Crédito nas cooperativas: entre a oportunidade de abrir um negócio e a dificuldade de pagar

A cafetaria Neto, no suco de Uailili, município de Baucau/Foto: Redes sociais

Maria pediu um empréstimo para abrir uma cafetaria e diz que o negócio ajuda nas despesas familiares. José recorreu a duas cooperativas e enfrenta dificuldades para pagar. As suas experiências mostram como o acesso ao crédito pode criar oportunidades, mas também trazer encargos difíceis de suportar.

Maria Isabel Gonçalves Neto, de 37 anos, tinha uma ideia para manter a sua cafetaria a funcionar, mas faltava-lhe o capital para a concretizar. Pediu um empréstimo de 5.000 dólares à Cooperativa Klibur Uniaun ba Credito (KUC) para melhorar as condições da cafetaria e do restaurante Neto, no suco de Uailili, no município de Baucau. Apresentou o pedido em novembro de 2025, obteve aprovação em janeiro de 2026 e recebeu o dinheiro pouco depois, conseguindo avançar com o negócio.

Maria diz que o rendimento da atividade contribui para as despesas da família. Todos os meses, tem, porém, de reservar uma parte para pagar o empréstimo. O prazo é de três anos e a prestação inicial é de 243,89 dólares. O valor da prestação varia mensalmente, uma vez que os juros são calculados à taxa de 2% sobre o capital ainda em dívida, diminuindo à medida que o empréstimo é amortizado. A cooperativa cobra ainda uma quota mensal de cinco dólares aos seus membros.

Ao longo dos três anos, o montante total a pagar será de 7.030 dólares. O cálculo inclui juros mensais de 2%, calculados sobre o capital em dívida, e a quota mensal de cinco dólares. Maria refere que a cafetaria gera entre 300 e 400 dólares por mês, podendo ultrapassar os 400 dólares nos meses melhores. Estima as despesas do negócio em cerca de 100 dólares mensais e calcula que, depois de pagar a prestação, lhe restem aproximadamente 100 dólares para as despesas do dia a dia. A própria reconhece que se trata de valores arredondados, por não ter a certeza dos cálculos.

Maria trabalha também na Sociedade de Produção de Agropecuária (SPA) e exerce funções como secretária-executiva da Federação das Cooperativas de Hanai Malu, fontes de rendimento que lhe permitem pagar as prestações atempadamente.

José Roberto Mamuly, de 32 anos, natural de Ataúro e também membro da KUC, vive uma situação diferente. Em janeiro de 2022, pediu 800 dólares emprestados para comprar uma mota que o ajudasse no negócio de venda de peixe com os irmãos. Mais tarde, contraiu um segundo empréstimo, junto da Cooperativa Nacional de Juventude (CNJ). Diz ter dificuldades em pagar as duas dívidas e, ao mesmo tempo, assegurar as despesas familiares.

Os dois casos ilustram experiências distintas com o crédito. Para Maria, o dinheiro emprestado permitiu desenvolver uma atividade económica. Para José, o reembolso das dívidas passou a competir com despesas essenciais, como a habitação, os transportes, a educação e a alimentação.

Sem dinheiro suficiente para desenvolver o estabelecimento, Maria encontrou na cooperativa uma forma de concretizar o negócio em Uailili, no posto administrativo de Baucau Vila. “O rendimento deste negócio também me ajuda a pagar as despesas”, contou.

Maria considera que o empréstimo lhe deu uma oportunidade de melhorar as condições de vida. Reconhece, contudo, que o acesso ao dinheiro implica uma obrigação que se prolonga. “A cooperativa é importante para mim, sobretudo para desenvolver o negócio e melhorar as minhas condições de vida. Mas também compreendo que quem contrai um empréstimo tem de ter capacidade para pagar de volta e cumprir a responsabilidade que assumiu”, explicou.

Quando o rendimento não chega

José conta que o empréstimo de 800 dólares contraído junto da cooperativa CUC serviu para comprar uma mota e apoiar o negócio de venda de peixe com os irmãos, em Ataúro. Alguns meses depois, a atividade ficou parada por motivos familiares sobre os quais não quis falar.

Segundo o seu relato, os cobradores recolheram o pagamento no primeiro mês, mas deixaram de aparecer durante cerca de seis meses. José acabou por se esquecer de pagar. Quando voltaram, em junho, entregaram-lhe uma carta de notificação a recordar a dívida. José não se recorda do valor exato da prestação mensal, mas diz que ultrapassava os 100 dólares, incluindo capital e juros.

José afirma que, no início, quando ainda tinha dinheiro, pagou 400 dólares do primeiro empréstimo. No entanto, continua a dever os 400 dólares restantes, acrescidos de outros encargos, embora não tenha conseguido voltar a pagar.

Mais tarde, José começou a trabalhar como técnico de logística na Federação de Cooperativas Hanai Malu, com um rendimento mensal de 200 dólares. O salário, diz, “mal chega para cobrir as despesas.” Paga 50 dólares pelo aluguer do quarto, 40 dólares pelos transportes dos irmãos mais novos, 150 dólares pelas propinas escolares da irmã, 10 dólares de gasolina para a mota e cerca de 10 dólares em arroz e outros bens essenciais. Refere ainda despesas mensais adicionais de cerca de 20 dólares, cuja natureza não foi esclarecida. Afirma que não tem ninguém que o ajude a suportar estes encargos.

No início de junho, José pediu mais 100 dólares à Cooperativa Nacional de Juventude (CNJ), desta vez para responder a necessidades domésticas. A cooperativa calculou que, com uma prestação mensal de 23,67 dólares, o empréstimo poderia ser pago na totalidade em seis meses. José pagou apenas a primeira prestação, em julho, e não voltou a pagar desde agosto.

A CNJ aguarda que José retome os pagamentos. Quando voltar a pagar, a cooperativa dará continuidade ao plano a partir do ponto em que ficou, sendo que não existem formas alternativas de pagamento.

Lígia Monteiro Menezes, responsável pela cobrança na cooperativa Clibur União de Crédito, explicou que alguns membros mudam de residência, por vezes na sequência de despejos, e deixam de ser localizados. Outros interrompem os pagamentos por alegarem falta de rendimento.

Segundo a responsável pela cobrança, muitos membros desenvolvem pequenas atividades económicas, como a venda de queijo, cocos na praia ou outros produtos à beira da estrada. “Alguns membros que permanecem na mesma localidade também deixam de pagar, alegando que os rendimentos não são suficientes para cumprir as prestações”, explica.

A responsável acrescentou que, em alguns casos, a cooperativa procura prolongar o prazo de reembolso e pede apenas o pagamento da quota mensal de cinco dólares para que os membros continuem ativos na cooperativa.

Apoiar negócios e despesas familiares

O presidente da Cooperativa Clibur União de Crédito, Raimundo José Neto, explica que a organização procura apoiar os membros e ajudá-los a desenvolver pequenos negócios. Segundo o responsável, a regra é começar por conceder empréstimos de 100 dólares, podendo o montante aumentar para 200 dólares depois de o primeiro empréstimo ser liquidado.

Entre os benefícios referidos pelo presidente estão os juros baixos e a distribuição, no final do ano, de uma parte dos juros pelos membros. “60% são atribuídos aos membros e 40% ficam para a cooperativa, através de deliberação em assembleia-geral. Os membros pedem emprestado para negócios, alguns para construir casas, e outros para crédito pessoal”, afirmou.

A cooperativa começou por abranger um número reduzido de pessoas. Depois de uma campanha de divulgação através de panfletos, muitos residentes de Kuluhun Centro tornaram-se membros; também aderiram pessoas de Becora e Fatuahi.

A CUC aplicou uma taxa de juro de 3% ao mês, calculada de forma decrescente, entre 2003 e 2014. Em 2015, a assembleia-geral decidiu reduzi-la para 2% ao mês, também calculada sobre o capital em dívida. Segundo o presidente, a redução contribuiu para atrair mais residentes do bairro, que recorreram aos empréstimos para comprar produtos em Taibessi e vendê-los à beira da estrada.

A cooperativa tem postos em Loes, no município de Liquiçá, Manufahi, Aileu, Bairro Pité e Tasi Tolu. Os dados facultados indicam 1.939 membros e um capital total de 1,5 milhões de dólares.

Preparar as cooperativas para acompanhar os membros

Elizário Ferreira, diretor-geral da Federação Cooperativa de Crédito Hanai Malu (FCCHM), explica que a Federação disponibiliza formação em contabilidade, análise de crédito e gestão do risco, bem como em liderança, fiscalização e auditoria. As ações destinam-se aos diferentes órgãos das cooperativas, de acordo com as responsabilidades de cada um.

Os jornalistas confirmaram que a CUC é membro da Federação. Raimundo José Neto, presidente da cooperativa, reconhece que a organização tem participado em várias ações de formação. Inicialmente, as sessões destinavam-se apenas aos dirigentes; mais tarde, passaram a abranger também os gestores e os responsáveis pela cobrança. “A base da cooperativa é a educação; desenvolve-se com educação e controla-se com educação”, afirmou.

Segundo Raimundo José Neto, a formação não contribuiu diretamente para a avaliação da capacidade de pagamento dos membros. Quando estes enfrentam dificuldades, as cooperativas podem prolongar o prazo de reembolso e, em determinadas situações, aceitar apenas o pagamento dos juros mensais, sem amortização do capital. Ainda assim, o membro tem de continuar a pagar a quota mensal de cinco dólares.

Mateus Pinto, docente do Departamento de Ciência de Economia da Faculdade de Economia e Gestão, considera que quem contrai um empréstimo numa cooperativa ou num banco tem a obrigação de o reembolsar, porque assume um compromisso. “Quando se pede dinheiro emprestado e depois não se devolve, as consequências podem ser graves”, afirmou.

O docente recomenda que, antes de contrair um empréstimo, cada pessoa avalie o rendimento mensal e o montante que lhe sobra depois de pagar as despesas essenciais, como alimentação, renda da casa, transportes, educação e saúde. Aconselha também a informar-se sobre o custo total do empréstimo, incluindo o capital, os juros, as comissões e outras despesas aplicáveis. Não basta saber quanto se vai receber: é necessário conhecer o valor total a devolver.

“Quem pede dinheiro emprestado a uma cooperativa ou a um banco tem de o devolver todos os meses, porque esse é o acordo”, afirmou. Mateus Pinto acrescenta que também é membro de uma cooperativa e que conhece os benefícios deste tipo de organização.

O docente aconselha ainda os potenciais mutuários a confirmar se conseguem pagar a prestação mensal sem comprometer as necessidades básicas da família. “É importante conhecer o prazo do empréstimo: um prazo mais longo pode reduzir o valor de cada prestação, mas também pode aumentar o total de juros pagos.”

Na sua opinião, as cooperativas devem avaliar tanto a capacidade financeira dos membros como a sua disponibilidade para cumprir os compromissos assumidos. “O empréstimo pode ser garantido por um bem dado como caução, e a capacidade de pagamento pode ser afetada por fatores como a situação do mercado, a época do ano, a saúde e as circunstâncias familiares.”

Duas experiências, dois desafios

Maria e José procuraram no crédito uma forma de apoiar uma atividade económica e responder às necessidades da família. Maria afirma que a cafetaria continua em funcionamento, contribui para as despesas familiares e lhe permite pagar atempadamente as prestações.

José, por seu lado, ainda não conseguiu retomar os pagamentos. Com um salário mensal de 200 dólares e despesas que ultrapassam esse valor, sobra-lhe pouco ou nada para amortizar as dívidas. As duas experiências mostram que o crédito pode abrir oportunidades, mas que a sua sustentabilidade depende da relação entre o montante emprestado, as condições de reembolso e os rendimentos efetivamente disponíveis.

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