Para alguns estudantes, o português entrou nas brincadeiras e nas conversas em família. Para outros, ficou sobretudo nas aulas e nos trabalhos escritos. Estudantes, professores e um revisor linguístico descrevem dificuldades, receios e oportunidades de utilizar uma língua oficial que nem todos encontram da mesma forma no quotidiano.
Sobre um banco, nos arredores da Faculdade de Educação, Artes e Humanidades da Universidade Nacional Timor Lorosa’e (UNTL), está uma monografia de 124 páginas, escrita em português. Tomé Soares, de 29 anos, espera que o orientador assine a versão final. O estudante finalista de Biologia levou dois anos a concluir o trabalho.
Escrever numa língua que, segundo conta, ouvia na escola, mas raramente utilizava para conversar, foi uma das dificuldades desse percurso.
“Durante a escrita da minha monografia, enfrentei muitas dificuldades, porque escrevi mais em tétum e depois tinha de escrever tudo em português. O que me facilitou foram as referências que procurei e a ajuda do orientador aquando da correção da monografia”, explica.
O português acompanha o percurso escolar de estudantes como Tomé. Mas o contacto com os materiais, as aulas e os trabalhos académicos nem sempre corresponde às oportunidades de conversar. Entre os entrevistados, há quem descreva dificuldades em falar e quem receie fazê-lo mesmo quando já tem conhecimentos. Há também quem encontre a língua em casa ou passe a utilizá-la regularmente no trabalho.
O português e o tétum são as duas línguas oficiais de Timor-Leste. Segundo o relatório sobre educação dos Censos de 2022 de Timor-Leste, 40% da população com cinco ou mais anos sabia ler e escrever em português, enquanto em tétum essa proporção atingia 70,1%. A pergunta avaliava a capacidade de ler e escrever uma carta curta a um amigo.
Os mesmos censos mostram que a literacia em português é mais elevada nos grupos mais jovens do que nos grupos mais velhos. Entre as crianças e jovens dos cinco aos 24 anos que já sabiam ler e escrever em alguma língua, 59,1% conseguiam fazê-lo em português, segundo o relatório sobre crianças e jovens. Mas saber ler e escrever não significa ter conversa em português, uma dificuldade que surge nos testemunhos dos estudantes que o DILIGENTE ouviu.
Uma língua nas brincadeiras e em casa
Célia Beatriz de Sousa, de 28 anos, estudante de Formação de Professores do Ensino Básico na UNTL, começou a utilizar português em criança. A língua entrava nas brincadeiras e nas conversas em família.
“Uma das coisas que aprendi foi brincar com bonecas e falar português com elas. Também muitas vezes converso com a minha família, como o meu pai, os meus irmãos e as minhas irmãs”, recorda.
Célia escolheu o curso porque quer ensinar português. Na mesma universidade onde Tomé procurou apoio para escrever a monografia, traz de casa uma experiência de comunicação que outros estudantes tiveram menos oportunidades de desenvolver.
Dionísia da Costa, de 27 anos, estudante da Faculdade de Ciências Sociais e Políticas da UNTL, descreve a distância entre frequentar aulas e conseguir falar. “Mesmo aprendendo desde o ensino primário até à universidade, muitos ainda não sabem falar português”, afirma.
Tomé distingue essa dificuldade do receio de expor aquilo que já se sabe. “Há alguns que já sabem português, mas não querem falar porque têm medo de cometer erros”, diz.
Abrão Vítor Fernandes, de 18 anos, estudante do Departamento de Formação de Professores do Ensino Básico da UNTL, reconhece o mesmo receio entre jovens que estudaram português, mas não se sentem confiantes para o utilizar em público. Conta que procura conversar em português com os colegas do departamento para ganhar prática.
A língua dos materiais e a língua da explicação
Segundo Abrão, o português dos materiais curriculares nem sempre é a língua em que os professores explicam os conteúdos.
“Isto acontece porque alguns professores têm conhecimentos limitados da língua portuguesa e utilizam o tétum para explicar os conteúdos, para que os estudantes possam compreender a matéria”, afirma.
Roberto Pacheco, docente e antigo diretor do Departamento de Comunicação Social da UNTL, descreve aulas em que os professores recorrem ao português, ao tétum e às línguas maternas dos alunos, desde o ensino básico até ao secundário.
Na Escola 4 de Setembro, em Díli, Norberto da Costa, professor de Língua Portuguesa, identifica dificuldades nos métodos de docentes que não dominam suficientemente a língua. Segundo relata, alguns pedem aos estudantes que escrevam a matéria no quadro, deixando pouco tempo para a explicação e para a comunicação oral.
Os relatos colocam lado a lado duas necessidades: compreender as matérias e ter oportunidades de utilizar o português. O tétum e as línguas maternas são, para muitas crianças, as primeiras línguas aprendidas em casa e aquelas através das quais desenvolvem os primeiros conhecimentos, valores e experiências.
Norberto pede ao Ministério da Educação mais apoio à aprendizagem do português pelos docentes. “Quero que os professores também utilizem o português. Já passaram 23 anos. Por que razão muitos professores ainda não o utilizam?”, questiona.
No curso frequentado por Abrão e Célia, muitos estudantes poderão vir a ensinar outras crianças. Abrão defende que os futuros docentes devem dar o exemplo, utilizando a língua durante a formação. Célia quer levar para a profissão a experiência de comunicação que desenvolveu desde a infância.
Paulo Henriques, formador ligado ao Ministério da Justiça e docente convidado do mestrado em Ensino da Língua Portuguesa em Timor-Leste, na UNTL, defende investimento nos professores de português e nos docentes de outras disciplinas que precisam de utilizar a língua nas aulas.
“A língua portuguesa não se desenvolve simplesmente nos quatro cantos da escola. É um esforço coletivo”, afirma.
Um dia por semana para praticar português
No Departamento de Comunicação Social da UNTL, há um dia da semana reservado à prática. Segundo Roberto Pacheco, às quartas-feiras os estudantes devem comunicar em português, em vez de tétum.
“Nós, do Departamento de Comunicação Social, criámos esta regra porque, quer os estudantes queiram quer não, têm de praticar a língua portuguesa. Por isso, queremos que se familiarizem com ela”, explica.
Os docentes encorajam-nos a conversar mesmo quando cometem erros. Roberto estima que entre 40% e 50% dos estudantes tenham começado a participar na iniciativa.
A exigência teve, contudo, um efeito inicial que o professor também relata: diminuiu o número de estudantes que procuravam a Clínica de Jornalismo, devido ao receio de alguns alunos em utilizar português. Com o tempo, segundo Roberto, a participação voltou a aumentar, à medida que se foram adaptando.
Ligada ao Departamento de Comunicação Social, a Clínica é um espaço de prática jornalística onde os estudantes produzem conteúdos informativos. A experiência relatada pelo docente mostra como o incentivo à prática pode encontrar, primeiro, o receio de participar.
Na Escola 4 de Setembro, Viviana da Conceição do Rosário, de 17 anos, aluna do 12.º ano, recorda outra mudança na forma de aprender. No ensino primário, estudava conjugações verbais e fazia traduções para tétum. No terceiro ciclo, uma professora incentivou os alunos a falar português nas disciplinas lecionadas nessa língua.
“Foi naquele momento que uma professora chamada Joana nos ensinou a conhecer a língua portuguesa”, conta.
Hoje, Viviana diz que frequenta cursos, conversa em português, apresenta matérias, faz pesquisas e participa em competições. Às conjugações e traduções juntaram-se tarefas em que utiliza a língua para comunicar.
Norberto recorda também peças de teatro, poesia e momentos de comunicação em português durante o recreio na mesma escola. O relato recolhido situa a iniciativa entre 2020 e 2023, mas deixa por esclarecer as circunstâncias em que foi interrompida.
O português no trabalho diário
Octaviano Gomes, revisor linguístico na Rádio e Televisão de Timor-Leste (RTTL), teve o primeiro contacto com o português no ensino básico.
“O meu primeiro contacto com o português foi no ensino básico, se não me engano, no terceiro ano do ensino básico. Foi ali que comecei a ter contacto com o português, comecei a aprender o português durante os meus nove, dez anos de escolaridade básica”, explica.
Concluiu o secundário em 2016, mas não entrou imediatamente no ensino superior. Em 2017, passou um ano em Viqueque, com pouco contacto com a língua. A relação com o português mudou no ano seguinte, quando começou a trabalhar como jornalista na Rádio Comunidade Comoro.
Em 2018, foi convidado, com outros colegas, a frequentar uma formação em contexto de trabalho no Consultório da Língua para Jornalistas (CLJ). Na altura, o seu nível de português situava-se entre A1 e A2.
“Depois de conhecer o projeto, depois de ter sido incluído no projeto e depois de trabalhar no projeto, acho que o meu nível de português já mudou”, recorda.
No CLJ, aprendeu a corrigir erros gramaticais e a melhorar a escrita jornalística: verificar se a informação é clara e coerente, escolher palavras de forma eficaz e adaptar o vocabulário ao assunto de cada texto. A experiência de revisão permitiu-lhe identificar erros frequentes entre jornalistas, sobretudo na construção dos verbos e na concordância verbal.
Para Octaviano, a prática diária foi fundamental para consolidar os conhecimentos. A revisão ajudou-o a melhorar a escrita e a escrever diretamente em português, sem precisar de pensar primeiro noutra língua. Considera que, sem prática, os conhecimentos adquiridos na formação se podem perder progressivamente.
Na sua avaliação, a metodologia e a preparação dos formadores também foram determinantes. A formação no CLJ era mais intensiva e permitia dedicar mais tempo ao português, enquanto no ensino formal tinha de dividir a atenção entre várias disciplinas.
“Aprendi mais português no CLJ do que no ensino básico e no ensino secundário”, afirma.
Recorda, contudo, uma professora do terceiro ciclo que considera ter ensinado português de forma particularmente eficaz. A experiência levou-o a concluir que a qualidade do ensino depende também da preparação e das metodologias dos professores, além do tempo dedicado à disciplina.
Progressos que não apagam as dificuldades
Paulo Henriques contesta uma leitura que apresente o português como uma língua sem desenvolvimento no país.
“Eu posso dizer que a língua portuguesa está a evoluir, mas paulatinamente. Dizer que a língua portuguesa não se desenvolve e que os timorenses não falam português, eu acho que nós erramos um bocadinho, não conhecemos bem a realidade”, conclui.
Tomé, que enfrentou dificuldades na escrita da monografia, começou também a trabalhar como professor enquanto a preparava. Leciona desde 2023 Biologia, Cidadania e Fraternidade Humana no Centro Shallom, em Bebonuk. Segundo a informação recolhida, os materiais das disciplinas estão preparados em português, mas as explicações aos alunos são dadas em tétum.
“No momento em que escrevi, tive muitas dificuldades, mas agora posso falar português com os estudantes, com os meus colegas professores e com a diretora da escola”, conta.
Dionísia também identifica uma melhoria associada à formação que frequentou no CLJ, embora reconheça que continua a sentir dificuldades.
“Antes, não compreendia nada de português. Mas, depois de frequentar a formação no CLJ, consegui melhorar, embora a mudança ainda não seja muito grande. Agora já consigo falar, mas muitas vezes ainda não uso os verbos corretamente quando converso com os formadores”, explica.
Quer continuar a aprender. Não descreve uma aprendizagem concluída, mas um percurso que pretende manter: “Vou avançando devagar, mas continuamente.”























