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Projeto-piloto de adoção digital prepara o setor do café timorense para a era da ASEAN

Participantes preparam imagens dos seus produtos para divulgação digital/Foto: Diligente

Fotografar café, promover produtos no WhatsApp Business e receber pagamentos pelo telemóvel são algumas das competências que o Timor-Leste Food Lab proporcionou num programa de formação dirigido a pequenas empresas de Ermera e Díli.

O workshop juntou agricultores, produtores, exportadores e gestores de cafetarias para conhecerem ferramentas digitais capazes de facilitar o seu trabalho e de os ajudar a chegar a mais clientes.

O Workshop Nacional de Capacitação do Projeto-Piloto de Adoção Digital para Micro, Pequenas e Médias Empresas (MPME) do Setor do Café realizou-se a 19 e 20 de outubro de 2026, no Agora Food Studio, em Díli. A iniciativa foi organizada e conduzida em estreita parceria pelo Timor-Leste Food Lab (TLFL) e pelo Instituto de Apoio ao Desenvolvimento Empresarial (IADE), tutelado pelo Ministério do Comércio e Indústria (MCI).

Esta formação nacional dá seguimento direto a um workshop de conceção participativa realizado em Díli, em agosto de 2026. Nessa primeira fase, produtores locais, entidades governamentais e parceiros técnicos reuniram-se para identificar os principais obstáculos do agronegócio e desenhar um projeto-piloto prático, ajustado à realidade rural de Timor-Leste. O projeto passou agora da estratégia à execução e pôs em prática as soluções definidas em conjunto, através de sessões práticas ministradas sobretudo em tétum.

Paula Torres, assessora nacional do projeto de digitalização das MPME e da agricultura, explica que a adesão de Timor-Leste à Associação das Nações do Sudeste Asiático (ASEAN) torna ainda mais necessário preparar as pequenas empresas para o uso de ferramentas digitais. A iniciativa é especialmente importante para os agricultores que vendem a sua produção a operadores económicos de maior dimensão. Ermera foi escolhida para o projeto-piloto devido à sua importância na produção nacional de café.

“Esta formação pretende dar às PME a oportunidade de conhecer e utilizar tecnologias digitais. Como a digitalização ainda é algo recente em Timor-Leste, começámos com um projeto-piloto, centrado, numa primeira fase, no setor do café”, resume.

Pagamentos digitais, segurança e promoção de produtos

Para que os participantes saíssem com competências aplicáveis no dia a dia, parceiros especializados orientaram sessões práticas ao longo do workshop, que durou dia e meio. O parceiro técnico Catalpa International abordou competências essenciais de utilização do telemóvel em zonas com rede 2G/3G fraca, a gestão de contactos e boas práticas de segurança digital, como proteger o código PIN e reconhecer burlas na internet.

Os pagamentos digitais e as ferramentas financeiras estiveram entre os destaques do programa. Especialistas da Telemor MOSAN fizeram demonstrações ao vivo de transferências por USSD (*112#) e de abertura de contas, enquanto o Banco Nacional de Comércio de Timor-Leste (BNCTL) promoveu exercícios práticos de banca móvel e de pagamentos com código QR para comerciantes, de modo a tornar mais seguras as compras e vendas do dia a dia.

As sessões práticas conduzidas pelo Timor-Leste Food Lab (TLFL) incluíram ainda fotografia de produto e marketing digital: os participantes aprenderam a tirar boas fotografias de café e a criar catálogos no WhatsApp Business para mostrarem os seus produtos diretamente aos compradores. O TLFL orientou também sessões de acompanhamento individual, com o apoio dedicado de técnicos de terreno do IADE, para ajudar cada MPME a concluir o seu Plano de Adoção Digital (PAD; DAP na sigla inglesa). Parceiros institucionais como a Agência Nacional para as Tecnologias de Informação e Comunicação (TIC Timor) e o Ministério da Agricultura, Pecuária, Pescas e Florestas (MAPPF; MAFF na sigla inglesa) prestaram assessoria técnica durante todo o evento.

Café de Ermera, de Letefoho, do grão à chávena, em três fases numa só imagem: cerejas de café secas ao natural, café verde e torra escura embalada, pronta a servir e a saborear/Foto: Participantes do Grupo 2

Pequenas empresas querem chegar a mais clientes

Para Domingos Salsinha, vice-presidente da Cooperativa Multissetorial Moris Kiak Liberta Hamutuk, de Talimoro, Ermera, a formação é uma oportunidade para modernizar a forma de trabalhar. Até agora, a cooperativa divulgava os seus produtos através de folhetos e recebia sobretudo em numerário. Criou uma página no Facebook há cerca de dois anos, mas a falta de conhecimentos técnicos tem dificultado a sua gestão.

“Antes, fazíamos tudo manualmente. Com esta formação, queremos começar a usar pagamentos digitais e a promover melhor os nossos produtos”, explicou. O dirigente quer também reforçar as competências da equipa no uso do Facebook e do WhatsApp Business para impulsionar as vendas.

Rui da Costa, gestor da Heyday e fornecedor de café de várias cafetarias, considera que a formação lhe apresentou ferramentas digitais que pode aproveitar melhor. “Até agora, só usava o Facebook e o WhatsApp para partilhar informação e divulgar o café. Com esta formação, percebi que há muitas ferramentas digitais que ainda não aproveitamos ao máximo”, afirmou.

Entre as lições aprendidas, destacou a importância de separar as contas pessoais das profissionais. O objetivo é pôr estes conhecimentos em prática para chegar a mais clientes, tanto no mercado nacional como no internacional.

Após a formação, os participantes vão pôr em prática planos de ação nos seus negócios/Foto: Diligente

Aplicar os conhecimentos além do workshop

O Timor-Leste Food Lab e o IADE querem que o trabalho continue além dos dois dias do workshop. Depois da formação, os participantes vão aplicar, durante uma a duas semanas, os respetivos PAD (Plano de Adoção Digital), o que permitirá avaliar e acompanhar a forma como estão a usar estes conhecimentos nos seus negócios.

“A formação não pode ficar por estes dois dias de atividades. Queremos que os participantes se comprometam a aplicar nos seus negócios o que aprenderam”, sublinhou Paula Torres.

As instituições parceiras também defendem a continuidade. Aurito Rodrigues, chefe do Departamento de Desenvolvimento Curricular do IADE, considera fundamental acompanhar os participantes para perceber os resultados na prática. Segundo o responsável, o instituto prevê promover no próximo ano formações em inteligência artificial para empresários e clientes de vários municípios, complementando o trabalho dos parceiros.

Aniceto dos Reis, técnico do Departamento Agrocomercial do MAPPF, associa estas competências à nova realidade regional: “Agora que somos membros da ASEAN, temos de continuar a melhorar a digitalização, sobretudo na promoção e comercialização dos nossos produtos”, afirmou.

Eusébio de Jesus, coordenador da Transformação Digital da TIC Timor, insiste na importância do acompanhamento: “Aprender hoje não quer dizer que os participantes vão dominar tudo amanhã. É fundamental dar continuidade à formação e apoiar os grupos empresariais, porque a tecnologia, sobretudo na área digital, está sempre a mudar.” A instituição poderá continuar a prestar apoio técnico se a iniciativa prosseguir.

Participantes e parceiros do Workshop Nacional de Capacitação no Agora Food Studio, Díli/Foto: Arquivo

O projeto-piloto é financiado pela iniciativa Aus4ASEANFutures e executado em parceria pelo Timor-Leste Food Lab e pela Clickable Impact. Reúne instituições públicas, parceiros técnicos, organizações da sociedade civil e empresas locais, entre eles o MCI, o IADE, o MAPPF, a TIC Timor, a Catalpa International, a Similie, a Telemor MOSAN, o BNCTL, a CARE Timor-Leste, a Associação Café Timor-Leste (ACT), a PARCIC, a Letefoho Café e o Café Atsabe, bem como agricultores e produtores de café de Ermera e Díli.

Com esta experiência, o Timor-Leste Food Lab pretende criar uma base para levar a formação a outros municípios e setores de atividade. Paula Torres aponta o cacau, o feijão e o inhame como exemplos de produtos que poderão ser abrangidos em próximas fases. “Temos grandes expectativas de que este programa não fique limitado a Díli e Ermera, nem apenas ao café. Timor-Leste tem muitos produtos locais com potencial”, conclui.

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