TIMOR EM PERSPETIVA

Subnutrição agrava-se em Timor-Leste enquanto a maioria dos países da ASEAN melhora

Nos mercados timorenses, a abundância de produtos esbarra frequentemente nas barreiras económicas que impedem muitas famílias de aceder a uma alimentação nutritiva/Foto: Diligente

Timor-Leste apresenta o pior resultado entre os países da ASEAN avaliados no Índice Global da Fome 2026. Baixos rendimentos, produção agrícola vulnerável e obstáculos à distribuição ajudam a explicar a persistência das dificuldades de acesso à alimentação.

Na Indonésia, a proporção da população em situação de subnutrição desceu de 18,4%, em 2004–2006, para 6,3%, em 2023–2025. No Camboja, passou de 15,5% para 4,7%; no Vietname, de 15,2% para 6,1%. Timor-Leste também melhorou ao longo dessas duas décadas, mas continua numa posição mais desfavorável: a taxa caiu de 28,8% para 16,9%, mantendo-se acima de todos os países da ASEAN com dados disponíveis.

A trajetória recente acrescenta uma diferença: em Timor-Leste, a subnutrição voltou a aumentar, passando de 14,5%, em 2017–2019, para 16,9%, em 2023–2025. Cerca de uma em cada seis pessoas não consumia habitualmente alimentos suficientes para satisfazer as suas necessidades de energia. Entre esses dois períodos, a subnutrição diminuiu em cinco dos nove países da ASEAN com dados disponíveis.

O contraste surge também no Índice Global da Fome de 2026, uma avaliação mais ampla que combina subnutrição, duas medidas de desnutrição infantil e mortalidade de menores de cinco anos. Entre as referências de 2018 e 2026, sete dos nove países da ASEAN com pontuação publicada melhoraram. Timor-Leste e Malásia foram as exceções, mas o agravamento timorense foi maior.

Membro mais recente da ASEAN, à qual aderiu em 26 de outubro de 2025, Timor-Leste é, com o Laos, um dos dois países da organização na categoria “grave” do índice.

A comparação permite identificar a distância. Para compreender as razões, é necessário olhar para as condições em que as famílias produzem, compram e consomem alimentos.

Progressos regionais, resultados desiguais

A taxa de subnutrição timorense é aproximadamente 2,7 vezes a da Indonésia e 3,6 vezes a do Camboja. Supera também em mais de três vezes a estimativa de 5,3% para o conjunto do Sudeste Asiático, em 2023–2025.

A distância permanece apesar dos avanços timorenses. No Índice Global da Fome, o país passou de 44,1 pontos em 2006 para 27,3 em 2018, antes de subir para 32,5 em 2026. Parte do progresso foi, assim, contrariada pela evolução mais recente.

O agravamento não foi uniforme. Segundo o relatório, o atraso de crescimento e a mortalidade de menores de cinco anos diminuíram, mas a subnutrição aumentou e a emaciação — baixo peso para a altura — mais do que duplicou face à referência de 2018. O documento enquadra estes resultados num contexto de secas, inundações e choques de preços repetidos.

Uma alimentação que não chega a muitas famílias

Uma análise do Programa Alimentar Mundial estimou que, em 2023, 75% dos agregados familiares timorenses não conseguiam suportar o custo de uma alimentação nutritiva. Para uma família de cinco pessoas, o valor diário necessário passou de 5,68 dólares em 2019 para 10,09 dólares em 2023, um aumento de 78%.

Este indicador mostra uma barreira fundamental dentro de Timor-Leste. A existência de alimentos nos mercados não garante que as famílias consigam comprá-los. E obter calorias suficientes não significa ter acesso a uma alimentação diversificada.

Uma investigação publicada em setembro de 2026, com participação da Australian National University, da Menzies School of Health Research e do Instituto Nacional de Saúde Pública de Timor-Leste, identificou a estabilidade dos rendimentos como um fator que condiciona a frequência das refeições e a escolha dos alimentos.

O estudo qualitativo envolveu entrevistas a 34 mães em Díli, Ainaro e Ermera, realizadas entre agosto e outubro de 2025. Destacou ainda o papel das mulheres na gestão alimentar e a importância da partilha entre vizinhos na resposta à escassez.

Em 23 dos 34 agregados, o emprego assalariado ou regular era uma das fontes de rendimento. Dezoito tinham rendimentos mensais entre 100 e 500 dólares. Ainda assim, os relatos identificaram instabilidade económica e dificuldades de acesso à alimentação, mostrando que a existência de emprego no agregado não assegurava, por si só, estabilidade alimentar.

Os autores defendem medidas que estabilizem rendimentos e apoiem quem assegura a alimentação e os cuidados familiares.

Produção vulnerável e mercados difíceis de alcançar

Segundo a FAO, entre os agregados rurais timorenses que praticam agricultura, criação de animais ou pesca artesanal, 97% são pequenos produtores de subsistência e dois terços cultivam menos de um hectare. O acesso limitado à irrigação, aos meios de produção e aos mercados condiciona a produtividade.

Para estas famílias, perder uma colheita pode reduzir simultaneamente a comida disponível e o rendimento necessário para comprar outros alimentos. A exposição à seca ou às inundações torna-se mais difícil de enfrentar quando existem poucas alternativas económicas.

A distribuição acrescenta obstáculos. A análise “Addressing Timor-Leste’s Food Security and Nutrition”, publicada na Development Asia, plataforma do Banco Asiático de Desenvolvimento, identifica as estradas rurais deficientes como um entrave ao transporte e um fator de perdas depois das colheitas. Na época das chuvas, os deslizamentos podem interromper acessos, dificultar o abastecimento e contribuir para aumentos de preços.

O país importa cerca de 60% das suas necessidades de consumo de cereais, sobretudo arroz, segundo a FAO. As compras externas compensam insuficiências da produção nacional, mas mantêm o abastecimento sensível às condições dos mercados internacionais.

O que se pode aprender com a região?

A experiência indonésia aponta para a importância de atuar sobre várias etapas do abastecimento. Num comunicado sobre o Dia Mundial da Alimentação de 2026, a FAO atribui os progressos na redução da fome ao investimento continuado na produtividade agrícola, irrigação, logística, distribuição alimentar e nutrição. A organização salienta, ao mesmo tempo, que a alimentação saudável continua economicamente inacessível a uma parte significativa da população.

O exemplo sugere uma distinção relevante para Timor-Leste: reduzir a insuficiência de calorias e garantir uma alimentação saudável são objetivos relacionados, mas exigem acompanhar tanto a quantidade como a qualidade do que as famílias comem.

O próprio relatório do Índice Global da Fome destaca, a propósito do Camboja e com base numa análise publicada em 2016, a associação entre melhorias na nutrição infantil e maiores recursos familiares, educação dos pais, água e saneamento e acesso a cuidados maternos e infantis. Sublinha também que esses ganhos são vulneráveis à subida dos preços e às inundações.

Soluções já identificadas, resultados por demonstrar

Em Timor-Leste, o relatório HAFOUN foi lançado em setembro de 2025 pelo Governo, através do gabinete do Vice-Primeiro-Ministro para os Assuntos Sociais, em parceria com o PAM. Preparado com apoio técnico do PAM e baseado numa avaliação independente da consultora Mettalytics, propõe intervenções que abrangem investigação agrícola, armazenamento, ligações aos mercados e programas de nutrição. A análise incluiu consultas a mais de cem intervenientes, entre agricultores, comerciantes e responsáveis públicos.

Na divulgação dos resultados do estudo, o PAM refere um retorno estimado de 3,50 dólares por dólar investido nas recomendações.

Há também sinais recentes de melhoria no abastecimento. Em agosto de 2026, a FAO estimou preliminarmente que a produção das principais colheitas de milho e arroz desse ano ficou acima da média dos cinco anos anteriores. Os preços do arroz em julho estavam abaixo dos níveis elevados de um ano antes.

Persistem, contudo, riscos para as próximas colheitas. A La’o Hamutuk recordou informação governamental que apontava para uma redução da precipitação entre novembro de 2026 e abril de 2027, com riscos de seca, escassez de água e redução da produção agrícola. Trata-se de uma previsão, não de perdas já observadas.

A comparação com a ASEAN coloca agora uma questão que ultrapassa o ranking: conseguirá Timor-Leste transformar melhorias nas colheitas e no abastecimento numa redução duradoura da privação alimentar? A resposta dependerá de os alimentos chegarem às comunidades durante todo o ano e de as famílias disporem de rendimento para os comprar.

Comente ou sugira uma correção

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *