontrar espaço para a vida que queremos ter e construir”, apelou.
“Uma mulher que está a trazer uma vida ao mundo precisa de se sentir valorizada. Precisa de reconhecer o seu próprio valor e de sentir que as pessoas à sua volta também o reconhecem”
Empreender para criar oportunidades para outras mulheres
Leónia Lemos é uma mulher timorense que criou uma empresa em Inglaterra. A iniciativa nasceu da vontade de aproveitar as oportunidades existentes naquele país e, ao mesmo tempo, demonstrar a outras mulheres timorenses que também podem desenvolver os seus próprios negócios.
Enquanto estudante, encontrou apoio na universidade para desenvolver o projeto empresarial. Antes de avançar, procurou identificar as necessidades de diferentes grupos de mulheres, tendo definido como público-alvo as mulheres grávidas, as mães no período pós-parto e as mulheres que se aproximam da menopausa.
A empresa disponibiliza aconselhamento nutricional, avaliação corporal, massagens terapêuticas e terapia com luz vermelha. Desenvolve ainda produtos próprios, incluindo alimentos à base de fruta desidratada e sais de banho.
A criação da empresa exigiu, contudo, preparação e conhecimento dos procedimentos legais. Segundo explicou, em Inglaterra não basta registar uma empresa para começar imediatamente a trabalhar. É necessário cumprir várias etapas, obter as autorizações necessárias, tratar dos procedimentos junto das autoridades municipais e assegurar o cumprimento de outras obrigações legais.
Entre estas estão a contratação de seguros e o cumprimento das regras relacionadas com a proteção dos dados dos clientes, incluindo informações pessoais, contactos e fotografias.
Um dos principais desafios surgiu depois de já ter investido dinheiro no espaço e nos equipamentos, quando ainda não tinha autorização para iniciar a atividade. Apesar de não poder trabalhar, continuava a suportar as despesas.
“Não podemos investir hoje e esperar ter lucro amanhã. É necessário tempo. Considero importante ter uma reserva financeira para cobrir os primeiros três meses e depois avaliar os resultados”, explicou.
A empreendedora encontrou apoio na University of East London, onde realizou o seu segundo mestrado, na área do empreendedorismo, e em iniciativas de apoio a pequenos negócios, como a Grow London Local. É também membro da Newham Chamber of Commerce, através da qual participa em encontros com empresários e investidores, partilha experiências e estabelece contactos.
Participou ainda numa iniciativa universitária de empreendedorismo, na qual recebeu um prémio na qualidade de fundadora.
Para Leónia, o investimento na saúde e no bem-estar das mulheres é fundamental, sobretudo durante a gravidez e depois do parto. Considera que as mães enfrentam exigências físicas e emocionais que nem sempre são devidamente reconhecidas. As noites mal dormidas, a amamentação, os cuidados com o bebé e as mudanças físicas e emocionais tornam esta fase particularmente exigente.
Defende que o acompanhamento deve olhar não apenas para a criança, mas também para a mãe e para as suas necessidades.
“Uma mulher que está a trazer uma vida ao mundo precisa de se sentir valorizada. Precisa de reconhecer o seu próprio valor e de sentir que as pessoas à sua volta também o reconhecem”, afirmou.
A empreendedora identifica diferenças entre Inglaterra e Timor-Leste no acesso aos recursos e aos serviços de acompanhamento da saúde materna. Na sua perspetiva, Inglaterra dispõe de estruturas mais desenvolvidas e de maior capacidade para acompanhar as mulheres durante a gravidez e depois do nascimento dos filhos.
Em Timor-Leste, considera que as limitações de recursos e de profissionais de saúde continuam a representar um desafio. Defende também uma maior atenção à aplicação dos fundos destinados à saúde, à fiscalização dos programas e às condições de trabalho dos profissionais.
Apesar dessas diferenças, acredita que é possível desenvolver iniciativas semelhantes em Timor-Leste, começando por pequenos projetos e identificando as necessidades das mulheres através de investigação e recolha de dados.
Para Leónia, não basta organizar atividades sem conhecer primeiro a realidade das pessoas a quem se destinam. É necessário identificar quem precisa de apoio, avaliar os recursos disponíveis e garantir que os projetos respondem a necessidades concretas.
Às mulheres timorenses que desejam criar um negócio, mas ainda não encontraram coragem ou oportunidades, deixa uma mensagem de persistência. Reconhece que a falta de recursos financeiros pode tornar o caminho mais difícil, mas considera que é possível começar com pouco, poupar e desenvolver um projeto gradualmente.
“Não pensem que só quem tem muito dinheiro pode criar um negócio. É preciso coragem, força e disposição para dar os primeiros passos”, aconselhou.
“Há muitas coisas que temos de guardar em segredo dentro de nós. Também deixamos de confiar em toda a gente”
A violência e o desafio de reconstruir a vida
A história de Francisca (nome fictício) revela uma realidade particularmente difícil: a violência sexual praticada no seio da própria família e os obstáculos que uma sobrevivente enfrenta quando decide denunciar o agressor. O caso envolveu o próprio pai, que foi condenado a nove anos de prisão pelo crime de incesto.
Em 2017, Francisca começou a perceber que os comportamentos do pai não eram episódios isolados. Antes de ser vítima, já ouvia relatos de que ele assediava outras pessoas, incluindo primas suas e mulheres que viviam na mesma casa. “Isso foi um sinal que demorei demasiado tempo a perceber”, reconheceu. O pai, que era professor noutro município, regressava a casa aos fins de semana. Quando a violência aconteceu consigo, Francisca não teve, inicialmente, coragem para avançar com uma denúncia.
Foi com o apoio de colegas da universidade e de familiares do lado materno que conseguiu apresentar queixa. A decisão, porém, abriu também uma fratura familiar. Enquanto alguns familiares da mãe ficaram revoltados e chegaram a querer fazer justiça pelas próprias mãos — acabando por não agir por impulso —, a família do pai não a apoiou. Alguns familiares consideraram que, por ser filha, estava a envergonhar a família e que o assunto devia ser resolvido dentro de casa.
O percurso judicial foi outro dos grandes obstáculos. Apesar de a denúncia ter sido apresentada em 2017, o processo só chegou ao Ministério Público e entrou em tribunal quase dois anos depois. O julgamento realizou-se em 2019, mas foi sucessivamente adiado, e a decisão final só foi conhecida em 2021. Foram, assim, cerca de quatro anos entre a denúncia e a decisão, um período de espera que se juntou à violência sofrida e à necessidade de reconstruir a própria vida.
Francisca explica que o pai foi condenado a nove anos de prisão, mas cumpriu quatro anos e seis meses em estabelecimento prisional. O restante período foi cumprido em prisão domiciliária, com a obrigação de se apresentar mensalmente. Na interpretação que lhe foi transmitida, este cumprimento parcial decorreu do regime previsto na lei timorense. A libertação do agressor e as condições em que terminou o cumprimento da pena tornam ainda mais delicada a experiência de uma sobrevivente quando o agressor pertence à própria família.
Durante esse período, Francisca precisou de encontrar um lugar seguro para viver. Diz estar muito grata por ter podido ficar numa casa de acolhimento e pelo apoio recebido. Destaca também a assistência jurídica da ALFeLa, que acompanha vítimas em situação de vulnerabilidade. No entanto, considera que o apoio prestado pela organização não correspondeu inteiramente às suas necessidades. Na sua avaliação, a atenção dada aos processos pode variar em função da influência social de quem procura ajuda, deixando mulheres de famílias pobres à espera de três ou quatro anos por um julgamento. São críticas que atribui à sua experiência e que levantam questões sobre a igualdade no acesso à justiça e à representação jurídica.
As consequências não terminaram com a decisão do tribunal. Francisca diz que perdeu confiança nas pessoas e que passou a sentir dificuldade em entrar em ambientes novos ou conhecer gente. Há experiências e circunstâncias familiares que sente não poder partilhar livremente. “Há muitas coisas que temos de guardar em segredo dentro de nós. Também deixamos de confiar em toda a gente.” O silêncio, neste caso, não significa que a violência tenha deixado de marcar a vida da sobrevivente; revela antes o peso que continua a carregar.
Para Francisca, uma das formas de agravar esse sofrimento é a curiosidade de quem faz perguntas sem pensar no efeito que podem ter. Algumas pessoas querem saber pormenores apenas para satisfazer a curiosidade e depois contar a terceiros, sem considerar se a sobrevivente se sente segura, confortável ou envergonhada ao falar. “A sociedade tem de procurar respeitar a situação delas enquanto vítimas”, defende. Os detalhes devem ser conhecidos apenas por quem precisa deles para prestar apoio ou intervir, e não transformados em assunto de conversa. A jovem considera que a sociedade continua, demasiadas vezes, a fechar os olhos ao impacto psicológico da violência.
Esta experiência leva-a também a questionar a distância entre os direitos consagrados na lei e a realidade. Embora existam leis destinadas a proteger as mulheres, considera que muitas não são efetivamente aplicadas, tanto nas instituições como na sociedade. Na sua perspetiva, persistem preconceitos que dificultam o reconhecimento das mulheres como líderes: a confiança nas suas capacidades nem sempre é concedida pelo mérito, podendo ser condicionada pela raça, pela etnia ou pelos grupos a que pertencem.
Francisca acredita que as mulheres têm a mesma capacidade intelectual que os homens e que o género não determina a competência para liderar. “O cérebro e a boa atitude não se medem pelo género”, afirma. A sua mensagem vai além da igualdade formal: pede respeito pela privacidade e pela dignidade das sobreviventes, apoio que não dependa da condição económica ou da influência familiar e instituições capazes de transformar os direitos escritos em proteção concreta.
“Cuidar dos filhos não é apenas responsabilidade da mãe, mas também do pai”
Entre as responsabilidades familiares e os sonhos pessoais
Maria Fátima Oki, dona de casa, reconhece que conciliar as responsabilidades familiares com os seus próprios objetivos não é uma tarefa fácil. Apesar de ter vontade de participar em cursos e formações, considera que, nesta fase da sua vida, o tempo é uma das principais limitações, uma vez que os filhos ainda são pequenos.
O dia começa cedo. Assim que acorda, prepara o pequeno-almoço, organiza a casa e trata do que os filhos precisam. Ao longo do dia, as tarefas continuam: cozinhar, lavar a roupa, limpar e cuidar das crianças. Mesmo quando está cansada, explica, não pode simplesmente deixar as responsabilidades por fazer.
“Mesmo quando estou cansada, tenho de continuar porque são tarefas que não podem ficar por fazer”, contou.
Reconhece que, por vezes, tem de colocar as necessidades das crianças à frente dos seus próprios planos, sobretudo porque não é fácil deixá-las ao cuidado de outras pessoas enquanto ainda são pequenas.
“Gostaria de voltar a estudar, frequentar uma formação ou encontrar um trabalho que me permitisse ter o meu próprio rendimento”, afirmou. No entanto, para que isso seja possível, considera essencial contar com alguém de confiança que possa cuidar dos filhos, bem como com o apoio da família, condições financeiras e horários flexíveis.
Defende que a família e a sociedade devem valorizar o esforço de quem assegura diariamente o funcionamento da casa e o cuidado dos filhos.
“Muitas vezes, as pessoas pensam que uma mulher que fica em casa não trabalha, porque não recebe um salário. Mas, na realidade, o trabalho doméstico exige muito tempo, energia e paciência”, sublinhou.
Na maioria das vezes, segundo a entrevistada, as tarefas domésticas continuam a ficar sobretudo a cargo das mulheres. É ela quem prepara as refeições, limpa a casa, lava a roupa e cuida dos filhos. Considera, por isso, que estas responsabilidades devem ser partilhadas por todos os membros da família, uma vez que todos vivem na mesma casa.
Embora reconheça que alguns homens já participam nas tarefas domésticas e nos cuidados dos filhos, considera que ainda há quem entenda que essas responsabilidades pertencem exclusivamente às mulheres. Para Maria Fátima, cuidar das crianças deve ser uma responsabilidade de ambos os progenitores, e não apenas da mãe.
“Cuidar dos filhos não é apenas responsabilidade da mãe, mas também do pai”, defendeu.
Considera também que a independência económica é fundamental para as mulheres, por lhes permitir dispor de recursos próprios, tomar decisões com maior liberdade e contribuir para o sustento da família, sem dependerem totalmente dos maridos ou de outros familiares.
Acredita que, quando os filhos crescerem e existirem condições para conciliar a vida familiar com outras atividades, poderá ter mais oportunidades para investir na sua formação e concretizar alguns dos seus objetivos pessoais. Tem sonhos que gostaria de realizar, mas reconhece que, neste momento, os filhos precisam muito da sua atenção.
“Tenho sonhos e objetivos pessoais que gostaria de concretizar, mas neste momento os meus filhos precisam muito da minha atenção”, afirmou.
Reconhece que as responsabilidades familiares podem representar um desafio para as mulheres, mas considera que é necessário enfrentá-las com força e determinação.
“Enquanto mulheres, temos de ter força para enfrentar as dificuldades no seio da família. Por vezes, a situação é difícil, mas temos de enfrentar os desafios e seguir em frente com coragem e determinação”, afirmou.
As histórias de Nívia, Leónia, Francisca e Maria Fátima mostram que não existe uma única forma de ser mulher nem um caminho igual para todas. Cada uma enfrenta desafios diferentes: conquistar a liberdade, criar oportunidades, superar a violência ou conciliar as responsabilidades familiares com os próprios sonhos.
Apesar das diferenças, as suas experiências têm algo em comum: a vontade de serem ouvidas, respeitadas e reconhecidas pelo seu valor. Neste Dia Nacional da Mulher Timorense, as suas vozes recordam que a igualdade não se constrói apenas através de leis e políticas, mas também no quotidiano, nas famílias, na sociedade e nas oportunidades dadas a cada mulher para decidir o seu próprio futuro.























