A voz da memória que não se apaga: O Dia de Defuntos, a saudade e o legado daqueles que partiram

Recordar os que partiram é honrar os que nunca esquecemos/Foto: DR
  1. Considerações iniciais

Ao assinalar o Dia de Defuntos — conhecido em Timor-Leste como Loron Matebian, designado Hari Arwah Sedunia na Indonésia, Dia dos Defuntos em português e Badu Bi’i Te’i Ini na comunidade Makasa’e —, este artigo propõe uma reflexão cultural e filosófica sobre o significado desta celebração. Sob o título “A voz da memória que não se apaga: o Dia de Defuntos, a saudade e o legado daqueles que partiram”, procura-se compreender de que modo esta data constitui um momento de preservação da memória histórica, da identidade e da transmissão de valores entre gerações.

A morte é uma realidade inevitável da existência humana, pois põe fim à presença física e à comunicação direta entre quem morre e quem continua vivo. Contudo, não significa que o amor, a história, os ensinamentos e os contributos de uma pessoa desapareçam por completo. A memória de quem morreu pode permanecer viva na família e na comunidade através de recordações, fotografias, histórias, objetos e valores deixados ao longo da vida. Neste contexto, a ausência física pode adquirir um novo significado por meio da memória e dos vínculos emocionais que persistem entre aqueles que ficam.

O Dia de Defuntos tem um significado que ultrapassa o de uma celebração anual: constitui uma ocasião para reafirmar relações e identidades familiares e comunitárias, bem como para preservar a memória de quem partiu. Esse significado manifesta-se em diversas práticas, como a visita e a limpeza das campas, a colocação de flores, o acender de velas, a celebração da missa, as orações e o hamulak junto às campas ou na Uma Lisan. Todas estas práticas podem expressar amor, respeito e ligação àqueles que morreram.

Do ponto de vista filosófico, o pensamento de Martin Heidegger sobre o ser-para-a-morte (Sein-zum-Tode) ajuda a compreender a morte como um limite fundamental da existência humana. Por sua vez, os conceitos de memória comunicativa e memória cultural, desenvolvidos por Jan Assmann, permitem explicar como as recordações, os rituais, os símbolos e as práticas culturais preservam e transmitem a identidade coletiva. A teoria da comunicação ritual, de James W. Carey, contribui igualmente para compreender de que modo a comunicação simbólica e a participação comunitária reforçam valores, crenças e identidades culturais. Com o apoio de estudos sobre a saudade e os vínculos contínuos (continuing bonds), este artigo analisa o Dia de Defuntos como um espaço simbólico no qual se encontram a ausência, o amor, a fé e a memória. Defende-se que, embora a morte ponha fim à presença física, a memória e o legado de quem morreu podem continuar presentes na vida das famílias e das comunidades.

  1. O hiato entre os mortos e os vivos

A morte é uma realidade inevitável. Embora as circunstâncias e o momento em que ocorre variem, todos os seres humanos estão sujeitos aos limites da existência. Ao longo da vida, as pessoas constroem relações, tomam decisões, assumem responsabilidades e contribuem para a família, a comunidade e a sociedade. Quando a presença física termina, as relações diretas transformam-se; contudo, as recordações, as histórias e os valores deixados por cada pessoa podem continuar vivos naqueles que permanecem.

Na interpretação que F. Budi Hardiman (2015) faz do pensamento de Martin Heidegger, o conceito de ser-para-a-morte (Sein-zum-Tode) remete para a consciência humana da finitude, isto é, dos limites da própria existência. O ser humano não é apenas um ser que vive no mundo: é também consciente de que a sua existência tem um fim. A consciência da morte não implica viver com medo, mas pode convidar à reflexão sobre o tempo, as relações, as responsabilidades e as decisões tomadas ao longo da vida. Essa consciência pode ajudar cada pessoa a atribuir maior valor à sua existência e às relações que estabelece com os outros.

Importa distinguir que o conceito heideggeriano de ser-para-a-morte se centra na finitude e na forma como o ser humano compreende a própria existência. Não constitui uma prova da continuidade da vida espiritual depois da morte. A discussão sobre a alma, o Reino dos Céus ou a eternidade pertence ao domínio das interpretações religiosas e das crenças culturais. Já a continuidade da memória e do legado pode ser compreendida através das relações sociais e dos processos de transmissão cultural.

Embora a morte interrompa a presença física e a comunicação direta, os vínculos emocionais entre quem morreu e quem permanece vivo não desaparecem automaticamente. Hewson et al. (2024), numa revisão sistemática sobre os vínculos contínuos (continuing bonds), mostram que as pessoas que enfrentam uma perda podem manter uma ligação interior com quem morreu através de recordações, fotografias, objetos pessoais, diálogos simbólicos e crenças espirituais. Estes vínculos podem proporcionar conforto e ajudar a reconstruir o sentido da vida, embora, em determinadas circunstâncias, também possam estar associados a tristeza e sofrimento prolongado.

Se a morte é uma parte inevitável da existência humana, importa perguntar de que forma aqueles que permanecem vivos continuam a recordar e a preservar o significado da vida de quem morreu. Neste contexto, a saudade e a memória tornam-se elementos fundamentais para compreender a ligação simbólica entre ausência e presença.

  1. Saudade: amor, ausência e vínculos que não se apagam

A saudade é um sentimento profundo que pode surgir perante a ausência de alguém ou de algo com grande significado na vida de uma pessoa. O estudo de Neto e Mullet (2020) sobre o conceito de saudade relaciona esta experiência com a falta de pessoas próximas, a perda de intimidade e o desejo de regressar a experiências do passado. Quando se perde alguém que se ama, a saudade não representa apenas a tristeza provocada pela morte: pode também manifestar o amor e a importância da relação construída ao longo da vida.

Pires (2021) analisa igualmente a saudade como um sentimento associado ao desejo de regressar a algo significativo, que se pode manifestar através da literatura, da arte, da música e das práticas culturais. No contexto da perda, a saudade pode surgir quando as famílias observam fotografias, visitam campas, recordam histórias ou encontram objetos que as ligam a quem morreu. Estas experiências podem reavivar as recordações dos momentos partilhados.

Hewson et al. (2024) mostram que os vínculos contínuos podem ajudar as pessoas em luto a manter uma ligação interior com quem morreu. Esses vínculos podem proporcionar conforto, contribuir para a reconstrução do sentido da vida e reforçar a identidade relacional. Contudo, em determinadas situações, também podem prolongar a tristeza e o sofrimento. Assim, a saudade não deve ser entendida como um sentimento que proporciona sempre felicidade ou que provoca necessariamente sofrimento: a sua vivência depende da experiência emocional e da relação de cada pessoa com quem partiu.

No contexto do Dia de Defuntos, a saudade individual pode transformar-se numa experiência partilhada pela família e pela comunidade através das visitas às campas, das orações, do hamulak, das fotografias e das histórias sobre os falecidos. Estas práticas não expressam apenas a tristeza provocada pela perda; reafirmam também o amor, o afeto e o respeito por aqueles que partiram. A saudade pode, assim, constituir uma ponte emocional entre a ausência e a recordação, ajudando quem permanece a continuar a atribuir significado às relações que existiram.

Neste artigo, a expressão “saudade eterna” é utilizada como uma interpretação literária e simbólica do amor, das recordações e dos vínculos emocionais que permanecem na memória. Não significa que as pessoas devam permanecer indefinidamente no sofrimento ou que não possam aceitar a realidade da morte.

  1. A ausência transforma-se em presença através da memória

Embora uma pessoa já não esteja fisicamente presente, os seus contributos podem continuar a marcar a vida dos outros. Quando as famílias recordam as características, os comportamentos, as obras ou os ensinamentos de quem morreu, podem recuperar valores como a honestidade, o respeito, a solidariedade e a responsabilidade. Esses valores podem ser transmitidos aos membros da família e à comunidade, tornando-se parte da identidade coletiva e orientando a vida das gerações seguintes. Assim, o legado de uma pessoa não se limita aos bens materiais: inclui também a memória e os valores que conferem significado à sua existência.

Na perspetiva de Jan Assmann (2010), a memória cultural é um processo através do qual as comunidades preservam e transmitem recordações, histórias e identidade coletiva por meio da comunicação, dos rituais, dos símbolos e das práticas culturais. A memória não consiste apenas nas recordações individuais de acontecimentos passados; é também um processo social que ajuda a comunidade a atribuir significado às experiências partilhadas. Através da transmissão da memória, os contributos e os ensinamentos das gerações anteriores podem continuar presentes na vida das novas gerações e integrar o património social e cultural da comunidade.

No campo dos estudos da comunicação, James W. Carey (2009) distingue duas perspetivas: a comunicação como transmissão e a comunicação como ritual. Enquanto a primeira privilegia a transmissão de informação ou de mensagens entre um emissor e um destinatário, a perspetiva ritual entende a comunicação como um processo simbólico de participação, através do qual as comunidades constroem e mantêm valores, crenças e significados partilhados. Esta abordagem permite compreender que os rituais não servem apenas para transmitir mensagens: também reafirmam relações sociais e identidades culturais. Subtil (2014), na sua análise da abordagem cultural de Carey, destaca igualmente a dimensão participativa da comunicação ritual.

Neste sentido, as práticas do Dia de Defuntos — visitar e limpar as campas, colocar flores, acender velas, celebrar missas, rezar, realizar hamulak e partilhar histórias sobre quem morreu — podem ser entendidas como formas de comunicação ritual. Não se limitam a recordar os falecidos: permitem também que as famílias e as comunidades participem em experiências simbólicas que reafirmam o amor, o respeito, a fé, a memória e a identidade coletiva.

Em Timor-Leste, o Dia de Defuntos pode ser analisado como um momento de encontro entre a memória individual e a memória coletiva, que se manifesta através das visitas às campas, das missas, das orações, do hamulak, das fotografias, das histórias familiares e de outras práticas culturais. Na comunidade Makasa’e, esta celebração é também designada Badu Bi’i Te’i Ini. Em determinadas crenças tradicionais, considera-se que o espírito dos falecidos mantém uma relação com a Uma Lisan e com a família, incluindo crenças relacionadas com o pedido ou a receção de matak-malirin em momentos específicos. Estas práticas e interpretações podem variar consoante a comunidade, a tradição e a experiência local.

Segundo a doutrina católica, as almas que se encontram no purgatório beneficiam da oração e da celebração da missa, numa perspetiva de esperança na graça de Deus e na vida eterna. Nesta perspetiva, a missa e as orações realizadas no Dia de Defuntos constituem formas de manifestar a fé e a solidariedade espiritual para com aqueles que morreram. Embora as crenças católicas e as tradições locais apresentem interpretações distintas sobre a alma e a relação com os falecidos, em determinadas práticas sociais as famílias e as comunidades articulam elementos religiosos e culturais nesta celebração.

No artigo “Encontrar-se com os antepassados”, Soares dos Reis (2025) analisa o Dia de Defuntos a partir das perspetivas religiosa e cultural, mostrando que esta celebração não constitui apenas uma prática de recordação de quem morreu, mas também um momento de reforço da relação simbólica entre a família, a comunidade e os antepassados. A limpeza das campas, o acender de velas, a colocação de flores, a preparação de alimentos, a celebração da missa, as orações e o hamulak, bem como o regresso à knua ou à Uma Lisan, podem expressar saudade, amor e ligação àqueles que partiram.

Durante o Dia de Defuntos, a família e a comunidade não se limitam a recordar acontecimentos passados: reinterpretam também o seu significado e relacionam as experiências anteriores com a realidade do presente. Através dos rituais, das histórias e dos símbolos, a memória individual pode transformar-se em parte da memória coletiva. Os ensinamentos e os valores de quem morreu podem continuar a ser transmitidos às gerações seguintes, reforçando a identidade familiar e comunitária. Deste modo, o Dia de Defuntos pode ser compreendido como um espaço simbólico no qual a ausência ganha presença através da memória, da fé, da saudade e do legado.

A morte é uma realidade inevitável da existência humana, que põe fim à presença física e à comunicação direta. Contudo, não significa que o amor, a história, os ensinamentos e os contributos de uma pessoa desapareçam por completo. O pensamento de Heidegger sobre o ser-para-a-morte, segundo a interpretação de Hardiman (2015), convida o ser humano a reconhecer os limites da sua existência e a atribuir valor ao tempo, às relações e às responsabilidades ao longo da vida. Por sua vez, o conceito de vínculos contínuos mostra que as pessoas em luto podem manter ligações interiores com quem morreu, embora essas ligações possam proporcionar conforto ou estar associadas a sofrimento, consoante a experiência individual.

No contexto de Timor-Leste, o Dia de Defuntos manifesta a ligação entre a fé religiosa, a tradição lisan, a saudade e a memória através de práticas como a visita às campas, a celebração da missa, o acender de velas, as orações, o hamulak, a preparação de alimentos e o regresso à knua ou à Uma Lisan. Embora as interpretações sobre a alma e a eternidade variem de acordo com as crenças religiosas e tradicionais, esta celebração constitui um momento em que as famílias e as comunidades podem reafirmar a sua relação com os falecidos. Na perspetiva de Jan Assmann (2010), os rituais, as histórias e os símbolos culturais são também meios de preservar e transmitir a memória e a identidade coletiva às gerações seguintes.

A essência do Dia de Defuntos não se limita à recordação de quem morreu: inclui também a responsabilidade de preservar a história, os valores, o amor e os contributos das gerações anteriores. A memória torna-se uma ponte simbólica entre a ausência e a presença, entre o passado e o presente, e entre os falecidos e as gerações que continuam vivas. Recordar quem morreu não significa permanecer apenas na tristeza e na saudade; significa também valorizar os ensinamentos deixados, fortalecer a identidade familiar e comunitária e transmitir esses valores às gerações futuras.

O Dia de Defuntos recorda-nos que, embora a morte ponha fim à presença física, o amor e o legado podem continuar vivos na memória e na história daqueles que permanecem. Por isso, esta data não é apenas uma ocasião para recordar quem morreu: é também um momento para manter viva a sua memória e o seu legado na nossa identidade e na forma como escolhemos continuar a viver.

Aniceto Soares dos Reis é licenciado em Comunicação Social pela Universidade Nacional Timor Lorosa’e (UNTL) e frequenta atualmente o curso de Pós-Graduação na Universidade Mercu Buana, em Jacarta. As suas áreas de interesse incluem os estudos dos média, a democracia, os direitos humanos e a história

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