Ilimano espera pela produção de mármore e por mais benefícios para a comunidade

A placa oficial de identificação da área de concessão do projeto de Mármore EMG-MRT Ilimano/Foto: Diligente

O Governo espera iniciar a produção em 2027, mas ainda há estudos e autorizações por concluir. Enquanto se prepara uma indústria de transformação, os habitantes começam a obter rendimentos, mas continuam a pedir compensações pelos terrenos e acesso à água.

Orlando Martins e outro habitante de Ilimano, no município de Manatuto, preparam quatro refeições diárias para cerca de 30 trabalhadores envolvidos nas atividades de pesquisa de mármore. O serviço trouxe uma oportunidade de rendimento à comunidade, embora o primeiro contrato tenha terminado e ambos aguardem a assinatura de um novo.

Segundo Orlando Martins, cada trabalhador paga 20 dólares por dia pelo fornecimento de quatro refeições: pequeno-almoço, almoço, lanche e jantar.

“Recentemente, celebrámos um contrato com a duração de três meses. Esse período já terminou, mas continuamos a prestar o serviço e aguardamos que seja assinado um novo contrato. Entretanto, as empresas pediram-nos que continuássemos a trabalhar e estamos satisfeitos com este rendimento”, conta Orlando, que também vende peixe grelhado junto à estrada.

Além do fornecimento de refeições, cerca de 20 habitantes conseguiram emprego nas empresas envolvidas nas atividades, segundo o chefe do suco de Uma-Kaduak, Fermino Ribeiro da Cruz. São os primeiros benefícios relatados pela comunidade numa região onde se anunciam investimentos de milhões de dólares, mas onde o acesso à água continua a ser uma preocupação.

A produção comercial ainda não começou. Estão em curso trabalhos de prospeção e pesquisa para determinar a qualidade e a dimensão dos depósitos e avaliar a viabilidade técnica e económica da extração. A passagem à produção depende dos resultados dos estudos, das decisões de investimento e das autorizações necessárias.

Uma proposta de 51 milhões de dólares

A EMG-MRT Ilimanu, Lda., participada em 51% pela Elegant Marble Group e em 49% pela empresa pública Murak Rai Timor (MRT), apresentou uma proposta de investimento de 51 milhões de dólares para desenvolver uma plataforma industrial integrada de mármore.

A composição da sociedade e o valor da proposta constam de uma publicação do Ministério Coordenador dos Assuntos Económicos, de 8 de maio de 2026. O projeto abrange Uma Kaduak, Lacumesac e Iliheu, no município de Manatuto.

A Elegant Marble Group já tinha celebrado um acordo com o Governo para avaliar o potencial comercial do mármore de Ilimano em 2020. Na ocasião, o então presidente da Autoridade Nacional do Petróleo e Minerais, Gualdino da Silva, apresentou-a como uma empresa oriunda da China, com experiência internacional no setor dos recursos minerais.

A empresa participa também no consórcio promotor do empreendimento imobiliário Timor Marina Square, em Díli, segundo um comunicado de 18 de maio de 2022 da A-Smart Holdings, divulgado através da bolsa de Singapura. Nesse documento, o grupo EMG é apresentado como parceiro local, com atividades no comércio de mármore, turismo e retalho.

A 25 de agosto de 2026, a EMG-MRT recebeu a Declaração de Benefícios n.º 05/VIII/2026. O investimento proposto é de 51 milhões de dólares, a implementar em três fases.

No seu sítio institucional, a EMG-MRT apresenta um plano de desenvolvimento para 2026–2031. A primeira fase prevê o desenvolvimento da pedreira, acessos, instalações iniciais de transformação, produção de ladrilhos e mosaicos, reciclagem de água e formação de trabalhadores. As seguintes incluem a expansão da transformação e a entrada em mercados internacionais.

Pesquisa e fábrica com valores próprios

Além da proposta da EMG-MRT, existem outros montantes anunciados para a pesquisa e transformação do mármore.

Durante uma visita do primeiro-ministro a We-Uah, em Ilimano, a 7 de agosto de 2026, o presidente da MRT, José Manuel Gonçalves, apresentou um programa de seis furos no valor de 400 mil dólares, abrangendo os trabalhos até à elaboração do relatório final. Em declarações à TATOLI, o responsável referiu ainda perfurações posteriores para a parceria com a EMG, também envolvida na pesquisa de mármore na região.

José Manuel Gonçalves apresentou também uma estimativa de investimento inicial superior a sete milhões de dólares para instalar uma fábrica de transformação de mármore em Metinaro. A unidade deverá utilizar pedra extraída da área de concessão de Ilimano para produzir blocos, placas, ladrilhos, mosaicos e agregados.

 

O presidente da MRT apontou uma capacidade de produção da fábrica entre 500 e 10 mil metros cúbicos por ano e a possibilidade de recuperar o investimento inicial em três anos.

Na apresentação, o responsável referiu uma área de concessão de aproximadamente 1,9 quilómetros quadrados e uma perspetiva de exploração durante 50 anos, caso os estudos confirmem o potencial do recurso.

José Manuel Gonçalves apresentou também o mármore branco de Ilimano como um recurso com potencial para entrar no mercado internacional, uma perspetiva que dependerá, contudo, dos resultados dos estudos e das condições de desenvolvimento do projeto.

Governo aponta produção para 2027

O ministro do Petróleo e Recursos Minerais, Francisco Monteiro, espera que o projeto possa entrar na fase de produção em 2027, embora essa passagem dependa da conclusão das perfurações, da apresentação dos estudos e da aprovação do plano de investimento.

“A Murak Rai Timor continua a avançar com as atividades de exploração. Esperamos que, no próximo ano, possamos entrar na fase de produção. Atualmente, estão a realizar várias perfurações para testar o mármore e determinar a sua qualidade”, declarou.

Segundo o governante, os relatórios deverão ser submetidos à Autoridade Nacional dos Minerais (ANM) e ao ministério para avaliação. Na mesma intervenção, referiu que, depois da aprovação do plano de investimento, será necessário avançar para a construção das instalações e a aquisição dos equipamentos.

“É através do relatório do estudo que poderemos conhecer, com rigor, os custos necessários para iniciar a produção, nomeadamente o orçamento do investimento de capital, os custos operacionais e o potencial de rendimento para as empresas e para o Estado, incluindo os pagamentos de impostos”, afirmou.

O ministro acrescentou que a MRT deverá desenvolver a atividade em cooperação com os parceiros através de um modelo de joint venture, ou sociedade conjunta.

ANM exige estudos e licenciamento antes da produção

David de Araújo, diretor executivo da Administração de Conteúdo Local e Títulos da ANM, identifica dois projetos de pesquisa de mármore em Ilimano, que designa como “EMG MRT Ilimano Project” e “EMG Brilian Group UA Project”, ambos associados, segundo explicou, a parcerias com a MRT.

Segundo David de Araújo, os trabalhos de mapeamento geológico e geofísico estão praticamente concluídos. As perfurações deverão permitir conhecer melhor a profundidade, a extensão, a espessura e a qualidade dos depósitos.

“As empresas estão a realizar atividades de prospeção e pesquisa para determinar se os depósitos de mármore são economicamente viáveis e se existe viabilidade para desenvolver a atividade”, esclareceu.

Concluídos os trabalhos, os promotores terão de apresentar os relatórios à ANM, incluindo o estudo de viabilidade. A existência de mármore não garante, por si só, condições para uma exploração comercial rentável.

Segundo o responsável, os dois projetos dispõem de licenças ambientais de categoria B, que permitem as escavações e perfurações autorizadas nesta fase.

David de Araújo afirma que, para avançarem para o desenvolvimento e a produção, terão de obter licenças de categoria A. Estima que o procedimento possa demorar cerca de cinco meses, envolver diferentes entidades e depender de aprovação final pelo Conselho de Ministros.

A expectativa governamental de produção no próximo ano está, assim, condicionada por estudos ainda em curso e por um processo de licenciamento que terá de ser concluído antes dessa etapa.

Royalties: dez dólares em bruto, um dólar após transformação

A transformação do mármore no país é apresentada como uma forma de criar emprego e aumentar o valor da pedra antes da comercialização.

O Código Mineiro, aprovado pela Lei n.º 12/2021, de 30 de junho, prevê um royalty de dez dólares por tonelada de rochas ornamentais em bruto e de um dólar por tonelada processada.

David de Araújo associa a diferença ao incentivo à transformação local, com a expectativa de desenvolver instalações industriais e atividades económicas complementares.

O artigo 108.º estabelece o pagamento mensal do royalty. O artigo 109.º exige informações mensais sobre vendas, cálculo e pagamento do royalty e, no n.º 2, informação trimestral sobre despesas e receitas decorrentes da venda de minerais. O artigo 110.º determina a conservação dos registos durante pelo menos cinco anos, para efeitos de auditoria.

O retorno para o Estado dependerá das quantidades produzidas e comercializadas, dos royalties, dos impostos aplicáveis e dos resultados económicos da participação da MRT na sociedade.

Rendimentos para as famílias

Os números relativos ao emprego e ao fornecimento de refeições abrangem grupos diferentes: o chefe do suco refere-se aos trabalhadores locais contratados pelas duas empresas, enquanto os cerca de 30 trabalhadores servidos por Orlando incluem também os engenheiros envolvidos nas perfurações.

Para a família de Luís Martins, o emprego da mulher no projeto criou uma alternativa à venda de lenha, atividade a que ela se dedicava anteriormente.

“Quando recebemos dinheiro, reservamo-lo para as despesas escolares dos nossos filhos, para comprar uniformes, arroz e outras coisas de que precisamos”, afirmou Luís.

Fermino Ribeiro da Cruz espera que o avanço do investimento permita criar mais empregos. Segundo as informações que diz ter recebido das empresas, poderão ser recrutadas pessoas de outras localidades se os trabalhadores de Ilimano não forem suficientes para responder às necessidades.

“Acredito que, no futuro, se o investimento avançar, os benefícios não serão apenas para Ilimano ou para os habitantes desta região. Também poderão chegar a outras pessoas do município de Manatuto, em resultado do investimento que está a ser realizado”, afirmou.

Terrenos e relação com a comunidade

Orlando Martins relata que os proprietários de terrenos apresentaram pedidos de compensação pela utilização das suas terras. Segundo o habitante, a empresa respondeu que as compensações seriam consideradas quando o projeto apresentasse resultados concretos.

A EMG-MRT afirma, numa publicação de 14 de outubro de 2025, ter assinado um acordo com representantes de Lisan Haik Badu antes do início dos trabalhos de campo.

O chefe do suco afirma que as autoridades locais acompanham os contactos com a população desde 2018 e que as empresas respeitaram os procedimentos tradicionais antes de abrir estradas e transportar equipamentos.

“Antes de começarem a abrir as estradas e de transportarem os equipamentos para a zona, as empresas realizam primeiro os procedimentos tradicionais”, explicou.

Restrições de circulação e controlo de poeiras

Os trabalhos também alteraram a circulação junto à montanha. Luís Martins conta que os habitantes continuaram as suas atividades habituais, incluindo a limpeza dos campos agrícolas, mas foram impedidos de se aproximarem da base durante as escavações, devido ao risco de queda de pedras. Segundo afirmou, a comunidade compreendeu e respeitou a restrição.

Numa comunicação publicada a 20 de julho de 2026, a EMG-MRT afirma que as medidas previstas para o projeto incluem controlo de poeiras e ruído, reciclagem de água, recuperação progressiva dos terrenos, recrutamento local e formação de trabalhadores.

Durante o trabalho de campo, o Diligente observou a rega da estrada de acesso à zona de perfuração de manhã, ao meio-dia e à tarde, para reduzir a poeira levantada pela circulação de veículos.

Lívia da Cunha, de 22 anos, que vende peixe grelhado junto à estrada, afirma que os trabalhos não prejudicaram a sua atividade naquele local.

“Já passaram cerca de quatro meses desde que começaram os trabalhos na estrada, mas não sentimos que as poeiras estejam a cobrir os nossos alimentos ou a afetar a venda de peixe. Os trabalhos estão a decorrer mais longe daqui e, até agora, está tudo bem”, contou.

Para Orlando, as expectativas em torno do projeto incluem também o acesso à água potável. As entrevistas recolhidas não permitem confirmar um compromisso concreto das empresas para responder a esse pedido.

“Também pedimos que, pelo menos, quando as atividades estiverem a decorrer bem, nos disponibilizem água, porque aqui é difícil conseguir água. Pensamos também nos nossos filhos e no seu futuro, nomeadamente na possibilidade de continuarem a estudar, porque viver neste local é bastante difícil”, declarou.

O projeto de Ilimano representa uma oportunidade para desenvolver o setor mineiro e criar novas atividades económicas em Timor-Leste. Mas, enquanto a produção comercial não começar e os investimentos não se traduzirem em resultados concretos, permanece por demonstrar em que medida esta riqueza mineral poderá gerar receitas para o Estado e melhorar as condições de vida da população local.

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