Apesar dos esforços dos criadores para recuperar das perdas provocadas pela peste suína africana, os elevados custos de produção e a falta de infraestruturas continuam a impedir o setor de responder à procura nacional e de competir com a carne importada.
Quando a peste suína africana chegou a Timor-Leste, em 2019, Nita da Conceição Soares perdeu os 19 porcos que criava em Ataúro. Durante anos, manteve os animais perto de casa e alimentou-os com os recursos disponíveis. A morte de todo o efetivo representou a perda de uma fonte de rendimento e de segurança económica para a família.
“Antes, criava os porcos de forma tradicional e esperava até três anos para os vender. Alguns acabavam por morrer antes de chegarem ao mercado. Depois de receber informações e orientações sobre biossegurança, decidi mudar o sistema de criação e transferir os animais para um terreno mais afastado da comunidade”, contou.
Com a orientação de técnicos do Market Development Facility (MDF) e do veterinário Alípio de Almeida, Nita transferiu a exploração para uma área agrícola, melhorou as instalações e adotou medidas de biossegurança. Passou também a criar porcos da raça makau, em substituição dos animais locais e cruzados.
Atualmente, tem cinco porcas reprodutoras e um reprodutor. Numa das reproduções mais recentes, no segundo trimestre de 2026, quatro porcas tiveram cerca de 30 leitões, que foram posteriormente vendidos. Com o dinheiro das vendas, comprou 70 sacos de ração comercial, que utiliza na exploração e também disponibiliza a outros criadores de Ataúro.
A atividade tornou-se uma importante fonte de rendimento para a família, ajudando a suportar as despesas domésticas e a educação dos filhos. Nita procura ainda incentivar outras famílias de Makili a investir na criação de porcos, nomeadamente através da compra de leitões e da construção de currais de cimento.
Apesar dos progressos, a falta de assistência veterinária continua a ser um dos principais obstáculos.
“Os meus familiares pediram aos serviços veterinários que viessem vacinar os nossos porcos, mas ninguém apareceu. A ligação entre os serviços do Governo e os criadores ainda não funciona bem. É muito difícil conseguir assistência quando precisamos”, lamentou.
O Diligente tentou obter uma resposta dos serviços veterinários de Ataúro, mas não conseguiu localizar os contactos.
Perante a dificuldade em obter apoio público, Nita procura ajuda junto de profissionais do setor, incluindo Alípio de Almeida. Tenta também facilitar o acesso de outros produtores ao mercado de Díli, transportando os animais para venda.
“Já trouxe quatro porcos de outros produtores de Ataúro para vender em Díli e depois entreguei-lhes o dinheiro das vendas. Quero que outras famílias também possam beneficiar da criação de porcos”, explicou.
Uma crise que atingiu milhares de famílias
A criação de porcos continua a desempenhar um papel importante na economia familiar de Timor-Leste. Para muitas famílias, os animais são uma fonte de rendimento, uma forma de poupança e um recurso utilizado em cerimónias e obrigações tradicionais.
O Censo Agrícola de 2019 registou mais de 453 mil porcos no país. Na altura, cerca de 81% dos agregados familiares agrícolas criavam estes animais, o equivalente a 54% do total de agregados familiares timorenses.
A situação foi profundamente afetada pela peste suína africana, confirmada em Timor-Leste em setembro de 2019. A doença, altamente contagiosa entre suínos, provocou uma redução acentuada do efetivo nacional. Segundo estimativas do MDF, terá eliminado aproximadamente metade da população de porcos do país.
Segundo dados da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), publicados em 2025, na base de dados referente à série estatística sobre o efetivo de suínos FAOSTAT, Timor-Leste tinha cerca de 385 mil porcos em 2024, de acordo com as estimativas mais recentes disponíveis.
Para muitas famílias, as perdas significaram a destruição de um património que podia ser vendido em situações de necessidade ou utilizado em cerimónias e obrigações sociais. O impacto ultrapassou, assim, a atividade pecuária e afetou a segurança económica das comunidades.
O veterinário Alípio de Almeida explica que a peste suína africana é uma doença viral que afeta os porcos, mas não é transmissível aos seres humanos. Pode provocar uma mortalidade muito elevada e, segundo o veterinário, não dispõe de tratamento específico nem de uma vacina preventiva disponível.
Segundo o veterinário, a principal forma de proteger os animais contra a peste suína africana é através da aplicação de medidas de biossegurança nas explorações.
Embora tenham sido desenvolvidas vacinas contra a doença e algumas já tenham sido autorizadas em determinados países, a sua eficácia e segurança continuam a exigir avaliação. A Organização Mundial da Saúde Animal (OMSA) recomenda que a vacinação seja acompanhada pelas autoridades veterinárias e não substitua as medidas de prevenção e controlo.
A prevenção depende sobretudo da biossegurança: manter os animais em currais, garantir água e alimentação limpas, higienizar as instalações e os equipamentos e controlar a entrada de pessoas nas explorações.
Para Alípio, a mudança para sistemas de criação controlados é fundamental para melhorar a saúde dos animais e reduzir os riscos de propagação de doenças.
“Temos de abandonar gradualmente o sistema tradicional, em que os porcos circulam livremente, e passar para um sistema de criação controlado. Os animais devem permanecer em currais, e cabe ao criador garantir a alimentação, a água, a higiene e as condições necessárias à sua saúde”, afirmou.
Um inquérito realizado em 2021 e divulgado pelo MDF indicava que 76% dos criadores já mantinham os porcos em currais, quase três vezes mais do que antes da peste suína africana. O resultado aponta para uma mudança nas práticas de criação após a crise, embora não signifique que todos os produtores tenham adotado medidas adequadas de biossegurança.
Melhorar a criação exige investimento
A transição para sistemas de criação mais controlados exige investimento nas instalações, na alimentação e nos cuidados veterinários. Tradicionalmente, muitos produtores deixam os porcos circular livremente ou mantêm-nos em estruturas rudimentares, alimentando-os com restos de comida, folhas de mandioca, cascas de milho e outros produtos disponíveis localmente.
Alípio considera que estas práticas podem dificultar o controlo sanitário e a gestão nutricional. Defende que a alimentação deve ser adaptada às diferentes fases de desenvolvimento dos animais, de modo a melhorar o crescimento e a produtividade.
Segundo o relatório anual do MDF referente a 2024, antes das intervenções no setor, um porco podia demorar cerca de 19 meses a atingir entre 60 e 100 quilogramas. Com raças adequadas, alimentação apropriada e melhores práticas de maneio, poderia atingir entre 90 e 110 quilogramas em aproximadamente seis meses.
A mudança, porém, tem custos. Construir currais, comprar ração e obter assistência veterinária exige recursos que nem todas as famílias possuem. Para os pequenos produtores, o desafio é aumentar a produção sem comprometer a viabilidade económica da exploração.
A alimentação é uma das principais preocupações. Alípio explica que as rações comerciais são formuladas para diferentes fases de desenvolvimento, incluindo leitões, porcos adultos e animais destinados à reprodução. Na criação tradicional, é frequente utilizar os mesmos alimentos para animais com necessidades nutricionais distintas.
“Em Timor-Leste ainda não produzimos ração para porcos em quantidade suficiente através de um sistema industrial. Por isso, empresas como a W Flour importam alimentação do estrangeiro, que depois é comprada pelos criadores para alimentar os seus animais”, explicou.
O veterinário considera que produtos locais, como milho, mandioca, batata-doce e farelo de arroz, podem continuar a ter um papel importante na alimentação dos animais, desde que sejam combinados de forma equilibrada para garantir os nutrientes necessários ao crescimento.
Os dados do MDF mostram que as importações de ração para porcos aumentaram de 159 toneladas, em 2019, para 484 toneladas, em 2025.
A dependência externa não se limita à alimentação animal. Segundo o documento Panorama do Setor da Suinicultura (Instantánea Setor Fahi nian), publicado pelo Market Development Facility (MDF) em outubro, as importações de carne de porco em Timor-Leste aumentaram de 556 toneladas, em 2019, para 1.803 toneladas, em 2025.
Para Alípio, desenvolver a produção nacional de ração ajudaria a reduzir esta dependência e os custos suportados pelos criadores.
Reprodução e qualidade dos animais
A melhoria da reprodução é outra das estratégias para aumentar a produtividade das explorações.
O veterinário Alípio de Almeida começou a desenvolver experiências de inseminação artificial em porcos em 2022. O método permite utilizar sémen de reprodutores selecionados sem necessidade de transportar os animais entre explorações.
“A inseminação artificial permite melhorar a reprodução sem necessidade de transportar os varrascos de uma exploração para outra. Utilizamos sémen de reprodutores selecionados para obter leitões com melhores características genéticas e maior potencial de crescimento”, afirmou.
A técnica pode facilitar o acesso a características genéticas mais favoráveis e melhorar a qualidade dos leitões. Segundo o MDF, à data de uma publicação divulgada em abril de 2025, o Centro de Reprodução de Porcos de Metinaro tinha prestado serviços a mais de 100 criadores desde 2022.
O programa refere ainda que o primeiro fornecedor comercial de inseminação artificial aumentou de 48 para 233 o número anual de doses disponibilizadas em 2025, enquanto o custo por dose diminuiu de 225 para 123 dólares. Além disso, sete novos negócios introduziram ou estavam em processo de introdução de serviços de inseminação artificial noutros municípios.
“Alargar o acesso a reprodutores selecionados pode ajudar os criadores a melhorar a qualidade dos animais e aumentar a produtividade das explorações”, afirmou Alípio.
Produção nacional continua aquém da procura
Apesar da importância económica do setor e dos esforços para melhorar as explorações, a produção nacional continua a ser insuficiente para responder à procura de carne de porco.
O relatório anual do MDF referente a 2024 estima que Timor-Leste produziu cerca de 1.579 toneladas de carne de porco em 2023, no valor aproximado de 3,4 milhões de dólares. O mesmo documento indica que o consumo anual por pessoa se aproxima de 11,5 quilogramas e que a procura ultrapassa a capacidade de produção nacional.
As importações refletem esta dependência. Segundo dados do MDF, a quantidade de carne de porco importada aumentou de 556 toneladas, em 2019, para 1.803 toneladas, em 2025. Esta evolução evidencia o peso da carne importada num mercado em que os produtores locais continuam a enfrentar dificuldades para garantir uma oferta regular e competitiva.
Em Liquiçá, Andy, produtor de porcos ligado à empresa W Flour, conhece os obstáculos de transformar a criação numa atividade comercial rentável. Entre 2016 e 2019, a exploração funcionava sem uma estratégia orientada para o mercado. Criava sobretudo porcos de raça local, alimentados com produtos rejeitados, e não tinha um modelo definido de comercialização.
A situação começou a mudar em 2019, depois de Andy estabelecer contacto com o MDF. Reorganizou a exploração, investiu em raças melhoradas e comprou 13 porcos. Em 2022, o efetivo tinha aumentado para cerca de 140 animais, entre adultos e leitões.
O crescimento, contudo, não significou rentabilidade. Os custos da alimentação acumulavam-se e, antes de conseguir vender os animais e recuperar o investimento, a peste suína africana matou todo o efetivo.
“Cheguei a ter cerca de 140 porcos, entre adultos e leitões, mas isso não significava que estivesse a ganhar dinheiro. Todos os dias tinha de comprar e dar alimentação aos animais. Antes de conseguir vender os porcos e recuperar o investimento, a peste suína africana atingiu a exploração e morreram todos.”
Depois das perdas, Andy ponderou abandonar a atividade. Acabou por recomeçar em 2023, com 12 animais, depois de receber orientações sobre biossegurança e rever os procedimentos da exploração.
O produtor reconheceu que, antes da epidemia, não aplicava medidas suficientes para proteger os animais. A circulação de trabalhadores entre o mercado e a exploração, sem os cuidados sanitários necessários, aumentava o risco de transmissão da doença. A experiência levou-o a rever os procedimentos antes de retomar a criação.
Atualmente, Andy afirma ter mais de 250 animais, incluindo cerca de 140 adultos e mais de 100 leitões. Ainda assim, a recuperação da exploração não elimina os desafios relacionados com os custos e a comercialização.
A W Flour, empresa à qual Andy está ligado, importa carne de porco congelada e ração animal. Segundo uma estimativa do produtor, a empresa importa cerca de 55 toneladas de carne de porco congelada por ano, distribuídas por duas remessas.
Segundo as estimativas de Andy, a carne congelada é vendida por cinco a seis dólares por quilograma, enquanto a carne fresca local teria de atingir entre sete e oito dólares para cobrir os custos de produção. Estes valores são estimativas do produtor e não constituem uma comparação independente dos preços praticados em todo o mercado nacional.
Os preços observados nos mercados variam consoante o tipo de carne e a quantidade comercializada. A carne congelada pode custar entre 3,50 e 25 dólares por medida, enquanto uma porção de carne de porco fresca no mercado pode chegar aos 20 dólares. Estes valores, contudo, não permitem uma comparação direta por quilograma, uma vez que as medidas e quantidades comercializadas são diferentes.
Na sua avaliação, aumentar o número de animais não é suficiente para reduzir a dependência das importações. É necessário desenvolver uma cadeia de produção que assegure alimentação a preços acessíveis, instalações de abate, processamento e distribuição.
“Não podemos substituir a carne de porco congelada importada se não tivermos condições para produzir em maior escala. Precisamos de mais animais, alimentação acessível, matadouros e instalações de processamento. Sem essas infraestruturas, será muito difícil competir com a carne importada”, afirmou.
Do criador ao consumidor: falta desenvolver a cadeia de valor
A necessidade de desenvolver a cadeia de produção, desde a criação até à comercialização da carne, também se reflete na experiência de Manuel da Costa, criador de porcos em Manatuto.
Manuel começou a atividade em 2023, com cinco porcas reprodutoras e dois varrascos. Inicialmente, pretendia aumentar o número de animais e vender leitões e porcos adultos a famílias que os procuravam para cerimónias tradicionais.
Com o crescimento da exploração, os custos operacionais, sobretudo com a alimentação, tornaram-se uma preocupação. Manuel começou, então, a procurar alternativas à venda de animais vivos e a investir no processamento da carne.
“À medida que o número de porcos aumentava, percebi que o desafio não era apenas produzir mais animais, mas também suportar os custos operacionais, sobretudo a alimentação. Por isso, comecei a procurar alternativas para além da venda de animais vivos e a estudar formas de acrescentar valor à produção através do processamento da carne.”
Com esse objetivo, avançou com a construção de um matadouro em Manatuto. A obra está concluída, mas o início das operações depende da chegada e instalação dos equipamentos adquiridos no estrangeiro, previstas ainda para este ano. O produtor espera iniciar a atividade no próximo ano. Manuel pretende também abrir um estabelecimento de venda de carne fresca em Fomento, Díli.
“Conseguimos construir um matadouro em Manatuto, cuja obra já está concluída. Estamos agora à espera dos equipamentos adquiridos no estrangeiro, que deverão chegar e ser instalados ainda este ano. A previsão é iniciar a atividade no próximo ano. Também pretendo abrir um estabelecimento comercial em Fomento, Díli, para vender a produção.”
Manuel afirma ter aumentado o número de porcas reprodutoras de cinco para 31 e estima que a exploração possa produzir até 600 leitões por ano. Refere ainda ter cerca de 300 porcos prontos para o mercado.
O objetivo é disponibilizar aos consumidores carne fresca de produção local e conquistar espaço num mercado onde os produtos importados já estão presentes. Para isso, o investimento terá de ser acompanhado por um fornecimento regular de animais, pelo controlo dos custos e pelo cumprimento das condições sanitárias necessárias ao abate e ao processamento.
As dificuldades não são exclusivas de Manuel. O relatório de avaliação de impacto do MDF refere que uma iniciativa de matadouro e comercialização de carne local não teve sucesso, em parte devido ao aumento dos custos de produção após a peste suína africana. A carne nacional tornou-se menos competitiva perante a carne congelada importada, vendida a preços mais baixos.
Manuel reconhece que o objetivo não é eliminar as importações, mas aumentar a capacidade dos produtores locais para responder à procura.
“Não pretendemos acabar com as importações, mas contribuir para a sua redução e responder à procura nacional de carne fresca”, afirmou.
Assistência veterinária e investimento público
A recuperação da criação de porcos depende também da capacidade das instituições públicas para assegurar assistência veterinária nos municípios, prevenir doenças e criar condições para reduzir os custos de produção.
No Dia Mundial da Alimentação, 16 de outubro, o ministro da Agricultura, Pescas, Florestas e Pecuária, Marcos Mameta da Cruz, reconheceu que a produção nacional continua a ser insuficiente para responder às necessidades do país. Defendeu, por isso, mais investimento na produção local, no processamento, no armazenamento e no acesso aos mercados.
As dificuldades relatadas pelos produtores — desde a falta de assistência veterinária aos elevados custos da alimentação e à ausência de infraestruturas de abate e processamento — evidenciam os desafios que o Governo terá de enfrentar para fortalecer o setor.
O Diligente tentou obter esclarecimentos junto do secretário de Estado da Pecuária, José Vieira de Araújo, sobre as medidas previstas para apoiar os criadores, reforçar os serviços veterinários e desenvolver a produção nacional de ração. Não foi possível obter uma resposta, uma vez que o governante se encontrava no estrangeiro.























