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	<title>Sociedade - DILIGENTE</title>
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	<title>Sociedade - DILIGENTE</title>
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		<title>&#8220;Pensava que aquilo era amor&#8221;: o aliciamento que continua invisível em Timor-Leste</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Lourdes do Rego]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 03 Aug 2026 11:42:53 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Destaque]]></category>
		<category><![CDATA[Reportagens]]></category>
		<category><![CDATA[Sociedade]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Durante anos acreditaram que estavam a receber carinho e proteção. Só mais tarde perceberam que tinham sido vítimas de manipulação e abuso sexual. Em Timor-Leste, especialistas alertam para o grooming — um processo de aliciamento ainda pouco conhecido que dificulta [&#8230;]</p>
<p>O conteúdo <a href="https://www.diligenteonline.com/pensava-que-aquilo-era-amor-o-aliciamento-que-continua-invisivel-em-timor-leste/">&#8220;Pensava que aquilo era amor&#8221;: o aliciamento que continua invisível em Timor-Leste</a> aparece primeiro em <a href="https://www.diligenteonline.com">DILIGENTE</a>.</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p><em>Durante anos acreditaram que estavam a receber carinho e proteção. Só mais tarde perceberam que tinham sido vítimas de manipulação e abuso sexual. Em Timor-Leste, especialistas alertam para o grooming — um processo de aliciamento ainda pouco conhecido que dificulta o reconhecimento da violência sexual contra crianças e adolescentes.</em></p>
<p>“Segundo o meu pai, isto era uma forma de amor dele. Então, eu pensava que era tudo normal e que ter relações sexuais era uma forma de ele demonstrar que me amava como filha.”</p>
<p>Durante anos, acreditou que aquilo era amor. Só mais tarde compreendeu que tinha sido vítima de abuso sexual e de um processo de manipulação que lhe roubou a capacidade de distinguir o afeto da violência.</p>
<p>Hoje reconhece que nunca percebeu que estava a ser manipulada. O agressor era o próprio pai, a pessoa em quem mais confiava. Mas esta não é a única história.</p>
<p>Juliana viveu um percurso diferente, mas marcado pelo mesmo padrão. Tinha apenas 16 anos quando decidiu denunciar o marido da irmã. Antes dos abusos, vieram a atenção constante, as conversas, os presentes e a proximidade.</p>
<p>Na altura, Juliana acreditava que aqueles gestos eram apenas demonstrações de carinho entre familiares.</p>
<p>Nenhuma das duas reconheceu o perigo. E é precisamente isso que caracteriza o <em>grooming</em>.</p>
<p>Ao contrário do que muitas pessoas imaginam, o aliciamento raramente começa com violência. Começa quase sempre com gestos que parecem normais: atenção, carinho, elogios, presentes ou proteção. A vítima sente-se especial. O agressor conquista a sua confiança. Só depois surgem os abusos.</p>
<p>No caso da primeira jovem, tudo começou depois do divórcio dos pais. Passou a dividir o tempo entre a casa da mãe e a do pai. O pai dava-lhe dinheiro, satisfazia os seus pedidos e fazia-a sentir que ocupava um lugar especial na sua vida. Nada daquilo lhe parecia estranho. Hoje, acredita que fazia parte de um processo de manipulação.</p>
<p>Juliana também demorou a perceber. “Eu respeito-te como irmão, mas isso não se faz”, recorda ter dito quando começou a sentir que alguns comportamentos do cunhado ultrapassavam os limites. Pouco depois começaram as violações. “Violava-me sempre quando não estava ninguém em casa.” Durante cerca de nove meses viveu em silêncio. Sempre que os abusos terminavam, fechava-se no quarto e chorava.</p>
<p>A outra jovem também permaneceu em silêncio. Não porque aceitasse o que estava a acontecer. Mas porque acreditava que era uma demonstração de amor. O caso só começou a ser descoberto quando regressou a casa da mãe. Ao ler várias mensagens enviadas pelo pai à filha, com declarações de saudade e afeto, a mãe estranhou o conteúdo e decidiu fazer perguntas.</p>
<p>Foi então que a jovem começou, pela primeira vez, a falar sobre o que estava a viver. Mesmo assim, continuava sem perceber que era vítima de abuso. Continuava convencida de que aquilo era amor.</p>
<p>Juliana também só conseguiu denunciar muito tempo depois. Em dezembro de 2015, descobriu que estava grávida. Foi então que pediu à irmã que a acompanhasse ao hospital e lhe contou tudo. A reação foi devastadora. “Se não fosses minha irmã, matava-te.”</p>
<p>Nem sequer depois da denúncia encontrou apoio dentro da família. Chegou a pensar em suicidar-se. Com a ajuda de um tio apresentou queixa às autoridades. O agressor foi detido, mas acabou por não ser condenado. O tribunal considerou que existira uma relação consentida.</p>
<p>Mais tarde foi acolhida pela Casa Vida. “Antes de sair de casa, queria abraçar a minha mãe e as minhas irmãs, mas elas recusaram. Chamei a minha mãe e ela virou-me as costas.”</p>
<p>As histórias destas duas mulheres nunca se cruzaram. Mas seguem exatamente o mesmo padrão. Primeiro nasce a confiança. Depois a dependência emocional. Só muito mais tarde as vítimas conseguem perceber que aquilo a que chamavam carinho era, afinal, uma forma de manipulação. É precisamente este processo que os especialistas designam por <em>grooming</em>.</p>
<p><strong>Primeiro conquistam a confiança. Depois começa a manipulação</strong></p>
<p>Para o psicólogo Alessandro Boarccaech, é precisamente esta a característica que torna o <em>grooming</em> tão difícil de identificar.</p>
<p>Ao contrário do que muitas pessoas imaginam, o abuso sexual raramente começa com violência física. O agressor procura, primeiro, conquistar a confiança da criança ou do adolescente, criando uma relação de proximidade que faz com que a vítima se sinta segura.</p>
<p>“O agressor não começa pelo abuso. Começa por oferecer atenção, afeto, validação e, por vezes, presentes ou privilégios. Para uma criança, estes comportamentos podem ser interpretados como sinais de carinho ou amor”, explicou.</p>
<p>Segundo o psicólogo, este processo é normalmente lento e deliberado. “O agressor procura conhecer os interesses da criança, escuta-a, mostra-se disponível quando ela precisa de apoio e faz com que se sinta especial. Aos poucos, passa a ocupar um lugar importante na sua vida.”</p>
<p>Em muitos casos, acrescenta Alessandro, o agressor tenta também conquistar a confiança dos adultos que rodeiam a criança, apresentando-se como uma pessoa responsável, prestável e preocupada com o seu bem-estar.</p>
<p>“Quando o abuso acontece, já existe uma relação de confiança construída. É isso que dificulta o reconhecimento da manipulação.” Esta ligação emocional explica porque é que muitas vítimas não rejeitam imediatamente o agressor nem revelam o que está a acontecer.</p>
<p>O psicólogo explica que algumas desenvolvem afeto por essa pessoa. Outras têm medo de a perder, de a desiludir ou acreditam que também são responsáveis pelo que aconteceu.</p>
<p>Há ainda agressores que convencem a criança de que existe um “segredo” entre ambos, fazendo-a acreditar que contar a verdade destruirá a relação ou prejudicará outras pessoas da família.</p>
<p>Por isso, sublinha Alessandro, o facto de uma vítima defender o agressor ou demorar anos a denunciar os abusos não significa que estes não tenham existido.</p>
<p>“Muitas vítimas só conseguem compreender o que lhes aconteceu já na idade adulta. Durante a infância não têm maturidade emocional nem conhecimento suficiente para perceber que estavam a ser manipuladas, sobretudo quando o agressor é alguém da família ou uma pessoa de confiança.”</p>
<p>Segundo o psicólogo, esse reconhecimento tardio é uma consequência do próprio processo de aliciamento e da desigualdade de poder entre o agressor e a criança.</p>
<p><strong>Os sinais que podem indicar uma situação de aliciamento</strong></p>
<p>Embora cada caso seja diferente, Alessandro explica que existem comportamentos que podem servir de alerta para pais, professores e cuidadores.</p>
<p>Entre eles estão: um adulto que procura dar atenção excessiva a uma criança em particular; ofertas frequentes de presentes ou dinheiro sem uma razão clara; pedidos para manter determinados comportamentos ou conversas em segredo; tentativas de isolar a criança da família ou dos amigos; contactos persistentes através das redes sociais ou de aplicações de mensagens; pedidos de fotografias pessoais ou íntimas; alterações repentinas de comportamento da criança, como isolamento, medo, ansiedade ou rejeição de determinados locais ou pessoas.</p>
<p>O psicólogo sublinha que nenhum destes sinais, por si só, confirma a existência de <em>grooming</em>. No entanto, quando vários comportamentos surgem em simultâneo, é importante que os adultos conversem com a criança e procurem compreender o que está a acontecer.</p>
<p>“O mais importante é criar um ambiente em que a criança saiba que pode falar sem medo de ser julgada ou castigada. Quanto maior for a confiança entre a criança e os adultos que a protegem, mais difícil será para o agressor controlar a situação.”</p>
<p>Para Alessandro, ensinar desde cedo que todas as crianças têm direito a decidir sobre o seu corpo e que nenhum adulto pode pedir-lhes segredo sobre toques, fotografias ou comportamentos íntimos continua a ser uma das formas mais eficazes de prevenção.</p>
<p>Mas a responsabilidade não termina na família. Quem trabalha diariamente com vítimas de violência considera que toda a sociedade tem um papel na proteção das crianças.</p>
<p><strong>“Muitas vítimas só percebem o que lhes aconteceu quando já é tarde”</strong></p>
<p>Na Casa Vida, as consequências do aliciamento deixam de ser um conceito para passarem a ter rosto.</p>
<p>Alzira Pereira, diretora-executiva da instituição, acompanha regularmente crianças e mulheres que chegam depois de meses ou anos de manipulação e violência.</p>
<p>Segundo explica, muitos destes casos começam de forma aparentemente inofensiva. Uma conversa, um elogio, um presente ou uma promessa. Só mais tarde surgem os comportamentos abusivos.</p>
<p>“Dou um grande apreço a quem começou a trazer este tema para o debate público, porque isso pode aumentar o conhecimento das crianças, das mulheres e das comunidades. Quando as pessoas conhecem esta realidade, sentem-se mais encorajadas a falar e a procurar ajuda”, afirmou.</p>
<p>Na experiência da Casa Vida, muitas vítimas só compreendem que foram manipuladas quando os seus direitos já foram violados. “Na minha opinião, esta é uma questão muito importante, porque muitas vezes começa com pequenas ações consideradas normais, mas que acabam por abrir caminho para a violação dos direitos de uma pessoa.”</p>
<p>Segundo Alzira, a maioria das vítimas apoiadas pela instituição foi abusada por pessoas que já conhecia. Familiares. Amigos. Companheiros. Pessoas em quem confiavam.</p>
<p>“Na Casa Vida, recebemos vítimas que chegam com situações semelhantes, principalmente casos de violência cometida por familiares, amigos ou parceiros. Muitas vezes, tudo começa com promessas e com a criação de uma relação de confiança, mas, mais tarde, as vítimas percebem que aquilo que aconteceu não estava correto.”</p>
<p>Para a responsável, esta é precisamente uma das razões pelas quais tantas vítimas permanecem em silêncio durante tanto tempo. Quando o agressor faz parte da família ou do círculo de confiança, denunciar significa enfrentar o medo, a vergonha e, muitas vezes, a possibilidade de perder o apoio das pessoas mais próximas. Foi isso que aconteceu com Juliana.</p>
<p>Depois de denunciar o cunhado, não encontrou o apoio que esperava dentro da própria família. A experiência, explica Alzira, não é excecional. “Em muitos casos acompanhados pela instituição, as vítimas são inicialmente desacreditadas, culpabilizadas ou pressionadas para manter o silêncio.”</p>
<p><strong>Falar sobre o corpo não deve ser tabu</strong></p>
<p>Para Alzira Pereira, uma das maiores fragilidades continua a ser a falta de educação sobre os direitos das crianças e os limites do próprio corpo.</p>
<p>Segundo defende, muitas famílias evitam abordar estes temas por vergonha ou por motivos culturais. Essa ausência de diálogo dificulta que as crianças consigam reconhecer quando alguém ultrapassa os seus limites.</p>
<p>“Os pais e a comunidade não devem ter vergonha de explicar às crianças quais são as partes íntimas do corpo. Desde pequenas, elas devem aprender o que é permitido e o que não é permitido, para saberem proteger-se e procurar ajuda quando necessário.”</p>
<p>Na opinião da responsável, ensinar uma criança a dizer “não”, respeitar os seus limites e explicar-lhe que nenhum adulto pode pedir segredo sobre o seu corpo são medidas simples que podem prevenir situações de abuso.</p>
<p>Criar espaços seguros onde as crianças possam falar sem medo continua, por isso, a ser um dos maiores desafios. “Quanto mais falarmos sobre este tema, maior será a capacidade das crianças e das comunidades para reconhecer situações de violência e pedir ajuda.”</p>
<p>Mas o <em>grooming</em> já não acontece apenas dentro das famílias ou das comunidades. Cada vez mais, começa também através de um telemóvel.</p>
<p><strong>Das redes sociais à chantagem: o crescimento do aliciamento online</strong></p>
<p>O telemóvel tornou-se uma das principais portas de entrada para novas formas de aliciamento.</p>
<p>Se antes os agressores dependiam sobretudo da proximidade familiar ou comunitária, hoje basta um perfil numa rede social para iniciar um processo de manipulação que pode prolongar-se durante semanas ou meses.</p>
<p>A Polícia Nacional de Timor-Leste (PNTL) reconhece que esta realidade está a tornar-se cada vez mais frequente.</p>
<p>Embora o ordenamento jurídico timorense ainda não utilize especificamente o termo <em>grooming</em>, a Unidade de Pessoas Vulneráveis (UPV) identifica casos que apresentam muitas das características deste tipo de aliciamento.</p>
<p>O inspetor-chefe Ricardo da Costa, responsável pela Secção de Prevenção e Sensibilização da UPV, explicou que muitos agressores utilizam as redes sociais para estabelecer contacto com crianças e adolescentes. “O aliciamento online acontece através dos meios digitais. O agressor conhece a vítima nas redes sociais, aproxima-se gradualmente e tenta conquistar a sua confiança.”</p>
<p>Segundo o responsável, esta aproximação nem sempre desperta suspeitas. Os contactos começam com conversas aparentemente inofensivas. O agressor procura conhecer os interesses da vítima, mostra-se disponível para conversar e cria a ideia de que existe uma relação de amizade ou de confiança. Só mais tarde surgem os pedidos mais sensíveis.</p>
<p>“Depois de conquistar a confiança da vítima, alguns agressores pedem fotografias pessoais ou íntimas. Quando a vítima recusa, ameaçam divulgar essas imagens nas redes sociais para a obrigar a fazer aquilo que pretendem.”</p>
<p>Este tipo de chantagem, conhecido internacionalmente como <em>sextorsão</em>, pode prolongar o controlo do agressor durante muito tempo, levando muitas vítimas a permanecer em silêncio por medo da humilhação pública.</p>
<p>Perante este cenário, a Unidade de Pessoas Vulneráveis tem reforçado as ações de sensibilização nas escolas.</p>
<p>Embora a expressão <em>grooming</em> ainda não seja utilizada de forma sistemática nestas sessões, a polícia procura alertar crianças e adolescentes para os riscos da exposição nas redes sociais e da partilha de informações pessoais.</p>
<p>“Visitamos escolas para sensibilizar os jovens para a utilização segura dos telemóveis e das redes sociais. Queremos que saibam reconhecer comportamentos suspeitos e que procurem ajuda sempre que sintam que alguém está a ultrapassar os seus limites.”</p>
<p>Para Ricardo da Costa, a prevenção continua a ser a melhor forma de proteção. Mais do que proibir o acesso às tecnologias, defende que é essencial ensinar crianças e adolescentes a utilizá-las de forma crítica, responsável e segura.</p>
<p>Apesar deste esforço de prevenção, existe um obstáculo que continua a dificultar a resposta das autoridades. Em Timor-Leste, o <em>grooming</em> ainda não está previsto como um crime autónomo na legislação.</p>
<p><strong>Timor-Leste ainda não tem uma lei específica para punir o grooming</strong></p>
<p>Apesar de o aliciamento de crianças e adolescentes ser reconhecido internacionalmente como uma etapa que pode anteceder crimes de abuso sexual, Timor-Leste ainda não dispõe de uma legislação específica que criminalize o <em>grooming</em>.</p>
<p>Na prática, isso significa que muitos comportamentos de manipulação não podem ser punidos enquanto não derem origem a outros crimes previstos no Código Penal.</p>
<p>O jurista Sérgio Quintas explica que, atualmente, quando o aliciamento culmina em crimes sexuais, como a violação, a coação sexual ou outros atos previstos na lei, o agressor pode ser responsabilizado com base nesses crimes.</p>
<p>“No entanto, o processo de manipulação em si ainda não está previsto como um crime autónomo na legislação timorense”, afirmou.</p>
<p>Segundo o jurista, esta lacuna dificulta também o trabalho das autoridades de investigação criminal. “O <em>grooming</em> envolve, muitas vezes, manipulação psicológica, relações de confiança e comunicação através dos meios digitais. Sem uma definição legal clara, torna-se mais difícil investigar estes casos e recolher prova.”</p>
<p>Além dos desafios legais, Sérgio Quintas considera que continua a existir um reduzido conhecimento da população sobre este fenómeno. “Muitas famílias ainda não sabem reconhecer os sinais de aliciamento nem compreendem a importância de preservar mensagens, fotografias ou outras provas que podem ser essenciais para uma investigação.”</p>
<p>Na sua opinião, Timor-Leste deveria aprovar legislação específica que permitisse identificar e punir o <em>grooming</em> antes de ocorrer o abuso sexual, reforçando simultaneamente os mecanismos de prevenção e de proteção das crianças.</p>
<p><strong>Reconhecer o perigo antes que seja tarde</strong></p>
<p>As histórias que abriram esta reportagem mostram que o <em>grooming</em> raramente começa com violência. Começa com confiança. Com atenção. Com palavras de carinho. Com presentes. Com alguém que faz uma criança sentir-se especial. É precisamente essa aparência de normalidade que torna o aliciamento tão difícil de reconhecer e tão fácil de esconder.</p>
<p>Para as vítimas, perceber que aquilo a que chamavam amor era, afinal, manipulação pode demorar anos. Algumas só o compreendem quando já carregam marcas profundas da violência.</p>
<p>Especialistas ouvidos pelo Diligente defendem que a prevenção passa, acima de tudo, pela educação. Ensinar as crianças que o seu corpo lhes pertence. Explicar que nenhum adulto pode pedir segredo sobre toques, fotografias ou comportamentos íntimos. Criar relações de confiança onde possam falar sem medo.</p>
<p>E dar às famílias, às escolas e às comunidades ferramentas para reconhecer os sinais de alerta antes que o abuso aconteça. Porque, quando uma criança acredita que a violência é uma forma de amor, o agressor já conquistou aquilo de que mais precisava: a sua confiança.</p>
<p>aliciamento: processo em que alguém ganha a confiança de uma criança ou de outra pessoa para a manipular e, muitas vezes, a explorar ou abusar dela.</p>
<p>O conteúdo <a href="https://www.diligenteonline.com/pensava-que-aquilo-era-amor-o-aliciamento-que-continua-invisivel-em-timor-leste/">&#8220;Pensava que aquilo era amor&#8221;: o aliciamento que continua invisível em Timor-Leste</a> aparece primeiro em <a href="https://www.diligenteonline.com">DILIGENTE</a>.</p>
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		<title>Quem cuida das crianças timorenses enquanto as mães trabalham?</title>
		<link>https://www.diligenteonline.com/quem-cuida-das-criancas-timorenses-enquanto-as-maes-trabalham/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Rilijanto Viana]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 01 Aug 2026 13:07:11 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Destaque]]></category>
		<category><![CDATA[Reportagens]]></category>
		<category><![CDATA[Sociedade]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Quando não há creches acessíveis nem respostas públicas para o cuidado das crianças, são as mulheres que alteram a vida profissional. Levam os filhos para o trabalho, dependem da família ou abandonam o emprego. Enquanto isso, a carreira dos homens [&#8230;]</p>
<p>O conteúdo <a href="https://www.diligenteonline.com/quem-cuida-das-criancas-timorenses-enquanto-as-maes-trabalham/">Quem cuida das crianças timorenses enquanto as mães trabalham?</a> aparece primeiro em <a href="https://www.diligenteonline.com">DILIGENTE</a>.</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p><em>Quando não há creches acessíveis nem respostas públicas para o cuidado das crianças, são as mulheres que alteram a vida profissional. Levam os filhos para o trabalho, dependem da família ou abandonam o emprego. Enquanto isso, a carreira dos homens raramente sofre o mesmo impacto. Em Timor-Leste, a falta de políticas públicas para os cuidados infantis continua a aprofundar as desigualdades de género e a limitar a participação das mulheres no mercado de trabalho</em></p>
<p>Durante vários anos, a filha de Filomena Sequeira passou as manhãs no gabinete onde a mãe trabalha como funcionária pública. Não porque aquele fosse um espaço pensado para crianças, mas porque não havia ninguém que pudesse cuidar dela. “Não tinha alternativa”, recorda.</p>
<p>Quando nasceu a primeira filha, Filomena conseguiu conciliar a maternidade com o emprego graças ao apoio da mãe, com quem vivia no Bairro Pité. Enquanto o marido trabalhava na Coreia do Sul, era ela quem assegurava praticamente sozinha os cuidados da criança.</p>
<p>Tudo mudou quando a mãe adoeceu e morreu. Sem a principal rede de apoio, passou a depender da irmã para cuidar da filha mais nova. Entretanto, a filha mais velha entrou para a escola e surgiu um novo problema: as aulas decorriam apenas durante a tarde. Durante toda a manhã, precisava de alguém que ficasse com ela. A solução foi levá-la para o trabalho.</p>
<p>“Preparava-lhe o almoço em casa, colocava-o numa lancheira e levava-a comigo.” Os colegas acolheram a criança e ajudaram sempre que foi necessário, permitindo que Filomena mantivesse o emprego. Ainda assim, conciliar o trabalho com a maternidade tornou-se um exercício diário de equilíbrio.</p>
<p>“Ela brincava, corria e tinha a energia normal de uma criança. Havia dias em que era difícil concentrar-me, mas sabia que ela não tinha culpa.” Ao meio-dia, dava-lhe o almoço e seguia diretamente para a escola.</p>
<p>Hoje, olha para esse período como um dos mais difíceis da sua vida. “Muitas vezes, sentia-me completamente sobrecarregada. Tinha de dividir constantemente a atenção entre o trabalho e as minhas filhas.”</p>
<p>Apesar das dificuldades, nunca ponderou contratar uma ama. “Tanto eu como o meu marido sempre preferimos que as nossas filhas fossem cuidadas por familiares. Não é uma questão de dinheiro. Sentimo-nos mais seguros.”</p>
<p>A história de Filomena ilustra uma realidade comum em Timor-Leste. Quando não existe uma resposta pública para o cuidado das crianças, as famílias recorrem a avós, irmãos, tios ou vizinhos. Mas, quando essa rede falha, são sobretudo as mulheres que reorganizam a vida profissional para garantir os cuidados aos filhos.</p>
<p>Os dados confirmam esta desigualdade. Segundo o Inquérito à Força de Trabalho de 2021, apenas 24,2% das mulheres em idade ativa participavam no mercado de trabalho, contra 36,9% dos homens. A organização identifica o trabalho de cuidado não remunerado como um dos principais fatores que explicam esta diferença.</p>
<p>A desigualdade estende-se também à qualidade do emprego. Cerca de 80,4% das mulheres empregadas trabalham no setor informal, face a 75,3% dos homens, o que significa menor proteção social e maior vulnerabilidade económica.</p>
<p>A tendência repete-se à escala mundial. Em 2023, cerca de 708 milhões de mulheres estavam fora do mercado de trabalho devido às responsabilidades de cuidado não remunerado. Entre os homens, esse número era de apenas 40 milhões, segundo a OIT.</p>
<p>As Nações Unidas têm alertado para as desigualdades que persistem em Timor-Leste na distribuição das responsabilidades familiares e no acesso ao emprego digno, apesar dos progressos alcançados na participação política das mulheres.</p>
<p>Na prática, quando não existe uma resposta pública para cuidar das crianças, são quase sempre as mães que suportam as consequências. Para algumas, isso significa levar os filhos para o trabalho. Para outras, significa crescer longe deles.</p>
<p>Foi o que aconteceu a Angelina Ximenes Barreto, que conheceu outra consequência da falta de respostas para o cuidado das crianças: continuar a trabalhar significou crescer longe dos filhos.</p>
<p>Mãe de dois rapazes, hoje com quatro e cinco anos, trabalhava em Díli quando nasceu o primeiro filho. Sem familiares disponíveis para a ajudar na capital e sem acesso a uma creche que pudesse suportar financeiramente, tomou uma decisão que ainda hoje lhe custa recordar.</p>
<p>Enviou o bebé para o Suai, onde ficou aos cuidados da avó materna. “Todos os meses, enviava dinheiro e tudo o que ele precisava.”</p>
<p>Quando nasceu o segundo filho, decidiu que faria tudo para o manter consigo. Contratou uma ama, pagando-lhe praticamente o equivalente ao salário mínimo nacional. Poucos meses depois, a cuidadora desistiu. Encontrou outra pessoa, mas a experiência durou apenas uma semana. “Perdi a confiança. Preferi levá-lo comigo para o trabalho.”</p>
<p>Durante vários meses, o bebé acompanhou diariamente a mãe no local de trabalho. “Tive sorte porque os meus colegas compreenderam a minha situação e ajudaram-me.” Mas a solução revelou-se insustentável.</p>
<p>Sem apoio do pai das crianças e com as irmãs ainda a estudar, Angelina acabou por tomar uma decisão que descreve como uma das mais dolorosas da sua vida: enviou também o filho mais novo para o Suai.</p>
<p>Durante vários anos, os dois irmãos cresceram com os avós. “Custou-me muito, mas não tinha outra solução.” Só quando chegou a altura de iniciarem a escola decidiu trazê-los novamente para Díli. Mesmo assim, os problemas não terminaram.</p>
<p>Gostaria de os ter colocado numa creche desde muito cedo, mas o preço era demasiado elevado para o orçamento familiar. Além das despesas com os filhos, ajudava financeiramente os pais, apoiava os irmãos e contribuía para as despesas da casa onde vivia.</p>
<p>Hoje, paga cerca de 270 dólares por mês pela creche dos dois filhos — mais do dobro do salário mínimo nacional, fixado em 115 dólares desde 2011.</p>
<p>Apesar desse esforço financeiro, continua a depender de irmãs, tios e outros familiares para conseguir cumprir os horários de trabalho. “Quando ninguém pode ficar com eles, continuo a levá-los comigo.”</p>
<p>Na sua opinião, uma rede pública de creches mudaria profundamente a vida de muitas famílias. “Aliviaria muito o orçamento e acabaria com a preocupação constante de encontrar alguém para cuidar dos nossos filhos.”</p>
<p>Se Filomena conseguiu manter o emprego levando a filha para o trabalho e Angelina continuou a trabalhar à custa da separação dos filhos e de uma despesa elevada com a creche, para outras mulheres nem essas soluções são possíveis.</p>
<p>Mãe de duas crianças — uma com três anos e outra com apenas um mês — Maria da Costa deixou o emprego num instituto público em Díli porque simplesmente não tinha com quem deixar os filhos. “Decidi deixar de trabalhar porque não havia ninguém que pudesse cuidar deles.”</p>
<p>O marido trabalha num restaurante na capital e recebe o salário mínimo nacional, 115 dólares por mês, atualmente o único rendimento da família.</p>
<p>Embora viva com a sogra, a idade avançada impede-a de assumir diariamente os cuidados das crianças. “Ela já é muito frágil. Não posso deixá-la responsável pelos meus filhos.”</p>
<p>Sem familiares disponíveis e sem recursos para contratar uma ama ou pagar uma creche, Maria considera que não teve escolha. “Com o salário do meu marido mal conseguimos pagar as despesas da família. Como poderíamos pagar a outra pessoa para cuidar dos nossos filhos?”</p>
<p>Gostaria de voltar a trabalhar. Não apenas para aumentar o rendimento da família, mas também para recuperar a independência financeira.</p>
<p>No entanto, não consegue imaginar quando isso será possível. “Quero ajudar o meu marido, mas sinto que os meus filhos são como uma corda que prende as minhas mãos e os meus pés.”</p>
<p>Ao fim de semana, as irmãs visitam-na e ajudam durante algumas horas. É o único momento em que consegue descansar um pouco. Pensa, por vezes, numa solução que lhe provoca sofrimento: enviar os filhos para viverem com os avós, em Baucau, para poder regressar ao mercado de trabalho. “Ainda não falámos sobre isso. Eles ainda são muito pequenos.”</p>
<p>As histórias de Filomena, Angelina e Maria mostram três respostas diferentes ao mesmo problema. Uma levou a filha para o trabalho. Outra viveu anos longe dos filhos e continua a suportar uma despesa que pesa fortemente no orçamento familiar. A terceira deixou de trabalhar.</p>
<p>Em comum, há uma realidade que atravessa as três histórias: foram elas — e não os homens — quem alterou a vida profissional para garantir os cuidados às crianças.</p>
<p><strong>Mas porque é que tantas famílias continuam sem alternativas?</strong></p>
<p>Responder a esta pergunta não é simples. Nas fontes oficiais consultadas pelo Diligente, não foi possível encontrar dados nacionais completos e atualizados sobre o número de creches que acolhem crianças com menos de três anos, a sua capacidade, os custos praticados ou a distribuição destes serviços pelo território.</p>
<p>A informação oficial disponível concentra-se sobretudo no ensino pré-escolar, destinado às crianças entre os três e os cinco anos. Mesmo nesse nível, a cobertura continua a ser reduzida.</p>
<p>Segundo o Censo da População e Habitação de 2022, divulgado pelo Instituto Nacional de Estatística de Timor-Leste (INETL), apenas 20.436 das 100.535 crianças entre os três e os cinco anos frequentavam um estabelecimento de ensino, o equivalente a 20,3% desta população.</p>
<p>Uma avaliação realizada em 2022 pelo Ministério da Educação, Juventude e Desporto e pela UNICEF concluiu que o sistema de educação pré-escolar permanecia fragmentado, com iniciativas a funcionar de forma isolada e sem uma estratégia nacional coerente. O estudo refere ainda que os sistemas oficiais não abrangiam todos os programas existentes e que o financiamento destinado ao setor estava muito abaixo das referências internacionais. A situação das crianças com menos de três anos é ainda menos clara.</p>
<p>No relatório Women, Business and the Law 2024, o Banco Mundial atribuiu a Timor-Leste 0 pontos em 100 no que toca ao enquadramento legal dos serviços de cuidados infantis.</p>
<p>Segundo o relatório, não foi possível identificar legislação que obrigue à existência de serviços de creche ou infantário, estabeleça normas de qualidade para o seu funcionamento ou preveja apoios financeiros às famílias para suportar estes custos.</p>
<p>Na prática, isso significa que muitas famílias continuam a depender quase exclusivamente da ajuda de familiares ou de soluções privadas para cuidar das crianças mais pequenas.</p>
<p>O problema, contudo, não é novo. Em 2019, o Parlamento Nacional aprovou a Resolução n.º 10/2019, na qual recomendava ao Governo a criação de uma rede de creches e infantários, bem como a definição de normas de funcionamento e segurança para estes estabelecimentos.</p>
<p>Apesar dessa recomendação, muitas famílias continuam hoje sem uma resposta pública para o cuidado das crianças com menos de três anos.</p>
<p>O Diligente enviou perguntas ao Ministério da Educação e à Secretaria de Estado da Igualdade sobre a eventual criação de uma rede pública de creches, o número de equipamentos existentes no país, os planos para alargar a oferta de cuidados infantis e outras medidas destinadas a facilitar a conciliação entre a vida profissional e familiar.</p>
<p>Foram ainda solicitados esclarecimentos sobre as políticas previstas para reduzir as desigualdades associadas ao trabalho de cuidado não remunerado e promover uma participação mais equilibrada de mulheres e homens nas responsabilidades familiares.</p>
<p>Até ao fecho desta reportagem, o Diligente não recebeu qualquer resposta.</p>
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<p style="text-align: center;"><span style="color: #ff9900;"><strong>“Independentemente da decisão que tomem, muitas mães sentem que estão a falhar. Se trabalham, culpam-se por deixarem os filhos. Se ficam em casa, culpam-se por interromperem a carreira ou por não contribuírem para o rendimento da família”</strong></span></p>
</blockquote>
<p><strong>“Não é apenas um problema económico. É também um problema emocional”</strong></p>
<p>Para o psicólogo Alessandro Boarccaech, a ausência de respostas públicas para o cuidado das crianças tem consequências que vão muito além das dificuldades financeiras das famílias.</p>
<p>“Quando não existe um local seguro e acessível onde deixar os filhos, muitas mães vivem numa procura permanente de soluções. Todos os dias têm de pensar quem ficará com a criança no dia seguinte. Além do desgaste prático, existe um custo emocional constante, porque nunca conseguem planear o futuro com tranquilidade.”</p>
<p>Segundo o psicólogo, esta pressão prolongada gera frequentemente sentimentos de culpa. “Independentemente da decisão que tomem, muitas mães sentem que estão a falhar. Se trabalham, culpam-se por deixarem os filhos. Se ficam em casa, culpam-se por não contribuírem para o rendimento da família ou por verem a carreira profissional interrompida.”</p>
<p>Essa pressão acaba também por refletir-se nas crianças. “A criança é muito sensível ao estado emocional de quem cuida dela. Quando a mãe vive sob tensão e sobrecarga, isso pode refletir-se na relação com o filho, reduzindo a disponibilidade emocional, a paciência e o tempo de qualidade.”</p>
<p>Boarccaech sublinha, contudo, que o problema não está nos avós, nas amas ou nas creches, mas na falta de soluções estáveis para as famílias. “Quando uma família é obrigada a recorrer sucessivamente a diferentes soluções de cuidado por não encontrar uma resposta estável e acessível, isso aumenta a insegurança e o desgaste de todos os envolvidos.”</p>
<p>Na sua perspetiva, esta pressão não afeta apenas as mulheres que trabalham fora de casa. “As mães que permanecem em casa também enfrentam uma enorme sobrecarga. Além de cuidarem dos filhos, assumem quase sempre a maior parte das tarefas domésticas. É um trabalho exigente, permanente e muitas vezes invisível, porque não é remunerado nem socialmente reconhecido.”</p>
<p>O psicólogo defende que aliviar esta pressão exige uma resposta pública. “A criação de uma rede pública e acessível de creches é uma das medidas mais importantes. Mas também são necessárias políticas que facilitem a conciliação entre a vida profissional e familiar, através de horários de trabalho mais flexíveis, licenças parentais adequadas e apoios às famílias com menos recursos.”</p>
<p>Para Boarccaech, cuidar das crianças não pode continuar a ser encarado apenas como uma responsabilidade privada. “Mais do que um problema individual de cada mãe, trata-se de uma responsabilidade coletiva. Uma sociedade que pretende promover o desenvolvimento infantil e a igualdade entre mulheres e homens precisa de criar condições para que ninguém seja obrigado a escolher entre o trabalho e o bem-estar dos filhos.”</p>
<blockquote>
<p style="text-align: center;"><span style="color: #ff9900;"><strong>“As mulheres conquistaram espaço na administração pública, na política, nas organizações da sociedade civil e no mercado de trabalho. Mas o trabalho doméstico e os cuidados às crianças continuam, na maioria das vezes, sobre os seus ombros”</strong></span></p>
</blockquote>
<p>Para Élia da Costa, dirigente do Movimentu Rosas Mean, a falta de creches públicas é apenas uma parte do problema.</p>
<p>Na sua opinião, continua a existir uma divisão profundamente desigual das responsabilidades familiares. “As mulheres conquistaram espaço na administração pública, na política, nas organizações da sociedade civil e no mercado de trabalho. Mas o trabalho doméstico e os cuidados às crianças continuam, na maioria das vezes, sobre os seus ombros.”</p>
<p>Segundo a dirigente, esta realidade ajuda a explicar porque são quase sempre as mulheres que reduzem o horário, recusam oportunidades profissionais ou abandonam o emprego quando nasce um filho. “O cuidado continua a ser visto como uma responsabilidade feminina. Enquanto esta ideia não mudar, dificilmente haverá verdadeira igualdade no mercado de trabalho.”</p>
<p>Para Élia da Costa, aumentar a participação das mulheres na economia exige reconhecer que o trabalho de cuidado também é responsabilidade do progenitor e uma responsabilidade social. “Não basta pedir às mulheres que trabalhem mais. É necessário criar condições para que possam fazê-lo em igualdade de circunstâncias.”</p>
<p>A ativista Armandina da Silva considera que as dificuldades são ainda maiores para as famílias com menores rendimentos, que não conseguem recorrer a soluções privadas.</p>
<p>“Muitas mulheres terminam um dia de trabalho e começam imediatamente outro em casa, dedicado aos filhos, à preparação das refeições, à limpeza e às restantes tarefas domésticas.”</p>
<p>Na sua opinião, a resposta passa por políticas públicas concretas. Defende a criação de creches públicas acessíveis, sobretudo junto dos locais de trabalho e dos bairros residenciais, horários laborais mais compatíveis com a vida familiar e uma distribuição mais equilibrada das responsabilidades entre mulheres e homens.</p>
<p>“O cuidado das crianças não pode continuar a ser visto como uma responsabilidade exclusiva das mulheres. Deve ser assumido pelas famílias, pelas entidades empregadoras e pelo Estado.”</p>
<p>“Quero ajudar o meu marido.” Maria da Costa continua em casa. Todos os dias cuida dos dois filhos enquanto o marido trabalha. Gostaria de voltar ao mercado de trabalho. Gostaria de recuperar a independência financeira. Gostaria de contribuir para o rendimento da família. Mas, por enquanto, continua sem saber quando isso será possível. Às vezes pensa em enviar os filhos para viverem com os avós, em Baucau. Outras vezes limita-se a esperar que apareça uma solução que lhe permita trabalhar sem deixar de ser mãe.</p>
<p>O conteúdo <a href="https://www.diligenteonline.com/quem-cuida-das-criancas-timorenses-enquanto-as-maes-trabalham/">Quem cuida das crianças timorenses enquanto as mães trabalham?</a> aparece primeiro em <a href="https://www.diligenteonline.com">DILIGENTE</a>.</p>
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		<title>Nem estudam, nem trabalham: uma geração à espera de oportunidades em Timor-Leste</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Lourdes do Rego]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 15 Jul 2026 12:55:41 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Destaque]]></category>
		<category><![CDATA[Reportagens]]></category>
		<category><![CDATA[Sociedade]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Em Timor-Leste, cerca de um em cada três jovens não trabalha, não estuda nem frequenta formação profissional. Entre dificuldades económicas, poucas oportunidades e percursos interrompidos, muitos continuam à espera de uma oportunidade para construir o futuro. Ainda não são dez [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p><em>Em Timor-Leste, cerca de um em cada três jovens não trabalha, não estuda nem frequenta formação profissional. Entre dificuldades económicas, poucas oportunidades e percursos interrompidos, muitos continuam à espera de uma oportunidade para construir o futuro.</em></p>
<p>Ainda não são dez horas da manhã e, na casa onde vive, em Lahane, Clementino Ximenes Tilman já preparou o almoço. Enquanto a mãe e os irmãos saem para trabalhar ou estudar, ele permanece em casa. Depois de terminar as tarefas domésticas, passa parte do dia a jogar no telemóvel, sobretudo Mobile Legends, ou a conversar com primos e vizinhos.</p>
<p>“Eu apenas preparo o almoço, porque todos saem para trabalhar e estudar. De manhã, a maioria de nós apenas toma café ou compra o pequeno-almoço fora”, contou.</p>
<p>Natural do município de Aileu, Clementino tem 27 anos e encontra-se atualmente sem emprego. Também não frequenta qualquer estabelecimento de ensino nem participa em programas de formação profissional. A sua rotina repete-se há vários anos, enquanto procura uma oportunidade que lhe permita mudar de vida.</p>
<p>No caso de Clementino, a vida mudou depois da morte do pai. A mãe e os irmãos continuam ocupados com as respetivas atividades profissionais e escolares e, por isso, cabe-lhe assegurar parte das tarefas domésticas.</p>
<p>Aos fins de semana, ajuda ainda a alimentar os porcos que a família cria. Sempre que algum vizinho precisa de apoio para construir uma casa ou realizar outros trabalhos, também se disponibiliza para ajudar.</p>
<p>“Se algum vizinho está a construir uma casa ou precisa de ajuda em qualquer outro trabalho, eu ajudo, porque esta já é uma tradição. Os vizinhos ajudam-se uns aos outros. Quando nós precisamos, eles também nos ajudam. Fora disso, passo grande parte do tempo em casa”, explicou.</p>
<p>Apesar de estar atualmente desempregado, Clementino já teve uma experiência profissional. Em 2023, trabalhou durante seis meses como trabalhador ocasional. No entanto, quando esse trabalho terminou, não conseguiu encontrar outra oportunidade.</p>
<p>“Já trabalhei como trabalhador ocasional, mas apenas durante alguns meses. Depois disso, ainda não consegui outro emprego. Penso que procurar trabalho é realmente difícil. Tentei algumas vezes, mas nunca recebi uma resposta”, afirmou.</p>
<p>Antes disso, em 2020, frequentou um curso de inglês como preparação para participar num programa de trabalho na Austrália, promovido pela Secretaria de Estado da Formação Profissional e Emprego (SEFOPE). Contudo, não foi selecionado e acabou por abandonar a formação.</p>
<p>Nesse mesmo ano, tentou ingressar no curso de Comunicação Social da Universidade Oriental Timor Lorosa’e, mas as dificuldades financeiras impediram-no de prosseguir os estudos.</p>
<p>“Eu tentei continuar os estudos, mas não foi possível porque as propinas eram caras. Também frequentei o curso de inglês, mas, depois de não ser selecionado para o programa, deixei de continuar”, recordou.</p>
<p>A falta de rendimento é outra das preocupações que o acompanha diariamente. Embora a alimentação não lhe falte, graças ao apoio da família, sente-se constrangido sempre que precisa de dinheiro para despesas pessoais.</p>
<p>“Esta situação de não ter rendimento faz-me pensar muito. Para comer talvez não tenha tanta preocupação, mas, quando preciso de outras coisas, sinto vergonha de estar sempre a pedir ajuda aos outros.”</p>
<p>Clementino considera ainda que a falta de informação sobre oportunidades de emprego constitui um obstáculo adicional. Diz que a mãe nunca deixa de o incentivar a procurar trabalho, mas admite que o reduzido nível de escolaridade e a pouca experiência profissional lhe retiram confiança.</p>
<p>“A minha mãe diz-me sempre para procurar trabalho, mas até agora ainda não consegui encontrar. Sinto que tenho pouco acesso a informações sobre oportunidades de emprego. Com o nível de escolaridade e a experiência que tenho, também não tenho muita confiança para procurar trabalho.”</p>
<p>A história de Clementino não é um caso isolado. Em Timor-Leste, milhares de jovens encontram-se na mesma situação. São conhecidos internacionalmente pela sigla NEET (Not in Employment, Education or Training), utilizada para designar pessoas que não trabalham, não estudam e não frequentam qualquer programa de formação profissional.</p>
<p>Segundo dados do Instituto Nacional de Estatística de Timor-Leste (INETL), cerca de um em cada três jovens timorenses entre os 15 e os 24 anos encontra-se nesta condição. Para muitos, a falta de oportunidades de emprego, as dificuldades económicas das famílias e o acesso limitado ao ensino e à formação dificultam a construção de um percurso profissional estável.</p>
<p>Embora o indicador NEET seja habitualmente utilizado para a população entre os 15 e os 24 anos, o Diligente encontrou também jovens acima dessa idade que continuam afastados do emprego, da educação e da formação profissional, refletindo dificuldades semelhantes.</p>
<p>Mas Clementino não é o único jovem cuja vida ficou suspensa entre o abandono dos estudos e a dificuldade em encontrar emprego. A história de Adérito Lopes Soares mostra como as dificuldades económicas continuam a obrigar muitos jovens timorenses a interromper a formação académica para ajudar as famílias.</p>
<p><strong>Dos estudos interrompidos aos trabalhos ocasionais</strong></p>
<p>Natural do município de Viqueque e residente em Hera, Adérito Lopes Soares, de 27 anos, acreditava que o ensino superior seria o caminho para construir uma vida melhor. Frequentava o curso de Contabilidade, mas viu esse projeto interrompido no quinto semestre, quando as dificuldades económicas da família o obrigaram a abandonar a universidade.</p>
<p>“Estudava Contabilidade, mas só consegui chegar ao quinto semestre porque a situação económica da minha família não me permitiu continuar. Depois de abandonar os estudos, passei a ajudar os meus pais na agricultura, cultivando legumes para vender”, contou.</p>
<p>Desde então, a sua rotina divide-se entre o trabalho agrícola e pequenos serviços que vão surgindo. Sempre que algum vizinho precisa de ajuda na construção de uma casa, Adérito aceita trabalhos como a colocação de azulejos ou de tetos falsos.</p>
<p>Durante cerca de um ano trabalhou também como mecânico numa oficina. No entanto, terminado o contrato, voltou a enfrentar o desemprego. “Já tentei procurar trabalho noutros locais, incluindo candidatar-me a vagas como guarda de segurança. No entanto, a concorrência é muito forte, porque o número de candidatos é muito superior ao das vagas disponíveis”, afirmou.</p>
<p>Segundo Adérito, a procura de emprego tornou-se uma corrida desigual. Para um único posto de trabalho apresentam-se, muitas vezes, dezenas de candidatos.</p>
<p>Apesar das dificuldades, recusa ficar parado. Continua a aceitar pequenos trabalhos na construção civil, aproveitando a experiência que adquiriu ao longo dos últimos anos, e está a tratar da documentação necessária para procurar emprego no estrangeiro.</p>
<p>“Enquanto não aparece uma oportunidade melhor, faço os trabalhos que consigo. Também estou a preparar os documentos para tentar trabalhar fora de Timor-Leste”, explicou.</p>
<p>Uma realidade semelhante é vivida por António da Costa, de 26 anos, natural e residente no município de Baucau. Depois de concluir o ensino secundário, ingressou na universidade em 2020. Contudo, três anos mais tarde, viu-se obrigado a interromper os estudos devido às dificuldades económicas da família.</p>
<p>“Como venho de uma família humilde, tive de interromper os estudos e passei apenas a ajudar o meu pai e a minha mãe nos trabalhos agrícolas”, contou.</p>
<p>Desde então, António dedica a maior parte do tempo ao apoio da família e ainda não conseguiu encontrar um emprego permanente.</p>
<p>Apesar disso, continua a acreditar que poderá construir uma carreira compatível com a formação que iniciou e mantém a esperança de que surjam mais oportunidades para os jovens timorenses. “Peço ao Governo que crie mais postos de trabalho para os jovens, porque todos os anos há muitos diplomados que precisam de emprego”, afirmou.</p>
<p>As histórias de Clementino, Adérito e António são diferentes, mas têm pontos em comum. Todos interromperam ou adiaram projetos de vida devido às dificuldades económicas, todos enfrentam obstáculos para encontrar trabalho e todos continuam a acreditar que poderão construir um futuro melhor.</p>
<p>As suas experiências refletem uma realidade que afeta milhares de jovens timorenses: a transição para a vida adulta tornou-se mais longa e mais difícil, marcada pela escassez de oportunidades e pela incerteza quanto ao futuro.</p>
<p>O desemprego e a interrupção dos estudos não afetam apenas os jovens. Também os pais acompanham com preocupação a dificuldade dos filhos em conquistar autonomia financeira e construir um projeto de vida.</p>
<p>Gaspar Jerónimo, pai de seis filhos, conhece bem essa realidade. Embora reconheça que encontrar emprego em Timor-Leste é cada vez mais difícil, admite que nem sempre consegue esconder a preocupação quando vê alguns dos filhos permanecerem em casa sem estudar nem trabalhar.</p>
<p>“Eu também trabalho e sei como é difícil encontrar emprego. Mas, às vezes, fico zangado quando vejo os meus filhos em casa sem fazer nada, apenas deitados, porque penso no futuro deles”, confessou.</p>
<p>Dos seus seis filhos, três já concluíram o ensino secundário. Um frequenta atualmente o último semestre da universidade, outro trabalha como empregado de café depois de vários anos sem emprego e um terceiro optou por frequentar uma formação profissional em vez de prosseguir os estudos universitários.</p>
<p>Apesar das dificuldades do mercado de trabalho, Gaspar continua a incentivar os filhos a procurarem oportunidades por iniciativa própria. “Às vezes fico tão preocupado que deixo de falar com eles durante alguns dias. Também já lhes retirei alguns apoios, como o transporte que lhes tinha dado, porque queria que percebessem a importância de procurar trabalho”, contou.</p>
<p>Na sua opinião, preparar os jovens para a vida adulta é particularmente importante em Timor-Leste, onde as responsabilidades familiares vão muito além das despesas do agregado. “Em Timor-Leste, quando uma pessoa forma uma família, a responsabilidade não é apenas alimentar os filhos, mas também participar nas obrigações familiares e culturais, que muitas vezes exigem recursos financeiros”, explicou.</p>
<p><strong>Empresários pedem mais competências e uma mudança de mentalidade</strong></p>
<p>Para quem procura emprego, a escassez de oportunidades é a principal dificuldade. Mas, do lado dos empregadores, há quem defenda que o problema resulta também da necessidade de reforçar as competências dos jovens e de alargar as suas perspetivas profissionais.</p>
<p>O gerente da 99 Patrol Station, Adelino Gonzaga, considera que, apesar das limitações do mercado de trabalho timorense, os jovens não devem desistir de investir na sua formação. “Mesmo que as oportunidades sejam limitadas, continuem a preparar-se e a investir nas vossas competências”, afirmou.</p>
<p>Segundo Adelino, muitos jovens continuam a concentrar as suas expectativas no ingresso na função pública, quando existem também oportunidades no setor privado e noutras áreas de atividade.</p>
<p>Na sua opinião, o Governo deve continuar a criar mais postos de trabalho, mas também promover um ambiente favorável ao crescimento das empresas privadas, permitindo-lhes contratar mais trabalhadores. “Não esperem que o emprego venha até nós. Devemos esforçar-nos, porque através do esforço surgirão oportunidades”, acrescentou.</p>
<p>Uma visão semelhante é partilhada pelo proprietário do restaurante Dilicious, Cesar Trinito Freitas Gaio.</p>
<p>Embora reconheça que a taxa de desemprego entre os jovens continua elevada, considera que ainda existem alternativas para gerar rendimento, sobretudo para quem está disposto a explorar oportunidades fora do emprego formal.</p>
<p>Segundo o empresário, um dos principais problemas reside na forma como muitos jovens encaram o mercado de trabalho. “Muitos pensam que, depois de terminarem os estudos, só devem trabalhar num escritório”, observou.</p>
<p>Na sua perspetiva, essa ideia faz com que áreas fundamentais para a economia timorense, como a agricultura e a pecuária, sejam frequentemente desvalorizadas pelos jovens.</p>
<p>“A agricultura e a pecuária são setores muito importantes para a vida da população e para a economia do país. Infelizmente, atualmente estas atividades são realizadas sobretudo por pessoas mais velhas, porque muitos jovens pensam que, depois de estudar, só devem trabalhar num escritório.”</p>
<p>Cesar considera que o empreendedorismo continua pouco valorizado e defende que a escola e a sociedade deveriam preparar melhor os jovens para criarem o próprio emprego.</p>
<p>Explica que incentiva regularmente os seus funcionários a frequentarem ações de formação, de forma a desenvolverem novas competências e aumentarem as suas possibilidades de progressão profissional.</p>
<p>Ao mesmo tempo, chama a atenção para outro desafio: todos os anos aumenta o número de diplomados do ensino secundário e superior, enquanto o mercado de trabalho continua incapaz de absorver todos os novos candidatos.</p>
<p>Além disso, muitos jovens concentram a procura de emprego em Díli, deixando escapar oportunidades existentes noutros municípios. “Nem todos estão dispostos a trabalhar fora da capital. Isso faz com que algumas oportunidades disponíveis noutras regiões acabem por não ser aproveitadas”, afirmou.</p>
<p>Para Cesar, o desemprego entre os jovens resulta da conjugação de vários fatores: a reduzida oferta de emprego, a falta de informação sobre alternativas profissionais, a concentração da procura em Díli e o desajustamento entre as competências dos candidatos e as necessidades das empresas.</p>
<p><strong>Um potencial que continua por aproveitar</strong></p>
<p>Para a investigadora da La’o Hamutuk, Marta da Silva, as histórias de Clementino, Adérito e António ilustram um problema que ultrapassa as dificuldades individuais e levanta questões sobre o futuro do próprio país.</p>
<p>Na sua opinião, os jovens representam um dos maiores recursos de Timor-Leste. No entanto, quando lhes faltam oportunidades para estudar, trabalhar ou desenvolver competências, esse potencial permanece desaproveitado.</p>
<p>“Os jovens são um recurso extremamente valioso para Timor-Leste. No entanto, quando não existem espaço e oportunidades para eles, esse potencial não se desenvolve e pode até transformar-se numa ameaça para o futuro do país, porque os jovens perdem a esperança”, afirmou.</p>
<p>Segundo Marta da Silva, a condição dos jovens que não estudam, não trabalham nem frequentam formação profissional aumenta a vulnerabilidade social e económica e exige uma resposta sustentada através de políticas públicas.</p>
<p>A investigadora salienta que o desenvolvimento de Timor-Leste dependerá não apenas da riqueza dos seus recursos naturais, mas sobretudo da capacidade de formar recursos humanos qualificados.</p>
<p><a href="https://www.diligenteonline.com/porque-e-que-a-escolaridade-importa-para-o-futuro-de-timor-leste-na-asean/">A adesão do país à ASEAN, acrescenta, representa uma oportunidade importante, mas também um desafio.</a> Se os jovens timorenses não adquirirem as competências necessárias para competir num mercado de trabalho cada vez mais aberto, poderão ficar em desvantagem face aos trabalhadores dos restantes Estados-membros.</p>
<p>“Se esta oportunidade não for bem aproveitada, serão os outros países a beneficiar mais, enquanto Timor-Leste corre o risco de se tornar apenas um espectador no seu próprio país.”</p>
<p>Marta da Silva sublinha ainda que um país rico em recursos naturais continua a depender das pessoas para transformar essa riqueza em desenvolvimento. “Os recursos naturais, por si só, não chegam. É preciso investir nas pessoas para que o país consiga crescer e competir internacionalmente.”</p>
<p><strong>Um em cada três jovens está afastado do emprego, da escola e da formação</strong></p>
<p>As histórias de Clementino, Adérito e António refletem uma realidade que afeta uma parte significativa da juventude timorense.</p>
<p>Segundo dados do Instituto Nacional de Estatística de Timor-Leste (INETL), cerca de 30% dos jovens entre os 15 e os 24 anos encontram-se na condição NEET, ou seja, não trabalham, não frequentam estabelecimentos de ensino nem participam em programas de formação profissional.</p>
<p>Com base no Labour Force Survey de 2021 e no Censo da População e Habitação de 2022, o presidente do INETL, Elias dos Santos Ferreira, explicou que, em 2021, cerca de 82,8 mil jovens se encontravam nesta situação, representando 30,5% da população timorense entre os 15 e os 24 anos.</p>
<p>Segundo o responsável, esta realidade afeta tanto rapazes como raparigas, embora seja ligeiramente mais frequente entre as jovens. Os dados indicam que 31,3% das mulheres jovens estavam na condição NEET, enquanto entre os homens a percentagem era de 29,8%.</p>
<p>“Os dados mostram que uma parte significativa da juventude timorense permanece afastada do emprego, da educação e da formação. Esta situação representa um desafio importante para o desenvolvimento dos recursos humanos do país”, afirmou.</p>
<p>Elias dos Santos Ferreira sublinhou que a situação da juventude não deve ser analisada apenas através da taxa de desemprego.</p>
<p>Muitos jovens permanecem fora do mercado formal de trabalho, dedicando-se a atividades informais, agrícolas ou ao apoio às respetivas famílias, sem que essas situações sejam refletidas nas estatísticas tradicionais do emprego.</p>
<p>De acordo com o Labour Force Survey de 2021, 50,3% dos trabalhadores timorenses trabalham por conta própria ou como trabalhadores familiares não remunerados, enquanto 48,5% exercem trabalho remunerado.</p>
<p>O responsável acrescentou que uma parte significativa da população continua ligada à agricultura, setor caracterizado por atividades sazonais e de subsistência, situação que contribui para níveis elevados de subemprego e para rendimentos instáveis.</p>
<p>“Uma em cada três pessoas jovens encontra-se sem ligação ao emprego, à educação ou à formação. Estes dados são importantes para apoiar a criação de políticas públicas e responder aos desafios da juventude timorense”, afirmou.</p>
<p><strong>Um desafio que também afeta a saúde mental</strong></p>
<p>As consequências da condição NEET vão além da dimensão económica. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), fatores como a pobreza, a exclusão social e as dificuldades socioeconómicas podem aumentar a vulnerabilidade dos jovens a problemas de saúde mental.</p>
<p>A ausência de oportunidades de educação, emprego e formação pode afetar a autoestima, reduzir a motivação e diminuir a confiança no futuro, comprometendo o desenvolvimento pessoal e profissional.</p>
<p>A OMS defende que ambientes familiares, escolares e comunitários de apoio desempenham um papel essencial na proteção da saúde mental dos jovens e ajudam-nos a enfrentar situações de maior vulnerabilidade.</p>
<p>Por isso, considera que o combate à condição NEET deve ir além da criação de emprego, envolvendo igualmente o acesso à educação, à formação profissional e a mecanismos de apoio social.</p>
<p><strong>À espera de uma oportunidade</strong></p>
<p>Enquanto continuam a discutir-se políticas públicas e soluções para responder a este desafio, a rotina de Clementino pouco mudou. Todos os dias prepara o almoço antes de a família regressar a casa. Adérito continua a aceitar pequenos trabalhos de construção sempre que surgem. António ajuda os pais na agricultura enquanto espera por uma oportunidade para regressar ao mercado de trabalho.</p>
<p>As suas histórias mostram que a condição NEET não resulta apenas da falta de vontade de estudar ou de trabalhar. É, muitas vezes, consequência da combinação entre dificuldades económicas, acesso limitado ao ensino e à formação e um mercado de trabalho incapaz de absorver todos os jovens que procuram construir o seu futuro.</p>
<p>Por detrás das estatísticas estão milhares de percursos interrompidos, projetos adiados e expectativas que permanecem por concretizar. Num país onde a juventude representa uma das maiores riquezas, o desafio passa por transformar esse potencial em oportunidades reais, para que uma geração inteira não permaneça à margem do desenvolvimento.</p>
<p>O conteúdo <a href="https://www.diligenteonline.com/nem-estudam-nem-trabalham-uma-geracao-a-espera-de-oportunidades-em-timor-leste/">Nem estudam, nem trabalham: uma geração à espera de oportunidades em Timor-Leste</a> aparece primeiro em <a href="https://www.diligenteonline.com">DILIGENTE</a>.</p>
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		<title>Trabalham sem contrato e abaixo do salário mínimo. Quem protege as trabalhadoras domésticas em Timor-Leste?</title>
		<link>https://www.diligenteonline.com/trabalham-sem-contrato-e-abaixo-do-salario-minimo-quem-protege-as-trabalhadoras-domesticas-em-timor-leste/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Joana Silva]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 14 Jul 2026 11:29:38 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Destaque]]></category>
		<category><![CDATA[Reportagens]]></category>
		<category><![CDATA[Sociedade]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Berta limpa, cozinha, lava roupa e cuida de crianças. Trabalha há mais de três anos na mesma casa, mas recebe apenas 100 dólares por mês, menos do que o salário mínimo nacional. Enquanto especialistas defendem que estas trabalhadoras devem beneficiar [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p><em>Berta limpa, cozinha, lava roupa e cuida de crianças. Trabalha há mais de três anos na mesma casa, mas recebe apenas 100 dólares por mês, menos do que o salário mínimo nacional. Enquanto especialistas defendem que estas trabalhadoras devem beneficiar da proteção da lei, a ausência de um regime jurídico específico continua a alimentar dúvidas e a deixá-las numa posição de grande vulnerabilidade.</em></p>
<p>Todos os dias, Berta (nome fictício) entra numa casa, em Díli, onde limpa, lava roupa, cozinha e cuida das crianças. Há mais de três anos que esta é a sua rotina. No final de cada mês, leva para casa 100 dólares, menos 15 dólares do que o salário mínimo nacional em vigor. Esse rendimento é a única fonte de sustento da família.</p>
<p>Divorciada há oito anos, Berta cria sozinha os três filhos. Metade do salário é enviada para ajudar nas despesas dos filhos, que continuam a estudar. O restante mal chega para comprar arroz, óleo, legumes e outros bens essenciais.</p>
<p>“Destes 100 dólares, tenho de dividir 50 dólares para os meus três filhos, que são estudantes, e os outros 50 destinam-se à compra de arroz, óleo, vegetais, entre outros produtos para casa.”</p>
<p>As dificuldades tornam-se ainda maiores quando chega o momento de pagar as propinas do filho mais velho, que frequenta a universidade.</p>
<p>“Durante um ano, ele precisa de pagar cerca de 500 dólares. Muitas vezes, os vizinhos emprestam-me o dinheiro. Depois de receber o meu salário, volto a pagar, faseadamente, até liquidar a dívida.”</p>
<p>Apesar de saber que recebe menos do que o salário mínimo nacional, nunca pediu um aumento. Não porque considere justo o valor que recebe, mas porque teme perder o único emprego que garante o sustento da família. “Quero receber pelo menos 115 ou 120 dólares, mas não tenho coragem de pedir.”</p>
<p>Também nunca ponderou apresentar queixa às autoridades. “Tenho medo de perder o meu emprego. É o único trabalho que sustenta a minha família. Se tomar essa decisão, quem vai sustentar os meus filhos? Mesmo que receba apenas 100 dólares, continuo a trabalhar.”</p>
<p>A história de Berta está longe de ser um caso isolado. Em Timor-Leste, muitas trabalhadoras domésticas continuam a desempenhar funções essenciais no quotidiano das famílias sem contrato escrito, horários definidos ou garantias laborais claras. Em muitos casos, recebem salários inferiores ao mínimo nacional e desconhecem os mecanismos de proteção a que podem recorrer.</p>
<p>A situação levanta uma questão que continua sem resposta inequívoca: até que ponto estão estas trabalhadoras protegidas pela legislação laboral timorense?</p>
<p>É precisamente nessa resposta que surgem as divergências. Enquanto sindicatos, juristas e organizações da sociedade civil defendem que as trabalhadoras domésticas beneficiam da proteção da Constituição e da Lei do Trabalho, a inexistência de um regime jurídico específico para o setor continua a gerar interpretações distintas e a deixar muitas dúvidas quanto à aplicação efetiva de direitos como o salário mínimo.</p>
<p><strong>Entre a proteção da lei e um vazio jurídico</strong></p>
<p>A situação vivida por Berta levanta uma questão que divide juristas, sindicatos e responsáveis públicos: afinal, o salário mínimo aplica-se aos trabalhadores domésticos? A resposta está longe de ser consensual.</p>
<p>A Constituição da República garante, no artigo 50.º, o direito de todos os trabalhadores à segurança no emprego, à remuneração, ao descanso e às férias. A Lei do Trabalho (Lei n.º 4/2012) estabelece igualmente o princípio da igualdade entre trabalhadores.</p>
<p>Contudo, o mesmo diploma determina, no artigo 2.º, que o trabalho doméstico deve ser regulado por legislação especial. Mais de uma década depois da entrada em vigor da lei, esse regime jurídico continua por aprovar.</p>
<p>É precisamente esta ausência que continua a gerar interpretações diferentes sobre a aplicação de algumas normas laborais, incluindo o salário mínimo.</p>
<p>Para o ativista dos direitos humanos Shakely Maumaa, esta indefinição jurídica deixa as trabalhadoras domésticas particularmente expostas à exploração.</p>
<p>Segundo o ativista, o próprio local de trabalho dificulta a fiscalização. Ao contrário da maioria das profissões, o trabalho doméstico decorre dentro das casas, longe do olhar das autoridades e da sociedade. “Sem contrato, estas pessoas trabalham sem horário definido, sem direito a férias, sem uma data certa para receber o salário e sem outras garantias fundamentais”, afirmou.</p>
<p>Na sua perspetiva, muitas começam a trabalhar antes de toda a família acordar e só terminam quando todas as tarefas domésticas estão concluídas. “Quem fiscaliza o cumprimento do horário de trabalho? Quem verifica se estas pessoas têm direito ao descanso? A SEFOPE? Os sindicatos?”, questionou.</p>
<p>Shakely Maumaa considera que o problema não é apenas jurídico, mas também cultural. Na sua opinião, persiste uma visão que desvaloriza o trabalho doméstico, sobretudo por ser desempenhado maioritariamente por mulheres, tratando-o como uma extensão das tarefas tradicionalmente atribuídas à vida familiar e não como uma atividade profissional.</p>
<p>Essa perceção, defende, acaba por influenciar também a atuação das instituições públicas. “Timor-Leste proclamou ser uma terra livre e um povo livre. Esse compromisso só fará sentido quando todas as pessoas estiverem livres da exploração, da discriminação e dos abusos.”</p>
<p>O ativista defende, por isso, um reforço da fiscalização e da aplicação efetiva das leis laborais, para garantir que os direitos fundamentais dos trabalhadores domésticos sejam respeitados.</p>
<p>A vulnerabilidade deste setor é também confirmada por dados internacionais. Segundo o relatório Labour Rights and Social Protection Coverage for Domestic Workers in ASEAN, publicado em 2024 pela Organização Internacional do Trabalho (OIT), o trabalho doméstico emprega cerca de 38,3 milhões de pessoas na Ásia e no Pacífico.</p>
<p>Mais de 84% destes trabalhadores exercem a atividade de forma informal e menos de 16% estão abrangidos por sistemas de proteção social, o que os deixa particularmente expostos a riscos como acidentes de trabalho, doença ou ausência de proteção financeira na velhice.</p>
<p><strong>Sindicatos e organizações defendem proteção efetiva</strong></p>
<p>Apesar da inexistência de uma legislação específica para o trabalho doméstico, o presidente da Confederação dos Sindicatos dos Trabalhadores de Timor-Leste (CSTL), Almério Vilanova, considera que estes trabalhadores não podem ficar excluídos da proteção conferida pela legislação laboral.</p>
<p>O dirigente sindical recorda que a Convenção n.º 189 da Organização Internacional do Trabalho (OIT), dedicada ao trabalho digno para os trabalhadores domésticos, já reconhece internacionalmente os direitos deste setor, embora Timor-Leste ainda não tenha ratificado o instrumento.</p>
<p>Ainda assim, defende que a Constituição e a Lei do Trabalho garantem proteção suficiente para impedir tratamentos discriminatórios. “O artigo 6.º da Lei do Trabalho estabelece o princípio da igualdade. Mulheres e homens têm direito às mesmas oportunidades, às mesmas condições de trabalho e à mesma remuneração. Por isso, as trabalhadoras e os trabalhadores domésticos também têm direito à proteção conferida pela legislação laboral”, afirmou.</p>
<p>Almério Vilanova apelou ainda aos trabalhadores que vejam os seus direitos violados para apresentarem queixa junto da CSTL. “Se o trabalhador apresentar uma queixa, seguiremos os procedimentos legais. O empregador poderá ser responsabilizado e ficar sujeito às sanções previstas na lei.”</p>
<p>Também a investigadora da organização La’o Hamutuk, Marta da Silva, considera que os baixos salários agravam a situação económica de muitas famílias timorenses. Segundo a investigadora, mesmo um rendimento ligeiramente superior ao salário mínimo dificilmente permite assegurar as despesas essenciais de uma família numerosa. “Um salário de pouco mais de 150 dólares por mês já não chega para garantir o sustento de uma família. Quanto mais um salário inferior ao mínimo.”</p>
<p>Marta da Silva lembra que o aumento do custo de vida reduz ainda mais o poder de compra das famílias, sobretudo das que dependem de um único rendimento. “O preço dos alimentos e de outros bens essenciais continua a aumentar. Isso torna muito difícil a vida de muitas famílias.”</p>
<p>A investigadora considera ainda que esta realidade reflete um problema estrutural da economia timorense. “O país continua muito dependente da despesa pública. Grande parte do dinheiro que circula na economia provém do Orçamento Geral do Estado.”</p>
<p><strong>Contratos escritos e uma lei própria continuam por criar</strong></p>
<p>Para a diretora do Programa de Monitorização do Sistema Judicial (JSMP), Ana Paula Marçal, a aprovação de um regime jurídico específico para o trabalho doméstico continua a ser necessária para garantir maior segurança jurídica tanto para trabalhadores como para empregadores.</p>
<p>Enquanto essa legislação não existir, defende que as condições de trabalho devem ser claramente definidas desde o início da relação laboral.</p>
<p>A própria admite que, quando contrata uma trabalhadora doméstica, recorre normalmente a um acordo verbal. No entanto, garante que o salário nunca é inferior ao mínimo nacional e que as funções são previamente acordadas. “Durante a entrevista definimos claramente quais são as tarefas da trabalhadora. Temos de cumprir aquilo que acordámos para não violar os seus direitos.”</p>
<p>Ana Paula Marçal considera igualmente que a pobreza leva muitas mulheres a aceitar condições de trabalho que dificilmente aceitariam noutras circunstâncias. “Há mulheres que aceitam trabalhar por 50 dólares por mês ou até em troca de um saco de arroz, apenas porque precisam de garantir algum rendimento. Alguns empregadores acabam por aproveitar essa vulnerabilidade.”</p>
<p>A responsável incentiva ainda as trabalhadoras que se sintam lesadas a apresentar queixa junto da Secretaria de Estado da Formação Profissional e Emprego (SEFOPE). “Mesmo que o problema não seja resolvido de imediato, é importante denunciar para que os casos fiquem registados e possam ser acompanhados.”</p>
<p>Também o Provedor dos Direitos Humanos e Justiça, Virgílio Guterres, reconhece que a inexistência de um regime jurídico para o setor motivou uma iniciativa da própria instituição.</p>
<p>Segundo explicou ao Diligente, a Provedoria apresentou ao Tribunal de Recurso um pedido de declaração de inconstitucionalidade por omissão, por considerar que o Estado não cumpriu o dever de aprovar a legislação especial prevista na Lei do Trabalho.</p>
<p>A pretensão, contudo, não teve acolhimento. “Infelizmente, o Tribunal de Recurso rejeitou declarar a inconstitucionalidade por omissão proposta pelo Provedor”, afirmou Virgílio Guterres.</p>
<p>O Diligente procurou também ouvir empregadores de trabalhadores domésticos para conhecer a sua posição sobre as condições de trabalho e a aplicação do salário mínimo neste setor. Um dos empregadores contactados recusou prestar declarações. Outra empregadora não atendeu as chamadas telefónicas nem respondeu à mensagem enviada pelo Diligente até ao fecho desta reportagem.</p>
<p><strong>Governo mantém posição pouco clara</strong></p>
<p>Confrontado pelo Diligente sobre a aplicação do salário mínimo aos trabalhadores domésticos, o secretário de Estado da Formação Profissional e Emprego (SEFOPE), Rogério Araújo Mendonça, respondeu apenas que o salário mínimo “se aplica ao setor privado”.</p>
<p>“É importante compreender que o salário mínimo se aplica ao setor privado ou às entidades empregadoras que contratam trabalhadores. Atualmente, existem trabalhadores que recebem 115 dólares apenas nos setores privados.”</p>
<p>A resposta, porém, não esclarece se o Governo considera que os trabalhadores domésticos estão abrangidos por esse regime, nem explica de que forma interpreta a ausência da legislação especial prevista na Lei do Trabalho.</p>
<p>O salário mínimo nacional foi fixado em 115 dólares mensais em 2012 para o setor privado e nunca mais foi atualizado.</p>
<p>Ao mesmo tempo, a Lei do Trabalho determina que o trabalho doméstico deve ser regulado por legislação específica, diploma que continua por aprovar mais de uma década depois da entrada em vigor da lei.</p>
<p>É precisamente essa omissão que continua a alimentar interpretações divergentes sobre a aplicação de alguns direitos laborais, entre eles o salário mínimo. “Estas trabalhadoras não podem ser tratadas de forma diferente”.</p>
<p>Para o jurista Sérgio Quintas, a falta de uma posição clara por parte do Estado contribui para perpetuar situações de desigualdade. Na sua opinião, a ausência da legislação especial não pode servir de argumento para negar às trabalhadoras domésticas os direitos fundamentais reconhecidos aos restantes trabalhadores.</p>
<p>“O Governo falhou. Em consequência dessa falha, ainda há mulheres que recebem um salário inferior ao mínimo. Estas pessoas também são seres humanos.”</p>
<p>O jurista lembra que a Constituição consagra o princípio da igualdade e considera que não existem fundamentos para estabelecer diferenças de tratamento entre trabalhadores do setor privado e trabalhadores domésticos. “Não podemos estabelecer diferenças salariais entre trabalhadores do setor privado e mulheres que trabalham na casa de outra pessoa.”</p>
<p>Sérgio Quintas apelou ainda às famílias empregadoras para que respeitem a dignidade e os direitos das trabalhadoras domésticas, defendendo que qualquer violação deve ser comunicada às autoridades competentes.</p>
<p>Enquanto continua o debate sobre a necessidade de uma legislação específica e sobre a interpretação da lei atualmente em vigor, a realidade de muitas trabalhadoras domésticas permanece inalterada.</p>
<p>É o caso de Berta.</p>
<p>Todos os meses recebe 100 dólares pelo trabalho que desempenha. Sabe que o valor é inferior ao salário mínimo e gostaria de pedir um aumento. Mas o receio de perder o único rendimento da família fala mais alto.</p>
<p>No dia seguinte, voltará a limpar a casa, lavar roupa, cozinhar e cuidar das crianças. No final do mês, continuará a levar para casa os mesmos 100 dólares, tentando fazê-los chegar para alimentar os três filhos e pagar as propinas do mais velho, enquanto espera por uma proteção que, para já, continua sem chegar.</p>
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		<title>Entre o sonho e a precariedade: a vida dos timorenses que emigraram para Portugal</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Rilijanto Viana]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 03 Jul 2026 13:06:30 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Destaque]]></category>
		<category><![CDATA[Reportagens]]></category>
		<category><![CDATA[Sociedade]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Todos os anos, centenas de jovens timorenses partem para Portugal em busca de emprego e de uma vida melhor. Muitos acabam, porém, por enfrentar falsas promessas de agências de recrutamento, dificuldades burocráticas, salários baixos e condições de trabalho precárias. Apesar [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p><em>Todos os anos, centenas de jovens timorenses partem para Portugal em busca de emprego e de uma vida melhor. Muitos acabam, porém, por enfrentar falsas promessas de agências de recrutamento, dificuldades burocráticas, salários baixos e condições de trabalho precárias. Apesar dos obstáculos, continuam a enviar dinheiro para as famílias e a alimentar o sonho de um futuro mais estável.</em></p>
<p>Quando o avião aterrou em Portugal, António Freitas, de 28 anos, acreditava que uma nova vida estava prestes a começar. Em Timor-Leste, tinha-lhe sido prometido que alguém o esperaria no aeroporto, o ajudaria a instalar-se e facilitaria a entrada no mercado de trabalho.</p>
<p>Nada disso aconteceu. “Quando cheguei, não havia ninguém para me receber. Esperei durante horas, mas ninguém apareceu”, recorda.</p>
<p>Sem conhecer o país, sem saber para onde ir e sem conseguir contactar o funcionário da agência que organizou a sua viagem, António permaneceu no aeroporto até ser ajudado por outros timorenses que já viviam em Portugal. “Se não fossem eles, não sei o que me teria acontecido.”</p>
<p>A história de António está longe de ser um caso isolado. Para muitos jovens timorenses, emigrar para Portugal continua a representar uma oportunidade para melhorar as condições de vida e apoiar financeiramente as famílias que ficaram no país de origem. No entanto, o sonho europeu transforma-se frequentemente numa realidade marcada pela precariedade, pela vulnerabilidade e pelas dificuldades de integração.</p>
<p>Entre estes jovens está também Leopolito dos Reis Mendonça, igualmente de 28 anos, que descreve uma experiência semelhante. “Queríamos trabalhar, ganhar algum dinheiro e ajudar as nossas famílias. Mas a realidade aqui é muito mais difícil do que imaginávamos”, afirma.</p>
<p>Para muitos timorenses, o sonho de emigrar para Portugal acaba por se transformar numa luta diária pela sobrevivência.</p>
<p><strong>Agências acusadas de falsas promessas</strong></p>
<p>António decidiu emigrar depois de vários anos a tentar obter a nacionalidade portuguesa sem sucesso. Em 2026, recorreu à agência Zitayamora Tour and Travel, em Timor-Leste.</p>
<p>Segundo o seu testemunho, a empresa prometia facilitar a viagem, a obtenção de um visto de trabalho, o acolhimento em Portugal e a integração no mercado laboral.</p>
<p>Para concretizar o projeto de emigração, António afirma ter desembolsado cerca de 3.000 dólares americanos pelo bilhete de avião e mais 1.200 dólares para outras despesas relacionadas com a viagem.</p>
<p>Leopolito refere ter pago aproximadamente 3.450 dólares. Segundo o jovem, esse valor incluía o bilhete de avião, alimentação durante a viagem, alojamento em Portugal e o tratamento de documentos como o Número de Identificação Fiscal (NIF) e o Número de Identificação da Segurança Social (NISS).</p>
<p>No entanto, ambos afirmam que muitas destas promessas não foram cumpridas. “A agência apenas garante a viagem. Quando chegamos, cada um tem de resolver sozinho a sua vida”, diz António.</p>
<p>Leopolito conhece vários casos de emigrantes que, mesmo depois de terem pagado milhares de dólares, foram obrigados a desembolsar mais dinheiro para obter documentos ou garantir alojamento. “Há pessoas que chegam a Portugal e a agência continua a pedir mais dinheiro para tratar dos documentos ou para arrendar uma casa.”</p>
<p>Para o jovem, estas situações merecem maior atenção das autoridades timorenses. “Existem agências que exploram os timorenses. As instituições competentes precisam de acompanhar melhor estes casos.”</p>
<p><strong>Polícia investiga denúncias</strong></p>
<p>Em maio deste ano, um grupo de jovens apresentou uma queixa junto da Polícia Nacional de Timor-Leste (PNTL) contra a agência Zitayamora Tour and Travel, alegando que a empresa não cumpriu as promessas de lhes garantir a viagem e um emprego em Portugal.</p>
<p>O diretor da Direção Nacional do Serviço de Investigação Criminal (DNSIC), João Belo dos Reis, confirma que a polícia recebeu denúncias de três cidadãos timorenses relacionadas com as atividades comerciais da empresa.</p>
<p>“A empresa obteve licença do Governo apenas para operar como agência de venda de bilhetes de avião, mas cobrou dinheiro aos jovens com a promessa de os enviar para Portugal com visto de trabalho. O processo de investigação está em curso e o caso foi encaminhado para o Ministério Público”, afirma.</p>
<p>Segundo João Belo dos Reis, caso se prove a existência de recrutamento fraudulento, exploração laboral ou aproveitamento da situação de vulnerabilidade dos emigrantes, o caso poderá configurar crimes de maior gravidade, incluindo tráfico de pessoas.</p>
<p>A polícia apela ainda aos cidadãos que se sintam lesados para que apresentem queixa formal junto das autoridades.</p>
<p>O Diligente tentou contactar a Zitayamora Tour and Travel por telefone e através de mensagens enviadas pelo WhatsApp para obter esclarecimentos sobre as acusações feitas pelos emigrantes, mas não recebeu qualquer resposta até ao fecho desta edição.</p>
<p><strong>Documentos, trabalho pesado e vulnerabilidade laboral</strong></p>
<p>Quando chegou a Portugal, António Freitas passou cerca de um mês sem conseguir trabalhar. Ainda não tinha o Número de Identificação Fiscal (NIF) nem o Número de Identificação da Segurança Social (NISS), documentos indispensáveis para entrar no mercado de trabalho.</p>
<p>Com a ajuda de outros timorenses, conseguiu regularizar parte da documentação e encontrar o primeiro emprego. Foi numa exploração florestal, numa região montanhosa do país.</p>
<p>O trabalho consistia em cortar árvores, limpar terrenos e transportar motosserras e outros equipamentos pesados por trilhos íngremes. A rotina começava antes do amanhecer. “Saíamos de casa às seis da manhã e demorávamos quase uma hora até chegar ao local de trabalho”, recorda.</p>
<p>Durante horas, os trabalhadores subiam montanhas, atravessavam rios e carregavam equipamentos com cerca de 15 quilos. “Era um trabalho muito pesado. Ao fim de três dias já não conseguíamos continuar.”</p>
<p>António e outro colega decidiram abandonar o emprego poucos dias depois. Receberam cerca de 120 euros pelo trabalho realizado. Mais tarde, conseguiu emprego num restaurante.</p>
<p>Foi aí que se deparou com outro problema: as longas jornadas de trabalho. Segundo o jovem, os horários registados pela empresa não correspondiam às horas efetivamente trabalhadas.</p>
<p>Na folha de horários constavam apenas algumas horas de trabalho por dia, mas, na prática, permaneciam no restaurante durante muito mais tempo. “Se contarmos corretamente as horas, trabalhamos muito mais do que o registado, mas essas horas extraordinárias não são pagas.”</p>
<p>Apesar disso, António afirma que o empregador sempre tratou os trabalhadores timorenses com respeito. “O patrão nunca foi agressivo connosco. Até gostava de ver timorenses a trabalhar.”</p>
<p>No entanto, o receio de perder o emprego e as dificuldades linguísticas impediram-no de reclamar.</p>
<p>Leopolito dos Reis Mendonça também iniciou o seu percurso profissional no setor agrícola. Desde que chegou a Portugal, em 2025, trabalhou em várias empresas ligadas à produção de uvas, realizando tarefas como a poda das videiras, a plantação, a limpeza das vinhas e a colheita.</p>
<p>Segundo explica, muitos trabalhadores timorenses encontram o primeiro emprego precisamente neste setor. “Quase todo o trabalho que fiz foi nas vinhas.”</p>
<p>Embora reconheça que existem empregadores que cumprem as suas obrigações, afirma que nem todos respeitam os trabalhadores. “Chegava ao fim do mês e a empresa não pagava. Havia situações em que só recebíamos ao fim de seis meses.”</p>
<p>Na sua opinião, alguns empregadores aproveitam-se da situação de vulnerabilidade dos trabalhadores estrangeiros para atrasar salários ou impor condições menos favoráveis. “Nem todos os patrões fazem isso, mas há empresas que se aproveitam da situação dos emigrantes.”</p>
<p>Leopolito diz ainda ter enfrentado episódios de discriminação e conflitos com trabalhadores de outras nacionalidades devido às diferenças linguísticas e culturais.</p>
<p><strong>Salário mínimo, rendas elevadas e pouco espaço para poupar</strong></p>
<p>Apesar de terem conseguido emprego, António Freitas e Leopolito dos Reis Mendonça afirmam que o elevado custo de vida em Portugal dificulta a concretização dos objetivos que os levaram a emigrar.</p>
<p>Atualmente, António trabalha com contrato permanente e recebe cerca de 920 euros por mês, valor correspondente ao salário mínimo nacional. Após uma avaliação positiva do seu desempenho, o salário aumentou para cerca de mil euros brutos.</p>
<p>Ainda assim, admite que é difícil conseguir poupar. “Primeiro temos de pagar a renda, comprar comida e suportar as despesas básicas. No fim do mês sobra pouco.”</p>
<p>Segundo o jovem, o arrendamento de um quarto ronda os 500 euros mensais, o que obriga muitas vezes duas pessoas a partilharem a mesma habitação para reduzir os custos. “Uma pessoa sozinha dificilmente consegue suportar todas as despesas.”</p>
<p>Depois de pagar a renda, a alimentação, os transportes e outras necessidades básicas, consegue poupar apenas entre 200 e 300 euros por mês.</p>
<p>Além disso, continua a pagar a dívida que contraiu para financiar a viagem para Portugal. “Usei dinheiro emprestado para pagar a viagem. Ainda hoje continuo a pagar essa dívida.”</p>
<p>Leopolito descreve uma realidade semelhante. Segundo o jovem, recebe cerca de mil euros mensais, dos quais aproximadamente metade é destinada ao pagamento da renda, alimentação, água, eletricidade e outras despesas do dia a dia.</p>
<p>A parte restante é enviada regularmente para a família em Timor-Leste. “Se não controlarmos bem as despesas, torna-se impossível ajudar a família.”</p>
<p>Embora não existam dados oficiais sobre o montante das remessas enviadas especificamente pelos trabalhadores timorenses em Portugal, os números globais demonstram a importância da emigração para a economia nacional.</p>
<p>Segundo o Relatório Económico de 2025 do Banco Central de Timor-Leste (BCTL), as remessas enviadas pelos trabalhadores timorenses no estrangeiro continuam a representar uma importante fonte de rendimento para milhares de famílias e têm um peso significativo na economia nacional.</p>
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<p>Contudo, em comparação com 2024, quando as remessas totalizaram 211,6 milhões de dólares, registou-se uma redução de cerca de 14%.</p>
<p>Apesar da quebra, os especialistas consideram que o dinheiro enviado pelos emigrantes continua a desempenhar um papel fundamental no sustento de milhares de famílias timorenses.</p>
<p>Os dados mais recentes do Instituto Nacional de Estatística (INE) mostram um aumento significativo da comunidade timorense residente em Portugal nos últimos anos.</p>
<p>Os dados diferem dos divulgados pela Agência para a Integração, Migrações e Asilo (AIMA), que apontavam para 1.845 cidadãos timorenses residentes em Portugal no final de 2024. As duas entidades utilizam metodologias estatísticas distintas, pelo que os números podem variar.</p>
<p>Embora não existam dados oficiais sobre a distribuição dos trabalhadores timorenses pelos diferentes setores de atividade, informações recolhidas pelo Diligente indicam que muitos trabalham na agricultura, construção civil, hotelaria e restauração, limpeza, logística e outros setores que enfrentam escassez de mão de obra.</p>
<p><strong>Trabalhadores que emigram por agências privadas não têm apoio de adidos laborais</strong></p>
<p>O diretor-geral da Secretaria de Estado da Formação Profissional e Emprego, Carlito do Rosário, explica que os trabalhadores que se deslocam para o estrangeiro através de agências privadas não beneficiam do acompanhamento de um adido laboral.</p>
<p>Segundo o responsável, o Governo apenas coloca adidos laborais nos países com os quais Timor-Leste mantém acordos de cooperação em matéria de mobilidade laboral, nomeadamente a Austrália, a Coreia do Sul e a Nova Zelândia.</p>
<p>O Governo apela aos cidadãos timorenses que se encontrem no estrangeiro e enfrentem dificuldades para que entrem em contacto com a Embaixada de Timor-Leste no respetivo país, a fim de receberem apoio e assistência.</p>
<p>O Diligente tentou contactar a Embaixada de Timor-Leste em Portugal para obter informações sobre o número de pedidos de ajuda recebidos e as principais dificuldades enfrentadas pelos cidadãos timorenses naquele país, mas não obteve resposta até ao fecho desta edição.</p>
<p>Para os especialistas, as dificuldades enfrentadas pelos emigrantes timorenses em Portugal são apenas uma parte de um problema mais profundo, relacionado com as limitações estruturais da economia nacional e com a falta de oportunidades de emprego em Timor-Leste.</p>
<p><strong>Especialistas veem na emigração um sinal das fragilidades da economia</strong></p>
<p>A crescente saída de jovens timorenses para trabalhar no estrangeiro, sobretudo em Portugal, continua a ser vista pelos especialistas como um reflexo das limitações estruturais da economia nacional.</p>
<p>Embora as remessas enviadas pelos emigrantes representem uma importante fonte de rendimento para milhares de famílias, académicos e investigadores alertam que o país está a perder recursos humanos fundamentais para o seu desenvolvimento económico e social.</p>
<p>Para o decano da Faculdade de Economia da Universidade Nacional Timor Lorosa’e (UNTL), Filipe Mendonça Pereira, a principal razão da emigração continua a ser a procura de melhores condições de vida e de oportunidades de emprego.</p>
<p>Segundo o economista, o elevado número de jovens que deixam o país demonstra a reduzida capacidade da economia nacional para criar postos de trabalho. “O investimento produtivo continua a ser reduzido. Grande parte dos recursos públicos acaba por financiar bens e equipamentos importados, fazendo com que o dinheiro saia novamente do país.”</p>
<p>Na sua perspetiva, a economia timorense permanece excessivamente dependente das importações e não consegue responder às necessidades do mercado interno.</p>
<p>Apesar disso, reconhece que as remessas enviadas pelos emigrantes têm efeitos positivos. “Esses recursos ajudam as famílias, dinamizam as comunidades e contribuem para melhorar as condições de vida.”</p>
<p>Para reduzir a dependência da migração, o economista defende um maior investimento nos setores produtivos, sobretudo na agricultura. “O Governo precisa de criar condições para que os produtores consigam competir com os produtos importados.”</p>
<p>O investigador do La’o Hamutuk, Celestino Gusmão Pereira, considera que a migração resulta de um problema estrutural profundo, associado ao desemprego, à fragilidade da economia nacional e à limitada capacidade produtiva do país.</p>
<p>Segundo o investigador, o sistema económico ainda não consegue absorver os jovens que entram todos os anos no mercado de trabalho.</p>
<p>De acordo com o Banco Mundial, a taxa de desemprego em Timor-Leste situa-se entre 1,5% e 1,6% em 2024 e 2025, com base em estimativas da Organização Internacional do Trabalho (OIT). Contudo, especialistas alertam que estes números não refletem totalmente a realidade do mercado de trabalho, marcada pela informalidade, pelo subemprego e pelo reduzido número de oportunidades de emprego formal.</p>
<p>Para Celestino Gusmão, a emigração tornou-se uma estratégia de sobrevivência económica para muitas famílias timorenses.</p>
<p>No entanto, alerta para o impacto da saída contínua de jovens qualificados e em idade ativa. “Timor-Leste está a perder a sua força de trabalho jovem, que poderia ser fundamental para o desenvolvimento da agricultura, da indústria e do turismo.”</p>
<p>Embora reconheça a importância das remessas para a economia familiar, considera que estes benefícios não substituem uma estratégia de desenvolvimento baseada no aumento da produção nacional. “A dependência das remessas não substitui uma estratégia de desenvolvimento baseada na produção interna.”</p>
<p>O investigador defende ainda políticas públicas de longo prazo centradas na criação de emprego, na formação técnica e no aumento da produtividade. “Sem políticas eficazes de criação de emprego e retenção de talento, Timor-Leste poderá enfrentar dificuldades estruturais no futuro.”</p>
<p><strong>O sonho continua, mas o futuro está em Timor-Leste</strong></p>
<p>Com base na sua própria experiência, os dois trabalhadores deixam recomendações aos jovens timorenses que pretendem emigrar.</p>
<p>António aconselha os candidatos a garantirem que têm familiares ou pessoas de confiança em Portugal antes de viajar. “É importante ter alguém para receber quem chega ao aeroporto.”</p>
<p>Também recomenda evitar viajar durante os meses de inverno, quando diminuem as oportunidades de trabalho em setores como a agricultura e a restauração.</p>
<p>Por sua vez, Leopolito defende que os candidatos escolham agências responsáveis e se informem melhor sobre as condições de vida em Portugal. “Não devem vir de forma desorganizada nem sem preparação, porque a vida aqui não é fácil. É preciso trabalhar com esforço e disciplina.”</p>
<p>Apesar das dificuldades, os dois jovens continuam a olhar para o futuro com esperança.</p>
<p>António pretende regressar a Timor-Leste depois de conseguir poupar o suficiente para criar um pequeno negócio ligado à pecuária. “Quero voltar e criar um negócio que permita sustentar a minha família.”</p>
<p>Leopolito pretende permanecer mais algum tempo em Portugal para consolidar a sua situação financeira, mas garante que o seu objetivo continua a ser apoiar os familiares que ficaram em Timor-Leste.</p>
<p>Os dois afirmam que não se arrependem de ter emigrado. Pelo contrário, dizem que a experiência lhes ensinou que o sonho de uma vida melhor exige mais sacrifícios do que imaginavam.</p>
<p>Hoje, deixam um aviso aos jovens timorenses que pensam seguir o mesmo caminho: emigrar exige preparação, informação e expectativas realistas. “A vida aqui não é fácil, mas continuamos a lutar pelas nossas famílias”, resume António.</p>
<p>E, apesar de todas as dificuldades, nenhum dos dois desistiu do mesmo sonho que os levou a deixar Timor-Leste: construir um futuro melhor para aqueles que ficaram à espera em casa.</p>
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		<title>`Entre o trabalho e a casa: a jornada sem fim das mulheres timorenses</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Rilijanto Viana]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 29 Jun 2026 13:25:57 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Destaque]]></category>
		<category><![CDATA[Reportagens]]></category>
		<category><![CDATA[Sociedade]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Apesar dos avanços na participação feminina no mercado de trabalho, milhares de mulheres em Timor-Leste continuam a assumir quase sozinhas o trabalho doméstico e os cuidados familiares. Histórias de vida, dados estatísticos e especialistas mostram como esta sobrecarga limita oportunidades, [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p><em>Apesar dos avanços na participação feminina no mercado de trabalho, milhares de mulheres em Timor-Leste continuam a assumir quase sozinhas o trabalho doméstico e os cuidados familiares. Histórias de vida, dados estatísticos e especialistas mostram como esta sobrecarga limita oportunidades, afeta a saúde mental e perpetua desigualdades que começam dentro de casa.</em></p>
<p>Ainda antes do nascer do sol, o despertador toca para Isabel Soares da Conceição. São quatro da manhã e o dia começa muito antes de chegar ao emprego. Prepara o pequeno-almoço, limpa a casa, organiza tudo o que a família vai precisar ao longo do dia e só depois se prepara para sair. Quando regressa, ao fim da tarde, a rotina recomeça: cozinhar, lavar a loiça, tratar da roupa e arrumar a casa. O descanso fica para o fim, muitas vezes já perto da meia-noite.</p>
<p>A rotina de Isabel está longe de ser exceção. Em Timor-Leste, muitas mulheres conciliam o trabalho remunerado com o trabalho doméstico e de cuidados, numa dupla jornada que continua pouco reconhecida e que limita a participação feminina no mercado de trabalho.</p>
<p>Os números confirmam esta realidade. Segundo o Inquérito à Força de Trabalho de 2021, apenas 24,2% das mulheres participam no mercado de trabalho, enquanto entre os homens essa taxa sobe para 36,9%. Entre as mulheres que estão fora da população ativa, 36,3% apontam os cuidados familiares como principal motivo para não procurarem emprego.</p>
<p>Por detrás destas estatísticas estão histórias de mulheres que dividem diariamente o tempo entre o emprego e uma segunda jornada dentro de casa.</p>
<p><strong>Um dia que começa às quatro da manhã</strong></p>
<p>Aos 29 anos, Isabel vive em Beto, Díli. Casou-se em 2024 e é mãe de uma bebé que atualmente vive com os avós, em Baucau, porque tanto ela como o marido trabalham e não conseguem assegurar os cuidados diários da criança.</p>
<p>Antes das seis da manhã já concluiu grande parte das tarefas domésticas. Depois segue para a empresa Meno House, em Bemori, onde trabalha das 8h00 às 17h00. Recebe 150 dólares por mês, salário que permanece inalterado desde que entrou na empresa.</p>
<p>&#8220;Depois de cinco anos continuo a receber o mesmo salário. Não estou satisfeita porque nunca houve aumento&#8221;, lamenta.</p>
<p>Apesar da frustração, abandonar o emprego nunca foi uma opção. &#8220;Às vezes apetece parar, mas todas as despesas exigem dinheiro. Somos uma família nova e viver em Díli, onde tudo é muito caro.&#8221;</p>
<p>Terminada a jornada de trabalho, começa outra. &#8220;Chego e começo logo a preparar o jantar, arrumar a casa e lavar a roupa. Só depois tomo banho e descanso.&#8221;</p>
<p>Mesmo cansada, diz que só consegue deitar-se depois de concluir todas as tarefas. &#8220;Se vejo a casa desarrumada ou a loiça por lavar, não consigo descansar.&#8221;</p>
<p>Embora o marido ajude sempre que pode — sobretudo quando ela está doente — Isabel diz que a maior parte das responsabilidades continua a recair sobre si. &#8220;No dia a dia, sou eu quem faz a maior parte do trabalho.&#8221;</p>
<p>A dupla jornada, explica, tem consequências físicas e emocionais. &#8220;Todos os dias gastamos muita energia, de madrugada até à noite. Dormimos tarde e acordamos muito cedo.&#8221;</p>
<p>Segundo Isabel, o cansaço acumulado afeta a saúde e reduz significativamente o tempo disponível para descansar. Quando adoece, o marido assume as tarefas domésticas, contando por vezes com o apoio dos irmãos.</p>
<p>A experiência de Isabel reflete a realidade de milhares de mulheres timorenses. Segundo um estudo da Oxfam, baseado numa <em>Rapid Care Analysis</em> realizada em 2022 em Timor-Leste, as mulheres dedicam, em média, 57 horas semanais ao trabalho doméstico e aos cuidados não remunerados, enquanto os homens dedicam apenas 17 horas — uma carga superior em mais de três vezes.</p>
<p>O tempo investido na cozinha, na limpeza da casa e nos cuidados prestados aos filhos, idosos e outros familiares raramente é contabilizado nas estatísticas económicas, mas reduz o tempo disponível para descansar, estudar, procurar emprego ou investir na carreira.</p>
<figure id="attachment_22760" aria-describedby="caption-attachment-22760" style="width: 866px" class="wp-caption aligncenter"><img decoding="async" class=" wp-image-22760" src="https://www.diligenteonline.com/wp-content/uploads/2026/06/mulheressss-516x215.png" alt="" width="866" height="361" srcset="https://www.diligenteonline.com/wp-content/uploads/2026/06/mulheressss-516x215.png 516w, https://www.diligenteonline.com/wp-content/uploads/2026/06/mulheressss-768x320.png 768w, https://www.diligenteonline.com/wp-content/uploads/2026/06/mulheressss.png 889w" sizes="(max-width: 866px) 100vw, 866px" /><figcaption id="caption-attachment-22760" class="wp-caption-text">Vários estudos nacionais e internacionais têm demonstrado que as desigualdades de género continuam a marcar a vida das mulheres em Timor-Leste/Foto: Diligente</figcaption></figure>
<h2>Trabalho, autonomia e escolhas difíceis</h2>
<p>Trabalhar para não depender de ninguém. Foi esse desejo de autonomia que levou Celeste da Costa a manter o emprego depois do nascimento do primeiro filho.</p>
<p>Conta que chegou a ponderar abandonar o trabalho para se dedicar exclusivamente à criança e à casa, mas acabou por optar por continuar a trabalhar.</p>
<p>&#8220;Houve um momento em que pensei deixar o trabalho para cuidar dele e da casa. Mas queria continuar a trabalhar para que pudéssemos apoiar-nos mutuamente. Não queria depender apenas do dinheiro do meu marido.&#8221;</p>
<p>Para tornar essa decisão possível, o casal deixou o filho aos cuidados dos avós, na montanha, enquanto ambos mantinham a atividade profissional.</p>
<p>Tal como acontece com muitas mulheres timorenses, a jornada de Celeste não termina quando sai do escritório. &#8220;Depois do trabalho ainda tenho de cozinhar, lavar a loiça, limpar a casa e organizar tudo. Mesmo cansada, sei que essas tarefas precisam de ser feitas.&#8221;</p>
<p>Conciliar emprego e responsabilidades domésticas exige uma gestão rigorosa do tempo. &#8220;É uma rotina cansativa porque passamos o dia inteiro a trabalhar. De manhã acordamos cedo para preparar tudo em casa e, quando regressamos, continuamos a trabalhar&#8221;, explica.</p>
<p>Para Celeste, esta realidade só mudará quando existir uma verdadeira partilha das tarefas familiares.</p>
<p>&#8220;Numa família deve haver igualdade. Não é apenas a mulher que deve ir para a cozinha. Os homens também devem participar nas tarefas da casa.&#8221;</p>
<p>Esta desigualdade também se reflete nos indicadores do mercado de trabalho. Entre as mulheres que estão fora da população ativa, mais de um terço afirma que as responsabilidades familiares impedem a sua participação económica. Entre os homens, essa razão é apontada por apenas 18,4% dos inquiridos, segundo dados da Organização Internacional do Trabalho (OIT).</p>
<h2>Depois da escola, começa outra jornada</h2>
<p>Mónica de Sousa, professora de Matemática e mãe de três filhos, conhece bem este equilíbrio difícil.</p>
<p>Acorda diariamente às seis da manhã para preparar o pequeno-almoço, organizar a família e tratar das primeiras tarefas domésticas antes de seguir para a escola. As aulas terminam ao meio-dia, mas o trabalho continua quando regressa a casa.</p>
<p>&#8220;Quando volto da escola, começo logo a cozinhar, limpar a casa, lavar a roupa e tratar da família. Muitas vezes, nem tenho tempo para descansar antes de preparar o almoço.&#8221;</p>
<p>Embora o marido e os filhos ajudem ocasionalmente, considera que a maior parte das responsabilidades continua a recair sobre si.</p>
<p>&#8220;Muitos homens pensam que o trabalho doméstico é responsabilidade exclusiva da mulher. Eles vão trabalhar e, quando regressam, esperam que tudo esteja pronto.&#8221;</p>
<p>Para aliviar o cansaço e o stress, Mónica participa nas atividades do coro da igreja.</p>
<p>&#8220;Participar nas atividades da igreja ajuda-me a descansar mentalmente.&#8221;</p>
<p>Na sua perspetiva, a igualdade de género ainda está longe de ser uma realidade em Timor-Leste.</p>
<p>&#8220;Na prática, as mulheres continuam a fazer muito mais. Somos nós que cozinhamos, lavamos a roupa, cuidamos da casa, dos filhos e até do marido.&#8221;</p>
<p>Apesar de procurar organizar o tempo entre trabalho, família e descanso, admite que nem sempre consegue manter esse equilíbrio.</p>
<p>&#8220;Gostaria de ter mais tempo para descansar e estar com a minha família. Às vezes sentimos muito cansaço e stress, mas sabemos que é preciso continuar a trabalhar para garantir o sustento da casa.&#8221;</p>
<p><strong>&#8220;É importante existir equilíbrio entre o trabalho e o descanso. As mulheres não devem carregar sozinhas todas as responsabilidades da casa.&#8221; &#8211; Mónica de Sousa, professora e mãe de três filhos.</strong></p>
<p>As histórias de Isabel Soares da Conceição, Celeste da Costa e Mónica de Sousa mostram uma realidade comum a muitas mulheres timorenses: depois de um dia de trabalho remunerado, regressam a casa para assumir a maior parte das tarefas domésticas e dos cuidados familiares.</p>
<p>Os dados confirmam que estes testemunhos não são casos isolados. A menor participação feminina no mercado de trabalho e o elevado número de horas dedicadas ao trabalho doméstico não remunerado revelam uma desigualdade que começa dentro de casa e se reflete na economia.</p>
<p>Entre o cansaço, a pressão financeira e a responsabilidade de garantir melhores condições para as suas famílias, Isabel, Celeste e Mónica continuam a enfrentar diariamente uma dupla jornada que evidencia a necessidade de uma divisão mais equilibrada das responsabilidades familiares.</p>
<h2>O peso invisível da dupla jornada</h2>
<p>O cansaço descrito por Isabel, Celeste e Mónica vai muito além do desgaste físico. Para o psicólogo Alessandro Boarccaech, a acumulação do trabalho remunerado com as responsabilidades domésticas e familiares tem um impacto profundo na saúde mental das mulheres.</p>
<p>Quando a maior parte das tarefas da casa continua a recair sobre a mulher, explica, o tempo para descansar, cuidar de si própria ou simplesmente desligar torna-se cada vez mais reduzido. A esta sobrecarga física junta-se uma carga mental permanente: planear refeições, organizar horários, acompanhar os filhos e garantir que tudo funciona dentro de casa.</p>
<p>&#8220;É importante compreender que o problema não está apenas na quantidade de trabalho, mas também na responsabilidade constante de gerir diferentes tarefas e responder a múltiplas exigências ao mesmo tempo.&#8221;</p>
<p>Segundo o psicólogo, esta pressão contínua pode provocar stress persistente, ansiedade, irritabilidade, dificuldades de sono e uma sensação constante de exaustão. Em situações prolongadas, podem ainda surgir sintomas depressivos e perda de motivação.</p>
<p>Os efeitos estendem-se igualmente ao contexto profissional. A falta de descanso e a preocupação permanente com as responsabilidades familiares reduzem a capacidade de concentração, dificultam a tomada de decisões e comprometem o desempenho no trabalho.</p>
<p>Boarccaech sublinha, contudo, que a existência de uma rede de apoio pode fazer a diferença. Mulheres que partilham as tarefas domésticas com o parceiro ou recebem ajuda da família tendem a lidar melhor com as exigências diárias. Pelo contrário, aquelas que assumem praticamente sozinhas os cuidados da casa e da família enfrentam um risco acrescido de stress crónico, isolamento e esgotamento.</p>
<p>Na sua perspetiva, esta realidade continua a ser reforçada pelos papéis tradicionais de género existentes em Timor-Leste. Apesar da crescente participação feminina no mercado de trabalho, muitas mulheres continuam a ser vistas como as principais responsáveis pelos cuidados da casa, o que gera um sentimento de culpa sempre que não conseguem corresponder a todas as expectativas.</p>
<p>&#8220;O problema é que os padrões sociais são frequentemente irrealistas. A tentativa constante de atingir esses ideais pode contribuir para stress, ansiedade e uma sensação permanente de insuficiência, mesmo quando existe um elevado nível de esforço e dedicação.&#8221;</p>
<p>Entre os principais sinais de alerta, o especialista destaca o cansaço persistente, a dificuldade em relaxar, alterações do sono, irritabilidade, esquecimentos frequentes, dificuldades de concentração e a sensação constante de viver sob pressão.</p>
<p>Embora a dupla jornada não conduza necessariamente ao <em>burnout</em>, considera que constitui um importante fator de risco quando não existem períodos suficientes de descanso nem uma distribuição equilibrada das responsabilidades familiares.</p>
<p>Para reduzir este impacto, Alessandro Boarccaech defende que a resposta não pode assentar apenas na capacidade individual das mulheres para gerir melhor o tempo. Considera essencial promover uma repartição mais justa das tarefas domésticas e criar políticas laborais que facilitem a conciliação entre a vida profissional e familiar.</p>
<p>&#8220;A redução da sobrecarga exige também uma distribuição mais equilibrada das responsabilidades domésticas e de cuidados, bem como ambientes de trabalho que reconheçam os desafios da conciliação entre vida profissional e familiar.&#8221;</p>
<h2>O trabalho doméstico continua no centro da desigualdade de género em Timor-Leste</h2>
<p>Em Timor-Leste, a desigualdade de género não se limita ao acesso ao emprego ou à participação política. Para organizações da sociedade civil, continua a manifestar-se sobretudo dentro de casa, onde as mulheres assumem a maior parte do trabalho doméstico e dos cuidados familiares, mesmo quando têm emprego formal ou ocupam cargos de liderança.</p>
<p>Esta distribuição desigual das responsabilidades faz com que, depois de um dia de trabalho remunerado, muitas regressem a casa para cozinhar, limpar, cuidar dos filhos e organizar a vida familiar, sem uma partilha equilibrada destas tarefas.</p>
<p>Para a ativista feminista Amandina da Silva, esta realidade resulta de um problema estrutural, alimentado tanto pelo sistema patriarcal como pela organização económica.</p>
<p>Apesar da crescente participação feminina no mercado de trabalho, explica, a responsabilidade pelo funcionamento da casa continua a ser vista como uma obrigação das mulheres.</p>
<p>&#8220;Hoje vemos muitas mulheres a trabalhar fora de casa, mas continuam a ser elas que cozinham, cuidam dos filhos, dos idosos e organizam a casa. Essa responsabilidade não desaparece quando entram no mercado de trabalho.&#8221;</p>
<p>Na prática, acrescenta, isso significa que muitas nunca conseguem desligar-se verdadeiramente das responsabilidades familiares.</p>
<p>&#8220;A mulher sai para trabalhar, mas continua mentalmente ligada à casa o tempo todo.&#8221;</p>
<p>Segundo Amandina, esta sobrecarga pesa sobretudo sobre mulheres das classes baixa e média, que não têm recursos para contratar apoio doméstico.</p>
<p>&#8220;Chegam a casa depois de um dia inteiro de trabalho e ainda precisam de cozinhar, limpar e cuidar dos filhos. Isso reduz o descanso e também a qualidade do trabalho no dia seguinte.&#8221;</p>
<p>Na sua perspetiva, o problema não pode ser explicado apenas pelo patriarcado.</p>
<p>&#8220;O patriarcado diz que a mulher deve cuidar da casa. O capitalismo abre o mercado de trabalho, mas não reorganiza o trabalho doméstico. As duas coisas funcionam juntas e criam pressão sobre as mulheres.&#8221;</p>
<p>Embora essencial para o funcionamento da sociedade, o trabalho de cuidado continua praticamente invisível.</p>
<p>&#8220;Sem alguém a cozinhar e a cuidar da casa, ninguém consegue ir trabalhar no dia seguinte. Mas esse trabalho não é reconhecido.&#8221;</p>
<p>Por isso, defende que a resposta passa por políticas públicas que permitam conciliar vida profissional e familiar.</p>
<p>&#8220;Sem creches e sem apoio do Estado, a mulher é obrigada a escolher entre trabalhar, cuidar da família ou acumular as duas coisas.&#8221;</p>
<p>E conclui:</p>
<p>&#8220;O problema não se resolve dizendo que a mulher deve ser forte. É preciso criar condições reais para que ela não fique sobrecarregada.&#8221;</p>
<p>A mesma preocupação é partilhada pelo Movimentu Rosas Mean, que considera que a desigualdade de género continua a reproduzir-se no espaço doméstico e condiciona as oportunidades das mulheres na vida profissional.</p>
<p>A ativista Elia da Costa explica que, apesar da maior participação feminina na vida pública, as responsabilidades de cuidado permanecem concentradas nas mulheres.</p>
<p>&#8220;Mesmo quando trabalham fora, as mulheres continuam a assumir quase todas as tarefas de cuidado.&#8221;</p>
<p>Essa realidade, afirma, reduz o tempo disponível para formação, progressão profissional e participação em redes de contacto, perpetuando desigualdades ao longo da vida.</p>
<p>O movimento chama ainda a atenção para a invisibilidade do trabalho doméstico e de cuidados, indispensável ao funcionamento das famílias, mas ausente da economia formal.</p>
<p>Para alterar este cenário, defende medidas como licenças parentais mais equilibradas, creches acessíveis, horários de trabalho flexíveis, licença de paternidade obrigatória, serviços comunitários de cuidados e campanhas educativas para desconstruir estereótipos de género.</p>
<p>&#8220;A mudança não pode ser apenas individual. Precisa de ser estrutural e também cultural.&#8221;</p>
<p>Também Imaculada Gouveia Leite considera que a raiz do problema continua a estar na persistência de uma visão patriarcal da sociedade, que valoriza sobretudo o papel dos homens na esfera pública e continua a associar às mulheres a responsabilidade pelos cuidados da casa.</p>
<p>A ativista lembra que o valor do trabalho de cuidado está reconhecido em instrumentos jurídicos como a Constituição da República Democrática de Timor-Leste e a Convenção sobre a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação contra as Mulheres (CEDAW), ratificada pelo país. Ainda assim, considera que esse reconhecimento continua longe de se traduzir na realidade quotidiana.</p>
<p>Para Imaculada, a transformação deve começar no espaço familiar.</p>
<p>&#8220;O trabalho doméstico deve ser uma responsabilidade coletiva. Só quando homens e mulheres partilharem de forma equilibrada as responsabilidades dentro de casa é que podemos falar de verdadeira igualdade.&#8221;</p>
<p>O Diligente contactou o Gabinete da Secretária de Estado da Igualdade, Etelvina Sousa, para obter esclarecimentos sobre as políticas públicas destinadas a responder à sobrecarga de trabalho doméstico e de cuidados que continua a afetar muitas mulheres timorenses. Até ao fecho desta reportagem, não foi possível obter uma resposta.</p>
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		<title>Famílias expulsas de madrugada em Aimutin denunciam abuso do Estado</title>
		<link>https://www.diligenteonline.com/familias-expulsas-de-madrugada-em-aimutin-denunciam-abuso-do-estado/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Rilijanto Viana]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 15 May 2026 12:10:06 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Destaque]]></category>
		<category><![CDATA[Reportagens]]></category>
		<category><![CDATA[Sociedade]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Operação conduzida de madrugada pela Direção Nacional de Terras e Propriedades, com apoio policial, destruiu 52 habitações no bairro do Posto Penal, em Aimutin, deixando dezenas de famílias sem abrigo. O Governo defende a legalidade do despejo administrativo, mas moradores, [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p><em>Operação conduzida de madrugada pela Direção Nacional de Terras e Propriedades, com apoio policial, destruiu 52 habitações no bairro do Posto Penal, em Aimutin, deixando dezenas de famílias sem abrigo. O Governo defende a legalidade do despejo administrativo, mas moradores, defensores da comunidade e organizações da sociedade civil acusam o Estado de abuso de poder e de favorecer interesses privados numa disputa fundiária que dura há anos.</em></p>
<p>Ainda antes do amanhecer, o silêncio em Aimutin, no bairro do Posto Penal, em Comoro, foi interrompido pelo som de motores, ordens policiais e máquinas pesadas. Quando muitos moradores saíram das casas para perceber o que estava a acontecer, encontraram a área cercada por forças de segurança e equipas da Direção Nacional de Terras e Propriedades (DNTP). Em poucas horas, 52 casas foram reduzidas a escombros e dezenas de famílias ficaram sem abrigo.</p>
<p>O despejo administrativo, realizado na terça-feira, 12 de maio, pela DNTP, desencadeou uma onda de revolta, dor e acusações mútuas entre a comunidade, o Governo, defensores dos direitos humanos e empresas privadas envolvidas numa disputa de terras que se arrasta há vários anos.</p>
<p>Entre lágrimas, desespero e revolta, residentes relatam ter vivido momentos de forte tensão desde as primeiras horas da madrugada. Muitos afirmam que não tiveram sequer tempo para retirar os seus pertences antes das demolições.</p>
<p>Juliana Maria Belo, uma das moradoras afetadas, afirmou que a comunidade nunca recusou cooperar com as autoridades, mas exigia um processo transparente e justo. “Não somos contra o desenvolvimento. Queremos diálogo e respeito. Antes de destruírem as nossas casas, deviam conversar connosco”, disse, com a voz a tremer e em lágrimas.</p>
<p>Segundo Juliana, as primeiras equipas da Direção de Terras chegaram ao local alegando que apenas fariam um levantamento de dados. No entanto, os moradores começaram a suspeitar das intenções quando técnicos passaram a marcar algumas habitações para futura demolição.</p>
<p>“Ainda não havia mediação nem decisão clara. Se aceitássemos a marcação, significava que já concordávamos com o despejo”, explicou.</p>
<p>A residente contou ainda que a comunidade apresentou documentos do Tribunal de Recurso que, segundo os moradores, reconheciam direitos sobre a ocupação do terreno. Por isso, recusaram permitir a entrada das equipas sem uma notificação formal emitida pelo Tribunal. “Pedimos sempre: mostrem-nos uma ordem legal. Eles diziam apenas que cumpriam ordens, mas não apresentavam documentos claros”, afirmou.</p>
<p>Apesar disso, na manhã de terça-feira, dezenas de agentes policiais e viaturas cercaram a área. Muitos moradores pensaram inicialmente tratar-se de uma operação relacionada com obras públicas ou alargamento da estrada. Pouco depois, perceberam que as demolições começariam imediatamente. “Quando saímos de casa, já havia polícia por todo o lado. Não tivemos tempo de salvar quase nada”, relatou Juliana.</p>
<p>Durante a intervenção, algumas pessoas sentiram-se mal. Uma jovem terá desmaiado após tentar proteger os bens da família. Alguns jovens terão sido arrastados à força e levados para a esquadra por tentarem impedir a execução da operação.</p>
<p>“Nós, povo de Timor-Leste, sentimo-nos abandonados. A lei parece valer apenas para quem tem muito dinheiro. Para nós, os pobres, já não vale”, afirmou a moradora.</p>
<p>A dor da perda mistura-se com um sentimento profundo de abandono social. Muitas famílias afirmam viver naquela área antes mesmo da independência de Timor-Leste. Para elas, o despejo representa não apenas a perda material, mas também o rompimento de laços históricos e comunitários construídos ao longo de décadas.</p>
<p>Domingas Pinto, outra moradora afetada, emocionou-se ao recordar a convivência antiga entre vizinhos, incluindo um superior das forças armadas que, segundo ela, foi acolhido pela própria comunidade. “Nós demos espaço para viverem aqui. Construímos casas juntos. Agora somos tratados como se não pertencêssemos a este lugar”, lamentou.</p>
<p>Os moradores apelam diretamente ao ministro da Justiça, Sérgio Hornai, para visitar o local e ouvir as famílias afetadas antes que novas ações ocorram. A comunidade pede diálogo, mediação e soluções humanas para evitar que mais famílias fiquem sem abrigo.</p>
<p>“Os senhores ocupam esses cargos para serem a voz do povo, não a voz de mafiosos. Pedimos ao ministro da Justiça que nos ajude”, disseram alguns residentes.</p>
<p>Enquanto os destroços permanecem espalhados pelo terreno, muitas crianças, idosos e mulheres passam agora os dias entre os restos das casas demolidas, tentando recuperar documentos, roupas e memórias soterradas sob madeira, zinco e pó.</p>
<blockquote>
<p style="text-align: center;"><span style="color: #ff9900;">“O Estado sabe expulsar e destruir casas, mas esquece a obrigação de garantir um lugar digno para as pessoas viverem”</span></p>
</blockquote>
<p><strong>Um conflito antigo e juridicamente complexo</strong></p>
<p>O caso de Aimutin não começou agora. A disputa fundiária arrasta-se há anos e mistura questões históricas, jurídicas e sociais profundamente sensíveis em Timor-Leste.</p>
<p>No centro do conflito estão três partes com interesses distintos sobre a mesma área: a comunidade local, o Estado timorense e a empresa Lita Store Unipessoal Lda.</p>
<p>A comunidade, representada por António Pinto, diz possuir direito legítimo sobre o terreno com base na ocupação histórica. Segundo os moradores, as famílias vivem no local desde o período da ocupação indonésia, mantendo posse contínua da terra ao longo de décadas.</p>
<p>Por outro lado, o Estado argumenta que o terreno integra o património privado estatal. A posição assenta no facto de a área ter pertencido, durante o período indonésio, à empresa PT Wiracipta Senasatria, registada no então Badan Pertanahan Nasional (BPN), atualmente substituído pela Direção Nacional de Terras e Propriedades (DNTP).</p>
<p>Após a restauração da independência, o imóvel teria revertido automaticamente para o Estado timorense, nos termos da Lei n.º 1/2003, de 10 de março, sobre o Regime Jurídico dos Bens Imóveis do Estado.</p>
<p>Entretanto, a empresa Lita Store afirma possuir direito legal sobre a área após adquirir o terreno, em 2010, através de um contrato de compra e venda celebrado com Cesaltina Maria Exposto dos Santos.</p>
<p>A questão tornou-se ainda mais controversa após o caso chegar aos tribunais. Durante o processo judicial movido pela empresa contra a comunidade, representada por António Pinto, as decisões do Tribunal de Primeira Instância e do Tribunal de Recurso apresentaram fundamentos considerados contraditórios pelos moradores e defensores dos direitos fundiários.</p>
<p>O tribunal reconheceu que o terreno pertence ao Estado. Ainda assim, ordenou a entrega da área à empresa privada Lita Store, alegando validade da compra realizada em 2010.</p>
<p>“Se a terra pertence ao património privado do Estado, como pode um contrato privado de compra e venda entre particulares produzir efeitos legais sem que seja anulado pelo próprio Estado?”, questionou o morador Izalde Xavier.</p>
<p>Segundo o residente, a principal dúvida da comunidade prende-se com a aparente contradição entre o reconhecimento do terreno como património estatal e a validade atribuída à compra realizada pela empresa privada.</p>
<p>“Segundo a nossa lei, apenas o Estado pode alienar património estatal. Então, porque é que nunca foi anulado o contrato?”, perguntou.</p>
<p>Izalde Xavier acusou ainda o Estado de favorecer interesses económicos privados em detrimento das famílias pobres que vivem no local há décadas. “Porque é que o Estado não faz contratos de arrendamento com os moradores, de acordo com a lei?”, questionou.</p>
<p>Para a comunidade, o despejo administrativo ignorou a responsabilidade social do Estado perante famílias vulneráveis. “O Estado sabe expulsar e destruir casas, mas esquece a obrigação de garantir um lugar digno para as pessoas viverem”, afirmou o residente.</p>
<p>Enquanto aguardam uma resposta formal do Governo, as famílias continuam à espera de uma decisão escrita do Ministério da Justiça que suspenda definitivamente o despejo administrativo.</p>
<p><strong>Defesa da comunidade denuncia abuso de poder</strong></p>
<p>O defensor da comunidade afetada, Manuel Sarmento, denunciou alegadas irregularidades graves e abuso de poder durante a execução da operação realizada pela Direção Nacional de Terras e Propriedades (DNTP) e pelas forças de segurança.</p>
<p>Segundo o advogado, a forma como o despejo foi executado contradiz diretamente a decisão emitida pelos tribunais, levantando dúvidas sobre a legalidade da ação. “Vejo muitas irregularidades e abuso de poder neste despejo administrativo. A decisão do tribunal dizia uma coisa, mas no terreno aplicaram outra completamente diferente”, afirmou.</p>
<p>Manuel Sarmento revelou ainda ter levado o caso diretamente ao Ministro da Justiça, Sérgio Hornai, que, segundo o defensor, terá orientado verbalmente a suspensão imediata do despejo devido às dúvidas existentes sobre a documentação apresentada. “O ministro disse claramente que o despejo devia parar porque os documentos não estavam corretos”, explicou.</p>
<p>Para o defensor, as autoridades ignoraram tanto o conteúdo da decisão judicial como os procedimentos legais básicos exigidos em casos de despejo.</p>
<p>Segundo Manuel Sarmento, o tribunal limitou a área em disputa a 2.500 metros quadrados, mas a operação acabou por atingir uma área muito maior, incluindo dezenas de habitações da comunidade. “A decisão do tribunal referia-se apenas a 2.500 metros quadrados. Agora vemos casas destruídas muito além dessa área”, criticou.</p>
<p>O advogado considerou igualmente contraditória a posição atual da Direção Nacional de Terras e Propriedades, que classifica o terreno como património privado do Estado, enquanto o tribunal teria reconhecido documentos privados relacionados com a posse da terra.</p>
<p>“O Tribunal decidiu sobre um conflito específico. Agora, surgem novas interpretações administrativas que não correspondem àquilo que foi decidido judicialmente”, afirmou.</p>
<p>O defensor acusou ainda as autoridades de falharem no dever de notificar adequadamente os moradores antes da operação. “Uma notificação não é chegar de madrugada com máquinas e polícia. O Estado devia explicar claramente às pessoas o motivo da ação e procurar entendimento com a comunidade”, disse.</p>
<p>Durante os encontros realizados anteriormente entre representantes do Governo e os moradores, Manuel Sarmento afirmou que nunca houve consenso sobre a saída voluntária das famílias. Segundo o defensor, persistiram divergências profundas entre aquilo que constava da decisão judicial e a forma como a medida foi aplicada na prática.</p>
<p>A principal preocupação da defesa é a perceção de que o Estado esteja a remover famílias pobres para beneficiar interesses privados ligados à empresa Lita Store Unipessoal Lda..</p>
<p>“Se fosse para alargamento da estrada ou uma obra pública, as pessoas talvez compreendessem melhor. Mas aqui a comunidade pergunta: o Estado está a retirar famílias para entregar a terra a uma empresa privada?”, questionou.</p>
<p>Segundo Manuel Sarmento, caso o despejo prossiga, a equipa de defesa pretende apresentar uma queixa formal junto da Procuradoria-Geral da República para investigar possíveis danos, abuso de poder e irregularidades legais ocorridas durante a operação.</p>
<p>“Vamos identificar todas as irregularidades e depois caberá à justiça avaliar responsabilidades. Não podemos simplesmente ficar em silêncio perante tanta destruição”, declarou.</p>
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<p style="text-align: center;"><span style="color: #ff9900;">“Talvez não tenhamos dinheiro nem poder, mas temos a lógica, a justiça e a lei do nosso lado”</span></p>
</blockquote>
<p><strong>Rede ba Rai fala em “retrocesso democrático”</strong></p>
<p>O representante da organização Rede ba Rai, Pedrito Vieira, acusou o despejo administrativo realizado em Aimutin de representar um grave retrocesso democrático e uma afronta aos princípios da boa governação em Timor-Leste.</p>
<p>Segundo o ativista, a operação não apenas viola direitos fundamentais das famílias afetadas, como também revela sinais preocupantes de influência de grupos de interesse e alegadas redes mafiosas ligados ao conflito fundiário.</p>
<p>“Este despejo vai contra os princípios da boa governação que o povo timorense lutou para construir. É também uma ação desumana, porque provoca sofrimento a mulheres grávidas, crianças, idosos e famílias inteiras que agora não sabem como continuar a viver”, afirmou.</p>
<p>Pedrito Vieira alegou ainda existirem redes informais de influência ligadas ao setor fundiário, embora sem apresentar documentos públicos que comprovem oficialmente essas acusações. “Há pessoas ainda ligadas ao meio militar que atuam como brokers. São elas que fazem contactos com empresários e pressionam instituições do Estado”, denunciou. O representante da Rede ba Rai afirmou que a organização pretende investigar o caso e apresentar um pedido formal escrito para suspender o despejo administrativo.</p>
<p>“O Governo fala verbalmente sobre cancelar o despejo, mas até agora ninguém viu um documento oficial”, criticou.</p>
<p>Para Pedrito Vieira, a destruição das casas que o Estado estaria a favorecer interesses privados em detrimento dos direitos dos cidadãos mais vulneráveis. “O Governo não pode render-se a grupos mafiosos”, declarou.</p>
<p>Apesar do ambiente de medo e tensão, a Rede ba Rai apelou à resistência pacífica da população afetada. “Talvez não tenhamos dinheiro nem poder, mas temos a lógica, a justiça e a lei do nosso lado”, afirmou.</p>
<p>Pedrito Vieira criticou igualmente o silêncio de vários deputados do Parlamento Nacional, acusando-os de ignorarem o sofrimento da comunidade. “Os deputados levantam apenas assuntos ligados aos seus interesses. Quando o povo sofre, muitos permanecem calados”, lamentou.</p>
<p>Segundo o ativista, se o terreno pertence efetivamente ao Estado, o Governo deveria dar prioridade às famílias que vivem há décadas no local, permitindo-lhes permanecer legalmente através de contratos de arrendamento ou outros mecanismos previstos na lei.</p>
<p>A Rede ba Rai defende que a solução mais justa seria permitir que a comunidade continuasse no local mediante pagamento de taxas ou acordos legais com o Estado, em vez de entregar o terreno a empresas privadas sem ligação histórica à área.</p>
<p>“Se o Governo continuar a ignorar estas situações, práticas injustas como esta vão repetir-se cada vez mais”, afirmou.</p>
<p><strong>Governo defende legalidade da operação</strong></p>
<p>O secretário de Estado das Terras e Propriedades, Jaime Xavier Lopes, defendeu a legalidade do despejo administrativo realizado em Aimutin, afirmando que todo o processo segue a lei e resulta de um conflito fundiário antigo já apreciado pelos tribunais.</p>
<p>Segundo Jaime Lopes, a disputa remonta ao período da ocupação indonésia. O governante revelou ter participado diretamente no levantamento topográfico inicial da área, após um pedido apresentado por uma empresa indonésia interessada em medir cerca de 50 hectares de terreno.</p>
<p>“Na altura, uma parte do terreno já tinha habitações e outra permanecia vazia. Mais tarde surgiram ocupações e começaram os conflitos”, explicou.</p>
<p>De acordo com o secretário de Estado, o terreno é considerado património privado do Estado ao abrigo da Lei n.º 1/2003, referente ao Regime Jurídico dos Bens Imóveis do Estado.</p>
<p>“Esses bens passaram para administração do Estado através da Direção Nacional de Terras e Propriedades”, afirmou.</p>
<p>Jaime Lopes esclareceu que o caso foi analisado tanto no Tribunal de Primeira Instância como no Tribunal de Recurso, e que em ambas as fases o Estado saiu vencedor. “A comunidade perdeu no Tribunal de Primeira Instância e voltou a perder no Tribunal de Recurso. Isso significa que a base legal do Estado está consolidada”, declarou.</p>
<p>Segundo o governante, antes da execução do despejo administrativo foram realizadas várias tentativas de diálogo e negociação com os moradores afetados. Contudo, afirmou que nunca foi possível alcançar um entendimento.</p>
<p>“Houve muitas reuniões, muitos diálogos, mas não conseguimos chegar a uma solução. Por isso, o Ministério da Justiça aprovou a proposta de despejo administrativo e o ministro assinou a autorização para executar a medida”, explicou.</p>
<p>Jaime Lopes fez questão de distinguir o processo atual de uma ação de despejo judicial comum. “O que aconteceu em Aimutin foi um despejo administrativo, não uma evicção. Foi uma ação do Estado para recuperar património estatal”, disse.</p>
<p>Segundo o governante, as famílias receberam notificações com antecedência de 90 dias para abandonarem voluntariamente o local antes da intervenção das autoridades. “O Estado notificou os moradores durante três meses. Como não cumpriram voluntariamente, tivemos de avançar com o despejo administrativo”, afirmou.</p>
<p>O secretário de Estado rejeitou também a versão apresentada por alguns moradores de que a ocupação remonta ao período indonésio. “Durante o tempo da Indonésia, aquele terreno estava vazio. As ocupações começaram depois da independência”, garantiu.</p>
<p>Sobre as críticas relacionadas com o apoio social às famílias afetadas, Jaime Lopes afirmou que o Governo tentou oferecer ajuda humanitária, incluindo apoio financeiro para que as famílias procurassem novas habitações. No entanto, segundo ele, a comunidade recusou cooperar com as autoridades. “O Estado não pode pagar indemnizações, porque as pessoas ocupavam terreno estatal. O que podemos oferecer é ajuda humanitária”, explicou.</p>
<p>Apesar das críticas feitas por organizações da sociedade civil e defensores da comunidade, Jaime Lopes insistiu que Timor-Leste é um Estado de direito democrático e que qualquer cidadão descontente pode recorrer novamente aos tribunais. “Quem não concorda com o despejo pode apresentar nova queixa judicial. Vivemos num Estado de direito”, afirmou.</p>
<p>O governante confirmou ainda que, após a remoção completa das ocupações, o Estado avaliará futuros pedidos de utilização da área, incluindo eventuais contratos de arrendamento. “Primeiro precisamos de deixar o terreno livre. Depois, o Estado avaliará quem poderá usar o espaço legalmente”, explicou.</p>
<p>Jaime Lopes revelou também que o Governo pretende continuar a realizar despejos administrativos noutras áreas consideradas património estatal ocupado ilegalmente, embora sem revelar quais serão os próximos locais. “Há outras notificações já emitidas. Em breve, haverá mais operações”, avisou.</p>
<p>Para o secretário de Estado, “os despejos administrativos servem para ensinar a população a cumprir a lei”, declarou.</p>
<p>O governante sublinhou a importância económica da gestão do património estatal, afirmando que os contratos de arrendamento de terrenos públicos já geraram milhões de dólares em receitas para o Estado timorense.</p>
<p>“Em 2025, arrecadámos mais de cinco milhões de dólares americanos através de arrendamentos. Só no primeiro trimestre de 2026 já ultrapassámos um milhão. Se administrarmos bem os bens do Estado, podemos gerar receitas importantes para o país”, concluiu.</p>
<p>Enquanto o Governo fala em receitas e património estatal, dezenas de famílias continuam a dormir entre escombros, sem saber para onde irão amanhã.</p>
<p>O conteúdo <a href="https://www.diligenteonline.com/familias-expulsas-de-madrugada-em-aimutin-denunciam-abuso-do-estado/">Famílias expulsas de madrugada em Aimutin denunciam abuso do Estado</a> aparece primeiro em <a href="https://www.diligenteonline.com">DILIGENTE</a>.</p>
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		<title>Mais uma morte anunciada: um crime que poderia ter sido evitado?</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Rilijanto Viana]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 25 Mar 2026 11:32:31 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Destaque]]></category>
		<category><![CDATA[Reportagens]]></category>
		<category><![CDATA[Sociedade]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Ela pediu ajuda. Apresentou queixas formais à polícia. Alertou familiares para ameaças graves. Mesmo assim, ninguém a protegeu. E, numa madrugada de março, foi brutalmente assassinada. O homicídio da jovem de 21 anos na Praia dos Coqueiros, em Díli, revela [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p><em>Ela pediu ajuda. Apresentou queixas formais à polícia. Alertou familiares para ameaças graves. Mesmo assim, ninguém a protegeu. E, numa madrugada de março, foi brutalmente assassinada. O homicídio da jovem de 21 anos na Praia dos Coqueiros, em Díli, revela de forma cruel e previsível as lacunas persistentes no sistema de proteção às vítimas de violência doméstica em Timor-Leste. </em></p>
<p>Na madrugada de sábado, 21 de março, a Praia dos Coqueiros tornou-se palco de uma tragédia anunciada. A jovem, controlada pelo marido e vítima de ameaças constantes, vivia isolada em casa, com liberdade severamente restringida e medo permanente. Apesar de denúncias anteriores e da tentativa de proteção por parte da família, o indivíduo conseguiu cometer o crime.</p>
<p>O relato da mãe da vítima, Luísa Francisca da Silva, detalha episódios de perseguição, ameaças e violência direta que ilustram sinais claros de risco ignorados pelo sistema. “Ela disse: ‘mãe, ele queria esfaquear-me’”, recorda Luísa, descrevendo momentos em que tentaram, sem sucesso, obter ajuda da polícia.</p>
<p>O episódio trágico coloca novamente a questão central: quantos sinais são necessários para que uma vida seja protegida? Em Timor-Leste, leis existem e denúncias são feitas, mas entre o papel e a prática persiste um abismo onde vidas continuam a ser perdidas.</p>
<p>Organizações como FOKUPERS e a Rede Feto sublinham que respostas mais rápidas e eficazes são urgentes: proteção imediata, acompanhamento contínuo e responsabilização dos agressores. Sem estas medidas, cada queixa ignorada transforma-se num risco real de tragédia.</p>
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<p style="text-align: center;"><span style="color: #ff6600;">“Se ela falasse assim à minha frente, batia-lhe até sangrar. Esmurrava-a até não conseguir andar. Ela veio cá fazer queixa e disse que o marido não lhe tinha batido, e só depois de o vídeo se ter tornado viral nas redes sociais, é que se queixou do trabalho da polícia. Filha da puta…”</span></p>
</blockquote>
<p><strong>Falhas institucionais e a tragédia de uma jovem vítima de violência</strong></p>
<p>Apesar de ter apresentado queixas formais à polícia, incluindo uma tentativa direta de obter proteção na noite do incidente, a jovem continuou exposta ao risco. Um agente do Batalhão de Ordem Pública (BOP) terá chamado a polícia, que chegou ao local, mas o agressor terá fugido de mota. Posteriormente, a vítima e a mãe foram levadas à esquadra, onde terão prestado declarações.</p>
<p>O comandante da Polícia Nacional de Timor-Leste (PNTL) no município de Díli, Orlando Gomes, afirmou que o caso foi encaminhado para a Unidade de Proteção de Vítimas (VPU) e, posteriormente, para o Ministério Público, seguindo os trâmites normais. Apesar disso, a realidade demonstra que estas medidas não foram suficientes para proteger a jovem.</p>
<p><a href="https://www.diligenteonline.com/dupla-agressao-mulher-espancada-pelo-marido-e-insultada-pela-policia/">Recorde-se que, em agosto de 2024, o próprio comandante terá demonstrado falhas graves no atendimento a vítimas de violência doméstica.</a> Nessa ocasião, uma mulher espancada pelo marido no mercado de Taibessi apresentou queixa no mesmo dia, mas o agressor foi apenas identificado, sem detenção, e a vítima foi insultada pelo comandante, que, em entrevista ao Diligente, afirmou: “Se ela falasse assim à minha frente, batia-lhe até sangrar. Esmurrava-a até não conseguir andar. Ela veio cá fazer queixa e disse que o marido não lhe tinha batido, e só depois de o vídeo se ter tornado viral nas redes sociais, é que se queixou do trabalho da polícia. Filha da puta…”</p>
<p>Quase dois anos depois, a jovem assassinada na Praia dos Coqueiros sofreu, de forma previsível, a mesma ausência de proteção efetiva, apesar das afirmações institucionais de que “a VPU cumpre sempre as suas funções”. A realidade mostra que promessas não se traduzem em ação concreta, deixando mulheres vulneráveis e em risco extremo.</p>
<p>Num testemunho marcado pela dor e pela perda, a mãe da vítima, Luísa Francisca da Silva, descreveu um cenário prolongado de controlo, ameaças e medo — sinais claros de um desfecho que, segundo a família, poderia ter sido evitado.</p>
<p>“Ela fazia os trabalhos domésticos em casa, lavava a roupa e preparava a comida. Depois disso, ficava sempre dentro de casa, porque o marido não permitia que saísse. Viviam fechados, e quando discutiam, eu dizia: ‘se é assim, então deixa a minha filha ir embora, em vez de lhe bateres’”, contou Luísa, com a voz marcada pela dor.</p>
<p>Segundo a mãe, o suspeito ter-se-á deslocado a Bebonuk, onde terá dito a colegas que já estava divorciado há três meses. Apesar disso, tentava alegadamente manipular outra jovem para formar uma nova família. “Então a minha filha disse que podiam ficar juntos, porque ela já tinha sofrido muito a viver com ele”, relatou.</p>
<p>Pouco depois, o homem terá regressado a casa e iniciado uma nova discussão. Nesse momento, terá tirado o telemóvel da jovem e fugido. “Eu e a minha filha fomos atrás dele até à casa de um vizinho. Lá, ele olhou para trás e pensou que ela estava sozinha. Pegou numa pedra grande para a atingir, mas, ao ver-me, recuou”, afirmou.</p>
<p>Em seguida, terá regressado novamente a casa, onde já se encontravam alguns colegas. Disse então à jovem que deveriam deixar os amigos na estrada e resolver o problema entre os dois, no quarto.</p>
<p>“O marido abraçou a minha filha e disse: ‘tu não me amas, pois não?’ Ela respondeu: ‘eu amo-te, como é que não iria amar?’ Depois, ele perguntou novamente: ‘não tens nada para me dizer?’ A minha filha já não respondeu. Então, ele terá tirado uma faca que tinha escondida nas costas e tentou esfaqueá-la, mas dois dos colegas conseguiram segurá-lo. A minha filha ficou em pânico e fugiu a chorar para junto de mim. Perguntei-lhe o que se passava e ela disse: ‘mãe, ele queria esfaquear-me’. Ainda tentámos ir atrás dele, mas já tinha fugido”, contou.</p>
<p>O episódio deixou a jovem profundamente assustada e traumatizada. Na sequência, terá entrado no quarto e rasgado todos os documentos do marido. Este, por sua vez, terá fugido para Bebonuk, onde terá ido beber vinho.</p>
<p>Nessa mesma noite, terá regressado já embriagado, ainda com uma faca escondida na cintura. Ao entrar novamente no quarto e ver os documentos destruídos, terá começado a partir as janelas e a atirar objetos.</p>
<p>“De madrugada, já não aguentei mais o comportamento dele e fui pedir ajuda a um agente da polícia que mora aqui. Expliquei que o marido da minha filha queria esfaqueá-la e que já tínhamos tentado contactar a polícia, mas ninguém tinha aparecido. Pedi que nos ajudasse a ligar novamente, porque estávamos com medo”, relatou.</p>
<p>Foi então que o agente, pertencente ao Batalhão de Ordem Pública (BOP), terá contactado diretamente a esquadra de Dom Aleixo. Pouco depois, a polícia terá chegado ao local com as sirenes ligadas. O homem, ao aperceber-se da presença policial, terá fugido de mota. “Os agentes ainda tentaram persegui-lo, mas sem sucesso.”</p>
<p>Depois disso, segundo a mãe da vítima, os polícias terão regressado e levado mãe e filha para a esquadra Dom Aleixo. Lá, terão recolhido os dados da vítima e terão sido transportadas para Caicoli, onde o suspeito terá aparecido e ambos terão prestado declarações.</p>
<p>“Em seguida, um agente chamou-me e entregou-me um pequeno papel, onde estava escrito: ‘Mana, o problema entre a sua filha e o marido deve ser encaminhado para o tribunal. Este papel não pode ser perdido. Quando a chamarem, deve ir diretamente ao procurador’”, contou Luísa.</p>
<p>Após este procedimento, terão regressado a casa. No entanto, nessa mesma noite, o homem terá exigido os documentos da jovem e, segundo a família, ameaçou-a novamente.</p>
<p>“No sábado à noite, a minha filha tomou banho e eu perguntei-lhe: ‘Onde vais?’ Ela respondeu que ia jogar bingo. Disse-lhe: ‘podes ir, mas não vás para outro lugar’. Ela disse que estava bem e saiu. Eu fui dormir. Por volta das cinco da manhã, a polícia veio informar-me de que a minha filha tinha sido morta”, recordou.</p>
<p>Ao chegar ao local, a família foi informada de que o corpo já tinha sido transportado para o mortuário do Hospital Nacional Guido Valadares. “Pedimos a realização de uma autópsia, para que todas as provas fossem recolhidas e o responsável fosse punido”, afirmou.</p>
<p>Segundo Luísa, a jovem era alvo de perseguição constante por parte do marido, que também alegadamente ameaçava a mãe e o irmão da vítima, dizendo que poderia fazer-lhes mal se os encontrasse em locais públicos.</p>
<p>“Sobre esta situação, já tínhamos apresentado queixa, mas como não obtivemos resposta, fomos aguardando… até que a minha filha foi assassinada”, lamentou.</p>
<p>O suspeito foi presente a primeiro interrogatório judicial no Tribunal Judicial de Primeira Instância de Díli. Durante a diligência, o Ministério Público, representado pela procuradora Benvinda do Rosário, imputou ao arguido a prática de três crimes: homicídio simples, uso de arma branca e violência doméstica.</p>
<p>Na sua promoção, a magistrada requereu a aplicação da medida de coação de prisão preventiva, invocando a existência de fortes indícios da prática destes crimes.</p>
<blockquote>
<p style="text-align: center;"><span style="color: #ff6600;">“Mas, acima de tudo, é necessária uma mudança profunda de mentalidade — uma reflexão honesta sobre o que entendemos por violência, por género e sobre o lugar que a mulher ocupa na sociedade”</span></p>
</blockquote>
<p><strong>Culpabilização da vítima: o papel da sociedade e das redes sociais</strong></p>
<p>O caso gerou forte comoção em Díli e voltou a colocar no centro do debate a violência doméstica em Timor-Leste. Mais uma vez, evidencia-se a vulnerabilidade de mulheres que, mesmo após apresentarem queixa, permanecem expostas aos agressores.</p>
<p>Ainda assim, nas redes sociais, alguns comentários procuraram responsabilizar a própria vítima pela violência de que foi alvo.</p>
<p>“Mulher com tatuagens no corpo dá maus exemplos, e o que aconteceu é fruto do seu comportamento. Ela merece morrer.” “Apelamos às mulheres que cuidem de si mesmas, que ouçam os seus pais e o marido. As meninas não devem sair à noite.” Estes foram alguns dos comentários partilhados online.</p>
<p>Alguns utilizadores associaram ainda as tatuagens a influências externas. “As mulheres que já constituíram família devem seguir a orientação do marido. Em Timor-Leste existe uma cultura muito rígida, herdada dos nossos antepassados. As tatuagens são influências externas, vindas da Europa e da América, que muitas vezes contaminam a nossa sociedade com ideias que não correspondem à nossa realidade, aos nossos direitos e à nossa democracia”, referiu um desses comentários.</p>
<p>Perante estas reações, a família da vítima manifestou indignação face ao que considera serem julgamentos injustos. Luísa Francisca da Silva, mãe da jovem, apelou ao respeito neste momento de luto.</p>
<p>“Deixem-nos enterrar o corpo da minha filha. Não queremos conflitos com quem a está a culpar”, afirmou um familiar, alertando para os perigos de discursos precipitados e estigmatizantes.</p>
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<p style="text-align: center;"><span style="color: #ff6600;">“Para a FOKUPERS, estas denúncias indicavam claramente que a vítima estava em risco, levantando dúvidas sobre se a polícia realizou uma avaliação de risco adequada ou elaborou um plano de segurança, como o encaminhamento para uma casa de abrigo”</span></p>
</blockquote>
<p><strong>Organizações exigem ação urgente para proteger mulheres</strong></p>
<p>A FOKUPERS, em conjunto com a Rede de Advocacia, condenou publicamente o recente caso de homicídio ocorrido na capital e apelou ao reforço urgente das medidas de proteção às vítimas de violência, em particular mulheres e meninas.</p>
<p>Durante uma conferência de imprensa realizada na segunda-feira, 23 de março, no Farol, a porta-voz Natália de Jesus Cesaltino afirmou que o feminicídio “não é apenas um crime, mas uma grave violação dos direitos humanos e uma falha do sistema em proteger as mulheres”.</p>
<p>As organizações da sociedade civil manifestaram profunda preocupação com o aumento contínuo dos casos de violência baseada no género em Timor-Leste. Segundo sublinharam, situações de violência doméstica, abuso sexual, violência sexual e homicídio têm vindo a crescer, gerando alarme social e exigindo respostas mais eficazes por parte das instituições do Estado.</p>
<p>O grupo apontou a morte da jovem na zona da Praia dos Coqueiros como um exemplo das fragilidades na resposta institucional. Para estas organizações, a ausência de medidas preventivas eficazes e de mecanismos rápidos de proteção evidencia falhas graves no sistema de apoio às vítimas.</p>
<p>“Estas situações demonstram fragilidades na resposta institucional, sobretudo na prevenção e na proteção, onde falta reforçar as medidas de proteção às vítimas e garantir ações imediatas para assegurar o seu encaminhamento adequado quando se encontram em situação de risco grave”, afirmou.</p>
<p>As organizações denunciaram ainda a persistência de atitudes sociais que culpabilizam as mulheres pela violência que sofrem, com base na forma como se vestem, por terem tatuagens ou por saírem à noite. “Isso não é motivo para sofrer qualquer forma de violência, nem para tirar a vida a alguém”, sublinhou.</p>
<p>Outro ponto crítico apontado foi a morosidade dos processos judiciais relacionados com homicídios e feminicídios, bem como a falta de transparência e responsabilização. Segundo as organizações, estas falhas contribuem para a repetição da violência, tanto no seio familiar como na comunidade.</p>
<p>Apesar de reconhecerem que o Estado timorense dispõe de instrumentos legais sólidos e de compromissos internacionais para proteger os direitos das mulheres, as organizações consideram que a aplicação dessas medidas continua a ser insuficiente.</p>
<p>Entre as recomendações apresentadas, destacam-se o reforço da capacidade da Polícia Nacional de Timor-Leste (PNTL), com investimento em recursos humanos e infraestruturas adequadas, sobretudo nos serviços de apoio a pessoas vulneráveis.</p>
<p>Defendem também maior investimento no policiamento comunitário e nos mecanismos de igualdade e inclusão, bem como a aceleração das investigações criminais e a detenção de suspeitos em casos de tentativa de homicídio.</p>
<p>Entre outras propostas, salientam a necessidade de fortalecer os sistemas de encaminhamento e proteção às vítimas, garantir maior monitorização dos casos por parte das instituições de direitos humanos e assegurar um orçamento adequado para a prevenção e resposta à violência de género.</p>
<p>As organizações apelam ainda à sociedade para que não tolere nem justifique qualquer forma de violência contra as mulheres, incentivando o apoio às vítimas e às suas famílias na procura de justiça.</p>
<p>A diretora da FOKUPERS, Domingas Afonso Amaral, voltou a exigir às autoridades competentes um processo justo e legal no caso do homicídio ocorrido recentemente em Díli, sublinhando que a proteção das vítimas não é apenas responsabilidade da sociedade civil, mas também das instituições judiciais e da Polícia Nacional de Timor-Leste.</p>
<p>A responsável apontou falhas no acompanhamento do caso, destacando que a família da vítima já tinha apresentado queixa contra o suspeito, alertando para o uso de arma branca e para uma tentativa anterior de homicídio.</p>
<p>“Para a FOKUPERS, estas denúncias indicavam claramente que a vítima estava em risco, levantando dúvidas sobre se a polícia realizou uma avaliação de risco adequada ou elaborou um plano de segurança, como o encaminhamento para uma casa de abrigo”, afirmou.</p>
<p>A diretora enfatizou a necessidade urgente de reforçar os serviços de proteção a mulheres e crianças em situação de perigo, sublinhando que as instituições que recebem os primeiros relatos devem melhorar a formação dos profissionais e reforçar a coordenação com outras entidades.</p>
<p>Apesar de existir um sistema de rede de encaminhamento, liderado pelo Ministério da Solidariedade Social e Inclusão, Amaral alertou que os casos de violência contra mulheres continuam elevados e questionou se os mecanismos de apoio chegam efetivamente a todas as vítimas ou se a falta de informação impede o acesso em situações de emergência.</p>
<p>Outro desafio apontado é a pressão social enfrentada pelas mulheres, frequentemente culpabilizadas pela violência que sofrem, o que leva muitas vítimas a aceitarem a situação como parte das suas vidas. Por isso, a FOKUPERS tem intensificado ações de sensibilização, reforçando que os serviços de apoio existem e que nenhuma mulher deve viver sob violência.</p>
<p>Dados da organização indicam que, entre janeiro e fevereiro deste ano, foram registados 41 casos de violência, incluindo agressões físicas contra mulheres adultas e violência sexual contra menores. Todas as vítimas estão a receber apoio em casas de abrigo ou acompanhamento especializado.</p>
<p>Amaral destacou ainda que a raiz de muitos destes casos reside numa cultura patriarcal ainda dominante, que favorece os homens e perpetua normas sociais discriminatórias, estigmas e estereótipos contra mulheres e meninas.</p>
<p>Para além do apoio direto, a FOKUPERS acompanha processos judiciais, incluindo casos antigos ainda não concluídos, garantindo assistência e monitorização contínuas.</p>
<p>A presidente da Rede Feto Timor-Leste, Zélia Fernandes, sublinhou que a advocacia em prol da prevenção e proteção de mulheres e meninas não é recente. Desde a fundação da FOKUPERS, em 1997, e da Rede Feto, em 2000, as organizações têm trabalhado para construir um país livre de discriminação e violência.</p>
<p>Apesar de mais de duas décadas de esforços e do reforço de mecanismos internacionais, incluindo iniciativas apoiadas pelas Nações Unidas, os casos de violência continuam a aumentar. Zélia destacou que a rotatividade constante de pessoal em instituições como a PNTL prejudica a qualidade do atendimento, ao deslocar profissionais qualificados para outras áreas.</p>
<p>A responsável salientou ainda a importância de envolver mais homens nas ações de sensibilização, “uma vez que a participação feminina continua a ser predominante, o que limita o impacto das campanhas de prevenção”.</p>
<p>Outro ponto destacado foi a relevância do Plano de Ação Nacional contra a Violência Baseada no Género, liderado pela Secretaria de Estado para a Igualdade, que inclui pilares fundamentais como a prevenção e a educação. Zélia alertou que, face à capacidade limitada da sociedade civil, é essencial que o Estado assegure recursos financeiros adequados para garantir a eficácia das medidas.</p>
<p>A responsável reforçou que não se trata de atribuir culpas, mas de melhorar a articulação entre instituições. “Apesar de a PNTL ter recebido queixas, não houve comunicação eficaz com parceiros da sociedade civil, como a Rede Feto e a FOKUPERS, que tradicionalmente colaboram na resposta a situações de risco”, afirmou.</p>
<p>Para a dirigente, os casos de violência doméstica e de violência baseada no género exigem que os intervenientes tenham formação e competências adequadas para agir. Nesse sentido, defendeu o reforço da capacitação dos membros da PNTL para intervirem eficazmente nestas situações.</p>
<p>“O caso da Praia dos Coqueiros não é isolado. Em Maliana, uma vítima de violência doméstica encontrava-se acolhida na casa de abrigo Mahon de Maria Tapo. Após concluir um processo de reintegração familiar, o agressor deslocou-se ao local para tentar reaver a mulher. A polícia não antecipou o risco e o homem acabou por assassinar a vítima”, relatou Zélia Fernandes.</p>
<p>A dirigente voltou a sublinhar a necessidade de formação contínua dos membros da PNTL, para que sejam capazes de identificar sinais de risco e avaliar corretamente situações que possam evoluir para homicídio, garantindo uma proteção mais eficaz das vítimas.</p>
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<p style="text-align: center;"><span style="color: #ff6600;">“Este tipo de comentário é particularmente grave, porque não é apenas uma opinião individual. Reflete uma visão do mundo em que a vida de uma mulher vale menos do que a sua submissão a normas sociais e à autoridade masculina. É, em certa medida, uma forma de cumplicidade com o agressor, mesmo que inconsciente”</span></p>
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<p><strong>Psicologia da culpabilização: por que razão a sociedade continua a culpar as vítimas?</strong></p>
<p>O assassinato de uma mulher na Praia dos Coqueiros revelou não apenas falhas na proteção das vítimas, mas também padrões sociais que frequentemente transferem a culpa da tragédia para a própria vítima. Em entrevista, o psicólogo Alessandro Boarccaech explicou os mecanismos psicológicos e sociais que sustentam esta mentalidade.</p>
<p>Segundo Alessandro Boarccaech, a tendência para responsabilizar a vítima nasce da necessidade humana de compreender e controlar aquilo que provoca desconforto. “Culpar a vítima é, por mais contraditório que pareça, uma forma de nos sentirmos seguros. É como se disséssemos a nós próprios: ‘isto não me aconteceria, porque eu não faria o que ela fez’”, afirmou.</p>
<p>Entre os mecanismos psicológicos identificados, destaca-se a chamada ilusão de justiça do mundo — a crença de que cada pessoa recebe aquilo que merece, levando à procura de falhas na vítima para restaurar a sensação de ordem. “Quando um crime brutal desafia essa crença, a mente tenta restabelecer o equilíbrio pelo caminho mais curto: encontrar erros na vítima”, explicou.</p>
<p>A isto junta-se a ilusão de controlo. “Ao atribuir à vítima comportamentos que ‘explicam’ o que lhe aconteceu, cada pessoa convence-se de que está protegida, porque não cometeria ‘os mesmos erros’. É uma forma de pensamento mágico: se eu seguir as regras certas, estarei segura”, acrescentou.</p>
<p>Outro mecanismo frequente é a tendência para explicar os atos dos outros com base em supostos defeitos de caráter, ignorando o contexto, o medo e a violência estrutural. “Quanto maior for a distância psicológica — seja social, geográfica, cultural ou de estilo de vida — menor é a identificação com a vítima e menor é a empatia”, sublinhou.</p>
<p>O psicólogo destacou ainda o fenómeno de identificação com o agressor. “Quando o agressor é alguém próximo, admirado ou com quem nos identificamos, reconhecer a sua culpa gera desconforto. Para reduzir essa tensão, a mente tende a minimizar o crime e a transferir a responsabilidade para a vítima”, explicou.</p>
<p>A estes fatores soma-se o viés de género, presente tanto em homens como em mulheres. “Existe uma associação cultural entre feminilidade e submissão. Quando uma mulher não corresponde a esse modelo, é inconscientemente vista como ‘desviante’ e, por isso, mais facilmente culpabilizada. Este viés está tão enraizado que muitas pessoas nem se apercebem de que o reproduzem”, afirmou.</p>
<p>Alertou também para o papel das redes sociais na amplificação destes comportamentos. “As redes sociais aumentam a impessoalidade e a sensação de impunidade, normalizando comentários cruéis e desumanizando a vítima”, disse. Segundo Alessandro, este fenómeno contribui para aquilo que designa como “fadiga de empatia”, transformando tragédias em meras estatísticas sem impacto real.</p>
<p>O especialista sublinhou que a violência doméstica não é um fenómeno individual, mas estrutural. “Em Timor-Leste, muitos homens ainda consideram que têm autoridade total dentro de casa, incluindo sobre as esposas. Se a sociedade não reconhecer a violência doméstica como um problema coletivo, as vítimas continuarão a ser julgadas antes de serem protegidas”, alertou.</p>
<p>Comentários como “é uma lição para outras mulheres” refletem, segundo Alessandro, uma mentalidade profundamente preocupante. “Quando se diz isto, a violência deixa de ser vista como um crime e passa a ser encarada como uma consequência ‘natural’ de comportamentos considerados inadequados”, explicou.</p>
<p>“Este tipo de comentário é particularmente grave, porque não é apenas uma opinião individual. Reflete uma visão do mundo em que a vida de uma mulher vale menos do que a sua submissão a normas sociais e à autoridade masculina. É, em certa medida, uma forma de cumplicidade com o agressor, mesmo que inconsciente”, acrescentou.</p>
<p>O psicólogo destacou ainda que o discurso público tem consequências concretas. “As mulheres que vivem em contextos de violência observam como a sociedade reage a estes casos. Quando veem julgamento ou justificação do agressor, interiorizam a ideia de que, se falarem, serão também julgadas e punidas”, afirmou.</p>
<p>“Isto reforça o silêncio, a vergonha, a culpa e o isolamento. Em muitos casos, é precisamente o que impede uma vítima de dar o primeiro passo para sair de uma relação abusiva. O discurso público não é neutro — tem impacto direto na vida das pessoas”, sublinhou.</p>
<p>Alessandro acrescentou que, quando o ambiente social sinaliza que a vítima será exposta e responsabilizada, denunciar torna-se ainda mais difícil. “Muitas mulheres optam pelo silêncio por medo de sofrerem uma segunda violência — a do julgamento coletivo — e até de serem abandonadas pela própria família”, disse.</p>
<p>“Perguntas como ‘porque não denunciou?’ ou ‘porque não saiu da relação?’ revelam um profundo desconhecimento sobre os ciclos de violência, o medo, as pressões sociais e a dependência emocional e económica que condicionam as vítimas”, afirmou. “Culpar as mulheres é mais fácil do que confrontar um sistema que falha em protegê-las.”</p>
<p>O psicólogo chamou também a atenção para o funcionamento das redes sociais. “Um comentário que, numa conversa privada, ficaria limitado a um pequeno grupo pode, nas redes sociais, alcançar milhares de pessoas em poucos minutos”, explicou.</p>
<p>“Os algoritmos favorecem conteúdos que geram reações emocionais intensas. A indignação, o julgamento e a provocação geram mais interação do que a reflexão ponderada. O resultado é que os comentários mais extremos tendem a ganhar mais visibilidade, criando a falsa perceção de que representam a opinião da maioria”, acrescentou.</p>
<p>Para combater a culpabilização das vítimas, Alessandro defende uma abordagem estrutural e integrada. “Na escola, é fundamental introduzir desde cedo a educação para a igualdade, o reconhecimento das emoções e a resolução não violenta de conflitos”, afirmou.</p>
<p>“Na comunicação social, é essencial evitar linguagem que revitimize e centrar a narrativa no agressor, não na vítima. Nas comunidades, líderes religiosos, chefes de suco, Lia Na’in, líderes tradicionais e famílias devem questionar e desconstruir normas que toleram a violência”, sublinhou.</p>
<p>Quanto às redes sociais, considera que “as plataformas devem assumir responsabilidade pelo tipo de discurso que amplificam”.</p>
<p>Relativamente ao papel do Estado, Alessandro foi claro: “São necessárias leis claras contra a violência doméstica e o feminicídio, tribunais que as apliquem com rigor, serviços de acolhimento eficazes e forças de segurança devidamente formadas para agir com sensibilidade e competência”.</p>
<p>“Uma mulher em perigo precisa de sentir que o sistema existe para a proteger, não para a expor”, reforçou.</p>
<p>“Mas, acima de tudo, é necessária uma mudança profunda de mentalidade — uma reflexão honesta sobre o que entendemos por violência, por género e sobre o lugar que a mulher ocupa na sociedade”, concluiu.</p>
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<p style="text-align: center;"><span style="color: #ff6600;">“Muitas pessoas ainda pensam que mulheres não podem andar sozinhas à noite ou usar roupas curtas. Isso não é culpa da mulher; o erro está naqueles que a veem como objeto sexual”</span></p>
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<p><strong>Jurista alerta para lacunas legais e institucionais na proteção de vítimas de violência doméstica</strong></p>
<p>O jurista Armindo Moniz destacou a necessidade urgente de reforçar a proteção às vítimas de violência doméstica em Timor-Leste, apontando falhas legais e institucionais que deixam pessoas em situação de risco.</p>
<p>Segundo Moniz, quando uma vítima apresenta queixa na Polícia Nacional de Timor-Leste (PNTL), a autoridade deve conduzir uma investigação para determinar se houve crime. “Se for crime, é necessário aprofundar a análise das evidências. Apenas quando existem provas suficientes é possível concluir que houve crime”, explicou.</p>
<p>O jurista sublinhou que, nesta situação específica, a autoridade policial deve prestar esclarecimentos públicos, uma vez que a família da vítima já tinha apresentado queixas sobre as ameaças e a insegurança, mas nenhuma ação foi tomada contra o suspeito.</p>
<p>“Em Timor-Leste, muitas queixas demoram anos até que alguma medida seja adotada. Denunciamos casos sérios, todos reconhecidos como crimes, mas só depois de dois ou três anos se toma alguma providência”, afirmou Moniz.</p>
<p>O jurista enfatizou a importância de rever esses casos junto ao setor judicial e à PNTL, recomendando não apenas a análise do Código Penal e do processo penal, mas também da criminologia, para compreender a relevância da detenção preventiva. “A razão da detenção é, entre outras, prevenir que o suspeito fuja, destrua evidências ou cometa outro crime contra a vítima ou terceiros. A falha da autoridade em tomar essa ação constitui uma falha legal”, disse.</p>
<p>Moniz salientou ainda que não existe legislação específica que garanta a proteção das vítimas e testemunhas. Embora uma proposta já tenha sido apresentada ao Parlamento Nacional, ainda não foi debatida. “Sem essa lei, muitas vítimas não recebem proteção do Estado”, alertou.</p>
<p>O jurista reforçou que a responsabilidade legal da polícia no caso desta jovem depende da transparência da investigação. “Se a polícia colabora com o suspeito ou mantém relações familiares que favoreçam o infrator, a vida da vítima é afetada negativamente. É essencial formar equipas independentes para conduzir essas investigações e apurar se houve negligência por parte da autoridade”, afirmou.</p>
<p>Moniz destacou que tanto o setor judicial como a PNTL representam o Estado e podem ser responsabilizados quando existem falhas na proteção das vítimas.</p>
<p>Por fim, reagiu à cultura de culpabilização das mulheres em Timor-Leste. “Muitas pessoas ainda pensam que mulheres não podem andar sozinhas à noite ou usar roupas curtas. Isso não é culpa da mulher; o erro está naqueles que a veem como objeto sexual”, afirmou, reforçando que as mulheres têm liberdade plena para agir sobre o seu corpo.</p>
<p><strong>Polícia admite denúncias prévias, mas remete decisão para Ministério Público</strong></p>
<p>O comandante da Polícia Nacional de Timor-Leste (PNTL) no município de Díli, Orlando Gomes, reconheceu que, antes do homicídio, a vítima já tinha um histórico de ameaças e intimidação por parte do marido.</p>
<p>Segundo explicou, no dia 5 de março, a jovem e a mãe apresentaram queixa na Esquadra de Dom Aleixo, tendo a polícia dado início ao processo de investigação. Após a identificação do caso, a vítima foi encaminhada para a Unidade de Proteção de Vítimas (VPU) da PNTL.</p>
<p>“O caso de ameaças foi acompanhado pela polícia e já encaminhado ao Ministério Público. Isto demonstra que a polícia está a atuar e a dar seguimento ao caso”, afirmou.</p>
<p>Orlando Gomes sublinhou que o processo seguiu os trâmites considerados normais. “A polícia encaminha o caso para o Ministério Público, que, por sua vez, o submete ao tribunal para decisão”, disse.</p>
<p>O comandante rejeitou falhas na atuação policial, defendendo que o procedimento foi cumprido. “A polícia falha quando não atende a queixa, não inicia o processo ou deixa o caso de lado. Neste caso, a polícia recebeu a denúncia e deu seguimento. Depois disso, qual é o próximo passo que pode dar? O processo foi entregue ao Ministério Público, que o encaminhará ao tribunal, e será o tribunal a decidir”, afirmou.</p>
<p>Acrescentou que a VPU cumpre as suas funções sempre que recebe denúncias de violência doméstica ou abuso, mas salientou que a atuação policial está dependente das orientações do Ministério Público. “Para garantir que tudo seja feito corretamente, o processo tem de seguir as orientações do Ministério Público. A polícia não pode agir por iniciativa própria; tem de cumprir essas diretrizes”, explicou.</p>
<p>O comandante reconheceu ainda o risco acrescido para as vítimas. “Em Timor-Leste, sabemos que, quando uma mulher apresenta queixa, muitas vezes o agressor reage com mais violência. Por isso, é fundamental que informe rapidamente as autoridades, como a VPU, ou que articule com a família para garantir a sua segurança”, alertou.</p>
<p>Orlando Gomes afirmou que a PNTL mantém articulação com organizações da sociedade civil, como a FOKUPERS, em situações em que as vítimas não se sentem seguras. No entanto, admitiu limitações na resposta imediata. “Neste caso recente, verifiquei que já tinha sido encaminhado ao Ministério Público. Se a vítima disser à polícia que não se sente segura para regressar a casa, então podemos contactar a FOKUPERS para assegurar a sua proteção”, disse.</p>
<p>O responsável defendeu também a necessidade de maior atenção por parte dos investigadores. “Este caso deve servir de referência para melhorarmos os serviços e evitarmos que situações semelhantes voltem a acontecer”, afirmou.</p>
<p>Relativamente aos meios disponíveis, Orlando Gomes garantiu que a polícia não enfrenta limitações de recursos humanos. “Temos pessoal suficiente para cumprir o serviço. Os casos de violência doméstica são crimes públicos e são tratados com urgência, ao contrário de outros tipos de ocorrência”, assegurou.</p>
<p>Por fim, apelou à denúncia imediata de situações de violência. “Mulheres e homens que enfrentem violência doméstica devem comunicar de imediato às autoridades mais próximas, para que possam receber apoio o mais rapidamente possível”, concluiu.</p>
<p>Recorde-se, no entanto, que o episódio de 2024 evidencia falhas graves na atuação da polícia: a VPU não garantiu proteção efetiva, o agressor não foi detido de imediato e a vítima foi revitimizada pelas autoridades.</p>
<p>Quase dois anos depois, no caso da jovem assassinada na Praia dos Coqueiros, a PNTL voltou a falhar de forma semelhante, apesar de afirmar que “a VPU cumpre sempre as suas funções”? A realidade mostra que a polícia não assegura a proteção das vítimas de violência doméstica de forma consistente, e que as promessas institucionais muitas vezes não se traduzem em ações concretas, deixando mulheres expostas a risco extremo e, em casos trágicos, à morte.</p>
<p>É urgente que a polícia proteja efetivamente as vítimas, que os tribunais atuem com rapidez e que a sociedade pare de culpar as mulheres. Cada atraso custa vidas.</p>
<p>O conteúdo <a href="https://www.diligenteonline.com/mais-uma-morte-anunciada-um-crime-que-poderia-ter-sido-evitado/">Mais uma morte anunciada: um crime que poderia ter sido evitado?</a> aparece primeiro em <a href="https://www.diligenteonline.com">DILIGENTE</a>.</p>
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		<title>Prazer proibido? A luta silenciosa das mulheres em Timor-Leste</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Lourdes do Rego]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 14 Feb 2026 11:36:15 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Destaque]]></category>
		<category><![CDATA[Reportagens]]></category>
		<category><![CDATA[Sociedade]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>No Dia dos Namorados, enquanto muitos celebram o amor com flores e presentes, algumas mulheres em Timor-Leste vivem um silêncio invisível: o direito de decidir sobre o seu próprio corpo. Consentimento, prazer, autonomia e liberdade de expressão dentro do casamento [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p><em>No Dia dos Namorados, enquanto muitos celebram o amor com flores e presentes, algumas mulheres em Timor-Leste vivem um silêncio invisível: o direito de decidir sobre o seu próprio corpo. Consentimento, prazer, autonomia e liberdade de expressão dentro do casamento ainda são questões complexas, atravessadas por cultura, religião e tradições patriarcais.</em></p>
<p>Quem decide sobre o corpo da mulher? O que significa consentimento fora e dentro do casamento? Há espaço para que as mulheres expressem o que realmente sentem nas suas relações íntimas?</p>
<p>Estas perguntas, embora fundamentais, permanecem muitas vezes sem resposta em Timor-Leste. Embora a Constituição garanta igualdade entre mulheres e homens em todos os domínios da vida — familiar, cultural, social, económico e político — o que acontece no espaço íntimo de cada casa ainda é cercado de silêncio e tabus.</p>
<p>No contexto do Dia dos Namorados, comemorado a 14 de fevereiro, enquanto muitos parceiros trocam flores, chocolates ou passeios românticos, a discussão sobre autonomia corporal e consentimento feminino permanece invisível. Por trás deste romantismo, existe uma questão raramente discutida abertamente: o prazer sexual feminino.</p>
<p>Durante as entrevistas realizadas, surgiram desafios significativos. Muitas das pessoas que tentamos entrevistar, tanto homens quanto mulheres, se sentiram envergonhadas ao abordar o tema, e algumas chegaram a rir de forma constrangida.</p>
<p>Houve, porém, quem aceitasse partilhar a sua experiência, desde que a identidade fosse preservada. Este comportamento evidenciou que o prazer sexual feminino continua a permanecer no silêncio.</p>
<p>Mulheres entrevistadas relataram sentir dificuldade em falar sobre o que lhes agrada ou desagrada nas relações sexuais, por vergonha, medo de julgamento ou pela perceção de que os homens simplesmente não ouviriam.</p>
<p>“Com o meu ex-parceiro, sentia timidez e faltava abertura. Muitas vezes não dizia, porque sabia que ele não ia querer perceber. Hoje sei que tenho de defender o meu direito e quero falar abertamente sobre o que sinto. Isso é importante para o meu bem-estar — e para o bem-estar de todas as mulheres”, disse uma entrevistada, que optou por manter o anonimato.</p>
<p>Acrescentou que o uso de brinquedos sexuais ajuda a explorar o prazer, embora nem sempre envolva sentimentos. “Acho que é normal e faz parte do ser humano. Os brinquedos ajudam, mesmo que não envolvam o sentimento de carinho. Para mim, a relação sexual não é apenas o ‘fazer’, mas também a intimidade. Mesmo assim, acho que as tecnologias também ajudam”.</p>
<p>No entanto, relatou experiências passadas em que nunca se sentiu dona do próprio corpo: “Nunca senti que o meu corpo me pertencia de forma plena. No fim do ato sexual com o meu ex-parceiro, sentia um vazio e pensava: ‘Não tenho direito a ser amada?’ Sabia que não podia explicar, porque ele não iria perceber, e ali, no silêncio, o meu corpo deixava de me pertencer.”</p>
<p>Estas narrativas individuais refletem desafios mais amplos enfrentados pelas mulheres timorenses, que ainda lutam para ter espaço de expressão, mesmo em relações conjugais, dentro de uma sociedade patriarcal e influenciada por normas culturais e religiosas.</p>
<p><strong>Corpo, poder e controlo: direitos fundamentais em jogo</strong></p>
<p>O respeito pelo corpo feminino, a autonomia e o consentimento não são apenas questões íntimas: são direitos humanos e constitucionais. O Artigo 17 da Constituição da República Democrática de Timor-Leste estabelece que mulheres e homens têm os mesmos direitos em todos os domínios da vida — familiar, cultural, social, económico e político. No entanto, na prática, a cultura patriarcal ainda influencia a perceção sobre quem deve ter controlo sobre o corpo e sobre a intimidade.</p>
<p>“O corpo é o primeiro território que cada pessoa deve proteger”, afirma Virgílio Guterres, Provedor dos Direitos Humanos e de Justiça. “Antes de defender o território de um país, cada cidadão tem o direito de proteger o seu próprio corpo e a sua dignidade. Qualquer negação ao direito à igualdade, ou qualquer ato de discriminação contra as mulheres, constitui uma violação dos direitos humanos.”</p>
<p>O psicólogo Alessandro Boarccaech alerta para o impacto direto da falta de conhecimento sobre sexualidade na autoconfiança das mulheres e na qualidade das relações. “A sensação de falta de controlo sobre o próprio corpo pode gerar ansiedade, frustração, insegurança e baixa autoestima. A longo prazo, limita a capacidade de estabelecer relações íntimas saudáveis e afeta a saúde mental, autonomia e bem-estar emocional.”</p>
<p>Emília Moniz, feminista, reforça que nas culturas patriarcais o corpo feminino é muitas vezes visto como objeto, não como ser humano com direitos, sentimentos e escolhas. “Quando falamos de satisfação durante a relação sexual, não se trata apenas de intimidade, mas também da dinâmica de poder — quem decide e quem é ouvido. O prazer feminino é frequentemente negligenciado e estigmatizado.”</p>
<p><strong>Vozes femininas: silêncio, vergonha e conquista de autonomia </strong></p>
<p>Para compreender melhor a realidade do corpo e do consentimento feminino em Timor-Leste, o Diligente ouviu mulheres de diferentes idades, de contextos urbanos e rurais, algumas mães e outras solteiras. Muitas relataram dificuldades em expressar o que sentem, seja por vergonha, medo de conflito ou falta de conhecimento sobre o próprio corpo.</p>
<p>“Às vezes, estou doente ou estou com o período, e mesmo assim ele não aceita um ‘não’. Grita comigo, bate-me, e insiste que tenho de lhe obedecer porque ‘pagou muito por mim’. Sinto-me presa dentro do meu próprio corpo.”</p>
<p>Contou que, nos dias em que recusa, a violência aumenta. “Quando digo que não quero, ele fica furioso. Uma vez, bateu-me e violou-me, dizendo que o dinheiro que gastou no barlaque me obriga a fazer tudo o que ele quer. Choro sozinha, tento não mostrar, mas a dor e o medo estão sempre comigo.”</p>
<p>A mulher, que preferiu manter o anonimato, explicou que não tem a quem recorrer. “Não posso contar à família, não posso pedir ajuda, porque sei que vão me culpar ou dizer que é normal. Às vezes penso: “Será que alguma vez poderei ser dona do meu próprio corpo?”.</p>
<p>Uma jovem de Díli, de 22 anos, confidenciou: “O meu corpo só é meu quando consigo dizer o que me agrada. Senão, sinto que estou a cumprir um papel, não a viver uma relação de verdade.”</p>
<p>Já uma mãe rural de 35 anos disse: “Ninguém me explicou como funcionava o meu corpo. Hoje, aprendi a reivindicar os meus direitos, mas ainda há mulheres que vivem com dúvidas e medos.”</p>
<p>As experiências pessoais refletem desafios mais amplos enfrentados pelas mulheres. A questão da comunicação dentro do relacionamento surge como um dos principais obstáculos: muitas sentem que não podem expressar o que gostam ou não gostam sexualmente, e acabam por internalizar a frustração e a vergonha.</p>
<p><strong>Vozes masculinas: perceções e tradições </strong></p>
<p>Fridolino Hornai partilhou a sua perspetiva sobre como as mulheres expressam o seu prazer durante as relações sexuais, dependendo da idade. “Quando são mais jovens, têm mais dificuldade em falar. As mulheres mais velhas conseguem comunicar melhor o que sentem. No entanto, a mentalidade da sociedade ainda limita o que pode ser discutido abertamente”, explicou.</p>
<p>Também comentou que falar sobre prazer na comunidade ainda é difícil, devido a barreiras culturais e sociais que tornam complicado discutir sexualidade feminina de forma aberta e honesta. “Mesmo quando algumas conseguem falar sobre o seu prazer, é muitas vezes limitado pela mentalidade timorense, que culturalmente ainda impede que estas questões sejam debatidas.</p>
<p>&#8220;De acordo com a tradição patriarcal de Timor-Leste, os homens valorizam as mulheres por servirem a família. Nesta situação, não se trata apenas de necessidades sexuais. Em vez disso, os homens desenvolvem uma mentalidade de que perderam muito para ganhar as suas esposas, pelo que estas precisam de satisfazer as suas necessidades sexuais.&#8221;</p>
<p>Uma fonte masculina, que preferiu não revelar a sua identidade, falou abertamente sobre a sua experiência e perceção. “Ninguém me explicou nada sobre o corpo da mulher. A gente aprende vendo ou então descobre sozinho… e muitas vezes é só na prática.”</p>
<p>Questionado sobre se sabia o suficiente sobre intimidade e prazer quando casou, respondeu que sabia o básico e que não era importante a mulher gostar. “Se ela gosta, gosta, se não gosta, paciência. É assim a vida”, disse, entre risos.</p>
<p>Sobre se a mulher pode dizer ao marido quando algo não lhe agrada, o entrevistado mostrou-se indignado. “Dizer que não gosta? A nossa cultura não é assim. A mulher tem de aceitar, ou então arranja confusão.”</p>
<p>Relativamente a masturbação feminina e brinquedos sexuais, foi perentório: “A minha mulher não precisa de nada disso! Mas cada um sabe de si.” Por fim, sobre o que poderia mudar para que as mulheres tivessem mais prazer nas relações, desvalorizou. “Talvez se os homens aprendem a ouvir mais, mas a mentalidade das pessoas é assim. E as mulheres até gostam que seja assim.”</p>
<p>Filomeno Martins, por sua vez, trouxe exemplos práticos que demonstram a importância de respeitar o prazer feminino: “Houve mulheres que me procuraram para ter relações porque não estavam satisfeitas com os seus parceiros. Terminam sempre a relação sexual rapidamente, mas percebi que o prazer feminino é importante e que os homens precisam de considerar este aspeto nas suas relações.”</p>
<p>Acrescentou que é fundamental aumentar o conhecimento da sociedade sobre igualdade, para que as mulheres possam expressar-se livremente e com dignidade. “Penso que é necessário disseminar conhecimento sobre o prazer feminino na sociedade, sobretudo entre os homens, para afirmar o princípio da igualdade e permitir que todos os indivíduos vivam de forma livre, igual e com dignidade, tendo direitos de tratamento, proteção e oportunidades.”</p>
<p>Nicodemos do Espírito Santo concorda e reforça que a sociedade ainda valoriza mais o prazer masculino. “A maioria da sociedade ainda mantém esta visão estereotipada. O prazer masculino é discutido e normalizado, enquanto o feminino é ignorado ou tratado como tabu. A educação sexual é essencial para ensinar respeito e compreensão do corpo feminino.”</p>
<p>Explicou que, de acordo com a tradição patriarcal, os homens valorizam as mulheres pelo papel familiar e tradicional, desenvolvendo ideias que reforçam a submissão: “Na tradição patriarcal, os homens acham que as mulheres têm de satisfazer as suas necessidades sexuais como parte da sua obrigação familiar. Isso precisa de mudar para garantir igualdade efetiva.”</p>
<p><strong>Saúde sexual como direito e bem-estar</strong></p>
<p>A discussão sobre prazer e autonomia feminina não é apenas cultural: é também uma questão de saúde pública. De acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS), a saúde sexual é parte fundamental da saúde e do bem-estar dos indivíduos, casais e famílias, além de contribuir para o desenvolvimento social e económico das sociedades e dos países. A saúde sexual não significa apenas ausência de doenças, mas inclui as condições físicas, emocionais, mentais e sociais relacionadas com a sexualidade.</p>
<p>A OMS afirma que a saúde sexual deve ser vista de forma positiva e respeitadora. Ou seja, as relações sexuais devem ocorrer de forma segura e prazerosa, livres de coação, discriminação e violência. Esta abordagem coloca os direitos, a dignidade e o consentimento como princípios centrais em qualquer relação sexual.</p>
<p>A capacidade de uma pessoa para alcançar a saúde e o bem-estar sexual depende do acesso a informação abrangente e de qualidade sobre sexualidade, da compreensão dos riscos e impactos das relações sexuais desprotegidas, da disponibilidade de serviços de saúde sexual, bem como de um ambiente que apoie e valorize a diversidade, incluindo a orientação sexual, a identidade de género, a expressão sexual, os relacionamentos e os aspetos do prazer.</p>
<p><strong>Igreja, moralidade e cultura: limites e imposições</strong></p>
<p>A sexualidade feminina em Timor-Leste também é mediada por interpretações religiosas e culturais. Emília Moniz alerta que, em muitas doutrinas religiosas, a mulher é ensinada a submeter-se ao marido, limitando a sua liberdade sobre o corpo e a sexualidade.</p>
<p>“A religião ensina as mulheres a submeterem-se aos homens, ensina-as a submeterem-se aos homens para que não possam rejeitar os seus maridos”, disse. Acrescenta que a cultura patriarcal e os legados coloniais também controlam o corpo feminino: “Falando da cultura timorense no passado, as mulheres não usavam roupa, mas ninguém sexualizava os seus corpos. A cultura que praticamos hoje deriva moralmente da religião.”</p>
<p>O Diligente tentou contactar representantes da Igreja Católica para ouvir a sua perspetiva sobre intimidade e prazer feminino, mas até ao momento não obteve qualquer resposta.</p>
<p>O psicólogo Alessandro Boarccaech explica que a cultura de Timor-Leste ainda molda como a sociedade vê o corpo e o prazer das mulheres, frequentemente de forma moralista e repressiva.</p>
<p>“Atualmente, a sexualidade tem um caráter moralizante e repressor. O corpo feminino é visto como propriedade do homem ou da família. O prazer da mulher é pouco discutido e, por vezes, invisibilizado, o que reforça a ideia de que o corpo e as vontades da mulher estão subordinados aos interesses sociais e familiares.”</p>
<p>Segundo Alessandro, a educação sexual ainda se concentra sobretudo em reprodução, casamento e moralidade, deixando lacunas importantes sobre o conhecimento do corpo feminino.</p>
<p>“Conversas sobre prazer são frequentemente silenciadas, e o ensino sobre o corpo e a sexualidade se concentram em reprodução, casamento e moralidade. Isso dificulta que meninas e mulheres tenham informações completas sobre seu corpo e direitos sexuais.”</p>
<p>Segundo o mesmo, a falta de informação fidedigna sobre a sexualidade pode fazer com que as mulheres se sintam envergonhadas ou inadequadas em relação ao seu próprio corpo. “Isso dificulta a comunicação com os parceiros, impacta a autoconfiança para reivindicar direitos e consentimento e prejudica tanto a satisfação quanto a segurança emocional nas relações”.</p>
<p>Também destacou a força das normas patriarcais na tomada de decisões relativas à contraceção, ao consentimento e às relações íntimas. Em muitos casos, os homens ainda são considerados como tendo um papel dominante, enquanto a autonomia das mulheres é limitada pelas expectativas familiares, religiosas e comunitárias.</p>
<p>O psicólogo referiu que há sinais de mudança na sociedade em relação aos direitos das mulheres ao prazer e à autonomia corporal, especialmente entre as mulheres jovens, urbanas, solteiras, instruídas e financeiramente independentes.</p>
<p>“Algumas delas reivindicam um maior controlo sobre o seu corpo e sobre as suas escolhas sexuais. Não é incomum encontrar jovens solteiras que dizem não querer casar com homens timorenses, pois não se sentem respeitadas”.</p>
<p><strong>Papel do Governo: educação, sensibilização e mudança gradual</strong></p>
<p>Além das barreiras culturais e religiosas, o Governo tem um papel ativo na promoção da igualdade de género e no apoio à educação e sensibilização sobre direitos e saúde sexual. Hermina Félix Maria de Moreira Gusmão, chefe do Departamento de Proteção Social para as Mulheres do MSSI, explicou ao Diligente que estão em curso campanhas de sensibilização e formação, envolvendo ONG’s e comunidades em municípios como Baucau e Lospalos.</p>
<p>“O MSSI, em colaboração com a Fundação Ásia, reviu os seus procedimentos operacionais padrão. Em 2024, realizámos campanhas de sensibilização sobre estes padrões entre os nossos membros, começando em Baucau e Lospalos, e continuaremos noutros municípios”, explicou.</p>
<p>Hermina salientou que, embora a luta pela igualdade de género seja difícil, é possível avançar um dia de cada vez. “Ainda estamos a sensibilizar as pessoas, mas isso depende de elas receberem a informação. Se queremos mudar a mentalidade da próxima geração, precisamos de começar em casa.”</p>
<p>A chefe de departamento reconhece que o sistema patriarcal ainda prevalente na sociedade é um desafio, mas isso não significa desistir da luta. “No entanto, quando está ligado à cultura, é um pouco mais difícil, mas acho que está a tornar-se possível aos poucos, porque este trabalho é árduo. Vemos que, no nosso país, o sistema patriarcal ainda é forte e continua a ser um desafio que enfrentamos, mas isso não significa que devamos parar de lutar.”</p>
<p><strong>Desafios culturais e religiosos: entre submissão e respeito</strong></p>
<p>Embora a igualdade esteja claramente garantida na Constituição, Virgílio reconheceu que os maiores desafios permanecem nos planos social, cultural e religioso. Citou barreiras estruturais e culturais que continuam a influenciar a perspetiva da sociedade sobre os direitos das mulheres.</p>
<p>“Depois da restauração, há movimentos, mas o desafio é que ainda temos um desafio de como derrubar o muro de Berlim, o muro, a barreira estrutural, cultural e religiosa que ainda servem de abrigos ou de razões pelas entidades culturais e religiosas para travarem ou para terem outra definição sobre a luta pela igualdade”.</p>
<p>Em algumas comunidades, persiste a perceção de que as mulheres casadas devem submeter-se aos seus maridos e seguir o sistema cultural da família do homem. Esta visão, disse, não é exclusiva de Timor-Leste, “mas também existe em muitos outros países com culturas patriarcais.”</p>
<p>No entanto, observou que a cultura timorense também contém valores que podem ser interpretados como respeito pelas mulheres. No casamento tradicional, por exemplo, a união de dois indivíduos significa também a união de duas famílias alargadas. Esta deve ser interpretada como uma forma de respeito e aceitação das mulheres como novos membros da família.</p>
<p>“Culturalmente, ainda tem esta perceção. Mesmo, na minha definição, a cultura timorense em si, há espaços, há interpretações que podem dar o significado que as relações socioculturais que vinculam duas famílias é para honrar a mulher, apreciar a mulher como nova, como novo membro da família”.</p>
<p>Virgílio realçou que o casamento não é um ato de submissão, mas sim um acordo entre duas partes para viverem juntas em igualdade e com respeito mútuo.</p>
<p>“Portanto, como Provedor, encorajo que os lutadores, os responsáveis do movimento de luta pela igualdade,  continuem o esforço de consciencializar a sociedade para chegar a este entendimento de que casamento não é um ato de submissão”.</p>
<p>Apesar das garantias constitucionais, das iniciativas do governo e da voz de especialistas e feministas, a autonomia feminina e o prazer continuam a ser desafios quotidianos.</p>
<p>Pode haver amor quando o corpo da mulher não lhe pertence? Como transformar a Constituição em realidade nas relações íntimas diárias? De que forma a sociedade, a cultura e a religião podem apoiar, em vez de limitar, a liberdade feminina?</p>
<p>O debate sobre corpo, consentimento e prazer feminino em Timor-Leste está apenas a começar. As respostas dependem de mudanças sociais, educativas e culturais que envolvam homens, mulheres e instituições religiosas, construindo um espaço onde a igualdade de direitos e a dignidade das mulheres sejam realmente vividas no dia a dia.</p>
<p>O conteúdo <a href="https://www.diligenteonline.com/prazer-proibido-a-luta-silenciosa-das-mulheres-em-timor-leste/">Prazer proibido? A luta silenciosa das mulheres em Timor-Leste</a> aparece primeiro em <a href="https://www.diligenteonline.com">DILIGENTE</a>.</p>
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		<title>Quando o caminho da fé se torna perigoso: a burocracia da Igreja em Timor-Leste</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Rilijanto Viana]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 07 Feb 2026 08:46:53 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Destaque]]></category>
		<category><![CDATA[Reportagens]]></category>
		<category><![CDATA[Sociedade]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Custos elevados, exigências administrativas rígidas e deslocações longas e perigosas para corrigir documentos da Igreja Católica estão a gerar indignação entre fiéis em Timor-Leste. A morte de duas jovens gémeas, em janeiro de 2026, durante uma viagem imposta por um [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify; line-height: 150%;"><i>Custos elevados, exigências administrativas rígidas e deslocações longas e perigosas para corrigir documentos da Igreja Católica estão a gerar indignação entre fiéis em Timor-Leste. A morte de duas jovens gémeas, em janeiro de 2026, durante uma viagem imposta por um processo burocrático, trouxe o problema para o centro do debate público, com apelos a maior flexibilidade, transparência e atendimento pastoral mais humano.</i></p>
<p>Para muitas comunidades, sobretudo em zonas rurais e montanhosas, a Igreja continua a desempenhar um papel central não apenas na vida espiritual, mas também no acesso a documentos essenciais para a vida civil.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Por detrás das paredes da Igreja Católica, cresce há anos um sentimento de frustração e sofrimento entre muitos crentes. Não se trata de uma crise de fé, mas de um peso administrativo feito de papéis, carimbos, exigências formais e deslocações longas, que, para muitos, se tornou difícil de suportar.</p>
<p>Essa dor ganhou rosto no passado dia 27 de janeiro, quando duas irmãs gémeas perderam a vida num acidente rodoviário, enquanto cumpriam uma exigência administrativa relacionada com documentos da Igreja.</p>
<p>A Paróquia Cristo Rei de Lautém é conhecida pela forte participação dos fiéis. Muitos são agricultores, residentes em zonas montanhosas, pessoas simples e profundamente ligadas à Igreja. Para estas comunidades, a paróquia não é apenas um espaço religioso, mas também um ponto de apoio espiritual e social.</p>
<p>Segundo vários fiéis, porém, o funcionamento administrativo não acompanha essa proximidade pastoral. O caso de Alarico Ximenes, pai das duas jovens vítimas do acidente, tornou-se símbolo dessa crítica. O homem afirma que a rigidez burocrática no tratamento de documentos da Igreja Católica, nomeadamente a certidão de batismo, esteve na origem da deslocação que acabou por se revelar fatal.</p>
<p>“Os nomes das minhas filhas estavam corretos. O problema era o apelido dos meus pais, que estava errado”, relatou Alarico, visivelmente marcado pela perda. Ao procurar corrigir o erro no cartório da Paróquia Cristo Rei de Lautém, as jovens foram informadas de que a alteração não podia ser feita localmente. A solução apresentada foi a obtenção de uma carta de requerimento e a deslocação à Diocese de Baucau, situada a cerca de 86 quilómetros. Foi durante essa viagem que ocorreu o acidente.</p>
<p>O pai recorda ainda que as filhas participavam ativamente na vida paroquial. “Eram muito ativas, serviam como acólitos. Por isso pergunto: por que razão o padre desta paróquia não ajudou as gémeas, que também eram consideradas como suas filhas?”, questionou.</p>
<p>Segundo Alarico, o sacerdote limitou-se a assinar o requerimento e insistiu que apenas a Diocese poderia resolver o problema. Nem o envolvimento regular das jovens nas atividades da paróquia foi suficiente para flexibilizar o procedimento.</p>
<p>Após o acidente, o pároco da Igreja Cristo Rei de Lautém visitou as jovens no hospital. Foi nesse momento que Alarico, dominado pela dor e pela revolta, confrontou o sacerdote e acabou por o agredir fisicamente. “Eu estava fora de mim. Se naquele momento tivesse algo nas mãos, talvez tivesse feito pior”, confessou.</p>
<p>A polícia interveio de imediato e Alarico foi conduzido ao posto da Polícia de Lautém. Pai de cinco filhos, reconhece o erro, mas sublinha que a sua reação resultou de um sofrimento emocional profundo. “Eu estava devastado emocionalmente”, afirmou.</p>
<p>Alarico defende agora uma revisão urgente dos regulamentos da Igreja no tratamento de documentos administrativos, de forma a evitar que outras famílias enfrentem situações semelhantes.</p>
<p>“Se um problema pode ser resolvido na paróquia, então deve ser resolvido ali mesmo. Não há necessidade de obrigar os fiéis a deslocarem-se até dioceses distantes, colocando as suas vidas em perigo”, apelou.</p>
<blockquote>
<p style="text-align: center;"><span style="color: #ff9900;">“Se Jesus estivesse hoje entre nós, não concordaria com este sistema, pois sempre defendeu a verdade e a justiça. Muitos idosos das zonas montanhosas não conseguem deslocar-se às paróquias e acabam por pagar continuamente por erros que não cometeram”</span></p>
</blockquote>
<p><strong>Fiéis de Lautém denunciam burocracia excessiva nas paróquias e exigem reformas administrativas urgentes</strong></p>
<p>Fiéis da Paróquia Cristo Rei de Lautém denunciam práticas administrativas que consideram excessivamente burocráticas, injustas e prejudiciais, apelando a mudanças urgentes no funcionamento dos serviços paroquiais. Entre as principais queixas estão a rigidez das regras para emissão de certidões e documentos, os custos elevados, a obrigatoriedade de deslocações longas e perigosas e a falta de condições dignas de atendimento, situações que, segundo afirmam, comprometem a segurança e a dignidade das pessoas.</p>
<p>O porta-voz do grupo, Apolinário da Silva, afirmou que existe uma burocracia desnecessária naquela paróquia que, ao longo de muitos anos, tem tratado os fiéis “sem dignidade e sem segurança”. Segundo explicou, as regras em vigor têm causado inúmeros prejuízos, não apenas financeiros, mas também colocando em risco a vida das pessoas.</p>
<p>“Os fiéis da Paróquia Cristo Rei de Lautém continuam dispostos a cumprir e a contribuir para os regulamentos administrativos, mas consideram que chegou o momento de rever regras desnecessárias que, ao longo do tempo, têm causado prejuízos”, afirmou Apolinário da Silva, durante uma conferência de imprensa realizada no passado sábado, 31 de janeiro, no Jardim 5 de Maio, em Díli.</p>
<p>Certidões com validade curta, custos elevados e a obrigatoriedade de viagens longas e arriscadas tornaram-se, segundo os fiéis, parte do quotidiano. Apesar de tratarem a documentação necessária na Paróquia Cristo Rei de Lautém, o sistema não permite que algumas correções sejam feitas localmente. Em certos casos, é exigido que os fiéis levem um requerimento à Diocese de Baucau, numa deslocação superior a duas horas.</p>
<p>Perante as dificuldades no acesso a documentos e certidões emitidos pela Igreja Católica, os fiéis apresentaram um conjunto de reivindicações às autoridades e à própria paróquia, defendendo maior transparência, segurança e simplificação dos serviços.</p>
<p>Entre as exigências está a afixação clara das regras de pagamento em quadros de aviso, “permitindo o acesso generalizado à informação e prevenindo práticas de corrupção e nepotismo.” Reivindicam também preços mais justos para certidões e documentos acessórios, como declarações e requerimentos, tendo em conta a realidade económica da comunidade.</p>
<p>Outra preocupação central prende-se com o prazo de validade das certidões de batismo, atualmente limitado a seis meses ou um ano. Os fiéis defendem que esse prazo seja alargado para, pelo menos, três anos, ou mesmo eliminado, de forma a evitar gastos repetidos, sobretudo para quem vive em zonas montanhosas e enfrenta grandes dificuldades de deslocação.</p>
<p>Os fiéis pedem ainda a simplificação de regulamentos que obrigam a viagens longas e perigosas. Correções simples, como erros em nomes ou dados pessoais, deveriam, segundo defendem, ser resolvidas diretamente na paróquia, sem necessidade de deslocação à Diocese de Baucau.</p>
<p>As condições de atendimento são igualmente alvo de críticas. “Muitos fiéis, incluindo idosos, são obrigados a esperar longos períodos sentados no chão ou de pé.” O grupo exige a criação de condições mínimas, como cadeiras e ventilação adequada.</p>
<p>Yazalde Fernandes Xavier, fiel de Lautém, sublinhou que as denúncias não visam desacreditar nem culpar a Igreja Católica em Timor-Leste. “Agimos de boa-fé, com o objetivo de melhorar o sistema administrativo que atualmente funciona nas paróquias”, afirmou.</p>
<p>Yazalde relatou também ter sido vítima da burocracia, considerando que existem muitos procedimentos desnecessários. “Enquanto fiéis, temos a obrigação moral de denunciar práticas que não tratam as pessoas com dignidade”, disse, discordando ainda do prazo de validade de apenas um ano para as certidões de batismo, que defende dever ser eliminado por gerar custos significativos.</p>
<p>“Exigimos a desburocratização. Não queremos uma burocracia longa que coloque em risco a vida dos fiéis e os obrigue a pagamentos excessivos”, afirmou, acrescentando que, embora a comunidade esteja disposta a contribuir, a administração deve ser justa e proporcional às condições económicas da população.</p>
<p>Sobre os custos, explicou que uma nova certidão de batismo custa atualmente 10 dólares, enquanto os requerimentos variam entre 2, 5 e até 16 dólares. “Eu próprio paguei 16 dólares por apenas uma certidão”, referiu. Acrescentou ainda que cartas emitidas pela diocese podem custar 5 dólares por página, valores que considera excessivos. “Embora os fiéis tenham o dever de contribuir, a Igreja Católica deve impor regras que não conduzam à exploração, corrupção ou injustiça”, afirmou.</p>
<p>Cedelisio Nunes Carvalho afirmou que situações semelhantes ocorrem em quase todas as paróquias do país. Criticou o sistema de validade das certidões, que obriga os fiéis a pagar repetidamente pela renovação, classificando-o como “injusto, desumano e insensível à realidade social”.</p>
<p>Segundo o jovem, a Igreja Católica precisa de uma mudança profunda. “Se Jesus estivesse hoje entre nós, não concordaria com este sistema, pois sempre defendeu a verdade e a justiça. Muitos idosos das zonas montanhosas não conseguem deslocar-se às paróquias e acabam por pagar continuamente por erros que não cometeram”, afirmou.</p>
<p>Cedelisio questionou ainda cobranças que considera abusivas. “Como é possível pagar 16 dólares para corrigir um simples acento num nome?”, perguntou, classificando a prática como exploração, discriminação e injustiça.</p>
<p>O jovem apelou à comunidade para que não permaneça em silêncio perante sistemas administrativos pouco transparentes. “É preciso levantar a voz para provocar mudanças significativas”, afirmou.</p>
<p>Questionado sobre a eventual falta de resposta das dioceses, referiu que muitas tragédias são tratadas como simples acidentes, quando, na realidade, resultam de sistemas burocráticos longos e ineficientes, tanto na Igreja como nos serviços públicos.</p>
<p>Por fim, defendeu um diálogo aberto com os decisores e sublinhou que práticas deste tipo não podem ser toleradas. “Não culpamos os técnicos nem os párocos, que apenas executam ordens superiores. O problema está na raiz do sistema”, concluiu.</p>
<blockquote>
<p style="text-align: center;"><span style="color: #ff9900;">“Do ponto de vista legal, é permitido, uma vez que a lei do registo inclui a certidão de batismo como requisito. Contudo, sob a perspetiva dos direitos humanos, esta exigência entra em conflito com a Constituição, dado que Timor-Leste é um Estado laico”</span></p>
</blockquote>
<p><strong>PDHJ e HAK alertam para burocracia da Igreja Católica que penaliza fiéis em Timor-Leste</strong></p>
<p>O Provedor dos Direitos Humanos e Justiça (PDHJ), Virgílio Guterres, comentou as denúncias e considerou tratar-se de um tema sensível, recorrendo à expressão em tétum “hanesan ita tata fali ita nia nanal” (como morder a própria língua), para ilustrar a dificuldade de abordar publicamente questões relacionadas com a Igreja Católica.</p>
<p>Virgílio Guterres sublinhou que a burocracia excessiva tem causado prejuízos aos fiéis, não apenas do ponto de vista financeiro, mas também em termos de segurança. “Se este acidente envolve ou resulta da burocracia da Igreja, espero que a instituição esteja a ponderar mudanças para melhorar a emissão de documentos, incluindo certidões e outros requerimentos dos leigos”, afirmou.</p>
<p>O Provedor criticou igualmente a validade limitada das certidões de batismo, atualmente fixada entre seis meses e um ano, salientando a ausência de uma justificação religiosa clara. “A Igreja tem de explicar qual é a razão religiosa dessa validade: se está prevista nos regulamentos da Igreja, do Vaticano ou na Bíblia. É importante que os cidadãos compreendam o significado simbólico, para não deixar margem à perceção de que a Igreja está a fazer negócio com todo este processo”, declarou.</p>
<p>Guterres referiu ainda os esforços da Igreja no sentido de descentralizar os serviços administrativos das paróquias, com o objetivo de reduzir deslocações longas e perigosas para os fiéis. “O acidente ocorreu porque os jovens precisaram de se deslocar até Baucau. Talvez por terem sido batizados lá, a paróquia local tenha competência para emitir os documentos. Ainda assim, é necessário criar alternativas: a paróquia de Lautém poderia emitir a certidão e destacar um oficial para proceder à validação”, explicou.</p>
<p>O Provedor revelou que, até ao momento, a PDHJ não recebeu reclamações formais relacionadas com este caso específico. “No ano passado, recebemos queixas do grupo Igreja Católica Carismática de Timor-Leste sobre alegada discriminação e sobre processos administrativos da Igreja, mas relativamente às duas jovens ainda não há registo de qualquer queixa”, afirmou.</p>
<p>Virgílio Guterres comentou também a exigência de documentos da Igreja em procedimentos civis, como a emissão do bilhete de identidade, do passaporte ou a inscrição no ensino superior. “Do ponto de vista legal, é permitido, uma vez que a lei do registo inclui a certidão de batismo como requisito. Contudo, sob a perspetiva dos direitos humanos, esta exigência entra em conflito com a Constituição, dado que Timor-Leste é um Estado laico”, explicou.</p>
<p>Nesse sentido, referiu que, no ano passado, a Provedoria submeteu ao Tribunal de Recurso um pedido de fiscalização abstrata do quadro legal, por considerar que este discrimina minorias religiosas. O pedido, contudo, não foi aprovado.</p>
<p>“Apesar de a Constituição reconhecer que somos um Estado laico, na prática algumas leis refletem critérios de instituições religiosas, criando ambiguidades que precisam de ser corrigidas”, concluiu o Provedor dos Direitos Humanos e Justiça.</p>
<p style="text-align: center;"><span style="color: #ff9900;">“Isto constitui uma violação de direitos. Há pessoas que enfrentam grandes dificuldades económicas e, ainda assim, são obrigadas a pagar 10 dólares para corrigir um erro que não cometeram”</span></p>
<p><strong>HAK denuncia entraves burocráticos e encargos excessivos para os fiéis da Igreja Católica</strong></p>
<p>O diretor executivo da Associação HAK, Feliciano de Araújo, reforçou as críticas à burocracia associada ao tratamento de documentos da Igreja Católica em Timor-Leste, considerando que o sistema continua a prejudicar os fiéis, em particular os mais vulneráveis.</p>
<p>Segundo Feliciano de Araújo, após a restauração da independência, o Governo passou a implementar políticas para a emissão da certidão da República Democrática de Timor-Leste (RDTL), separando formalmente os documentos do Estado dos documentos eclesiásticos. No entanto, para a obtenção da certidão civil, os cidadãos continuam obrigados a apresentar a certidão de batismo, o que mantém a Igreja como uma peça central neste processo administrativo.</p>
<p>“Não queremos criar preconceitos entre igrejas que funcionam melhor ou pior, mas, enquanto organização de direitos humanos, a nossa expectativa é que a Igreja facilite o acesso dos fiéis aos seus documentos, em vez de lhes criar obstáculos”, afirmou.</p>
<p>De acordo com o diretor da HAK, as denúncias relacionadas com dificuldades no tratamento de documentos não são recentes e têm-se repetido ao longo de vários anos. Como exemplo, referiu casos ocorridos na Igreja de Balide, onde alguns fiéis chegaram a rasgar as suas certidões em protesto contra o sistema burocrático.</p>
<p>Feliciano de Araújo alertou que a situação se torna particularmente grave quando estão em causa pedidos urgentes. Nesses casos, alguns cartórios paroquiais exigem o pagamento de 10 dólares norte-americanos para acelerar o processo. “O problema agrava-se quando os fiéis detetam erros nos nomes impressos nos documentos. Para corrigir um simples erro, são obrigados a pagar novamente o mesmo valor”, explicou.</p>
<p>“Isto constitui uma violação de direitos. Há pessoas que enfrentam grandes dificuldades económicas e, ainda assim, são obrigadas a pagar 10 dólares para corrigir um erro que não cometeram”, denunciou.</p>
<p>O responsável reconheceu que a administração da Igreja é antiga e complexa, mas defendeu que a modernização dos serviços — nomeadamente a substituição dos registos manuais por sistemas informatizados — deveria servir para facilitar, e não dificultar, a vida dos fiéis. Na sua perspetiva, a modernização deve contribuir para evitar deslocações longas e despesas desnecessárias por parte dos cidadãos.</p>
<p>Outro problema identificado prende-se com a falta de informação. Muitos fiéis, segundo Feliciano de Araújo, desconhecem os regulamentos aplicados pelos cartórios paroquiais. Nesse sentido, a HAK apela à Igreja para que reforce as ações de sensibilização, com o objetivo de esclarecer critérios e procedimentos administrativos.</p>
<p>Além disso, defendeu que as paróquias disponham de maior autonomia para corrigir erros simples, como nomes ou apelidos, sem obrigar os fiéis a deslocações às dioceses, o que implica custos elevados com transporte e alimentação. Ainda assim, reconheceu que esta decisão compete às dioceses, que terão de alcançar um consenso, de modo a prevenir eventuais casos de falsificação de documentos.</p>
<p>Relativamente a possíveis práticas de corrupção no interior das paróquias, o diretor da HAK afirmou não dispor, até ao momento, de provas concretas. Contudo, sublinhou que “os valores cobrados, entre 3, 5 e 10 dólares, devem ser regulados e transparentes, devendo justificar-se apenas pelos custos operacionais, como papel, tinta e remuneração dos funcionários.”</p>
<p>Por fim, Feliciano de Araújo apelou às autoridades da Igreja Católica para que as certidões de batismo passem a ter uma validade mais alargada, evitando que os fiéis sejam obrigados a pagar repetidamente por um documento essencial à sua vida civil. “Os custos não devem recair continuamente sobre os fiéis”, concluiu.</p>
<p><strong>Arquidiocese admite falhas administrativas, mas não apresenta medidas concretas</strong></p>
<p>O arcebispo da Arquidiocese Metropolitana de Díli, Dom Virgílio Cardeal do Carmo da Silva, afirmou que a responsabilidade pela melhoria do atendimento cabe a cada diocese, sem anunciar um plano concreto nem medidas uniformes para enfrentar o problema.</p>
<p>“Acredito que cada diocese, dentro da sua própria estrutura, tem competência para avaliar, a partir dessas experiências, como melhorar ainda mais o atendimento”, declarou o cardeal, à margem de um encontro com o primeiro-ministro, Xanana Gusmão, no Palácio do Governo.</p>
<p>Esta posição tem gerado preocupação entre os fiéis, que continuam a relatar atrasos, procedimentos complexos e falta de transparência no funcionamento dos cartórios paroquiais.</p>
<p>Questionado sobre as falhas que persistem, Dom Virgílio afirmou que os bispos mantêm um diálogo contínuo com vista a incentivar os funcionários a prestar um serviço de maior qualidade. Segundo o cardeal, “nos últimos anos, temos observado progressos significativos. Há falhas, mas também há esforços contínuos para melhorar os processos”, declarou, escusando-se a prestar mais esclarecimentos sobre o assunto.</p>
<p>Sem prazos definidos nem a apresentação de ações concretas, as declarações deixam em aberto a questão central de quando e como os serviços paroquiais irão responder, de forma efetiva, às necessidades e preocupações dos fiéis.</p>
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