Jornadas Pedagógicas defendem ensino do português ligado à realidade timorense

Mesa-redonda “Diálogos Pedagógicos” promoveu a partilha de experiências e a reflexão sobre o ensino do português e a valorização da cultura timorense. /Foto: Diligente

Professores e formadores defendem metodologias mais participativas, a valorização da tradição oral e o reforço da leitura e do pensamento crítico para melhorar a aprendizagem da língua portuguesa e preservar a memória cultural do país.

O ensino da língua portuguesa em Timor-Leste deve apostar em metodologias mais participativas, estimular o pensamento crítico e valorizar o património cultural timorense. Esta foi uma das principais mensagens das XI Jornadas Pedagógicas do Centro de Língua Portuguesa da Universidade Nacional Timor Lorosa’e (UNTL), realizadas a 23 de outubro de 2026, no auditório da Faculdade de Economia e Gestão da universidade, no Liceu, em Díli.

Subordinado ao tema “Língua Portuguesa entre Tradição e Inovação: ensinar, aprender e preservar”, o encontro incluiu uma palestra do professor Vicente Paulino e uma mesa-redonda intitulada “Diálogos Pedagógicos”. As sessões reuniram docentes e formadores para refletir sobre os desafios do ensino do português e a importância de aproximar a aprendizagem da realidade linguística e cultural do país.

Vicente Paulino defende novas abordagens pedagógicas

Durante a palestra, Vicente Paulino defendeu que o ensino de uma língua não deve limitar-se à transmissão de regras gramaticais ou à memorização de conteúdos, devendo também desenvolver a capacidade de reflexão, argumentação e autonomia dos estudantes.

Ao abordar a relação entre linguagem e pensamento, o professor recorreu ao pensamento do filósofo Martin Heidegger para defender uma conceção da língua como atividade que exige participação. “Muitas vezes, nós ouvimos a língua como um instrumento, mas, neste contexto, a língua é uma atividade. Se nós ficarmos com a boca calada, não fazemos nada”, afirmou.

O docente acrescentou que a aprendizagem linguística exige autoconsciência e autorregulação, permitindo aos alunos reconhecer os próprios erros e procurar corrigi-los. Considerou, por isso, que o ensino deve contribuir para formar pessoas capazes de construir argumentos e compreender diferentes pontos de vista. “Por isso, precisamos ensinar o pensamento. Ensinar a pensar”, salientou.

No âmbito da inovação pedagógica, Vicente Paulino apresentou duas abordagens que designou por “pedagogia da galinha” e “pedagogia da cebola”, associadas a diferentes formas de aprendizagem. A primeira valoriza a aprendizagem progressiva, respeitando o ritmo de cada aluno e estimulando a curiosidade, enquanto a segunda propõe a compreensão dos conteúdos através de camadas sucessivas.

Ao explicar a “pedagogia da galinha”, o professor destacou a importância de criar condições para que os alunos aprendam com confiança e desenvolvam gradualmente a sua autonomia.

“Depois, é preciso ter paciência e consistência. A aprendizagem exige repetição e calma, respeitando o ritmo natural de cada aluno e estimulando a curiosidade de descobrir coisas novas”, explicou.

Inteligência artificial deve apoiar a aprendizagem

A utilização da inteligência artificial na educação foi outro dos temas abordados. Embora reconheça o potencial destas ferramentas como apoio ao ensino, Vicente Paulino alertou para os riscos de uma dependência excessiva da tecnologia, que poderá comprometer a criatividade e o esforço intelectual dos professores e dos alunos.

“A inteligência artificial ajuda numa parte. Agora, a nossa obrigação é desenvolver mais para além daquilo em que a inteligência artificial nos apoia”, afirmou.

Para o docente, estas ferramentas devem complementar o processo educativo, sem substituir a capacidade de pensar, criar e desenvolver conhecimentos de forma autónoma.

Tradição oral exige leitura, investigação e documentação

A valorização do património cultural foi outro dos eixos da intervenção. Vicente Paulino destacou o potencial dos contos, mitos, cantigas e provérbios como recursos pedagógicos ligados às experiências culturais dos estudantes.

O professor alertou, contudo, para a necessidade de associar a valorização da tradição oral aos hábitos de leitura e à reflexão crítica. “Como se pode falar de diálogo se não tem hábito de leitura?”, questionou.

Na sua perspetiva, o conhecimento da sociedade, da cultura e do mundo exige a leitura e o estudo, pelo que a tradição oral não deve ser apenas reconhecida como parte do património cultural, mas também analisada e compreendida.

Nesse sentido, defendeu a recolha e a documentação de textos da tradição oral timorense, incluindo a poesia ritual, para permitir a sua análise, preservação e utilização no contexto educativo.

Este trabalho implica recolher, traduzir e fazer a notação dos textos, bem como analisar “a estrutura e a composição dos textos da literatura de tradição oral recolhidos”. A documentação destes materiais poderá transformá-los em recursos de estudo, preservando o seu significado cultural e histórico.

Literatura timorense deve chegar às novas gerações

A importância de preservar e divulgar a cultura timorense foi também destacada por Natércia do Rosário, diretora do Curso de Mestrado em Ensino do Português no Contexto de Timor-Leste. A docente defendeu que as narrativas tradicionais devem ser valorizadas não apenas nas escolas, mas também no seio das famílias, onde são transmitidas entre gerações.

Recordando as histórias que ouvia dos seus familiares, Natércia do Rosário sublinhou a importância de manter viva esta forma de transmissão de conhecimentos. “A tradição oral é muito importante. Não é só para a escola, não é só para os estudantes, mas também dentro de uma família”, afirmou.

A docente considerou que a preservação das tradições exige um maior investimento na investigação e na publicação de obras sobre a cultura timorense. Na sua perspetiva, a escassez de materiais publicados dificulta o conhecimento do património nacional, sobretudo entre os mais jovens e junto do público estrangeiro.

“É muito importante escrever, publicar, para que o nosso país também torne tudo visível”, sublinhou, apelando aos futuros professores para que investiguem e promovam a literatura e as tradições de Timor-Leste.

Para Natércia do Rosário, a produção de obras sobre o património cultural permite transmitir conhecimentos às novas gerações e dar a conhecer a identidade timorense a outros povos.

Também Maria da Cunha defendeu um ensino mais dinâmico, que proporcione aos estudantes oportunidades de praticar a língua portuguesa através de atividades que estimulem a participação e a criatividade.

Com base na sua experiência profissional, a professora destacou a utilização da música, do teatro e dos concursos de leitura como formas de motivar os alunos e quebrar a rotina das aulas. “Os alunos estão sempre na sala de aula. Também devem ter algumas atividades, como música, teatro e outras iniciativas, para poderem refrescar a mente e voltarem a ter mais vontade de estudar”, afirmou.

A docente salientou ainda a importância de atualizar os conteúdos pedagógicos, tendo em conta a realidade cultural e linguística dos estudantes, sem descurar as oportunidades de acesso ao conhecimento internacional proporcionadas pela língua portuguesa.

Multilinguismo coloca desafios ao ensino do português

Num país marcado pela diversidade linguística, a utilização do português fora da sala de aula continua a ser um desafio para professores e estudantes. Francisco de Araújo, formador de língua portuguesa do Ministério do Ensino Superior e da Cultura (MESC), chamou a atenção para as diferenças no contacto dos alunos com a língua. Enquanto alguns a utilizam frequentemente, outros recorrem sobretudo ao tétum, ao indonésio, ao inglês ou às respetivas línguas maternas no quotidiano.

“Fora da sala de aula, falam português, falam indonésio, falam inglês, línguas maternas. Então, o professor tem um grande desafio”, explicou.

Perante esta realidade, o formador defendeu a criação de mais oportunidades para desenvolver as competências de compreensão, expressão oral e produção escrita em português. Entre as possibilidades apontadas estão a participação em oficinas, atividades académicas e iniciativas extracurriculares, que permitam ampliar o contacto com a língua para além das aulas.

Francisco de Araújo salientou igualmente que o sucesso da aprendizagem depende do empenho de professores e alunos. “O professor tem de ter esse papel de saber ensinar. O aluno, também, tem que ter esse papel de saber aprender”, afirmou.

Para o formador, mesmo quando o professor utiliza uma metodologia adequada, os resultados podem ficar aquém do esperado se os alunos não aproveitarem as oportunidades de aprendizagem. Por isso, considera essencial criar condições para que os estudantes pratiquem a língua e desenvolvam a confiança necessária para falar e escrever em português.

Professores têm papel central na valorização da língua

A professora Fernanda de Fátima Sarmento Ximenes destacou a importância da política linguística e da persistência na aprendizagem do português, defendendo um maior compromisso com a língua enquanto idioma oficial e parte importante da história do país. “Temos de ter persistência em aprender português”, afirmou.

A docente sublinhou também a responsabilidade dos professores na formação das novas gerações e na construção da sociedade timorense, considerando que a profissão docente é fundamental para a preparação dos profissionais que assumirão diferentes funções no país. “Sem professores não há primeiro-ministro, não há presidente da República, médicos, etc. Portanto, nós somos a cara, o rosto, o alicerce e a nação”, declarou.

Na mesma linha, Natércia do Rosário defendeu a necessidade de desenvolver um modelo de ensino contextualizado e investir na formação contínua dos professores, para que as práticas pedagógicas acompanhem as mudanças sociais e tecnológicas.

A docente destacou ainda o potencial das redes sociais para ampliar o contacto com o português e divulgar narrativas tradicionais, reforçando a ligação entre a língua e a identidade cultural timorense. “A língua portuguesa não é apenas uma língua de ensino, mas é uma língua de identidade do povo também”, afirmou.

Natércia do Rosário acrescentou que a responsabilidade de preservar e utilizar a língua portuguesa não deve ficar circunscrita às escolas ou aos departamentos de língua portuguesa, devendo envolver diferentes instituições e setores da sociedade.

As XI Jornadas Pedagógicas evidenciaram a importância de articular inovação pedagógica, participação dos estudantes e valorização do património cultural no ensino do português. A reflexão dos participantes destacou a necessidade de aproximar a aprendizagem da realidade timorense, reforçando as competências linguísticas dos alunos e preservando, simultaneamente, a memória coletiva e a identidade cultural do país.

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