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	<title>Entrevista - DILIGENTE</title>
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		<title>Felisberto de Deus transforma dificuldades em força e vence os 21 quilómetros da Dili International Marathon</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Joana Silva]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 15 Aug 2026 10:01:37 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Destaque]]></category>
		<category><![CDATA[Entrevista]]></category>
		<category><![CDATA[Pessoas]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Depois de não ter conseguido terminar os 42 quilómetros no ano passado, Felisberto de Deus regressou à Dili International Marathon com outra estratégia. Aos 27 anos, o atleta de Ermera apostou nos 21 quilómetros, preparou-se durante dois meses e acabou [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p><em>Depois de não ter conseguido terminar os 42 quilómetros no ano passado, Felisberto de Deus regressou à Dili International Marathon com outra estratégia. Aos 27 anos, o atleta de Ermera apostou nos 21 quilómetros, preparou-se durante dois meses e acabou por conquistar o primeiro lugar, transformando uma experiência difícil numa lição para voltar mais forte.</em></p>
<p>Felisberto de Deus venceu os 21 quilómetros da Dili International Marathon (DIM) em uma hora e dez minutos. A competição realizou-se no passado sábado, 8 de agosto, numa iniciativa promovida pela Presidência da República que reuniu atletas nacionais e internacionais em diferentes categorias.</p>
<p>A Dili International Marathon contou com quatro provas: 42 quilómetros, 21 quilómetros, 10 quilómetros para pessoas com deficiência e cinco quilómetros de “fun run”, aberta ao público em geral. A prova dos 42 quilómetros teve início 15 minutos antes da corrida dos 21 quilómetros.</p>
<p>Cerca de 400 atletas nacionais e internacionais participaram nos 21 quilómetros, com a partida a ser dada às 6h45, junto ao Palácio Presidencial. O percurso passou por Kampung Alor, Farol, Palácio do Governo, Metiaut, Cristo Rei e Dolok Oan, antes de regressar pelo mesmo trajeto até ao ponto de chegada.</p>
<p>Felisberto partiu com o dorsal número um, mas os primeiros momentos da corrida não foram fáceis. “Nos primeiros quilómetros, mantive-me atrás de um atleta australiano e pensei que seria difícil ultrapassá-lo”.</p>
<p>A situação mudou quando os dois atletas chegaram novamente à zona de Metiaut. Felisberto conseguiu ultrapassar o corredor australiano e, a partir desse momento, passou a correr sozinho na frente da prova, mantendo a liderança até à meta.</p>
<p>A estratégia acabou por resultar. Felisberto cruzou a linha de chegada junto ao Palácio Presidencial com um tempo de uma hora e dez minutos, conquistando o primeiro lugar nos 21 quilómetros.</p>
<p><strong>“Força Timor” deu ainda mais confiança</strong></p>
<p>Durante a corrida, Felisberto contou também com o apoio do público. Ao longo do percurso, muitos cidadãos saíram à rua para acompanhar a prova e incentivaram os atletas com gritos de “Força Timor”.</p>
<p>Para o atleta, esse apoio teve um papel importante, sobretudo quando percebeu que era o primeiro timorense a seguir na frente da corrida. “O incentivo do público deu-me mais confiança e motivação para continuar a correr até à meta”, explica.</p>
<p>A vitória ganhou um significado ainda maior por surgir depois de uma experiência difícil na edição de 2025. No ano passado, Felisberto participou nos 42 quilómetros, mas não conseguiu terminar a prova como esperava. Em vez de encarar o resultado como uma derrota definitiva, decidiu transformá-lo numa aprendizagem.</p>
<p>A experiência levou-o a optar, este ano, por uma distância mais curta. A decisão de competir nos 21 quilómetros esteve também relacionada com o tempo disponível para preparação, a falta de equipamentos e outras dificuldades que, segundo o atleta, condicionam a preparação dos corredores timorenses.</p>
<p>“Para enfrentar uma maratona de 42 quilómetros é necessário um período de preparação mais longo e um treino específico”, justifica.</p>
<p>Durante os dois meses que antecederam a Dili International Marathon, Felisberto e outros atletas concentraram-se na corrida, na preparação física e na alimentação. Os treinos decorreram de manhã e à tarde, seis dias por semana, com cerca de duas horas por sessão.</p>
<p>Durante esse período, conseguiram também ter uma alimentação mais adequada à preparação desportiva. “Fora das competições é mais difícil manter uma dieta saudável, sobretudo devido aos custos”, lamentou.</p>
<p><strong>Ser atleta em Timor-Leste não é fácil</strong></p>
<p>Por trás da vitória de Felisberto existe uma realidade que, segundo o atleta, nem sempre é conhecida pelo público. Em Timor-Leste, ser atleta continua a significar enfrentar dificuldades relacionadas com equipamentos, condições de treino e alimentação.</p>
<p>Felisberto considera que falta investimento no desporto e que muitos atletas têm de contar sobretudo com o próprio esforço para continuar a treinar e competir. “Muitos treinadores e atletas trabalham de forma voluntária. Apesar das limitações, continuam a representar Timor-Leste em competições nacionais e internacionais.”</p>
<p>Os equipamentos são outra das dificuldades. Para Felisberto, ter calçado adequado pode fazer diferença na preparação e no desempenho de um corredor. “Podemos ter uma boa preparação, mas, se os sapatos não forem bons, não ajudam o atleta”, defende.</p>
<p>Outro problema está relacionado com o tempo de preparação antes das competições. Felisberto conta que, em algumas ocasiões, os atletas são chamados pelo Governo pouco tempo antes de uma competição, o que dificulta uma preparação adequada.</p>
<p>“A situação torna-se ainda mais exigente quando os atletas timorenses competem contra corredores internacionais que dispõem de melhores condições de treino e preparação”, acrescenta.</p>
<p>Apesar das dificuldades, Felisberto encontra inspiração em pessoas que admira no atletismo. A sua primeira referência é a própria treinadora, que também foi atleta.</p>
<p>Entre os corredores estrangeiros, “destaco o queniano Eliud Kipchoge, um dos maiores nomes da maratona mundial. Uma das ideias que mais me inspira está relacionada com a disciplina, fundamental para qualquer atleta.”</p>
<p>Para Felisberto, a disciplina permite manter a regularidade dos treinos, cuidar da alimentação e preservar o foco, mesmo perante dificuldades.</p>
<p><strong>Uma paixão que começou na infância</strong></p>
<p>Além de atleta, Felisberto de Deus é estudante da Universidade Nacional Timor Lorosa’e (UNTL), onde frequenta o Departamento de Língua Inglesa.</p>
<p>A relação com o desporto começou ainda na infância. Jogava futebol e praticava outras modalidades, mas foi o atletismo que acabou por mudar o seu percurso.</p>
<p>Em 2013, assistiu a uma maratona realizada em Gleno, Ermera. A experiência despertou o seu interesse pela modalidade e, depois da competição, começou a procurar informações junto dos colegas da escola.</p>
<p>Mais tarde, através do filho da sua atual treinadora, teve oportunidade de conhecer a treinadora de atletismo. “Em 2015, quando frequentava o sétimo ano do ensino básico, comecei a treinar. Apesar de ter apenas três meses de preparação, consegui integrar a seleção para o campeonato nacional destinado a atletas dos 15 aos 16 anos e terminei a competição em primeiro lugar”, conta.</p>
<p>A partir daí, começaram também as experiências internacionais. “Participei numa corrida de três quilómetros na Tailândia, onde terminei em quarto lugar entre atletas de seis países.” Foi a sua primeira experiência numa competição internacional e uma das primeiras oportunidades de representar Timor-Leste fora do país.</p>
<figure id="attachment_23200" aria-describedby="caption-attachment-23200" style="width: 503px" class="wp-caption aligncenter"><img fetchpriority="high" decoding="async" class="size-medium wp-image-23200" src="https://www.diligenteonline.com/wp-content/uploads/2026/08/WhatsApp-Image-2026-08-15-at-15.19.38-503x377.jpeg" alt="" width="503" height="377" srcset="https://www.diligenteonline.com/wp-content/uploads/2026/08/WhatsApp-Image-2026-08-15-at-15.19.38-503x377.jpeg 503w, https://www.diligenteonline.com/wp-content/uploads/2026/08/WhatsApp-Image-2026-08-15-at-15.19.38.jpeg 640w" sizes="(max-width: 503px) 100vw, 503px" /><figcaption id="caption-attachment-23200" class="wp-caption-text">Felisberto, terceiro a contar da esquerda, segura a medalha após a conquista nas Filipinas. /Foto: Arquivo pessoal.</figcaption></figure>
<p>Em 2016, voltou a competir no ASEAN Youth, na Tailândia, onde terminou na quarta posição.</p>
<p>Em 2017, participou no Philippines Open, onde conquistou o primeiro lugar. Desde então, tem competido em diferentes distâncias, tanto em pista como em estrada, nos 5, 10, 21 e 42 quilómetros. Em 2018, conquistou o terceiro lugar numa maratona em Macau.</p>
<p>Em 2022, alcançou o segundo lugar nos ASEAN University Games, na Tailândia. “No mesmo ano, participei nos SEA Games, no Vietname, uma das experiências mais importantes da minha carreira.”</p>
<p>Nos SEA Games, alcançou o segundo lugar, tornando-se, segundo o próprio, o primeiro atleta timorense a conquistar uma medalha nesta competição. “Foi a primeira vez que um atleta timorense conquistou uma medalha nos SEA Games, ao ficar em segundo lugar. Muitos atletas timorenses já tinham participado nesta competição, mas, até então, nenhum havia conseguido conquistar uma medalha”, afirmou.</p>
<p>Passados dois anos, voltou a subir ao pódio, desta vez com o terceiro lugar nos ASEAN University Games, realizados na Indonésia.</p>
<p><strong>O sonho de voltar aos 42 quilómetros</strong></p>
<p>Depois da vitória nos 21 quilómetros, Felisberto já pensa no próximo desafio. “Se a Dili International Marathon voltar a realizar-se no próximo ano, quero preparar-me melhor e tentar novamente os 42 quilómetros”, confessa.</p>
<p>O objetivo é regressar à distância que, em 2025, não conseguiu terminar, mas desta vez com uma preparação mais longa e condições adequadas.</p>
<p>O sonho de Felisberto, no entanto, vai além dos seus próprios resultados. O atleta quer também incentivar outros jovens timorenses a praticarem desporto e acredita que o atletismo pode contribuir para o desenvolvimento do país e para a projeção de Timor-Leste no estrangeiro.</p>
<p>Defende que o atletismo está aberto a todos e incentiva os jovens a aproximarem-se da modalidade e a praticarem desporto. Ao mesmo tempo, reconhece que muitos jovens estão hoje menos interessados no desporto e considera que esta área ainda não recebe a atenção necessária.</p>
<p>“Apesar disso, pretendo continuar a conciliar o atletismo com os estudos na UNTL”. Para Felisberto, o desporto continua a ser sobretudo uma paixão e um hobby, numa realidade em que, segundo afirma, ainda não é uma prioridade nacional.</p>
<p>Entre a pista e a sala de aula, o atleta de Ermera continua a construir o seu percurso. A vitória nos 21 quilómetros da Dili International Marathon representa mais do que um troféu: é também a resposta a uma derrota, às dificuldades de preparação e aos treinos realizados com poucos recursos.</p>
<p>Agora, a próxima meta está definida: preparar-se melhor, regressar aos 42 quilómetros e tentar provar, mais uma vez, que um atleta timorense pode chegar longe mesmo quando as condições estão longe de ser ideais.</p>
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		<title>Rui Gomes: “O Fundo Petrolífero não pode financiar Timor-Leste para sempre”</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Lourdes do Rego]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 30 Jul 2026 12:29:46 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Destaque]]></category>
		<category><![CDATA[Entrevista]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Um ano depois do fim da produção comercial do Bayu-Undan, o antigo ministro das Finanças Rui Gomes faz um balanço da transição para a era pós-petróleo. Nesta entrevista ao Diligente, defende maior disciplina fiscal, alerta para os riscos da dependência [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p><em>Um ano depois do fim da produção comercial do Bayu-Undan, o antigo ministro das Finanças Rui Gomes faz um balanço da transição para a era pós-petróleo. Nesta entrevista ao Diligente, defende maior disciplina fiscal, alerta para os riscos da dependência do Fundo Petrolífero e explica por que razão o futuro económico de Timor-Leste dependerá menos de novos campos petrolíferos e mais da capacidade de diversificar a economia.</em></p>
<p>Durante duas décadas, Bayu-Undan foi o principal motor da economia timorense. As receitas do campo petrolífero financiaram infraestruturas, serviços públicos e alimentaram o Fundo Petrolífero, considerado um dos mais transparentes do mundo. Com o fim da produção comercial, em junho de 2025, Timor-Leste entrou numa nova etapa, marcada por novos desafios fiscais e pela necessidade de reduzir a dependência do petróleo.</p>
<p>Um ano depois, Rui Gomes, antigo ministro das Finanças, analisa os impactos do encerramento do Bayu-Undan, avalia a sustentabilidade do Fundo Petrolífero, comenta o futuro do Greater Sunrise e dos projetos de captura e armazenamento de carbono e identifica as prioridades que considera essenciais para assegurar um desenvolvimento económico sustentável.</p>
<p>Rui A. Gomes foi ministro das Finanças de Timor-Leste entre 2018 e 2023. Economista de formação, acompanhou a gestão do Fundo Petrolífero e as principais decisões de política orçamental durante um período marcado pela pandemia de COVID-19 e pelos preparativos para o fim da produção do Bayu-Undan.</p>
<blockquote>
<p style="text-align: center;">“Timor-Leste deixou de ser um país com receitas petrolíferas correntes”</p>
</blockquote>
<p><strong>Bayu-Undan foi durante muitos anos o principal motor das receitas petrolíferas de Timor-Leste. Um ano depois do fim da produção comercial, como avalia o impacto que este momento teve nas finanças públicas e na economia nacional?</strong></p>
<p>Um ano depois da cessação da produção de Bayu-Undan, a 4 de junho de 2025, o impacto mais visível não foi um colapso imediato, mas uma mudança estrutural silenciosa. Timor-Leste deixou de ser um país com receitas petrolíferas correntes e passou a depender inteiramente do rendimento dos investimentos do Fundo Petrolífero para financiar o Estado.</p>
<p>Em 2025, estima-se que cerca de 73% do Orçamento Geral do Estado tenha sido financiado por transferências do Fundo Petrolífero. Pela primeira vez, essas transferências deixaram de ser compensadas por novas receitas provenientes da exploração petrolífera.</p>
<p>O Fundo Petrolífero terminou o ano fiscal de 2024 praticamente estável, com cerca de 18,3 mil milhões de dólares norte-americanos e um retorno anual de 6,8%, depois dos 9,99% registados em 2023. No entanto, uma parte significativa desses ganhos foi absorvida pelas transferências para o Orçamento do Estado, o que demonstra que o crescimento do Fundo através dos mercados financeiros está a ser neutralizado pelo atual ritmo de levantamentos.</p>
<p>Os primeiros sinais deste novo contexto já são visíveis. O Orçamento Geral do Estado para 2026 foi inicialmente aprovado com menos cerca de 300 milhões de dólares do que o de 2025 — 2,29 mil milhões contra 2,6 mil milhões de dólares. Além disso, o reforço orçamental aprovado em junho de 2026, no valor de 101,1 milhões de dólares, destinou-se sobretudo a compensar o aumento internacional dos preços dos combustíveis, provocado pela instabilidade no Médio Oriente e pela situação no Estreito de Ormuz, e não ao financiamento de novos investimentos.</p>
<p>Em suma, o primeiro ano pós-Bayu-Undan ficou marcado por uma estratégia de consolidação orçamental e de contenção da despesa, e não por uma fase de expansão económica.</p>
<p><strong>Quando desempenhou funções como ministro das Finanças, o fim da produção do Bayu-Undan já era um cenário previsível. Considera que Timor-Leste se preparou adequadamente para esse momento? O que foi feito e o que ficou por fazer?</strong></p>
<p>O país preparou-se em vários aspetos. A principal decisão foi a criação do Fundo Petrolífero, em 2005, e do mecanismo do Rendimento Sustentável Estimado (RSE), fixado em 3% da riqueza petrolífera total. Estes instrumentos foram concebidos precisamente para preparar Timor-Leste para o período posterior ao esgotamento dos campos petrolíferos.</p>
<p>Mais recentemente, em 2024, a Timor GAP adquiriu uma participação de 16,74% no consórcio do Bayu-Undan, assegurando ao Estado uma posição direta nos planos de reconversão do campo, incluindo o projeto de Captura e Armazenamento de Carbono.</p>
<p>Ao longo da última década foram igualmente aprovados vários planos de diversificação económica, como o Roteiro para a Diversificação Económica, o Plano de Recuperação Económica Pós-COVID-19 e o estudo Os Motores do Crescimento. A adesão de Timor-Leste à ASEAN, em 2025, constitui também um passo importante para ampliar as oportunidades económicas do país.</p>
<blockquote>
<p style="text-align: center;">“A diversificação da economia avançou muito mais devagar do que estava previsto”</p>
</blockquote>
<p>Apesar destes avanços, a execução ficou aquém do desejável. A diversificação económica progrediu lentamente e o café continua a representar a esmagadora maioria das exportações não petrolíferas. Em 2025, essas exportações rondaram os 35 milhões de dólares, um valor reduzido quando comparado com cerca de 900 milhões de dólares em importações anuais de bens essenciais.</p>
<p>Também a base de receitas internas do Estado permaneceu limitada. Em 2024, apenas cerca de 230 milhões de dólares da despesa pública foram financiados por receitas domésticas, num orçamento próximo dos 1,93 mil milhões de dólares.</p>
<p>Por outro lado, o Greater Sunrise, o único novo campo petrolífero com reservas comercialmente comprovadas, continua sem uma decisão definitiva, apesar de este debate se arrastar há mais de uma década.</p>
<p><strong>Quais foram, na sua opinião, os principais acertos e os principais erros na gestão das receitas geradas pelo Bayu-Undan ao longo das últimas duas décadas?</strong></p>
<p>O maior acerto foi, sem dúvida, a criação do Fundo Petrolífero em 2005. Trata-se de um instrumento reconhecido internacionalmente pela sua robustez, transparência e qualidade da governação. Timor-Leste foi o primeiro país da Ásia-Pacífico e o terceiro do mundo a cumprir os padrões da Iniciativa para a Transparência das Indústrias Extrativas.</p>
<p>O Fundo registou, ao longo dos anos, retornos financeiros muito positivos e permitiu financiar investimentos fundamentais em infraestruturas, eletrificação e outros projetos estruturantes num país que, após a restauração da independência, partia praticamente do zero.</p>
<p>Houve também anos excecionais de desempenho, como 2020 e 2021, impulsionados pelo contexto económico internacional durante a pandemia. Em contrapartida, 2022 demonstrou que os mercados financeiros também comportam riscos, registando-se a única perda anual significativa dos últimos anos. Essa experiência reforçou a necessidade de distinguir uma carteira de liquidez, destinada a financiar os levantamentos do Estado a curto prazo, de uma carteira de crescimento, orientada para investimentos de longo prazo.</p>
<p>Os principais erros estiveram relacionados com o ritmo das retiradas do Fundo Petrolífero e com a lenta diversificação da economia. Desde 2008, os levantamentos ultrapassaram de forma sistemática o Rendimento Sustentável Estimado, reduzindo gradualmente a capacidade do Fundo para preservar riqueza para as gerações futuras.</p>
<p>Ao mesmo tempo, o país continuou excessivamente dependente de um único recurso natural, sem conseguir desenvolver, à mesma escala, novas fontes de receita que substituíssem o Bayu-Undan.</p>
<blockquote>
<p style="text-align: center;">“O Fundo Petrolífero pode esgotar-se na próxima década se o atual ritmo de despesa se mantiver”</p>
</blockquote>
<p><strong>O Fundo Petrolífero continua a ser o principal suporte das finanças do Estado. Considera que o ritmo atual de levantamentos é sustentável a médio e longo prazo?</strong></p>
<p>Os próprios números oficiais sugerem que não, pelo menos sem correções. Na apresentação da proposta do Orçamento Geral do Estado para 2026, o primeiro-ministro, Xanana Gusmão, frisou que, se o atual ritmo de despesa se mantiver, o Fundo Petrolífero poderá esgotar-se na próxima década. Esta avaliação está em linha com projeções anteriores, que apontavam para o esgotamento do Fundo por volta de 2034, caso continuassem os levantamentos acima do Rendimento Sustentável Estimado (RSE).</p>
<p>Com um saldo de cerca de 18,75 mil milhões de dólares norte-americanos, em maio de 2026, e sem novas receitas petrolíferas significativas no horizonte, a sustentabilidade do Fundo depende essencialmente de três fatores.</p>
<p>O primeiro é a disciplina orçamental, garantindo que os levantamentos anuais respeitam o Rendimento Sustentável Estimado, correspondente a 3% da riqueza petrolífera total.</p>
<p>O segundo é o desempenho dos mercados financeiros internacionais, uma vez que o Fundo está investido maioritariamente em obrigações e ações.</p>
<p>O terceiro prende-se com a eventual entrada em produção de novos projetos, como o Greater Sunrise ou o projeto de Captura e Armazenamento de Carbono em Bayu-Undan, que poderão gerar novas receitas, embora ainda não exista um calendário definido para o seu arranque comercial.</p>
<p><strong>Até que ponto Timor-Leste conseguirá manter o atual nível de despesa pública se não surgirem novas fontes significativas de receitas petrolíferas?</strong></p>
<p>Os sinais mais recentes mostram que o país já iniciou um processo de ajustamento.</p>
<p>O Orçamento Geral do Estado para 2026 foi apresentado com uma redução de cerca de 300 milhões de dólares face ao orçamento do ano anterior e vários setores sociais registaram cortes nas dotações iniciais, incluindo a saúde.</p>
<p>Diversos analistas têm avisado que, sem novos projetos petrolíferos ou uma diversificação significativa da economia, as receitas públicas poderão diminuir de forma acentuada, obrigando o Estado a reduzir despesas e a rever programas de investimento.</p>
<p>O desequilíbrio estrutural também é evidente nas contas externas. Timor-Leste importa anualmente cerca de 900 milhões de dólares em bens essenciais, enquanto as exportações não petrolíferas rondam apenas os 36 milhões de dólares, sendo dominadas pelo café. Este défice comercial tem sido financiado pelo Fundo Petrolífero.</p>
<p>Por isso, manter o atual nível de despesa pública sem novas fontes de receita exigirá um esforço sem precedentes para aumentar a arrecadação de receitas internas e controlar a despesa pública. O próprio Governo já reconheceu que o atual nível de dependência do Fundo Petrolífero não é sustentável.</p>
<blockquote>
<p style="text-align: center;">“Bayu-Undan pode voltar a gerar riqueza, mas dificilmente voltará a produzir receitas comparáveis às do passado”</p>
</blockquote>
<p><strong>Recentemente, o Governo e a empresa Santos discutiram a possibilidade de reutilizar as infraestruturas de Bayu-Undan para projetos de captura e armazenamento de carbono e para o eventual processamento de gás proveniente de outros campos. Como avalia esta possibilidade? Poderá representar uma nova oportunidade económica para Timor-Leste?</strong></p>
<p>O projeto de Captura e Armazenamento de Carbono (CCS) em Bayu-Undan é atualmente o mais avançado dos projetos de reconversão do campo petrolífero.</p>
<p>A Santos entrou na fase de engenharia do projeto em 2022 e, no ano seguinte, assinou um memorando de entendimento com a Timor GAP para estudar uma eventual participação da empresa timorense no capital do projeto.</p>
<p>Foram igualmente assinados memorandos de entendimento com potenciais clientes na Austrália e na Coreia do Sul, apontando para uma procura superior a dez milhões de toneladas de dióxido de carbono por ano, o que poderá transformar Bayu-Undan num dos maiores projetos de armazenamento de carbono do mundo.</p>
<p>Em junho de 2026, a imprensa especializada confirmou que a Santos continua empenhada em utilizar Bayu-Undan para armazenar o dióxido de carbono proveniente do campo australiano de Barossa.</p>
<p>Trata-se de uma oportunidade concreta para prolongar a utilização de uma infraestrutura que, de outra forma, teria de ser desmantelada, criando novas receitas e emprego especializado.</p>
<p>Contudo, a viabilidade económica do projeto continua dependente da decisão final de investimento e da celebração dos respetivos contratos comerciais.</p>
<p><strong>Que potencial vê nestes projetos de captura e armazenamento de carbono? Poderão transformar-se numa nova fonte de receitas ou devem ser encarados apenas como uma solução técnica?</strong></p>
<p>As duas perspetivas não são incompatíveis. Do ponto de vista técnico, Bayu-Undan reúne excelentes condições geológicas para o armazenamento permanente de dióxido de carbono. O Governo tem defendido que o campo poderá transformar-se num centro regional de armazenamento subterrâneo de carbono, com capacidade para cerca de dez milhões de toneladas por ano. Se esse cenário se concretizar, poderá gerar receitas importantes para Timor-Leste.</p>
<p>No entanto, importa gerir as expectativas. Mesmo num cenário otimista, as receitas provenientes do armazenamento de carbono dificilmente terão uma dimensão comparável às que Bayu-Undan gerou enquanto campo produtor de gás, que ultrapassaram os 25 mil milhões de dólares ao longo de duas décadas.</p>
<p>Vejo este projeto sobretudo como uma fonte complementar de receitas e de emprego qualificado, integrada numa nova indústria de serviços ligados ao carbono na região Ásia-Pacífico, e não como um substituto do papel que Bayu-Undan desempenhou na economia timorense.</p>
<blockquote>
<p style="text-align: center;">“O Greater Sunrise pode ser decisivo, mas não resolve, por si só, o problema da dependência do petróleo”</p>
</blockquote>
<p><strong>Para além de Bayu-Undan, que outros projetos energéticos ou petrolíferos considera mais importantes para o futuro económico de Timor-Leste?</strong></p>
<p>O Greater Sunrise continua a ser o projeto com maior potencial económico. É o único campo com reservas comercialmente comprovadas capaz de gerar receitas comparáveis às do Bayu-Undan. Segundo estimativas do Governo, poderá render mais de 78 mil milhões de dólares em impostos e royalties, além de criar mais de 17 mil postos de trabalho.</p>
<p>No entanto, continua por resolver uma questão fundamental: a localização do processamento do gás. O debate entre a construção de um gasoduto para a costa sul de Timor-Leste ou a ligação às infraestruturas de Darwin mantém-se em aberto, enquanto prosseguem as negociações entre o Governo e a Woodside Energy.</p>
<p>Além do Greater Sunrise, destaco o campo de Chuditch, que poderá contribuir para o abastecimento de gás ao mercado interno, e o Projeto Tasi Mane, concebido para desenvolver uma indústria petrolífera a jusante, incluindo refinação, gás natural liquefeito e uma base logística de apoio.</p>
<p>Acrescem ainda a exploração de novos blocos petrolíferos e o próprio projeto de Captura e Armazenamento de Carbono em Bayu-Undan, que poderá prolongar a utilização daquela infraestrutura e criar uma nova atividade económica.</p>
<blockquote>
<p style="text-align: center;">“O desafio já não é desenhar estratégias. É executá-las.”</p>
</blockquote>
<p><strong>Fala-se há muitos anos da necessidade de diversificar a economia timorense. Na prática, quais deveriam ser hoje as três principais prioridades do Governo para reduzir a dependência do petróleo?</strong></p>
<p>A meu ver, existem três prioridades fundamentais. A primeira passa por reforçar a disciplina fiscal e aumentar a capacidade de arrecadação de receitas internas. Isso implica respeitar o Rendimento Sustentável Estimado nas transferências do Fundo Petrolífero, melhorar o sistema fiscal e criar melhores condições para o investimento privado.</p>
<p>A segunda consiste em apostar de forma seletiva nos setores onde Timor-Leste já demonstrou vantagens competitivas. O café continua a ser o principal exemplo, mas há também oportunidades no agronegócio, nas pescas e no turismo. Mais do que aumentar a produção, é importante criar maior valor acrescentado e conquistar novos mercados internacionais.</p>
<p>A terceira prioridade é concluir os grandes projetos estratégicos já iniciados, em vez de lançar continuamente novas obras financiadas pelo Fundo Petrolífero. Paralelamente, a integração na ASEAN deverá ser aproveitada para reforçar a competitividade da economia e atrair investimento.</p>
<p>Em boa verdade, Timor-Leste já dispõe de vários planos estratégicos para diversificar a economia. O desafio atual já não é elaborar novas estratégias, mas garantir a sua execução, com financiamento consistente, acompanhamento e avaliação de resultados.</p>
<p><strong>Que setores económicos considera terem maior potencial para gerar emprego e receitas sustentáveis nas próximas décadas?</strong></p>
<p>O café continua a ser o setor não petrolífero mais consolidado. Sustenta o rendimento de mais de 40 mil famílias e continua a representar a maior fatia das exportações não petrolíferas. Existe, contudo, margem para aumentar o valor acrescentado através da torrefação, certificação e comercialização de produtos transformados.</p>
<p>O turismo apresenta igualmente um enorme potencial, sobretudo após a adesão de Timor-Leste à ASEAN. O país dispõe de recursos naturais, património histórico e condições únicas para desenvolver segmentos como o mergulho, o ecoturismo e o turismo cultural.</p>
<p>A agricultura e as pescas continuam a ser setores essenciais, não apenas pelo seu contributo para a economia, mas também pela capacidade de gerar emprego numa população maioritariamente rural.</p>
<p>A médio prazo, vejo também oportunidades na indústria agroalimentar, na manufatura ligeira e nos serviços ligados à energia e ao carbono, nomeadamente através do desenvolvimento de projetos de Captura e Armazenamento de Carbono.</p>
<blockquote>
<p style="text-align: center;">“Um bom modelo de gestão não basta. É preciso ter disciplina para o cumprir”</p>
</blockquote>
<p><strong>Que lição mais importante deixa Bayu-Undan para a gestão dos recursos naturais em Timor-Leste?</strong></p>
<p>A principal lição é que um bom modelo institucional, por si só, não garante uma gestão sustentável dos recursos naturais.</p>
<p>Timor-Leste criou um dos sistemas de gestão da riqueza petrolífera mais transparentes e bem regulados do mundo, através do Fundo Petrolífero e do mecanismo do Rendimento Sustentável Estimado. Esse modelo tem sido amplamente reconhecido por organizações internacionais.</p>
<p>Contudo, a existência desse quadro legal não impediu que, ao longo dos anos, os levantamentos ultrapassassem regularmente o limite considerado sustentável, nem que a diversificação económica avançasse mais lentamente do que o previsto.</p>
<p>A grande lição do Bayu-Undan é que nenhum recurso natural dura para sempre. Enquanto as receitas continuam a entrar, existe a tendência para acreditar que ainda há tempo para preparar o futuro. No entanto, essa janela de oportunidade pode fechar-se mais depressa do que se imagina.</p>
<p>Passadas duas décadas, Timor-Leste acumulou uma importante reserva financeira e realizou investimentos estruturantes, mas continua excessivamente dependente do petróleo. Esse é, talvez, o maior ensinamento deixado por Bayu-Undan.</p>
<blockquote>
<p style="text-align: center;">“O Rendimento Sustentável Estimado deve deixar de ser uma referência e passar a ser um verdadeiro limite”</p>
</blockquote>
<p><strong>Se pudesse aconselhar o atual Governo relativamente ao período pós-Bayu-Undan, qual seria a sua principal recomendação?</strong></p>
<p>A minha principal recomendação seria tratar o Rendimento Sustentável Estimado (RSE) como um verdadeiro limite fiscal e não apenas como uma referência indicativa.</p>
<p>Enquanto o Estado continuar a financiar défices estruturais através de levantamentos acima do RSE, o Fundo Petrolífero ficará cada vez mais vulnerável e a margem para as gerações futuras continuará a diminuir.</p>
<p>Naturalmente, isso exigirá escolhas orçamentais difíceis. No entanto, sem esta disciplina, qualquer estratégia de diversificação económica corre o risco de se tornar financeiramente insustentável antes mesmo de produzir resultados.</p>
<p>Ao mesmo tempo, considero que Timor-Leste já dispõe, no papel, de praticamente todos os instrumentos necessários para diversificar a economia. Existem planos para desenvolver o café, as pescas, o turismo, a Economia Azul e potenciar as oportunidades decorrentes da integração na ASEAN.</p>
<p>O grande desafio deixou de ser definir estratégias. O desafio é executá-las de forma consistente, assegurando financiamento, continuidade das políticas públicas e avaliação dos resultados.</p>
<blockquote>
<p style="text-align: center;">“O Greater Sunrise pode representar uma enorme oportunidade, mas não deve substituir a diversificação da economia”</p>
</blockquote>
<p><strong>Há quem defenda que Timor-Leste deve acelerar o desenvolvimento do Greater Sunrise, enquanto outros alertam para os riscos de continuar demasiado dependente do petróleo. Como vê este debate?</strong></p>
<p>Trata-se de um debate legítimo e não existe uma resposta simples. Quem defende um avanço mais rápido do Greater Sunrise lembra que este é o único projeto atualmente conhecido com capacidade para gerar receitas comparáveis às do Bayu-Undan. Segundo estimativas do Governo, poderá render cerca de 78 mil milhões de dólares em impostos e royalties ao longo da vida do projeto, precisamente numa altura em que o Fundo Petrolífero enfrenta uma crescente pressão.</p>
<p>Além disso, o impasse em torno deste projeto prolonga-se há mais de duas décadas, o que representa um elevado custo de oportunidade para o país.</p>
<p>Por outro lado, também são legítimas as preocupações de quem receia que um novo ciclo petrolífero prolongue a dependência económica de Timor-Leste.</p>
<p>A experiência do Bayu-Undan demonstra que a existência de uma fonte muito significativa de receitas pode reduzir a urgência política de diversificar a economia. Existe, por isso, o risco de se adiar novamente um problema estrutural que continuará por resolver.</p>
<p>A esta preocupação junta-se ainda a incerteza associada à transição energética global e à evolução da procura internacional por gás natural liquefeito nas próximas décadas.</p>
<p>Na minha opinião, o Greater Sunrise poderá representar uma oportunidade importante para Timor-Leste, mas não deverá ser encarado como alternativa à diversificação económica. Pelo contrário, se avançar, deverá servir para financiar essa diversificação e não para a adiar.</p>
<blockquote>
<p style="text-align: center;">“Bayu-Undan transformou Timor-Leste. Mas também adiou algumas mudanças de que o país precisava”</p>
</blockquote>
<p><strong>Se o Bayu-Undan nunca tivesse existido, acredita que a economia timorense seria hoje muito diferente? Em que aspetos?</strong></p>
<p>É muito provável que sim, embora qualquer resposta a essa pergunta seja necessariamente especulativa.</p>
<p>O Bayu-Undan gerou cerca de 25 mil milhões de dólares em receitas para o Estado entre 2004 e 2025 e permitiu criar o Fundo Petrolífero, que continua a ser um dos maiores ativos financeiros de Timor-Leste.</p>
<p>Sem essas receitas, o país teria provavelmente permanecido durante muito mais tempo dependente da ajuda internacional e teria enfrentado maiores dificuldades para investir em infraestruturas, saúde, educação e outros serviços públicos essenciais.</p>
<p>Ao mesmo tempo, também é possível olhar para esta questão de outra perspetiva.</p>
<p>A experiência internacional mostra que os países sem grandes recursos naturais são frequentemente obrigados a diversificar mais cedo as suas economias. É possível que, sem o Bayu-Undan, Timor-Leste tivesse sentido essa necessidade muito antes.</p>
<p>Nesse sentido, o Bayu-Undan explica, em grande medida, o nível de infraestruturas e de reservas financeiras que o país possui atualmente. Mas também poderá ajudar a explicar por que razão, duas décadas depois, a economia continua tão dependente do petróleo.</p>
<p>O desafio que Timor-Leste enfrenta agora consiste precisamente em aproveitar o legado financeiro deixado pelo Bayu-Undan para construir uma economia mais diversificada, mais produtiva e menos vulnerável ao esgotamento dos recursos naturais.</p>
<p>O conteúdo <a href="https://www.diligenteonline.com/rui-gomes-o-fundo-petrolifero-nao-pode-financiar-timor-leste-para-sempre/">Rui Gomes: “O Fundo Petrolífero não pode financiar Timor-Leste para sempre”</a> aparece primeiro em <a href="https://www.diligenteonline.com">DILIGENTE</a>.</p>
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		<item>
		<title>José Manuel Simões: “O essencial é não perdermos aquilo que é mais importante: o humanismo”</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Antónia Martins]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 16 Jun 2026 10:35:38 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Destaque]]></category>
		<category><![CDATA[Entrevista]]></category>
		<category><![CDATA[Pessoas]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Para José Manuel Simões, os media, a arte e a tecnologia só fazem sentido quando colocados ao serviço das pessoas e dos valores humanistas. Em entrevista ao Diligente, o académico português defende um jornalismo livre e fiscalizador, alerta para ameaças [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p><em>Para José Manuel Simões, os media, a arte e a tecnologia só fazem sentido quando colocados ao serviço das pessoas e dos valores humanistas. Em entrevista ao Diligente, o académico português defende um jornalismo livre e fiscalizador, alerta para ameaças à liberdade de imprensa em Timor-Leste e sublinha a importância da língua portuguesa, da cultura e da solidariedade na aproximação entre os povos lusófonos.</em></p>
<p>O livro “Media, Arte e Tecnologia nas Nove Culturas de Língua Portuguesa” reúne perspetivas de especialistas sobre a interligação entre os media, a arte e a tecnologia nos diferentes espaços da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP). O projeto procura aproximar nove culturas que partilham o português como língua oficial.</p>
<p>“Os meios de comunicação e a tecnologia não são apenas formas de comunicação, mas partes fundamentais da expressão artística e da identidade cultural”, lê-se no prefácio da obra, apresentada no dia 5 de junho, na Universidade Católica Timorense, em Díli.</p>
<p>O organizador e editor da publicação, José Manuel Simões, atualmente coordenador do Mestrado em Comunicação e Media da Universidade de São José, em Macau, explicou que a ideia surgiu após a coorganização do livro Jornalismo e Qualidade no Mundo da Expressão Portuguesa, publicado em 2022, no qual Virgílio Guterres e Pedro Brinca assinaram um artigo dedicado a Timor-Leste.</p>
<p>Com uma carreira de 18 anos no jornalismo cultural, o professor associado do Departamento de Media, Arte e Tecnologia pretende criar pontes entre pessoas, investigadores e estudantes que partilham a língua portuguesa e um interesse comum pelas áreas dos media, da arte e da tecnologia.</p>
<p>Para José Manuel Simões, é fundamental que estas três áreas estejam alinhadas com princípios éticos e humanistas. Considera, por isso, que a obra é também uma manifestação de afeto, refletida na proximidade dos autores aos temas que abordam.</p>
<p><strong>Tecnologia como alicerce da identidade e da língua</strong></p>
<p>O conceito de “nove culturas”, em vez de “nove países”, foi escolhido para incluir Macau, território chinês onde o português continua a ser língua oficial e onde subsiste o sistema jurídico de matriz portuguesa. “Prefiro falar em culturas e não em territórios ou países, porque é a cultura que nos une. Os media, a arte e a tecnologia encontram-se unidos neste livro”, afirmou.</p>
<p>O editor explicou ainda que optou por não incluir a Guiné Equatorial, apesar de o português ser uma das línguas oficiais do país, por considerar que não existe ali uma presença cultural lusófona suficientemente consolidada.</p>
<p>Embora cada artigo atribua diferentes graus de relevância aos media, à arte e à tecnologia, todos evidenciam a relação entre estas três dimensões. José Manuel Simões acredita que essas diferenças resultam sobretudo das áreas de investigação e dos interesses dos autores, mais do que das especificidades de cada contexto nacional.</p>
<p>Para a elaboração dos textos, deu liberdade total aos colaboradores para articularem os três temas. Cada capítulo inclui ainda um código QR através do qual o respetivo autor apresenta, em vídeo, uma síntese do seu trabalho, constituindo um exemplo prático da convergência entre media, arte e tecnologia.</p>
<p>Os artigos dedicados a Cabo Verde e ao Brasil centram-se mais na tecnologia. Entre outros aspetos, abordam o impacto da inteligência artificial nas redações jornalísticas cabo-verdianas, a arte digital brasileira e a utilização de criptomoedas no Brasil.</p>
<p>Outros textos dão maior destaque às raízes culturais, à gastronomia, aos rituais e às danças tradicionais, como acontece no capítulo dedicado à Guiné-Bissau. Já o artigo sobre Timor-Leste atribui maior relevância ao jornalismo, enquanto o de Macau se centra na filantropia e na solidariedade.</p>
<p>“Sabemos que o jornalismo na Guiné-Bissau é muito pobre e a cultura é muito rica. Por isso, dar maior destaque à cultura e não ao jornalismo é também uma forma de mostrar uma realidade mais saudável do país”, observou.</p>
<p>Para o editor, a cultura, a arte, a tecnologia e o próprio jornalismo devem contribuir para o bem comum e para o amor ao próximo. Sublinhou que a tecnologia pode aproximar as pessoas quando é utilizada de forma consciente, mas também pode afastá-las e dominá-las quando é aceite “de forma acrítica e meramente imitativa”.</p>
<p>“No prefácio, o meu amigo, o professor João Bruchado, salienta a importância da tecnologia para unir os povos que falam português à escala global. O importante é não perdermos aquilo que é mais importante: o humanismo. São as relações humanas, a ligação ao outro, o contacto da palavra, o afeto, o amor ao bem comum e aos valores morais e éticos.”</p>
<p>Esta dimensão humana foi sentida pelo próprio organizador da obra durante as suas visitas a Timor-Leste, país que considera ser a cultura de língua portuguesa que mais atrai os portugueses.</p>
<p>“Aqui sou tratado como grande irmão, e não é por ser grande; é assim que os portugueses são chamados. Sinto uma solidariedade especial das pessoas quando sabem que sou português. É algo que se associa à simpatia natural dos timorenses, mas que se fortalece através da ligação a Portugal e aos portugueses”, afirmou.</p>
<p>Para José Manuel Simões, é também o amor pela língua portuguesa que explica esta proximidade. Na sua terceira visita ao país, regressou com um afeto ainda maior pelo povo timorense e apelou a todas as instituições para que continuem a investir na promoção e valorização do português.</p>
<p>O professor reconheceu o trabalho desenvolvido pelas instituições de ensino em Timor-Leste, mas considera que os meios de comunicação social desempenham um papel igualmente decisivo no fortalecimento da língua. “Quanto melhor for o desempenho dos meios de comunicação social, mais forte será esta língua oficial que une os países lusófonos”, afirmou.</p>
<p>José Manuel Simões aproveitou ainda para elogiar o trabalho desenvolvido pelo Diligente na promoção da língua portuguesa. “Quero aproveitar para felicitar o Diligente pelo trabalho que tem desenvolvido na promoção, aproximação e valorização da língua portuguesa”, declarou.</p>
<p><strong>O jornalismo nasceu para ser o quarto poder</strong></p>
<p>Para José Manuel Simões, o jornalismo perde a sua razão de ser quando deixa de fiscalizar os centros de poder. O académico defende uma imprensa livre, rigorosa e comprometida com a verdade, rejeitando tanto a censura como a instrumentalização dos meios de comunicação social por interesses políticos ou económicos.</p>
<p>Apesar de ter transitado do jornalismo para a academia, continua a defender um jornalismo de causas, assente na solidariedade, na responsabilidade social e na procura da verdade. Entre os países de língua portuguesa, considera que Timor-Leste ocupa um lugar singular. “Porque o jornalismo nasceu da tragédia, da luta e da morte”, afirmou.</p>
<p>Na sua perspetiva, a história da resistência timorense e o sacrifício daqueles que arriscaram a vida pela independência deixaram uma marca profunda na profissão. Recorda figuras como Max Stahl, Adelino Gomes e os jornalistas australianos assassinados durante a invasão indonésia.</p>
<p>“É por isso que o jornalismo nasceu, na sua génese, para ser o quarto poder, isto é, para vigiar os outros poderes, nomeadamente o poder político. E não para ser o quarto do poder, onde se estabelecem relações promíscuas, compadrios, corrupção, controlo e censura, substituindo, à escala global, o princípio do quarto poder”, explicou.</p>
<p>Como exemplo do papel fiscalizador do jornalismo, recordou o caso de São Tomé e Príncipe, onde o trabalho de jornalistas contribuiu para a prisão de uma ministra da Saúde. Para o professor, tal só foi possível graças ao compromisso com a verdade e à consciência do que significa ser íntegro, honesto, responsável e incorruptível.</p>
<p>“É obrigação do jornalista, quando dispõe de provas e factos, denunciar quem comete desvios éticos e viola princípios fundamentais”, defendeu.</p>
<p>José Manuel Simões destacou o papel dos media na mobilização da sociedade civil, na fiscalização da ação governativa e na exigência de prestação de contas. Considera que o jornalismo contribui para o desenvolvimento dos países através da informação livre e rigorosa, do jornalismo de investigação e da grande reportagem.</p>
<p>Embora Timor-Leste seja atualmente o país mais bem classificado do Sudeste Asiático no Índice Mundial da Liberdade de Imprensa da Repórteres Sem Fronteiras (RSF), alertou para sinais que considera preocupantes.</p>
<p>Segundo o académico, o recurso por parte de políticos ao artigo 285.º do Código Penal, relativo ao crime de denúncia caluniosa, tem sido utilizado para retaliar contra jornalistas envolvidos na divulgação de alegados casos de corrupção em instituições públicas e privadas. “Se um jornalista não denuncia casos de corrupção, não está a contribuir para o desenvolvimento da sociedade. Quando o faz, está a cumprir a sua missão”, afirmou.</p>
<p>Além do crime de denúncia caluniosa, encontra-se em debate uma proposta de alteração ao Código Penal que prevê penas de prisão até cinco anos para crimes de difamação praticados através dos meios de comunicação social ou das redes sociais.</p>
<p>José Manuel Simões reconheceu a gravidade da censura e da autocensura, mas sublinhou que a liberdade de imprensa não pode servir de pretexto para divulgar acusações sem fundamento. “É tão grave a censura e a autocensura como o abuso da liberdade de imprensa”, afirmou.</p>
<p>O professor explicou que a censura e a autocensura são fenómenos difíceis de medir, uma vez que muitas pessoas, por receio de represálias ou de perderem o emprego, acabam por ocultar informações de interesse público. Por outro lado, considerou que difamar alguém sem factos ou provas constitui uma grave violação ética e deve ser sancionado.</p>
<p>Defendeu que os jornalistas não podem mentir deliberadamente nem aceitar práticas que confundam jornalismo com propaganda, relações públicas, marketing ou publicidade. “Confunde-se propaganda, relações públicas, marketing e publicidade com jornalismo. Não pode ser. E quem comete esses delitos, no âmbito da difamação, deve ser penalizado”, afirmou.</p>
<p>Contudo, salientou que denúncias sustentadas por provas não podem ser classificadas como difamação ou denúncia caluniosa. “As pessoas devem ser responsabilizadas quando cometem crimes ou violam a lei. E os jornalistas que fazem este trabalho não podem ser criminalizados de forma alguma, porque estão a defender os princípios e os valores do código deontológico e a exercer o seu poder de vigilância”, explicou.</p>
<p>Na sua opinião, os profissionais que investigam e denunciam irregularidades devem ser valorizados pela coragem demonstrada. “A difamação com justa causa, baseada em provas e factos, não deve, em caso algum, ser penalizada. A difamação assente em rumores, falsos testemunhos ou fontes anónimas inventadas deve ser criminalizada.” José Manuel Simões sublinhou ainda que as fontes anónimas legítimas devem ser protegidas e podem ser utilizadas quando a informação é corroborada por provas.</p>
<p>Reconheceu, porém, que o acesso às fontes continua a ser uma das principais dificuldades nos países lusófonos, sobretudo nos de menor dimensão, onde as relações de proximidade tornam mais difícil a denúncia. “Mas, se o jornalista descobre uma fatura e verifica que foram gastos recursos em camas que nunca chegaram ao hospital, isso é uma prova, uma evidência, e tem de ser denunciado.”</p>
<p>Para o académico, o jornalismo de investigação representa uma das dimensões mais nobres da profissão, precisamente porque exige coragem, persistência e compromisso com a verdade. “É verdade que não pode haver autocensura e que é preciso coragem para investigar. Mas isso faz parte de ser um bom jornalista.”</p>
<p>O professor reconheceu igualmente os desafios que persistem na promoção da liberdade de imprensa, nomeadamente a escassez de recursos financeiros, a falta de capacidades técnicas e as pressões políticas exercidas sobre os órgãos de comunicação social.</p>
<p><strong>Sem informação livre não há desenvolvimento</strong></p>
<p>José Manuel Simões destacou a importância do jornalismo para o desenvolvimento social e económico dos países lusófonos. No artigo que dedicou a São Tomé e Príncipe, analisa o contributo dos meios digitais para o empreendedorismo e para a modernização económica, bem como a crescente presença da China nos diferentes espaços de língua portuguesa.</p>
<p>O investigador chamou também a atenção para desigualdades persistentes no setor da comunicação social, principalmente na São Tomé e Príncipe. “Não é justo que, até hoje, apenas uma mulher tenha ocupado um cargo de chefia. É importante que alguém, mesmo sendo de fora, alerte para estes desequilíbrios”, observou.</p>
<p>Defendeu igualmente que o crescente envolvimento económico da China nos países lusófonos deveria ser acompanhado por uma maior aproximação cultural. “Era importante que a China também se aproximasse culturalmente e que parceiros como Portugal ou a Austrália contribuíssem para o desenvolvimento da arte, da tecnologia e dos media em Timor-Leste”, sugeriu.</p>
<p>A investigação realizada para o livro permitiu-lhe observar o papel relevante desempenhado pelas rádios comunitárias em São Tomé e Príncipe. Na sua perspetiva, estes meios aproximam os cidadãos da informação e reforçam os laços entre as comunidades graças à relação de proximidade que mantêm com a população.</p>
<p>Destacou ainda a importância da rádio na difusão de informação em contextos onde persistem desigualdades significativas no acesso à Internet, sobretudo nas zonas rurais e mais isoladas.</p>
<p>Apesar da sua relevância social, muitas destas rádios enfrentam dificuldades de sobrevivência devido à escassez de recursos e de apoios institucionais. “Penso que os investidores estrangeiros e todos aqueles que beneficiam da economia local devem dar esse contributo de forma solidária, através da filantropia, apoiando os media, a arte e a tecnologia. Trata-se de um investimento no desenvolvimento destes países, sobretudo dos mais frágeis do ponto de vista económico”, afirmou.</p>
<p>Ao longo da entrevista, José Manuel Simões regressou várias vezes à mesma ideia: os media, a arte e a tecnologia só cumprem verdadeiramente a sua função quando estão ao serviço das pessoas.</p>
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		<title>Vasco Viana: “Timor-Leste precisa de gestores dos recursos públicos, não apenas de políticos que contam histórias”</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Antónia Martins]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 13 Jun 2026 12:18:40 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Destaque]]></category>
		<category><![CDATA[Entrevista]]></category>
		<category><![CDATA[Pessoas]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>O secretário-geral interino do recém-criado partido FITUN (PF) defende uma maior participação dos jovens na política e considera que Timor-Leste enfrenta um défice de gestão dos recursos públicos e de visão económica. Vasco Viana critica a dependência do país em [&#8230;]</p>
<p>O conteúdo <a href="https://www.diligenteonline.com/vasco-viana-timor-leste-precisa-de-gestores-dos-recursos-publicos-nao-apenas-de-politicos-que-contam-historias/">Vasco Viana: “Timor-Leste precisa de gestores dos recursos públicos, não apenas de políticos que contam histórias”</a> aparece primeiro em <a href="https://www.diligenteonline.com">DILIGENTE</a>.</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p><em>O secretário-geral interino do recém-criado partido FITUN (PF) defende uma maior participação dos jovens na política e considera que Timor-Leste enfrenta um défice de gestão dos recursos públicos e de visão económica. Vasco Viana critica a dependência do país em relação ao petróleo, alerta para a crescente presença de investimento estrangeiro em setores dominados por timorenses e sustenta que o desenvolvimento passa pelo reforço da educação, da saúde, da agricultura e do setor privado.</em></p>
<p>Vasco Viana, secretário-geral interino do novo partido FITUN (PF), afirma que decidiu entrar na política por considerar que muitas das expectativas geradas após a restauração da independência continuam por concretizar, sobretudo no plano económico e social. Em vez de integrar uma força política já existente, optou por participar na criação de um novo partido, argumentando que a identidade, os princípios e a visão política de uma organização começam na sua liderança.</p>
<p>Antigo adido para a Educação nas Filipinas durante o IV Governo Constitucional e antigo ponto focal da Southeast Asian Ministers of Education Organization (SEAMEO), Vasco Viana dedica-se atualmente à gestão de uma escola técnico-profissional. A experiência no setor educativo e empresarial reforçou a sua convicção de que Timor-Leste necessita não apenas de líderes políticos, mas também de gestores capazes de administrar os recursos públicos de forma eficiente e sustentável.</p>
<p>Definindo-se como um “missionário político”, afirma que a política deve estar ao serviço do povo e do país, e não de interesses pessoais ou partidários. Embora manifeste respeito pelos atuais dirigentes, considera que o país precisa de uma renovação política que permita aos timorenses assumirem um papel mais ativo na economia nacional e reduzirem a dependência em relação a agentes externos.</p>
<p>Em entrevista ao Diligente, Vasco Viana fala sobre a criação do FITUN, as prioridades do partido, os desafios da economia timorense, o desemprego jovem, a agricultura, a educação, a saúde, o combate à corrupção e o futuro político de Timor-Leste.</p>
<p><strong>O que levou à criação deste partido e que problema concreto da política timorense pretende resolver?</strong></p>
<p>A criação deste partido resultou da perceção de que muitas das expectativas dos timorenses continuam por concretizar. Consideramos que um partido político pode ser um instrumento para ajudar a responder a essas expectativas.</p>
<p>Conquistámos a independência política, mas a questão fundamental continua a ser o bem-estar da população. O povo precisa de viver com dignidade e de ter acesso a melhores condições de vida. Na nossa perspetiva, o país enfrenta atualmente sérios desafios económicos.</p>
<p>Basta observar o que acontece em Díli. De Tasi Tolu a Becora, vemos grandes investimentos estrangeiros. Não consideramos que isso seja, por si só, um problema, mas revela uma realidade: falhámos na construção da nossa independência económica.</p>
<p>Se não nos organizarmos e não nos prepararmos para participar ativamente na vida política e económica do país, corremos o risco de nos tornarmos apenas empregados de outros. Muitos jovens, quando conseguem trabalho, acabam por trabalhar em empresas ou estabelecimentos comerciais pertencentes a estrangeiros, porque existem poucas alternativas. A falta de capital e de experiência empresarial dificulta a capacidade dos timorenses para competir no mercado, tornando mais fácil o seu domínio por investidores estrangeiros com maiores recursos.</p>
<p>Foi esta realidade que nos motivou a criar um partido diferente, capaz de apresentar uma nova forma de fazer política. O FITUN é composto maioritariamente por jovens, mas trabalha igualmente com pessoas mais experientes, incluindo veteranos, valorizando o diálogo entre gerações.</p>
<p>As principais diferenças em relação a outros partidos residem na nossa visão política, nos nossos princípios e na forma como encaramos o desenvolvimento do país. Queremos ser um partido próximo da população, capaz de servir de ponte entre os cidadãos e as instituições, sempre orientado para a promoção do bem comum.</p>
<blockquote><p>“O povo é o verdadeiro patrão. Quando um servidor público não cumpre devidamente as suas funções, está a falhar para com o povo que lhe confiou essa responsabilidade”</p></blockquote>
<p><strong>Como avalia a composição do seu partido para competir com outros partidos que já existem e têm experiência política?</strong></p>
<p>Os outros partidos surgiram primeiro, mas isso não significa que sejam melhores. Na política, é preciso ter compromisso e convicções fortes para poder competir. Cabe ao povo escolher, porque já tem experiência com outros partidos e sabe o que foi feito ao longo dos anos.</p>
<p>Enquanto secretário-geral, convido os cidadãos a usarem o seu discernimento para escolherem jovens que querem contribuir para o país e não apenas contar histórias. Muitos dirão que os jovens não têm um passado político para apresentar. O nosso compromisso é tornar-nos uma força política capaz de contribuir para a vida política e para a educação.</p>
<p>Queremos formar jovens capazes de trabalhar com dedicação, paciência e espírito de sacrifício, que saibam colaborar entre si e gerir recursos de forma responsável, sem corrupção.</p>
<p>Pretendemos igualmente que os jovens evitem conflitos desnecessários nas instituições públicas e desempenhem as suas funções com profissionalismo, sem envergonharem o povo. O povo é o verdadeiro patrão. Quando um servidor público não cumpre devidamente o seu dever, está a falhar para com aqueles que lhe confiaram essa responsabilidade.</p>
<p>Por isso, no FITUN, estamos a preparar-nos para assumir essa missão. Apostamos na disciplina e na integridade. Para uma nação avançar, são necessários políticos com essas qualidades.</p>
<p><strong>Então, podemos dizer que o FITUN ainda está em fase de preparação?</strong></p>
<p>Não. Consideramos que já estamos preparados, porque dispomos de recursos humanos qualificados. Alguns dos nossos membros possuem mestrados, outros concluíram estudos no estrangeiro e alguns trabalham em instituições internacionais e em embaixadas.</p>
<p><strong>Acredita que as pessoas que o acompanham podem contribuir para o fortalecimento do partido?</strong></p>
<p>A principal figura que nos orienta é o doutor Abílio Araújo. Existem outros colegas, mas ainda não é o momento de os mencionar publicamente. São pessoas que também contribuem para fortalecer o FITUN.</p>
<p>O doutor Abílio Araújo é um economista e gestor com uma longa experiência política. Na nossa perspetiva, Timor-Leste não precisa apenas de políticos que contem histórias da luta pela independência; precisa também de gestores capazes de administrar os recursos do Estado, sobretudo os recursos financeiros, para melhorar a vida da população.</p>
<p><strong>De que forma o partido pretende conquistar a confiança dos eleitores?</strong></p>
<p>Acreditamos que o povo é sábio. Os cidadãos sabem pensar, escolher, avaliar e observar. Por isso, é fundamental confiar no povo.</p>
<p>Ao longo dos 24 anos após a restauração da independência, os timorenses tiveram a oportunidade de conhecer diferentes líderes e partidos. Assim, convidamos os cidadãos a olhar também para este novo partido e para esta nova liderança, composta maioritariamente por jovens com espírito crítico, determinação e vontade de lutar pela dignidade da nação.</p>
<p><strong>Qual é a principal prioridade do partido caso vença as eleições parlamentares?</strong></p>
<p>O povo conhece bem as suas prioridades. Sabe o que os governos fizeram e aquilo que ainda falta fazer.</p>
<p>As nossas prioridades passam pela saúde, educação, agricultura, turismo e atração de investimento. Acima de tudo, queremos promover o bem-estar da população. Essa é a prioridade fundamental. As propostas mais detalhadas serão definidas no congresso do partido.</p>
<p>Atualmente, o país depende excessivamente das importações e continua a haver pouco investimento na agricultura. Em muitos setores da economia, os investidores estrangeiros ocupam espaços que poderiam ser aproveitados pelos timorenses. Até atividades económicas de pequena escala, que anteriormente eram dominadas por cidadãos nacionais, estão gradualmente a passar para mãos estrangeiras.</p>
<p>Entretanto, muitos timorenses sentem-se obrigados a emigrar para países como a Austrália ou o Reino Unido para encontrar oportunidades de trabalho.</p>
<p>Precisamos de uma economia mais forte e de uma estratégia que permita atrair investimentos que beneficiem os timorenses na sua própria terra. Os timorenses devem tornar-se investidores no seu próprio país. O Governo pode criar mecanismos de financiamento para apoiar esse objetivo, porque sem investimento não existe desenvolvimento.</p>
<blockquote><p>“Em Timor-Leste, por exemplo, num programa de criação de galos e suínos, investem-se cerca de 100 ou 200 mil dólares, mas depois os animais morrem ou os projetos não têm continuidade. Então, para onde vai esse dinheiro? Existe controlo? Há prestação de contas?”</p></blockquote>
<p><strong>O oitavo Governo também financiou a população através de linhas de crédito com juros baixos, permitindo a criação de pequenos negócios. No entanto, muitos desses empreendimentos não conseguiram competir com as lojas chinesas. Que medidas propõe o FITUN para apoiar os timorenses e permitir-lhes competir com grandes investidores?</strong></p>
<p>O problema não é apenas o financiamento, mas também o controlo e a sustentabilidade dos projetos. Nas Filipinas, por exemplo, as pessoas que pretendem iniciar um negócio conseguem obter empréstimos com juros reduzidos através de instituições financeiras. Contudo, recebem igualmente acompanhamento, monitorização e apoio permanentes para garantir o desenvolvimento dos seus negócios.</p>
<p>Quando surgem dificuldades, o Governo ou as instituições competentes intervêm para ajudar a encontrar soluções. Sem esse apoio contínuo, é difícil que as pessoas consigam tornar-se independentes e alcançar o sucesso.</p>
<p>Em Timor-Leste, por exemplo, num programa de criação de galos e suínos, investem-se cerca de 100 ou 200 mil dólares, mas depois os animais morrem ou os projetos não têm continuidade. Então, para onde vai esse dinheiro? Houve controlo? Existe prestação de contas?</p>
<p>Uma das soluções passa por reforçar os mecanismos de monitorização e apoio permanente, garantindo que os negócios possam crescer de forma sustentável. É isso que gera desenvolvimento e progresso.</p>
<p><strong>Relativamente ao desemprego jovem, que propostas apresenta o FITUN para enfrentar este problema?</strong></p>
<p>O desemprego reduz-se quando existem oportunidades de trabalho. Através do investimento, o Governo pode criar empresas públicas ou apoiar financeiramente empresas privadas.</p>
<p>Em Timor-Leste, o setor privado ainda é frágil, o que constitui um problema, porque nenhum país consegue desenvolver-se sem um setor privado forte. O Japão, por exemplo, apoia financeiramente as suas empresas para garantir o seu crescimento e competitividade.</p>
<p>Por isso, é responsabilidade do Governo criar condições para que o setor privado se desenvolva. Este setor não pode crescer sozinho nem competir em igualdade de circunstâncias com grupos económicos que já possuem experiência e capital acumulado.</p>
<p>Muitos jovens vivem situações de ansiedade e frustração devido à falta de emprego. O Governo deve assumir essa responsabilidade. O desemprego só diminuirá quando houver mais oportunidades económicas e quando os cidadãos deixarem de sentir necessidade de abandonar o país para procurar trabalho no estrangeiro.</p>
<p><strong>No setor agrícola existem terrenos abandonados e vários programas de apoio que nem sempre produziram resultados. Que estratégia tem o FITUN para este setor?</strong></p>
<p>O apoio à agricultura é uma obrigação do Estado e um direito dos cidadãos. Em Viqueque, por exemplo, existem muitos tratores abandonados, alguns dos quais permanecem armazenados sem utilização. O problema não está necessariamente na falta de orçamento, mas na ausência de manutenção e acompanhamento.</p>
<p>É fundamental garantir mecanismos permanentes de controlo, manutenção e sustentabilidade, para que os equipamentos continuem a servir a população durante muitos anos.</p>
<p><strong>A educação e a saúde são frequentemente apontadas como pilares do desenvolvimento. Como pretende o partido investir nestes dois setores?</strong></p>
<p>Antes de mais, é necessário compreender um princípio fundamental: uma nação dificilmente se desenvolve se a sua população não tiver acesso à educação.</p>
<p>Por isso, o Governo deve investir de forma equilibrada neste setor, garantindo que todos possam beneficiar e viver com mais dignidade. O desenvolvimento de um país depende do conhecimento e das competências dos seus cidadãos.</p>
<p>No passado, era mais fácil ingressar numa escola privada do que numa escola pública. Atualmente, verifica-se o contrário, porque muitas escolas privadas tornaram-se mais exigentes e mais dispendiosas. Isso demonstra a importância de o Estado continuar a investir na educação para assegurar oportunidades de aprendizagem para toda a população.</p>
<p>Muitas pessoas não conseguem prosseguir os estudos devido a dificuldades económicas e a outros constrangimentos. Além disso, não é possível oferecer uma educação de qualidade em escolas sem saneamento básico ou sem condições adequadas. Que tipo de aprendizagem pode existir num ambiente assim? Se uma escola não tiver vedação, por exemplo, as crianças podem facilmente abandonar o recinto durante o horário escolar.</p>
<p>Também o ensino superior necessita de instituições de qualidade, professores qualificados e infraestruturas adequadas. Pode existir muito investimento no ensino da língua portuguesa, mas se não houver docentes suficientemente preparados para a ensinar, os resultados serão limitados.</p>
<p>Assim, podemos afirmar que o investimento adequado melhora a qualidade da educação em todos os níveis de ensino, do básico ao superior. A educação deve formar cidadãos bem preparados, com pensamento crítico, boa apresentação pessoal e capacidade de comunicação.</p>
<p>O Governo também precisa de investir na saúde. Atualmente, vemos frequentemente nas redes sociais relatos de familiares de pessoas que perdem a vida devido a problemas de saúde. Para melhorar esta situação, é necessário olhar para as condições de trabalho e para o bem-estar dos médicos, enfermeiros e restantes profissionais do setor.</p>
<p>Os dados sobre a esperança média de vida em Timor-Leste mostram que ainda existem desafios importantes. Para melhorar esses indicadores, não basta investir apenas na educação. É igualmente essencial garantir que toda a população tenha acesso a serviços de saúde de qualidade e a condições de vida adequadas.</p>
<p><strong>Quando existem bons planos, mas persistem práticas de corrupção, como se resolve esse problema?</strong></p>
<p>O chefe do Governo tem competências e responsabilidades claras. Um líder deve exercer controlo e supervisão. Se um ministro não cumprir os planos definidos, cabe ao Primeiro-Ministro responsabilizá-lo. E, quando necessário, esse ministro deve assumir as consequências dos seus atos e demitir-se.</p>
<p>Um dos nossos problemas é a falta de cultura de responsabilização. Muitas vezes, mesmo quando existem falhas evidentes, procura-se encontrar justificações em vez de assumir responsabilidades.</p>
<blockquote><p>“Por isso, acreditamos no contributo do doutor Abílio Araújo, porque Timor-Leste precisa de gestores capazes de administrar o dinheiro do povo para que os recursos não se esgotem e a população não sofra.”</p></blockquote>
<p><strong>Timor-Leste enfrenta atualmente desafios relacionados com o Fundo Petrolífero, sobretudo após o encerramento de Bayu-Undan e a aposta no Greater Sunrise. O FITUN defende a continuação desta dependência do petróleo?</strong></p>
<p>Não. Não defendemos uma política de dependência. O Fundo Petrolífero é uma riqueza que Deus concedeu a Timor-Leste, mas trata-se de um recurso finito. Um dia irá esgotar-se. Por isso, devemos utilizá-lo com responsabilidade e investir noutras áreas que possam sustentar o país no futuro.</p>
<p>Precisamos de definir políticas que permitam gerar riqueza através de outras fontes de rendimento e reduzir a dependência do petróleo.</p>
<p>É precisamente por isso que valorizamos o contributo do doutor Abílio Araújo. Consideramos que Timor-Leste necessita de gestores capazes de administrar os recursos públicos de forma eficiente, para evitar que se esgotem sem gerar benefícios duradouros para a população.</p>
<p><strong>Que papel terão os jovens na estrutura do FITUN?</strong></p>
<p>O papel dos jovens no FITUN passa por uma preparação sólida, baseada na formação, na disciplina e na responsabilidade.</p>
<p>Um partido político também deve funcionar como uma escola de cidadania. É um espaço onde os jovens aprendem a trabalhar em conjunto, a respeitar opiniões diferentes, a apresentar ideias e a formular críticas fundamentadas. Devem aprender a discutir argumentos e propostas, e não a atacar pessoas, como infelizmente acontece, por vezes, no debate político.</p>
<p>É através deste processo que os jovens compreendem melhor o seu papel na sociedade e na política. O partido tem também a responsabilidade de orientar esse percurso.</p>
<p>Por isso, digo frequentemente que um político deve ser um missionário. Tem uma missão a cumprir: servir o povo e servir a nação.</p>
<p><strong>Em várias ocasiões afirmou que prefere ser um “missionário político” a um “mercenário político”. O que quer dizer com essa distinção?</strong></p>
<p>Ser missionário significa sentir que fomos chamados a utilizar as capacidades que Deus nos deu para retribuir algo ao nosso país. É essa convicção que me motiva. Não se trata apenas de ocupar um cargo ministerial ou alcançar uma determinada posição política. O mais importante é contribuir para a nação.</p>
<p>Já um mercenário atua em função da recompensa que recebe. Faz algo porque alguém lhe paga ou porque espera obter benefícios pessoais.</p>
<p>Por exemplo, alguém que procura chegar ao poder apenas para ter privilégios, um carro oficial ou melhorar exclusivamente a sua própria vida está a agir com uma lógica mercenária. A nossa perspetiva é diferente. A política deve ser uma missão de serviço público.</p>
<p><strong>No futuro, o FITUN admite formar coligações com outros partidos políticos?</strong></p>
<p>Naturalmente. Na política existe sempre um certo grau de interdependência. Nenhum partido vive completamente isolado. Quando existem objetivos comuns e formas semelhantes de encarar os desafios do país, podem criar-se condições para o diálogo e para a cooperação.</p>
<p>No FITUN consideramos que, em determinadas circunstâncias, pode ser necessário formar coligações com outras forças políticas. Estamos abertos a essa possibilidade, porque Timor-Leste pertence a todos os timorenses e o interesse nacional deve estar acima dos interesses partidários.</p>
<p><strong>Quais são os princípios que constituem as linhas vermelhas do partido para futuras alianças políticas?</strong></p>
<p>A política nasce das convicções e da visão que cada partido tem para o país. Mesmo que existam diferenças ideológicas, acredito que todos os partidos devem partilhar um objetivo comum: trabalhar para o bem comum e para o desenvolvimento nacional.</p>
<p>Para formar uma coligação é necessário existir confiança, respeito mútuo e convergência em matérias fundamentais. As alianças só fazem sentido quando os interesses dos cidadãos são colocados em primeiro lugar e quando existe uma visão comum sobre o caminho a seguir.</p>
<blockquote><p>“A nossa visão é que todos os timorenses sintam orgulho em ser timorenses e em viver no seu próprio país.”</p></blockquote>
<p><strong>Como imagina Timor-Leste daqui a 20 anos?</strong></p>
<p>A nossa visão é que todos os timorenses sintam orgulho em ser timorenses e em viver no seu próprio país. Nenhum cidadão deveria sentir que perdeu a esperança no futuro a ponto de acreditar que só poderá construir uma vida melhor emigrando para países como o Reino Unido ou a Austrália.</p>
<p>Cada timorense deve acreditar no seu valor e nas suas capacidades. Quero encorajar os jovens e todos os compatriotas a rejeitarem qualquer sentimento de inferioridade. Muitas vezes, os timorenses comparam-se com estrangeiros e concluem que estes são mais inteligentes ou mais capazes. Essa mentalidade deve ser ultrapassada.</p>
<p>Trata-se também de uma questão psicológica. Quando uma pessoa acredita que vale pouco, acaba por limitar as suas próprias possibilidades. Por isso, defendemos que os timorenses devem investir no seu país, construir o seu futuro aqui e acreditar que Timor-Leste pode ser um bom lugar para viver e prosperar.</p>
<p>Um político deve ter sonhos e uma visão para a sua nação. Os sonhos ajudam a definir objetivos e a orientar a ação política.</p>
<p>O nosso objetivo é que os timorenses se sintam confortáveis na sua própria terra, que se tornem investidores no seu próprio país e que assumam um papel central na economia nacional. Essa é, na nossa perspetiva, uma das principais responsabilidades de quem faz política. Todos os que pretendem servir o país devem ter essa visão e trabalhar para a concretizar.</p>
<p>É por isso que também apelo à reflexão sobre a forma como podemos unir esforços para alcançar esse objetivo.</p>
<p><strong>Como pretende convencer os eleitores de que o FITUN não será apenas mais um partido a fazer promessas?</strong></p>
<p>Não acredito que todos os partidos sejam iguais. Costumo dizer nas reuniões do Conselho Político Nacional que ninguém deve fazer promessas irrealistas aos cidadãos. Devemos evitar promessas que não possam ser cumpridas.</p>
<p>O FITUN procura não basear a sua ação política em promessas, mas sim em compromissos concretos. Se o povo depositar a sua confiança no partido e nós não formos capazes de cumprir aquilo que defendemos, naturalmente perderemos essa confiança nas eleições seguintes.</p>
<p><strong>Mas ao longo desta entrevista falou de missão, visão, investimento e prioridades. Não são também promessas?</strong></p>
<p>Não. Existe uma diferença entre promessas e compromissos políticos. Os compromissos correspondem a obrigações que um Governo deve assumir perante os cidadãos. Não se trata de prometer algo apenas para obter apoio eleitoral, mas de reconhecer direitos que já pertencem ao povo.</p>
<p>Por exemplo, o investimento na agricultura não deveria ser visto como uma promessa, mas como uma obrigação do Estado para com os agricultores e com a população em geral.</p>
<p>Da mesma forma, muitos dos compromissos que defendemos correspondem a direitos dos cidadãos. O nosso objetivo não é fazer promessas vazias, mas assumir responsabilidades políticas. Quando um partido está devidamente preparado e apresenta propostas consistentes, cabe ao povo avaliar e decidir se merece a sua confiança.</p>
<p>O conteúdo <a href="https://www.diligenteonline.com/vasco-viana-timor-leste-precisa-de-gestores-dos-recursos-publicos-nao-apenas-de-politicos-que-contam-historias/">Vasco Viana: “Timor-Leste precisa de gestores dos recursos públicos, não apenas de políticos que contam histórias”</a> aparece primeiro em <a href="https://www.diligenteonline.com">DILIGENTE</a>.</p>
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		<title>“Timor-Leste precisa de uma fé independente”: a visão da ICCTL sobre religião, soberania e Vaticano</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Rilijanto Viana]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 09 Jun 2026 11:06:43 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Destaque]]></category>
		<category><![CDATA[Entrevista]]></category>
		<category><![CDATA[Pessoas]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>A Igreja Católica Carismática de Timor-Leste (ICCTL) apresenta-se como uma expressão independente da fé católica e defende uma maior ligação entre a religião, a cultura timorense e a soberania nacional. Timor-Leste é um dos países mais católicos do mundo. Segundo [&#8230;]</p>
<p>O conteúdo <a href="https://www.diligenteonline.com/timor-leste-precisa-de-uma-fe-independente-a-visao-da-icctl-sobre-religiao-soberania-e-vaticano/">“Timor-Leste precisa de uma fé independente”: a visão da ICCTL sobre religião, soberania e Vaticano</a> aparece primeiro em <a href="https://www.diligenteonline.com">DILIGENTE</a>.</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p><em>A Igreja Católica Carismática de Timor-Leste (ICCTL) apresenta-se como uma expressão independente da fé católica e defende uma maior ligação entre a religião, a cultura timorense e a soberania nacional. </em></p>
<p>Timor-Leste é um dos países mais católicos do mundo. Segundo os dados do Censo de 2022, cerca de 97% da população identifica-se como católica. Ao longo da história do país, a Igreja Católica desempenhou um papel central não apenas na vida espiritual da população, mas também na preservação da identidade nacional e na resistência durante a ocupação indonésia.</p>
<p>É neste contexto que surge a Igreja Católica Carismática de Timor-Leste (ICCTL), criada em 2024 por um grupo de timorenses que defende uma maior autonomia religiosa, uma ligação mais estreita entre a fé cristã e a cultura local e uma reflexão crítica sobre algumas decisões da Igreja Católica Apostólica Romana.</p>
<p>A criação da ICCTL tem gerado debate público e críticas, sobretudo devido às suas posições sobre o Vaticano, Dom Carlos Filipe Ximenes Belo e o papel da religião num Estado democrático. Os seus dirigentes rejeitam, contudo, a ideia de que a nova Igreja represente uma divisão entre os católicos timorenses, afirmando que o objetivo é contribuir para a diversidade religiosa e para o fortalecimento da vida espiritual do país.</p>
<p>Nesta entrevista, Manuel Banaira Gama fala sobre as origens da Igreja, os desafios enfrentados desde a sua fundação, a relação com a Igreja Católica e a visão da ICCTL para o futuro da fé em Timor-Leste.</p>
<p><strong>Como surgiu a ideia de criar a ICCTL? Quais foram as principais razões que estiveram na origem da fundação da Igreja?</strong></p>
<p>A ideia que nos levou a criar a Igreja Católica Carismática de Timor-Leste (ICCTL) surgiu, em primeiro lugar, porque não aceitamos a decisão da Igreja Católica do Vaticano de sancionar Dom Carlos Filipe Ximenes Belo devido a alegações de abuso de menores.</p>
<p>Entendemos que essas acusações podem ter sido promovidas por pessoas que não apoiavam a independência, com o objetivo de fazer a população perder a confiança nele. Consideramos essas acusações uma forma de destruir a reputação de uma pessoa sem derramamento de sangue.</p>
<p>Também não aceitamos o afastamento de Dom Martinho Lopes do cargo de Administrador Apostólico de Díli pela Santa Sé, em 1983. Foi uma figura importante na defesa dos direitos humanos durante a ocupação indonésia. Consideramos que a sua saída representou uma perda para o povo timorense e para a Igreja em Timor-Leste.</p>
<p>Muitos timorenses protestaram contra estas situações, mas as suas vozes não foram ouvidas. Fundámos, por isso, esta Igreja para expressar solidariedade para com Dom Martinho Lopes e Dom Carlos Filipe Ximenes Belo, reconhecendo os seus contributos para a fé, a dignidade e a luta do povo timorense.</p>
<p>Além disso, não concordamos com certas práticas da Igreja em relação aos fiéis e ao povo timorense que, no nosso entendimento, não seguem plenamente as orientações do Evangelho. Jesus não aceitou que se fizessem negócios dentro da Igreja e da casa de Deus. Como acontece atualmente em algumas igrejas, quando os fiéis precisam de tratar de documentos, têm de pagar taxas e encargos que, por vezes, são bastante elevados.</p>
<p>Estas duas razões fundamentais levaram-nos a criar uma igreja autónoma.</p>
<p><a href="https://www.diligenteonline.com/como-anunciar/" target="_blank" rel="noopener"><img decoding="async" class="aligncenter wp-image-22645 size-full" src="https://www.diligenteonline.com/wp-content/uploads/2026/06/Publicidade-dentro-do-texto-728x90px.png" alt="" width="728" height="90" srcset="https://www.diligenteonline.com/wp-content/uploads/2026/06/Publicidade-dentro-do-texto-728x90px.png 728w, https://www.diligenteonline.com/wp-content/uploads/2026/06/Publicidade-dentro-do-texto-728x90px-516x64.png 516w" sizes="(max-width: 728px) 100vw, 728px" /></a></p>
<p><strong>Na sua resposta, afirma que não aceita a decisão do Vaticano de sancionar Dom Carlos Filipe Ximenes Belo e sugere que as acusações podem ter tido motivações políticas. Em que factos ou elementos concretos baseia essa convicção?</strong></p>
<p>Não acredito nessas acusações. Vivi com Dom Carlos Filipe Ximenes Belo em Lecidere durante cerca de dois anos, no período da ocupação indonésia, e nunca vi nem senti nada que me levasse a acreditar que tivesse cometido esses atos. Falo com base na minha experiência pessoal e no testemunho da convivência que tive com ele.</p>
<p><strong>A ICCTL afirma ter sido fundada por veteranos e antigos membros da resistência. De que forma a luta pela independência influenciou a criação da Igreja e a sua visão para Timor-Leste?</strong></p>
<p>A fundação da ICCTL contou com a participação de 12 figuras importantes, entre as quais se destacam Afonso Mauresi Topoldana, atual bispo cardeal da Diocese Dom Martinho Lopes de Díli, “Timor Moruk”, “Ramelau”, Hélder Lopes Matias Topoldana e Manuel Banaira Gama.</p>
<p>A nossa visão é que a construção da República Democrática de Timor-Leste deve ser completada através de um processo de restauração. Isto significa que aquilo que foi destruído ou perdido deve ser reconstruído e revitalizado. Da mesma forma, entendemos que a fé também precisa de ser restaurada.</p>
<p>A ICCTL valoriza a cultura timorense e defende que os timorenses já possuíam crenças espirituais e fé em Deus antes da chegada das igrejas estrangeiras. Como exemplo, destacamos a designação tradicional “Ochawa”, utilizada em Lospalos para se referir a Deus. Isto demonstra que, antes da chegada dos portugueses e dos indonésios, os timorenses já possuíam uma crença e um conhecimento espiritual sobre a existência de Deus.</p>
<p>É com base nessa convicção que procuramos revitalizar e valorizar essa herança espiritual através da criação da Igreja Católica Carismática de Timor-Leste (ICCTL), uma igreja que procura integrar a fé cristã com a identidade cultural e espiritual do povo timorense.</p>
<p>Acreditamos que todos os aspetos da vida nacional devem refletir essa independência: o povo deve ser independente, a fé deve ser independente, a política deve ser independente e a economia também deve ser independente.</p>
<p><strong>Timor-Leste é um dos países mais católicos do mundo. Porque considera importante a existência da ICCTL num contexto em que a Igreja Católica ligada ao Vaticano está fortemente implantada no país?</strong></p>
<p>Nós, da ICCTL, consideramos a Igreja Católica Apostólica ligada ao Vaticano como o nosso pai, enquanto nos vemos como seus filhos. Também recebemos os sacramentos, incluindo o batismo, o matrimónio e a formação religiosa, através da Igreja Católica ligada ao Vaticano.</p>
<p>O que pedimos é que o pai conceda espaço e liberdade ao seu filho. Tal como um filho que já cresceu, aprendeu a ler e a escrever, construiu a sua própria casa e está preparado para cuidar da sua família, também a ICCTL considera que chegou o momento de caminhar com autonomia.</p>
<p>Não procuramos substituir nem combater a Igreja Católica ligada ao Vaticano. Pelo contrário, respeitamo-la profundamente. O que pedimos às autoridades e a todas as entidades é que respeitem a nossa liberdade religiosa, de acordo com os princípios democráticos praticados em Timor-Leste.</p>
<blockquote>
<p style="text-align: center;"><span style="color: #ff9900;">“Uma das principais diferenças é que, na ICCTL, os padres podem casar e as madres também podem constituir família, enquanto na Igreja Católica Apostólica Romana isso não é permitido”</span></p>
</blockquote>
<p><strong>Quais são as principais diferenças entre a ICCTL e a Igreja Católica Apostólica Romana?</strong></p>
<p><span style="color: #000000;">Uma das principais diferenças é que, na ICCTL, os padres podem casar e as madres também podem constituir família, enquanto na Igreja Católica Apostólica Romana isso não é permitido. Esta posição baseia-se na nossa interpretação da Bíblia, onde encontramos o ensinamento de que os seres humanos devem multiplicar-se e ter descendência.</span></p>
<p style="text-align: left;"><span style="color: #000000;">Outra diferença está na formação religiosa. Enquanto a Igreja Católica Romana segue principalmente as tradições teológicas e filosóficas de Roma e do Ocidente, nós estudamos e valorizamos também as tradições teológicas orientais. Consideramos importante refletir sobre a realidade e o contexto de Timor-Leste, procurando uma abordagem mais próxima da cultura e da experiência do povo timorense.</span></p>
<p style="text-align: left;"><span style="color: #000000;">Quanto às semelhanças, utilizamos a mesma Bíblia, que inclui os livros deuterocanónicos. Reconhecemos igualmente a Bíblia como Palavra de Deus e património espiritual de todos os fiéis. Consideramos que ela pertence a Deus e não deve ser apropriada ou monopolizada por qualquer grupo ou pessoa em particular.</span></p>
<p><strong>Algumas pessoas afirmam que a criação de uma nova Igreja pode dividir os católicos timorenses. Como responde a essa preocupação?</strong></p>
<p>Agradeço a preocupação de todas as pessoas que consideram que a nossa existência possa causar divisões. No entanto, do nosso ponto de vista, isso não corresponde à realidade, porque a ICCTL não foi criada para dividir, mas sim para colaborar no fortalecimento da vida espiritual e religiosa do povo.</p>
<p>Atualmente, observamos situações em que alguns crentes utilizam as redes sociais para promover conflitos, ofensas ou ameaças. Entendemos que todos devemos trabalhar em conjunto para melhorar esta realidade.</p>
<p>Não vemos a nossa existência como uma separação, mas como uma forma de participação e de contribuição para o bem comum.</p>
<blockquote>
<p style="text-align: center;"><span style="color: #ff9900;">“Algumas pessoas rejeitaram a nossa iniciativa, fizeram comentários depreciativos, procuraram humilhar-nos, julgaram-nos pessoalmente e, em alguns casos, houve intimidações e ameaças”</span></p>
</blockquote>
<p><strong>Houve resistência por parte de outras instituições religiosas ou de setores da sociedade? Como lidaram com essas reações?</strong></p>
<p>Desde que anunciámos oficialmente a nossa existência, enfrentámos diversas reações negativas. Algumas pessoas rejeitaram a nossa iniciativa, fizeram comentários depreciativos, procuraram humilhar-nos, julgaram-nos pessoalmente e, em alguns casos, houve intimidações e ameaças.</p>
<p>A nossa resposta tem sido procurar dialogar e explicar quem somos. Entendemos que muitas dessas reações resultam do facto de as pessoas ainda não compreenderem plenamente o que é a ICCTL e quais são os seus objetivos.</p>
<p>Como Igreja recentemente constituída, é natural que a nossa presença desperte preocupações e questionamentos, tanto entre instituições religiosas como em alguns setores da sociedade e do Estado. No entanto, encaramos essas situações como desafios normais da vida.</p>
<p><strong>Há acusações de que membros da ICCTL terão feito comentários ofensivos sobre líderes da Igreja Católica em Timor-Leste. Como responde a essas alegações?</strong></p>
<p>Na qualidade de porta-voz da ICCTL, reconheço que, se algum membro da nossa estrutura ou qualquer representante da nossa Igreja utilizou palavras ofensivas, linguagem agressiva ou expressões inadequadas dirigidas aos líderes da Igreja Católica em Timor-Leste, então, em nome da ICCTL, apresento as nossas sinceras desculpas.</p>
<p>Recentemente, tivemos uma reunião com o Arcebispo Dom Virgílio Cardeal do Carmo da Silva e estamos empenhados em procurar soluções positivas para as duas Igrejas e para todos os fiéis envolvidos. O próprio Cardeal Dom Virgílio transmitiu-nos que a Igreja Católica continuará a manter as portas abertas ao diálogo com a ICCTL, gesto pelo qual manifestamos a nossa gratidão.</p>
<p><strong>Quais foram os principais desafios enfrentados pela ICCTL para afirmar a sua presença no país?</strong></p>
<p>Um dos principais desafios foi o facto de uma parte da sociedade ter dificuldade em aceitar a nossa presença, por acreditar que não existe uma Igreja Católica independente. Considera que a única forma legítima de catolicismo é a Igreja Católica Romana.</p>
<p>Muitas pessoas questionaram quem era a ICCTL, de onde vinha e onde os seus membros tinham estudado Teologia e Filosofia. Apelamos às pessoas para que procurem mais informação sobre a existência de igrejas católicas independentes em vários países do mundo. Existem exemplos na Indonésia, nas Filipinas, na Nova Zelândia e em muitos outros lugares.</p>
<p><strong>A Igreja já enfrentou obstáculos legais ou administrativos desde a sua fundação?</strong></p>
<p>O artigo 12.º da Constituição estabelece que o Estado reconhece as diversas religiões e deve cooperar com as diferentes igrejas e comunidades religiosas. Este é o principal fundamento jurídico que sustenta a legitimidade da nossa existência.</p>
<p>No entanto, no que diz respeito ao registo formal das igrejas, existe uma dificuldade administrativa. O Estado timorense não possui um sistema específico de registo religioso nem uma estrutura governamental dedicada aos assuntos religiosos, uma vez que adota o princípio da separação entre o Estado e as religiões.</p>
<p>Gostaria igualmente de apelar ao público para que não tire conclusões precipitadas de que Timor-Leste reconhece apenas cinco religiões ou tradições religiosas: católica, protestante, hindu, islâmica e budista. A nossa Constituição garante a liberdade religiosa.</p>
<p><strong>A Constituição garante a liberdade religiosa. Na prática, a ICCTL considera que essa liberdade é plenamente respeitada?</strong></p>
<p>Em princípio, todas as pessoas têm o direito e a liberdade de expressar a sua fé. No entanto, aquilo que temos observado na prática é que continuam a existir situações de insulto, ameaça e discriminação dirigidas aos membros da ICCTL.</p>
<p>Timor-Leste já faz parte da ASEAN, organização que também valoriza e promove o princípio da liberdade religiosa nos seus instrumentos e compromissos. Por isso, entendemos que estes princípios devem ser respeitados e aplicados na prática.</p>
<p>A questão não deve ser se uma comunidade religiosa é maioritária, minoritária ou representa apenas uma parte da população. O mais importante é que cada pessoa tenha o direito de acreditar em Deus segundo a sua consciência e que todos se respeitem mutuamente enquanto seres humanos.</p>
<blockquote>
<p style="text-align: center;"><span style="color: #ff9900;">“A ICCTL não foi fundada por orientação direta de Dom Carlos Filipe Ximenes Belo. A nossa Igreja foi criada com base na nossa própria fé e convicção religiosa”</span></p>
</blockquote>
<p><strong>Como a ICCTL interpreta o papel histórico de Dom Martinho Lopes e de Dom Carlos Filipe Ximenes Belo na sua inspiração institucional?</strong></p>
<p><span style="color: #000000;">Refletimos profundamente sobre o contributo destas figuras para o processo de independência nacional, reconhecidas por muitos como líderes de apoio ao povo maubere e à resistência, especialmente à juventude Lorico Aswain, em Díli.</span></p>
<p><span style="color: #000000;">É importante esclarecer publicamente que a ICCTL não foi fundada por orientação direta de Dom Carlos Filipe Ximenes Belo. A nossa Igreja foi criada com base na nossa própria fé e convicção religiosa.</span></p>
<p><strong>A ICCTL procura o reconhecimento ou o diálogo institucional com a Igreja Católica Apostólica Romana? Em caso afirmativo, já houve contactos nesse sentido?</strong></p>
<p>Assim como um filho de coração aberto, estamos sempre disponíveis para o diálogo. O líder da Igreja Católica ligada ao Vaticano, através de Dom Virgílio Cardeal do Carmo da Silva, também nos transmitiu que a Igreja Católica mantém as portas abertas.</p>
<p>Procuramos, assim, manter uma atitude aberta entre ambas as partes, para que possamos trabalhar juntos na construção de um país melhor e no fortalecimento da vida espiritual do povo.</p>
<blockquote>
<p style="text-align: center;"><span style="color: #ff9900;">“Embora o Governo apoie financeiramente a Igreja Católica, muitos fiéis com poucos recursos enfrentam dificuldades para suportar esses custos”</span></p>
</blockquote>
<p><strong>A ICCTL considera-se uma igreja independente ou entende-se como uma continuação ou renovação da tradição católica existente em Timor-Leste?</strong></p>
<p>Nós consideramo-nos uma Igreja Católica independente, uma espécie de renovação da fé tradicional, com alguns elementos de melhoria. Não utilizo o termo “reforma” para evitar mal-entendidos ou reações negativas, mas sim o conceito de melhoria na forma de administração da Igreja Católica ligada ao Vaticano.</p>
<p>Isto inclui questões como os custos do casamento, os pagamentos associados ao batismo, a renovação frequente de certidões de batismo a cada seis meses e a necessidade de atualizar constantemente documentos paroquiais. Até mesmo as frequentes alterações de párocos dificultam o acesso a esses serviços, obrigando os fiéis a repetir processos sucessivamente.</p>
<p>Embora o Governo apoie financeiramente a Igreja Católica, muitos fiéis com poucos recursos enfrentam dificuldades para suportar esses custos. Perante estas realidades, decidimos criar a ICCTL.</p>
<p><strong>Quantos membros tem atualmente a ICCTL? Em quantos municípios ou regiões do país está presente?</strong></p>
<p>A ICCTL tem membros em todo o território nacional. Na primeira divulgação oficial, a 23 de novembro de 2024, registávamos cerca de 38 mil membros, e esse número continua a crescer.</p>
<p>No entanto, não temos o hábito de divulgar publicamente fotografias nem de indicar a localização dos nossos membros, porque ainda existem muitas pessoas que não compreendem bem a nossa Igreja. Quando imagens de membros da ICCTL são divulgadas, há casos em que esses fiéis e as suas famílias são alvo de insultos e críticas.</p>
<p><strong>Como está a ICCTL a formar novos líderes religiosos?</strong></p>
<p>Um grupo dos nossos membros já está a estudar nas Filipinas e na Indonésia, a frequentar cursos de Teologia e Filosofia. Não queremos mencionar os seus nomes para evitar eventuais ataques contra os nossos membros.</p>
<p><strong>Na perspetiva da ICCTL, porque considera que Timor-Leste precisa da existência desta Igreja?</strong></p>
<p>Consideramos que Timor-Leste merece ter a sua própria Igreja independente, porque um país que já conquistou a sua independência deve também ter uma fé independente e soberana. Defendemos que a Igreja deve estar enraizada em Timor-Leste, de forma a valorizar e desenvolver os recursos espirituais e culturais do próprio povo timorense.</p>
<blockquote>
<p style="text-align: center;"><span style="color: #ff6600;"> “Não devemos discriminar-nos uns aos outros como cristãos, nem provocar conflitos entre igrejas”</span></p>
</blockquote>
<p><strong>Que mensagem gostaria de deixar ao povo timorense sobre o futuro da fé, da unidade nacional e da liberdade religiosa?</strong></p>
<p>Apelo a todos para que construamos juntos a paz, o amor e a unidade nesta nossa terra querida. Não devemos discriminar-nos uns aos outros como cristãos, nem provocar conflitos entre igrejas.</p>
<p>Devemos respeitar-nos mutuamente, independentemente da religião ou da igreja a que pertencemos, e trabalhar em conjunto para fortalecer a paz, a harmonia social e o desenvolvimento do nosso país. A liberdade religiosa deve ser entendida como um direito de todos, exercido com responsabilidade, respeito e espírito de convivência pacífica.</p>
<p><a href="https://www.diligenteonline.com/como-anunciar/" target="_blank" rel="noopener"><img decoding="async" class="aligncenter wp-image-22645 size-full" src="https://www.diligenteonline.com/wp-content/uploads/2026/06/Publicidade-dentro-do-texto-728x90px.png" alt="" width="728" height="90" srcset="https://www.diligenteonline.com/wp-content/uploads/2026/06/Publicidade-dentro-do-texto-728x90px.png 728w, https://www.diligenteonline.com/wp-content/uploads/2026/06/Publicidade-dentro-do-texto-728x90px-516x64.png 516w" sizes="(max-width: 728px) 100vw, 728px" /></a></p>
<p>O conteúdo <a href="https://www.diligenteonline.com/timor-leste-precisa-de-uma-fe-independente-a-visao-da-icctl-sobre-religiao-soberania-e-vaticano/">“Timor-Leste precisa de uma fé independente”: a visão da ICCTL sobre religião, soberania e Vaticano</a> aparece primeiro em <a href="https://www.diligenteonline.com">DILIGENTE</a>.</p>
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		<title>Lenuk-Tasi: os jovens que desafiam a extinção para salvar as tartarugas marinhas em Timor-Leste</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Rilijanto Viana]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 27 May 2026 13:53:15 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Destaque]]></category>
		<category><![CDATA[Entrevista]]></category>
		<category><![CDATA[Pessoas]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Nas praias de Timor-Leste, a sobrevivência das tartarugas marinhas enfrenta ameaças cada vez mais graves. A captura ilegal, o consumo de ovos, a poluição, a destruição dos habitats costeiros e as alterações climáticas colocam em risco espécies já consideradas vulneráveis [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p>Nas praias de Timor-Leste, a sobrevivência das tartarugas marinhas enfrenta ameaças cada vez mais graves. A captura ilegal, o consumo de ovos, a poluição, a destruição dos habitats costeiros e as alterações climáticas colocam em risco espécies já consideradas vulneráveis ou em perigo de extinção.</p>
<p>Foi neste contexto que nasceu, em 2022, o Lenuk-Tasi, um grupo criado por estudantes da Universidade Nacional Timor Lorosa’e (UNTL) que transformaram um projeto académico numa missão permanente de conservação ambiental. Hoje, os jovens voluntários monitorizam praias, protegem ninhos, incubam ovos, libertam crias no mar e promovem ações de sensibilização junto das comunidades costeiras.</p>
<p>Apesar da falta de recursos, das dificuldades logísticas e da resistência de algumas comunidades, o grupo já conseguiu libertar mais de nove mil crias de tartaruga e sonha expandir os centros de conservação para todo o território nacional.</p>
<p>A propósito do Dia Mundial das Tartarugas, assinalado a 23 de maio, uma data dedicada à sensibilização para a proteção destas espécies marinhas ameaçadas, o Diligente falou com Chelcia Pinto, membro do Lenuk-Tasi, sobre os desafios, conquistas e sonhos de quem está na linha da frente da conservação das tartarugas marinhas em Timor-Leste.</p>
<blockquote>
<p style="text-align: center;"><span style="color: #ff9900;">“Algumas espécies, como a tartaruga-de-pente, têm sido especialmente ameaçadas devido ao uso da carapaça para artesanato”</span></p>
</blockquote>
<p><strong>Como nasceu o Lenuk-Tasi e qual foi a principal motivação para a criação do grupo? </strong></p>
<p>O grupo Lenuk-Tasi foi criado por estudantes da Universidade Nacional Timor Lorosa’e (UNTL), do Departamento de Pescas e Ciências Marinhas, no âmbito da realização das suas monografias. Um dos colegas, Jino Braz, atualmente diretor do Lenuk-Tasi, decidiu desenvolver a sua investigação sobre tartarugas marinhas na zona de Ulmera.</p>
<p>Após a conclusão do trabalho, o grupo percebeu que o projeto poderia continuar e trazer benefícios para a comunidade e para o mar. Jino convidou outros colegas para darem continuidade à iniciativa. Atualmente, o Lenuk-Tasi funciona como grupo, mas pretende transformar-se oficialmente numa associação.</p>
<p>Com o tempo, o trabalho deixou de se focar apenas nas tartarugas marinhas e passou a abranger a proteção ambiental e da biodiversidade marinha em geral, embora a conservação das tartarugas continue a ser a prioridade.</p>
<p>No dia a dia, o Lenuk-Tasi realiza atividades de recolha e proteção de ovos encontrados nas praias, em colaboração com pescadores das zonas de Loes e Batugadé. O grupo possui uma secção específica chamada “Gangger Protection”, responsável pela recolha e proteção dos ninhos.</p>
<p>O Lenuk-Tasi foi criado com o objetivo de proteger as tartarugas marinhas, consideradas fundamentais para a biodiversidade marinha de Timor-Leste. Apesar da grande riqueza marítima do país, ainda existe a prática de captura e abate de tartarugas. Algumas espécies, como a tartaruga-de-pente (Hawksbill), têm sido especialmente ameaçadas devido ao uso da sua carapaça para a produção de acessórios e artesanato.</p>
<p>Segundo a investigação do grupo, anteriormente a população de Hawksbill representava apenas cerca de 1% das tartarugas existentes no mar de Timor, devido à caça para consumo e utilização da carapaça. Graças ao trabalho de conservação, esta espécie aumentou para cerca de 7%, o que o grupo considera um resultado positivo.</p>
<p>No Lenuk-Tasi promovemos a recuperação e a conservação das tartarugas marinhas e da biodiversidade marinha.</p>
<p>As nossas ações incluem educação ambiental para sensibilizar a população, defesa do fortalecimento das políticas de proteção ambiental, desenvolvimento de centros de estudo e investigação e promoção do turismo costeiro sustentável.</p>
<p>A principal motivação do Lenuk-Tasi é impedir o desaparecimento das tartarugas marinhas em Timor-Leste, garantindo a proteção do habitat e o aumento das populações destas espécies.</p>
<blockquote>
<p style="text-align: center;"><span style="color: #ff9900;">“Conseguimos libertar com sucesso cerca de 9.250 crias de tartaruga no mar”</span></p>
</blockquote>
<p><strong>Que resultados concretos o Lenuk-Tasi já conseguiu alcançar na proteção das tartarugas marinhas? Existem dados ou observações que indiquem se a população está a aumentar ou a diminuir?</strong></p>
<p>Desde 2022, o Lenuk-Tasi realiza patrulhas diurnas e noturnas para proteger as tartarugas marinhas em Timor-Leste. Durante este período, o grupo identificou três espécies principais: Olive Ridley (Lepidochelys olivacea), Green Sea Turtle (Chelonia mydas) e Hawksbill (Eretmochelys imbricata), todas consideradas em elevado risco de extinção.</p>
<p>Como resultado deste trabalho, conseguimos libertar com sucesso cerca de 9.250 crias no mar. Deste total, 5.250 são Olive Ridley, 3.910 Hawksbill e 90 Green Turtle. Acreditamos que este número irá aumentar no futuro, porque continuamos a realizar ações de conservação e a proteger os habitats.</p>
<p>As tartarugas podem pôr até 300 ovos, mas apenas cerca de 1% das crias sobrevive na natureza. Por isso, o trabalho de conservação é essencial. Os ovos são muito frágeis e exigem grande cuidado durante a recolha e o transporte para o centro de incubação.</p>
<p>No centro de conservação, localizado em Liquiçá, os ovos são incubados em condições semelhantes às do ambiente natural. O período de incubação varia entre 45 e 70 dias. No entanto, nem todos os ovos se desenvolvem com sucesso: alguns não chegam a completar o desenvolvimento, outros morrem ainda dentro da casca e alguns filhotes não sobrevivem após o nascimento.</p>
<p>Depois de nascerem, as crias permanecem cerca de duas semanas no centro antes de serem libertadas no mar. Esta medida ajuda a aumentar as hipóteses de sobrevivência, uma vez que são muito vulneráveis a predadores como aves e peixes. Por isso, a libertação é feita ao entardecer ou à noite, para reduzir o risco de ataque.</p>
<p>Mesmo assim, a taxa de sobrevivência no oceano continua a ser muito baixa, cerca de 1%. Ainda assim, o trabalho do Lenuk-Tasi já contribuiu para o aumento da população de Hawksbill, que passou para cerca de 7%.</p>
<p>O grupo trabalha em colaboração com pescadores de Loes e Batugadé e observa diferentes distribuições das espécies: em Díli predominam as Olive Ridley, em Loes as Hawksbill e em Batugadé aparecem algumas Green Sea Turtles, que são raras.</p>
<p>Em Timor-Leste, foram identificadas três das sete espécies de tartarugas marinhas existentes no mundo. Há também relatos da presença da tartaruga-de-couro (Leatherback) em Viqueque e Lospalos, mas ainda não existem estudos suficientes para confirmação oficial.</p>
<p>No futuro, o Lenuk-Tasi pretende expandir os seus centros de conservação para outras zonas costeiras do país, reforçando a proteção e o estudo das espécies.</p>
<blockquote>
<p style="text-align: center;"><span style="color: #ff9900;">“Mesmo dentro de Díli ainda existem comunidades que não sabem que as tartarugas marinhas são espécies protegidas”</span></p>
</blockquote>
<p><strong>Ainda existem comunidades que consomem ovos de tartaruga ou capturam espécies protegidas. Como é que as comunidades reagem quando o Lenuk-Tasi intervém para proteger ninhos ou impedir a captura?</strong></p>
<p>Vou dar um exemplo recente. Encontrámos ovos de tartaruga na Praia dos Coqueiros, em Díli. Alguns jovens que estavam a descansar junto ao mar encontraram os ovos e um colega telefonou à nossa equipa. Assim que recebemos a informação, deslocámo-nos rapidamente ao local.</p>
<p>Quando chegámos, explicámos que éramos do Lenuk-Tasi e que pretendíamos recolher os ovos para os levar ao centro de conservação em Liquiçá. No entanto, os jovens não autorizaram imediatamente e disseram que cada ovo custava um dólar.</p>
<p>Isso mostra que parte da nossa sociedade ainda não compreende o verdadeiro significado da conservação ambiental nem reconhece que este habitat é protegido. A nossa equipa explicou calmamente que os ovos não seriam para consumo, mas sim para conservação. Mesmo assim, os jovens continuaram a insistir no pagamento.</p>
<p>Perante a situação, mencionámos que poderíamos contactar a polícia para ajudar a explicar o caso. Depois disso, os jovens acabaram por permitir que recolhêssemos os ovos e os levássemos para conservação.</p>
<p>Nós podemos oferecer algum dinheiro, não como compra dos ovos, mas como forma de agradecimento às pessoas que ajudam a encontrá-los. Por exemplo, os pescadores de Loes, quando encontram ninhos de tartarugas, aguardam, observam o local onde a tartaruga deposita os ovos, fazem marcações e depois contactam-nos. Nessas situações, costumamos oferecer cerca de 20 dólares como reconhecimento.</p>
<p>Nem precisamos de ir muito longe para encontrar este problema. Mesmo dentro de Díli ainda existem comunidades que não sabem que as tartarugas marinhas são espécies protegidas.</p>
<p>Em alguns municípios costeiros, como Viqueque, embora as comunidades saibam que existe uma lei que proíbe a captura, muitas pessoas continuam a consumir tartaruga. Algumas afirmam que comer tartaruga faz parte da sua cultura e tradição. Por isso, temos planos para identificar melhor as zonas onde esta prática ainda existe.</p>
<p>Até agora, ainda não realizámos campanhas de defesa e sensibilização mais profundas junto dessas comunidades, mas isso já faz parte dos nossos planos futuros. Neste momento, as nossas ações estão concentradas principalmente em Liquiçá, devido à falta de logística e ao facto de muitos membros conciliarem este trabalho com os estudos.</p>
<p>Também ainda não conseguimos realizar ações de sensibilização nas escolas, mas este ano começámos a refletir seriamente sobre a importância da educação ambiental, e essas atividades já foram incluídas nos nossos planos.</p>
<p>Em Ataúro, por exemplo, ainda vemos algumas comunidades a capturar tartarugas e a vender colares e artesanato feitos a partir das suas carapaças nos mercados locais. O nosso grupo já realizou algumas ações de sensibilização nessas áreas e vamos continuar esse trabalho.</p>
<blockquote>
<p style="text-align: center;"><span style="color: #ff9900;">“Observar uma tartaruga a depositar os ovos na areia desperta um forte sentimento de humanidade”</span></p>
</blockquote>
<p><strong>Qual foi o momento mais emocionante vivido pela equipa durante o resgate ou proteção de tartarugas? </strong></p>
<p>Um dos momentos mais emocionantes para a equipa é observar uma tartaruga a depositar os seus ovos na areia e, depois, regressar lentamente ao mar. Nessas situações, surge um forte sentimento de humanidade. Ver um animal tão simples apenas à procura de sobreviver, enquanto muitas pessoas continuam a capturá-lo e matá-lo para consumo, faz-nos perceber que essas ações são erradas.</p>
<p>Outro momento muito marcante acontece quando libertamos as crias de tartaruga no mar. Quando chega esse momento, temos de tomar decisões cuidadosas, porque depois de as libertarmos já não sabemos se irão sobreviver. Ao devolver as pequenas tartarugas ao oceano, sabemos que elas enfrentarão muitos perigos.</p>
<p>Por isso, esse momento é uma mistura sentimentos de felicidade e tristeza: felicidade por devolvermos as tartarugas ao seu habitat natural, mas também tristeza e preocupação porque não sabemos se conseguirão sobreviver. Mesmo assim, fazemos tudo o que está ao nosso alcance para lhes dar uma oportunidade.</p>
<p>Essas experiências fizeram-nos compreender que mesmo um animal pequeno, como uma cria de tartaruga, tem um significado muito profundo.</p>
<p>Também existem momentos dolorosos, especialmente quando encontramos tartarugas mortas pelas pessoas. Muitas vezes, sentimos que as tartarugas sofrem. Elas parecem sentir dor, tristeza e medo quando são feridas. Isso faz-nos perceber que estes animais também têm sentimentos e merecem respeito.</p>
<p>Talvez algumas pessoas pensem apenas no consumo e não se preocupem com isso, mas para nós, que trabalhamos na conservação, esses momentos são profundamente chocantes e reforçam ainda mais o nosso compromisso.</p>
<blockquote>
<p style="text-align: center;"><span style="color: #ff9900;">“O principal problema que queremos destacar é a pesca ilegal que entra no mar de Timor-Leste”</span></p>
</blockquote>
<p><strong>Timor-Leste é conhecido pela riqueza marinha, mas também enfrenta problemas graves de lixo e exploração ilegal de recursos marinhos. Segundo a observação do grupo, onde está a maior falha atualmente?</strong></p>
<p>Nós só conseguimos realizar conservação dentro das nossas capacidades. O lixo e a exploração ilegal já fazem parte da responsabilidade do Governo, porque toda a gestão e políticas são feitas por ele.</p>
<p>Durante este tempo, vimos que o Governo já desenvolveu políticas como o “zero plástico” e leis de conservação marinha. No entanto, a realidade mostra que estes problemas continuam a surgir e até a agravar-se. O lixo continua a acumular-se em muitos locais, incluindo zonas costeiras.</p>
<p>Mesmo que vejamos esforços do Governo para organizar a limpeza do lixo, consideramos que ainda não existe seriedade suficiente na implementação da política de zero plástico.</p>
<p>Há também ambientalistas que todos os fins de semana fazem limpezas e recolha de lixo, mas mesmo assim o lixo continua a aumentar. Por isso, é necessária uma verdadeira colaboração entre comunidades, grupos de jovens e o Governo.</p>
<p>Em relação à exploração ilegal, alguns pescadores locais já sabem que, quando capturam tartarugas acidentalmente, devem libertá-las. No entanto, o principal problema que queremos destacar é a pesca ilegal que entra no mar de Timor-Leste para explorar os nossos recursos pesqueiros.</p>
<p>Muitas vezes, as autoridades também enfrentam dificuldades devido à falta de equipamentos para reforçar a fiscalização. Por isso, o Governo precisa de olhar para esta situação e fornecer apoio material às autoridades.</p>
<blockquote>
<p style="text-align: center;"><span style="color: #ff9900;">“A nossa maior preocupação é a atitude humana nas zonas costeiras</span>”</p>
</blockquote>
<p><strong>Qual é a situação mais preocupante que encontram atualmente nas praias timorenses quando monitorizam os ninhos das tartarugas?</strong></p>
<p>A nossa maior preocupação é a atitude humana, especialmente das pessoas que vivem nas zonas costeiras. Algumas já sabem que as tartarugas são espécies protegidas, mas muitas ainda ignoram isso devido a necessidades económicas.</p>
<p>Quando o Lenuk-Tasi se tornar uma associação, iremos intensificar as ações de sensibilização junto das comunidades costeiras.</p>
<p>Recentemente, a revista Lafaek recolheu informações do nosso grupo e publicou-as numa edição para ser distribuída a crianças e estudantes do ensino primário. Consideramos isso muito importante para educar as novas gerações. Nas próximas edições, a revista continuará a abordar este tema.</p>
<p>Também temos planos para produzir folhetos e pequenos livros para distribuir nas escolas e comunidades. Acreditamos que, quando a informação é partilhada continuamente, as pessoas passam a conhecer, depois passam a amar e, finalmente, passam a cuidar.</p>
<blockquote>
<p style="text-align: center;"><span style="color: #ff9900;">“As alterações climáticas estão a afetar significativamente os locais de desova”</span></p>
</blockquote>
<p><strong>De que forma as alterações climáticas já estão a afetar os ninhos e a sobrevivência das tartarugas marinhas?</strong></p>
<p>Temos observado que o nível do mar aumentou. Por exemplo, na área da Praia dos Coqueiros, onde antes era possível encontrar areia seca, agora o mar já avançou até à estrada.</p>
<p>Nesta zona, onde anteriormente as tartarugas vinham regularmente para fazer os ninhos, agora isso já não acontece. Isto mostra que as alterações climáticas estão a afetar significativamente os locais de desova.</p>
<p>Além disso, as chuvas intensas provocam grandes cheias que levam lixo para o mar. Este lixo representa uma ameaça não só para os peixes, mas também para as tartarugas marinhas.</p>
<p>Quando falamos de alterações climáticas, devemos lembrar que elas são também resultado das ações humanas, não apenas da natureza. Por isso, é necessário reduzir o uso de plástico e evitar o descarte inadequado de resíduos.</p>
<blockquote>
<p style="text-align: center;"><span style="color: #ff9900;">“Timor-Leste tem um mar extraordinário, mas ainda falta investimento sério no turismo sustentável”</span></p>
</blockquote>
<p><strong>O Governo fala frequentemente sobre economia azul. Na prática, a conservação marinha está realmente entre as prioridades nacionais?</strong></p>
<p>A economia azul de Timor-Leste é frequentemente apresentada pelo Governo em conferências internacionais, incluindo na Europa. No entanto, nós questionamos porque é que não há um foco maior em países mais próximos, como a Indonésia e a Austrália, que são referências na região. Esses países procuram fortalecer o seu setor de turismo marítimo e atrair visitantes.</p>
<p>Timor-Leste também possui um mar muito bonito, mas infelizmente o Governo ainda não investe o suficiente para desenvolver este potencial.</p>
<p>Como o país agora faz parte da ASEAN, o Governo deveria dar mais prioridade ao turismo, melhorando infraestruturas como estradas para zonas turísticas, conectividade e melhores condições de alojamento.</p>
<p>No caso do trabalho de conservação que fazemos, especialmente com as tartarugas marinhas, enfrentamos condições bastante limitadas. Mesmo assim, recebemos frequentemente visitantes internacionais. Por isso, sentimos que ainda não existe um apoio adequado a iniciativas pequenas como a nossa. A conservação das tartarugas também faz parte da economia azul.</p>
<p>Muitas vezes, o Governo fala no estrangeiro sobre a beleza dos nossos ecossistemas, mas a realidade dentro do país ainda está longe do que é apresentado nos discursos oficiais.</p>
<blockquote>
<p style="text-align: center;"><span style="color: #ff9900;">“A educação ambiental não deve existir apenas na sala de aula”</span></p>
</blockquote>
<p><strong>Como avaliam o nível de educação ambiental nas escolas timorenses atualmente? A juventude está suficientemente envolvida na conservação marinha ou ainda falta maior participação?</strong></p>
<p>O Lenuk-Tasi ainda não realiza visitas regulares às escolas. No entanto, quando as escolas nos convidam para dar explicações, vamos de forma voluntária, sem exigir qualquer pagamento. Muitas vezes, vários estudantes também visitam o centro do Lenuk-Tasi, em Kasait.</p>
<p>Recebemos chamadas de escolas e universidades, tanto públicas como internacionais, especialmente de Díli e Liquiçá, pedindo visitas ao nosso projeto. Nós recebemos esses estudantes e partilhamos o nosso trabalho.</p>
<p>A educação ambiental é muitas vezes implementada através da participação dos estudantes em atividades de limpeza nas praias. Esta é uma forma de sensibilizar os jovens para o impacto do lixo no ambiente e na biodiversidade marinha.</p>
<p>De forma geral, a educação ambiental não deve ser feita apenas em sala de aula, mas também na prática, através de atividades como limpezas de praias.</p>
<p>Em relação à participação dos jovens, vemos que muitos já demonstram dedicação, espírito voluntário e capacidade de organização, mobilizando os seus colegas para participar em limpezas nas praias e em canais de drenagem.</p>
<p>Embora estas ações sejam muitas vezes vistas como atividades simples do dia a dia, têm um grande valor para o ambiente. Mesmo quando as áreas são limpas e o lixo volta a aparecer, os jovens continuam motivados e não desistem.</p>
<blockquote>
<p style="text-align: center;"><span style="color: #ff9900;">“Os ativistas ambientais continuam a trabalhar mesmo sem apoio financeiro”</span></p>
</blockquote>
<p><strong>Os ativistas ambientais sentem-se, por vezes, ignorados pelas autoridades fora das datas comemorativas? O Lenuk-Tasi sente apoio suficiente da sociedade e das instituições ou continua a enfrentar muitas limitações?</strong></p>
<p>Em Timor-Leste, existem muitos ativistas ambientais, e alguns grupos sentem que nem sempre recebem atenção suficiente por parte do Estado. No entanto, isso não os desmotiva, porque o seu objetivo é contribuir para o país que amam.</p>
<p>No caso do grupo Lenuk-Tasi, recebemos frequentemente contactos do Governo, de organizações nacionais e internacionais para participar em atividades e seminários relacionados com a conservação marinha.</p>
<p>O nosso principal desafio é que, muitas vezes, não conseguimos enviar todos os membros, porque alguns ainda estão a estudar ou têm outros trabalhos. Mesmo assim, somos sempre convidados para falar sobre o oceano, o ambiente e a conservação das tartarugas marinhas.</p>
<p>Em termos de apoio da sociedade, não temos grandes problemas, porque trabalhamos em colaboração direta com a comunidade, e ela apoia-nos sempre que precisamos. Por exemplo, quando há tartarugas a pôr ovos, as pessoas entram em contacto connosco.</p>
<p>No entanto, em relação ao apoio do Estado, especialmente financiamento para os nossos projetos, ainda não recebemos apoio. Até agora, também ainda não submetemos propostas formais. Neste momento, estamos a tentar melhorar a nossa organização legal como associação, para depois podermos desenvolver e apresentar projetos.</p>
<p><strong>No passado dia 23 de maio assinalou-se o Dia Mundial das Tartarugas. Que apelo gostariam de fazer diretamente à população timorense?</strong></p>
<p>Aos jovens que têm paixão pelo mar e, especialmente, pelas tartarugas marinhas e que desejam juntar-se a nós, não tenham receio de nos visitar. Este é o nosso grupo, e juntos podemos proteger as tartarugas para que elas possam viver livremente e em maior número no nosso mar.</p>
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<p style="text-align: center;"><span style="color: #ff9900;">“Queremos transformar o centro de conservação de Kasait num museu dedicado às tartarugas marinhas” </span></p>
</blockquote>
<p><strong>Qual é o maior sonho do Lenuk-Tasi para o futuro ambiental de Timor-Leste?</strong></p>
<p>Queremos expandir a nossa conservação de tartarugas para todas as zonas costeiras de Timor-Leste, de forma a continuar a monitorizar e proteger o movimento das tartarugas e a sua segurança contra predadores.</p>
<p>Além disso, queremos transformar o centro de conservação de tartarugas em Kasait num museu dedicado às tartarugas marinhas, para que os estudantes possam aprender sobre o ciclo de vida destas espécies e para que o centro também funcione como um espaço de investigação em Timor-Leste.</p>
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		<title>Maria Luísa Oliveira: “Cada escola tem de viver em democracia”</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Joana Silva]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 09 May 2026 08:07:19 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Destaque]]></category>
		<category><![CDATA[Entrevista]]></category>
		<category><![CDATA[Pessoas]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Díli acolheu, nos dias 6 e 7 de maio de 2026, a XIV Reunião de Ministros da Educação da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), que reuniu representantes dos Estados-membros para debater os desafios, os progressos alcançados e as [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p><em>Díli acolheu, nos dias 6 e 7 de maio de 2026, a XIV Reunião de Ministros da Educação da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), que reuniu representantes dos Estados-membros para debater os desafios, os progressos alcançados e as prioridades do setor educativo no espaço lusófono.</em></p>
<p>Sob o lema “Educação – Valores Democráticos e Participação Cívica: Caminhos para o Fortalecimento das Sociedades da CPLP”, o encontro centrou-se na consolidação de sistemas educativos mais inclusivos e no reforço da cooperação multilateral para o desenvolvimento da educação.</p>
<p>Em entrevista ao Diligente, a Secretária de Estado da Administração Escolar de Portugal, Maria Luísa Oliveira, destacou que, no âmbito da reunião, foram definidas várias prioridades estratégicas para o setor educativo no espaço lusófono. Entre elas, salientam-se a alfabetização e o desenvolvimento das literacias, a valorização da língua portuguesa, o reforço da educação inclusiva e a formação de professores.</p>
<p><strong>Quais são, neste momento, as principais prioridades educativas que estão a ser definidas no âmbito da CPLP? </strong></p>
<p>No âmbito da CPLP, temos várias prioridades que foram ontem elencadas na reunião ministerial. Temos, como primeira prioridade, a alfabetização e as literacias determinantes para que os cidadãos possam intervir e participar ativamente na sociedade.</p>
<p>A valorização da língua portuguesa é também determinante, porque constitui esta herança comum e este património cultural que partilhamos. A educação inclusiva é igualmente essencial, porque integra todos, chega a todos, apoia e respeita a diferença.</p>
<p>A formação e valorização dos professores são fundamentais para garantir um ensino de qualidade, porque os professores têm de ser capacitados e manter uma aprendizagem contínua.</p>
<p>Um professor está sempre em aprendizagem ao longo da vida, não pode parar. Temos ainda como prioridade a educação para a cidadania e para a participação cívica, que é determinante para formar cidadãos e promover o seu envolvimento na comunidade.</p>
<p>Temos também o ensino técnico-profissional, igualmente importante para capacitar os alunos e os jovens, permitindo-lhes desenvolver competências e contribuir para o desenvolvimento do país.</p>
<p><strong> </strong><strong>Em Timor-Leste, a educação inclusiva ainda enfrenta muitos desafios. Vi alguns alunos e jovens deixarem de estudar por falta de inclusão e de condições adequadas.</strong></p>
<p>É uma urgência. Digamos que é uma urgência em todos os sistemas educativos. É claro que existem diferentes níveis de desenvolvimento, mas todos os países irão evoluir positivamente.</p>
<p>A cooperação na área da educação no espaço da CPLP é muito importante precisamente por causa desta partilha entre países. Estamos todos a aprender uns com os outros.</p>
<p style="text-align: center;"><em><span style="color: #ff6600;">“Quanto maior for essa capacitação, maior será o desenvolvimento do país, permitindo que este deixe de depender de financiamentos externos”</span></em></p>
<p><strong>É por isso que a CPLP quer reforçar o apoio a Timor-Leste, sobretudo na área da educação inclusiva?</strong></p>
<p><strong> </strong>Cada país tem o seu nível de desenvolvimento e, por isso, capacidades diferentes para implementar medidas.</p>
<p>Aquilo que pretendemos efetivamente é promover a capacitação dos cidadãos. Quanto maior for essa capacitação, maior será o desenvolvimento do país, permitindo que este deixe de depender de financiamentos externos.</p>
<p>Neste momento, alguns países da CPLP ainda necessitam de apoio, como é o caso de Timor-Leste. Portugal tem vindo a colaborar através dos projetos CAFE e das escolas portuguesas no estrangeiro, nomeadamente aqui em Díli, através da Escola Portuguesa Ruy Cinatti.</p>
<p>Na realidade, é necessário passar do plano estratégico para o plano operacional. É isso que fazemos nas reuniões e nos seminários integrados nestes encontros. Trabalhamos para que cada país conheça soluções implementadas noutros contextos, de modo a poder adaptá-las e desenvolver os seus próprios sistemas educativos.</p>
<p><strong>Estes encontros têm produzido resultados concretos ou a cooperação educativa ainda está aquém do seu potencial? </strong></p>
<p>Cada país encontra-se num determinado estádio de desenvolvimento. Através da partilha entre todos e do apoio que damos, acredito que este é um caminho que se vai consolidando.</p>
<p>Estive na reunião do ano passado e também nesta reunião deste ano, e vejo da parte dos governantes um grande interesse e uma forte vontade de implementar medidas e melhorar os seus sistemas educativos. Existe um compromisso entre todos nós.</p>
<p><strong>Que compromissos ou decisões mais relevantes saem desta XIV Reunião realizada em Díli? </strong></p>
<p>Aquilo que verificamos é que a educação é fundamental enquanto vetor de promoção do desenvolvimento de todos os países.</p>
<p>É através da educação que os cidadãos desenvolvem competências, adquirem conhecimentos e, através de uma vivência de cidadania participativa na escola, se formam para serem cidadãos ativos e participativos.</p>
<p>Esse é realmente o grande compromisso. Consideramos que a educação é um dos pilares estruturantes da CPLP e queremos promover a alfabetização, o desenvolvimento das literacias, a inclusão e a valorização da língua portuguesa como veículo de comunicação e afirmação no mundo.</p>
<p>Quanto maior for a comunidade de falantes da língua portuguesa, maior será também a nossa capacidade de afirmação global.</p>
<p>Além disso, é fundamental valorizar uma cidadania democrática, baseada na escuta dos cidadãos e na participação nas decisões. Isto é algo que promovemos nestas reuniões, tal como a partilha de experiências entre os países.</p>
<p>Na minha intervenção, apresentei um conjunto de medidas que estamos a implementar em Portugal, trabalhadas também pelos pontos focais de cada país. Existe uma partilha muito intensa dos temas em discussão, que depois são transmitidos aos respetivos países para a implementação dos projetos.</p>
<p style="text-align: center;"><em><span style="color: #ff6600;">“Cada professor, em contexto de sala de aula, deve recorrer a metodologias ativas em que o aluno não seja um elemento passivo, mas esteja no centro do processo de aprendizagem”</span></em></p>
<p><strong>O lema desta reunião destaca valores democráticos e participação cívica. Como é que estes princípios podem ser integrados de forma prática nos sistemas educativos? </strong></p>
<p>De uma forma muito simples: cada escola tem de viver em democracia. A liderança da escola e os professores devem promover modelos participativos assentes no respeito pelos alunos e pela comunidade escolar, construindo uma cidadania escolar baseada nesses princípios.</p>
<p>Depois há aspetos mais específicos. Cada professor, em contexto de sala de aula, deve recorrer a metodologias ativas em que o aluno não seja um elemento passivo, mas esteja no centro do processo de aprendizagem.</p>
<p>Ao envolver o aluno através de metodologias ativas e modelos pedagógicos dinâmicos, ele passa a ter capacidade para dar o melhor de si.</p>
<p>Ontem à noite, referi isso mesmo durante o espetáculo apresentado pelos alunos do CAFE, no qual foi evidente a mobilização das artes e do património como ferramentas de aquisição de conhecimentos e desenvolvimento de competências.</p>
<p>Os alunos que estudaram poemas e canções em português e depois os apresentaram publicamente tiveram um trabalho muito exigente de preparação e desenvolveram inúmeras competências ao longo desse processo. Isso é uma vivência efetiva de participação escolar.</p>
<p><strong>Mas aquilo que vimos na apresentação dos alunos do CAFE parece bastante diferente da realidade das escolas públicas timorenses.</strong></p>
<p>Não me parece. Estive na Escola 4 de setembro e também houve alunos a apresentar poemas e canções em português. Estão igualmente no caminho certo.</p>
<p>O CAFE tem naturalmente uma vantagem: conta com professores portugueses que já possuem formação específica. Mas a vivência escolar e a formação dos professores são muito importantes. Esses professores têm também a missão de formar docentes timorenses, tanto do CAFE como de outras escolas.</p>
<p>A Escola Portuguesa Ruy Cinatti dispõe igualmente de um centro de formação aberto aos professores do CAFE e a docentes de outras escolas.</p>
<p>É notório que este caminho está a ser feito, que a senhora Ministra da Educação tem esta preocupação, domina estes conceitos das ciências da educação e da pedagogia, e está a promovê-los nas escolas.</p>
<p style="text-align: center;"><span style="color: #ff6600;"><em>“Quanto mais falantes de língua portuguesa existirem, maior será o peso que poderemos ter nesta economia global”</em></span></p>
<p><strong>A língua portuguesa continua a ser um desafio em vários contextos educativos da CPLP. Que estratégias podem ser reforçadas para melhorar o seu ensino e consolidação?</strong></p>
<p>Já referimos a formação de professores, que é realmente uma estratégia fundamental. Depois, também a partilha de materiais didáticos entre os vários países.</p>
<p>O Instituto Internacional da Língua Portuguesa pode desempenhar um papel muito importante. Foi-nos apresentado ontem um portal disponível para todos os países e que os professores poderão utilizar.</p>
<p>Além disso, é importante valorizar a língua portuguesa como língua de partilha de conhecimento e como elemento da nossa herança cultural comum.</p>
<p>Quanto mais falantes de língua portuguesa existirem, maior será o peso que poderemos ter nesta economia global.</p>
<p><strong> </strong><strong>Que papel pode Portugal desempenhar de forma mais estruturada e sustentável no apoio ao sistema educativo de Timor-Leste?</strong></p>
<p><strong> </strong>No âmbito da CPLP, e no caso de Portugal, temos aqui a Escola Portuguesa Ruy Cinatti e os 14 centros CAFE.</p>
<p>Vamos investir numa nova escola para melhorar as condições e aumentar a capacidade da Escola Portuguesa Ruy Cinatti. Tudo isto contribui para o fortalecimento do sistema educativo.</p>
<p>Além disso, a formação de pessoas é efetivamente determinante.</p>
<p>Existem também várias plataformas digitais de partilha de conteúdos, tanto a nível mundial como no âmbito da CPLP. Tal como referi relativamente ao Instituto Internacional da Língua Portuguesa, estas plataformas podem servir para disponibilizar materiais didáticos e pedagógicos destinados aos professores.</p>
<p><strong>A inovação educativa é hoje uma prioridade global. Como pode ser aplicada em contextos com limitações de recursos, como o de Timor-Leste?</strong></p>
<p><strong> </strong>A inovação educativa não depende apenas da tecnologia. O que vimos na apresentação do CAFE demonstra que os alunos podem adquirir conhecimentos e desenvolver competências através da cultura, das artes e do património, sem necessidade de grandes recursos.</p>
<p>Basta que as aprendizagens estejam contextualizadas no currículo, na comunidade e até nos espaços naturais e monumentos, transformando-os em lugares de aprendizagem que ajudam os alunos a conhecer a sua herança cultural local.</p>
<p>É claro que a tecnologia e as plataformas digitais disponíveis, bem como o investimento que o Governo timorense tem vindo a realizar nas ferramentas digitais, complementam este trabalho.</p>
<p>Mas a inovação passa sobretudo pela criatividade e pelo pensamento crítico, a partir daquilo que existe e daquilo que desejamos para a comunidade.</p>
<p><strong> </strong><strong>Se tivesse de identificar uma prioridade urgente e imediata para o setor educativo em Timor-Leste, qual seria?</strong></p>
<p>A prioridade é a formação de professores. Os professores são sempre fundamentais.</p>
<p>A formação de professores é, sem dúvida, a chave para o sucesso dos alunos. E uma formação diversificada, desde as didáticas às pedagogias, é determinante. A pedagogia das artes e do património também é importante.</p>
<p><strong> </strong><strong>Que mensagem gostaria de deixar aos professores e alunos timorenses neste contexto de cooperação reforçada?</strong></p>
<p>Quero deixar uma mensagem de reconhecimento e confiança aos timorenses. Temos confiança nas vossas capacidades, no vosso potencial e em tudo aquilo que podem alcançar, porque todos conseguimos evoluir.</p>
<p>Vejo em Timor-Leste muitas pessoas empenhadas em alcançar o desenvolvimento. E esse desenvolvimento constrói-se sobretudo através da educação. Por isso, acredito que estamos no bom caminho.</p>
<p>A senhora Ministra tem uma estratégia muito bem definida para melhorar o sistema educativo, e estamos disponíveis para ajudar. Essa é a mensagem que quero deixar: reconhecimento, confiança e compromisso.</p>
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		<title>Rui Araújo pretende candidatar-se à Presidência, prometendo ser “oxigénio” para o Estado</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Antónia Martins]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 30 Apr 2026 09:32:46 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Destaque]]></category>
		<category><![CDATA[Entrevista]]></category>
		<category><![CDATA[Pessoas]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Rui Maria de Araújo, ex-ministro da Saúde (2001–2007) e ex-primeiro-ministro (2015–2017), pretende apresentar a sua candidatura à Presidência da República, assumindo o objetivo de garantir um futuro mais próspero para Timor-Leste. Médico e especialista em saúde pública, com experiência em [&#8230;]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>Rui Maria de Araújo, ex-ministro da Saúde (2001–2007) e ex-primeiro-ministro (2015–2017), pretende apresentar a sua candidatura à Presidência da República, assumindo o objetivo de garantir um futuro mais próspero para Timor-Leste.</p>
<p>Médico e especialista em saúde pública, com experiência em finanças e gestão, o futuro candidato defende uma presidência de moderação democrática, centrada na união, no interesse público e na responsabilidade intergeracional.</p>
<p>Antigo membro da resistência clandestina através da RENETIL, Rui Araújo identifica a polarização política, o nepotismo e a corrupção como fatores que fragilizam o Estado, pretendendo apresentar a sua candidatura independente como uma alternativa baseada no mérito.</p>
<p>No plano económico, propõe a diversificação da economia, com aposta nas economias verde, azul e tecnológica, enquanto na saúde e educação defende maior foco na gestão e no capital humano. Compromete-se ainda com o cumprimento rigoroso da Constituição e com uma presidência ao serviço de todos os timorenses.</p>
<p>Acompanhe a entrevista completa.</p>
<p><iframe title="Rui Araújo pretende candidatar-se à Presidência, prometendo ser “oxigénio” para o Estado" width="640" height="360" src="https://www.youtube.com/embed/hW6njn7meYU?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe></p>
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		<title>Reconciliação, Estado e futuro: a visão de Joaquim ‘Russo’ da Fonseca para Timor-Leste</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Rilijanto Viana]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 16 Apr 2026 11:53:39 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Destaque]]></category>
		<category><![CDATA[Entrevista]]></category>
		<category><![CDATA[Pessoas]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Num momento em que Timor-Leste continua a enfrentar desafios de coesão social, confiança nas instituições e consolidação democrática, Joaquim “Russo” da Fonseca defende que o futuro do país depende de uma combinação entre reconciliação nacional, meritocracia e reforço do papel [&#8230;]</p>
<p>O conteúdo <a href="https://www.diligenteonline.com/reconciliacao-estado-e-futuro-a-visao-de-joaquim-russo-da-fonseca-para-timor-leste/">Reconciliação, Estado e futuro: a visão de Joaquim ‘Russo’ da Fonseca para Timor-Leste</a> aparece primeiro em <a href="https://www.diligenteonline.com">DILIGENTE</a>.</p>
]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p><em>Num momento em que Timor-Leste continua a enfrentar desafios de coesão social, confiança nas instituições e consolidação democrática, Joaquim “Russo” da Fonseca defende que o futuro do país depende de uma combinação entre reconciliação nacional, meritocracia e reforço do papel mediador das instituições do Estado.</em></p>
<p>Timor-Leste continua a confrontar-se com um desafio central da sua construção democrática: transformar a independência política em coesão social efetiva e confiança sólida nas instituições do Estado. Apesar dos avanços institucionais, persistem debates profundos sobre inclusão, justiça social, meritocracia e o papel dos líderes na consolidação da unidade nacional.</p>
<p>É neste contexto que Joaquim “Russo” da Fonseca partilha a sua leitura sobre o país e os seus desafios. Com experiência em processos de mediação de conflitos, envolvimento em negociações internacionais sobre soberania e fronteira,  participação em iniciativas de reconciliação em contextos pós-conflito, a sua trajetória é frequentemente associada a temas como diálogo, estabilidade e construção de pontes institucionais e sociais.</p>
<p>Em janeiro de 2026, o percurso de Joaquim “Russo” da Fonseca ganhou maior visibilidade internacional ao liderar uma Comissão da Verdade e Reconciliação nas Fiji, reforçando o seu perfil como mediador em contextos de pós-conflito e promotor de diálogo entre comunidades.</p>
<p>Nesta conversa, Joaquim “Russo” da Fonseca partilha a sua visão sobre o papel do Presidente da República, os desafios da inclusão social, a necessidade de meritocracia nas instituições do Estado e o futuro de Timor-Leste nas próximas décadas.</p>
<p>Mais do que respostas fechadas, esta entrevista traça uma reflexão estruturante sobre as tensões que ainda atravessam o processo de desenvolvimento do país, entre unidade e divisão, discurso e prática, ambição e realidade institucional.</p>
<blockquote>
<p style="text-align: center;"><span style="color: #ff9900;">“Como timorense, quero seguir um caminho, ainda que modesto, para projetar a imagem de Timor-Leste no exterior e demonstrar que o país também tem capacidade de contribuir para a paz noutros contextos”</span></p>
</blockquote>
<p><strong>O que o motivou a aceitar a liderança da Comissão de Verdade e Reconciliação nas Fiji? Quais eram as condições políticas que justificavam a sua intervenção no país?</strong></p>
<p>Quando recebi o convite do Governo das Fiji, considerei se teria capacidade para desempenhar essa função. Após alguma reflexão, entendi que deveria avançar e aceitar o convite.</p>
<p>Aceitei por várias razões. Em primeiro lugar, enquanto timorenses, conhecemos bem o que é o conflito, compreendemos os seus impactos na vida das pessoas e reconhecemos a importância da paz.</p>
<p>Além disso, tive experiência no processo de construção da paz em Timor-Leste entre 2006 e 2008, durante a crise dos peticionários. Nessa altura, assumi uma responsabilidade atribuída pelo Estado para gerir um processo de procura de soluções para essa crise, entre outras experiências semelhantes. Por isso, considerei que estava preparado para contribuir e prestar o meu apoio nesta missão.</p>
<p>Outra razão prende-se com o facto de o Governo das Fiji ter decidido criar uma Comissão de Verdade e Reconciliação, o que demonstra disponibilidade para enfrentar o seu passado doloroso. Esse passo merece apoio, pois, vindo de um país pós-conflito, sinto que há também uma responsabilidade em apoiar outras nações que procuram resolver problemas herdados do passado.</p>
<p>Acresce ainda que, enquanto timorense, procuro, ainda que de forma modesta, contribuir para projetar a imagem de Timor-Leste no exterior, demonstrando que o país tem capacidade para oferecer apoio genuíno e ajudar outras nações a alcançar a paz.</p>
<p>Antes de partir para esta missão nas Fiji, desempenhei também a função de porta-voz do processo de reconciliação comunitária em Timor-Leste. Essa experiência foi igualmente importante, dando-me maior confiança e reforçando a convicção de que podemos contribuir de forma significativa para processos semelhantes em Fiji.</p>
<p><strong>Quais são os principais conflitos ou feridas históricas nas Fiji que a comissão está a tentar resolver?</strong></p>
<p>O arquipélago das Fiji tem a sua história marcada por quatro golpes de Estado desde 1987. Nesse ano, ocorreram dois golpes, seguidos de outro em 2000, quando as suas forças estavam destacadas em Timor-Leste como força de manutenção da paz. Posteriormente, ocorreu ainda um golpe em 2006. O governo resultante desse golpe manteve-se no poder até 2022, altura em que perdeu as eleições e foi substituído por um novo executivo.</p>
<p>Na sequência destes acontecimentos, emergiram também conflitos étnicos entre os habitantes indígenas das Fiji e os cidadãos de origem indiana, ou seja, descendentes de populações oriundas da Índia. Esta divisão étnica e social tornou-se bastante profunda, tendo provocado sofrimento físico e emocional a muitas pessoas ao longo destes quatro golpes de Estado.</p>
<p>Para além da desconfiança entre diferentes grupos étnicos e sociais, verifica-se igualmente um clima de desconfiança em relação às instituições do Estado, uma vez que os militares estiveram envolvidos em todos estes golpes. Neste contexto, torna-se evidente a necessidade de promover um processo que contribua para a coesão social e a reconciliação nas Fiji.</p>
<p>Assim, pode dizer-se que existe um problema de natureza horizontal, entre diferentes grupos sociais e étnicos, incluindo os indígenas fijianos, os indo-fijianos (cidadãos de Fiji de origem indiana, e também alguns de origem chinesa), bem como outras comunidades presentes no país. Paralelamente, existe também um conflito de natureza vertical, entre a sociedade e o Estado, associado ao período de governação militar instaurado após o golpe de 2006, que se prolongou até 2022.</p>
<p>Importa referir que esta comissão já tinha sido criada antes de eu assumir a liderança. Iniciou os seus trabalhos em março de 2025, sob a presidência de um cidadão austríaco, tendo funcionado até outubro, altura em que esse presidente se demitiu. Fui então convidado, em novembro, para assumir o cargo, mas o processo levou algum tempo, tendo apenas chegado ao país em janeiro de 2026.</p>
<p>A minha presença teve como objetivo dar um novo impulso ao trabalho da comissão. O ano passado foi sobretudo dedicado à sua instalação, nomeadamente ao recrutamento de pessoal. Foi apenas em maio que se iniciaram efetivamente os trabalhos junto das comunidades.</p>
<p>Durante o ano passado, foram realizadas 11 audiências. Já este ano, apenas nos meses de fevereiro e março, foram realizadas mais de 20. Este aumento deve-se, em parte, a uma campanha intensiva nos meios de comunicação social lançada após a minha chegada, o que contribuiu para um maior conhecimento público sobre a comissão. É também possível que a nomeação de um novo presidente tenha reforçado a confiança da população.</p>
<p>À medida que o trabalho avançava, a visibilidade da comissão aumentava, assim como a confiança do público. Tal não se deveu a um único fator, mas sim ao trabalho consistente desenvolvido pela comissão. Consequentemente, este ano foi possível realizar audiências com um maior número de pessoas, incluindo aquelas que anteriormente relutavam em comparecer. Foram ouvidas testemunhas de quatro indivíduos que ocuparam altos cargos nas forças armadas, e esse trabalho terá continuidade.</p>
<p><strong>Existem elementos específicos do processo de reconciliação em Timor-Leste que considera que poderiam ser aplicados nas Fiji para avançar ainda mais no processo de cura nacional?</strong></p>
<p>A partir da nossa experiência, sabemos que o reconhecimento do que aconteceu às vítimas funciona como uma forma de validação do seu sofrimento. Reconhecer que os acontecimentos ocorreram de facto, e não os negar, permite que as vítimas sintam que estão a passar por um processo de cura, uma vez que existe um reconhecimento real das violações que sofreram. Assim, esta validação das experiências das vítimas constitui um importante mecanismo de justiça. Penso que este aspeto, presente na experiência de Timor-Leste, é também altamente relevante para as Fiji.</p>
<p>Outro elemento importante é o realismo. Em Timor-Leste, fomos de facto realistas, mas começámos com padrões muito elevados. O processo de reconciliação foi inicialmente pensado para avançar em paralelo com um processo de justiça retributiva, ou seja, com a responsabilização dos autores dos crimes em tribunal. Na altura, existiam painéis especiais para crimes graves. Atualmente, sabe-se que há mais de 400 pessoas cujos nomes constam da lista de crimes graves, mas já não é possível atuar da mesma forma, uma vez que o tribunal que anteriormente tratava desses casos deixou de existir, tendo sido estabelecido pelas Nações Unidas.</p>
<p>Atualmente, nas Fiji, desde o início do processo, não se tem dado prioridade à justiça retributiva; em vez disso, o foco tem sido colocado na justiça restaurativa. Assim, a questão central passa por perceber como restaurar a dignidade dos sobreviventes, promovendo um processo de entendimento e construindo a coesão social na sociedade fijiana com base na verdade. É precisamente esta abordagem que se tornou o principal foco da Comissão de Verdade e Reconciliação nas Fiji neste momento.</p>
<blockquote>
<p style="text-align: center;"><span style="color: #ff9900;">“Acreditamos que as Fiji caminharão para um caminho positivo e que a reconciliação pode ser considerada bem-sucedida quando houver respeito e reconhecimento mútuo entre todas as pessoas nas Fiji”</span></p>
</blockquote>
<p><strong>Qual é a sua visão a longo prazo para as Fiji após o trabalho da comissão? É possível alcançar uma verdadeira reconciliação nacional ou as cicatrizes do passado são difíceis de superar?</strong></p>
<p>Não existem apenas desafios, porque, como acontece em muitos contextos, parte da sociedade quer simplesmente esquecer tudo, enquanto outros setores defendem posições mais extremas e querem que todos os responsáveis sejam punidos e presos. Há também aqueles que assumem uma posição intermédia. Portanto, existem diferentes perspetivas dentro da sociedade.</p>
<p>Desde o início, quando cheguei, a mensagem que tenho transmitido ao público, através dos meios de comunicação locais nas Fiji, é que a reconciliação não é um destino, mas sim um processo que precisa de ser continuado dia após dia, de forma a reforçar a confiança entre os diferentes grupos da sociedade. O objetivo é permitir que as pessoas aceitem e respeitem a diversidade e a heterogeneidade social.</p>
<p>A diversidade nas Fiji é muito ampla, tanto do ponto de vista étnico, como já referi, com povos indígenas, pessoas de origem indiana, bem como outras comunidades vindas do Pacífico, de origem chinesa e outras, como também em termos de diversidade religiosa. Nas Fiji existem cristãos metodistas, católicos, hindus, muçulmanos, entre outros. O processo de reconciliação envolve, por isso, a construção de um entendimento mais sólido entre estes diferentes grupos religiosos e étnicos que vivem em conjunto no país.</p>
<p>Em termos de visão futura, considero que devem ser os próprios fijianos a definir o caminho para o seu país. No entanto, enquanto observadores externos, acreditamos que as Fiji seguirão um percurso positivo e que a reconciliação poderá ser considerada bem-sucedida quando existir respeito e reconhecimento mútuo entre todas as pessoas.</p>
<p>As Fiji podem também recorrer a meios democráticos para resolver as diferenças existentes na sociedade, de forma a evitar a perpetuação da discriminação étnica e religiosa. Se isso for alcançado, acredito que a população sentirá maior tranquilidade e perceberá que o processo de reconciliação já começou a produzir resultados e benefícios concretos para a sociedade.</p>
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<p style="text-align: center;"><span style="color: #ff9900;">“No meu caso, se um dia me candidatar à Presidência da República, contaria apenas com a confiança do povo”</span></p>
</blockquote>
<p><strong>O trabalho nas Fiji reforçou a sua posição no cenário internacional como mediador e líder de processos de reconciliação. O senhor também já anunciou recentemente a sua intenção de se candidatar à Presidência de Timor-Leste. Quais são as principais razões que o motivaram a dar esse passo e o que pode trazer de novo para o país?</strong></p>
<p>Penso que, no futuro, Timor-Leste deve tornar-se uma sociedade verdadeiramente igualitária, onde todas as pessoas se possam sentir incluídas, como cidadãos com os mesmos direitos, sejam idosos, jovens, adultos, combatentes ou não combatentes. Em Timor-Leste, todos devem sentir que são cidadãos que merecem o mesmo tipo de atendimento e tratamento por parte do seu país.</p>
<p>Em segundo lugar, considero que o Presidente da República deve ter a capacidade de atuar como mediador das divisões políticas existentes no nosso país. Durante este período, algumas pessoas nasceram e cresceram sem compreender o que realmente aconteceu, mas de repente veem na televisão conflitos e divisões e perguntam: “estão a zangar-se uns com os outros, mas não sabemos porquê”.</p>
<p>Não existe inclusividade, e os partidos políticos muitas vezes limitam-se a opor-se uns aos outros. Por isso, o Presidente da República deve ter a capacidade de mediar essas divisões, para que as diferenças possam ser resolvidas de forma mais harmoniosa e, no final, tragam benefícios para a população.</p>
<p>Devem existir debates, mas debates com valor, por exemplo sobre políticas públicas e sobre formas de melhorar a vida do povo, e não discussões sobre quem é melhor ou quem venceu guerras. Isso já pertence ao passado.</p>
<p>Durante mais de vinte anos de independência, os líderes muitas vezes apenas contam histórias. Em vez de mobilizarem a população com uma visão e com programas concretos para conquistar votos e chegar ao poder, acabam por se limitar a narrativas do passado. Não há, muitas vezes, um líder que apresente estratégias políticas claras para melhorar a vida do povo.</p>
<p>Por isso, penso que o próximo Presidente deve orientar este aspeto, para que as diferenças e discussões passem a ser debates com impacto real na vida das pessoas.</p>
<p>Em terceiro lugar, considero importante restaurar o prestígio institucional da Presidência da República. Durante muitos anos, vimos o Presidente da República como alguém que apenas segue ou acompanha: o Parlamento diz uma coisa, o Governo diz outra, e até vozes externas afirmam que o Presidente apenas acompanha. Entretanto, quando a casa do povo é afetada ou destruída pelo Governo, o Presidente muitas vezes não se manifesta, por ser visto apenas como defensor do povo.</p>
<p>Por isso, considero que estas questões são importantes como motivação para a abertura de candidaturas à Presidência da República.</p>
<p>Todos os presidentes costumam candidatar-se como independentes, embora alguns recebam apoio de partidos políticos. No meu caso, se um dia me candidatar à Presidência da República, contaria apenas com a confiança do povo.</p>
<p><strong>Já identificou alguns dos principais desafios ou problemas que considera urgentes de resolver nos próximos anos?</strong></p>
<p>Penso que, quando falamos de inclusão, estamos também a falar de justiça social. Timor-Leste deve tornar-se uma sociedade onde não existam apenas pessoas em melhor situação e outras em situação de grande dificuldade. Isso não pode acontecer. Ao longo do processo de desenvolvimento, as coisas têm mudado constantemente, mas nem sempre há um olhar verdadeiro e sistemático sobre esta questão.</p>
<p>A transparência e a integridade nas instituições públicas ainda não estão plenamente garantidas, e a confiança pública também continua baixa. O papel do Presidente da República é garantir o cumprimento da Constituição e assegurar que os outros também a cumpram. Por isso, considero que este é um ponto muito importante e deve ser uma prioridade na atuação presidencial.</p>
<p>Outra questão é a soberania do Estado. Soberania do Estado não significa apenas a existência formal de um país, com uma bandeira e um nome. Hoje em dia, nem sempre se sabe exatamente o que entra em Timor-Leste. Por exemplo, vimos recentemente a circulação de dinheiro falso. Isto acontece porque as nossas fronteiras estão fragilizadas ou mal controladas. As pessoas podem entrar com diversos materiais sem controlo adequado. Em termos políticos, fala-se de “captura do Estado”, ou seja, o Estado acaba por ser influenciado ou controlado por interesses poderosos. O Estado continua a existir, mas a sua soberania não está plenamente garantida. Isso precisa de ser restaurado.</p>
<p>Depois, há também a questão da unidade nacional. A unidade nacional é um tema importante e não deve ser tratado de forma superficial. Fala-se bastante de unidade nacional, mas é necessário também reconhecer que ainda existem questões por resolver relacionadas com o passado do conflito.</p>
<p>Isto não diz respeito apenas aos líderes, mas também à sociedade. Existem processos de reconciliação comunitária que mostram que, dentro da sociedade, ainda há pessoas que se sentem feridas.</p>
<p>Não podemos falar de unidade nacional numa situação em que algumas pessoas ainda sentem dor e não se sentem plenamente integradas na vida da comunidade. O Presidente da República deve prestar atenção a esta realidade e garantir que o processo de reconciliação não seja apenas formal, mas também efetivo no interior da sociedade timorense.</p>
<p>Esse processo deve ser promovido e aprofundado para que todas as pessoas se sintam incluídas. Ainda existem, por vezes, acusações entre nós, quem fez a guerra ou não, quem teve culpa ou não teve. É necessário ultrapassar esse tipo de abordagem.</p>
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<p style="text-align: center;"><span style="color: #ff9900;">“Quando falamos de gerações, muitas vezes a geração mais velha conta as suas histórias de luta, mas isso pode fazer com que a geração mais nova se sinta alienada, por não ter histórias próprias para contar. Por isso, o papel do Presidente da República também é garantir que o Governo adote políticas adequadas que deem mais oportunidades e força aos jovens”</span></p>
</blockquote>
<p><strong>A política interna em Timor-Leste tem sido marcada por um certo grau de instabilidade. Quais são as medidas necessárias para promover a unidade nacional em Timor-Leste?</strong></p>
<p>Diálogo, diálogo e mais diálogo. O próximo Presidente da República deve demonstrar que pertence a todos os timorenses. Não pertence apenas às pessoas que o apoiaram para chegar à Presidência, nem a um grupo específico que o apoia ou determina o seu futuro político. Ele representa todo o povo de Timor-Leste. Isso significa que deve estar ao serviço de toda a população.</p>
<p>O Presidente da República deve abandonar qualquer tendência partidária e manter-se neutro, atuando como árbitro em conflitos políticos e como defensor do povo sempre que este necessitar de proteção.</p>
<p>Em segundo lugar, deve também servir como ponte entre gerações. O Presidente deve ter a capacidade de ligar a geração mais velha, que viveu os tempos de conflito e luta, com a geração mais nova. Nesse sentido, deve haver continuidade entre estas duas gerações. Quando a geração mais velha já não estiver presente, o país continuará a avançar, e serão as novas gerações que o levarão para a frente.</p>
<p>Quando falamos de gerações, muitas vezes a geração mais velha conta as suas histórias de luta, mas isso pode fazer com que a geração mais nova se sinta alienada, por não ter histórias próprias para contar. Por isso, o papel do Presidente da República também é garantir que o Governo adote políticas adequadas que deem mais oportunidades e força aos jovens.</p>
<p><strong>Timor-Leste tem mostrado uma postura mais assertiva em relação a questões de soberania, como a disputa com a Indonésia sobre as fronteiras terrestres. Qual seria a sua abordagem em relação a essas disputas internacionais?</strong></p>
<p>Em disputas internacionais como estas, quando nos sentamos à mesa de negociações, partimos sempre do princípio de que somos amigos durante o processo negocial, mas cada equipa defende os interesses do seu próprio país. Este é o princípio básico da negociação.</p>
<p>Devemos compreender que a equipa de negociação da Indonésia não vai defender os interesses de Timor-Leste, assim como Timor-Leste também não vai defender os interesses da Indonésia. O mesmo acontece, por exemplo, com a Austrália: cada parte defende a sua própria posição. A razão e a força dos argumentos determinam quem tem razão e quem não tem.</p>
<p>Na relação com a Indonésia é exatamente o mesmo. Considero importante que Timor-Leste se mantenha firmemente ancorado no direito internacional que regula as questões de fronteiras. A Indonésia pode ser um país amigo, mas devemos basear-nos no direito internacional para resolver as disputas territoriais.</p>
<p>Apesar de Timor-Leste e a Indonésia terem dúvidas em relação às fronteiras devido ao passado colonial, quando potências coloniais definiram os limites entre os dois países, existe documentação, incluindo mapas completos das áreas em disputa. Esses mapas podem ser usados como referência em disputas internacionais e devem servir para determinar onde se situam as fronteiras corretas.</p>
<p>Penso que a nossa firmeza não deve ser confundida com arrogância, mas sim com a vontade de esclarecer quem tem razão e quem não tem. Essa mesma postura deve ser mantida também na relação com a Austrália. No final, mesmo quando recorremos à conciliação obrigatória, conseguimos delimitar a fronteira marítima no sul.</p>
<p>A nossa relação com a Austrália não se deteriorou, porque todo o processo foi conduzido com base no direito internacional.</p>
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<p style="text-align: center;"><span style="color: #ff9900;">“Também no setor jurídico e na formulação das leis, o Presidente da República promulga as leis e deve usar a sua posição para garantir que essas leis não sejam contrárias à Constituição, aos princípios constitucionais ou que prejudiquem o interesse nacional. Isso não pode acontecer”</span></p>
</blockquote>
<p><strong>Quais reformas acredita serem necessárias nas instituições do país para garantir maior estabilidade política e confiança do povo nas suas instituições?</strong></p>
<p>Penso que devemos falar de meritocracia, ou seja, uma pessoa deve assumir um cargo porque tem mérito próprio, porque acumulou capacidade e competência suficientes para desempenhar essa função.</p>
<p>Portanto, em termos de reforma institucional, o que deve acontecer é o abandono do sistema de patronagem política e a transição para o estabelecimento de uma função pública baseada no mérito e na competência técnica. As nomeações não devem ser baseadas em relações políticas. Isto é extremamente importante.</p>
<p>Também no setor jurídico e na formulação das leis, o Presidente da República promulga as leis e deve usar a sua posição para garantir que essas leis não sejam contrárias à Constituição, aos princípios constitucionais ou que prejudiquem o interesse nacional. Isso não pode acontecer.</p>
<p>O veto presidencial deve funcionar como um mecanismo de controlo de qualidade, garantindo que as leis promulgadas tenham consistência e estejam em conformidade com os princípios constitucionais e com o interesse nacional. Não devem contrariar esses princípios.</p>
<p>Por isso, a meritocracia deve ser a base das nomeações para cargos públicos. A política não deve dominar o processo de nomeação.</p>
<p>Quando se fala de confiança dos cidadãos nas instituições públicas, por exemplo, se os juízes não forem nomeados com base no mérito ou no seu percurso profissional, mas sim por critérios políticos, então não irão defender os cidadãos quando estes tiverem problemas com o Estado ou com grupos poderosos com grande influência dentro do Estado.</p>
<p>Outro exemplo é a Comissão Anticorrupção. Se a sua nomeação for baseada em considerações políticas, então não será capaz de combater a corrupção dentro do Governo ou das instituições públicas. Portanto, quando isso acontece, torna-se impossível falar de confiança dos cidadãos nas instituições do Estado.</p>
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<p style="text-align: center;"><span style="color: #ff9900;">“Se ainda houver pessoas que se sintam marginalizadas, seja pela sua história, pela sua orientação política ou pelas suas origens familiares, então não se pode falar de unidade nacional”</span></p>
</blockquote>
<p><strong>Muitos timorenses ainda sentem que o país está distante de um verdadeiro processo de reconciliação e justiça social. Quais são as medidas necessárias para promover a reconciliação em Timor-Leste?</strong></p>
<p>Uma das funções atribuídas ao Presidente da República é ser o símbolo da unidade nacional. Sendo o símbolo da unidade nacional, deve estar na linha da frente para garantir que o povo permaneça unido. Assim, todas as pessoas devem sentir que pertencem a uma sociedade timorense verdadeiramente integrada.</p>
<p>Se ainda houver pessoas que se sintam marginalizadas, seja pela sua história, pela sua orientação política ou pelas suas origens familiares, então não se pode falar de unidade nacional.</p>
<p>Deve continuar a promover-se a reconciliação nacional, não apenas externamente, mas também internamente. Muitas vezes, a reconciliação entre os próprios timorenses dentro do país é esquecida. Algumas pessoas ainda se acusam mutuamente, referindo que os pais ou familiares de alguém eram “autonomistas”. No entanto, ser autonomista foi uma escolha política e legalmente reconhecida na altura, através de um processo de consulta em que as pessoas tinham opções claras.</p>
<p>Esse fator não deve continuar a prejudicar a vida de outras pessoas em Timor-Leste, um país já independente. Para ultrapassar esta situação, o processo de reconciliação dentro das comunidades deve continuar entre os timorenses. Nesse sentido, o papel do Presidente da República como símbolo da unidade nacional é fundamental, e trata-se de um aspeto extremamente importante.</p>
<p><strong>A economia de Timor-Leste tem enfrentado dificuldades em termos de diversificação e criação de emprego. Quais são as suas propostas para estimular um crescimento económico sustentável?</strong></p>
<p>Como disse, é verdade que a diversificação da economia é, em grande medida, uma responsabilidade do Governo. O Presidente da República não é um órgão executivo; não formula políticas de desenvolvimento nem cria planos de desenvolvimento. No entanto, entendemos que, em países democráticos como Timor-Leste, todos procuram influenciar as políticas do Governo para que estas sejam melhores.</p>
<p>Tal como as ONG’s e a sociedade civil fazem lobby, o Presidente da República ocupa uma posição privilegiada para influenciar as políticas do Governo, de modo a que as estratégias de desenvolvimento sejam alinhadas com o interesse nacional e promovam o desenvolvimento económico, social e político do país.</p>
<p>Em relação à diversificação, esta também é uma função importante do Presidente. A nossa dependência do petróleo é demasiado forte e, se não diversificarmos, no futuro poderemos enfrentar grandes dificuldades. Por isso, penso que, neste momento, o setor agrícola, por exemplo, ainda tem uma contribuição muito pequena para o rendimento nacional. Considero importante aumentar a sua produtividade e valor.</p>
<p>Além disso, é essencial aumentar a qualificação dos jovens em várias áreas, para que possam ser motores da diversificação económica. Se os jovens, que têm potencial físico e mental, não forem formados, não poderão contribuir e, no fim, teremos de importar mão de obra de outros países.</p>
<p>Agora que Timor-Leste já faz parte de grupos regionais como a Associação das Nações do Sudeste Asiático (ASEAN), se os nossos cidadãos não estiverem qualificados, perderão competitividade dentro da organização regional. Por isso, penso que isto é algo muito importante a considerar, porque os jovens devem ser o motor da diversificação económica.</p>
<p><strong>A economia de Timor-Leste tem enfrentado dificuldades em termos de diversificação e geração de empregos. Quais são as suas propostas para estimular o crescimento económico sustentável?</strong></p>
<p>Dinamizar a agricultura, ou o setor agrícola. Hoje em dia fala-se muito em economia azul e turismo, mas estes setores ainda estão praticamente parados. Falamos de turismo, mas não há facilidades para o turismo. Muitas vezes, entre o discurso e a prática, e entre os objetivos e os planos, não há coerência.</p>
<p>Todos os planos devem ser desenhados para alcançar objetivos concretos. Dizemos que queremos aumentar as receitas não petrolíferas, mas a afetação do orçamento continua muito concentrada no setor petrolífero, enquanto o setor agrícola recebe muito pouco.</p>
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<p style="text-align: center;"><span style="color: #ff9900;">“Em vez de gastar dinheiro a enviar pessoas para tratamento no estrangeiro, devemos investir na formação do pessoal de saúde e no desenvolvimento das infraestruturas de saúde, para que Timor-Leste tenha capacidade de cuidar dos seus próprios cidadãos”</span></p>
</blockquote>
<p><strong>O que propõe para melhorar a infraestrutura e o acesso a serviços essenciais, como saúde e educação, em áreas mais remotas do país?</strong></p>
<p>Reconheço sempre que o Presidente não é um órgão executivo, mas pode influenciar políticas. Em áreas como educação e saúde, quando falamos da nova geração, falamos de tecnologia, e isso deve passar pela educação. Portanto, a educação deve ser o caminho para alcançar esse objetivo.</p>
<p>Quando falamos de capacidades dos jovens, responsabilidade e visão clara para o país, estamos a falar de educação. A educação deve estar alinhada com os interesses do país. A educação básica deve ser verdadeiramente a base de todo o sistema educativo. Não podemos ter uma educação básica fraca e esperar depois ter universitários excelentes. Isso não faz sentido. Para formar engenheiros e médicos fortes, é preciso uma base sólida que permita resolver os problemas da sociedade.</p>
<p>Na área da saúde também é a mesma coisa. A saúde, ao longo do tempo, não tem sido um lugar de solução, mas muitas vezes um lugar de problemas. O sistema de saúde é fraco e gastamos muito dinheiro a enviar pessoas para o estrangeiro. Levamos pessoas vivas e depois trazemos de volta os seus corpos. Depois de mais de vinte anos de restauração da independência, não conseguimos resolver isso?</p>
<p>A capacitação dos profissionais de saúde é extremamente importante. Em vez de gastar dinheiro a enviar pessoas para tratamento no estrangeiro, devemos investir na formação do pessoal de saúde e no desenvolvimento das infraestruturas de saúde, para que Timor-Leste tenha capacidade de cuidar dos seus próprios cidadãos.</p>
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<p style="text-align: center;"><span style="color: #ff9900;">“O futuro Presidente da República deve ter força moral para promover a proteção das crianças e das mulheres, sobretudo defendendo o princípio de tolerância zero à violência doméstica.”</span></p>
</blockquote>
<p><strong>Timor-Leste tem avançado em algumas questões de direitos humanos, mas ainda há muito a ser feito, especialmente em relação aos direitos das mulheres, LGBTQIA+ e das comunidades marginalizadas. Quais são as suas propostas para garantir uma maior proteção e promoção dos direitos desses grupos?</strong></p>
<p>Penso que o Presidente deve promover o respeito por todas as entidades e também combater a discriminação de qualquer tipo em Timor-Leste. Não pode haver grupos privilegiados e outros marginalizados apenas por causa de tendências políticas, sociais ou culturais. O futuro Presidente deve ser um campeão desta causa.</p>
<p>Outra função do Presidente é promover uma sociedade inclusiva. O Presidente deve ser um promotor da inclusão. O futuro Presidente da República deve ter força moral para promover a proteção das crianças e das mulheres, sobretudo defendendo o princípio de tolerância zero à violência doméstica.</p>
<p>Quando existe desrespeito contra um grupo ou uma pessoa, isso abre caminho para desacreditar outros grupos. Por isso, o Presidente deve ser um protetor das pessoas vulneráveis, garantindo que a sua integração na sociedade seja uma prioridade do Estado.</p>
<p><strong>Qual é a sua visão para Timor-Leste nos próximos 10 ou 20 anos? O que acredita que precisa ser feito hoje para garantir um futuro próspero, pacífico e justo para todos os timorenses?</strong></p>
<p>Nos próximos 20 anos, Timor-Leste deve tornar-se uma nação respeitada por outros países, uma sociedade unida, com coesão social, bem desenvolvida, moderna e autónoma. Apesar de todos os países serem interdependentes, Timor-Leste deve ser um país independente dentro dessa interdependência.</p>
<p>Devemos transformar a nossa sociedade de forma forte, eliminando conflitos internos e políticos, para podermos ganhar respeito internacional. Se conseguirmos fazer tudo isto, Timor-Leste poderá erguer-se com orgulho e tornar-se um país unido e respeitado em todo o mundo.</p>
<p><strong>Qual é a principal mensagem que gostaria de deixar aos timorenses, especialmente às gerações mais jovens que estão a começar a construir o futuro do país?</strong></p>
<p>A libertação da pátria é uma jornada que já foi percorrida. Um novo capítulo da vida do nosso país exige novos líderes que possam levar adiante a resiliência histórica e as aspirações modernas da nova geração. Como timorense, estou comprometido em promover isso.</p>
<p>O conteúdo <a href="https://www.diligenteonline.com/reconciliacao-estado-e-futuro-a-visao-de-joaquim-russo-da-fonseca-para-timor-leste/">Reconciliação, Estado e futuro: a visão de Joaquim ‘Russo’ da Fonseca para Timor-Leste</a> aparece primeiro em <a href="https://www.diligenteonline.com">DILIGENTE</a>.</p>
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		<title>Eufrásia Vieira: a embaixadora do Miss Planet que une cultura, sustentabilidade e inspiração</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Rilijanto Viana]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 01 Apr 2026 13:09:10 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Destaque]]></category>
		<category><![CDATA[Entrevista]]></category>
		<category><![CDATA[Pessoas]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Com coragem, talento e propósito, Eufrásia Vieira transformou o Miss Planet International numa plataforma para mostrar que Timor-Leste é pequeno em território, mas gigante em espírito. Eleita Miss Social Media e nomeada embaixadora do Miss Planet, a artista representou o [&#8230;]</p>
<p>O conteúdo <a href="https://www.diligenteonline.com/eufrasia-vieira-a-embaixadora-do-miss-planet-que-une-cultura-sustentabilidade-e-inspiracao/">Eufrásia Vieira: a embaixadora do Miss Planet que une cultura, sustentabilidade e inspiração</a> aparece primeiro em <a href="https://www.diligenteonline.com">DILIGENTE</a>.</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p><em>Com coragem, talento e propósito, Eufrásia Vieira transformou o Miss Planet International numa plataforma para mostrar que Timor-Leste é pequeno em território, mas gigante em espírito. Eleita Miss Social Media e nomeada embaixadora do Miss Planet, a artista representou o seu país e promoveu as suas tradições, a sustentabilidade e a força das mulheres timorenses.</em></p>
<p>Num mundo onde os concursos de beleza muitas vezes são vistos apenas pela aparência física, Eufrásia Vieira mostrou que é possível transformar um palco internacional numa plataforma de propósito, cultura e impacto social. Representando Timor-Leste no Miss Planet International, no Camboja, conquistou o título de Miss Social Media e foi nomeada embaixadora do Miss Planet, levando consigo não apenas a sua presença, mas também a história, os valores e as tradições do seu país.</p>
<p>Com uma trajetória marcada pelas artes, pelo empreendedorismo e pela defesa da sustentabilidade, Eufrásia enfrentou desafios de tempo, recursos e críticas pessoais, mantendo-se firme nos seus princípios e na missão de inspirar futuras gerações de timorenses. Cada escolha — desde o uso do Tais tradicional até à promoção de práticas sustentáveis ligadas aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) — transformou o concurso numa oportunidade de mostrar que Timor-Leste é pequeno em território, mas gigante em espírito e dignidade.</p>
<p>Nesta entrevista, Eufrásia partilha a experiência de competir no Miss Planet, as lições de resiliência, coragem e liderança feminina que aprendeu, e como representar o seu país é tanto uma responsabilidade como uma oportunidade de impacto real.</p>
<blockquote>
<p style="text-align: center;"><span style="color: #ff6600;">“Para promover Timor-Leste a nível internacional, senti que tinha de estar pronta. E, quando digo que estar pronta, refiro-me a assumir esse papel com responsabilidade, sem hesitações, procurando dar o meu melhor”</span></p>
</blockquote>
<p><strong>Como foi, para si, representar Timor-Leste no concurso Miss Planet, no Camboja? O que sentiu?</strong></p>
<p>Senti-me feliz por ter recebido um convite para participar no concurso Miss Planet, em representação do meu país. Foi também uma surpresa, uma vez que o convite surgiu com pouco tempo de preparação. Ainda assim, para promover Timor-Leste a nível internacional, senti que tinha de estar pronta. E, quando digo que estar pronta, refiro-me a assumir esse papel com responsabilidade, sem hesitações, procurando dar o meu melhor.</p>
<p>Esta experiência tão marcante não deve ficar apenas comigo. Espero que possa abrir caminhos para outros timorenses. Senti-me feliz por representar o meu país e o meu povo num palco internacional.</p>
<p>Não gosto muito da palavra “orgulho”, porque, enquanto timorenses, considero que é nossa responsabilidade contribuir positivamente para o nosso país e para o nosso povo. Para mim, trata-se mais de coragem e de alegria.</p>
<p>Esta foi uma primeira experiência, quase como um projeto piloto. No entanto, espero que não se fique por aqui e que possa abrir portas para que as próximas gerações também tenham a oportunidade de participar.</p>
<p>O que mais me motivou foi o apoio do povo timorense. Esse apoio deu-me força e alegria para me manter firme no palco internacional.</p>
<p><strong>Se recuar à sua infância, que sonhos tinha? Alguma vez imaginou que poderia vir a representar o seu país num palco internacional?</strong></p>
<p>A minha presença no contexto internacional não é recente. Já escrevi um livro, que lancei na Indonésia em 2015. Também participei num desfile de moda em Oxford, em 2008, que ainda hoje pode ser encontrado na internet. Além disso, a minha empresa, Eufrates, desenvolve também um trabalho com dimensão internacional.</p>
<p>No entanto, entrar no mundo dos concursos de beleza nunca foi um sonho. Se fosse, provavelmente não teria feito tatuagens no meu corpo, já que, anteriormente, isso não era permitido pelos critérios desses concursos. Atualmente, esses critérios mudaram — hoje, até mulheres casadas e com filhos podem participar.</p>
<p>O Miss Planet International distingue-se de outros concursos, pois não se foca apenas na aparência física, no rosto ou no estatuto social — vai além disso. Hoje em dia, até concursos como o Miss World começam a adotar uma visão mais inclusiva.</p>
<p>Por isso, nunca sonhei em ser “miss”, embora a minha ligação ao mundo internacional já venha de há muito tempo, noutras áreas. Antigamente, chegar ao panorama internacional não significava apenas ser bonita — havia muitas outras formas de contribuir, através do talento e de diferentes atividades.</p>
<p>Quando era criança, via o mundo da moda como algo superficial, reservado a pessoas “perfeitas” e bonitas, onde o caráter não era valorizado. Cheguei, inclusivamente, a considerá-lo um mundo um pouco vazio. Por essa razão, nunca tive o sonho de fazer parte dele.</p>
<p>Hoje, contudo, reconheço que esse mundo evoluiu. Os concursos de beleza já não se centram apenas na aparência, mas também em propósito, causas e impacto. Foi isso que me motivou a ocupar esse espaço.</p>
<p>Em criança, a minha mãe desejava que eu fosse médica, uma vez que tinha excelentes notas a Biologia. A minha família sempre nos incentivou a sermos os melhores na escola. Já o meu pai queria que eu fosse arquiteta, dado o meu bom desempenho a Matemática. Assim, os meus sonhos de infância estavam mais ligados à arquitetura ou às artes.</p>
<p><strong>Houve algum momento marcante durante o concurso que tenha mudado a forma como se vê a si própria ou o seu percurso?</strong></p>
<p>Houve vários momentos marcantes. O que mais me surpreendeu foi, sobretudo, o nível das participantes, quando comparado com o nosso contexto, bem como a sua contribuição e a visão que têm para o projeto Miss Planet. Trata-se de uma iniciativa muito abrangente, que reúne pessoas de diferentes países, trazendo consigo talento, beleza e muito mais.</p>
<p>Ainda assim, algo que me marcou profundamente foi a humildade dessas participantes. Apesar de serem muito bonitas e de representarem países maiores, demonstraram uma grande simplicidade. Quando perceberam que eu vinha de Timor-Leste, um país pequeno, mostraram, ainda assim, respeito. Isso fez-me sentir valorizada e reforçou a ideia de que uma timorense pode estar ao mesmo nível.</p>
<p>Sempre acreditei que Timor-Leste não se define pela sua dimensão, mas pelo seu espírito e pela sua dignidade. Um país grande, sem dignidade, não é nada. Timor-Leste pode ser pequeno, mas o povo timorense tem um espírito forte e uma grande dignidade.</p>
<p>No que diz respeito aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), Timor-Leste ensinou-me que não se trata apenas de salvar o planeta, mas também de proteger a natureza e as pessoas. Um país que lutou tanto pela sua independência e alcançou a vitória tem agora a responsabilidade de cuidar da sua terra, da sua cultura e do seu futuro.</p>
<p>Timor-Leste demonstra ao mundo que a resiliência e a luta, acompanhadas de esperança, podem conduzir à vitória. Nada foi fácil. Apesar de ser um país pequeno e de ter vivido conflitos no passado, Timor-Leste escolheu o caminho do perdão e da paz. Esse é um exemplo importante para muitas nações que ainda hoje vivem em conflito e enfrentam dificuldades em encontrar um caminho para a paz.</p>
<p><strong>Que desafios enfrentou ao longo desta experiência — não só no concurso, mas também no percurso até lá — e o que aprendeu com eles?</strong></p>
<p>Desde a minha infância, a minha história esteve sempre ligada à expressão artística. O mundo do entretenimento não é algo novo para mim, pois, desde muito cedo, estive envolvida na área das artes. Com cerca de 9 ou 10 anos, subi ao palco pela primeira vez, e essa experiência nunca me foi estranha.</p>
<p>Na altura, limitava-me a aproveitar e a desfrutar do momento, sem grandes expectativas quanto ao futuro. No entanto, sempre procurei ganhar experiência para, mais tarde, poder regressar e partilhá-la com os meus colegas e com a minha comunidade. Desde cedo, segui o princípio de viver cada experiência plenamente, retirando aprendizagens que pudessem, no futuro, servir para inspirar e apoiar os outros.</p>
<p>Ao longo do tempo, participei em várias atividades associadas ao título de “Queen”. Para mim, isso representava mais do que um concurso de beleza — era uma oportunidade de apoiar outras jovens e ajudá-las a desenvolver o seu potencial, tal como eu própria fui aprendendo com a minha experiência. Durante esse percurso, tive também a oportunidade de conhecer diferentes culturas e de aprender com pessoas de diversas origens.</p>
<p>Por exemplo, durante cerca de dez anos, trabalhei de perto com uma amiga na Indonésia. Juntas, colaborámos em várias iniciativas e projetos comunitários, tendo igualmente a oportunidade de visitar países como o Camboja. Quando recebi o convite para participar neste evento, essa amiga teve um papel importante na minha preparação, orientando-me sobre como agir e o que esperar.</p>
<p>Durante esse período, trabalhei lado a lado com a equipa da Indonésia que já apoiava a minha empresa, Eufrates. Como conheciam o meu trabalho, não foi necessário explicar ou introduzir processos. Apesar de ter tido apenas duas semanas para me preparar, conseguimos organizar tudo de forma eficiente.</p>
<p>Esta experiência permitiu-me aprofundar conhecimentos sobre a cultura local, reforçar a importância do trabalho em equipa e compreender melhor o que significa representar Timor-Leste num contexto internacional.</p>
<p>Acima de tudo, aprendi o valor da união e da colaboração. O contacto com pessoas de diferentes países e a forma como valorizam e preservam as suas culturas foi extremamente enriquecedor, em particular no que diz respeito ao Camboja e ao seu povo.</p>
<p style="text-align: center;"><span style="color: #ff6600;">“Preparo-me de forma contínua, porque cuidar da mente e da imagem não é algo pontual, mas sim um compromisso diário.”</span></p>
<p><strong>Como foi o seu processo de preparação, não apenas a nível físico, mas também emocional e financeiro? Houve momentos de dúvida ou de maior fragilidade?</strong></p>
<p>Sou uma pessoa que, desde sempre, cuida da sua condição física e da sua saúde mental. Mesmo tendo filhos, procuro manter-me preparada. Não sou daquelas pessoas que ficam em casa sem fazer nada e só se preparam quando surge um evento. Preparo-me de forma contínua, porque cuidar da mente e da imagem não é algo pontual, mas sim um compromisso diário. Para viver bem, com saúde e felicidade, é essencial cuidar de nós próprios, praticar exercício físico e manter hábitos saudáveis.</p>
<p>No entanto, o tempo de preparação foi muito limitado — apenas duas semanas. Nesse período, tive de procurar os figurinos e, simultaneamente, aprofundar conhecimentos sobre os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), definidos pelas Nações Unidas para o período de 2015 a 2030. Foi necessário dividir-me entre a componente prática e a teórica, o que constituiu um verdadeiro desafio. Não havia espaço para hesitações — foquei-me exclusivamente no que tinha de fazer. O maior obstáculo foi, sem dúvida, o tempo.</p>
<p>Relativamente aos Tais, estive em Timor-Leste apenas dois dias para os adquirir. Desloquei-me ao mercado de Tais, em Colmera, comprei os tecidos e regressei à Indonésia, onde, em apenas uma semana, com o apoio de colegas, conseguimos preparar cerca de trinta peças de vestuário, tendo em conta que havia dias com até três eventos. Felizmente, tudo correu bem e consegui alcançar as fases a que me propunha.</p>
<p>Recordo também um momento em Inglaterra, onde tinha planeado passar um mês com a minha filha e tratar de alguns assuntos profissionais. Foi então que recebi um contacto do diretor nacional das Filipinas, que considerava importante a presença de Timor-Leste, sobretudo no contexto da sua integração na ASEAN.</p>
<p>Posteriormente, entraram em contacto com o antigo embaixador Hermenegildo Cupa Lopes, que já tinha representado Timor-Leste no Camboja, e foi ele quem me ligou a perguntar se estaria interessada em participar no Miss Planet. Numa fase inicial, pensei que se tratasse de uma brincadeira e não levei o convite a sério.</p>
<p>Mais tarde, fui novamente contactada a partir das Filipinas, mas expliquei que seria impossível participar, tendo em conta o curto prazo — faltavam apenas três semanas para o evento. Referi também a minha idade e o meu estado civil. No entanto, esclareceram-me que já não existia limite de idade, uma vez que o concurso segue os princípios dos ODS, incluindo a igualdade de género, valorizando igualmente a experiência.</p>
<p>Cheguei a realizar uma entrevista, mas ainda não tinha aceitado o convite, sobretudo porque a minha filha precisava de mim. Continuei a recusar, também devido ao elevado custo envolvido, que, em tão pouco tempo, dificultava a obtenção de patrocinadores. Além disso, tinha responsabilidades profissionais, com um negócio em funcionamento em Timor-Leste e na Indonésia.</p>
<p>Foi então que o meu marido me disse: “O dinheiro conseguimos resolver, o mais importante é contribuíres.” Essas palavras deram-me força. Acabei por aceitar, com o apoio total da minha família, dos meus colegas e de todas as pessoas que acreditam em mim. Disseram-me que eu não estava apenas a representar-me a mim própria, mas também a minha família, o meu país e todos aqueles que, por vezes, duvidam — para mostrar que também somos capazes.</p>
<p>No final, confirmei que estava preparada, apesar de dispor de apenas duas semanas para preparar tudo. Não tive grande apoio institucional, pelo que contei essencialmente com o apoio da minha família, em particular do meu marido, que financiou praticamente toda a participação.</p>
<p><strong>De que forma procurou levar a cultura e as tradições de Timor-Leste ao palco internacional? O que era mais importante para si mostrar ao mundo?</strong></p>
<p>Quando participamos num evento ou programa, é fundamental compreender o propósito daquilo que estamos a apresentar. No contexto dos concursos de beleza, como o Beauty Vision, não se trata apenas da aparência física, mas também de dar a conhecer as nossas experiências, os nossos valores e a nossa contribuição para os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS).</p>
<p>Por isso, tudo o que apresentei em palco foi pensado para refletir os ODS. Cada detalhe da minha participação — desde o vestuário aos acessórios — tinha um significado. Mais do que mostrar a minha cultura, procurei evidenciar a forma como esta se relaciona com a sustentabilidade e o impacto social.</p>
<p>Por exemplo, os tecidos tradicionais de Timor-Leste que apresentei são feitos à mão, simbolizando a criatividade e a destreza do nosso povo. Além disso, este processo contribui para a redução da poluição, por não depender de tecnologia industrial. O trabalho artesanal cria também oportunidades de emprego, ajudando muitas famílias a sustentar os seus filhos e a melhorar as suas condições de vida.</p>
<p>A ideia é demonstrar que o nosso talento e as nossas tradições não são apenas expressões culturais, mas também formas concretas de contribuir para a economia local e para um planeta mais sustentável. Assim, ao utilizar artesanato e produtos feitos à mão, não estou apenas a representar Timor-Leste, mas também a promover práticas responsáveis que beneficiam a comunidade e o ambiente.</p>
<p>Ao apresentar a nossa cultura, não mostramos apenas algo esteticamente apelativo, mas também a nossa visão, criatividade e compromisso com o futuro. Isso contribui para a criação de rendimento, para a valorização das tradições e para inspirar outras jovens a participarem de forma consciente e com impacto.</p>
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<p style="text-align: center;"><span style="color: #ff6600;">“Pequenas ações, como deitar o lixo no local correto, podem contribuir para a proteção do ambiente. Tudo começa em casa. É fundamental educarmo-nos para evitar poluir. O vidro pode partir-se, mas o plástico permanece durante muito tempo</span>”</p>
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<p><strong>O concurso valoriza causas sociais e ambientais. De onde vem essa sua ligação a essas causas? Há alguma história pessoal que a tenha influenciado nesse sentido?</strong></p>
<p>Aquilo que partilho nas redes sociais, como trabalhos artísticos, promoção de marcas ou produtos, faz parte da minha atividade enquanto designer e artista. No entanto, a minha ligação à natureza vem desde a infância. Por isso, no meu discurso, procuro sempre refletir sobre o passado, o presente e o futuro.</p>
<p>Em criança, quem me procurasse sabia que, muito provavelmente, me encontraria no mar. Sempre fui uma pessoa profundamente ligada à natureza e continuo a gostar de viajar para promover destinos turísticos de Timor-Leste, como Doko Mali, Bokolelo e Ataúro, entre outros.</p>
<p>Acredito que proteger o ambiente e o planeta é uma responsabilidade de todos. O facto de ser artista não me isenta desse dever. Pequenos gestos do dia a dia, como colocar o lixo no local adequado, fazem a diferença, ainda que muitas vezes não nos apercebamos do seu impacto.</p>
<p>Desde pequena que também tenho uma forte ligação aos animais. Sempre que via alguém matar um animal, ficava profundamente triste. Brincava muito no mar, pescava e explorava a zona costeira. As pessoas que viviam perto de mim sabiam dessa ligação à natureza — chegaram mesmo a dar-me a alcunha de “Kika Comandante”, por liderar os meus amigos nas brincadeiras, tanto no mar como nas montanhas.</p>
<p>Hoje, noto que o mar já não é como antes — há muito mais lixo. Quando era criança, não se verificavam fenómenos como as inundações com a frequência atual. Muitas vezes, estas situações resultam de comportamentos irresponsáveis, como o descarte inadequado de resíduos.</p>
<p>Pequenas ações, como deitar o lixo no local correto, podem contribuir para a proteção do ambiente. Tudo começa em casa. É fundamental educarmo-nos para evitar poluir. O vidro pode partir-se, mas o plástico permanece durante muito tempo. Quando chega ao mar, acaba por se fragmentar em partículas que são ingeridas pelos peixes — e, posteriormente, por nós.</p>
<p>Por vezes, quando não temos um título ou uma posição de destaque, a defesa destas causas é desvalorizada e interpretada como uma forma de chamar a atenção. Por isso, muitas das ações que desenvolvo são feitas de forma discreta. Acredito que ajudar os outros deve ser um gesto genuíno e não necessariamente visível.</p>
<p>Desde cedo procurei envolver-me nestas causas, não apenas a nível teórico, mas através de ações concretas. Tenho trabalhado na criação de oportunidades para jovens, promovendo formações em áreas como culinária, barista ou artes ligadas ao cinema. Estas iniciativas estão alinhadas com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), que abrangem questões como a redução da pobreza, o combate à fome, as alterações climáticas e o desenvolvimento de infraestruturas.</p>
<p>O meu foco principal continua a ser o mar. Em criança, a minha família chamava-me “filha de Ataúro”, porque passava grande parte do tempo na água. Tinha uma ligação muito forte ao mar — gostava tanto de nadar que, muitas vezes, a minha mãe tinha de insistir para que eu regressasse a casa.</p>
<p>Timor-Leste possui recursos marinhos ricos e abundantes. Por isso, procuro sensibilizar e encorajar os jovens a proteger o mar, não apenas como um recurso, mas como uma responsabilidade. Proteger o mar é também proteger o futuro das próximas gerações. Não podemos esgotar tudo no presente e deixar nada para o futuro.</p>
<p>Se, no futuro, os ODS vierem a ser ampliados, sugeriria a inclusão de um novo objetivo: a “Harmonia Azul”. O mar não deve ser visto apenas como uma fonte de recursos, mas como algo que precisamos de preservar. É uma das principais fontes de oxigénio para a vida humana. As florestas são fundamentais, mas o oceano é igualmente essencial.</p>
<p><strong>Durante a sua participação surgiram rumores e acusações pessoais, nomeadamente a expressão “filha da milícia”. Como viveu esse momento e de que forma isso a afetou, enquanto mulher e enquanto timorense?</strong></p>
<p>Não sou responsável por atos que não cometi, mesmo que estejam associados à minha família, ou por acontecimentos que ocorreram numa altura em que eu ainda nem tinha nascido. Assumo apenas a responsabilidade pelas minhas próprias ações. Aquilo que não depende de mim não tenho de assumir. Se essas alegações são verdadeiras ou não, não sei — cada pessoa deve responder pelos seus próprios atos. Quanto ao facto de as pessoas falarem disso, não é algo que me preocupe.</p>
<p>Aceito críticas quando são construtivas e me ajudam a melhorar. No entanto, críticas carregadas de ódio não merecem o meu tempo, porque partem de pessoas movidas por esse sentimento. Compreendo que o povo timorense é sensível e que todos têm direito a expressar opiniões, mas quando essas críticas são feitas com base no ódio ou na vingança, não lhes dou atenção. Essa expressão só me afetaria se tivesse, de facto, cometido algo dessa natureza.</p>
<p>Sendo sincera, quando começaram a surgir esses comentários, eu nem tinha conhecimento. Estava totalmente focada no concurso, cujo ritmo era muito exigente. Tínhamos atividades diárias, por vezes até três eventos por dia, regressando apenas ao final da noite e retomando os preparativos no dia seguinte. Dediquei-me por completo, tanto a nível físico como mental, e, por isso, não acompanhava o que era dito nas redes sociais.</p>
<p>Mais tarde, quando tomei conhecimento, questionei-me sobre a intenção de quem faz esse tipo de comentários. Há críticas que surgem com o objetivo de ajudar a melhorar, mas outras procuram apenas visibilidade ou atenção. Em relação a essas, sinto apenas alguma pena. Para mim, o mais importante é conhecer-me a mim própria. Venho de uma família que me transmitiu valores de ética e moral. Sou católica e aprendi a não julgar, a não guardar rancor e a não prejudicar os outros. Quem julga dessa forma acaba, muitas vezes, por contrariar os princípios que diz defender.</p>
<p>Apesar dessas críticas, recebi também muito apoio da minha família e de muitos timorenses, o que me permitiu manter o foco. Enquanto surgiam comentários nas redes sociais, eu encontrava-me sozinha a representar Timor-Leste naquele palco.</p>
<p>Durante o concurso, usei biquíni, embora a organização do Miss Planet tenha um contexto cultural muçulmano, onde cheguei a ser apelidada de “old mommy”. Observei outras participantes com trajes mais ousados, mas procurei sempre manter a minha identidade. Entendi que não estava ali para atuar, mas para representar Timor-Leste e os seus valores.</p>
<p>Mantive-me fiel aos meus princípios, à minha dignidade e ao meu sentido de identidade. Na fase preliminar, que é particularmente importante, disse a mim própria que optaria por trajes mais recatados e que o resultado dependeria do meu desempenho. Caso avançasse, estaria preparada para outras exigências. Acabei por alcançar um bom resultado, integrando o top 20.</p>
<p>Nessa fase, a própria organização disponibilizou trajes mais cobertos, incluindo um que utilizei. Sempre acreditei que a beleza não depende da exposição do corpo. No entanto, ao chegar ao top 20, tive de usar biquíni, conforme as regras do evento.</p>
<p>Desde criança que enfrento situações de bullying. Alguns dos meus irmãos estiveram envolvidos na resistência, tendo inclusivamente enfrentado perseguições e prisão. Eu era ainda muito nova e não tinha qualquer envolvimento nesses acontecimentos, mas, atualmente, algumas dessas questões acabam por ser direcionadas para mim.</p>
<p>Tenho consciência de que, ao tornar-me uma figura pública, estarei sempre sujeita a opiniões divergentes. Haverá pessoas que me apoiam e outras que não, e aprendi a lidar com essa realidade.</p>
<p><strong>Houve algum momento em que pensou em desistir? O que a fez continuar?</strong></p>
<p>Como já disse, não há espaço para drama. Quando estou naquele lugar, tenho de me focar e cumprir o meu papel, independentemente das dificuldades. Por exemplo, se demoramos muito tempo a subir uma montanha, não faz sentido descer novamente por causa de um pequeno obstáculo. É assim que encaro cada desafio: com foco e determinação.</p>
<p><strong>Em que momento se sentiu mais orgulhosa da sua identidade e das suas raízes?</strong></p>
<p>Sinto esse orgulho constantemente. É algo que se reflete em todas as minhas ações e contribuições para o país. Até no meu livro utilizei o Tais timorense, e em eventos televisivos também o visto. Digo sempre: sou timorense, o meu sangue é timorense, e nunca neguei as minhas raízes.</p>
<p><strong>Para além do lado mais visível do concurso, como foram os bastidores? Há alguma história inesperada ou mais leve que gostasse de partilhar?</strong></p>
<p>Houve muitos dramas nos bastidores. A disciplina era extrema, quase como num serviço militar. Estivéssemos prontas ou não, quando o carro chegava, tínhamos de sair imediatamente. Durante as viagens, éramos constantemente acompanhadas pela polícia.</p>
<p>Algumas colegas ficavam muito nervosas — tremiam nas entrevistas e sentiam uma enorme pressão. Outras tinham dificuldade em comunicar, muitas vezes por barreiras linguísticas. Algumas choravam porque o tempo estava a esgotar-se e ainda não estavam prontas, por exemplo com o cabelo. Em vários momentos ajudei colegas a arranjarem-se rapidamente, e elas agradeceram-me imenso.</p>
<p>No início, partilhei quarto com a Miss Island, que tinha apenas 19 anos. Ao apresentarmo-nos, ela pensou que eu também era jovem. Quando lhe perguntei a idade, respondeu 19, e eu brinquei dizendo que podia ser a mãe dela. Ficou bastante surpresa. Muitas pessoas ficaram admiradas ao perceber que, apesar de já ter filhos, continuo com coragem e determinação.</p>
<p>Não estou apenas a representar-me a mim própria, mas também outras mulheres que querem realizar os seus sonhos e acreditam que já não é possível. Existem muitas mães solteiras ou mulheres com parceiros que hesitam em seguir as suas carreiras. A minha presença no concurso mostrou que é possível, independentemente da idade. Tenho 40 anos e consigo; elas também podem. A carreira não depende da idade — nunca é tarde para alcançar os nossos objetivos.</p>
<p>Uma frase que pratico na minha vida é: quem pensa que já sabe tudo e não quer aprender mais, ainda não tem verdadeira experiência de vida. Pessoas maduras, com experiência e espírito rico, são aquelas que aprendem todos os dias.</p>
<p><strong>Conhece alguém, participante ou não, que a tenha inspirado particularmente? Porquê?</strong></p>
<p>A presidente e fundadora do Miss Planet International foi uma grande inspiração para mim. Conheci-a há pouco tempo, mas tenho enorme respeito e admiração por ela.</p>
<p>É uma mulher, mãe solteira, que conseguiu levar um evento desta dimensão para o Camboja — algo que não é nada fácil. É forte, inteligente e muito dedicada. Tenho grande admiração por ela porque organizar um evento internacional com participantes de tantos países exige um esforço enorme.</p>
<p>Ela inspirou-me e motivou-me pelo seu exemplo de humildade: nunca procura protagonismo, trabalha muito e mantém-se discreta. Durante o evento, eram os patrocinadores que apareciam em destaque, não ela.</p>
<p>Sinto que partilhamos energias semelhantes, porque também não gosto de me exibir demasiado em público. Espero poder convidá-la a visitar Timor-Leste, pois demonstrou interesse em conhecer o país.</p>
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<p style="text-align: center;"><span style="color: #ff6600;">“Esta experiência é igualmente importante para o turismo: levar Timor-Leste ao mundo é essencial, mas também podemos trazer o mundo até Timor-Leste, incentivando pessoas a visitar, investir e contribuir para a economia do país”</span></p>
</blockquote>
<p><strong>Que impacto teve esta experiência na forma como vê o seu futuro, tanto a nível pessoal como profissional?</strong>As experiências que adquiri não quero que fiquem apenas comigo. Pretendo levá-las adiante sempre que possível. Por isso, recentemente reuni-me com o designer timorense Jaston Pereira para analisar alguns projetos. Escolhi trabalhar com ele porque, embora não seja embaixadora do Miss Timor-Leste, sou embaixadora do Miss Planet International e quero dar oportunidades aos talentos timorenses. Fiquei muito contente por ter sido escolhida, mesmo com a minha idade, para representar esta organização.</p>
<p>Como embaixadora, sou a “cara” do Miss Planet, participando em reuniões com diplomatas para promover o turismo, não só de Timor-Leste, mas também do Camboja. Para os próximos eventos, as ideias e propostas são partilhadas comigo, enquanto a equipa trabalha nos bastidores.</p>
<p>Acredito que a minha participação neste concurso teve um impacto significativo para Timor-Leste. A nível pessoal e profissional, graças a Deus, tenho uma família que sempre me apoiou. Agora que os meus filhos já cresceram, posso voltar a concentrar-me no mundo do entretenimento.</p>
<p>A minha presença no Miss Planet abre caminho para que outros timorenses participem no futuro. Se eu, já com mais idade, consegui participar, todos podem. Esta experiência é igualmente importante para o turismo: levar Timor-Leste ao mundo é essencial, mas também podemos trazer o mundo até Timor-Leste, incentivando pessoas a visitar, investir e contribuir para a economia do país.</p>
<p><strong>Que mensagem gostaria de deixar às jovens timorenses (ou a outras jovens) que sonham com estas oportunidades, mas sentem que o caminho é difícil ou distante?</strong></p>
<p>Digo sempre às minhas filhas, irmãs e amigas que todas nós já nascemos princesas, cada uma bonita à sua maneira. Mas tornar-se uma rainha não é fácil. Uma princesa é admirada pela sua aparência, pelos vestidos e sapatos bonitos, e recebe elogios.</p>
<p>Mas quando falamos de uma “rainha”, não nos referimos apenas à perfeição; falamos também das imperfeições e da capacidade de desenvolver e superar as nossas fraquezas.</p>
<p>Ser uma “rainha” exige coragem, determinação e persistência. É preciso não ter medo de correr riscos, não desistir e lutar pelos próprios sonhos. Por isso, quero dizer às jovens que não vivam de</p>
<p>O conteúdo <a href="https://www.diligenteonline.com/eufrasia-vieira-a-embaixadora-do-miss-planet-que-une-cultura-sustentabilidade-e-inspiracao/">Eufrásia Vieira: a embaixadora do Miss Planet que une cultura, sustentabilidade e inspiração</a> aparece primeiro em <a href="https://www.diligenteonline.com">DILIGENTE</a>.</p>
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