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	<title>Notícias - DILIGENTE</title>
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	<title>Notícias - DILIGENTE</title>
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		<title>Em Timor-Leste, o voto muda o poder. Mas quem fiscaliza o poder depois das eleições?</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Lourdes do Rego]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 07 Oct 2026 13:03:10 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Destaque]]></category>
		<category><![CDATA[Notícias]]></category>
		<category><![CDATA[Política]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Desde 2017, o voto mudou governos em Timor-Leste e protestos fizeram recuar o Parlamento. Mas, entre eleições e mobilizações, organizações e jornalistas continuam a enfrentar dificuldades para obter informação e respostas. A escolha dos juízes e as intervenções políticas na [&#8230;]</p>
<p>O conteúdo <a href="https://www.diligenteonline.com/em-timor-leste-o-voto-muda-o-poder-mas-quem-fiscaliza-o-poder-depois-das-eleicoes/">Em Timor-Leste, o voto muda o poder. Mas quem fiscaliza o poder depois das eleições?</a> aparece primeiro em <a href="https://www.diligenteonline.com">DILIGENTE</a>.</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p><em>Desde 2017, o voto mudou governos em Timor-Leste e protestos fizeram recuar o Parlamento. Mas, entre eleições e mobilizações, organizações e jornalistas continuam a enfrentar dificuldades para obter informação e respostas. A escolha dos juízes e as intervenções políticas na justiça geram controvérsia, enquanto os mais jovens procuram espaço em decisões ainda dominadas por lideranças históricas. Uma retrospetiva sobre as conquistas da democracia timorense e os obstáculos à fiscalização, à prestação de contas e à renovação do poder.</em></p>
<p>Eram quatro exigências. Os estudantes universitários levaram-nas ao Parlamento Nacional em setembro de 2025. Duas tiveram uma resposta relativamente rápida: os deputados cancelaram a compra das viaturas Prado que lhes eram destinadas e, dias depois, o Parlamento aprovou a revogação das pensões vitalícias.</p>
<p>Sobre o seguimento das outras duas, Natalício Nunes, porta-voz da Associação de Estudantes Universitários de Timor-Leste (EUTL), diz não ter informação. “Ainda não temos informação sobre o seguimento das reivindicações relacionadas com a alocação do Orçamento Geral do Estado para o setor produtivo e com a lei das manifestações.”</p>
<p>A mobilização mostra que, em Timor-Leste, a participação política não termina no momento do voto: também passa pela capacidade de os cidadãos exigirem respostas e acompanharem as decisões do poder.</p>
<p>“A democracia não significa apenas eleições. A democracia significa também dizer aquilo que estamos a enfrentar”, afirma.</p>
<p>A 16 de setembro, o Parlamento aprovou por unanimidade o cancelamento da aquisição das viaturas, ainda antes de existir um acordo formal. No dia seguinte, as bancadas parlamentares e a EUTL assinaram um entendimento que incluía, além das pensões, compromissos sobre a legislação das manifestações e as prioridades orçamentais. A 29 de setembro, foi promulgada a lei que eliminou as pensões vitalícias.</p>
<p>Natalício relaciona a abertura dos deputados com as dificuldades económicas da população e com as mobilizações que aconteciam noutros países. Mas entende que receber os estudantes não devia ter sido uma concessão: “Na realidade, eles tinham de nos receber porque representam o povo.”</p>
<p><strong>Mudar de governo é possível. Governar sem bloqueios, nem sempre</strong></p>
<p>Desde 2017, o voto tem feito a sua parte. Nesse ano, dois partidos novos entraram no Parlamento, o Partido de Libertação Popular (PLP) e o Kmanek Haburas Unidade Nasional Timor Oan (KHUNTO), e conquistaram juntos 13 lugares. A Freedom House relacionou essa abertura e a transferência de poder com a passagem de Timor-Leste de “parcialmente livre” a “livre” <a href="https://freedomhouse.org/country/timor-leste/freedom-world/2018">na edição de 2018 do seu relatório</a>.</p>
<p>Essa mudança não impediu os bloqueios. O Governo minoritário saído das legislativas de 2017 não conseguiu obter aprovação parlamentar para o seu programa de Governo e para o orçamento suplementar de 2017 e, em janeiro de 2018, o Presidente Francisco Guterres dissolveu o Parlamento. O Fundo Monetário Internacional (FMI) concluiu, num <a href="https://www.elibrary.imf.org/view/journals/002/2019/124/article-A001-en.xml">relatório de 2019</a>, que a incerteza política prejudicou a atividade económica em 2017 e durante grande parte de 2018.</p>
<p>Dois anos depois, o problema repetiu-se. Em janeiro de 2020, o Congresso Nacional da Reconstrução Timorense (CNRT), que fazia parte da aliança governativa, absteve-se na votação do orçamento, que acabaria por ser rejeitado. O primeiro-ministro Taur Matan Ruak declarou que a coligação já não existia.</p>
<p>Mesmo assim, os eleitores continuaram a decidir quem governa. Em 2022, José Ramos-Horta derrotou Francisco Guterres nas presidenciais. Em 2023, o CNRT conquistou 31 dos 65 lugares e formou maioria com os seis deputados do Partido Democrático (PD), o que devolveu a chefia do Governo a Xanana Gusmão. A participação chegou aos 79,28%.</p>
<p>Os resultados eleitorais mostram que existe alternância no poder. Para as organizações ouvidas pelo Diligente, porém, trocar quem ocupa os cargos não resolve o problema de saber o que eles decidem — nem garante, por si só, que as decisões sejam transparentes e possam ser fiscalizadas.</p>
<p><strong>Os documentos existem. Encontrá-los é outra história</strong></p>
<p>“Nós próprios temos dificuldades em aceder à informação, quanto mais a população em geral.” Quem o diz é Marta da Silva, investigadora da La’o Hamutuk, uma organização que acompanha as contas públicas desde a independência. A organização reconhece progressos na transparência em 2023 e 2024. Ainda assim, segundo Marta, as alterações ao website do Ministério das Finanças tornaram alguns documentos mais difíceis de encontrar. A informação sobre a execução dos programas também não chega para acompanhar o que cada ministério faz de facto.</p>
<p>“Cada ministério deve atualizar as suas atividades de acordo com o orçamento que submeteu através do seu plano anual para que possamos acompanhar como está a ser implementado cada programa.”</p>
<p>O problema não é recente. Em 2018, a Freedom House já apontava obstáculos nos pedidos de informação e pouca transparência na contratação pública e atribuía dois pontos em quatro ao indicador de abertura e transparência governativa. <a href="https://freedomhouse.org/country/timor-leste/freedom-world/2018">Na edição de 2026</a>, a pontuação mantém-se em dois pontos em quatro.</p>
<p>Para Marta, onde a opacidade mais pesa é nos contratos ligados aos recursos minerais e petrolíferos, que a organização muitas vezes não consegue obter.</p>
<p>Com base nas informações apresentadas pela La’o Hamutuk numa carta aberta datada de 12 de junho de 2024, registaram-se alguns progressos na transparência orçamental em 2023, embora ainda considerados insuficientes. Um dos exemplos é a publicação, pelo Governo de Timor-Leste, da Pre-Budget Statement para o OGE 2023 e do Mid-Year Report relativo ao OGE 2022, disponibilizados online e dentro do prazo.</p>
<p>No entanto, a La’o Hamutuk considerou que as informações disponíveis continuavam a não ser suficientemente detalhadas e completas. Alguns documentos importantes, como o Year-End Report, o Mid-Year Review, o Citizens’ Budget e a Executive Budget Proposal, ainda não estavam disponíveis com um nível de informação considerado adequado. No Open Budget Survey 2023, Timor-Leste obteve 37 pontos em 100 na componente de transparência orçamental.</p>
<p>A pergunta que Marta deixa vai além da despesa: “Se um projeto já gastou 100 ou 200 milhões, mas não produziu resultados no terreno, podemos dizer que houve execução?”</p>
<p><strong>Perguntar ao ministro não basta</strong></p>
<p>O Programa de Monitorização do Sistema Judicial (JSMP, em inglês) acompanha também o trabalho do Parlamento. A diretora, Ana Paula Marçal, reconhece que os deputados levam ao plenário problemas reais dos cidadãos e que existem instrumentos formais para fiscalizar o Governo. “Quando o Parlamento vai ao terreno para fiscalizar e identifica alguma coisa, pode levar a questão ao plenário e colocá-la ao ministro responsável.”</p>
<p>Considera, porém, que alguns debates acabam desviados para disputas pessoais e partidárias. E fazer a pergunta é apenas o primeiro passo: falta saber que resposta chega e o que muda depois dela. Entre esses instrumentos estão perguntas ao Governo, requerimentos e pedidos de informação; o problema, para as organizações ouvidas pelo Diligente, está também em acompanhar o que acontece depois.</p>
<p>José Luís Oliveira, da Asia Justice and Rights (AJAR), cuja análise nesta reportagem incide sobre o funcionamento do Parlamento e dos partidos, é mais duro. “O Parlamento Nacional já não funciona como um órgão legislativo que faz política em nome do povo, mas, muitas vezes, em nome do particular e partido.”</p>
<p>Na sua avaliação, o poder tende a concentrar-se num grupo restrito. Defende mudanças no sistema eleitoral e na organização dos partidos, a começar pelo fim das listas fechadas, que dão às direções partidárias a última palavra sobre quem é candidato.</p>
<p><strong>Os limites do poder, decididos em tribunal</strong></p>
<p>Ana Paula Marçal, da JSMP, vê avanços no funcionamento da justiça, embora a organização continue a identificar limitações relacionadas com recursos humanos, instalações e infraestruturas. Sobre a atuação dos magistrados, afirma:</p>
<p>“Há muitos magistrados que trabalham de forma profissional e cumprem o papel que a lei e os estatutos lhes atribuem, procurando tomar decisões equilibradas.”</p>
<p>A preocupação da JSMP está, entre outros pontos, na forma como os juízes são nomeados e recrutados. “Queremos que os processos sejam realizados com cuidado, rigor e transparência.”</p>
<p>O recrutamento para o Supremo Tribunal de Justiça materializa essas preocupações. <a href="https://www.diligenteonline.com/supremo-tribunal-de-justica-mais-de-quatro-anos-de-atrasos-e-disputas-na-escolha-dos-juizes/">Como o Diligente documentou</a>, o prazo inicial de instalação, que terminava em dezembro de 2023, foi prolongado e depois eliminado.</p>
<p>O concurso avançou entre críticas a possíveis conflitos de interesses e uma disputa sobre quem podia admitir candidatos: o Conselho Superior da Magistratura Judicial decidiu readmitir Alexandre Corte-Real, excluído pelo júri internacional, e a candidata Bárbara Oliveira contestou essa decisão em tribunal. A comissão de recrutamento defendeu a legalidade do modelo e a independência do júri.</p>
<p>Outro caso põe essa preocupação à prova. A 29 de abril de 2025, Afonso Carmona tomou posse como presidente do Tribunal de Recurso, depois de uma alteração à Lei da Organização Judiciária. O Governo defendeu a constitucionalidade do procedimento.</p>
<p>Três meses depois, a 31 de julho, um coletivo de juízes do próprio Tribunal de Recurso <a href="https://www.diligenteonline.com/justica-declara-inconstitucional-alteracao-da-lei-que-permitiu-nomear-presidente-do-tribunal-de-recurso/">declarou inconstitucional a norma</a> que tinha permitido a nomeação. O Tribunal entendeu que o presidente deveria ser escolhido entre os seus juízes, aplicando a regra constitucional do Supremo Tribunal de Justiça, cujas competências exerce transitoriamente. Carmona vinha da primeira instância.</p>
<p>Apesar da declaração de inconstitucionalidade da norma que permitiu a sua nomeação, Afonso Carmona continuava, em outubro de 2026, a exercer o cargo de presidente do Tribunal de Recurso.</p>
<p>A reportagem tentou obter uma reação das entidades diretamente envolvidas, incluindo o Ministério da Justiça, mas não conseguiu obter uma resposta até ao fecho.</p>
<p><strong>Quando a autoridade política confronta os tribunais</strong></p>
<p>As tensões entre a autoridade política e as decisões judiciais não se limitam ao caso Carmona. Ao longo dos últimos anos, Xanana Gusmão contestou publicamente decisões dos tribunais e interveio em defesa das pessoas afetadas, tanto no Governo como na oposição.</p>
<p>Em janeiro de 2017, uma carta aberta de Xanana em defesa das ex-ministras Emília Pires e Lúcia Lobato, condenadas pelo Tribunal de Díli, suscitou críticas da JSMP. Na carta, o então ministro do Planeamento e Investimento Estratégico criticava o sistema judicial. A organização considerou essa atuação uma forma de interferência política na justiça.</p>
<p>Em 30 de janeiro de 2023, ainda como líder da oposição, Xanana deslocou-se a Becuse Kraik, em Becora, Díli, durante a execução de uma ordem judicial de despejo de sete famílias. Sentou-se junto de uma das casas, voltou a levar pertences para o interior e disse estar contra a decisão do tribunal. Os oficiais de justiça abandonaram o local nessa tarde, conforme noticiado pela Lusa.</p>
<p>Em abril de 2026, já como primeiro-ministro, voltou a intervir num conflito de terras, desta vez em Bebonuk, Díli. Deslocou-se ao terreno em disputa, manifestou apoio à família de Lourdes Menezes e questionou decisões judiciais. Xanana defendeu que pretendia chamar a atenção para o caso e garantir o respeito pela lei, rejeitando atuar em defesa pessoal da família.</p>
<p>O jurista Armindo Moniz considerou que a intervenção em Bebonuk podia configurar uma interferência do Executivo na justiça. O investigador Luís Sampaio alertou para o risco de os cidadãos passarem a depender da intervenção de figuras políticas para resolver conflitos, enfraquecendo a confiança nos tribunais.</p>
<p><strong>Informar sob escrutínio</strong></p>
<p>Para fiscalizar o poder, os jornalistas precisam de três condições: conseguir informação, acompanhar a atividade oficial e publicar sem interferências. Em Timor-Leste, as três já foram postas à prova.</p>
<p>Em junho de 2017, Raimundos Oki e Lourenço Martins, do jornal Timor Post, foram absolvidos de denúncia caluniosa num processo ligado a uma notícia sobre contratação pública que envolvia Rui Maria de Araújo. O jornal tinha publicado uma correção e o direito de resposta. A Federação Internacional de Jornalistas chamou à decisão <a href="https://www.ifj.org/es/sala-de-prensa/noticias/detalle/article/victory-for-press-freedom-timor-journalists-spared-from-jail">uma vitória para a liberdade de imprensa</a>.</p>
<p>Em 2024, dois episódios expuseram outras formas de pressão. Jornalistas do Diligente, do Independente e do Neon Metin foram impedidos de acompanhar um diálogo entre Xanana Gusmão e moradores de Naktuka, segundo a <a href="https://pfmsea.org/independente-newspaper-diligente-online-no-neon-metininfos-journalists-were-banned-covering-news">plataforma regional de monitorização da liberdade de imprensa</a>.</p>
<p>A 23 de abril de 2024, o secretário de Estado para a Comunicação Social, Expedito Dias Ximenes, foi à redação da RTTL e exigiu a retirada de uma informação sobre Xanana Gusmão não ter cumprimentado membros do Governo no aeroporto, ao regressar de uma viagem. Em agosto, o Conselho de Imprensa confirmou a intervenção e considerou que violava o artigo 40.º da Constituição. O governante reconheceu ter intervindo, mas afirmou que o fizera “para corrigir, e não para interferir”.</p>
<p>Constâncio Vieira, vice-presidente da Associação dos Jornalistas de Timor-Leste (AJTL), resume a regra. “O jornalista procura notícias e controla o poder, sem procurar inimigos ou amigos entre os governantes.”</p>
<p>Aponta também as dificuldades: respostas que não chegam às investigações, pressão nas redes sociais e condições laborais que fragilizam a independência. Na sua avaliação, a liberdade de publicar precisa de condições para ser exercida.</p>
<p>Constâncio Vieira explicou que o segredo de justiça pode criar dificuldades para os jornalistas que procuram informações sobre investigações em curso, sobretudo quando as autoridades não divulgam publicamente detalhes sobre os resultados das investigações.</p>
<p>Como exemplo, referiu o caso dos centros de fraude (scam centres). “Por exemplo, no caso dos scam centres, muitos jornalistas tiveram dificuldades em obter informações claras sobre os resultados da investigação. Quem são os autores e quem facilitou a entrada em Timor-Leste? As autoridades judiciais e a polícia colocaram essas informações sob segredo de justiça.”</p>
<p>Constâncio salientou, contudo, que o segredo de justiça não deve ser entendido como uma forma de impedir completamente o acesso do público à informação. “É importante compreender que o segredo de justiça não significa fechar toda a informação ao público.”</p>
<p><strong>Os mais jovens entram, mas quem decide?</strong></p>
<p>Nélson Belo, diretor executivo da Fundasaun Mahein, identifica uma mudança de geração nos ministérios: “Nos ministérios e entre os técnicos já existe uma geração mais nova em número significativo, mas esta geração ainda não está envolvida nas decisões de topo.”</p>
<p>Para Nélson, a longevidade das figuras históricas explica-se pelo capital histórico dessas lideranças e pela relação emocional que muitas pessoas continuam a ter com a sua história.</p>
<p>Nélson aponta também para a influência que figuras políticas de grande peso podem exercer antes das eleições. “Há decisões reais que já se tornaram referências públicas. Antes das eleições, todos já sabem quem vai ganhar quando um grande líder levanta a mão para uma determinada pessoa e diz que ela vai ganhar. Isso significa que uma decisão como essa não é verdadeiramente democrática.”</p>
<p>Essa influência, diz, também se manifesta dentro dos próprios partidos e no Parlamento. “Outro exemplo são os jovens líderes no Parlamento ou noutros espaços. Muitas vezes não participam em reuniões através dos mecanismos previstos nos partidos políticos, mas limitam-se a seguir as orientações dos líderes partidários, que são figuras da antiga geração.”</p>
<p>Também Juvêncio Correia, de 33 anos e membro da APFTL, defende maior investimento nas novas gerações. “Os partidos políticos precisam de investir nos seus jovens, através de formação e bolsas de estudo e abrindo espaços para que os jovens possam participar nos processos de tomada de decisão.”</p>
<p><strong>E quando a pressão abranda?</strong></p>
<p>O deputado Joaquim dos Santos “Boraluli”, da FRETILIN, lembra que existe um caminho formal para levar problemas ao Parlamento. “Uma petição apresentada ao Parlamento não é para ser colocada numa gaveta.” Questionado sobre o acordo com os estudantes, remeteu a resposta para a Presidência do Parlamento.</p>
<p>Sobre as prioridades orçamentais, o vice-ministro para os Assuntos Parlamentares, Adérito Hugo da Costa, referiu o OGE 2027, entregue ao Parlamento a 1 de outubro e ainda em debate. “A alocação do orçamento para o setor da justiça é uma questão que deve levar os estudantes a lerem os detalhes dos programas orçamentais apresentados todos os anos. Para 2027, a proposta de orçamento já foi apresentada ao Parlamento e aguarda o debate.”</p>
<p>A proposta tem como orientação central a diversificação económica, com maior utilização das infraestruturas já construídas para aumentar a produção, sobretudo no setor agrícola.</p>
<p>Sobre o segundo compromisso assumido com os estudantes, relativo à Lei da Liberdade de Reunião e Manifestação, Adérito Hugo da Costa explicou que a alteração da legislação ainda não foi concluída. Enquanto a lei atualmente em vigor não for modificada, continua a ser essa a legislação aplicável.</p>
<p>“Quanto à Lei da Liberdade de Reunião e Manifestação, existe um regime que está atualmente em vigor. Se queremos transformar as regras previstas na lei, temos de alterar a própria lei.”</p>
<p>A democracia timorense permite disputar o poder. O desafio seguinte é garantir que quem o exerce presta contas, responde às perguntas dos cidadãos e das instituições e cria espaço para que outros possam participar nas decisões.</p>
<p>&nbsp;</p>
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		<title>Quando a eletricidade falha em Díli, os negócios pagam a conta</title>
		<link>https://www.diligenteonline.com/quando-a-eletricidade-falha-em-dili-os-negocios-pagam-a-conta/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Lourdes do Rego]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 02 Oct 2026 12:48:43 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Destaque]]></category>
		<category><![CDATA[Notícias]]></category>
		<category><![CDATA[Sociedade]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Combustível para geradores, interrupções no trabalho e alimentos estragados pesam sobre supermercados, restaurantes e pequenos comerciantes. A TANE Consumidor diz ter reunido quase 200 queixas sobre cortes de eletricidade, danos em equipamentos e outros prejuízos, enquanto a EDTL aponta obras [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p><em>Combustível para geradores, interrupções no trabalho e alimentos estragados pesam sobre supermercados, restaurantes e pequenos comerciantes. A TANE Consumidor diz ter reunido quase 200 queixas sobre cortes de eletricidade, danos em equipamentos e outros prejuízos, enquanto a EDTL aponta obras e avarias como causas das interrupções.</em></p>
<p>Cada vez que falta a eletricidade, o Centro Fresco Mart, em Díli, tem de ligar o gerador e, por mês, os custos com o abastecimento podem chegar a mais de 300 dólares americanos. O equipamento permite manter o supermercado aberto, mas não tem capacidade para alimentar todos os aparelhos. Noutros negócios, sem gerador, um corte pode obrigar a parar o trabalho e deixar produtos sem refrigeração.</p>
<p>Segundo o gerente do Centro Fresco Mart, Rhesa Benyamin Kaonang, as interrupções podem ocorrer até duas vezes por semana, normalmente ao fim de semana, e durar entre duas e três horas. Em geral, afirma, não há aviso prévio: quando a eletricidade falha, a equipa liga o gerador.</p>
<p>“Sempre que há um corte de energia elétrica, gastamos cerca de 40 dólares em combustível. Cada vez que falta a eletricidade, compramos combustível no valor de 40 dólares para encher o gerador”, explicou.</p>
<p>Esta despesa soma-se a uma conta de eletricidade de cerca de 3.000 dólares por mês e à manutenção semestral do gerador, que custa aproximadamente 150 dólares, incluindo óleo e outros serviços.</p>
<p>Para Rhesa, porém, o problema mais grave são as variações de tensão, nomeadamente as descidas que, segundo relata, antecedem algumas interrupções. O gerente associa estas variações a problemas em aparelhos de ar condicionado, congeladores e vitrinas refrigeradas.</p>
<p>“Desde 2021, já substituímos quatro unidades de ar condicionado. Quanto aos congeladores, já trocámos dois compressores”, afirmou.</p>
<p>Quando um equipamento avaria, os trabalhadores transferem os produtos para outros que estejam a funcionar. Segundo Rhesa, até agora não houve perdas significativas de produtos devido aos cortes de eletricidade. Ainda assim, a manutenção e a reparação dos equipamentos representam despesas adicionais para o negócio.</p>
<p>O gerador não impede, contudo, todas as interrupções no trabalho. Ana Leonora Gonçalves, funcionária do supermercado, explica que alguns equipamentos precisam de ser desligados porque não há capacidade para manter todos os sistemas ativos ao mesmo tempo.</p>
<p>“Quando ocorre um corte de energia, há alterações no funcionamento do trabalho. Enquanto administradora, quando o computador não funciona, tenho de interromper o meu trabalho”, afirmou.</p>
<p>Nessas situações, Ana deixa as tarefas administrativas para verificar o que se passa dentro do estabelecimento.</p>
<p><strong>Sem gerador, o trabalho para</strong></p>
<p>Lillyana Sani, que vende bebidas, não tem uma alternativa ao fornecimento da rede. Relata dois cortes no último mês, com duração de uma a duas horas. Sem eletricidade, deixa de poder utilizar o frigorífico e o liquidificador, essenciais para o negócio.</p>
<p>“Quando falta a eletricidade, temos de parar o nosso negócio, porque não temos gerador e ficamos sem eletricidade. Os equipamentos que mais utilizamos são o frigorífico e o liquidificador”, disse.</p>
<p>Também Jordão Barbosa, proprietário de um pequeno quiosque, não tem gerador. Não mantém um registo exato das interrupções, mas afirma que podem durar entre duas e três horas. Sem acesso a informações sobre os cortes, diz que alguns produtos são diretamente afetados.</p>
<p>Entre eles está o feijão-mungo cozido que vende e conserva no frigorífico. Quando a interrupção se prolonga e o produto deixa de estar suficientemente refrigerado, o comerciante pode ter de suspender a venda.</p>
<p>“O feijão-mungo que vendemos foi todo afetado, mas não me lembro de quanto foi o prejuízo. Isso acontece porque o feijão-mungo tem de ser conservado no frigorífico”, afirmou.</p>
<p>No restaurante Linivon, a proprietária Evonia da Silva Chung relata quatro cortes num mês, com duração entre duas e quatro horas. Um ocorreu durante a noite. O estabelecimento passou a utilizar um pequeno gerador, mas a sua capacidade também não permite alimentar todos os aparelhos.</p>
<p>“Já aconteceu o nosso gerador falhar durante algum tempo. Nesse caso, ficámos apenas à espera que a eletricidade voltasse para podermos continuar o nosso trabalho”, contou.</p>
<p>Evonia diz que o restaurante já teve de deitar fora alimentos que se estragaram durante as interrupções.</p>
<p>“Quando os alimentos se estragam, temos de os deitar fora. Isso já aconteceu por causa dos cortes de eletricidade e, no fim, somos nós que ficamos com o prejuízo”, afirmou.</p>
<p>A proprietária relata ainda problemas em aparelhos de ar condicionado, frigoríficos e lâmpadas.</p>
<p>O restaurante paga entre 350 e 400 dólares por mês em eletricidade. Quando precisa de utilizar o gerador, Evonia diz gastar cerca de dez dólares em combustível, uma despesa que descreve como ocasional. Apesar das perdas, diz não aumentar os preços dos alimentos quando há cortes.</p>
<p>Acompanha os avisos publicados pela EDTL no Facebook, mas ainda não apresentou uma queixa formal à empresa.</p>
<p><strong>Quase 200 queixas e uma pergunta: quem paga os danos?</strong></p>
<p>A TANE Consumidor afirma receber numerosas reclamações sobre falhas no fornecimento de eletricidade, sobretudo informalmente, através do Facebook e de mensagens.</p>
<p>Segundo o presidente da organização, Robin Araújo, um levantamento realizado em Díli reuniu quase 200 queixas relacionadas com problemas no fornecimento de eletricidade.</p>
<p>As queixas estão relacionadas principalmente com cortes de eletricidade. Em alguns casos, os consumidores relatam interrupções sem qualquer aviso prévio. Noutros, embora a EDTL informe antecipadamente sobre a interrupção, o corte acaba por prolongar-se para além do período inicialmente anunciado.</p>
<p>A TANE Consumidor recebeu também queixas relacionadas com danos em equipamentos e outros bens dos consumidores, alegadamente causados pelas interrupções no fornecimento de eletricidade.</p>
<p>Robin defende que a empresa deve avisar os consumidores com maior antecedência e indicar com maior precisão o horário previsto para as interrupções, permitindo que famílias e negócios se preparem e reduzam possíveis prejuízos.</p>
<p>“A EDTL precisa de melhorar e deve fornecer informações corretas e com antecedência, para que os consumidores se possam preparar para os cortes e para que estes ocorram, sempre que possível, durante as horas de menor consumo”, afirmou.</p>
<p>Para a TANE, a divulgação pelo Facebook deixa de fora parte dos clientes. Robin aponta as dificuldades de idosos, pessoas que não sabem ler e consumidores sem acesso à internet.</p>
<p>Além da melhoria dos mecanismos de informação, a TANE Consumidor considera que as queixas existentes podem constituir um dos mecanismos para solicitar à EDTL uma compensação pelos prejuízos sofridos pelos consumidores.</p>
<p>Robin Araújo considera que a questão é particularmente relevante por se tratar de uma empresa pública que obtém receitas através dos pagamentos mensais efetuados pelos consumidores pela eletricidade.</p>
<p>“Quem é o responsável? Os consumidores compram eletricidade e a EDTL obtém benefícios com o consumo desses clientes. Quando os bens dos consumidores ficam danificados, quem assume a responsabilidade? Neste caso, a vítima é o consumidor”, afirmou.</p>
<p>Caso a EDTL não atribua uma compensação ou não resolva a situação, a TANE Consumidor poderá encaminhar os casos para o Ministério Público. Para avançar nesse sentido, no entanto, a organização afirma ainda precisar de receber queixas adicionais, acompanhadas das respetivas provas ou evidências dos prejuízos sofridos.</p>
<p>A organização diz desenvolver ações de sensibilização sobre direitos dos consumidores e apresentação de queixas em Díli, Baucau e Ermera, com a intenção de alargar o trabalho a outros municípios.</p>
<p>Aos comerciantes, Robin recomenda que formalizem as reclamações e apresentem fotografias, faturas, comprovativos de reparação e outras provas que permitam demonstrar os prejuízos sofridos. Estes elementos poderão ser utilizados pela TANE na análise dos casos e num eventual pedido de compensação à EDTL.</p>
<p>“Os comerciantes que tiverem alguma reclamação podem dirigir-se às nossas instalações para apresentar a sua queixa enquanto consumidores, preencher o formulário e entregar fotografias dos produtos”, disse.</p>
<p><strong>EDTL aponta obras e avarias</strong></p>
<p>O presidente da EDTL, Paulo da Silva, explica que as interrupções podem resultar de trabalhos de melhoria das linhas elétricas ou de incidentes inesperados.</p>
<p>“Normalmente isso acontece devido à necessidade de melhorar as nossas linhas ou por causa de incidentes, como fios partidos, entre outros”, afirmou.</p>
<p>Sobre os avisos, diz que a empresa utiliza a sua página no Facebook por ser o meio de que dispõe para comunicar com o público.</p>
<p>“O único meio que temos é através da página do Facebook, porque temos de informar todos os clientes imediatamente e ainda não temos um meio para informar cada um individualmente”, explicou.</p>
<p>Paulo da Silva sublinhou que, até ao momento, a EDTL não recebeu queixas de comerciantes relacionadas com esta questão.</p>
<p><strong>Qualidade do fornecimento é uma obrigação legal</strong></p>
<p>Os cortes e os prejuízos relatados pelos comerciantes levantam uma questão que a legislação já contempla: a qualidade do fornecimento. Desde 2003, as Bases do Sistema Nacional de Eletricidade reconhecem o direito a um serviço que cumpra os requisitos legais e regulamentares. O diploma prevê um regulamento para estabelecer padrões relativos às alterações de tensão e à disponibilidade do serviço, além de mecanismos para atender às queixas dos consumidores.</p>
<p>A EDTL tem o dever legal de assegurar a qualidade e a continuidade do fornecimento. Os seus estatutos atribuem também à Comissão Executiva a responsabilidade de implementar um sistema eficaz de atendimento ao público.</p>
<p>A proteção dos consumidores cabe igualmente aos serviços de regulação do Ministério das Obras Públicas, que tutela a empresa. A Autoridade Nacional para a Eletricidade, criada em 2020, foi extinta em 2023, e os seus direitos e obrigações passaram para uma direção-geral do ministério. A estrutura publicada em abril de 2026 atribui à Direção Nacional para a Regulação da Eletricidade a defesa dos interesses dos consumidores quanto à qualidade do fornecimento e às tarifas, bem como a informação pública sobre a monitorização do serviço.</p>
<p>Quanto aos prejuízos, a Lei de Proteção ao Consumidor, de 2016, prevê indemnização por danos causados por serviços defeituosos. Mas define consumidor como quem recebe bens ou serviços para uso não profissional. Supermercados, restaurantes ou quiosques podem, por isso, não estar abrangidos por este regime.</p>
<p>Entretanto, quem protege os empresários? Os comerciantes entrevistados relatam consequências concretas: comprar combustível, interromper tarefas ou deitar alimentos fora. No quiosque de Jordão, o valor da perda ficou por contar. No Centro Fresco Mart, abastecer o gerador custa cerca de 40 dólares de cada vez. A eletricidade regressa; a despesa fica a cargo de quem tenta manter o negócio a funcionar.</p>
<p>O conteúdo <a href="https://www.diligenteonline.com/quando-a-eletricidade-falha-em-dili-os-negocios-pagam-a-conta/">Quando a eletricidade falha em Díli, os negócios pagam a conta</a> aparece primeiro em <a href="https://www.diligenteonline.com">DILIGENTE</a>.</p>
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		<title>Timor-Leste aumenta as doações, mas famílias continuam a mobilizar dadores</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Rilijanto Viana]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 01 Oct 2026 12:07:05 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Destaque]]></category>
		<category><![CDATA[Notícias]]></category>
		<category><![CDATA[Saúde]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Apesar do aumento das doações e das transfusões no Hospital Nacional Guido Valadares (HNGV), muitas famílias continuam a ser chamadas a procurar dadores quando um doente necessita de sangue. A Cruz Vermelha, o Banco de Sangue e a Organização Mundial [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p><em>Apesar do aumento das doações e das transfusões no Hospital Nacional Guido Valadares (HNGV), muitas famílias continuam a ser chamadas a procurar dadores quando um doente necessita de sangue. A Cruz Vermelha, o Banco de Sangue e a Organização Mundial da Saúde defendem o reforço da doação voluntária e regular para garantir reservas suficientes e reduzir a dependência das famílias em situações de emergência.</em></p>
<p>Para muitas famílias de doentes internados no HNGV, em Díli, encontrar sangue para uma transfusão continua a ser uma corrida contra o tempo. Quando o stock disponível não é suficiente, os familiares são frequentemente chamados a procurar pessoas saudáveis que possam doar sangue e ajudar a repor as unidades utilizadas pelo hospital.</p>
<p>Embora existam pessoas dispostas a ajudar, a procura pode tornar-se mais difícil quando é necessário um determinado grupo sanguíneo ou quando a transfusão é urgente.</p>
<p><strong>Famílias enfrentam dificuldades para encontrar sangue </strong></p>
<p>Edgar Afonso Freitas, de Baucau, viveu recentemente essa situação. A irmã mais nova está internada há cerca de uma semana no HNGV devido a uma anemia e necessita de sangue do tipo A+.</p>
<p>Quando a família procurou o Banco de Sangue para saber se havia disponibilidade, foi informada de que familiares ou outras pessoas saudáveis poderiam fazer uma doação para ajudar a repor o stock utilizado pelo hospital.</p>
<p>Como os familiares disponíveis tinham grupos sanguíneos diferentes, foram orientados a fazer doações para reposição, permitindo que a unidade de A+ disponível fosse utilizada pela doente.</p>
<p>“Encontrar sangue é sempre uma dificuldade para nós quando o paciente precisa. Quando os médicos dizem que é urgente, é muito difícil encontrar rapidamente pessoas que possam vir fazer uma doação”, relatou Edgar.</p>
<p>A irmã foi inicialmente levada para o Hospital Vera Cruz, depois de adoecer no domingo da semana anterior, e posteriormente transferida para o HNGV, onde permanece internada.</p>
<p>Segundo Edgar, o Banco de Sangue já disponibilizou uma unidade, mas a irmã voltou a necessitar de sangue. A família teve, por isso, de procurar novamente pessoas dispostas a doar.</p>
<p>Desta vez, a família conseguiu encontrar rapidamente quatro dadores. “Ligámos para os familiares e eles vieram imediatamente. Hoje, quatro pessoas vieram e conseguiram fazer a doação de sangue”, contou.</p>
<p>Para Edgar, a experiência demonstra a necessidade de aumentar o número de dadores regulares no país. O jovem considera que instituições públicas, incluindo a Polícia e as Forças de Defesa, poderiam participar em campanhas periódicas.</p>
<p>“Talvez, se fosse possível organizar doações de sangue de seis em seis meses, seria possível ajudar a manter o stock de sangue e evitar que este se esgotasse”, sugeriu.</p>
<p>Rofina de Jesus Nascimento, de Aileu, enfrentou uma situação semelhante. A diferença foi que, neste caso, vários familiares tinham o mesmo grupo sanguíneo. O sobrinho sofreu um acidente de mota e foi internado no Hospital Vera Cruz. Posteriormente, foi transferido para o HNGV, onde os médicos verificaram que necessitava de uma transfusão.</p>
<p>O doente tem sangue do tipo O+. Como vários familiares pertencem ao mesmo grupo sanguíneo, a família conseguiu responder rapidamente ao pedido. “Todos os membros da nossa família têm sangue O+, por isso os familiares puderam vir diretamente fazer doações”, explicou Rofina.</p>
<p>Segundo os médicos, o sobrinho precisava inicialmente de duas unidades. Um familiar fez uma doação no dia anterior e outro levou a filha para fazer uma segunda doação.</p>
<p>Neste caso, Rofina não precisou de recorrer às redes sociais para procurar dadores. “Não tivemos a mesma dificuldade que outras famílias que precisam de fazer pedidos no Facebook, porque o meu irmão, a minha irmã e os filhos têm sangue O+”, afirmou.</p>
<p>A experiência levou, contudo, a família a reforçar a importância da doação para além das situações de emergência. Rofina diz que ela própria e outros familiares também costumam doar sangue para outros doentes.</p>
<p>“Não podemos ficar apenas doar porque o paciente é nosso familiar. Quando vemos que outra pessoa precisa de ajuda, também devemos oferecer sangue”, defendeu.</p>
<p>O sobrinho continuava a ser acompanhado pelos médicos. Depois de sair da Unidade de Cuidados Intensivos, foi transferido para uma enfermaria.</p>
<p>Jacinta Marques, de Baucau, também recorda uma experiência difícil na procura de sangue para uma familiar.</p>
<p>Segundo Jacinta, a cunhada sofreu um aborto em 2025 e perdeu uma quantidade significativa de sangue. Como tinha sangue A+, a família foi orientada pelos médicos a procurar pessoas que pudessem fazer uma doação.</p>
<p>Jacinta procurou ajuda junto da Cruz Vermelha e da Polícia Marítima, em Lecidere, mas não conseguiu encontrar um dador disponível.</p>
<p>“Disseram-me para deixar o meu número de telefone e que, caso encontrassem alguma pessoa que voluntariamente quisesse fazer uma doação, entrariam em contacto comigo. Mas esperei dois dias e não obtive nenhuma resposta”, contou.</p>
<p>Quando se dirigiu ao Banco de Sangue, recebeu outra informação: não havia stock de A+ disponível. “Como não havia sangue no banco de sangue e também não consegui ajuda de outras pessoas, não sabia o que fazer pela minha cunhada”, relatou.</p>
<p>Apesar das dificuldades, a doente acabou por recuperar e recebeu alta. Atualmente, segundo Jacinta, encontra-se bem de saúde.</p>
<p>Constantino de Assunção, de Baucau, foi um dos familiares que participou numa doação para ajudar uma paciente que precisava de sangue A+ no HNGV.</p>
<p>Segundo Constantino, embora o hospital tivesse alguma quantidade disponível, a família foi solicitada a contribuir para a reposição do stock. “A minha prima precisava de quatro unidades de sangue, por isso quatro familiares vieram fazer doações para repor o stock do hospital”, explicou.</p>
<p>Esta foi a segunda vez que Constantino doou sangue. A primeira ocorreu de forma voluntária, através da Cruz Vermelha. “Não faço doações apenas quando é um familiar meu. Quando há algum paciente que precisa de sangue, também ofereço o meu sangue”, disse.</p>
<p>Para o dador, a população deve encarar a doação como uma forma de solidariedade e não apenas como uma resposta às necessidades de familiares. “Não devemos ter medo de doar sangue, porque o nosso sangue pode salvar a vida de outra pessoa”, afirmou.</p>
<p><strong>Cruz Vermelha mobiliza dadores, mas reconhece necessidade de reforçar participação</strong></p>
<p>A Cruz Vermelha de Timor-Leste (CVTL) considera que as dificuldades enfrentadas por algumas famílias estão relacionadas, em parte, com o reduzido número de pessoas que doam sangue de forma voluntária e regular.</p>
<p>Segundo o secretário-geral da organização, Agapito da Silva, uma das principais funções da CVTL é mobilizar dadores voluntários. A recolha, análise, armazenamento e distribuição do sangue são, por sua vez, responsabilidades técnicas do Banco de Sangue do HNGV.</p>
<p>A atuação da Cruz Vermelha está enquadrada no Decreto-Lei n.º 6/2005, que reconhece a organização como a única organização humanitária nacional e como auxiliar das autoridades públicas. O Plano Estratégico 2025-2029 da CVTL prevê igualmente ações destinadas a reforçar a mobilização de dadores voluntários.</p>
<p>A organização mantém uma base de dados de voluntários identificados pelos respetivos grupos sanguíneos, incluindo O+, A+, B+ e AB. Quando surge uma necessidade urgente, a Cruz Vermelha contacta os dadores registados e, caso estejam disponíveis e cumpram as condições necessárias, encaminha-os para o Banco de Sangue.</p>
<p>“Tecnicamente, retirar o sangue, testar o sangue no laboratório e determinar se pode ou não ser utilizado é competência do Banco de Sangue”, esclareceu Agapito.</p>
<p>A CVTL realiza campanhas de sensibilização em coordenação com o HNGV. Segundo o secretário-geral, são promovidas cerca de dez ações por ano, muitas delas em parceria com o Banco de Sangue.</p>
<p>A organização apoia também instituições que pretendam organizar campanhas de doação durante celebrações ou aniversários. Nestas atividades, o Banco de Sangue realiza a recolha e a CVTL apoia o registo e a mobilização dos voluntários.</p>
<p>No ano passado, cerca de seis mil pessoas participaram em ações de sensibilização ou campanhas relacionadas com a doação de sangue, segundo dados apresentados pela organização. Destas, aproximadamente duas mil chegaram a doar sangue. Este ano, até ao momento, a CVTL conseguiu mobilizar cerca de 300 pessoas para fazer doações.</p>
<p>Para Agapito, os números mostram a necessidade de ampliar a base de dadores, sobretudo entre aqueles que estão disponíveis para doar regularmente.</p>
<p>Nem todos os dadores registados, porém, estão disponíveis quando surge uma necessidade urgente. Alguns podem estar a viajar, noutro local ou não reunir, naquele momento, as condições necessárias para doar.</p>
<p>“Às vezes, as famílias dos pacientes vêm pedir sangue com urgência à Cruz Vermelha. Nós temos de telefonar aos doadores registados. Alguns conseguem ajudar, mas outros dizem que beberam na noite anterior, estão a viajar ou estão noutro local. Nesses casos, não podemos permitir que doem sangue”, relatou.</p>
<p>Para a organização, a mudança passa por fazer da doação uma prática regular, e não apenas uma resposta quando um familiar está internado.</p>
<p><strong>Banco de Sangue regista aumento das doações e das transfusões</strong></p>
<p>O Banco de Sangue do HNGV mantém atualmente 77 unidades de sangue em stock: 15 do tipo A, 22 do tipo B, 13 do tipo AB e 27 do tipo O.</p>
<p>Segundo Alexandrino Mendonça, chefe do Departamento do Banco de Sangue do HNGV, apesar do stock disponível, a recolha de sangue é mantida diariamente para substituir as unidades utilizadas nas transfusões.</p>
<p>“O stock sai, mas a doação continua. É preciso continuar a recolher sangue para substituir aquilo que foi utilizado e garantir as transfusões nas diferentes salas do Hospital Nacional Guido Valadares”, afirmou.</p>
<p>Existem diferentes formas de doação, incluindo a doação voluntária individual, as campanhas realizadas em instituições públicas e privadas e a doação de familiares de doentes internados.</p>
<p>Nas campanhas institucionais, equipas do Banco de Sangue deslocam-se a escolas, universidades e outras instituições quando estas solicitam atividades de recolha.</p>
<p>Uma parte significativa das doações continua, contudo, a ser feita por familiares de doentes que necessitam de transfusões.</p>
<p>“A doação voluntária é muito importante. Quando uma pessoa sofre um acidente ou uma mulher perde muito sangue durante o parto, não podemos esperar que a família apareça para procurar sangue. Precisamos de ter sangue armazenado para responder imediatamente às situações de emergência”, explicou Mendonça.</p>
<p>Os dados do Banco de Sangue mostram um aumento das doações nos últimos anos. Em 2024, foram registadas 5.660 doações: 1.421 do tipo A, 1.397 do tipo B, 352 do tipo AB e 2.480 do tipo O.</p>
<p>Em 2025, o número aumentou para 7.204 doações, das quais 1.841 do tipo A, 1.639 do tipo B, 367 do tipo AB e 3.357 do tipo O.</p>
<p>Até ao segundo trimestre de 2026, foram registadas cerca de 4.800 doações de sangue. Entre os diferentes grupos sanguíneos, o AB foi o que registou menos doações, com cerca de 300.</p>
<p>As transfusões também aumentaram. Em 2024, o Banco de Sangue realizou 7.928 transfusões para doentes do HNGV e de hospitais de referência, incluindo os hospitais de referência de Baucau e Maubisse.</p>
<p>Em 2025, foram realizadas 8.831 transfusões. Durante os primeiros seis meses de 2026, o número já chegava a 5.938.</p>
<p>Para Alexandrino Mendonça, a evolução demonstra a necessidade de manter uma doação regular e contínua. “As transfusões de sangue aumentam todos os anos. Por isso, devemos continuar e fazer doações para podermos salvar quem precisa. O sangue vem de nós; não existe uma fábrica que o produza”, afirmou.</p>
<p>Entre os diferentes grupos sanguíneos, o tipo AB é apontado pelo Banco de Sangue como um dos mais difíceis de encontrar no país, devido à menor proporção de pessoas com este grupo entre doentes e dadores.</p>
<p>“O tipo AB é difícil de encontrar e os pacientes com este tipo também não são muitos. Mas, quando uma pessoa com sangue AB fica doente e precisa de sangue, pode ser difícil encontrar um dador compatível, porque a maioria dos dadores não é desse grupo”, explicou Mendonça.</p>
<p>Os grupos com fator RH negativo, como O-, A- e B-, também são menos frequentes. O Banco de Sangue mantém contactos de alguns dadores destes grupos para recorrer a eles quando necessário.</p>
<p><strong>Doação depende de avaliação médica</strong></p>
<p>Antes da recolha, o potencial dador passa por uma avaliação para verificar se reúne as condições necessárias.</p>
<p>Entre os critérios estão o estado geral de saúde, o descanso adequado, a avaliação física e a medição da pressão arterial e da frequência cardíaca. É também recolhida uma amostra de sangue para testar infeções como hepatite B, hepatite C, sífilis e HIV.</p>
<p>O sangue só pode ser utilizado para transfusão depois de cumpridos os critérios clínicos e laboratoriais.</p>
<p>Em situações de necessidade urgente, quando o stock disponível não é suficiente, o Banco de Sangue pode mobilizar familiares do doente para serem avaliados e, caso cumpram os critérios exigidos, fazerem uma doação.</p>
<p>Os casos hospitalares são classificados segundo o grau de urgência. Em situações de emergência, especialmente em hemorragias durante o parto ou acidentes graves, o Banco de Sangue procura disponibilizar rapidamente as unidades necessárias.</p>
<p>As campanhas são realizadas junto de escolas, universidades, instituições públicas, empresas privadas e organizações religiosas. Algumas, porém, acabam por ser canceladas devido à indisponibilidade das instituições ou dos potenciais dadores.</p>
<p>“Recentemente, uma atividade prevista numa universidade foi cancelada porque os estudantes estavam em período de aulas. Outra campanha prevista numa igreja em Comoro também foi cancelada porque muitos membros da comunidade estavam fora da cidade”, disse Mendonça.</p>
<p>Apesar dos obstáculos, o Banco de Sangue pretende continuar a promover campanhas e a incentivar a população a doar regularmente.</p>
<p>O Diligente procurou também saber que políticas e medidas estão a ser desenvolvidas pelo Governo para aumentar a sensibilização da população para a importância da doação voluntária. A ministra da Saúde, Élia de Jesus Amaral, remeteu os esclarecimentos para os técnicos do HNGV. “Não posso falar sobre questões técnicas. Pode perguntar aos técnicos no HNGV”, respondeu a governante.</p>
<p><strong>OMS defende aumento da doação voluntária</strong></p>
<p>A Organização Mundial da Saúde (OMS) defende um aumento significativo da doação voluntária e regular em Timor-Leste para reduzir a dependência de familiares que procuram dadores apenas quando um doente necessita de sangue.</p>
<p>Num artigo publicado em 15 de junho de 2026, o representante da OMS em Timor-Leste, Arvind Mathur, descreveu situações em que familiares são mobilizados para procurar dadores perante emergências e cirurgias programadas. Mulheres com complicações durante o parto, vítimas de acidentes rodoviários e doentes submetidos a intervenções cirúrgicas estão entre as pessoas que podem depender da disponibilidade de sangue.</p>
<p>Segundo a OMS, pelo menos 1% da população deveria doar sangue todos os anos para garantir um fornecimento seguro e fiável. Para Timor-Leste, a referência corresponde a cerca de 13 mil dadores por ano.</p>
<p>Em 2025, foram registadas 7.204 doações de sangue, segundo dados do Banco de Sangue citados pela organização. A OMS usa como referência para Timor-Leste a necessidade de cerca de 13 mil dadores por ano.</p>
<p>A OMS alerta para o facto de a dependência deste modelo tornar o abastecimento menos previsível e coloca uma responsabilidade adicional sobre as famílias num momento de vulnerabilidade.</p>
<p>A dependência das famílias já tinha sido assinalada pela organização em junho de 2023. Na altura, a OMS afirmou que as doações voluntárias permitiam ao Banco de Sangue do HNGV responder a menos de 40% da procura associada a pedidos urgentes para doentes em estado crítico.</p>
<p>Nos restantes casos, os familiares eram chamados a mobilizar dadores de reposição. A publicação não esclarecia quantos desses pedidos acabavam por ser satisfeitos nem quanto tempo os doentes esperavam pela transfusão.</p>
<p>A OMS defende, por isso, uma transição para um sistema baseado numa participação voluntária, regular e não remunerada, em que as pessoas doem sangue independentemente de terem ou não um familiar internado.</p>
<p><strong>Desigualdade no acesso ao sangue mantém-se a nível mundial</strong></p>
<p>Segundo dados da OMS relativos sobretudo a 2023, divulgados em junho de 2026, a taxa mediana anual de doação de sangue total era de 28,9 doações por mil habitantes nos países de rendimento elevado, contra 8,5 nos países de rendimento médio-baixo e 4,5 nos países de rendimento baixo.</p>
<p>A nível mundial, a OMS estima cerca de 120,4 milhões de doações de sangue por ano. A organização defende que os sistemas nacionais devem privilegiar doações voluntárias, regulares e não remuneradas para garantir reservas suficientes e reduzir a dependência de familiares e dadores de reposição.</p>
<p>Em Timor-Leste, o desafio passa agora por aumentar o número de pessoas que doam sangue regularmente, antes de uma emergência surgir. A mudança permitiria reduzir a pressão sobre as famílias e garantir reservas capazes de responder tanto às transfusões programadas como às situações urgentes.</p>
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		<item>
		<title>Incêndios em Díli deixam dezenas de famílias sem bens e meios de subsistência</title>
		<link>https://www.diligenteonline.com/incendios-em-dili-deixam-dezenas-de-familias-sem-bens-e-meios-de-subsistencia/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Lourdes do Rego]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 30 Sep 2026 11:27:13 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Destaque]]></category>
		<category><![CDATA[Sociedade]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Os incêndios que atingiram os mercados de Taibessi e Comoro, em Díli, com dois dias de intervalo, destruíram mercadorias, poupanças e bens de dezenas de famílias. As causas dos incêndios ainda estão a ser investigadas e os comerciantes afetados dizem [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p><em>Os incêndios que atingiram os mercados de Taibessi e Comoro, em Díli, com dois dias de intervalo, destruíram mercadorias, poupanças e bens de dezenas de famílias. As causas dos incêndios ainda estão a ser investigadas e os comerciantes afetados dizem não saber quando poderão voltar a trabalhar.</em></p>
<p>Dois incêndios atingiram, com dois dias de intervalo, os mercados de Taibessi e Comoro, em Díli, deixando dezenas de famílias sem bens, mercadorias e meios de subsistência. Em Taibessi, 114 espaços comerciais foram destruídos, enquanto em Comoro 53 casas foram afetadas pelas chamas.</p>
<p>Além das mercadorias e dos bens pessoais, alguns comerciantes perderam também dinheiro que tinham guardado para voltar a investir nos seus negócios.</p>
<p><strong>“Não perdemos apenas os bens pessoais”</strong></p>
<p>Adelina, comerciante no mercado de Taibessi desde 2014, perdeu no incêndio as mercadorias, os bens pessoais e o dinheiro que tinha guardado para voltar a investir no negócio.</p>
<p>Na noite do incêndio, ouviu uma criança a chorar numa casa vizinha e pensou que o pai lhe tivesse batido. Quando se aproximou, percebeu que a criança chorava porque a casa estava a ser consumida pelo fogo.</p>
<p>“Quando ouvi o filho do vizinho a chorar, pensei que o pai lhe tinha batido. Então fui ver o que tinha acontecido. Mas a criança estava a chorar porque a casa deles já tinha sido consumida pelo fogo. Quando voltei, também já não consegui salvar todos os meus bens”, contou.</p>
<p>Natural de Ermera, Adelina tem três filhos e cuida ainda de oito sobrinhos, quatro filhos da irmã e quatro filhos do irmão. Alguns encontram-se a estudar fora e dependem do rendimento obtido pela família.</p>
<p>Para repor as mercadorias, a comerciante guardava diariamente parte do dinheiro que conseguia ganhar. Segundo Adelina, conseguia poupar cerca de 20 dólares por dia e tinha mantido essa poupança durante aproximadamente nove meses.</p>
<p>“O dinheiro que guardava, 20 dólares por dia, era normalmente para comprar novamente os produtos para vender. Já o guardava há cerca de nove meses, porque os dias de maior movimento estavam a aproximar-se”, explicou.</p>
<p>Segundo os cálculos referidos pela comerciante, as poupanças perdidas rondavam os 4.800 dólares.</p>
<p>Os filhos e sobrinhos também perderam dinheiro que tinham conseguido juntar através de pequenos trabalhos, incluindo o transporte de mercadorias. Alguns conseguiam poupar cerca de 7,75 dólares por dia.</p>
<p>No meio dos bens destruídos, algumas crianças conseguiram ainda salvar materiais escolares e um diploma. “Como mãe que vive sozinha e sustenta uma família, é muito difícil. Não perdemos apenas os bens pessoais, mas também os bens que vendíamos, incluindo o dinheiro que eu tinha guardado”, afirmou Adelina.</p>
<p>Depois do incêndio, alguns comerciantes cujos espaços não foram atingidos ajudaram as famílias afetadas com roupas e outros bens. Adelina afirma, contudo, que até ao momento não recebeu apoio do Governo.</p>
<p>O Diligente tentou obter esclarecimentos junto das entidades competentes sobre eventuais medidas de apoio aos comerciantes afetados, mas não conseguiu obter confirmação.</p>
<p><strong>Dois dias depois, outro incêndio atinge Comoro</strong></p>
<p>Dois dias depois do incêndio de Taibessi, outro fogo atingiu a zona de Comoro, em Díli.</p>
<p>O incêndio ocorreu na manhã de 27 de setembro, por volta das 9h30, e afetou 53 casas. Não há registo de vítimas mortais.</p>
<p>Entre as famílias afetadas está a de Terezinha, natural de Viqueque e residente em Comoro desde 2011. Vive com o marido e os três filhos, de 11, 13 e 15 anos. “Perdi todos os meus bens. Mas agradeço porque estamos todos bem. Foram apenas os nossos bens que o fogo consumiu”, disse.</p>
<p>Sem condições para regressar à habitação, a família tem dormido no chão. Terezinha afirma ter recebido apoio, sobretudo alimentos, do PLP e da FRETILIN. A APC também divulgou, através da sua página no Facebook, informação sobre o apoio prestado às famílias afetadas.</p>
<p><strong>114 espaços destruídos em Taibessi</strong></p>
<p>Em Taibessi, o incêndio ocorreu na noite de 25 de setembro, por volta das 22h00, e destruiu 114 espaços comerciais, segundo o responsável pela gestão do mercado, Aníbal de Jesus.</p>
<p>O responsável aponta para uma possível falha na instalação elétrica como origem do incêndio. Segundo Aníbal de Jesus, um cabo elétrico terá caído sobre um quiosque, provocando o início das chamas, que se propagaram rapidamente devido à proximidade entre os espaços comerciais.</p>
<p>Aníbal afirma ainda que a administração do mercado já tinha contactado anteriormente a EDTL sobre os cabos elétricos existentes na zona. Segundo o responsável, a empresa terá informado que estava a realizar trabalhos na estrada, mas não chegou a deslocar-se ao local.</p>
<p>O Diligente tentou obter esclarecimentos junto da EDTL sobre esta versão, mas não recebeu resposta.</p>
<p>Durante o incêndio, três pessoas sofreram ferimentos ligeiros e foram transportadas diretamente para o serviço de urgência, segundo o responsável pela gestão do mercado.</p>
<p><strong>Causas dos incêndios ainda não estão confirmadas</strong></p>
<p>Apesar das referências a problemas elétricos, a causa dos incêndios ainda não foi oficialmente determinada.</p>
<p>O comandante da Polícia da Região Administrativa de Díli, comissário assistente Orlando Gomes, disse à GMN que a investigação continua e que a polícia está a recolher elementos para determinar a origem dos incêndios.</p>
<p>Segundo o responsável policial, as informações preliminares apontam para a possibilidade de a utilização de fogões elétricos ter provocado um problema no circuito elétrico e contribuído para a propagação das chamas.</p>
<p>A polícia confirmou ainda ao GMN que 53 casas foram afetadas pelo incêndio de Comoro e que 114 espaços comerciais foram atingidos em Taibessi.</p>
<p>Até ao momento, contudo, não existe uma conclusão oficial sobre a origem dos dois incêndios, uma vez que as investigações continuam.</p>
<p><strong>Comerciantes sem saber quando poderão voltar a trabalhar</strong></p>
<p>Para os comerciantes afetados, a destruição dos bens significa também a perda da principal fonte de rendimento.</p>
<p>Em Taibessi, alguns vendedores receberam ajuda de outros comerciantes, enquanto, em Comoro, algumas famílias receberam apoio alimentar. No entanto, continua sem haver informação clara sobre eventuais medidas de apoio do Governo aos comerciantes de Taibessi.</p>
<p>Também não foi esclarecido quando ou em que condições os vendedores poderão voltar a exercer a sua atividade nos espaços afetados.</p>
<p>O Diligente tentou obter esclarecimentos junto do Ministério das Obras Públicas sobre as medidas previstas para os comerciantes afetados e sobre o futuro dos espaços destruídos, mas não conseguiu obter uma declaração.</p>
<p>Enquanto aguardam por respostas, famílias como a de Adelina e Terezinha continuam sem os bens que perderam nos incêndios e sem saber quando poderão recuperar as condições para voltar a trabalhar.</p>
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		<title>Festival Literário: Participantes denunciam alegadas agressões durante operação da DNTT e SEATOU</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Rilijanto Viana]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 25 Sep 2026 10:55:37 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Destaque]]></category>
		<category><![CDATA[Notícias]]></category>
		<category><![CDATA[Sociedade]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Incidente ocorreu no segundo dia do festival, junto à Fundação Oriente, e terminou com a entrada de elementos das equipas no recinto. Participantes alegam agressões e apreensão de telemóveis. SEATOU rejeita acusações e afirma que intervenção visava retirar matrículas de [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p><em>Incidente ocorreu no segundo dia do festival, junto à Fundação Oriente, e terminou com a entrada de elementos das equipas no recinto. Participantes alegam agressões e apreensão de telemóveis. SEATOU rejeita acusações e afirma que intervenção visava retirar matrículas de motorizadas estacionadas nos passeios.</em></p>
<p>Durante três dias, entre 14 e 16 de setembro, a Fundação Oriente, em Díli, acolheu o Festival Literário, uma iniciativa organizada pelo Movimento Letras para promover a leitura, a escrita, a criatividade e o pensamento crítico entre crianças, jovens, estudantes, académicos e artistas.</p>
<p>O programa incluiu uma feira do livro, oficinas de escrita criativa, produção de zines, colagem, poesia, música, pintura e debates.</p>
<p>No entanto, no segundo dia do festival, 15 de setembro, a programação foi interrompida na sequência de uma operação da Direção Nacional de Transportes Terrestres (DNTT), acompanhada por elementos da Secretaria de Estado do Ordenamento e Toponímia (SEATOU), relacionada com motorizadas estacionadas no passeio, no exterior da Fundação Oriente.</p>
<p>Segundo a organização e alguns participantes, a intervenção acabou por entrar no recinto do festival e deu origem a confrontos. Há relatos de alegadas agressões físicas e de apreensão de telemóveis utilizados para registar o incidente.</p>
<p>A SEATOU apresenta uma versão diferente dos acontecimentos e afirma que a operação tinha como objetivo retirar as matrículas das motorizadas estacionadas nos passeios, negando que a equipa se tenha deslocado ao local com intenção de agredir os participantes.</p>
<p><strong>Confronto começou junto à Fundação Oriente</strong></p>
<p>O responsável pelo Movimento Letras e membro da comissão organizadora, Basílio Sanches Sávio, reconhece que o estacionamento de motorizadas no passeio constitui uma infração, mas afirma que a falta de espaço levou alguns participantes a estacionar naquele local.</p>
<p>“Alguns participantes tiveram de colocar as motorizadas no passeio, sem bloquear completamente a passagem das pessoas”, explicou.</p>
<p>Segundo Sávio, a chegada das equipas da DNTT e da SEATOU para retirar as matrículas provocou descontentamento entre alguns participantes. A discussão terá aumentado de intensidade até ocorrer um confronto.</p>
<p>O organizador afirma que a situação se agravou quando alguns elementos da equipa entraram no recinto da Fundação Oriente, onde decorriam simultaneamente várias atividades dirigidas a crianças e jovens. “As crianças estavam sentadas a pintar e a ler quando os funcionários da SEATOU entraram. As crianças correram, dispersaram-se e algumas ficaram assustadas”, afirmou.</p>
<p>A organização diz que uma atividade de discussão sobre escrita criativa teve de ser interrompida durante cerca de duas horas. Depois de a situação estabilizar, o programa foi retomado, com declamação de poesia, projeção de filmes e outras apresentações.</p>
<p>Para Sávio, a entrada da equipa no recinto alterou o ambiente do festival. “Era um ambiente educativo e saudável, onde as pessoas podiam expressar-se e desenvolver-se. Depois da entrada da equipa, sentimos uma grande mudança no ambiente. A entrada da equipa conjunta foi sentida como uma invasão da nossa atividade”, afirmou.</p>
<p><strong>Participante relata alegada agressão</strong></p>
<p>Um dos participantes, que pediu para não ser identificado, afirma ter sido agredido fisicamente por elementos da equipa da SEATOU.</p>
<p>Segundo o jovem, a sua fuga não teve como objetivo evitar a abordagem das autoridades, mas resultou, alegadamente, da atitude de alguns elementos da equipa, que considera agressiva.</p>
<p>“Eles perseguiram-me até eu entrar na Fundação Oriente. Depois, quase sete pessoas da equipa SEATOU entraram e começaram a dar-me socos e pontapés”, contou.</p>
<p>O participante afirma ter sofrido um ferimento nas costas. “Tive um ferimento nas costas. Não é muito grave, mas é grande. Suspeito que, naquele momento, eles tenham usado algum objeto. Não acredito que tenha sido apenas com as mãos”, afirmou.</p>
<p>O jovem encontrava-se na Fundação Oriente a convite do Movimento Letras, para ajudar na instalação de equipamentos para o festival. Conta que decidiu intervir depois de ver outro participante ser agarrado por elementos da SEATOU.</p>
<p>“Decidi puxar o participante que eles estavam a segurar porque pensei que a equipa SEATOU iria agredi-lo fisicamente. Por uma questão humana, quis afastá-lo. Foi então que eles passaram a querer agredir-me também”, relatou.</p>
<p>O participante reconhece que o estacionamento das motorizadas no passeio constitui uma infração, mas considera que a resposta das autoridades não deveria envolver violência física.</p>
<p>Segundo o Movimento Letras, mais de quatro participantes terão sido vítimas de agressões durante o incidente. A organização afirma que algumas pessoas terão sido esbofeteadas, empurradas ou atingidas com socos, pontapés ou objetos. Estas alegações não foram, até ao momento, confirmadas de forma independente.</p>
<figure id="attachment_23502" aria-describedby="caption-attachment-23502" style="width: 516px" class="wp-caption aligncenter"><img fetchpriority="high" decoding="async" class="size-medium wp-image-23502" src="https://www.diligenteonline.com/wp-content/uploads/2026/09/kanek-516x290.jpg" alt="" width="516" height="290" srcset="https://www.diligenteonline.com/wp-content/uploads/2026/09/kanek-516x290.jpg 516w, https://www.diligenteonline.com/wp-content/uploads/2026/09/kanek-768x432.jpg 768w, https://www.diligenteonline.com/wp-content/uploads/2026/09/kanek.jpg 810w" sizes="(max-width: 516px) 100vw, 516px" /><figcaption id="caption-attachment-23502" class="wp-caption-text">O jovem afirma ter sofrido um ferimento nas costas durante o incidente. / Foto: Arquivo privado</figcaption></figure>
<p><strong>Telemóveis terão sido apreendidos durante o incidente</strong></p>
<p>A organização levanta ainda dúvidas sobre a atuação das equipas relativamente aos registos audiovisuais feitos pelos participantes.</p>
<p>“O incidente aconteceu num espaço público e os participantes tentaram registar a atuação das equipas para que as imagens pudessem servir como prova. No entanto, eles mandaram parar as gravações e apreenderam os telemóveis dos participantes”, afirmou Basílio Sanches Sávio.</p>
<p>Segundo Sávio, representantes do Movimento Letras deslocaram-se posteriormente às instalações da SEATOU para recuperar os aparelhos. Os telemóveis terão sido devolvidos, mas, segundo o organizador, os vídeos gravados durante o incidente terão sido apagados.</p>
<p>A alegada eliminação das imagens não foi confirmada de forma independente. A organização defende que a questão deverá ser esclarecida no âmbito de uma eventual investigação.</p>
<p>Sávio questiona ainda a atuação das autoridades. “A SEATOU pode falar da sua competência para organizar a cidade, as estradas e os estacionamentos. Mas deter e agredir pessoas não faz parte dessa competência. É um abuso de poder», afirmou.</p>
<p>O responsável do Movimento Letras questiona igualmente a aplicação das regras de estacionamento, alegando que existem outros locais de Díli onde veículos permanecem estacionados nos passeios sem intervenções semelhantes.</p>
<p><strong>Fundação Oriente pede esclarecimento dos factos</strong></p>
<p>A Fundação Oriente lamentou o episódio ocorrido nas suas instalações e afirmou estar a tomar medidas, pela via diplomática, para que os factos sejam esclarecidos.</p>
<p>Em declarações ao Diligente, Joana Camargo Saraiva, delegada da Fundação Oriente em Timor-Leste, afirmou que a instituição não tinha conhecimento prévio da presença das equipas e que a entrada nas instalações “não foi solicitada, nem autorizada”.</p>
<p>“A Fundação Oriente considera a situação lamentável e está a tomar, pela via diplomática, as medidas que considera adequadas para que os factos sejam devidamente apurados”, declarou.</p>
<p>A instituição dispõe de um sistema de videovigilância, devidamente sinalizado, que registou parte dos acontecimentos. Segundo a delegada, a Fundação Oriente está disponível para facultar as imagens às autoridades competentes, mediante pedido formal.</p>
<p>Joana Saraiva sublinhou ainda a importância de garantir condições de segurança e respeito durante a realização de atividades culturais e literárias.</p>
<p><strong>Organização apresenta queixa</strong></p>
<p>Na sequência do incidente, o Movimento Letras afirma ter procurado a Provedoria dos Direitos Humanos e Justiça (PDHJ) e apresentado uma queixa relacionada com os acontecimentos.</p>
<p>“Fomos primeiro à PDHJ, mas, como se trata de um caso criminal, orientaram-nos a apresentar primeiro a queixa na PNTL e depois a PDHJ poderá acompanhar o processo”, explicou Basílio.</p>
<p>A organização afirma que continuará a acompanhar o processo e a colaborar com as autoridades responsáveis pela investigação. “A verdade não vai morrer”, afirmou Sávio.</p>
<p>O Diligente tentou obter uma reação da PDHJ, através do Provedor dos Direitos Humanos e Justiça, Virgílio Guterres, da PNTL e da DNTT, mas não obteve resposta até à publicação desta notícia.</p>
<p><strong>Participante critica atuação das autoridades</strong></p>
<p>Outro participante do festival, Che Malay, manifestou preocupação com o impacto do episódio na confiança da população nas instituições públicas.</p>
<p>O participante afirmou sentir-se desiludido com a atuação da SEATOU e da DNTT e defendeu que as instituições devem rever a forma como realizam determinadas intervenções no terreno.</p>
<p>“Mesmo com entusiasmo, motivação e espírito de nacionalismo como este, neste momento fico triste, zangado e já perdi a esperança nos governantes ou líderes que estão atualmente no poder”, afirmou.</p>
<p>Che Malay considera que o objetivo de modernização e organização de Díli deve ser acompanhado por métodos que evitem confrontos com a população.</p>
<p>Entre as situações que, segundo o participante, têm gerado descontentamento estão despejos administrativos, intervenções junto de vendedores ambulantes e ações relacionadas com o trânsito e os transportes.</p>
<p>O participante manifestou ainda preocupação com o impacto destas situações na confiança da população nas instituições públicas, sobretudo perante a aproximação de futuros processos eleitorais.</p>
<p><strong>SEATOU rejeita acusações de agressão</strong></p>
<p>O Secretário de Estado para os Assuntos de Toponímia e Organização Urbana, Germano Santa Brites, rejeitou a acusação de que a intervenção tivesse como objetivo agredir ou confrontar os jovens presentes na Fundação Oriente.</p>
<p>Segundo o governante, a situação agravou-se depois de um jovem ter pegado numa pedra, alegadamente com intenção de a atirar contra a equipa.</p>
<p>“Chegou ao ponto de haver barulho na Fundação Oriente porque um jovem pegou numa pedra para a atirar. Então chamei-o para conversar, mas ele fugiu. Foi por isso que as equipas foram procurá-lo para o trazer e conversar comigo. Nós não fomos para bater em ninguém; fomos apenas para retirar as matrículas”, afirmou.</p>
<p>Germano Santa Brites defendeu que eventuais discordâncias relativamente às operações da SEATOU e da DNTT devem ser resolvidas através dos mecanismos legais, incluindo o recurso às entidades competentes para contestar multas ou outras medidas. “Se não estão contentes com esta atuação, devem resolver com a DNTT, pagar a multa e também compreender que esta cidade pertence a todos nós”, afirmou.</p>
<p>O secretário de Estado apelou ainda aos jovens para participarem no esforço de organização do espaço urbano. “Sobretudo para os jovens, esta cidade é nossa e somos nós que temos de nos esforçar para a organizar”, disse.</p>
<p>Questionado sobre a existência de outros veículos estacionados nos passeios que não são alvo de intervenção, Germano Santa Brites afirmou que a atuação das equipas depende de cada situação concreta e garantiu que as operações vão continuar.</p>
<p>“Se continuarem a estacionar, continuaremos a retirar. A equipa não se vai cansar de trabalhar dentro da nossa capacidade e das forças que temos. Se as motas continuarem a estacionar nos passeios, contrariando a lei de ordenamento do território, a equipa vai atuar&#8221;, afirmou.</p>
<p>O responsável acrescentou que a SEATOU trabalha em articulação com várias instituições do Governo, incluindo as áreas das Obras Públicas, Terras, Transportes e Telecomunicações, e defendeu que a organização do espaço urbano e a melhoria das condições da cidade de Díli fazem parte das competências da Secretaria de Estado.</p>
<p>Segundo Germano Santa Brites, as equipas estão atualmente a trabalhar na organização do transporte público e do estacionamento, particularmente nos casos em que veículos e motociclos ocupam os passeios destinados à circulação de peões.</p>
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		<title>Bancos têm dinheiro, mas pouco chega à produção e os juros continuam acima de 10%</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Rilijanto Viana]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 23 Sep 2026 11:41:33 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Destaque]]></category>
		<category><![CDATA[Economia]]></category>
		<category><![CDATA[Notícias]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Uma empresa pediu 25 mil dólares e recebeu menos de metade. Outros pequenos negócios evitam endividar-se porque as receitas são instáveis e os juros elevados. Enquanto cerca de 1,7 mil milhões de dólares em ativos líquidos dos bancos timorenses se [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p><em>Uma empresa pediu 25 mil dólares e recebeu menos de metade. Outros pequenos negócios evitam endividar-se porque as receitas são instáveis e os juros elevados. Enquanto cerca de 1,7 mil milhões de dólares em ativos líquidos dos bancos timorenses se encontram no exterior, a indústria transformadora e a agricultura recebem, em conjunto, apenas 2,4% do crédito. Empresários, bancos e organizações da sociedade civil identificam obstáculos diferentes ao financiamento da produção.</em></p>
<p>Quando Maria Carla Tilman, diretora da empresa de construção e hotelaria Arvec Group, pediu um empréstimo de 25 mil dólares, o banco aprovou apenas 12 mil. A diferença entre o valor solicitado e o montante recebido dificultou a execução do projeto que tinha apresentado.</p>
<p>“O nosso projeto previa 25 mil dólares, mas o banco aprovou apenas 12 mil. Então, além do mercado e das oportunidades de negócio que esperávamos, tivemos também essa diferença entre o valor proposto e o valor aprovado”, conta.</p>
<p>Tilman não quis divulgar mais informações sobre este crédito e disse desconhecer os critérios exatos usados para fixar o montante, embora admita que a decisão possa estar relacionada com as garantias e outros requisitos bancários.</p>
<p>A empresária considera que o crédito é importante para financiar projetos, mas defende condições ajustadas ao risco, ao mercado timorense e ao tempo necessário para o investimento começar a gerar receitas.</p>
<p>“O crédito é bom, mas temos de olhar para a flexibilidade, para as facilidades e para os requisitos que os bancos apresentam, tendo também em conta as condições reais de Timor-Leste”, afirma.</p>
<p>Num projeto de construção, exemplifica, a empresa pode ter de começar a pagar juros antes de concluir a obra e receber qualquer retorno. Durante esse período, continua a suportar salários, impostos, despesas operacionais e outros encargos previstos no contrato.</p>
<p>“Como é que vou pagar os juros se o negócio ainda não começou ou ainda não terminou?”, questiona.</p>
<p>A experiência da Arvec Group expõe uma questão mais ampla: num sistema bancário com recursos disponíveis, por que razão tão pouco crédito chega às empresas que produzem no país?</p>
<p><strong>Cerca de 1,7 mil milhões de dólares no exterior</strong></p>
<p>Em junho de 2026, os bancos de Timor-Leste tinham 3.046 milhões de dólares em ativos, mais 19,5% do que no mesmo mês de 2025. Os depósitos totalizavam 1.911 milhões, mas o crédito somava apenas 768 milhões de dólares, segundo o <em>Timor-Leste Mid-Term Economic Review 2026</em>, divulgado pelo Banco Central de Timor-Leste (BCTL) a 3 de setembro.</p>
<p>Do aumento dos ativos, 60% resultou de aplicações noutras instituições bancárias e apenas 23% correspondeu a empréstimos. Estas percentagens referem-se ao crescimento dos ativos, e não à distribuição da sua totalidade.</p>
<p><img decoding="async" class="aligncenter wp-image-23490" src="https://www.diligenteonline.com/wp-content/uploads/2026/09/BANCO-1-516x181.png" alt="" width="798" height="280" srcset="https://www.diligenteonline.com/wp-content/uploads/2026/09/BANCO-1-516x181.png 516w, https://www.diligenteonline.com/wp-content/uploads/2026/09/BANCO-1-900x315.png 900w, https://www.diligenteonline.com/wp-content/uploads/2026/09/BANCO-1-768x269.png 768w, https://www.diligenteonline.com/wp-content/uploads/2026/09/BANCO-1.png 1200w" sizes="(max-width: 798px) 100vw, 798px" /></p>
<p>Segundo o governador do BCTL, Hélder Lopes, cerca de 1,7 mil milhões de dólares em ativos líquidos dos bancos — dinheiro e aplicações que podem ser mobilizados — encontram-se no exterior.</p>
<p>“Não estamos satisfeitos com isso. Queremos que esse dinheiro circule na nossa economia”, declara.</p>
<p>O governador reconhece também que o financiamento está pouco direcionado para atividades produtivas.</p>
<p>“Há muito crédito para o consumo, enquanto o crédito para o setor real, para a economia produtiva, continua a ser mínimo”, afirma.</p>
<p>Para o BCTL, o desafio é fazer com que uma parte maior dos recursos disponíveis financie a economia nacional. Mas a distância entre a liquidez dos bancos e o crédito à produção não tem uma explicação única.</p>
<p>Empresários apontam juros, garantias, burocracia e condições de pagamento desajustadas. Os bancos destacam a falta de contabilidade organizada, informação financeira insuficiente e projetos que nem sempre demonstram capacidade para pagar a dívida.</p>
<p><strong>Indústria e agricultura recebem apenas 2,4% do crédito</strong></p>
<p>O crédito não é apenas reduzido: está concentrado em poucos setores. Em junho de 2026, os indivíduos, o comércio e as finanças e a construção absorviam, em conjunto, 91,5% dos empréstimos.</p>
<p>Os indivíduos representavam 43,9%, correspondentes a 336,8 milhões de dólares. O comércio e as finanças recebiam 26,9%, ou 206,4 milhões, e a construção concentrava 20,7%, equivalentes a 159,1 milhões.</p>
<p>Em contraste, a indústria transformadora recebia apenas 0,9% do crédito, ou 6,7 milhões de dólares, e a agricultura ficava com 1,5%. Os transportes representavam 2,3%, equivalentes a 17,9 milhões, e o turismo e os serviços recebiam 3,8%, ou 29,1 milhões de dólares.</p>
<p><img decoding="async" class="aligncenter wp-image-23491" src="https://www.diligenteonline.com/wp-content/uploads/2026/09/BANCI-2-516x215.png" alt="" width="793" height="331" srcset="https://www.diligenteonline.com/wp-content/uploads/2026/09/BANCI-2-516x215.png 516w, https://www.diligenteonline.com/wp-content/uploads/2026/09/BANCI-2-900x375.png 900w, https://www.diligenteonline.com/wp-content/uploads/2026/09/BANCI-2-768x320.png 768w, https://www.diligenteonline.com/wp-content/uploads/2026/09/BANCI-2.png 1200w" sizes="(max-width: 793px) 100vw, 793px" /></p>
<p>A reduzida dimensão do financiamento privado já tinha sido assinalada pelo Banco Mundial. Em 2024, a instituição indicava que o crédito ao setor privado correspondia a 28,9% do Produto Interno Bruto (PIB), um dos níveis mais baixos do mundo. Apontava também dificuldades no acesso ao financiamento e uma utilização reduzida dos serviços financeiros digitais.</p>
<p>O Fundo Monetário Internacional (FMI) apresentou para o mesmo ano um valor diferente: 33% do PIB, contra 27% em 2023. Apesar do crescimento, o crédito continuava bastante abaixo da mediana dos países da Associação de Nações do Sudeste Asiático (ASEAN). Os valores do Banco Mundial e do FMI para 2024 não coincidem, embora ambos revelem a reduzida dimensão do financiamento ao setor privado.</p>
<p>A expansão também não estava distribuída de forma semelhante entre as instituições. Segundo o FMI, o Banco Nacional de Comércio de Timor-Leste (BNCTL) detinha 75% dos empréstimos do sistema bancário e concentrava o crescimento, enquanto o crédito concedido pelos bancos privados aumentava de forma moderada.</p>
<p><strong>Juros descem lentamente</strong></p>
<p>Além de escasso, o crédito continua caro. A taxa média dos empréstimos era de 10,3% em junho de 2026, de acordo com o BCTL.</p>
<p>Os dados históricos do FMI mostram uma descida lenta: a taxa situava-se em 11% no final de 2022, 10,7% em 2023 e 10,5% em 2024. Em cerca de três anos e meio, diminuiu apenas 0,7 pontos percentuais.</p>
<p>O custo elevado não parece resultar de um nível particularmente alto de incumprimento. No final de 2024, os empréstimos classificados como problemáticos representavam 2,2% do crédito bancário, uma proporção considerada baixa pelo FMI.</p>
<p>Para a empresária Maria Tilman, o problema não se limita à taxa de juro. Terrenos e veículos encontram-se entre os bens usados para garantir empréstimos, mas a avaliação dos imóveis pode criar dificuldades adicionais. A diferença entre o preço atribuído pelo proprietário e a avaliação do banco pode obrigar a empresa a apresentar outros bens e aumentar o risco assumido.</p>
<p>“Se eu pedir 25 mil e tiver de garantir com o meu terreno, se tiver problemas para pagar o crédito posso perder tudo”, afirma.</p>
<p>A empresária defende critérios mais claros para avaliar os terrenos, maior flexibilidade nas garantias e períodos de carência para investimentos que demoram a gerar receitas. Considera também que os bancos devem adaptar as condições quando circunstâncias extraordinárias afetam temporariamente a atividade. Obras públicas ou alargamentos de estradas, exemplifica, podem provocar uma quebra de clientes sem que o negócio tenha deixado de ser viável.</p>
<p>Tilman pede ainda maior acompanhamento dos projetos financiados, em vez de o banco se limitar a apreender veículos, equipamentos ou imóveis quando surgem dificuldades. Os atrasos do Governo nos pagamentos ao setor privado, acrescenta, podem comprometer a capacidade das empresas para cumprirem as obrigações bancárias.</p>
<p>“O banco não pode deixar o cliente sozinho. Também deve acompanhar para garantir que o negócio tenha condições para pagar o crédito”, sustenta.</p>
<p><strong>Títulos de propriedade e contas desorganizadas</strong></p>
<p>O BCTL identifica dificuldades tanto na concessão de empréstimos como na procura. Hélder Lopes afirma que poucos empresários recorrem ao financiamento bancário.</p>
<p>“A procura de crédito por parte das empresas ainda é mínima”, declara.</p>
<p>Uma das limitações está nas garantias. A falta de documentos que comprovem claramente a propriedade de um terreno ou edifício pode impedir que o bem seja aceite pelo banco.</p>
<p>O Banco Mundial advertiu, em 2025, que a insegurança sobre a propriedade da terra limita o investimento privado. Defendeu um sistema mais eficiente de emissão de títulos de propriedade para estimular o investimento e criar emprego.</p>
<p>Do lado dos bancos, a falta de informação sobre as próprias empresas é apresentada como outro obstáculo. Ana Andrade, diretora-geral adjunta do BNU Timor, afirma que muitas não dispõem de contabilidade organizada nem de informação financeira padronizada.</p>
<p>“Atualmente, as empresas em Timor-Leste não são obrigadas a manter uma contabilidade organizada”, explica.</p>
<p>Para analisar um pedido, o BNU procura conhecer o volume de negócios, os ativos, as receitas e despesas, os empréstimos existentes e os recursos que a empresa poderá gerar.</p>
<p>Andrade afirma que o banco já financia empresas que apresentam contas organizadas, embora não estejam legalmente obrigadas a fazê-lo, e considera que a generalização dessa prática facilitaria a avaliação do risco.</p>
<p>Além das contas e das garantias, as empresas têm de fornecer informação detalhada sobre o investimento. Num projeto agrícola, por exemplo, o banco analisa o produto, o local e a área de cultivo, os custos, a produção esperada, o número de ciclos e as receitas previstas. Na produção de café, procura também conhecer o preço de venda e os potenciais compradores.</p>
<p>“Temos de conhecer o projeto na sua totalidade”, afirma.</p>
<p>Segundo Andrade, a ausência de garantias suficientes, a falta de transparência, informação financeira incompleta ou problemas no modelo de negócio podem impedir a aprovação. O banco procura ainda verificar se o financiamento é utilizado para a finalidade declarada.</p>
<p>As taxas são negociadas em função do projeto, do plano de negócios e da capacidade da empresa para pagar o capital e os juros. O BNU dispõe, contudo, de uma linha com taxa fixa de 5% para investimentos ligados à sustentabilidade e à economia verde, incluindo energia solar, reciclagem e outras atividades destinadas a reduzir o impacto ambiental.</p>
<p>A diretora-geral adjunta indica que o banco não costuma conceder financiamento por períodos muito longos, mas não especifica os prazos praticados.</p>
<p>Embora não dispusesse no momento de dados sobre o número de pedidos de crédito recebidos, aprovados e recusados pelo BNU em 2025, Andrade considera, ainda assim, que a instituição recebe “um número de pedidos normal para o mercado timorense”.</p>
<p>A responsável rejeita também a alegação de que o BNU favoreça empresas internacionais em detrimento das timorenses. Segundo explica, os empréstimos concedidos pelo banco em Timor-Leste destinam-se a empresas que desenvolvem atividade no país.</p>
<p>Andrade recorda que o BNU está sujeito à supervisão do BCTL e, por integrar um grupo bancário europeu, segue os critérios de análise de crédito definidos pelo grupo e as regras aplicáveis. A prudência, afirma, decorre também da responsabilidade perante os depositantes.</p>
<p>“Somos intermediários. Temos depósitos e emprestamos dinheiro”, resume.</p>
<p><strong>Pequenos negócios precisam de capital, mas evitam a dívida</strong></p>
<p>A reduzida procura de crédito não significa necessariamente que as empresas não precisem de financiamento. Para alguns pequenos negócios, a instabilidade das receitas e o receio de não conseguir pagar afastam a hipótese de apresentar um pedido.</p>
<p>Grecia Maria Batista Xavier, de 23 anos, proprietária de um pequeno negócio de hambúrgueres, evita contrair empréstimos porque não sabe quanto conseguirá vender em cada dia.</p>
<p>“Há dias bons e dias maus. Hoje podemos ter muitos clientes e amanhã poucos. Não vendemos produtos de primeira necessidade”, explica.</p>
<p>A jovem empresária tem receio de taxas de 10% ou 15%, enquanto as linhas com juros de 5% nem sempre estão disponíveis para negócios como o seu. Prefere manter uma reserva para emergências e expandir a atividade gradualmente.</p>
<p>Grecia Xavier iniciou o negócio em 2023, com um carrinho de venda de rua. Passou depois para uma pequena estrutura de madeira e mudou-se para o espaço atual quando as autoridades proibiram a venda junto à estrada. Emprega três pessoas e paga 350 dólares mensais de renda.</p>
<p>Apesar de reconhecer que precisa de capital para crescer, considera que, nas condições atuais, assumir uma dívida poderia colocar o negócio em risco.</p>
<p>Outras empresas preparam investimentos de maior dimensão. César Trinito Gaio, fundador e proprietário da empresa Dilicious, que se dedica à restauração e hotelaria, pretende pedir financiamento no próximo ano para um projeto na Praia do Dólar, estimado entre 200 mil e 250 mil dólares.</p>
<p>A empresa, que ainda não tem dívida bancária, está a avaliar as condições oferecidas pelo BNCTL e pelo Banco do Nosso Futuro (BNF). Gaio diz ter ouvido referências a taxas entre 6,5% e 7%, mas ainda não apresentou o pedido e desconhece os documentos e as garantias que lhe serão exigidos.</p>
<p>“Se o processo de empréstimo for mais simples, também será mais fácil implementar os investimentos”, afirma.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><strong>Burocracia e dependência dos contratos públicos</strong></p>
<p>A La’o Hamutuk acrescenta a burocracia aos obstáculos identificados por empresários e bancos.</p>
<p>Élia da Costa Araújo, investigadora e porta-voz da organização, considera que procedimentos excessivos e complexos dificultam o acesso das micro, pequenas e médias empresas ao financiamento.</p>
<p>A organização aponta igualmente a falta de trabalhadores qualificados e a fragilidade de um setor privado muito dependente da despesa e dos contratos públicos. Essa dependência pode afetar também as empresas que recorrem ao crédito, quando o Estado se atrasa nos pagamentos.</p>
<p>A La’o Hamutuk defende que os recursos provenientes do petróleo sejam usados para desenvolver competências nacionais e apoiar atividades que acrescentem valor dentro do país. Os apoios públicos, sustenta, devem obedecer a critérios transparentes e produzir resultados avaliáveis, sem criar uma dependência permanente do Estado.</p>
<p>Ana Andrade identifica a agricultura, o turismo, a indústria e a construção como setores com potencial de financiamento. Destaca a produção de café e baunilha e projetos turísticos que conciliem atividade económica, proteção ambiental e preservação da biodiversidade, incluindo iniciativas ligadas à economia azul.</p>
<p>Na sua perspetiva, empresas mais formalizadas, informação financeira transparente e projetos economicamente viáveis facilitariam o acesso ao crédito e contribuiriam para aumentar a produção nacional.</p>
<p><strong>Pouco crédito à produção e dependência das importações</strong></p>
<p>A concentração dos empréstimos nos indivíduos, no comércio e nas finanças e na construção não afeta apenas as empresas que procuram financiamento. Num país com reduzida capacidade produtiva, torna mais difícil desenvolver os setores capazes de substituir importações e aumentar as exportações.</p>
<p>No primeiro semestre de 2026, Timor-Leste importou mercadorias no valor de 565,6 milhões de dólares. As exportações domésticas não petrolíferas ficaram em 15,5 milhões. Incluindo as reexportações, as vendas não petrolíferas ao exterior atingiram 19,7 milhões de dólares.</p>
<p>Por cada dólar exportado nessa categoria, o país importou quase 29 dólares em mercadorias.</p>
<p>Hélder Lopes destaca a pequena dimensão das exportações e a sua concentração no café.</p>
<p>“O volume das exportações é muito pequeno quando comparado com as importações. Além disso, as nossas exportações estão concentradas, praticamente temos o café, enquanto os outros produtos têm uma presença muito reduzida”, afirma.</p>
<p>O BCTL prevê que o PIB real não petrolífero cresça 5% em 2026, depois de uma expansão estimada de 4,5% em 2025. Reconhece, contudo, que a capacidade produtiva nacional continua limitada, pelo que parte do aumento da procura é satisfeita através de importações.</p>
<p>O governador defende maior articulação entre o Banco Central, os bancos e o Governo para financiar atividades produtivas. Na sua perspetiva, a prioridade deve ser produzir para o mercado interno antes de ampliar as vendas ao exterior.</p>
<p>“Primeiro temos de substituir as importações, produzindo no país aquilo que atualmente importamos. Depois, quando produzirmos mais do que conseguimos consumir internamente, podemos promover as exportações”, defende.</p>
<p>Por enquanto, a estratégia defendida pelo governador convive com uma realidade diferente: grande parte dos ativos líquidos dos bancos permanece no exterior, a indústria e a agricultura recebem uma parcela reduzida do crédito e empresários relatam dificuldades relacionadas com os juros, as garantias, a burocracia e as condições de pagamento. Do lado dos bancos, a falta de contabilidade organizada e de informação financeira continua a ser apontada como um obstáculo à concessão de empréstimos.</p>
<p>O conteúdo <a href="https://www.diligenteonline.com/bancos-tem-dinheiro-mas-pouco-chega-a-producao-e-os-juros-continuam-acima-de-10/">Bancos têm dinheiro, mas pouco chega à produção e os juros continuam acima de 10%</a> aparece primeiro em <a href="https://www.diligenteonline.com">DILIGENTE</a>.</p>
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		<title>Longas filas e horas de espera marcam recrutamento de profissionais de saúde no HNGV</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Lourdes do Rego]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 22 Sep 2026 11:54:12 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Destaque]]></category>
		<category><![CDATA[Notícias]]></category>
		<category><![CDATA[Sociedade]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Recrutamento atrai sobretudo recém-licenciados. Candidatos relatam horas de espera, aglomeração e casos de desmaio. Ministério da Saúde garante que seleção seguirá regras e procedimentos estabelecidos. Desde as primeiras horas da manhã, centenas de candidatos concentraram-se no Hospital Nacional Guido Valadares [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p><em>Recrutamento atrai sobretudo recém-licenciados. Candidatos relatam horas de espera, aglomeração e casos de desmaio. Ministério da Saúde garante que seleção seguirá regras e procedimentos estabelecidos.</em></p>
<p>Desde as primeiras horas da manhã, centenas de candidatos concentraram-se no Hospital Nacional Guido Valadares (HNGV), em Díli, para entregar a documentação necessária ao processo de recrutamento de profissionais de saúde. Para as 478 vagas disponíveis, candidataram-se 8 084 pessoas, segundo dados divulgados pelo HNGV.</p>
<p>Entre os candidatos estavam sobretudo recém-licenciados, muitos dos quais procuram a primeira oportunidade de emprego permanente na área em que se formaram.</p>
<p>As filas começaram a formar-se por volta das 06h no local destinado à inscrição. Com pastas que continham os documentos exigidos, os candidatos aguardaram durante várias horas pela sua vez.</p>
<p>A longa espera, o calor e a aglomeração fizeram com que alguns candidatos apresentassem sinais de cansaço. Houve também pessoas com dificuldades respiratórias e algumas que chegaram a desmaiar. Outros candidatos ajudaram-nas a deslocar-se para locais onde pudessem recuperar.</p>
<p>Depois de recuperarem, algumas regressaram à fila para continuar o processo de inscrição. O recrutamento contempla 478 vagas para diferentes profissionais de saúde, incluindo médicos, enfermeiros, auxiliares de enfermagem, parteiras e outros técnicos de saúde.</p>
<p>A forte procura ocorre num contexto em que muitos licenciados na área da saúde continuam à procura de emprego. Dados do MESC indicam que 15 322 pessoas concluíram a sua formação e participaram em cerimónias de graduação na área da saúde, no período registado pelo ministério.</p>
<p>Entre os candidatos estava Januário Fernandes, de 23 anos, licenciado em Enfermagem desde 2025. “Depois de terminar os estudos, não fazia nada. Ficava em casa todos os dias. Queria trabalhar, mas ainda não tinha conseguido encontrar emprego. Por isso, agradeço muito ao HNGV por ter aberto este recrutamento e por nos dar a oportunidade de concorrer”.</p>
<p>Apesar das dificuldades provocadas pela elevada afluência, o jovem decidiu permanecer na fila. “Formámos uma fila muito longa, ficámos apertados uns contra os outros e tivemos de aguentar a fome. O processo não foi fácil, mas, vejo isto como uma oportunidade de conseguir um emprego permanente”, afirmou.</p>
<p><strong>Recém-licenciados procuram primeira oportunidade</strong></p>
<p>Liandra da Costa Ximenes, licenciada em Enfermagem Geral e formada em 2025, encontra-se numa situação semelhante. O recrutamento do HNGV é uma das primeiras oportunidades que encontrou para tentar trabalhar na área em que se formou.</p>
<p>A longa espera não diminuiu a sua determinação. Liandra chegou ao local por volta das 06h e permaneceu na fila durante várias horas. “Continuo aqui, porque vejo o grande esforço dos meus pais para me dar educação. Às vezes, sinto-me cansada com processos como este, mas não penso em desistir”, afirmou.</p>
<p>A candidata relatou ainda situações de mal-estar entre as pessoas que aguardavam pela sua vez. “Havia pessoas a empurrarem-se umas às outras. Algumas tiveram dificuldades em respirar e desmaiaram. Alguns colegas ajudaram-nas a deslocarem-se para um local onde se sentissem mais confortáveis. Depois de recuperarem um pouco, voltaram à fila”, disse.</p>
<p>Para Leopoldina Soares, de 40 anos, a procura de emprego na área da saúde já dura há vários anos. Natural de Baucau e licenciada em Enfermagem desde 2016, já trabalhou como voluntária em algumas clínicas e participou anteriormente num processo de recrutamento do Ministério da Saúde, sem conseguir passar à fase seguinte. “Por isso, continuo a tentar e vim novamente procurar uma oportunidade”, afirmou.</p>
<p>Sem conseguir um emprego permanente, Leopoldina criou, entretanto, um pequeno negócio na sua zona de residência para ajudar a suportar as despesas diárias. “Num dia, posso ganhar até 50 dólares e, quando o movimento é maior, posso chegar aos 100 dólares ou mais”, contou.</p>
<p>A candidata diz que os pais fizeram igualmente grandes sacrifícios para garantir a sua formação e que, atualmente, procura sustentar-se através da sua atividade. “Os meus pais venderam e compraram carros, construíram uma casa e colocaram-nos na escola”, disse.</p>
<p>Apesar de voltar a concorrer, Leopoldina não cria grandes expectativas quanto ao resultado.  A candidata deslocou-se de Baucau para Díli para participar no processo de recrutamento. Chegou no dia anterior e ficou em casa de familiares, antes de se dirigir ao HNGV para entregar a documentação.</p>
<p><strong>Candidata questiona modelo de recrutamento</strong></p>
<p>A experiência anterior levou Leopoldina a questionar alguns aspetos do sistema de recrutamento de profissionais de saúde. Para a candidata, o elevado número de pessoas que procura emprego demonstra a necessidade de criar mais oportunidades.</p>
<p>“Quanto a passar ou não, talvez tenha 50 por cento de possibilidades, porque ainda estamos na fase de análise dos documentos. Em Timor-Leste, o nepotismo ainda é muito forte. Não sabemos quem tem contactos e está a ser ajudado”, afirmou.</p>
<p>Leopoldina defende que os futuros processos de recrutamento sejam mais acessíveis e que possam ser criadas mais oportunidades para os profissionais de saúde.</p>
<p>Uma das mudanças que propõe é a possibilidade de realizar parte do processo de inscrição através da internet, sobretudo para reduzir os custos suportados por candidatos provenientes de outros municípios.</p>
<p><strong>Ministério garante transparência no processo</strong></p>
<p>As preocupações manifestadas pelos candidatos foram também colocadas ao Ministério da Saúde.</p>
<p>A ministra da Saúde, Élia dos Reis Amaral, garantiu que o recrutamento será realizado “de forma justa, legal, de acordo com as regras existentes, para que possa decorrer de forma transparente”, afirmou a ministra aos jornalistas.</p>
<p>Segundo Élia dos Reis Amaral, o Ministério da Saúde criou uma comissão de recrutamento responsável por conduzir o processo de seleção.</p>
<p>Após o encerramento das inscrições, o HNGV iniciou a análise da documentação apresentada pelos candidatos. O diretor do Serviço de Apoio Diagnóstico e Terapêutico do HNGV, Vidal de Jesus Lopes, explicou que esta fase decorre entre 21 e 26 de setembro.</p>
<p>Os candidatos que forem aprovados na análise documental avançarão para a fase seguinte, que consiste num exame escrito. O júri é composto por representantes do HNGV, do Ministério da Saúde e da Comissão da Função Pública.</p>
<p>Questionado sobre as preocupações relacionadas com o possível favorecimento de candidatos, Vidal rejeitou essa possibilidade, “porque estamos a seguir todos os procedimentos normais”, afirmou.</p>
<p>Segundo Vidal, o número de vagas disponibilizadas foi definido tendo em conta a capacidade orçamental do HNGV. A necessidade de contratação de novos profissionais é determinada em função dos recursos disponíveis e da capacidade do hospital para assegurar o financiamento dos lugares.</p>
<p>Com 8 084 candidatos para 478 vagas, o recrutamento coloca milhares de profissionais de saúde perante um processo altamente concorrido. Para muitos dos candidatos, no entanto, a inscrição representa mais do que uma tentativa de conseguir um emprego: é uma oportunidade de começar a exercer uma profissão para a qual passaram anos a preparar-se.</p>
<p>As questões relativas à possibilidade de realizar as inscrições online e à existência de mecanismos de primeiros socorros para responder a eventuais problemas de saúde dos candidatos durante a espera ficaram, contudo, sem resposta por parte do responsável do HNGV.</p>
<p>O período de inscrição para o recrutamento de profissionais de saúde do Hospital Nacional Guido Valadares decorreu entre 7 e 18 de setembro de 2026.</p>
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		<title>Quando cantar também era resistir: as canções que guardaram a memória da ocupação</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Lourdes do Rego]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 21 Sep 2026 12:13:34 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Destaque]]></category>
		<category><![CDATA[História]]></category>
		<category><![CDATA[Notícias]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Durante a ocupação indonésia, a música ajudou a preservar experiências da guerra, a identidade timorense e uma consciência de resistência. Muitas canções recorriam a mensagens indiretas para falar da fome, da morte, da separação e da vida quotidiana. Num livro [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p><em>Durante a ocupação indonésia, a música ajudou a preservar experiências da guerra, a identidade timorense e uma consciência de resistência. Muitas canções recorriam a mensagens indiretas para falar da fome, da morte, da separação e da vida quotidiana. Num livro baseado em testemunhos orais, o investigador Apolinário Ximenes recupera algumas dessas histórias e defende que a arte continua a poder dar voz às injustiças do presente.</em></p>
<p>Quando as operações militares indonésias destruíram as bases de apoio da resistência, muitas pessoas ficaram sem comida, adoeceram ou morreram. Algumas foram deixadas para trás.</p>
<p>Essas experiências ficaram registadas em canções como “Tansa La Dame”, de Chico Ramelau e Quito Sousa, uma das obras analisadas por Apolinário Ximenes no livro Musika Popular Rezisténsia iha Periode Okupasaun, publicado pelo Centro Nacional Chega!.</p>
<p>“Esta música fala sobre o que ele viu acontecer na base de apoio durante as operações intensivas, quando a Indonésia destruiu as bases de apoio. Muitas pessoas ficaram sem comida, muitas passaram fome, adoeceram e algumas morreram e foram simplesmente deixadas para trás. Por isso, a música reflete essa situação”, explicou o autor.</p>
<p>Francisco Guterres, conhecido como Chico Ramelau, nasceu a 5 de agosto de 1968, em Tunumeta-Berlameta, na região de Laulara, município de Aileu. A música “Tansa La Dame”, de Chico Ramelau e Quito Sousa, começou a ser gravada em 1993 e foi concluída em 1995, no estúdio Atika Record.</p>
<p>Sobrevivente da guerra, Chico Ramelau transformou em música as experiências e o sofrimento das populações nas bases de apoio entre 1976 e 1979.</p>
<p>A canção tornou-se popular em 1996. Posteriormente, Chico Ramelau e Quito Sousa foram alvo de intimidação, segundo Apolinário, depois de as autoridades militares indonésias considerarem a música uma forma de oposição ao regime de ocupação.</p>
<p><strong>Falar da guerra através da música</strong></p>
<p>O refrão de “Tansa La Dame” fala de lágrimas, sofrimento, fome, paz e esperança.</p>
<p>Ho matan been tanis harohan/ Ba Na’i Maromak husu nia tulun/  La’o lemorai kulit taka ruin/ Isin laiha rate mós laiha/ Bainhira dame ita sei haksolok/ Moris iha dame nia laran/ Kaer liman ba dame malu ba/ Laiha moris se la hadomi.</p>
<p>Versão em português: Com lágrimas nos olhos, choramos e rezamos/ Pedimos ajuda ao Senhor Deus/ Andamos descalços, com a pele a cobrir os ossos<strong>/ </strong>Sem corpo e sem sepultura<strong>/ </strong>Quando houver paz, seremos felizes<strong>/ </strong>Viveremos no seio da paz<strong>/ </strong>Daremos as mãos pela paz<strong>/ </strong>Não há vida sem amor.</p>
<p>Para Apolinário, a força da música estava também na sua capacidade de chegar a pessoas que não sabiam ler ou que tinham tido pouco acesso à educação formal.</p>
<p>“A música é muito eficaz. Por exemplo, uma pessoa que não frequentou a escola, quando ouve música, já toma consciência sobre as situações vividas e incentiva as pessoas a questionarem as injustiças que o povo enfrenta”, afirmou.</p>
<p>Durante a ocupação indonésia de Timor-Leste, entre 1975 e 1999, a resistência não se limitou à luta armada nas montanhas. Desenvolveu também dimensões políticas, sociais, educativas e culturais.</p>
<p>Nas bases de apoio, a música era utilizada para comunicar experiências, reforçar a unidade e ajudar a população a interpretar o que estava a acontecer. Este papel assumia particular importância num território onde uma parte significativa da população tinha tido pouco acesso à escolarização durante o período colonial português.</p>
<p>As canções não precisavam de apelar diretamente à resistência. Podiam falar da fome, da morte, da separação, da vida quotidiana ou das diferenças culturais. Dessa forma, preservavam experiências coletivas e transmitiam mensagens que podiam ser compreendidas sem uma referência política explícita.</p>
<p>As gravações eram realizadas nos estúdios que funcionavam em Timor-Leste durante a ocupação indonésia. As atividades desses espaços e a divulgação das músicas estavam sujeitas à vigilância das autoridades militares, num contexto de censura.</p>
<p>“Os artistas nem sempre transmitiam diretamente aquilo que estava a acontecer. Utilizavam a música para transmitir mensagens de forma indireta. As canções podiam falar sobre a vida quotidiana ou sobre outras questões, mas adquiriam um significado diferente quando eram ouvidas no contexto da ocupação”, afirmou Apolinário.</p>
<p>As músicas circulavam posteriormente através de gravações e cassetes. Eram ouvidas durante diversas atividades em diferentes municípios, permitindo que as mensagens chegassem às comunidades.</p>
<p><strong>Quando uma canção sobre comida podia dizer muito mais</strong></p>
<p>Depois de as bases de apoio terem sido destruídas pelas operações militares indonésias, os guerrilheiros permaneceram nas montanhas, enquanto as redes estabelecidas nas zonas habitadas ganharam importância na luta clandestina.</p>
<p>Segundo Apolinário, a música popular desenvolveu-se também entre jovens ligados a essas redes e entre sobreviventes que tinham vivido nas bases de apoio.</p>
<p>Algumas composições preservaram memórias da violência. Outras transmitiram ideias sobre a identidade timorense através de referências aparentemente quotidianas.</p>
<p>Um desses exemplos é “Tahu Tempe”, composta por Pedro Madeira, conhecido como Apeu Tahu Tempe, um artista de Ermera.</p>
<p>A canção foi escrita em novembro de 1996. Pedro Madeira nasceu a 27 de setembro de 1975, na aldeia de Leguimea, município de Ermera.</p>
<p>A composição foi inicialmente inspirada na atribuição do Prémio Nobel da Paz a dois líderes da luta de Timor-Leste. O autor alterou posteriormente algumas partes da música, depois de perceber que uma canção com significados ou conotações considerados contrários à ocupação poderia colocá-lo em risco sob o regime militar indonésio.</p>
<p>O título e algumas partes da música foram alterados de “Nobel da Paz” para “Tahu Tempe”. Ainda assim, as autoridades militares indonésias acabaram por deter o autor e interrogá-lo na sede do KODIM.</p>
<p>O interrogatório esteve relacionado com algumas palavras da expressão “tamba tasi sorin”, que foram interpretadas como tendo o significado de “Malae” ou “bapa”, numa referência à Indonésia. No final, o autor foi libertado.</p>
<p>O refrão diz Lalika temi tan paun ho keju/ Tahu tempe mai hosi tasi sorin ida/ Ida nee mak malae ho bapa nia ai-han/ Dader ami ba toos/ Kee fehuk ai-farina batar no talas lori ba uma leba mos ai-maran.</p>
<p>Em português: Não vale a pena falar mais de pão e queijo/ O tahu e o tempe vêm do outro lado do mar<strong>/ </strong>São estes os alimentos dos malae e dos bapa<strong>/ </strong>De manhã, vamos para a horta<strong>/ </strong>Colhemos batata, mandioca, milho e taro, levamo-los para casa e também trazemos lenha.</p>
<p>À primeira vista, “Tahu Tempe” fala de alimentação e do trabalho agrícola. No contexto da ocupação, porém, algumas das palavras podiam adquirir outro significado.</p>
<p>“Estas canções não são diretamente ou especificamente contra a Indonésia, mas constituem uma reflexão sobre como preservar a consciência antiocupação que continua presente nos nossos sentimentos”, explicou Apolinário.</p>
<p>A capacidade de transmitir mensagens indiretas ajudava a preservar uma consciência contrária à ocupação, mesmo quando a resistência aberta era limitada. Para Apolinário, a música contribuiu, juntamente com outras formas de luta, para preservar essa consciência até à Consulta Popular de 1999.</p>
<p>Apesar da pressão e da violência que marcaram o período anterior à votação, a maioria dos eleitores escolheu a independência. “Penso que a música também contribuiu para o nosso processo de independência”, afirmou.</p>
<p><strong>Uma história guardada pela memória oral</strong></p>
<p>Publicado em 2023, Musika Popular Rezisténsia iha Periode Okupasaun resultou de cerca de um ano e meio de investigação.</p>
<p>Apolinário entrevistou testemunhas, participantes e pessoas que ouviram as músicas e viveram as experiências nelas representadas. Entrevistou mais de dez músicos e consultou também literatura sobre o papel da música nos movimentos de resistência e em lutas contra a injustiça noutros países.</p>
<p>Para o investigador, a pesquisa histórica não pode limitar-se à recolha de dados. É também necessário compreender a relação entre as criações artísticas e as experiências da sociedade.</p>
<p>Apolinário Ximenes Cabral iniciou os estudos na Universidade Nacional Timor Lorosa’e em 2006 e chegou ao sétimo semestre. Mais tarde, trabalhou como investigador numa comissão de pesquisa sobre a história e a participação das mulheres na luta pela libertação nacional, investigação que contribuiu para o livro Buibere Hamrik Ukun Rasik An.</p>
<p>Depois de passar por organizações da sociedade civil, incluindo o Fórum Tau Matan e a Mercy Corps, juntou-se, em 2017, ao Centro Nacional Chega!, onde continua a investigar a história de Timor-Leste.</p>
<p>Além de Musika Popular Rezisténsia iha Periode Okupasaun, Apolinário tem desenvolvido pesquisas sobre a história das comunidades e outros episódios relacionados com a ocupação indonésia.</p>
<p>“Os artistas não tinham grande poder num momento que era muito difícil, mas, através das suas capacidades, conseguiram tornar pública a situação de injustiça que existia durante a ocupação”, explicou.</p>
<p><strong>Música, poesia e memória da resistência</strong></p>
<p>Para José Agostinho Sequeira, conhecido como Somotxo, a música e a poesia também fazem parte do processo de recuperação da memória da resistência timorense.</p>
<p>“Algumas músicas começaram a surgir em 1974 até 1975. Nesse momento, apareceram músicas cujo conteúdo expressava o estatuto entre colonizado e colonizador e também surgiram músicas da revolução”, afirmou.</p>
<p>Durante a guerra e a ocupação indonésia, a música ganhou outras funções. Muitas canções passaram a expressar experiências vividas pela resistência, incluindo solidariedade, amor e coragem, mas também a necessidade de continuar a luta apesar das dificuldades.</p>
<p>“As músicas da resistência expressavam sentimentos reais enfrentados pela resistência e exigiam coragem e sacrifício dos guerrilheiros. Também apelavam às pessoas nas vilas para conhecerem os sacrifícios que eles enfrentavam e pensarem no que poderiam contribuir”, explicou.</p>
<p>As canções funcionavam, assim, não apenas como expressão artística, mas também como forma de preservar experiências que poderiam desaparecer com o tempo.</p>
<p>O próprio Somotxo reconhece, contudo, que não conhece em detalhe todos os intervenientes na criação e circulação dessas músicas. A identificação dos autores, intérpretes e contextos em que cada obra surgiu continua, por isso, a ser necessária para completar a história da música de resistência em Timor-Leste.</p>
<p><strong>Que lugar ocupa hoje a música de intervenção?</strong></p>
<p>A história da música de resistência não termina com a independência.</p>
<p>Para Apolinário, os artistas continuam a abordar injustiças e outros problemas da sociedade timorense, embora nem sempre exista uma estrutura coletiva capaz de transformar essas vozes individuais num movimento mais amplo.</p>
<p>O autor apontou como exemplo algumas obras de Klamar sobre temas como a diversidade e os despejos. Contudo, considera que a produção individual de canções não é suficiente para desencadear uma mudança social mais profunda.</p>
<p>“Artistas, estudantes e todos os cidadãos têm a responsabilidade de despertar um espírito capaz de lutar contra as injustiças no nosso país”, afirmou.</p>
<p>Entre as canções da ocupação e a produção artística contemporânea existe, na perspetiva de Apolinário, uma ideia comum: a possibilidade de transformar aquilo que se vive em algo que possa ser partilhado e que contribua para questionar a realidade.</p>
<p>Durante a ocupação, os artistas tinham poucos recursos e pouco espaço para se expressarem. Ainda assim, encontraram formas de registar experiências, transmitir mensagens e preservar memórias.</p>
<p>Hoje, num contexto diferente, a música e outras formas de arte continuam a poder desempenhar esse papel.</p>
<p>Apolinário resume essa ideia numa frase. “Para contribuir para a mudança, não é preciso fazer algo grandioso; através da arte também podemos dar o nosso contributo.”</p>
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		<title>Subsídio escolar ajuda escolas a responder a necessidades, mas persistem problemas de água, saneamento e segurança</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Lourdes do Rego]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 19 Sep 2026 10:07:05 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Destaque]]></category>
		<category><![CDATA[Educação]]></category>
		<category><![CDATA[Notícias]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>O financiamento da Conceção Escolar é utilizado pelas escolas para responder a necessidades operacionais, apoiar o ensino, garantir condições de higiene e saneamento e realizar a manutenção das instalações. No entanto, em algumas escolas, problemas como casas de banho danificadas, [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p><em>O financiamento da Conceção Escolar é utilizado pelas escolas para responder a necessidades operacionais, apoiar o ensino, garantir condições de higiene e saneamento e realizar a manutenção das instalações. No entanto, em algumas escolas, problemas como casas de banho danificadas, falhas no abastecimento de água e falta de segurança continuam por resolver.</em></p>
<p>O programa de Subsídio ou Conceção Escolar para escolas públicas e privadas é regulamentado pelo Diploma Ministerial Conjunto N.º 40/2017, de 28 de junho. De acordo com o diploma, o financiamento pode ser utilizado para a aquisição de materiais pedagógicos e administrativos, apoio a atividades escolares, impressão de materiais para exames, aquisição de produtos de higiene e manutenção, bem como pequenas reparações de mobiliário, equipamentos e instalações escolares.</p>
<p>O montante do financiamento é calculado com base no número de alunos e é atribuído por período. Na prática, cada escola começa por elaborar um plano com as necessidades identificadas, que é posteriormente submetido através da estrutura da educação para aprovação.</p>
<p><strong>Farol utiliza financiamento para higiene e saneamento</strong></p>
<p>Na Escola Básica Central (EBC) de Farol, que tem 1.795 alunos, 22 salas de aula, duas salas de professores e três casas de banho, o financiamento da Conceção Escolar é utilizado, entre outras despesas, para responder às necessidades de saneamento e higiene.</p>
<p>A diretora da escola, Brígida Faustino Guterres Coelho, explicou que os produtos de higiene estão incluídos nas despesas que podem ser financiadas pela Conceção Escolar e que o orçamento aprovado para cada período é utilizado para a aquisição desses produtos.</p>
<p>“No que diz respeito à Conceção Escolar, há também uma rubrica para saneamento e higiene. Utilizamos o financiamento para comprar os produtos de higiene e, por isso, em cada trimestre, usamos o orçamento aprovado para essas necessidades”, afirmou.</p>
<p>Segundo Brígida, o abastecimento de água na escola tem sido estável. No entanto, alguns dos pequenos equipamentos utilizados pelos alunos danificam-se facilmente. Com o elevado número de estudantes, a escola tem dificuldade em identificar quem provoca os danos.</p>
<p>“Aqui, a água é estável. Os pequenos equipamentos danificam-se facilmente e temos dificuldade em controlar, porque há muitos alunos e não conseguimos saber quem os danificou”, explicou.</p>
<p>Em termos de segurança, a escola dispõe apenas de um segurança, que também é responsável por vigiar a entrada da escola.</p>
<p>Apesar de a direção considerar que, de um modo geral, a situação da escola permite responder às necessidades correntes, as condições das casas de banho continuam a preocupar alguns alunos.</p>
<p><strong>Kulu-Hun dá prioridade ao saneamento e à aprendizagem</strong></p>
<p>Na Escola Básica Filial (EBF) de Kulu-Hun, que tem 787 alunos e 13 salas de aula, o financiamento correspondente ao primeiro período já foi recebido e utilizado na totalidade. A coordenadora da escola, Ângela de Fátima Fernandes, disse que o relatório sobre a utilização do financiamento também já foi enviado à escola central.</p>
<p>Ângela explicou que é responsável pela utilização do financiamento, mas que o plano de despesas é elaborado com base nas necessidades identificadas pelos professores. Entre as várias prioridades da escola estão o saneamento, a higiene e o apoio à aprendizagem dos alunos.</p>
<p>“Recentemente, recebemos o financiamento correspondente ao primeiro período da Conceção Escolar e já o executámos na totalidade. O relatório já foi enviado para a escola central”, afirmou.</p>
<p>Depois de o financiamento ser disponibilizado, os professores acompanham também a sua utilização. A escola apresenta o montante recebido e o plano elaborado, pelo que as despesas devem seguir as rubricas previstas nesse plano.</p>
<p>“Quando o financiamento chega, temos uma regra que envolve todos os professores para acompanharem em que é utilizado. Assim, a utilização deve basear-se no plano”, explicou.</p>
<p><strong>Tuana Laran enfrenta dificuldades nas instalações</strong></p>
<p>Um mecanismo semelhante é aplicado na Escola Ensino Filial 1.2 Tuana Laran. O coordenador da escola, Pedro Moniz Daci, explicou que a escola começa por elaborar um plano, que é enviado à escola central e posteriormente encaminhado para o nível municipal para aprovação.</p>
<p>Depois de concluído o processo de aprovação, a escola central faz o levantamento e distribui o financiamento a cada escola filial com base no número de alunos.</p>
<p>A Tuana Laran tem 572 alunos, seis salas de aula e uma sala de professores. “Elaboramos o plano e levamo-lo para a escola central, onde todos os planos são reunidos e depois enviados para o município. No município, é feita a aprovação. Só depois disso é que a escola central faz o levantamento, reúne todas as escolas na escola central e distribui o financiamento a cada filial com base no número de alunos”, explicou Pedro.</p>
<p>O coordenador acrescentou que a utilização do financiamento também deve ser devidamente justificada. Os professores acompanham as despesas e, depois de receber o financiamento, a escola deve apresentar o montante recebido e o respetivo plano de utilização.</p>
<p><strong>Reparações maiores dependem do Ministério</strong></p>
<p>Apesar de o financiamento permitir responder a algumas necessidades, a capacidade das escolas para reparar as instalações depende do tipo e da dimensão da avaria.</p>
<p>Em Kulu-Hun, Ângela de Fátima Fernandes explicou que os danos menores podem ser resolvidos com o financiamento disponível, enquanto as reparações de maior dimensão têm de ser realizadas gradualmente.</p>
<p>“Quanto à questão de saber se a Conceção Escolar é suficiente ou não, isso depende do tipo de intervenção necessária. Quando são coisas pequenas, conseguimos repará-las. Mas, se for algo maior, fazemos a reparação por etapas, para conseguirmos concluí-la”, afirmou.</p>
<p>Quando a intervenção é de maior dimensão, as escolas têm de apresentar um pedido diretamente ao Ministério da Educação, através da área de infraestruturas. “Quando é algo maior, fazemos uma proposta ao Ministério da Educação e é a área de infraestruturas que vem fazer a reparação”, explicou.</p>
<p>Na Tuana Laran, as necessidades que continuam por satisfazer incluem as casas de banho, o abastecimento de água e a segurança da escola.</p>
<p>Pedro disse que duas casas de banho estão entupidas e que a escola continua a tentar repará-las. Além disso, os alunos mais pequenos, por vezes, deitam lixo fora dos locais apropriados, obrigando a escola a realizar limpezas regularmente.</p>
<p>“Há duas casas de banho que já estão entupidas e continuamos a tentar repará-las. Como as crianças ainda são pequenas, às vezes deitam o lixo para qualquer lado e temos de continuar a limpar”, afirmou.</p>
<p>A escola utiliza também parte do financiamento da Conceção Escolar para comprar materiais utilizados pelos alunos. No entanto, Pedro disse que alguns desses materiais podem deteriorar-se rapidamente, incluindo o sabão utilizado para as necessidades de higiene.</p>
<p><strong>Sistema de água apresenta problemas</strong></p>
<p>Outra dificuldade na Tuana Laran está relacionada com o abastecimento de água.</p>
<p>Segundo Pedro, a escola recebeu anteriormente apoio da KOICA, desde 2015, para o sistema de água. Atualmente, porém, o tanque apresenta fugas e o sistema de abastecimento volta, por vezes, a apresentar problemas.</p>
<p>A escola já tentou fazer reparações, mas o trabalho não é simples, uma vez que os tubos e as estruturas metálicas utilizados são de grandes dimensões e os componentes necessários para a substituição são caros.</p>
<p>Pedro explicou que as necessidades relacionadas com a água também são difíceis de incluir numa proposta quando o montante necessário ultrapassa aquilo que pode ser aprovado tendo em conta o número de alunos.</p>
<p>“Quanto à água, quando fazemos uma proposta, se o montante for demasiado elevado, não conseguimos obter a aprovação, porque o financiamento tem de ser calculado com base no número de alunos”, explicou.</p>
<p>Perante estas limitações, a escola acaba por ter de escolher as necessidades consideradas mais urgentes.</p>
<p><strong>Falta de segurança deixa escola preocupada</strong></p>
<p>Além dos problemas relacionados com as instalações e a água, a segurança continua a ser uma preocupação na Tuana Laran.</p>
<p>A escola não tem atualmente um segurança, enquanto as atividades letivas decorrem aproximadamente das 7h30 às 18h00, em três turnos.</p>
<p>Como não existe um segurança, Pedro permanece na escola até ao fim das atividades para garantir que o portão fica fechado antes de regressar a casa.</p>
<p>Segundo o coordenador, já ocorreram anteriormente danos nas instalações da escola e entradas de pessoas externas depois do horário escolar. Mesmo quando o portão estava trancado, houve pessoas que entraram no recinto saltando o muro.</p>
<p>“Por vezes, quando todos saímos da escola, algumas pessoas voltavam a entrar, chegando a saltar o muro, mesmo quando o portão já estava trancado. Foi por causa deste problema que apresentei a questão às autoridades”, afirmou.</p>
<p>Pedro explicou que a escola já comunicou o problema às autoridades locais depois de deixar de contar com trabalhadores voluntários para vigiar o recinto escolar. Segundo o coordenador, se a escola tiver de contratar alguém para realizar esse trabalho, não dispõe de recursos financeiros para pagar essa função.</p>
<p><strong>Alunos sentem os problemas das instalações</strong></p>
<p>Os problemas relacionados com as instalações referidos pelas escolas também são sentidos diretamente pelos alunos.</p>
<p>Flora da Costa Silva, aluna da Tuana Laran, disse que as condições das casas de banho continuam a ser um dos problemas da escola. Segundo ela, algumas casas de banho estão, por vezes, sujas e não têm sabão. “As casas de banho continuam sujas e não há sabão. O que vemos não é bom”, afirmou.</p>
<p>Flora disse também que, por vezes, pessoas de fora entram no recinto escolar e danificam instalações, incluindo a rede situada na parte superior do edifício. Por isso, considera necessária a presença de um segurança para ajudar a proteger o recinto. “E penso que é realmente necessário ter um segurança para vigiar a escola”, afirmou.</p>
<p>Quanto à limpeza, Flora explicou que os alunos e a escola fazem a limpeza diariamente, incluindo uma limpeza geral aos sábados. No entanto, o recinto volta a ficar sujo depois de ser utilizado pelos alunos. “Quanto ao lixo, fazemos a limpeza todos os dias e, aos sábados, fazemos uma limpeza geral, mas os alunos acabam por voltar a sujar o recinto”, explicou.</p>
<p>A aluna disse ainda que, por vezes, o abastecimento de água na escola não funciona normalmente devido a fugas. Algumas casas de banho também continuam sujas por estarem entupidas.</p>
<p>Na EBC Farol, Zenilda, também aluna da escola, considera que, de um modo geral, o ambiente escolar é bom. No entanto, disse que as casas de banho ainda precisam de reparações. “O ambiente da escola é bom, mas o que precisa de ser reparado são as casas de banho, porque as sanitas não estão em boas condições”, afirmou.</p>
<p>Segundo Zenilda, esta situação leva, por vezes, os alunos a utilizarem as casas de banho dos professores ou a esperarem até chegar a casa para utilizar a casa de banho. “Por vezes, usamos as casas de banho dos professores ou, outras vezes, esperamos até chegar a casa para utilizar a casa de banho”, explicou.</p>
<p><strong>Ministério reconhece problemas nas escolas</strong></p>
<p>O diretor-geral da Educação Pré-Escolar, Ensino Básico e Ensino Recorrente, Apolinário Serpa Rosa, reconheceu que as condições das escolas variam de uma região para outra e que algumas continuam a enfrentar problemas relacionados com higiene, abastecimento de água e funcionamento das casas de banho. “É uma realidade que algumas escolas enfrentam problemas. Há escolas onde o ambiente não é limpo, onde não há água ou onde as casas de banho não funcionam bem”, afirmou.</p>
<p>Segundo Apolinário, as escolas devem gerir o financiamento disponível de acordo com as suas próprias necessidades e prioridades. Explicou que o atual mecanismo utiliza o número de alunos como base para o cálculo. “O orçamento das escolas é através da Conceção Escolar, em que cada estudante recebe dois dólares. Ou seja, o número total de estudantes é multiplicado por dois dólares”, explicou.</p>
<p>O responsável reconheceu, contudo, que esse montante pode não ser suficiente para cobrir todas as necessidades das escolas. “O dinheiro não é suficiente, mas depende da gestão da escola”, afirmou.</p>
<p>Apolinário disse também que o abastecimento de água deve ser uma parte importante da gestão das escolas. Segundo o diretor-geral, uma escola não pode funcionar adequadamente sem acesso à água, uma vez que esta é necessária para a higiene, a preparação da alimentação escolar e a utilização das casas de banho.</p>
<p>“Não podemos construir uma escola sem acesso à água, porque a água é muito importante, sobretudo numa escola. Sem água, não há higiene na preparação da merenda e as casas de banho também não funcionam.”</p>
<p>Quanto à higiene, o Ministério da Educação tem orientado as escolas a realizar limpezas regularmente. Apolinário disse que os alunos também podem participar nessas atividades, uma vez que a educação não se limita às matérias académicas, mas inclui também a formação de hábitos de higiene e de uma vida saudável. “Na escola, não aprendemos apenas ciências. Aprendemos também como viver de forma higiénica e saudável.”</p>
<p>Relativamente à segurança, o diretor-geral disse que a presença de um segurança escolar é importante, mas não é a única forma de proteger as instalações. Segundo Apolinário, a comunidade envolvente e os pais também devem assumir responsabilidade pela proteção do recinto escolar. “É importante ter um segurança escolar, mas não é necessariamente a única solução. A segurança deve ser uma responsabilidade da comunidade.”</p>
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		<title>Menos chuva e mais calor podem afetar próxima época agrícola de Timor-Leste</title>
		<link>https://www.diligenteonline.com/menos-chuva-e-mais-calor-podem-afetar-proxima-epoca-agricola-de-timor-leste/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Antónia Martins]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 18 Sep 2026 12:58:08 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ambiente]]></category>
		<category><![CDATA[Destaque]]></category>
		<category><![CDATA[Notícias]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Previsões da FAO e da UNICEF apontam para a possibilidade de haver menos chuva do que o costume, temperaturas mais elevadas e maior risco de seca entre o final de 2026 e o início de 2027. O cenário poderá afetar [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p><em>Previsões da FAO e da UNICEF apontam para a possibilidade de haver menos chuva do que o costume, temperaturas mais elevadas e maior risco de seca entre o final de 2026 e o início de 2027. O cenário poderá afetar a próxima época agrícola, o acesso à água e a segurança alimentar, sobretudo nas comunidades que dependem da agricultura de sequeiro. No terreno, alguns agricultores dizem, contudo, não ter recebido informação suficiente sobre o El Niño e os seus possíveis impactos na produção. </em></p>
<p>Segundo o relatório &#8220;<a href="https://openknowledge.fao.org/server/api/core/bitstreams/b9c93694-9ef0-40e5-9321-9a0095b02316/content">Riscos para a produção agrícola associados às condições de El Niño e perturbações no transporte marítimo ligadas ao conflito no Médio Oriente</a>”, divulgado a 29 de junho deste ano pela Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), as condições associadas ao fenómeno El Niño poderão persistir pelo menos até ao primeiro trimestre de 2027, aumentando os riscos para a agricultura e para a disponibilidade de água no país. A FAO prevê uma elevada probabilidade de precipitação abaixo da média e temperaturas elevadas entre setembro e novembro de 2026 em grande parte de Timor-Leste. Em geral, o El Niño tende a reduzir a quantidade de chuva em relação ao que é normal.</p>
<p>As previsões da FAO indicam que estas condições poderão afetar as culturas da época secundária de 2026 e dificultar as operações de plantação e o desenvolvimento inicial das culturas da época principal de 2027, cuja plantação está prevista a partir de outubro.</p>
<p>No relatório <a href="https://www.cpc.ncep.noaa.gov/products/analysis_monitoring/lanina/enso_evolution-status-fcsts-web.pdf">“ENOS (El Niño-Oscilação Sul): Evolução Recente, Situação Atual e Previsões”</a>, publicado a 14 de setembro, a Administração Oceânica e Atmosférica Nacional americana (NOAA, em inglês) reforça que foram registadas anomalias elevadas de radiação (OLR), um indicador científico de redução na formação de nuvens que antecipa condições de seca e chuva suprimida em redor de Timor-Leste, num evento de El Niño com mais de 90% de probabilidade de se tornar &#8216;muito forte&#8217;.</p>
<p>Para as famílias que dependem quase exclusivamente da chuva, um atraso ou uma redução da precipitação pode significar menos alimentos para consumo e menos rendimento para adquirir outros produtos essenciais.</p>
<p><strong>“Dependo apenas da chuva”</strong></p>
<p>Em Lautém, Hermínia da Cruz, 45 anos, já começou a preparar o terreno para a próxima plantação. A agricultora pretende cultivar milho, batata-doce, taro, tomate, mandioca e outras culturas, destinando parte da produção ao consumo da família e outra parte à venda no mercado.</p>
<p>O início da plantação, no entanto, depende da regularidade das chuvas. Hermínia explica que normalmente começa a plantar milho no início de novembro, mas poderá antecipar o calendário caso a precipitação seja regular em outubro. “Se a chuva vier de forma estável em outubro, podemos começar a plantar. Mas, se chegar mais tarde, vamos plantar em novembro”, afirmou.</p>
<p>A agricultora já preparou o terreno e falta-lhe apenas melhorar as cercas para impedir a entrada de animais. Como a horta está localizada longe de fontes de água, as culturas dependem exclusivamente da chuva. “Quando a chuva vem de forma estável, as plantações crescem bem. Não tenho outra alternativa. Dependo apenas da chuva”, disse.</p>
<p>Apesar da possibilidade de uma redução da precipitação, Hermínia afirma que ainda não recebeu informações sobre o El Niño ou sobre as previsões para os próximos meses. “Ainda não ouvimos falar sobre isso e não sabemos o que é o El Niño. Sabemos apenas que em outubro ou novembro começa normalmente a chuva, e é por isso que estamos a preparar o terreno”, afirmou.</p>
<p>A agricultora diz já ter enfrentado períodos de pouca chuva. Segundo Hermínia, a falta de precipitação e as temperaturas elevadas prejudicaram o desenvolvimento das culturas e reduziram a produção. “No ano passado, tivemos menos chuva. O milho não cresceu bem, algumas plantas morreram e não tiveram boa produção por causa do calor da terra”, contou.</p>
<p>Apesar das dificuldades, Hermínia pretende continuar a cultivar a terra, por considerar a agricultura essencial para garantir alimentos e rendimento para a família. “Este ano vou continuar a plantar, porque através da agricultura consigo obter alimentos para consumir e também para vender no mercado.”</p>
<p><strong>Previsões apontam riscos para a produção e disponibilidade de água</strong></p>
<p>Segundo a FAO, existe uma elevada probabilidade de precipitação abaixo da média e de temperaturas elevadas entre setembro e novembro de 2026 em grande parte de Timor-Leste. A organização alerta que, dependendo da intensidade do fenómeno El Niño, estas condições poderão afetar negativamente as culturas da época secundária de 2026 e dificultar as operações de plantação e o desenvolvimento inicial das culturas da época principal de 2027.</p>
<p>A dependência da chuva torna a situação particularmente vulnerável para agricultores como Hermínia, que não dispõe de reservas de água para manter as plantações durante um período de seca.</p>
<p>A agricultora enfrenta também dificuldades na conservação de sementes. Como a produção da época anterior foi fraca, não conseguiu reservar parte da colheita para utilizar como semente na nova campanha. No caso do milho, recorre a uma familiar que mantém sementes de reserva. “Tenho uma tia que sempre tem sementes guardadas. Tenho de ir buscar as sementes dela para voltar a plantar.”</p>
<p>Hermínia afirma ainda que, até ao momento, não recebeu sementes, equipamentos ou formação do Governo ou de outras entidades. “Até agora não recebemos nenhum apoio de entidades que tenham vindo à nossa comunidade agrícola. Vivemos com a nossa própria força. Na comunidade, ajudamo-nos uns aos outros a limpar os terrenos, mas nunca recebemos equipamentos ou formação”, afirmou.</p>
<p>Uma quebra da produção teria consequências que vão além da perda de alimentos. Parte da produção da família é vendida para obter dinheiro, utilizado, entre outras despesas, para comprar arroz. “Vendemos produtos como batata-doce, mandioca e tomate e, com o dinheiro que conseguimos, compramos arroz para os nossos filhos.”</p>
<p>Por isso, Hermínia teme que uma colheita fraca reduza simultaneamente a quantidade de alimentos disponível e o rendimento familiar. “Quando a produção é menor, o que vamos vender para conseguir dinheiro e atender às necessidades da família, como alimentação e as necessidades dos filhos? Isso pode provocar fome”, disse.</p>
<p><strong>UNICEF prevê menos chuva entre novembro e abril</strong></p>
<p>Em Covalima, Maria Ribeira, 50 anos, também afirma que ainda não recebeu informação sobre o El Niño. A agricultora continua a preparar os terrenos e o arrozal enquanto aguarda o início da época de cultivo. “Até agora ainda não temos informação sobre este fenómeno. Continuamos a preparar os nossos terrenos e arrozais à espera da época de cultivo”, afirmou.</p>
<p>Maria considera necessário reforçar a informação junto das comunidades agrícolas, sobretudo sobre o fenómeno e os seus possíveis impactos. “Se não houver chuva, o que vamos produzir para consumir? Isso será um grande problema para nós, agricultores”, afirmou.</p>
<p>As preocupações dos agricultores surgem num contexto em que as previsões apontam para riscos de seca e de redução da precipitação nos próximos meses. O Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF) alerta que as condições associadas ao El Niño poderão reduzir a precipitação sazonal em Timor-Leste entre novembro de 2026 e abril de 2027, aumentando o risco de seca, temperaturas elevadas, escassez de água, precipitação irregular e redução da produção agrícola.</p>
<p>A organização destaca que as crianças poderão sofrer consequências ao nível da nutrição, saúde, acesso à água, educação e proteção. A UNICEF defende, por isso, uma ação antecipada, sobretudo entre outubro e dezembro de 2026, para reforçar a segurança hídrica e proteger as crianças e os serviços essenciais.</p>
<p>Já o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) identifica as regiões sul e leste de Timor-Leste como áreas com maior risco de seca, com potenciais impactos sobre a agricultura e os meios de subsistência. A organização alerta também para o aumento do risco de incêndios devido à vegetação seca.</p>
<p>Dados do Censo Agrícola de 2019, citados pelo PNUD, indicam que 66% dos agregados familiares dependem da agricultura como principal fonte de rendimento, aumentando a exposição das comunidades rurais aos efeitos de uma eventual seca.</p>
<p>O PNUD, no relatório de julho deste ano, <a href="https://www.undp.org/timor-leste/news/drought-and-fire-risk-timor-leste-what-el-nino-means-our-communities">“Risco de Seca e de Incêndio em Timor-Leste: O que o El Niño Significa para as Nossas Comunidades”</a>, recorda ainda que o país já enfrentou impactos significativos durante o episódio de El Niño de 2023–2024, quando a precipitação ficou mais de 30% abaixo do normal entre outubro de 2023 e janeiro de 2024. O fenómeno gerou condições de seca em 10 dos 13 municípios de Timor-Leste e numa região administrativa especial, provocando perdas de colheitas, perda de gado e escassez de água em muitas comunidades.</p>
<p>O episódio anterior é referido pelas organizações internacionais como contexto para avaliar os possíveis impactos do atual fenómeno, mas as previsões para 2026 e 2027 apontam para a necessidade de preparação antecipada.</p>
<p>O PNUD recomenda, por sua vez, a conservação e o armazenamento de água, práticas agrícolas resilientes, a proteção da vegetação e o acompanhamento dos sistemas de alerta precoce.</p>
<p><strong>Comunidade de Lepo já sente dificuldades no acesso à água</strong></p>
<p>No suco de Lepo, em Covalima, o chefe do suco, Jacob da Costa, afirma que a comunidade já começa a sentir dificuldades no acesso à água.</p>
<p>Segundo Jacob, a ausência de chuva poderá dificultar ou mesmo impedir o início das plantações para os agricultores que estão atualmente a preparar os terrenos. “Se houver um período longo de seca, os agricultores que estão agora a preparar os terrenos para plantar alimentos vão enfrentar dificuldades, porque não poderão plantar quando não houver chuva”, afirmou.</p>
<p>Além da agricultura, a disponibilidade de água é uma das principais preocupações da comunidade. “Agora é período de seca e a comunidade já começa a enfrentar problemas de falta de água. A água canalizada para a comunidade já não é suficiente para que todas as pessoas tenham acesso, porque a água está a diminuir.”</p>
<p>A escassez afeta também os animais e aumenta a pressão sobre os recursos disponíveis para as famílias que dependem da pecuária. “Se houver um período longo de seca e menos chuva nesta época, as fontes de água podem secar e a comunidade poderá começar a disputar o acesso à água”, afirmou.</p>
<p><strong>Autoridades locais pedem mais apoio para a preparação</strong></p>
<p>Perante o risco para a próxima época agrícola, Jacob da Costa defende o reforço dos programas de preparação das comunidades agrícolas por parte do Governo e dos parceiros de desenvolvimento.</p>
<p>O responsável afirma que, até ao momento, não houve assistência suficiente nem uma intervenção coordenada a nível nacional diretamente junto da comunidade. “Agora ouvimos nos meios de comunicação que este ano e até ao próximo poderemos enfrentar este cenário, mas ouvimos apenas a informação. Ainda não existe assistência para este problema”, revelou.</p>
<p>Apesar de as autoridades locais transmitirem algumas recomendações às comunidades, Jacob afirma que ainda não houve uma coordenação formal entre a autoridade local, o Ministério da Agricultura e os agricultores especificamente para preparar a comunidade para o El Niño.</p>
<p>“Até agora ainda não houve coordenação. Ouvimos apenas através dos meios de comunicação. Pessoas do nível nacional ainda não vieram falar com a comunidade no suco ou no posto administrativo.”</p>
<p>Segundo Jacob, a informação sobre as previsões climáticas deve chegar diretamente às comunidades, permitindo aos agricultores tomar decisões sobre a preparação dos terrenos, as sementes, a água e a alimentação.</p>
<p>O responsável alerta que uma seca prolongada poderá provocar uma redução significativa da produção agrícola e o desaparecimento das fontes de água. “Se houver um período longo de seca, vamos enfrentar situações de fome e falta de alimentos, porque não haverá produção e as fontes de água também poderão secar.”</p>
<p><strong>La’o Hamutuk questiona preparação do país</strong></p>
<p>O Presidente da República, José Ramos-Horta, e o Governo estão a coordenar, com parceiros nacionais e internacionais, medidas de preparação para os possíveis impactos do fenómeno El Niño. Ramos-Horta reuniu-se em junho deste ano com o Governo e agências internacionais, pedindo apoio para definir um orçamento especial contra o El Niño. Em setembro, o vice-primeiro-ministro Mariano Assanami Sabino alinhou ações de preparação com o PNUD. No mesmo mês, a OIM incluiu Timor-Leste na sua lista de acompanhamento prioritário. Esta agência definiu planos de contingência e sistemas de alerta comunitário para o país.</p>
<p>A organização La’o Hamutuk considera, contudo, que Timor-Leste ainda não está suficientemente preparado para enfrentar os possíveis efeitos do fenómeno, sobretudo nas áreas da agricultura, água, saúde e segurança alimentar.</p>
<p>Segundo Mariano Ferreira, investigador da La’o Hamutuk, o El Niño poderá agravar problemas que as comunidades já enfrentam durante os períodos de seca, como a redução da produção agrícola e a escassez de água.</p>
<p>O investigador considera positiva a iniciativa do Presidente da República de se reunir com o Governo e parceiros internacionais para discutir a preparação, mas afirma que essa preocupação ainda não se reflete de forma clara nos programas dos ministérios. “Vemos pouca preparação em termos de partilha de informação e de criação de condições para que a população saiba o que poderá acontecer e como se adaptar”, afirmou.</p>
<p>A La’o Hamutuk considera que o Ministério da Agricultura tem concentrado grande parte das suas ações na distribuição de equipamentos, tratores e mecanização, enquanto continuam insuficientes, segundo a organização, as iniciativas de informação e preparação dos agricultores para períodos prolongados de seca.</p>
<p>Pesquisas realizadas pela organização em Viqueque, Manufahi e na Região Administrativa Especial de Oe-Cússe-Ambeno (RAEOA) indicam, segundo Mariano, que muitas comunidades já percebem alterações no comportamento das chuvas, embora nem sempre conheçam os conceitos de “alterações climáticas” ou “El Niño”.</p>
<p>Em Oé-Cusse, por exemplo, algumas comunidades relatam que o período de chuva pode durar apenas cerca de três meses, obrigando os agricultores a aproveitar ao máximo esse período para produzir alimentos destinados a enfrentar a estação seca.</p>
<p>Para Mariano, um episódio de El Niño poderá agravar esta situação, afetando não apenas a agricultura, mas também a saúde, a educação, as mulheres, as crianças e as famílias que precisam de percorrer maiores distâncias para encontrar água.</p>
<p>A organização questiona ainda a existência de uma estratégia orçamental específica para responder ao fenómeno e defende que os períodos prolongados de seca sejam considerados antecipadamente nos planos e orçamentos públicos. “O El Niño e os períodos prolongados de seca devem ser considerados antecipadamente nos planos e orçamentos públicos, permitindo uma resposta antes de a crise atingir as comunidades.”</p>
<p>Outro problema identificado pela La’o Hamutuk é a falta de coordenação e de informação entre o nível nacional e os municípios. Segundo Mariano, cada município apresenta condições climáticas e níveis de risco diferentes e deveria dispor de dados próprios sobre precipitação, agricultura, inundações, erosão e disponibilidade de água.</p>
<p>A organização defende que as previsões meteorológicas produzidas pelas autoridades sejam rapidamente partilhadas com as comunidades. Entre as medidas apontadas estão a conservação da água, a proteção das fontes, a plantação de árvores e técnicas que facilitem a infiltração da água no solo. “Não podemos esperar que o El Niño ou a seca aconteçam para depois pensar em responder. É preciso preparar antes”, defende Mariano.</p>
<p>Para a organização, uma resposta baseada apenas na distribuição de equipamentos ou na assistência de emergência não será suficiente. “O país precisa de informação antecipada, planeamento, conservação da água, coordenação entre instituições e medidas sustentáveis para aumentar a capacidade das comunidades de resistir aos efeitos de períodos prolongados de seca.”</p>
<p><strong>Governo reforça recomendações aos agricultores</strong></p>
<p>O chefe do Departamento de Agrometeorologia e Utilização do Solo do Ministério da Agricultura, Nilton Ribeiro, afirma que o El Niño pode provocar temperaturas mais elevadas e períodos prolongados de seca, aumentando o risco de perdas agrícolas.</p>
<p>Como uma grande parte da população depende da agricultura, uma redução da produção poderá também provocar um aumento dos preços dos alimentos e agravar as dificuldades económicas das famílias. “O El Niño pode provocar um período longo de seca, afetando a produção das comunidades e podendo levar à falha da colheita. No final, isso pode contribuir para o aumento dos preços dos alimentos”, explica.</p>
<p>Nilton Ribeiro afirma que o Governo está a reforçar a divulgação de informações e recomendações aos agricultores para reduzir os possíveis impactos do fenómeno na próxima época agrícola.</p>
<p>Segundo o responsável, o Ministério da Agricultura recebe dados da Direção de Meteorologia e Geofísica, analisa os possíveis impactos na agricultura e transmite a informação através das suas redes, técnicos e extensionistas até ao nível das comunidades.</p>
<p>O Ministério está também a testar variedades de culturas mais resistentes à seca. O milho e o arroz são considerados particularmente vulneráveis devido à quantidade de água necessária durante o ciclo de produção, que pode durar entre três e quatro meses, dependendo da variedade.</p>
<p>Perante a possibilidade de uma redução da precipitação, o Ministério recomenda aos agricultores que acompanhem as informações meteorológicas antes de iniciarem as plantações e que considerem culturas menos exigentes em água. “Recomendamos aos agricultores que evitem plantar culturas que necessitam de grandes quantidades de água, milho e arroz, assim podemos prevenir nas falhas de colheitas.”</p>
<p>O Ministério recomenda também medidas para proteger os animais. Durante períodos de escassez de água, os criadores são aconselhados a manter os animais mais próximos das habitações, facilitando o fornecimento de água e alimentação e evitando deslocações para fontes de água cada vez mais distantes.</p>
<p>Nilton Ribeiro defende ainda a utilização de práticas de agricultura de conservação, que reduzem a mobilização do solo e ajudam a preservar a humidade existente.</p>
<p>Segundo o responsável, esta técnica pode diminuir a evaporação e ajudar as plantas a aproveitar melhor a água disponível.</p>
<p>O Departamento de Agrometeorologia e Utilização do Solo utiliza ainda ferramentas para identificar situações de défice hídrico nas culturas. Atualmente, a monitorização está mais desenvolvida para o milho e o arroz, mas poderá ser aplicada a outras culturas hortícolas.</p>
<p>Quando os dados indicam que determinada comunidade apresenta condições de risco durante um período prolongado, os técnicos podem realizar intervenções específicas. “As ações são direcionadas prioritariamente para as zonas identificadas como mais vulneráveis, não para todas as comunidades no território do país, uma vez que faltam recursos.”</p>
<p>De acordo com as observações do Ministério ao longo dos últimos anos, as zonas da costa norte tendem a enfrentar um maior défice de água durante os períodos de seca. A distribuição da chuva varia entre as diferentes zonas agroecológicas do país, fazendo com que algumas áreas tenham períodos de precipitação mais curtos.</p>
<p>Nilton Ribeiro aponta as áreas entre Manatuto e Liquiçá, até Bobonaro e Oé-Cusse, como zonas que poderão estar particularmente expostas às condições de seca associadas ao El Niño. “As condições não são iguais em todo o território. Enquanto algumas zonas da costa norte podem ter períodos de chuva mais curtos, partes da costa sul recebem normalmente maior precipitação.”</p>
<p>Perante as preocupações manifestadas por agricultores e autoridades locais sobre a falta de informação, Nilton Ribeiro recomenda que as comunidades procurem diretamente os serviços do Ministério da Agricultura nos municípios.</p>
<p>A orientação é que agricultores e autoridades locais acompanhem as informações divulgadas pelo Ministério, pela Direção de Meteorologia e Geofísica e pela Proteção Civil. “Os agricultores devem dar prioridade às informações que o Ministério transmite através da Direção de Meteorologia e Geofísica e da Proteção Civil. Devem receber essa informação, compreendê-la e agir de acordo com ela”, afirma.</p>
<p>O responsável admite que nem sempre a informação divulgada pelas autoridades é devidamente acompanhada pelas comunidades e defende uma maior participação dos próprios agricultores na procura de informação, sobretudo numa fase em que se aproxima o período de preparação das plantações.</p>
<p>“Os agricultores podem também procurar os serviços do Ministério da Agricultura nos municípios para obter informações sobre as condições climáticas e o calendário de plantação. Se consumirmos bem a informação, mesmo que o período de seca aconteça, o impacto sobre a nossa vida poderá ser menor, embora existam riscos que teremos de enfrentar”, concluiu.</p>
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