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	<title>Cultura - DILIGENTE</title>
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	<title>Cultura - DILIGENTE</title>
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		<title>Programa SUDIKU quer dar espaço aos jovens para preservar e reinventar a cultura timorense</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Lourdes do Rego]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 25 Jul 2026 11:00:48 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Cultura]]></category>
		<category><![CDATA[Destaque]]></category>
		<category><![CDATA[Notícias]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Iniciativa da Associação ArtEmpreender vai selecionar representantes de três dos sete sucos de Dom Aleixo para participarem em formações e apresentações culturais, promovendo a criatividade, a identidade cultural e a economia criativa. A Associação ArtEmpreender lançou, em Díli, o Programa [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p><em>Iniciativa da Associação ArtEmpreender vai selecionar representantes de três dos sete sucos de Dom Aleixo para participarem em formações e apresentações culturais, promovendo a criatividade, a identidade cultural e a economia criativa</em><em>.</em></p>
<p>A Associação ArtEmpreender lançou, em Díli, o Programa SUDIKU (Suku ho Diversidade Kulturál) 2026, uma iniciativa que pretende criar oportunidades para que os jovens do Posto Administrativo de Dom Aleixo desenvolvam e apresentem projetos ligados à cultura timorense. Através de formações, ensaios e apresentações públicas, o programa procura valorizar a diversidade cultural dos sete sucos do posto administrativo, reforçar a identidade nacional e incentivar o desenvolvimento da economia criativa.</p>
<p>As atividades terão como principal espaço o Container Tais, localizado no Institute of Business (IOB), onde decorrerão ações de formação nas áreas da música, dança tradicional, pintura, gastronomia, cinema e outras manifestações artísticas e culturais.</p>
<p>Segundo o coordenador do Programa SUDIKU, Natalino Fernandes Ximenes, a iniciativa nasceu da necessidade de criar espaços onde os jovens possam desenvolver e mostrar os seus talentos, contribuindo simultaneamente para a preservação da riqueza cultural timorense.</p>
<p>“Este programa foi criado para que os jovens possam desenvolver e apresentar projetos criativos inspirados na diversidade cultural de Timor-Leste, como danças tradicionais, música, artes e outras manifestações culturais”, afirmou.</p>
<p>O programa destina-se aos sete sucos de Dom Aleixo, mas, nesta primeira edição, apenas serão selecionados representantes de três sucos, devido à capacidade operacional da iniciativa.</p>
<p>A seleção será feita com base nas propostas apresentadas pelos candidatos, que poderão concorrer individualmente ou em grupo. Os interessados deverão preencher um formulário de candidatura, sendo os projetos avaliados pela organização.</p>
<p>Após a seleção, os representantes dos sucos escolhidos participarão em ações de formação e ensaios durante duas a três semanas antes das apresentações públicas.</p>
<p>As formações decorrerão aos sábados, no Container Tais, abrangendo áreas como desfile, música, dança e outras expressões culturais. Posteriormente, cada suco apresentará o seu trabalho ao público, de acordo com um calendário definido pela organização.</p>
<p>Caso algum dos sucos selecionados reúna um número reduzido de participantes, a organização poderá juntar dois sucos na mesma apresentação.</p>
<p>O programa deverá decorrer até outubro deste ano e, caso os resultados sejam positivos, poderá futuramente ser alargado aos restantes sucos de Dom Aleixo, bem como a outros municípios do país.</p>
<p>Para Natalino Fernandes Ximenes, coordenador do projeto, a iniciativa procura responder à escassez de espaços dedicados à promoção da cultura timorense e ao desenvolvimento artístico da juventude. “Há muitos jovens com talento, mas poucas oportunidades para o demonstrarem. Timor-Leste continua a não dispor de um centro cultural timorense que permita acolher regularmente iniciativas desta natureza”, referiu.</p>
<p>O coordenador considera ainda que a valorização da cultura poderá contribuir para dinamizar o turismo e incentivar a economia criativa. “Queremos atrair turistas através da inovação. O Container Tais representa essa inovação e o tais simboliza a nossa identidade cultural. Também utilizamos pinturas e outras expressões artísticas para tornar este espaço mais atrativo”, concluiu.</p>
<p>O Vice-Reitor do Institute of Business (IOB), Elizário Nazareth Pinto, considera que a educação deve ir além da aprendizagem em sala de aula e contribuir para formar cidadãos conscientes da sua identidade cultural, capazes de inovar e de assumir um papel ativo no desenvolvimento do país.</p>
<p>Na sua perspetiva, iniciativas como o Programa SUDIKU aproximam a educação da comunidade e oferecem aos jovens oportunidades para desenvolverem competências artísticas, criatividade, espírito empreendedor e sentido de pertença.</p>
<p>“Quando os jovens compreendem a sua cultura, a sua identidade e cultivam o patriotismo, tornam-se capazes de dar um contributo real para o desenvolvimento do país”, afirmou.</p>
<p>Elizário Nazareth Pinto sublinhou que a diversidade étnica e cultural de Timor-Leste constitui uma das maiores riquezas nacionais e defendeu que a sua preservação deve envolver toda a sociedade.</p>
<p>Segundo o responsável, a modernização não deve ser encarada como uma ameaça às tradições, mas antes como uma oportunidade para as valorizar e transmitir às novas gerações.</p>
<p>Também o Administrador do Posto Administrativo de Dom Aleixo, José Soares, defendeu que a preservação da cultura deve começar nas próprias comunidades e não depender exclusivamente de instituições ou entidades externas.</p>
<p>“A presença da arte e da cultura no Posto Administrativo de Dom Aleixo tem como objetivo promover a nossa cultura. Não podemos apenas esperar que outras pessoas promovam a nossa cultura; nós próprios devemos estar na linha da frente para a apresentar e valorizar”, afirmou.</p>
<p>José Soares acrescentou que a crescente projeção internacional de Timor-Leste representa uma oportunidade para divulgar a riqueza cultural do país.</p>
<p>Recordou que Timor-Leste integra a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP) e participa também na Associação das Nações do Sudeste Asiático (ASEAN), circunstâncias que, na sua opinião, reforçam a importância de preservar e promover a identidade cultural timorense.</p>
<p>“Devemos continuar a melhorar, a apoiarmo-nos e a incentivarmo-nos para que outros países possam reconhecer e valorizar aquilo que temos, especialmente a riqueza das nossas artes e da nossa cultura”, afirmou.</p>
<p>O administrador apelou ainda à sociedade para continuar a investir no desenvolvimento de capacidades, no fortalecimento da confiança dos jovens e na valorização do património cultural, para que as tradições timorenses sejam cada vez mais conhecidas dentro e fora do país.</p>
<p>Na mesma linha, o chefe da Juventude do Suco Madohi, Cristóvão de Araújo, considera que muitos jovens timorenses possuem talento e criatividade, mas continuam a enfrentar dificuldades para encontrar espaços onde possam desenvolver e mostrar as suas capacidades.</p>
<p>Segundo o responsável, essas competências podem resultar tanto da educação formal como de talentos naturais, sendo essencial criar oportunidades para que os jovens possam aperfeiçoá-las através de atividades positivas.</p>
<p>Cristóvão considera que o Programa SUDIKU poderá desempenhar um papel importante nesse processo, ao proporcionar um espaço onde os jovens possam aprender, experimentar e apresentar o seu trabalho.</p>
<p>“Através de atividades como esta, os jovens têm a oportunidade de desenvolver as capacidades que possuem e, ao mesmo tempo, descobrir o seu melhor potencial”, afirmou.</p>
<p>O responsável saudou a realização da iniciativa, considerando que facilitará o trabalho das organizações juvenis na mobilização de mais jovens para atividades ligadas às artes e à cultura.</p>
<p>Acrescentou que as novas gerações demonstram atualmente maior interesse em participar em iniciativas culturais do que no passado, mas advertiu que esse potencial continuará limitado se não houver investimento em recursos humanos, financiamento e infraestruturas adequadas.</p>
<p>Cristóvão concluiu que Timor-Leste possui um património cultural diversificado que deve continuar a ser preservado e valorizado, defendendo que iniciativas como o Programa SUDIKU podem contribuir para transformar esse património numa oportunidade de desenvolvimento para os jovens e para o país.</p>
<p>Ao reunir jovens, instituições de ensino, autoridades locais e organizações da sociedade civil, o Programa SUDIKU pretende afirmar-se como uma plataforma de valorização da cultura timorense, criando novas oportunidades para que as futuras gerações preservem e reinventem o património cultural do país.</p>
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		<title>Entre Deus e os antepassados: a fé e o lulik continuam a dividir e unir os timorenses</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Lourdes do Rego]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 22 May 2026 11:10:44 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Cultura]]></category>
		<category><![CDATA[Destaque]]></category>
		<category><![CDATA[Notícias]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Em Timor-Leste, a relação entre a fé católica e as crenças tradicionais, como o sagrado, continua a ser uma parte importante da vida da população. Alguns optam por seguir firmemente os ensinamentos da religião, enquanto outros consideram que ambos podem [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p><em>Em Timor-Leste, a relação entre a fé católica e as crenças tradicionais, como o sagrado, continua a ser uma parte importante da vida da população. Alguns optam por seguir firmemente os ensinamentos da religião, enquanto outros consideram que ambos podem coexistir como identidade e orientação de vida.</em></p>
<p>“Disseram que nunca viveríamos bem porque recusámos cuidar da casa sagrada.” Albito Alves ainda se lembra das palavras que ouviu de familiares depois de decidir afastar-se das práticas tradicionais ligadas ao <em>lulik</em>. A decisão criou tensão dentro da família e marcou uma mudança profunda na sua vida espiritual.</p>
<p>Durante anos, Albito utilizou <em>ai-kulit</em> e <em>abut</em>, elementos associados, em algumas comunidades, à proteção espiritual e a poderes ocultos. Hoje, diz que escolheu viver apenas segundo os ensinamentos cristãos.</p>
<p>“Antes, falava frequentemente sobre poderes ocultos e utilizava também <em>ai-kulit</em> e <em>abut</em>. Depois, percebi que queria viver apenas segundo a fé em Deus”, afirmou.</p>
<p>A mudança começou em 2008, quando entrou para a organização Sagrado Coração de Jesus, em Taibessi, Díli. Desde então, acredita que a proteção espiritual deve vir apenas de Deus.</p>
<p>Também Juliana Maria António decidiu afastar-se completamente das práticas tradicionais ligadas aos objetos sagrados e aos rituais ancestrais. “Decidi acreditar apenas em Deus, pois compreendi através das Sagradas Escrituras que Deus é o Criador, e não uma criatura feita pelas pessoas”, afirmou.</p>
<p>Para Juliana, abandonar essas práticas trouxe tranquilidade. “Desde que decidi acreditar apenas em Deus, nunca enfrentei situações de azar ou maldição”, disse.</p>
<p>As histórias de Juliana e Albito refletem um debate silencioso, mas presente em muitas famílias timorenses: até que ponto a fé cristã pode coexistir com as crenças tradicionais ligadas às casas sagradas, aos antepassados e ao lulik?</p>
<p>Em Timor-Leste, cerca de 97,5% da população identifica-se como católica, segundo o Censo de 2022. Apesar disso, as práticas culturais associadas às casas sagradas e aos rituais ancestrais continuam profundamente presentes em muitas comunidades, sobretudo nas zonas rurais.</p>
<p>Enquanto algumas pessoas consideram que essas tradições entram em conflito com os ensinamentos religiosos, outras acreditam que fé e cultura fazem parte da mesma identidade timorense.</p>
<p><strong>Entre a missa e a casa sagrada</strong></p>
<p>No meio da floresta, longe da cidade, Justino da Silva cresceu numa casa sagrada onde os rituais familiares continuam a ser realizados segundo as orientações do <em>lia nain</em>, autoridade tradicional responsável pela preservação das regras culturais.</p>
<p>Ali, entre cerimónias, rezas tradicionais e encontros familiares, aprendeu desde criança que os antepassados continuam presentes na vida da comunidade.</p>
<p>Segundo conta, viver numa zona isolada dificultou o acesso à educação e acabou por impedir a continuação dos estudos. “Como cresci longe da cidade, numa casa sagrada, não consegui frequentar a escola”, explicou.</p>
<p>Apesar disso, continua profundamente ligado às tradições da família e participa regularmente nos rituais culturais realizados pela comunidade. “Participo sempre nos rituais porque tenho receio de infringir as regras culturais e sofrer consequências negativas ou doenças no futuro”, afirmou.</p>
<p>Ao mesmo tempo, Justino garante que essa ligação às tradições não entra em conflito com a sua fé católica. “Acredito na cultura dos antepassados, mas também tenho uma fé forte em Deus”, disse.</p>
<p>Para muitas famílias timorenses, esta convivência entre tradição e religião acontece naturalmente. Participam nos rituais ligados às casas sagradas, mas também frequentam a missa, celebram o Natal e batizam os filhos na Igreja Católica.</p>
<p>Mónica Araújo considera que essa ligação faz parte da própria identidade timorense. “Em Timor-Leste, a nossa riqueza está na diversidade de tradições que, apesar das diferenças, formam o tecido da nossa nação”, afirmou.</p>
<p>Segundo explica, muitas pessoas acreditam simultaneamente na proteção espiritual associada às casas sagradas e na fé católica. “A devoção às casas sagradas e a religião católica caminham lado a lado em muitas comunidades”, disse.</p>
<p>Também Manuel da Silva, <em>lia nain</em> da casa sagrada Letisi, considera que preservar as tradições significa manter viva a herança deixada pelos antepassados. “Nós devemos acreditar na nossa cultura, porque ela vem dos nossos antepassados e foi transmitida até hoje”, afirmou.</p>
<p>Segundo explica, os jovens continuam a participar nos rituais comunitários e na construção das casas sagradas. “Os jovens continuam a mostrar entusiasmo em participar nas tradições”, disse.</p>
<p>O padre salesiano Bernardo Pereira Domingos considera que a cultura e a fé católica podem coexistir. Segundo explica, a própria Igreja Católica reconhece o princípio da inculturação, permitindo integrar elementos culturais locais nas celebrações religiosas. “Quando olhamos para a cultura, não devemos vê-la como uma ameaça, mas como um caminho para nos aproximarmos mais de Deus”, afirmou.</p>
<p><strong>Uma cultura que resistiu à história</strong></p>
<p>O investigador de História Ivo Gonçalves considera que a cultura timorense já estava profundamente enraizada antes da chegada dos portugueses e da expansão do catolicismo.</p>
<p>“A cultura local já existia antes da presença colonial. Existiam relações familiares como <em>fetosan</em> e <em>umane</em>, bem como ligações entre casas sagradas. Era essa cultura que sustentava a sociedade timorense”, afirmou.</p>
<p>Segundo o investigador, durante o período colonial os portugueses recorreram frequentemente aos liurais para aproximar a religião católica das comunidades locais.</p>
<p>Mais tarde, durante a ocupação indonésia, o catolicismo ganhou ainda mais força numa sociedade marcada pela violência, pela fome e pelas deslocações forçadas. “Durante a ocupação, muitas pessoas passaram a procurar proteção e esperança através da religião católica”, explicou.</p>
<p>Apesar das influências externas, Ivo Gonçalves considera que a cultura timorense permaneceu resiliente. “A religião não pode ser separada da cultura, porque ambas fazem parte da identidade da população”, afirmou.</p>
<p>Também o antropólogo Josh Trindade considera que a tradição timorense demonstrou uma forte capacidade de adaptação ao longo da história.</p>
<p>Segundo explica, muitos elementos externos foram integrados nas práticas culturais sem substituir completamente os conhecimentos ancestrais. “Aquilo que vem de fora não é necessariamente visto como algo negativo, mas como um conhecimento novo que complementa o antigo”, afirmou.</p>
<p>O antropólogo aponta exemplos dessa convivência em celebrações religiosas como as festas de Santo António, em Manatuto, onde símbolos católicos e elementos tradicionais coexistem nos mesmos rituais.</p>
<p>Para Josh Trindade, a sobrevivência dessas práticas está diretamente ligada à identidade coletiva do povo timorense. “A tradição é identidade. Enquanto o povo mantiver essa identidade, a tradição continuará viva”, concluiu.</p>
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		<title>Preservar a cor: reviver a tradição das tintas naturais em Timor-Leste</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Lourdes do Rego]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 17 Nov 2025 11:23:58 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Cultura]]></category>
		<category><![CDATA[Destaque]]></category>
		<category><![CDATA[Notícias]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Em Timor-Leste, antigas técnicas de tingimento natural estão a ganhar nova vida — do azul profundo do índigo ao vermelho vibrante do roko-roko. Mais do que simples pigmentos, estas cores representam séculos de história, identidade e ligação à terra. Em [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p><em>Em Timor-Leste, antigas técnicas de tingimento natural estão a ganhar nova vida — do azul profundo do índigo ao vermelho vibrante do roko-roko. Mais do que simples pigmentos, estas cores representam séculos de história, identidade e ligação à terra.</em></p>
<p>Em várias comunidades em Timor-Leste, o conhecimento tradicional sobre corantes naturais, transmitido ao longo de séculos, constitui uma parte importante da identidade cultural. Cada cor no Tais, o tecido tradicional timorense, tecido manualmente por mulheres de diferentes regiões, não é apenas um elemento decorativo, mas contém significado histórico, simbolismo e a identidade de cada grupo étnico. Antigamente, todas as cores do Tais eram produzidas a partir de materiais naturais obtidos de plantas locais, através de um processo longo e meticuloso. No entanto, com o passar do tempo, a modernização e o uso de corantes sintéticos, esta competência essencial na produção de corantes naturais tem vindo gradualmente a desaparecer e é cada vez menos transmitida às gerações mais jovens.</p>
<p>Perante esta realidade, diversas iniciativas locais começaram a ressurgir para documentar, recuperar e reforçar as práticas de tingimento natural, não apenas como património cultural, mas também como uma oportunidade económica sustentável para grupos de mulheres e artesãos nas zonas rurais. Uma dessas iniciativas surge através do trabalho de acompanhamento desenvolvido pela Reloka Foundation com vários grupos de produção de corantes naturais, que procuram garantir que estas competências permaneçam vivas e possam ser transmitidas às gerações futuras.</p>
<p>Desde o azul índigo e o vermelho roko-roko até aos tons de castanho e creme obtidos de plantas das florestas, cada cor não é apenas um resultado técnico, mas um reflexo da relação profunda entre o ser humano e a natureza. Contudo, estas competências ancestrais enfrentam hoje uma ameaça real: a modernização acelerada, a diminuição da regeneração de conhecimentos e a entrada de corantes sintéticos baratos, que têm vindo a marginalizar cada vez mais as práticas tradicionais.</p>
<p>“A Reloka abriu em 2023 e começou com a reciclagem, transformando garrafas em copos, e também começou com bordados, o que criou oportunidades de trabalho para pessoas com deficiência”, disse Hilly Bouwman, fundadora e gestora executiva voluntária.</p>
<p>Todos os produtos que são fabricados serão vendidos na sua loja em Palapaso e fornecidos a locais que possam atrair pessoas para ver e comprar, como restaurantes, cafés, hotéis ou outros espaços turísticos.</p>
<p>“A Reloka também possui o programa Kor Natural, um programa inovador focado na investigação, conservação, educação e desenvolvimento de mercado para corantes naturais. Este programa não só preserva as tradições locais, como também promove o empoderamento económico das mulheres e reforça o movimento da economia circular. Ver que o conhecimento sobre as cores naturais e o Tais está lentamente a desaparecer é precisamente o motivo pelo qual queremos trabalhar nesta área”, disse a fundadora.</p>
<p><strong>Como se produzem as tintas naturais: o processo tradicional</strong></p>
<figure id="attachment_21049" aria-describedby="caption-attachment-21049" style="width: 791px" class="wp-caption aligncenter"><img fetchpriority="high" decoding="async" class=" wp-image-21049" src="https://www.diligenteonline.com/wp-content/uploads/2025/11/WhatsApp-Image-2025-11-17-at-02.44.15_71c5ace8-516x229.jpg" alt="" width="791" height="351" srcset="https://www.diligenteonline.com/wp-content/uploads/2025/11/WhatsApp-Image-2025-11-17-at-02.44.15_71c5ace8-516x229.jpg 516w, https://www.diligenteonline.com/wp-content/uploads/2025/11/WhatsApp-Image-2025-11-17-at-02.44.15_71c5ace8-900x400.jpg 900w, https://www.diligenteonline.com/wp-content/uploads/2025/11/WhatsApp-Image-2025-11-17-at-02.44.15_71c5ace8-768x341.jpg 768w, https://www.diligenteonline.com/wp-content/uploads/2025/11/WhatsApp-Image-2025-11-17-at-02.44.15_71c5ace8.jpg 1080w" sizes="(max-width: 791px) 100vw, 791px" /><figcaption id="caption-attachment-21049" class="wp-caption-text">Lis fuik, katapang, indigo/Foto: Diligente</figcaption></figure>
<p>Muitas comunidades em Timor-Leste têm uma longa tradição na produção de cores naturais para tecidos, artesanato e rituais culturais. No entanto, o conhecimento sobre as plantas utilizadas para corantes, as técnicas de extração e os métodos de mistura de cores está cada vez menos a ser transmitido às gerações mais jovens. As mudanças no estilo de vida, a entrada de produtos sintéticos baratos e a falta de documentação têm colocado estas competências em risco de extinção. Se não forem preservadas, as comunidades não apenas perderão a sua identidade cultural, mas também um potencial económico de elevado valor, dado que as cores naturais têm uma procura crescente tanto no mercado local como internacional.</p>
<p>O Diligente obteve uma explicação de Secília Assunção, coordenadora do Programa Kor Natural e SUKU, sobre como o seu grupo produz corantes a partir de plantas silvestres. Para obter a cor azul a partir da planta klan (índigo), Secília explicou que “em primeiro lugar, as folhas devem ser colhidas no momento certo, ou seja, antes do nascer do sol. Depois disso, as folhas são deixadas de molho num balde durante 24 horas e a água é depois transferida. O sedimento obtido, após ser filtrado para um novo balde, pode ser usado imediatamente. Este sedimento pode ser mergulhado juntamente com fios ou tecidos para obter a cor desejada.”</p>
<p>Entretanto, existe também a cor vermelha, obtida a partir da planta roko-roko (espinho-de-Mysore). Diferentemente da produção da cor azul, a produção da cor vermelha utiliza a casca da árvore roko-roko. Secília explicou: “Antes de ser utilizada, a árvore deve ter pelo menos seis anos de idade. A casca é depois retirada e fervida durante uma hora, após o que os fios ou tecidos são mergulhados durante 30 minutos para obter a cor.”</p>
<p>Além disso, existe também a <em>katapang</em> (Terminalia catappa), que pode produzir cores como amarelo-acastanhado e castanho. “Colhem-se as folhas, cortam-se e cozinham-se durante uma hora. A água resultante torna-se a solução de corante. No entanto, as folhas das árvores mais velhas produzem uma cor mais escura, enquanto as folhas mais jovens dão uma cor mais clara”, explicou.</p>
<p>A Allium ursinum, em tétum <em>lis fuik</em>, também pode produzir cor, permitindo obter um tom creme, e o processo é semelhante aos outros. “As folhas de cebola selvagem são colhidas, limpas, lavadas, trituradas e depois espremidas para extrair o sumo. É a partir deste sumo que se obtém a cor creme”, acrescentou.</p>
<p>Em todos os processos de tingimento com katapang, klan, roko-roko e lis fuik, estes materiais podem produzir diversas cores dependendo do tempo de imersão ou fervura, bem como da parte da planta utilizada. Uma fervura ou imersão curta tende a produzir cores mais claras ou suaves, enquanto uma fervura prolongada gera cores mais intensas e escuras. Além disso, a parte da planta utilizada — folhas, frutos ou casca — também influencia a tonalidade e a intensidade da cor obtida.</p>
<p><strong>O papel do mordente e a descoberta do <em>Uskai </em>como fixador de cores local</strong></p>
<p>Antes de os fios ou tecidos serem tingidos para obter cores duradouras, estes são previamente mergulhados em água misturada com mordente, uma substância fixadora de cor utilizada no tingimento natural para que a cor adira melhor, resista à lavagem e se mantenha por mais tempo no tecido.</p>
<p>Antes, a Reloka tinha de importar mordente da Indonésia a um preço elevado. Através do trabalho da Reloka, descobriu-se uma planta no município de Ermera chamada Uskai, também conhecida como Symlosis, que possui a mesma composição química e percentagem do mordente importado da Indonésia. “Embora tenhamos tentado cultivá-la noutros locais, infelizmente o Uskai não sobreviveu”, revelou Armindo de Deus, coordenador do projeto Kiwa.</p>
<p>Depois de a encontrarem, levaram-na para a Indonésia para uma análise laboratorial e os resultados apresentaram a mesma percentagem. “Um colega de Ermera contou-me que, antigamente, os mais velhos colhiam as folhas de Uskai para as vender aos anciãos que teciam Tais, com a mesma função. Com base nesse relato, fomos procurá-la e levámo-la para testes laboratoriais — e os resultados foram positivos”, contou o coordenador.</p>
<p>O processo de produção do mordente consiste em esperar que as folhas secas de Uskai caiam, depois triturá-las até ficarem finas, moê-las e peneirá-las para obter a melhor textura. Finalmente, o mordente fica pronto para uso. “Agora que já estabelecemos o processo, a comunidade pode escolher e também aceder ao método, permitindo-lhes definir o preço. Depois, nós podemos selecionar e voltar a comercializá-lo”, disse Armindo.</p>
<p>O mordente natural torna-se um elemento essencial no processo de tingimento, pois sem ele a cor no tecido não duraria por muito tempo. No entanto, ao contrário de outras cores, tons como o azul e o preto não necessitam de mordente. Além da madeira de teca, que possui elevado valor económico em Timor-Leste, o país também tem muitas outras plantas com potencial para gerar rendimento, como diversas espécies silvestres, incluindo o índigo, a <em>katapang </em>e várias outras.</p>
<p>Recorde-se que, no passado dia 26 de outubro, Timor-Leste se tornou oficialmente membro da ASEAN, abrindo grandes oportunidades para o desenvolvimento da produção de corantes naturais, bem como para aproveitar o potencial das plantas locais que até agora não têm sido plenamente exploradas, proporcionando um maior valor económico para a população.</p>
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		<title>Alimentos proibidos, espíritos ancestrais e rituais de cura: os tabus que moldam o que se come em Timor-Leste</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Lourdes do Rego]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 07 Aug 2025 11:53:40 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Cultura]]></category>
		<category><![CDATA[Destaque]]></category>
		<category><![CDATA[Notícias]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Em Timor-Leste, há alimentos que não se comem — não por razões médicas ou religiosas convencionais, mas por respeito às tradições orais, aos espíritos dos antepassados e ao direito consuetudinário. De enguias a ervilhas, passando por carne de cão, os [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p><em>Em Timor-Leste, há alimentos que não se comem — não por razões médicas ou religiosas convencionais, mas por respeito às tradições orais, aos espíritos dos antepassados e ao direito consuetudinário. De enguias a ervilhas, passando por carne de cão, os tabus alimentares mantêm-se vivos através de rituais, mitos e sanções invisíveis, muitas vezes transmitidos em segredo entre gerações.</em></p>
<p>As tradições orais em Timor-Leste não são apenas uma expressão cultural &#8211; constituem uma identidade viva para cada pessoa. Estas tradições abrangem regras e normas que orientam a forma de viver, falar, cooperar e se relacionar em sociedade.</p>
<p>Nas casas tradicionais ou sagradas, a palavra dos antepassados assume um valor simbólico profundo, e as normas transmitidas oralmente são seguidas com rigor, mesmo quando as suas origens já não são plenamente compreendidas. Como em tantos outros aspetos da vida, a alimentação também desempenha um papel central nestas práticas.</p>
<p>Em algumas casas, determinados alimentos são proibidos para certos descendentes. Não por serem, em si, considerados sagrados, mas por estarem tradicionalmente associados ao sagrado. Mesmo sem explicações claras quanto à sua origem, essas proibições continuam a ser respeitadas.</p>
<p>Estas práticas refletem uma relação espiritual com a terra, com o ambiente e com narrativas ancestrais que, muitas vezes, não podem ser discutidas abertamente. São transmitidas de geração em geração como forma de preservar a tradição oral e manter o respeito pelos laços espirituais e comunitários.</p>
<p>Sérgio da Silva, da comunidade Ara Diga, da tribo Ua-Bubu, no Posto Administrativo de Ossu, em Viqueque, contou que, na sua casa sagrada, existe uma proibição ancestral quanto ao consumo de banana vermelha e cana-de-açúcar vermelha. Esta regra é seguida desde tempos imemoriais, embora não exista uma explicação concreta para a sua origem.</p>
<p>“Sigo esta proibição desde criança, mas, em 2022, enquanto trabalhava num café na Praia dos Coqueiros, pedi um batido cujo ingrediente principal era banana. Após terminar o trabalho e antes de pagar, reparei que havia bananas vermelhas no congelador. Perguntei ao pessoal do café sobre os ingredientes e confirmaram que usaram bananas vermelhas. Apesar disso, não me aconteceu nada.”</p>
<p>Contou ainda que partilhou o episódio com o pai, que lhe respondeu que, sendo acidental, não havia problema. Mas, caso o consumo tivesse sido intencional, já não seria permitido. Até hoje, Sérgio continua sem saber exatamente por que motivo estes alimentos são proibidos pela sua casa sagrada.</p>
<p>Nélia da Costa, da casa sagrada de Wataque, situada no Posto Administrativo de Quelicai, município de Baucau, afirmou que existe uma proibição quanto ao consumo de ervilhas, por se acreditar que causam problemas de saúde como inchaço corporal e flatulência.</p>
<p>“O meu pai disse que não comíamos ervilhas na casa tradicional há muito tempo, e a tradição continua. Tenho um primo que, uma vez, comeu ervilhas e, pouco depois, o corpo e o estômago ficaram inchados. Fizemos um ritual de cura: usámos uma moeda de prata para lhe coçar a língua e, depois, deitámo-la fora. Isso significa deitar fora a dor.”</p>
<p>Uma situação semelhante foi relatada por Adérito Pinto, da comunidade consuetudinária de Boi Aele, no Posto Administrativo de Watulari, também em Viqueque. Contou que a sua irmã mais velha comeu feijão por engano durante uma festa. Quando regressou a casa, começou a sentir dores, surgiram caroços no corpo e teve dores de barriga.</p>
<p>“A minha irmã voltou com febre alta. Tivemos de a levar à casa tradicional para realizar um ritual de cura, conforme a tradição, com orações e palavras sagradas. Só depois de recuperar é que pudemos regressar”, explicou.</p>
<p>Outro exemplo vem de Nicodemos Espírito Santo, descendente da casa tradicional Adasoran, no suco Funar, Posto Administrativo de Laclubar, em Manatuto. As enguias, animal viscoso de água doce que muitos consideram uma iguaria, estiveram durante décadas banidas da sua alimentação. O motivo era uma tradição oral transmitida pela família, que associava este animal a poderes especiais, quase místicos.</p>
<p>“Quando era criança, os meus pais e avós diziam que este animal tem um ‘poder’ especial na nossa tradição — o <em>lisan</em>. Sendo o filho mais velho da família, eu tinha de seguir essa tradição. Acreditava-se que, se alguém comesse enguia, podia sofrer de diarreia, dores musculares, doenças de pele e, acima de tudo, perder os bens — que escorregariam como a pele da enguia”, relatou.</p>
<p>Contudo, um dia decidiu provar enguia e teve uma forte dor de estômago. O pai realizou então um ritual tradicional, que consistia em segurar uma moeda na mão enquanto pedia desculpa aos antepassados e à tradição oral da família. “Depois do ritual, voltei a comer enguia. É saborosa e, desde então, nunca mais tive problemas de saúde nem má sorte.”</p>
<p>Manuel da Silva, de uma casa tradicional em Letiisi, afirmou que, na sua tradição, nenhum alimento é permanentemente proibido, mas existem interdições que variam consoante a época. Por exemplo, o milho e o arroz são proibidos antes da colheita. Realizam-se rituais, como oferendas aos espíritos ancestrais (Matebian), que concedem permissão para o consumo.</p>
<p>“Quando semeamos e a chuva começa a cair, ainda não podemos consumir os produtos. Segundo os relatos antigos, estes alimentos eram muito difíceis de obter, e o milho e o arroz eram considerados essenciais para todos. Por isso, durante o período da plantação e antes da colheita, realiza-se um ritual — semelhante a um carnaval — a nível da aldeia. Só depois é permitido consumi-los. Esta prática mantém-se até hoje, embora com algumas alterações”, explicou.</p>
<p>Manuel continuou a descrever certos alimentos considerados sagrados pelas casas tradicionais, cuja importância tem sido transmitida de geração em geração. Segundo contou, quando uma mulher oriunda de outra casa tradicional — onde determinados alimentos são proibidos — entra na sua casa (por exemplo, através do casamento), realiza-se um ritual para que ela possa consumir os alimentos que antes lhe eram interditos.</p>
<p>“Quando uma mulher se casa com alguém da nossa família e existem alimentos proibidos para ela, realizamos um ritual de bênção ou de partilha com a família da mulher. Oferecemos, por exemplo, uma vaca, uma cabra ou até um porco. Em troca, a nossa família recebe algo da parte deles — geralmente alimentos tradicionais. Depois disso, explicamos que, embora aquele alimento fosse anteriormente proibido, agora já não o é, e a mulher pode consumi-lo livremente”, disse.</p>
<p>Manuel da Silva acrescentou ainda que pessoas de outras casas tradicionais possuem também alimentos proibidos. De acordo com o seu conhecimento e com as histórias transmitidas oralmente, os antepassados identificaram certos alimentos como sagrados, impondo restrições alimentares. Na sua tradição, por exemplo, existe um tabu relativamente à carne de cão, especialmente para as mulheres.</p>
<p>“Na nossa tradição, o tabu é a carne de cão. As mulheres não a podem comer porque, segundo a crença, depois de a consumirem, podem começar a comportar-se como cães — tornam-se mais propensas a discutir, gritar ou faltar ao respeito aos outros”, afirmou.</p>
<p><strong>Perspetiva antropológica: tabus alimentares como expressão espiritual e mecanismo de harmonia social</strong></p>
<p>A antropóloga Ana Carolina de Oliveira explicou que os tabus alimentares, presentes em diversas casas tradicionais timorenses, não devem ser interpretados como sinais de ignorância ou falta de conhecimento. Pelo contrário, são práticas culturais profundamente enraizadas que regulam a relação entre os humanos e o que está para além do humano.</p>
<p>Segundo a especialista, “há várias formas de compreender a proibição de certos alimentos — em algumas casas são permitidos, noutras não. Na antropologia, a origem dessas proibições, incluindo as alimentares, está geralmente ligada à preservação e reprodução da cultura”.</p>
<p>Embora a origem exata dos tabus seja difícil de determinar — mesmo em conversas com anciãos e membros das comunidades, a justificação mais comum é que “sempre foi assim” —, Ana Carolina sublinha que os tabus funcionam como mecanismos de harmonia entre as casas tradicionais. “Estabelecem um equilíbrio nas relações sociais e espirituais entre os grupos.”</p>
<p>A antropóloga lembra que os tabus alimentares são comuns em várias culturas, como nas religiões judaica e islâmica, que proíbem o consumo de carne de porco, ou no hinduísmo, onde a vaca é considerada sagrada. “No Islão, por exemplo, existe uma distinção entre alimentos halal e haram, que regem a relação entre os crentes e o sagrado. É uma forma de manter a pureza espiritual.”</p>
<p>Em Timor-Leste, os tabus não estão necessariamente ligados à religião formal, mas a uma visão espiritual do mundo. “Acredita-se que o respeito pelos tabus evita doenças ou conflitos com os antepassados. Seguir essas interdições é manter uma relação de proximidade e respeito com a ancestralidade”, concluiu.</p>
<p style="text-align: justify;">A antropóloga sublinhou que as proibições sociais desempenham um papel fundamental na organização das sociedades, atuando não apenas na manutenção da coesão social, mas também como instrumentos de gestão coletiva e de construção da identidade individual e coletiva.</p>
<p style="text-align: justify;">“Na perspetiva da antropologia, estas proibições têm uma função social muito importante na estrutura da sociedade. Regulam as relações entre as pessoas e entre estas e aquilo que não é humano, ao longo de um período de tempo muito extenso”, explicou.</p>
<p style="text-align: justify;">Segundo a investigadora, estas práticas contribuem para a perpetuação da ordem social, mesmo quando sofrem transformações. Acrescentou que funcionam também como formas de gestão dos recursos naturais, humanos e simbólicos disponíveis nas comunidades.</p>
<p style="text-align: justify;">“Além da coesão e do respeito, estas práticas representam uma forma de gerir os recursos disponíveis para a reprodução da comunidade ou do grupo. Há ainda outro elemento que considero essencial: o facto de as proibições ou as orientações sobre o que se deve ou não fazer, consoante a época do ano ou o período de um ritual, dizerem muito sobre quem a pessoa é no mundo”, afirmou.</p>
<p style="text-align: justify;">Um dos pontos centrais referidos por Ana Carolina prende-se com o impacto destas práticas na construção da identidade. “Elas reforçam não só a identidade coletiva, mas também uma identidade pessoal. Ao passar por estas proibições, a pessoa percebe-se no mundo e é percecionada pelos outros. Trata-se de uma relação dupla, que define a posição do indivíduo no mundo, esteja ou não relacionada com a religião”, destacou.</p>
<p style="text-align: justify;">A antropóloga acrescentou que estas práticas nem sempre estão ligadas à religião, embora frequentemente dialoguem com dimensões simbólicas profundas. Num mundo marcado por rápidas transformações e processos de desenvolvimento, estas expressões culturais enfrentam, segundo disse, desafios significativos.</p>
<p style="text-align: justify;">“Vivemos numa sociedade onde práticas tradicionais podem ser vistas como irracionais, inclusive por membros da própria cultura. Mas o maior desafio é que não sejam analisadas com uma visão etnocêntrica — aquela que julga o outro a partir dos nossos próprios valores e referências culturais”, alertou.</p>
<p style="text-align: justify;">Para Ana Carolina, é fundamental compreender estas práticas no contexto em que surgem, respeitando a lógica interna de cada grupo. “O mundo é dinâmico e isso aplica-se a tudo. As práticas mudam, sim, mas isso não invalida a sua importância. É preciso um olhar mais atento e menos julgador”, concluiu.</p>
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		<title>Lia-Na’in: justiça tradicional em Timor-Leste, entre valores culturais e quadros legais modernos</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Lourdes do Rego]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 04 Jul 2025 12:56:55 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Cultura]]></category>
		<category><![CDATA[Destaque]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>A justiça tradicional em Timor-Leste mantém-se viva através dos lia-na’in, na resolução de conflitos na comunidade com base em costumes, tradições orais e heranças ancestrais. Timor-Leste é um país marcado pelas tradições orais e por heranças que moldam a cultura [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p><em>A justiça tradicional em Timor-Leste mantém-se viva através dos lia-na’in, na resolução de conflitos na comunidade com base em costumes, tradições orais e heranças ancestrais.</em></p>
<p>Timor-Leste é um país marcado pelas tradições orais e por heranças que moldam a cultura e os costumes dos povos. Os <em>lia-na’in</em> são “guardiões culturais” que desempenham um papel importante na resolução de problemas a nível comunitário. Atuam como mediadores em questões do quotidiano: quando morre alguém, nas negociações ou trocas (comerciais, de bens, etc.), e nos conflitos familiares. Em Timor-Leste, a presença dos <em>lia-na’in</em> é considerada importante para a convivência dos cidadãos. À medida que o número de membros de uma família ou de uma comunidade aumenta, torna-se necessária a existência de uma figura que atue como porta-voz, mediando todas as partes e gerindo situações de conflito.</p>
<p>O antropólogo timorense Josh Trindade afirma que é importante distinguir entre o papel dos <em>lia-na’in</em> e o dos líderes tradicionais. Na estrutura tradicional da sociedade timorense, segundo Josh, existem: o <em>liurai,</em> conhecido como o líder político; o <em>dato</em>, que é o líder espiritual (responsável pelos rituais); e o <em>lia-na’in,</em> que tem uma função própria e não é menos importante que os outros. O antropólogo refere que “os <em>lia-na’in</em> não são líderes tradicionais no sentido político ou espiritual. Todos têm as suas próprias ‘guerras’ ou responsabilidades”.</p>
<p>Os <em>lia-na’in</em> acabam por ter um papel importante na transmissão cultural. Como explica Josh Trindade, têm a missão de ensinar valores, tradições e hábitos culturais às gerações mais jovens, para que compreendam os vários modos de vida, à luz dos valores ancestrais. “Os <em>lia-na’in</em> têm também a responsabilidade de ensinar as crianças e as novas gerações acerca do seu próprio papel na comunidade e do modo de vida, para que os mais novos possam seguir os seus passos. Porém, a preservação cultural não é apenas responsabilidade dos <em>lia-na’in</em>. Isso faz parte de todos os membros da sociedade timorense, em que cada pessoa trabalha para a conservação dos valores culturais da sua respetiva área”, explicou.</p>
<p>A nível das aldeias, os <em>lia-na’in</em> não só têm responsabilidades culturais, como também desempenham um papel importante na resolução de conflitos, incluindo casos que envolvem atos criminosos, sejam eles de carácter público ou semipúblico. A chamada justiça informal é vista, em Timor-Leste, como uma alternativa ao sistema de justiça formal, mais burocrático e distante da comunidade.</p>
<p>Manuel da Silva, um <em>lia-nain</em> da casa tradicional de <em>Letisi,</em> no município de Viqueque, com 10 anos de experiência, apresentou a sua visão sobre os valores e as limitações do direito consuetudinário, ou costumeiro. Antes da existência do direito formal, Timor-Leste já se regia pelo direito informal (consuetudinário), que resolvia os problemas da comunidade, com base em regras herdadas das gerações anteriores. A prática tem-se mantido até aos dias de hoje, e os <em>lia-na’in</em> continuam a aplicar o sistema costumeiro, com base na lei tradicional, no respeito pela liberdade de expressão e nas crenças da comunidade. &#8220;O nosso direito consuetudinário também é aplicado em casos de violência doméstica ou assédio sexual. Se houver provas, o agressor receberá sanções, como multas ou pagamento em dinheiro à vítima&#8221;, acrescentou.</p>
<p>No caso das vítimas, Manuel explicou que têm sempre a liberdade de escolher entre a via formal e a via informal da justiça. &#8220;Acho que a justiça formal é a melhor escola. E podem fazê-lo. Não forçamos ninguém e respeitamos os direitos das vítimas&#8221;, acrescentou.</p>
<p>Apesar de ser a solução para muitos problemas da comunidade, os <em>lia-na’in</em> reconhecem que há limitações no sistema tradicional. Nesses casos, recorre-se à justiça formal. &#8220;Resolver problemas não é fácil. Se houver violência, a decisão está sempre do lado da vítima. Se a situação for difícil de solucionar, entregamos o caso ao sistema formal&#8221;, disse Manuel.</p>
<p><strong>Entre a justiça e os acordos familiares</strong></p>
<p>O caso de “Jacinta” (nome fictício) ilustra uma realidade que acontece com frequência em Timor-Leste, sobretudo em casos de violência doméstica contra mulheres. Jacinta admitiu ter sofrido violência verbal e física, com um grande impacto na sua saúde mental, levando-a a separar-se do marido. “Decidi separar-me dele. No entanto, antes disso, juntámos os <em>lia-na’in</em> e as famílias para uma reunião. Perguntaram o que tinha acontecido e eu disse que não queria continuar o casamento. Todo ouviram e respeitaram a minha decisão”, explicou Jacinta.</p>
<p>A jovem mãe disse que o sistema costumeiro oferece espaço para discussão e que os <em>lia-na’in</em> funcionam como mediadores. Se não houver uma solução nestas reuniões, o último recurso será um acordo informal. Jacinta sublinhou que “não há sanções neste contexto, apenas acordos informais. Temos vivido separados e não podemos voltar a estar juntos. Ainda assim, como temos filhos, não tenho a certeza quanto ao futuro desse acordo. Ele deverá continuar a ser controlador e, pessoas com esta tendência, estão sempre a ameaçar”.</p>
<p>Jacinta queria recorrer ao sistema formal, mas enfrentou obstáculos como processos burocráticos, prazos longos e desconfiança por parte das famílias. Optou, por isso, pelo sistema tradicional, por ser mais rápido, apesar das falhas e de o considerar injusto. &#8220;Não tenho experiência com o sistema formal. Mas os abusos de que fui vítima deixaram marcas e precisam de ser levados à justiça. É importante recorrer à justiça formal, especialmente pela segurança das crianças&#8221;, disse.</p>
<p>Por outro lado, Jacinta contou que o seu irmão agrediu fisicamente a mulher. Mais uma vez, o problema não foi levado ao tribunal e o caso foi resolvido pelos <em>lia-na’in</em>. Decidiram sancionar o marido e a mulher com uma multa simbólica de um tais. &#8220;Quando aquilo aconteceu, a mulher pegou nas roupas do marido e levou-as à casa da irmã dele. Os <em>lia-na’in</em> consideraram desrespeitosas as ações da mulher perante a cunhada, e ordenaram o casal a oferecer um tais à irmã do marido&#8221;, acrescentou.</p>
<p>A resolução de problemas através do direito costumeiro em Timor-Leste está dependente da cultura de cada tribo. Neste caso, são da tribo Bunak, em que a mulher é considerada líder e guardiã da Casa Sagrada.</p>
<p>Ainda assim, apesar de a justiça informal ser a solução para os problemas da maioria da população timorense, a violência continua a apresentar números preocupantes. Como referiu Jacinta, as famílias, incluindo as vítimas, perdem coragem de denunciar os casos à polícia, por acharem que vai prejudicar as relações familiares, sobretudo a vida e o futuro das crianças. &#8220;Mesmo que o caso pudesse ser classificado como crime público, a família não procurou assistência jurídica, porque não queriam expor as crianças ao sofrimento de um processo judicial e prejudicar as relações familiares&#8221;, confessou.</p>
<p><strong>Entre a riqueza cultural e a justiça moderna</strong></p>
<p>As discussões sobre a justiça tradicional em Timor-Leste têm realçado a tensão entre os fortes valores culturais e um sistema jurídico moderno, regido pela legislação nacional e pelos princípios dos direitos humanos. Os <em>lia-na’in, </em>como guardiões da tradição, continuam a resolver os conflitos locais de acordo com os costumes, mas os especialistas têm-se referido à justiça informal como manifestamente insuficiente perante crimes mais graves, como a violência doméstica e o assédio sexual.</p>
<p>O Ministro da Justiça, Sérgio Hornai, afirmou que o processo de avaliação, com recomendações sobre a justiça tradicional, está bem encaminhado para ser considerado parte do sistema de justiça nacional. Salientou que os direitos consuetudinários devem ser respeitados, mas que esse sistema precisa de ser ajustado à legislação nacional para evitar a violação dos princípios da igualdade de género e da proteção legal. &#8220;Não devemos conceder poderes ilimitados que possam ser abusados. Os <em>Lia-na’in</em> devem saber que podem decidir de acordo com os costumes, sem contrariar o princípio da igualdade&#8221;, disse o Ministro.</p>
<p>O jurista Sérgio Quintas defende a ideia de harmonizar a justiça tradicional com o sistema jurídico nacional, sem atropelar princípios legais, promovendo sinergias entre cultura e lei.</p>
<p>“A justiça tradicional deve permanecer, porque há valores que estão presentes na nossa sociedade desde os nossos antepassados. Os problemas semipúblicos, como danos ou crimes menores, podem ser resolvidos localmente, uma vez que os tribunais formais são caros e distantes das aldeias”, referiu.</p>
<p>O jurista considera que se devem distinguir “crimes semipúblicos, que podem, em princípio, ser resolvidos pelos <em>lia-na’in</em> e pela família”, de crimes públicos, como o homicídio e a violência sexual contra crianças, que as autoridades comunitárias não podem resolver. Esses crimes, reforça, “devem ser julgados nos tribunais formais”.</p>
<p>Sérgio sugere ainda que as autoridades locais, a igreja e o Governo assumam um papel ativo na educação da população, principalmente na partilha de informações que permitam distinguir a justiça formal da informal e que a segunda nem sempre pode ser usada.</p>
<p><strong>O que diz a sociedade civil sobre direito costumeiro</strong></p>
<p>A responsável da Rede Feto, Zélia Fernandes, afirmou que conflitos a nível familiar ou social podem ser resolvidos dentro da própria comunidade. “Mas, quando a ação se configura um crime, a sua resolução já não está no âmbito comunitário e deve seguir o processo legal. Não devemos generalizar e dizendo que todos os problemas podem ser resolvidos no suco. Mesmo que o problema pareça pequeno, as suas consequências podem ser graves para a vida das vítimas. Não podemos apenas tentar encobrir isto com a vergonha, oferecendo búfalos e <em>tais</em>, comprando vinho e porco para convivermos juntos e o problema fica resolvido. Não é assim tão simples”, declarou.</p>
<p>“Não devemos esperar que algo aconteça para depois agirmos. Pelo menos, as pessoas precisam de aprender a avaliar os casos que podem ser resolvidos na comunidade e os que devem seguir o processo legal”.</p>
<p>A presidente da Rede Feto afirmou que a Fokupers, uma das organizações fundadoras da Rede Feto, oferece apoio às vítimas, tanto sob a forma de assistência jurídica, como na preparação para o processo judicial, sobretudo em casos de violência doméstica e violência sexual.</p>
<p>“Alguns casos chegaram aos tribunais, mas há vítimas que querem retirar as suas queixas para que possam ser resolvidas de forma amigável, familiar ou cultural. Não apoiamos estas formas de resolução. Em vez disso, encaminhamos as vítimas para instituições como a ALFeLa ou o JSMP, para que possam denunciar o caso ao Ministério Público”, explicou.</p>
<p>Zélia enfatizou ainda que a formação para <em>lia-na’in</em> tem sido discutida, porque o sistema de justiça tradicional vem de um passado muito distante da realidade atual. “É difícil mudar. Mas este processo de mudança deve começar em cada pessoa e, lentamente, passar de uma família para a outra”, sugeriu.</p>
<p>Para que a justiça tradicional não continue a ser um espaço que permite a desvalorização de casos de violência, a representante da sociedade civil aponta o caminho da educação cívica e das ações de sensibilização junto das comunidades.</p>
<p>“Quando ouvimos a frase ‘as mulheres são deusas’, não significa que as mulheres tenham de aceitar o assédio em espaços públicos. Esta frase tem outro significado, que remete para o facto de serem consideradas fonte de vida ou dadoras de vida. Por isso, devem ser respeitadas e valorizadas. As mulheres são promotoras da paz, gestoras e educadoras. Mas, em casos de violência, as vítimas são sempre as mulheres”, concluiu.</p>
<p>Para Cesário César, ativista de direitos humanos, em linha com o Código de Processo Penal, a denúncia de crimes públicos não depende da vítima, “por isso, o <em>lia-na’in</em> não deve interromper no processo legal”.</p>
<p>&#8220;Podem conseguir [os <em>lia-na’in</em>] resolver pacificamente a questão entre o agressor e a vítima, mas o processo não deve ser interrompido. Se obstruírem o processo legal, eles próprios podem ser categorizados como autores de crime&#8221;, disse.</p>
<p>O ativista aconselha a população timorense a recorrer à justiça formal, “nem que para isso recorram a organizações não governamentais”. Algumas ONG têm atuado no acompanhamento e na assistência legal de pessoas vulneráveis.</p>
<p>&#8220;Se encontrarmos um caso que tenha de ser resolvido pela justiça formal, sobretudo crimes públicos, mas recearmos que o processo seja lento, podemos recorrer a organizações como a ALFeLa para o apoio jurídico&#8221;, explicou.</p>
<p>Há ainda um aspeto que César apontou como falha ao longo das várias Legislaturas. A falta de literacia jurídica deve-se, para o ativista, à fraca divulgação e explicação da Constituição da RDTL e das convenções internacionais ratificadas por Timor-Leste, além das leis aprovadas pelo Governo e pelo Parlamento Nacional.</p>
<p>&#8220;Mesmo a Constituição e as leis, muitas pessoas não as leem. O público não conhece o seu conteúdo. Portanto, o Ministério da Justiça precisa de divulgar a Lei a todos os níveis da sociedade, especialmente através do currículo escolar. Através das escolas, é possível ensinar às crianças, desde cedo, o que é a Lei&#8221;.</p>
<p><strong>A (longa) reforma do sistema judicial </strong></p>
<p>Já distante no tempo, em 2017, foi publicado o estudo “Os Tribunais em Timor-Leste: Desafios a um sistema judicial em construção”, com a coordenação de Jorge Graça e Conceição Gomes. O estudo foi solicitado, na altura, pela Comissão para a Reforma Legislativa e do Sector da Justiça. Entretanto, em 2023 foi criado um novo Grupo de Trabalho para a Reforma do Setor da Justiça, já com o IX Governo. Em 2024 foram publicados o estudo “Para uma justiça melhor – Análise e recomendações para melhorar o sector da justiça em Timor-Leste” e o plano de ação para melhorar o setor da justiça em Timor-Leste, com o nome “Roteiro para uma justiça melhor”. Além disso, foram assinados protocolos para garantir o reforço da formação de magistrados e defensores públicos, através do Centro de Formação Jurídica e Judiciária.</p>
<p>Somam-se os estudos e os relatórios. A instabilidade política, como se pode comprovar com a reformulação de equipas a acompanhar as várias mudanças de Governo, também não tem ajudado. Ainda assim, retomando as palavras de Cesário César, o setor da justiça pode ser reformulado, mas as pessoas continuam a não conhecer a Lei e, por isso, os <em>lia-na’in</em> continuam a justificar a sua existência, tanto em situações mais leves, como em crimes graves, como a violência física e sexual. As leis existem, mas, nas palavras do ativista, “muitas pessoas não as leem. O público não conhece o seu conteúdo”.</p>
<p>No referido estudo de 2017, foram realizadas dezenas de entrevistas e, no que consideram ser “barreiras no acesso aos tribunais judiciais em Timor-Leste”, existe uma perceção clara de que a “procura potencial dos tribunais judiciais, por falta de conhecimento, de confiança no sistema judicial e por dificuldades de acesso (por contraposição à facilidade de acesso à justiça informal), não se transforma em procura efetiva”. É referido ainda, numa das entrevistas, que “as pessoas já não se contentam com a justiça informal, mas o problema é que há uma dificuldade no acesso à justiça formal”.</p>
<p>O conteúdo <a href="https://www.diligenteonline.com/lia-nain-justica-tradicional-em-timor-leste-entre-valores-culturais-e-quadros-legais-modernos/">Lia-Na’in: justiça tradicional em Timor-Leste, entre valores culturais e quadros legais modernos</a> aparece primeiro em <a href="https://www.diligenteonline.com">DILIGENTE</a>.</p>
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		<title>Entre a tradição e a ciência: o óleo de cobra cura?</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Joana Silva]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 26 Jun 2025 11:11:50 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Cultura]]></category>
		<category><![CDATA[Destaque]]></category>
		<category><![CDATA[Notícias]]></category>
		<category><![CDATA[Saúde]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Apesar dos avanços da medicina moderna, muitos timorenses continuam a recorrer ao óleo extraído da gordura de píton para aliviar dores musculares, tratar feridas e queimaduras e cuidar da pele. A confiança nesta prática ancestral revela a força da sabedoria [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p><em>Apesar dos avanços da medicina moderna, muitos timorenses continuam a recorrer ao óleo extraído da gordura de píton para aliviar dores musculares, tratar feridas e queimaduras e cuidar da pele. A confiança nesta prática ancestral revela a força da sabedoria tradicional que resiste ao tempo. </em></p>
<p>Em várias regiões de Timor-Leste, o óleo de cobra píton continua a ser um dos remédios tradicionais em que a população mais confia para tratar diversos problemas de saúde. Desde dores musculares a feridas ligeiras, o óleo extraído da gordura desta serpente é frequentemente o principal recurso terapêutico &#8211; especialmente em zonas rurais onde os tratamentos naturais ainda são predominantes.</p>
<p>Apesar dos avanços constantes da medicina moderna, a confiança nas propriedades curativas do óleo de píton evidencia a força do património cultural e da sabedoria local que resiste à modernização.</p>
<p>Justino da Silva, residente em Watulari, no município de Viqueque, é conhecedor do processo de produção do óleo a partir da gordura de píton e garante que o produto tem propriedades medicinais. “Não é fácil capturar uma serpente, muito menos matá-la – é preciso muito cuidado. Após confirmar que o animal está completamente imóvel, pendura-se o corpo numa árvore para o sangue escorrer naturalmente. Só então se retira cuidadosamente a pele e se extrai a gordura interna com precisão”, explica.</p>
<p>Segundo Justino, todas as cobras têm gordura, tal como os porcos, mas apenas os exemplares mais jovens, saudáveis e com bom estado nutricional produzem quantidades consideráveis de óleo.</p>
<p>“Mesmo uma cobra saudável pode ter pouca gordura se tiver acabado de comer, porque, nesse momento o corpo está a usar muita energia armazenada. Nesses casos, o óleo extraído é pouco,” acrescenta.</p>
<p>A gordura é depois cortada em pequenos pedaços e colocada num recipiente metálico para ser aquecida. O processo de aquecimento permite extrair o óleo, conhecido localmente como <em>mina samea</em>. Este óleo tem sido, desde há muito tempo, a base de medicamentos tradicionais usados pelas comunidades.</p>
<p>Embora o método de extração seja relativamente simples, Justino alerta que o verdadeiro desafio é capturar o animal. &#8220;O processo em si é fácil, mas apanhar uma píton não é. Quando se sentem ameaçadas, escondem-se. Só costumamos apanhá-las quando estão a alimentar-se de presas. Por isso, temos de contar com a sorte&#8221;, afirmou.</p>
<p><strong>Óleo de cobra: valor económico e benefícios para a saúde</strong></p>
<p>Além do seu uso tradicional, o óleo de píton representa também uma fonte de rendimento para quem o produz e comercializa. Justino explica que, devido à produção limitada, cada frasco de cerca de 150 ml é vendido por 5 dólares americanos. “A carne da cobra também é totalmente aproveitada. Corta-se em pedaços e vende-se pelo mesmo valor. Aqui na comunidade, a carne de píton é consumida normalmente”, afirmou.</p>
<p>Justino não tem conhecimento do valor comercial do produto noutras zonas do país, mas acredita que o preço pode ser ainda mais elevado. “Como é difícil de produzir e há muita procura, acaba por ser caro. Tanto o óleo como a carne têm valor”, explicou.</p>
<p>Em Díli, o vendedor António Pinto obtém o seu abastecimento diretamente da região de Same. “Compro o óleo e a pele às pessoas de Same. O preço mínimo é de 10 dólares, mas depende da qualidade do produto”, revelou.</p>
<p>Segundo o vendedor,  o óleo de píton é procurado sobretudo pelas suas propriedades medicinais. É utilizado para aliviar dores nas mãos, pernas e costas, e também em outros casos como caspa, comichão e outros problemas de pele. “Pelo que sei, é muito eficaz no alívio de dores musculares e nas articulações. Algumas pessoas usam-no até para fraturas ósseas. Eu vendo a 20 dólares o frasco”, contou.</p>
<p>Para António, o óleo de píton é mais raro e mais valioso do que outros óleos tradicionais, como o de coco. A procura crescente entre a população, aliada à sua reputação de eficácia,  tem tornado este produto num dos mais valorizados nas práticas tradicionais de saúde no país.</p>
<p>Eufrásia da Silva partilhou a sua experiência com o uso do óleo após  um acidente de moto com o marido. “Depois da queda, além de irmos ao hospital, aplicámos o óleo nas zonas afetadas. Ajudou a reduzir o inchaço e a dor. As feridas secaram mais depressa ”, relatou.</p>
<p>Apesar de reconhecer que o óleo pode ser caro – podendo atingir os 20 dólares por frasco, especialmente em certas alturas &#8211; Eufrásia considera-o essencial para o bem-estar da  família. “ Usamo-lo para massagens e pequenas feridas. O calor que proporciona alivia bastante. É mais do que uma tradição &#8211; é algo que experimentámos e sabemos que resulta”, sublinhou.</p>
<p>Também Sipriana de Jejus, massagista tradicional, corroborou os efeitos positivos do óleo. “Acelera a regeneração da pele e ajuda na cicatrização de feridas. Não sei exatamente os seus componentes, mas sei que funciona”, afirmou.</p>
<p>Sipriana usa o óleo de cobra nas suas práticas, sobretudo para tratar fraturas, distensões musculares e outros problemas físicos. “Há muito tempo que este óleo é considerado eficaz na medicina tradicional. Eu própria recorro a ele quando trato os meus clientes”, concluiu.</p>
<p>Apesar da crença generalizada na eficácia do óleo de cobra píton, um médico, que preferiu não ser identificado, alerta para os riscos do seu uso. O profissional sublinha que “cada animal tem o seu próprio veneno” e, por isso, o óleo de cobra não deve ser utilizado como tratamento médico, uma vez que não existem provas científicas da sua eficácia.</p>
<p>“Até ao momento, não há estudos laboratoriais que confirmem que um determinado óleo de cobra possa ser usado para curar doenças, de forma comprovada do ponto de vista médico ou científico”, frisou o médico.</p>
<p>Ainda assim, reconhece que muitas pessoas continuam a recorrer a este produto como tratamento alternativo. “Desde tempos antigos que o óleo de cobra é utilizado como remédio tradicional, mas continuamos sem saber, com certeza, quais os riscos que ele pode trazer para a saúde”, acrescentou.</p>
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		<title>Amuletos na gravidez: entre a fé ancestral e a medicina moderna em Timor-Leste</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Joana Silva]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 26 May 2025 11:36:27 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Cultura]]></category>
		<category><![CDATA[Destaque]]></category>
		<category><![CDATA[Notícias]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Tesouras, pregos, terços, pentes e até espinhas de peixe são usados por grávidas timorenses como proteção espiritual. Herdadas de geração em geração, estas práticas dividem opiniões num país onde o misticismo convive com a ciência médica. Em Timor-Leste, objetos do [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p><em>Tesouras, pregos, terços, pentes e até espinhas de peixe são usados por grávidas timorenses como proteção espiritual. Herdadas de geração em geração, estas práticas dividem opiniões num país onde o misticismo convive com a ciência médica.</em></p>
<p>Em Timor-Leste, objetos do quotidiano como pentes, pregos, tesouras e terços assumem um papel simbólico durante a gravidez. Transmitidas de geração em geração, estas crenças persistem como formas de proteção contra espíritos malignos, feitiços e energias negativas. Para muitas mulheres, o uso destes objetos representa não apenas uma prática espiritual, mas também um elo com os antepassados e a preservação da identidade cultural.</p>
<p>Regina Correia, de 63 anos, conta que seguiu fielmente o ritual aprendido com os seus antepassados. “Usava sempre um pente no cabelo. Em ocasiões formais, punha-o na mala. Durante a noite, dormia com ele debaixo da almofada. Diziam que ajudava a garantir um parto seguro.”</p>
<p>Segundo ela, os objetos inicialmente usados eram pentes feitos de corno de búfalo. “Mais tarde, incluíram-se a tesoura e o prego, porque se acreditava que eram objetos ferozes e que os espíritos maus tinham medo de se aproximar.”</p>
<p>“Os nossos avós não sabiam ler nem escrever, então transmitiam estas crenças como forma de proteger as grávidas. E isso foi passando de geração em geração”, explicou.</p>
<p>Na sua casa, as mulheres também evitavam lavar o cabelo durante 40 dias após o parto, pois acreditavam que isso poderia causar coágulos de sangue no cérebro. “Usamos um pano embebido em água quente na barriga e costas para expulsar o frio, evitar doenças e eliminar o resto do sangue.” Acredita que estas práticas são uma herança dos antepassados e uma forma de cuidar com os meios disponíveis. “Antes não havia médicos. Isto era a nossa ciência.”</p>
<p>Benvinda Alves, mãe de uma criança, apesar de usar todos os objetos no início da gravidez, preferiu depois ficar apenas com o terço, por simbolizar o sacrifício de Jesus Cristo. “A tesoura serve para cortar cabelo, papel&#8230; O prego serve para unir coisas. Não salvam ninguém. Mas respeito a tradição.”</p>
<p>O seu parceiro, no entanto, reagia com ceticismo. “Dizia que era superstição e que a vida não depende de objetos. Mas eu sentia que devia seguir a orientação da minha mãe.”</p>
<p>Benvinda carregava os objetos numa carteira. “Se não dava para levar todos, levava só o terço. A espinha de peixe só comecei a usar a partir do sexto mês. A tesoura e o terço comecei com um mês. O prego, só uma vez.”</p>
<p>Também contou a história de uma amiga que lhe ofereceu uma espinha de peixe depois de esta ter tido pesadelos ao regressar de um passeio ao mar. “Como eu também fazia exercício físico entre o quinto e oitavo mês de gravidez, ela aconselhou-me a usá-la.”</p>
<p>Questionada se alguma vez teve problemas por não levar os objetos, respondeu que não. “Nunca senti qualquer maldade ou ameaça espiritual.” Mas acredita que as tradições devem ser passadas com equilíbrio. “Quero transmitir as lições positivas às novas gerações, mas com pensamento crítico. Não podemos viver como no passado, em que a vida dependia apenas destas práticas.”</p>
<p>Francisca Soares, também mãe de uma criança, afirmou ter usado tesoura, prego e terço por sugestão de pessoas próximas. Embora tenha recebido conselhos para não seguir essas práticas, acredita que ajudam na proteção. “Às vezes esquecia-me de levar um dos objetos, mas nunca senti nada de negativo.” Defende que os jovens devem aprender a caminhar com o mundo moderno, mas sem desrespeitar as tradições.</p>
<p>Diana Branco optou por não seguir os rituais. “A minha família nunca me obrigou. A família do meu marido insistia. Mas nunca usei pregos ou tesouras.” Para ela, a verdadeira proteção vem da fé. “Só Deus pode proteger. Os objetos não têm poder.”</p>
<p>Mesmo quando lhe pediram para viajar à noite com uma tesoura ou um prego no cabelo, recusou. “Nunca fiz isso”.</p>
<p>Diana também partilhou a sua experiência no pós-parto. “Depois do parto, não usava casaco. Ficava sempre em casa. Quando o bebé fez três semanas, comecei a sair. Uma vez, fui a casa da minha avó e, ao ver que eu não usava casaco, ela ficou preocupada. Pediu-me para o vestir, com medo de que eu apanhasse frio e ficasse doente. Mas continuei sem usar.”</p>
<p>Apesar disso, manteve algumas práticas por iniciativa própria. “A minha avó dizia para não mexer em água fria, mas continuei a lavar a louça”, contou. Nos primeiros dias, seguiu o conselho da mãe e bebia água quente, supostamente para estimular a produção de leite, mas não manteve esse hábito por muito tempo.</p>
<p>Diana revelou ainda que tomou banho com água quente durante um mês, com água praticamente a ferver. Durante uma semana, também seguiu o costume de usar panos embebidos em água muito quente, aplicados na barriga. “A minha mãe, a sogra e a avó insistiram para que o fizesse. Segui o que me disseram, mas não ultrapassei os 30 dias”.</p>
<p>Maria Amaral, mãe de três filhos, contou que só conheceu estas práticas tradicionais depois de casar e se mudar para Timor-Leste. “Na juventude, vivi na Indonésia. Nunca tinha ouvido falar destas crenças relacionadas com o pós-parto. Foi tudo novo para mim”, confessou.</p>
<p>Após o casamento, começou a seguir os rituais transmitidos pelas mulheres mais velhas da família. “Tomava banho com água quente, porque diziam que ajudava a eliminar o sangue restante do parto e a estimular a produção de leite.” Outra prática que adotou foi evitar o consumo de sal durante alguns dias. “Diziam que o sal podia atrasar a cicatrização do colo do útero”.</p>
<p>Maria admitiu que, apesar de não compreender completamente o significado de cada prática, confiava nas mulheres que a orientavam. “Talvez não soubesse os motivos, mas segui o que elas aprenderam com as mais velhas. Cuidaram de mim com esse conhecimento tradicional.”</p>
<p><strong>O olhar da antropologia e a perspetiva médica</strong></p>
<p>Este conhecimento é transmitido oralmente pelas mulheres mais velhas da família — mães, avós, tias — que orientam as mais jovens, preservando práticas socioculturais e reforçando dinâmicas de poder no seio familiar. Alessandro Boarccaech, antropólogo, observa que o valor desses objetos vai além da sua função prática: proporcionam conforto emocional e mantêm os vínculos com crenças e costumes herdados dos antepassados.</p>
<p>A tradição, sublinha Alessandro, não é estática. O terço católico, por exemplo, foi incorporado a esses amuletos protetores, refletindo a influência da cosmovisão cristã na cultura timorense. “A cultura não é algo fixo ou imutável. Está em constante transformação, reinterpretando símbolos, negociando significados, disputando narrativas e criando novas práticas e sentidos.”</p>
<p>O antropólogo reforça que estas crenças não são intrinsecamente boas ou más — fazem parte de um sistema cultural que procura equilíbrio entre o mundo físico e espiritual. Muitas mulheres, explica, combinam os rituais tradicionais com os cuidados médicos modernos, usando os amuletos como complemento emocional e cultural às consultas e exames.</p>
<p>No entanto, Alessandro alerta para os riscos quando o medo do sobrenatural e a desconfiança impedem o acesso a cuidados essenciais como exames pré-natais, vacinação ou tratamento médico. “Há pessoas que, por acreditarem na eficácia dos amuletos ou por receio de represálias espirituais, evitam a medicina convencional e colocam em risco a sua saúde e a dos bebés.”</p>
<p>Para o antropólogo, o caminho passa por garantir que raparigas e rapazes tenham, desde cedo, acesso à educação em saúde e a diferentes formas de saber, de modo a poderem fazer escolhas informadas. “Promover cuidados médicos, acesso à informação, uma sociedade menos punitiva e mais inclusiva, e reforçar a autonomia das mulheres pode criar um ambiente onde tradição e ciência dialogam com respeito, sem pôr em causa os direitos e a saúde das mulheres”, conclui.</p>
<p>Uma médica-geral, que preferiu não ser identificada, explicou que continua a ser comum, em Timor-Leste, ver mulheres grávidas a usarem pregos, tesouras e outros objetos metálicos presos à roupa ou colocados debaixo da almofada.</p>
<p>“As mulheres acreditam que esses objetos protegem a mãe e o bebé contra maus espíritos. No entanto, do ponto de vista médico, não têm qualquer efeito clínico. Não são medicamentos nem substituem cuidados de saúde”, afirmou.</p>
<p>A médica sublinhou que não existe qualquer prova científica sobre o uso de metais durante a gravidez com efeitos protetores para a saúde da mãe ou do bebé. “Não há qualquer investigação científica que comprove os benefícios dessas práticas.”</p>
<p>Apesar de reconhecer o seu valor cultural, a médica deixou um alerta: “Estas crenças fazem parte da identidade de muitas famílias e devem ser tratadas com respeito. No entanto, é essencial que as mulheres grávidas tenham acesso a informação correta e aos cuidados médicos adequados durante a gestação.”</p>
<p>Entre as recomendações fundamentais, a médica destacou a importância das consultas pré-natais regulares, para controlar a pressão arterial, acompanhar o desenvolvimento do feto e prevenir complicações. Acrescentou ainda que as grávidas devem manter uma alimentação equilibrada, evitar o consumo de álcool e tabaco, e não tomar medicamentos sem prescrição médica.</p>
<p>Depois do parto, o corpo da mulher precisa de tempo e cuidados específicos para recuperar, tanto a nível físico como emocional. Em Timor-Leste, muitas mulheres seguem práticas tradicionais como o uso de casaco, o consumo de água quente e os banhos com água fervida. A médica reconhece que, em alguns casos, estas práticas podem ter efeitos benéficos.</p>
<p>“Estas ações são uma forma de demonstrar cuidado e respeito num momento sagrado como o nascimento de uma criança. Algumas práticas tradicionais até contribuem para o bem-estar no pós-parto”, frisou.</p>
<p>O uso do casaco, por exemplo, ajuda a proteger do frio e pode prevenir desconfortos respiratórios. “O mais importante é que a mulher se sinta confortável e protegida. O frio pode causar mal-estar ou facilitar infeções, especialmente num organismo mais vulnerável após o parto.”</p>
<p>Sobre a prática de beber água quente, a médica reconheceu o seu valor simbólico e tradicional, mas sublinhou: “O essencial é manter uma boa hidratação com água limpa, seja quente ou morna. A hidratação é fundamental para a recuperação e para a produção de leite materno.”</p>
<p>Quanto ao banho com água quente, considerou que pode ter efeitos positivos tanto na higiene como no alívio de dores. “Tomar banho com água morna ajuda a relaxar os músculos e favorece a cicatrização. É importante manter a higiene diária para prevenir infeções.”</p>
<p>A médica alertou, no entanto, para o risco de certas práticas culturais prejudicarem a saúde. “Evitar o banho por medo ou restringir alimentos saudáveis por crenças pode atrasar a recuperação.”</p>
<p>Na sua opinião, tradição e medicina não precisam de estar em conflito. “Desde que não prejudiquem a saúde, estas práticas devem ser respeitadas. O mais importante é que as mulheres se sintam cuidadas, informadas e com acesso a apoio médico adequado”, concluiu.</p>
<p>Como sublinham o antropólogo Alessandro Boarccaech e a médica entrevistada, estas práticas tradicionais refletem uma forma de cuidado enraizada na cultura timorense, com valor simbólico e emocional. No entanto, o desafio atual está em garantir que a proteção espiritual e o respeito pelas tradições não impeçam o acesso das mulheres grávidas aos cuidados de saúde modernos. Promover um diálogo equilibrado entre cultura e ciência pode ser o caminho para proteger não só o corpo, mas também a dignidade e os direitos das mulheres timorenses.</p>
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		<title>Dia Mundial da Música: de “Kadalak Sulimutu” às novas vozes que transformam Timor-Leste</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Rilijanto Viana]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 01 Oct 2024 13:39:56 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Cultura]]></category>
		<category><![CDATA[Destaque]]></category>
		<category><![CDATA[Notícias]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>No Dia Mundial da Música, celebramos o papel transformador da música em Timor-Leste, desde as canções de resistência, como &#8220;Kadalak Sulimutu&#8221;, até às novas gerações de músicos que continuam a lutar por justiça e identidade cultural. Hoje, 1 de outubro, [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p><em>No Dia Mundial da Música, celebramos o papel transformador da música em Timor-Leste, desde as canções de resistência, como &#8220;Kadalak Sulimutu&#8221;, até às novas gerações de músicos que continuam a lutar por justiça e identidade cultural.</em></p>
<p>Hoje, 1 de outubro, celebra-se o Dia Mundial da Música, uma ocasião para refletir sobre a importância que a música tem tido em Timor-Leste, tanto nas suas tradições ancestrais como nas expressões musicais mais contemporâneas.</p>
<p>A música timorense sempre foi uma ferramenta de resistência e de fortalecimento da identidade cultural. Durante a ocupação indonésia, canções como &#8220;Kadalak Sulimutu&#8221;, com letra de Francisco Borja da Costa, poeta e compositor timorense, e música de Abílio Araújo, economista e músico, emergiram como símbolos de união e força.</p>
<p>A canção, segundo Abílio Araújo, é &#8220;um apelo à unidade&#8221;, exemplificado no verso inicial: &#8220;kadalak suli mutuk fila ué inan&#8221; que significa &#8220;ribeiros convergindo formam um rio&#8221;. &#8220;Kadalak Sulimutu&#8221; foi amplamente utilizada pela resistência timorense para manter vivo o espírito de luta, servindo como meio de comunicação e inspiração, especialmente em tempos de isolamento.</p>
<p>Outro exemplo marcante deste período é a canção &#8220;Foho Ramelau&#8221;, também com letra de Borja da Costa e música de Abílio Araújo, criada em outubro de 1973. A canção homenageia o ponto mais alto de Timor-Leste, a montanha Ramelau, que se tornou um símbolo da força e resiliência do povo timorense durante a ocupação.</p>
<p>Segundo Araújo, é uma &#8220;música de revolução contra o colonialismo&#8221;, com o objetivo de motivar o povo a lutar pela sua independência. Borja da Costa foi assassinado no primeiro dia da invasão indonésia, em 1975, mas as suas canções continuam a inspirar muitos, como memória da luta pela independência.</p>
<p>A música &#8220;Óras too ona, atu ita hili&#8221;, composta em 1999 por José Filipe Ximenes “Zeca”, teve o propósito de motivar a população a votar no referendo que restaurou a independência de Timor-Leste. Esta canção tornou-se um símbolo de esperança e coragem perante as forças invasoras.</p>
<p>Canções tradicionais, como &#8220;Mai Fali Eh, Mama Bolu Ita&#8221;, um apelo de uma mãe para que os filhos retornem à pátria e aos pais, e &#8220;Toos Na’in&#8221;, cantada por Ego Lemos, refletem a vida rural e as dificuldades enfrentadas pelos agricultores timorenses.</p>
<p>&#8220;Timor Hau Hadomi O&#8221; é uma das músicas mais amadas entre timorenses e comunidades internacionais, tocada frequentemente em eventos como expressão de amor por Timor-Leste. &#8220;Haburas Rai&#8221;, também de Ego Lemos, exorta à preservação da natureza, alertando contra o corte de árvores e as queimadas.</p>
<p>A música &#8220;Princesa&#8221;, composta por José Avelar, da banda timorense Alcatraz, é uma das canções mais populares em Timor-Leste. Este tema é amplamente tocado em festas e casamentos, sendo quase impossível não o ouvir repetidamente nesses eventos. A sua melodia romântica e letra cativante conquistam tanto os timorenses como os estrangeiros que vivem no país, tornando-a num verdadeiro hino em celebrações.</p>
<p>A música em Timor-Leste vai além da resistência. Está profundamente enraizada no quotidiano das comunidades. Durante atividades agrícolas, como a colheita do arroz, os cânticos são parte essencial do trabalho, coordenando o ritmo das tarefas e promovendo o espírito de comunidade. Além disso, a música é usada para receber convidados importantes, simbolizando hospitalidade e respeito, uma tradição que se mantém viva até hoje.</p>
<p>Instrumentos tradicionais timorenses, como o babadok, são parte essencial da música e cultura do país. O babadok, um instrumento de percussão semelhante a um tambor, é utilizado em muitas cerimónias e celebrações, servindo como base rítmica para danças e rituais.</p>
<p><strong>Novos Talentos Musicais</strong></p>
<p>Nos últimos anos, Timor-Leste tem assistido ao surgimento de novos talentos musicais que projetam o país para além das suas fronteiras. Bandas como The Galaxy têm conquistado o público jovem com um estilo moderno, enquanto Marvi, vencedora do The Voice Portugal, destacou o talento timorense a nível internacional. Estes novos artistas mostram como a música timorense pode evoluir, mantendo as suas raízes e, ao mesmo tempo, abraçando influências contemporâneas.</p>
<p>Esta nova geração de músicos timorenses dá continuidade ao legado da música enquanto força de mudança, tanto em tempos de luta como no desenvolvimento da identidade cultural.</p>
<p>Natalino Ximenes, guitarrista dos The Kraken, referiu que o Dia Mundial da Música &#8220;é especial porque mostra como a música pode aproximar pessoas e culturas&#8221;. Sublinhou o papel que a música sempre teve em Timor-Leste, tanto na luta pela identidade como na expressão cultural. Para ele, este dia é &#8220;uma oportunidade para pensar sobre como a música influencia a nossa sociedade e também para celebrar a criatividade e a diversidade musical que existe no país&#8221;.</p>
<p>Natalino contou que o seu interesse pela música começou na escola secundária, influenciado pelo irmão do seu primeiro professor de guitarra. Mais tarde, aprendeu a tocar com Maun Alulu, em Gleno, Ermera. O momento decisivo foi quando conseguiu a sua primeira guitarra, trocando os cães da família por uma guitarra, porque não tinha dinheiro para comprar uma. &#8220;Foi um passo importante para mim, queria muito aprender e dedicar-me à música&#8221;, afirmou. Inicialmente, não sabia se seguiria uma carreira na música, mas acabou por perceber que &#8220;era a melhor forma de me expressar&#8221;.</p>
<p>Ao falar dos desafios que enfrentou, destacou a dificuldade de proteger as suas músicas, algo que ainda não foi resolvido, apesar da aprovação do Código de Direitos de Autor em 2022. Outro obstáculo foi a falta de recursos para gravar e distribuir música em plataformas como Spotify e Amazon.</p>
<p>Quanto às influências musicais, sublinhou a importância da música tradicional timorense e a sua fusão com estilos internacionais. &#8220;A música tradicional de Timor-Leste é uma grande fonte de inspiração&#8221;, afirmou, referindo ainda que é necessário explorar mais a riqueza cultural do país no cenário internacional. Por fim, mostrou-se otimista quanto ao futuro da música timorense, acreditando que está a crescer e a diversificar-se, sendo &#8220;uma plataforma cada vez mais forte para expressar as histórias e desafios do país&#8221;.</p>
<p>Bandas como Klamar continuam a tradição de utilizar a música como veículo de crítica social. As suas canções abordam temas como justiça, corrupção e os desafios sociais que Timor-Leste ainda enfrenta.</p>
<p>Otopsy, vocalista da banda, afirma que &#8220;a música é um meio de expressar o que os artistas, neste caso os músicos, sentem e observam todos os dias&#8221;. Para Otto, a música tem o poder de intervenção social, sendo usada para &#8220;fazer com que os líderes tomem decisões pensando no bem dos cidadãos&#8221;.</p>
<p>Ele acredita que a música pode &#8220;mudar a realidade e a mentalidade timorense&#8221;, incentivando as pessoas a refletirem sobre o impacto dos seus comportamentos e a mudarem para o bem da sociedade.</p>
<p>Otto apela ainda à responsabilidade dos músicos: &#8220;Devemos usar o poder da música como deve ser. Continuem a cantar os problemas da sociedade, a criticar até vermos mudança. Continuem a sensibilizar a comunidade para criar uma sociedade mais inclusiva&#8221;.</p>
<p><iframe allow="fullscreen; autoplay;" allowfullscreen width="795" height="690" frameborder="0" src="https://www.educaplay.com/game/20585018-faca_corresponder_os_elementos_das_duas_colunas_de_acordo_com_a_noticia.html"></iframe></p>
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		<title>Komunál Kafé: um espaço para apreciar  expressos  e livros</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Eduardo Soares]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 29 Jun 2024 12:28:19 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Cultura]]></category>
		<category><![CDATA[Destaque]]></category>
		<category><![CDATA[Notícias]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Localizado na área de Vila Verde, a cafetaria oferece uma boa variedade de cafés a preços acessíveis e funciona também como uma minibiblioteca. Grupo responsável pelo negócio pretende promover a leitura através do “ativismo literário”. Com o intuito de valorizar [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p><em>Localizado na área de Vila Verde, a cafetaria oferece uma boa variedade de cafés a preços acessíveis</em><em> e funciona também como uma minibiblioteca. Grupo responsável pelo negócio pretende promover a leitura através do “ativismo literário”.</em></p>
<p>Com o intuito de valorizar o café local e estimular hábitos de leitura, um grupo de jovens de Díli decidiu abrir uma cafetaria que funciona também como uma minibiblioteca: Komunál Kafé. O aconchegante espaço funciona na região de Vila Verde, perto da Rotunda (ao lado da Catedral de Díli) e está aberto todos os dias das 8:30 à meia-noite.</p>
<p>Quem visita o Komunál Kafé encontra uma considerável variedade de bebidas de cafetaria a preços acessíveis. Um expresso simples custa apenas 75 centavos. <em>Lattes, cappuccinos </em>ou outras variações mais elaboradas podem chegar aos 2 dólares. Há também no espaço uma boa quantidade de livros.</p>
<p>Constantino de Jesus, 25 anos, é o gerente. Em conversa com o Diligente, explicou que o nome – Komunál Kafé – tem o objetivo de mostrar que o espaço é aberto para todos os cidadãos. “É o lugar onde os jovens podem discutir sobre os problemas que afetam o país. Aqui, todos os interesses e pensamentos podem ser discutidos. Também podem comentar ou explicar os livros que já leram. Queria dizer que este lugar é uma escola informal, na qual podemos todos aprender e ensinar”, detalhou.</p>
<p>A cafetaria foi criada por cinco jovens que arrendaram o espaço. “Não pretendemos apenas obter lucro, queremos também encorajar as pessoas a ler. A leitura estimula o pensamento crítico e a criatividade”, observou Constantino de Jesus. Segundo o jovem, a ideia é de que o espaço seja um local para a promoção do que ele chamou de “ativismo literário”. Doações de livros, em qualquer língua, são bem-vindas, informou Constantino de Jesus.</p>
<p>O gerente acrescentou ainda que, embora o Komunal Kafé tenha a intenção de que os visitantes utilizem os livros, ninguém no espaço é obrigado a ler. “Escrevemos frases nos quadros para motivar os clientes a pegar num exemplar, por exemplo: ‘Venham ler livros aqui, a ignorância nunca ajuda uma pessoa’. Também recebemos pessoas que querem vir cá apenas para ler”, disse Constantino de Jesus.</p>
<p>Numa sala anexa à cafetaria, o jovem e os colegas vão oferecer formações sobre técnicas de leitura e de interpretação de textos, onde a Associação Força Maubere Advocacia também garante serviços gratuitos de advocacia, informando e aconselhando quem não consegue pagar a advogados. A intenção é de que as formações se estendam a diferentes áreas do conhecimento no futuro. “O que nos inspira é o nosso sonho de usar este espaço para o bem comum”, afirmou Constantino de Jesus.</p>
<p><strong>Café e livros, “uma combinação</strong><strong> perfeita”</strong></p>
<p>A iniciativa tem atraído a atenção de vários jovens. Eldiano da Costa, 25 anos, ativista dos direitos humanos, partilhou a sua experiência enquanto cliente da cafetaria. “Fiquei curioso quando ouvi falar do Komunál Kafé e hoje vim cá para ter um encontro com meus amigos. Isto é uma vantagem para os jovens poderem beber café e ler. É algo essencial, num país onde os níveis de literacia são baixos. Acho que esta iniciativa é um bom exemplo para outras cafetarias”, exaltou.</p>
<p>Por sua vez, Odino da Costa, 36 anos, voluntário na Associação HAK (organização que defende os direitos humanos), elogiou o ambiente do espaço. “Ler e beber café é uma combinação perfeita. O ambiente é silencioso e confortável, ideal para a leitura. Vim aqui para um encontro e sugerimos ao dono promover discussões sobre os problemas do país, como a questão LGBTQIA+, educação, saúde, entre outros. A cultura dos livros precisa de ser promovida em Timor-Leste”, observou.</p>
<p><iframe allow="fullscreen; autoplay;" allowfullscreen width="795" height="690" frameborder="0" src="https://www.educaplay.com/game/19589685-encontre_os_pares_de_cartas_correspondentes.html"></iframe></p>
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		<title>Artistas celebram Festa da Música com concertos em vários lugares públicos de Díli</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Antónia Martins]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 22 Jun 2024 13:44:26 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Cultura]]></category>
		<category><![CDATA[Destaque]]></category>
		<category><![CDATA[Notícias]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Foram 14 os momentos musicais que surpreenderam o público, com miniconcertos em vários cantos da capital. Os cidadãos encararam a iniciativa com um sorriso no rosto e aproveitaram para pedir mais investimento no setor cultural. No âmbito da Fête de [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p><em>Foram 14 os momentos musicais que surpreenderam o público, com miniconcertos</em><em> em vários cantos</em><em> da capital. Os cidadãos encararam a iniciativa com um sorriso no rosto e aproveitaram para pedir mais investimento no setor cultural.</em></p>
<p>No âmbito da <em>Fête de la Musique</em>, ou <em>Make Music Day</em>, celebrada internacionalmente a 21 de junho, a Fundação Oriente (FO), em colaboração com a Cooperação Francesa em Timor-Leste, o <em>Institut Français</em> e o programa <em>Hasoru Malu</em>, organizou uma série de concertos em vários espaços públicos de Díli.</p>
<p>A <em>Fête de la Musique</em>, ou <em>Make Music Day</em>, teve início em 1982, em França. Atualmente, o dia é celebrado em mais de mil cidades espalhadas pelo mundo, com atuações livres e inclusivas. O princípio é muito simples: qualquer pessoa pode participar – músicos profissionais, amadores, jovens, idosos.</p>
<p>Na capital de Timor-Leste, ao longo do dia, somaram-se várias atuações espontâneas, de 30 minutos cada, de músicos profissionais e amadores, timorenses e internacionais. O público, a viver a sua rotina de mais uma sexta-feira, foi surpreendido e os sorrisos somaram-se, neste dia de celebração da música. O evento culminou com a atuação de três bandas timorenses, no jardim da Fundação Oriente: Lolobremu Quartet, Cocustic e Klamar.</p>
<p>De acordo com Joana Saraiva, delegada da FO em Timor-Leste, a iniciativa realizou-se graças ao <em>Hasoru Malu</em>, cujo trabalho se foca na dinamização da arte contemporânea timorense. A atividade contou também com o apoio da cooperação francesa. “A ideia era levar a arte para o povo, por meio da música, ou seja, colocar a arte mais perto das pessoas. É uma forma de promover a atividade artística timorense, porque o acesso à arte em Timor é bastante limitado e elitizado”, afirmou.</p>
<p>Joana Saraiva destacou ainda o facto de a Fundação Oriente registar todas as atividades, com som e imagem, para, mais tarde, “apresentar ao mundo o que foi a Festa da Música em Díli”. A delegada da FO disse ainda que está satisfeita por ter conseguido reunir condições para a elaboração deste evento, depois de vários anos sem iniciativas para a <em>Fête de la Musique</em> em Timor-Leste.</p>
<blockquote><p>“Fiquei muito contente, porque um artista internacional veio animar-nos. Esta atividade não apenas tornou o nosso dia mais feliz, como também foi uma forma de atrair o público para comprar os nossos produtos”</p>
<figure id="attachment_16573" aria-describedby="caption-attachment-16573" style="width: 468px" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-16573 size-full" src="https://www.diligenteonline.com/wp-content/uploads/2024/06/prof-Andre.jpg" alt="" width="468" height="351" /><figcaption id="caption-attachment-16573" class="wp-caption-text">A Fête de la Musique começou com uma atuação de André Esteves no mercado de Lecidere/Foto: NoLimit</figcaption></figure></blockquote>
<p>Foi logo pela manhã que a música se fez ouvir nas ruas de Díli. O primeiro concerto, marcado para as 09h30, foi no Mercado da Fruta de Lecidere, em frente ao Lita Store.</p>
<p>André Esteves, professor e músico amador português, mostrou-se feliz com a sua primeira atuação na via pública. A viver em Timor-Leste há quase seis anos, o docente contou que a guitarra o acompanha para todo o lado e que é possível conciliar uma atividade profissional com “uma paixão” como a música.</p>
<p>“É assim que encaro a música: não sou um músico. Sou antes um curioso e um apaixonado por esta arte e pelas indústrias culturais e criativas. E tento conciliar isso com as minhas funções, digamos, mais profissionais. Tenho sempre uma guitarra comigo, seja aqui, em Portugal, ou sempre que viajo”, explicou André Esteves.</p>
<p>A ideia de participar neste evento partiu de uma conversa espontânea com a delegada da FO. “A Joana virou-se para mim e disse: ‘dia 21 de junho temos a Festa da Música e tu vais tocar [risos]. Como é sexta-feira e tu trabalhas, vais tocar de manhã, bem cedo, depois segues para o teu serviço’. Não podia recusar, até porque valorizo muito todo o trabalho desenvolvido pela Fundação Oriente no setor da cultura em Timor-Leste”, partilhou.</p>
<p>Quanto à escolha do local, André Esteves contou que houve várias hipóteses em cima da mesa, uma delas, a Prisão de Becora. No entanto, referiu de imediato que “só de pensar na habitual burocracia aqui em Timor-Leste, entre pedidos, cartas e audiências, mudámos logo de ideia, e segui o conselho de uma amiga, que sugeriu o Mercado de Lecidere”. “Ainda assim, ficou a ideia de, no futuro, se organizar um concerto no estabelecimento prisional de Becora”, confidenciou.</p>
<p>Já a escolha das músicas foi mais fácil. “Tinha algumas músicas originais, que fui escrevendo e que nunca ‘saíram da gaveta’. Achei que no <em>Make Music Day </em>faria sentido trazê-las cá para fora, ainda que estejam muito rudimentares. Depois juntei uma ou duas músicas em português e um par de músicas em inglês, numa das quais fiz um medley com uma música timorense”, explicou o músico.</p>
<p>Maria Francisca, 72 anos, vendedora de produtos locais no Mercado de Lecidere ficou surpreendida com a atuação do artista. “Fiquei muito contente, porque um artista internacional veio animar-nos. Esta atividade não só tornou o nosso dia mais feliz, como também foi uma forma de atrair o público para comprar os nossos produtos. Queria que isto acontecesse mais vezes. Seria bom para nós e para os artistas”, disse a vendedora.</p>
<blockquote><p>“É uma forma de terapia, que reduz a perceção da dor e alivia o dia a dia aqui em Díli. Posso relaxar, reduzir o stresse laboral e, assim, continuar o trabalho com um espírito renovado”</p></blockquote>
<figure id="attachment_16567" aria-describedby="caption-attachment-16567" style="width: 399px" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-16567 size-full" src="https://www.diligenteonline.com/wp-content/uploads/2024/06/musica-1.jpg" alt="" width="399" height="299" /><figcaption id="caption-attachment-16567" class="wp-caption-text">Banda Díli Acoustic Community (DAC), a atuar na esplanada do Supermercado Páteo/Foto: Diligente</figcaption></figure>
<p>Às 12 horas, foi a vez da banda Díli Acoustic Comunity (DAC). A atuação teve lugar na esplanada do Supermercado Páteo. Leonardo Pereira, vocalista da banda, disse que ficou muito contente pela oportunidade de animar as pessoas que foram àquele estabelecimento para relaxar e conversar.  “Apresentámos quatro músicas românticas. Esperamos que os clientes tenham desfrutado deste momento e aproveitado para relaxar com as nossas músicas, ganhando novas energias para continuar o trabalho”, afirmou.</p>
<p>Dália de Oliveira, 28 anos, funcionária de uma empresa de seguros, era uma das clientes a tomar café no Páteo. Explicou que a iniciativa foi como uma terapia. “Fico muito feliz, porque é uma forma de terapia, que reduz a perceção da dor e alivia o dia a dia aqui em Díli. Posso relaxar, reduzir o stresse laboral e, assim, continuar o trabalho com um espírito renovado. Isso é muito bom. Gostaria que os artistas pudessem fazer isto todos os dias e o seu trabalho deveria ser remunerado pelo Governo ou pelas empresas”, observou.</p>
<blockquote><p>“Muitas vezes, as pessoas pensam que os jovens são todos criminosos. Isto é falso. Muitos deles são artistas. Só que ainda falta espaços para eles se poderem expressar”</p>
<figure id="attachment_16568" aria-describedby="caption-attachment-16568" style="width: 332px" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-16568 size-full" src="https://www.diligenteonline.com/wp-content/uploads/2024/06/musica-2.jpg" alt="" width="332" height="332" srcset="https://www.diligenteonline.com/wp-content/uploads/2024/06/musica-2.jpg 332w, https://www.diligenteonline.com/wp-content/uploads/2024/06/musica-2-150x150.jpg 150w" sizes="auto, (max-width: 332px) 100vw, 332px" /><figcaption id="caption-attachment-16568" class="wp-caption-text">Juju and Friends apresentaram algumas músicas no aeroporto Nicolau Lobato, em Díli/Foto: Diligente</figcaption></figure></blockquote>
<p>Às 13h30, foi a vez de Juju and Friends atuarem no Aeroporto Nicolau Lobato, em Díli. Antes do concerto, o Diligente conversou com Ibas, 29 anos, vocalista da banda. Disse que tocar no Aeroporto é algo raro em Timor-Leste. “Sinto-me muito contente e orgulhoso, por poder cantar aqui pela primeira vez. Não preparámos nada em concreto, mas vamos tocar quatro músicas. Espero que as pessoas se animem e que possam sentir algo diferente neste dia. Esta atividade é muito importante para encorajar os jovens a expressarem o seu talento. Muitos deles são artistas, mas faltam espaços e incentivos para se poderem expressar”, partilhou.</p>
<p>Elge Soares, 25 anos, assistiu ao concerto antes de viajar para a Indonésia, para estudar. “Sinto um ambiente muito diferente do habitual aqui no aeroporto. Estava a preparar-me para fazer check-in, para viajar. De repente, surgiram estes artistas conhecidos – Juju and Friends –, a tocar algumas músicas. O trabalho deles é muito popular aqui em Timor-Leste, principalmente as músicas românticas. Adoro ouvi-las”.</p>
<blockquote><p>“Cantámos quatro músicas, com críticas aos políticos, que usam o povo para alcançar os seus interesses. O público ficou entusiasmado”</p>
<figure id="attachment_16569" aria-describedby="caption-attachment-16569" style="width: 313px" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-16569 size-full" src="https://www.diligenteonline.com/wp-content/uploads/2024/06/musica-3.jpg" alt="" width="313" height="235" /><figcaption id="caption-attachment-16569" class="wp-caption-text">A banda KBIIT tocou no Jardim 5 de maio, em Díli/Foto: DR</figcaption></figure></blockquote>
<p>A tarde ia avançando e, às 15 horas, a banda KBIIT já estava preparada para tocar no Jardim 5 de maio, conhecido como o jardim das leituras, onde muitos jovens compram livros e desfrutam do seu conteúdo debaixo das grandes árvores. Octávio Ximenes Exposto, 26 anos, baixista da banda, disse, depois de atuar, que quando começaram, as pessoas ficaram assustadas, por não perceberem o que se estava a passar.</p>
<p>“Depois reconheceram-nos, começaram a aproximar-se e tudo melhorou. Cantámos quatro músicas, com críticas aos políticos, que usam o povo para alcançar os seus interesses. O público ficou entusiasmado. Espero que possamos incentivar os leitores que costumam passar tempo neste jardim, para terem uma consciência crítica sobre o que se passa no nosso país”, disse.</p>
<p>Por sua vez, Wardasi Laumana, 34 anos, vendedor de livros no Jardim 5 de maio, enfatizou que a música traz “mais vida” ao espaço, principalmente aos jovens. “O impacto da música na sociedade é muito importante, para que haja mudança. Precisamos de ouvir muitas músicas, com letras críticas, para aumentar a criatividade e gerar novas ideias e soluções. A música que os artistas criaram surge num contexto histórico e cultural marcado por uma sociedade injusta”.</p>
<blockquote><p>“Este evento é muito bom para promover os talentos, não só de homens, mas também de mulheres e meninas. Assim, podemos todos fazer parte do desenvolvimento da nação através da arte. Ninguém fica para trás. Seria bom o Governo valorizar o talento dos artistas, criando condições para que seja uma profissão”</p>
<figure id="attachment_16571" aria-describedby="caption-attachment-16571" style="width: 325px" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-16571 size-full" src="https://www.diligenteonline.com/wp-content/uploads/2024/06/Musica-4.jpg" alt="" width="325" height="244" /><figcaption id="caption-attachment-16571" class="wp-caption-text">O grupo musical feminino – Uma Elite – a apresentar na UNTL/Foto: DR</figcaption></figure></blockquote>
<p>Já na Universidade Nacional Timor Lorosa’e (UNTL), durante a tarde, ao lado da biblioteca Uma Amerika, apresentou-se o grupo musical feminino Uma Elite, formado por três jovens timorenses. Febiela Joice, 19 anos, vocalista, confessou que ainda não produziram as suas próprias composições e que, por isso, tocaram músicas de outros artistas.</p>
<p>“Quando andava no ensino básico, já gostava de cantar. Cheguei a competir em concursos na escola. Por isso, a música é uma parte da minha vida. Este evento é muito bom para promover os talentos, não só de homens, mas também de mulheres e de meninas. Assim, podemos todos fazer parte do desenvolvimento da nação através da arte. Ninguém fica para trás. Seria bom o Governo valorizar o talento dos artistas, criando condições para que seja uma profissão”, afirmou Febiela Joice.</p>
<p>A performance do grupo foi acompanhada por muitos jovens. Efa dos Santos, 25 anos, é estudante na Universidade Nacional de Timor-Leste, no Departamento de Ciências Exatas, e voluntária na Uma Amerika. A universitária confessou que o concerto mudou o seu dia. “Costumamos terminar as atividades na Uma Amerika e voltamos logo para casa. Porém, hoje vimos o concerto das nossas três amigas. Espero que isto possa incentivar as mulheres a mostrar o seu talento musical”.</p>
<blockquote><p>“Acho que é uma maneira mais fácil de nos conectar, especialmente em um momento em que o mundo parece bastante fragmentado e há muito sofrimento, há muita desigualdade. Assim que você começa a tocar música com alguém, não importa de qual país você é no mundo, tudo isso desaparece e você está falando a mesma língua”</p>
<figure id="attachment_16572" aria-describedby="caption-attachment-16572" style="width: 399px" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-16572 size-full" src="https://www.diligenteonline.com/wp-content/uploads/2024/06/musica-5.jpg" alt="" width="399" height="299" /><figcaption id="caption-attachment-16572" class="wp-caption-text">O artista australiano Billy Barker cantou em frente ao Palácio do Governo/Foto: Diligente</figcaption></figure></blockquote>
<p>Já ao final da tarde, às 17 horas, Billy Barker, artista australiano, atuou em frente ao Palácio do Governo. Cantou três músicas em inglês e a famosa música timorense “Oh, oh, oh, Timor”. Questionado sobre o contexto da sua visita a Timor-Leste, o artista respondeu que veio através de amigos timorenses que trabalham no programa Pacific Australia Labour Mobility (PALM), na Austrália. “Toquei com eles na Austrália e, agora, convidaram-me para vir aqui. Estou cá há três semanas e conseguimos organizar alguns concertos”, disse.</p>
<p>Sobre o <em>Make Music Day</em>, o artista partilhou que se trata de uma oportunidade para olhar a música como uma linguagem global. “Acho que é a maneira mais fácil de nos conectarmos, especialmente num momento em que o mundo parece bastante fragmentado, com muito sofrimento e muita desigualdade. Assim que uma pessoa começa a tocar música com alguém, não importa de que país somos. Nesse momento, tudo isso desaparece e começamos a falar a mesma língua”.</p>
<p>Aldálio Gusmão, 20 anos, estudante da Universidade Oriental, na Faculdade de Ciências da Saúde, estava a fazer desporto no Palácio do Governo e acabou por assistir ao concerto. “Quando reparei no artista australiano a cantar, parei para ver e ouvir. Gostei muito do momento em que ele cantou uma música em tétum. Isto mostra que a música é uma linguagem universal e ultrapassa barreiras étnicas, de raça, de culturas ou línguas, e permite que pessoas de diferentes origens se relacionem emocionalmente. A música une-nos. Queria que houvesse muitos artistas nacionais e internacionais a atuarem em lugares públicos, para animar os jovens e promover o talento”, contou.</p>
<p>Depois dos miniconcertos, em diversos pontos da cidade, entre as seis da tarde e as 19:30, houve espaço para cinco apresentações em frente à Fundação Oriente. O mural, pintado pelo artista timorense Tony Amaral, foi o pano de fundo para as atuações de Dili Comunity Choir, Jovie, Izu, Safrei e Brothers Percussions.</p>
<p>Eram já oito da noite, quando a banda Lolobremu Quartet subiu ao palco, no jardim da Fundação Oriente. Seguiram-se os Cocoustic e, para finalizar um dia com mais de 12 horas de música, os Klamar atuaram perante uma belíssima moldura humana, como tem sido habitual nos eventos da Fundação Oriente.</p>
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