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	<title>Factos e Análise - DILIGENTE</title>
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	<title>Factos e Análise - DILIGENTE</title>
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		<title>Timor-Leste importa quase dez vezes o que exporta. Peso timorense nas exportações da ASEAN é apenas de 0,004%</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Antónia Martins]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 09 Aug 2026 10:33:26 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Destaque]]></category>
		<category><![CDATA[Timor em Perspetiva]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Em 2025, sem o petróleo, as importações foram cerca de 24 vezes superiores às exportações e o café gerou quase 90% dessas receitas. Segundo o relatório External Trade Statistics 2025, do Instituto Nacional de Estatística de Timor-Leste (INETL), o país [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p><em>Em 2025, sem o petróleo, as importações foram cerca de 24 vezes superiores às exportações e o café gerou quase 90% dessas receitas.</em></p>
<p>Segundo o relatório <em>External Trade Statistics 2025</em>, do Instituto Nacional de Estatística de Timor-Leste (INETL), o país importou mercadorias no valor de 984,9 milhões de dólares e registou exportações totais de aproximadamente 103,6 milhões.</p>
<p>Este total inclui 99,5 milhões de exportações nacionais — mercadorias com, pelo menos, 50% de conteúdo timorense — e cerca de 4 milhões de reexportações, isto é, produtos anteriormente importados que voltaram a sair do país.</p>
<p>Por cada dólar obtido com as exportações totais de mercadorias, Timor-Leste gastou cerca de 9,5 dólares em importações. O défice comercial — a diferença entre importações e exportações — atingiu aproximadamente 881,3 milhões de dólares.</p>
<p>O INETL registou 58,7 milhões de dólares em exportações petrolíferas. Retirando esse valor dos 99,5 milhões de exportações nacionais, restam cerca de 40,8 milhões em bens não petrolíferos produzidos no país.</p>
<p>Quando se comparam as importações com estas exportações nacionais não petrolíferas, Timor-Leste comprou ao estrangeiro cerca de 24 vezes mais do que vendeu.</p>
<p>Em 2024, os 10 países que então integravam a ASEAN exportaram mercadorias no valor de 1 953 mil milhões de dólares e importaram 1 890 mil milhões, registando um excedente comercial de cerca de 63,4 mil milhões.</p>
<p>Nesse ano, o comércio de mercadorias de Timor-Leste equivalia a apenas 0,03% do comércio conjunto dos membros da organização. As exportações timorenses representavam cerca de 0,004% das exportações da região, segundo cálculos do Diligente baseados em dados da ASEANstats.</p>
<p><img fetchpriority="high" decoding="async" class="aligncenter wp-image-23153 size-full" src="https://www.diligenteonline.com/wp-content/uploads/2026/08/ASEANstats-Timor-2024.png" alt="" width="1080" height="1350" srcset="https://www.diligenteonline.com/wp-content/uploads/2026/08/ASEANstats-Timor-2024.png 1080w, https://www.diligenteonline.com/wp-content/uploads/2026/08/ASEANstats-Timor-2024-302x377.png 302w, https://www.diligenteonline.com/wp-content/uploads/2026/08/ASEANstats-Timor-2024-720x900.png 720w, https://www.diligenteonline.com/wp-content/uploads/2026/08/ASEANstats-Timor-2024-768x960.png 768w" sizes="(max-width: 1080px) 100vw, 1080px" /></p>
<p><strong>O que compra Timor-Leste?</strong></p>
<p>Um défice comercial não é necessariamente negativo. Um país pode importar máquinas, equipamentos e matérias-primas que aumentem a sua capacidade produtiva. O impacto depende, porém, da composição das importações, da forma como são financiadas e da capacidade de transformar esse investimento em produção e exportações futuras.</p>
<p>Em 2025, os bens intermédios representaram 430,7 milhões de dólares, ou 43,7% das importações timorenses. São matérias-primas, componentes e outros produtos destinados a ser transformados ou utilizados na produção, como materiais de construção, peças e alguns combustíveis.</p>
<p>Os bens de consumo, destinados sobretudo ao uso direto das famílias — como alimentos, bebidas, roupa, medicamentos e artigos domésticos — corresponderam a 361,9 milhões de dólares, ou 36,7% das importações.</p>
<p>Os bens de capital atingiram 155,8 milhões, o equivalente a 15,8%. Esta categoria inclui máquinas e equipamentos utilizados durante vários anos na produção de outros bens ou na prestação de serviços. Outros 36,5 milhões foram classificados pelo INETL como bens omitidos, não tendo sido integrados nas três categorias principais.</p>
<p>Os combustíveis constituíram a maior categoria de importação, com 209,6 milhões de dólares. Seguiram-se os veículos, com 115,1 milhões; as máquinas e os aparelhos mecânicos, com 69,3 milhões; os cereais, com 66,3 milhões; e os equipamentos elétricos, com 51,8 milhões. Em conjunto, estas cinco categorias atingiram 512,2 milhões de dólares e representaram cerca de 52% das importações.</p>
<p>A Indonésia foi o principal fornecedor de Timor-Leste, com mercadorias no valor de 323,9 milhões de dólares, aproximadamente um terço do total. Seguiram-se a China, com 156,8 milhões, e Taiwan, com cerca de 116 milhões.</p>
<p><strong>O que vende o país?</strong></p>
<p>Depois do petróleo, o café continua a ser, de longe, o produto mais importante vendido por Timor-Leste ao exterior.</p>
<p>O relatório do INETL coloca as exportações de café de 2025 em cerca de 36 milhões de dólares, mais do dobro dos 17,7 milhões registados em 2024. O café gerou perto de 90% das receitas das exportações nacionais não petrolíferas. Todos os restantes bens não petrolíferos produzidos no país renderam, em conjunto, cerca de 5 milhões de dólares.</p>
<p>Esta concentração representa um risco. O Banco Mundial alerta que a dependência do café deixa as receitas das exportações muito expostas às oscilações dos preços internacionais e às condições meteorológicas. Uma descida do preço ou uma má colheita pode reduzir rapidamente as receitas do país, sem que existam outros produtos capazes de compensar essa perda.</p>
<p>As exportações de produtos manufaturados continuam a ser insignificantes. As receitas do turismo, apesar do crescimento, permanecem muito aquém do valor das importações. As remessas dos emigrantes e a ajuda externa compensam parcialmente o desequilíbrio, mas não são suficientes para o eliminar.</p>
<p>O efeito das exportações petrolíferas registadas em 2025 também não altera o problema estrutural. A produção do campo de Bayu-Undan terminou e o país enfrenta agora uma transição económica pós-petróleo.</p>
<p><strong>Porque é que o desequilíbrio persiste?</strong></p>
<p>O Banco Mundial descreve um ciclo económico difícil de quebrar. A elevada despesa pública, financiada por levantamentos do Fundo Petrolífero, estimula o consumo e a procura interna.</p>
<p>Como Timor-Leste produz poucos dos bens de que necessita, uma parte significativa desse dinheiro sai novamente do país através das importações. As importações aumentam o défice externo e os levantamentos do Fundo Petrolífero permitem que a despesa se mantenha.</p>
<p>A capacidade de exportação é, simultaneamente, limitada pelos elevados custos dos transportes, da energia e da logística, pelo acesso reduzido ao financiamento, pela pequena dimensão das empresas e pela dificuldade em cumprir normas internacionais.</p>
<p>A valorização do dólar, moeda utilizada por Timor-Leste, também torna os produtos e os serviços timorenses mais caros para os compradores estrangeiros.</p>
<p><img decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-23154" src="https://www.diligenteonline.com/wp-content/uploads/2026/08/desequilibrio-economica-Timor.png" alt="" width="1600" height="900" srcset="https://www.diligenteonline.com/wp-content/uploads/2026/08/desequilibrio-economica-Timor.png 1600w, https://www.diligenteonline.com/wp-content/uploads/2026/08/desequilibrio-economica-Timor-516x290.png 516w, https://www.diligenteonline.com/wp-content/uploads/2026/08/desequilibrio-economica-Timor-900x506.png 900w, https://www.diligenteonline.com/wp-content/uploads/2026/08/desequilibrio-economica-Timor-768x432.png 768w, https://www.diligenteonline.com/wp-content/uploads/2026/08/desequilibrio-economica-Timor-1536x864.png 1536w" sizes="(max-width: 1600px) 100vw, 1600px" /></p>
<p><strong>O desafio da entrada na ASEAN</strong></p>
<p>A adesão à ASEAN dá a Timor-Leste acesso formal a um mercado de cerca de 680 milhões de consumidores. Contudo, o Banco Mundial salienta que os benefícios não resultarão automaticamente da adesão. Dependerão da capacidade das empresas timorenses para produzir em quantidade suficiente, manter uma qualidade constante e competir em preço e fiabilidade.</p>
<p>Entre os principais obstáculos encontram-se o acesso limitado ao financiamento, os elevados custos comerciais e logísticos e a insuficiência de laboratórios acreditados, serviços de inspeção e sistemas de certificação reconhecidos internacionalmente.</p>
<p>O Banco Mundial defende também procedimentos alfandegários mais eficientes, maior utilização do processamento antecipado das mercadorias e o desenvolvimento do comércio sem papel, com documentos e informações transmitidos eletronicamente.</p>
<p>Na pesca e noutros setores de produtos perecíveis, o cumprimento das normas sanitárias e de qualidade e o investimento em armazenamento, transportes e cadeia de frio serão essenciais para aumentar as exportações.</p>
<p>A integração regional pode, inclusivamente, aumentar o desequilíbrio comercial no curto prazo. A redução dos custos de importação pode fazer crescer as compras ao exterior antes de as empresas timorenses adquirirem capacidade para exportar mais.</p>
<p>A ASEAN oferece a Timor-Leste um mercado maior e um quadro de reformas. No entanto, não substitui a criação de uma base produtiva interna. Sem empresas capazes de produzir, certificar, transportar e vender produtos competitivos, o país continuará a importar muito mais do que exporta.</p>
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		<title>Entre a prudência e a desconfiança: quando a suspeita se torna um hábito</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Lourdes do Rego]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 23 Jul 2026 13:46:34 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Destaque]]></category>
		<category><![CDATA[Factos e Análise]]></category>
		<category><![CDATA[Para Compreender]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Na sua opinião, a maioria das pessoas pode ser confiável ou é preciso ter muito cuidado com elas? Há décadas que esta é uma das perguntas feitas a pessoas de dezenas de países no âmbito do World Values Survey (WVS), [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p>Na sua opinião, a maioria das pessoas pode ser confiável ou é preciso ter muito cuidado com elas? Há décadas que esta é uma das perguntas feitas a pessoas de dezenas de países no âmbito do <em>World Values Survey </em>(WVS), um dos maiores estudos internacionais sobre valores e atitudes.</p>
<p>As respostas revelam muito mais do que uma opinião sobre os outros. Elas ajudam a compreender até que ponto uma sociedade acredita que vale a pena cooperar, participar na vida comunitária e confiar em pessoas para além da família e dos amigos. Quando essa expectativa enfraquece, cresce a tendência para olhar os outros como potenciais ameaças, esperando oportunismo, desonestidade ou prejuízo.</p>
<p>Estudos baseados no WVS mostram que sociedades onde predomina a desconfiança interpessoal tendem a confiar menos nas instituições públicas, a percecionar níveis mais elevados de corrupção, a desconfiar de pessoas que não pertencem ao seu grupo, a participar menos em organizações comunitárias e a encontrar maiores dificuldades para construir redes de colaboração. Nesses contextos, é frequente que a proteção individual seja mais valorizada do que a abertura a pessoas ou grupos diferentes.</p>
<p>Este modo de olhar para o mundo manifesta-se nos pequenos gestos do quotidiano. Alguém oferece ajuda e procura-se imediatamente um interesse escondido. Uma pessoa faz um elogio e suspeita-se de que não é sincero. Escondem-se as conquistas com receio de despertar a inveja alheia. Um colega consegue uma promoção no trabalho e logo surgem boatos sobre favores ou benefícios ocultos. Quem tem hábitos diferentes é visto com reservas, como se a diferença fosse, por si só, uma ameaça. Um estrangeiro é recebido com desconfiança. Há uma sensação constante de que estamos a ser prejudicados. Iniciativas comunitárias e projetos inovadores acabam porque as pessoas passaram a desconfiar, a acusar e a competir umas com as outras.</p>
<p>Em vez de conhecermos as pessoas pelo que fazem, passamos a julgá-las pelo que imaginamos que pretendem fazer.</p>
<p><strong>Um olhar sobre a desconfiança social em Timor-Leste</strong></p>
<p>Entre fevereiro e maio de 2026, realizei um inquérito com 120 pessoas, com idades entre os 20 e os 45 anos (70 homens e 50 mulheres). Todos os participantes eram residentes em Díli e responderam voluntariamente.</p>
<p>A pergunta inicial inspirou-se no inquérito do WVS: “Na sua opinião, a maioria das pessoas é confiável ou é preciso ter muito cuidado com elas?” Entre os participantes, 109 responderam que é preciso ter muito cuidado, por considerarem que, em Timor-Leste, não se pode confiar em toda a gente.</p>
<p>O inquérito incluía ainda um segundo bloco, mais alargado, de questões sobre a confiança social e institucional, no qual os participantes podiam também acrescentar comentários. Entre as respostas: 103 afirmaram percecionar a existência de corrupção na administração pública; 97 consideraram a polícia violenta; 93 disseram que o governo é ineficiente; 78 afirmaram que os estrangeiros procuram sobretudo vantagens económicas; e 110 acreditam que as pessoas, em geral, tendem a agir em benefício próprio.</p>
<p>Os familiares surgem, num primeiro momento, como o grupo em que mais se confia. Ainda assim, 59 participantes afirmaram que nem mesmo nos parentes próximos é possível confiar totalmente.</p>
<p>Depois deste conjunto de questões, foi-lhes perguntado se consideravam que eles próprios eram pessoas confiáveis. Todos os 120 participantes consideraram-se pessoas confiáveis.</p>
<p>Esta última resposta revela uma assimetria entre a perceção dos outros e a autoavaliação individual: a tendência para desconfiar dos outros, enquanto se mantém uma autoimagem positiva.</p>
<p>Ainda que estes dados ofereçam indícios interessantes sobre os padrões de confiança interpessoal, os resultados devem ser interpretados com cuidado. A amostra é limitada e o inquérito tem um carácter exploratório, não permitindo tirar conclusões sobre a população em geral. Além disso, o inquérito não mede se as pessoas são efetivamente confiáveis, mas sim a forma como são percecionadas pelos participantes.</p>
<p><strong>Aprendemos a desconfiar</strong></p>
<p>Ninguém aprende a olhar para o outro de forma desconfiada por acaso. Somos influenciados pelas experiências que acumulamos ao longo da vida.</p>
<p>Quem cresceu em ambientes onde predominavam a negligência, a agressividade, a punição física, a humilhação, o autoritarismo, o abandono ou relações marcadas pela manipulação e pela imprevisibilidade aprende desde cedo que confiar pode ser perigoso.</p>
<p>Nada disto determina o futuro de uma pessoa. Muitos atravessam essas experiências sem desenvolver uma visão desconfiada do mundo. Mas elas podem levar-nos a confundir prudência com uma expectativa permanente de má-fé.</p>
<p>Quando muitas pessoas passam a esperar intenções negativas umas das outras, cria-se um ambiente social de desconfiança, onde a suspeita deixa de ser uma reação a uma situação concreta e passa a ser um padrão pelo qual se interpreta o mundo.</p>
<p>Basta que algumas experiências de traição se transformem em histórias repetidas nas famílias, nas comunidades ou nas redes sociais para que pessoas que nunca foram diretamente lesadas passem igualmente a esperar o pior dos outros.</p>
<p>A suspeita viaja mais depressa do que a confiança, porque o medo é um poderoso transmissor de crenças.</p>
<p>Existe ainda um fenómeno menos evidente. A desconfiança constante tende a criar distância nas relações e produzir aquilo que espera encontrar. Quem acredita antecipadamente que será enganado aproxima-se dos outros com reservas, evita expor demasiado de si próprio, observa cuidadosamente cada mudança de comportamento e interpreta frequentemente as ambiguidades como sinais de perigo.</p>
<p>Se as experiências individuais influenciam a forma como cada pessoa aprende a confiar, também a história pode moldar a forma como as sociedades se veem a si próprias e umas às outras.</p>
<p><strong>Quando a história ensina a desconfiar</strong></p>
<p>Há memórias que não pertencem apenas aos indivíduos. Pertencem também às sociedades. Séculos de ocupação, violência e conflitos deixam marcas que atravessam gerações.</p>
<p>Um povo aprende a sobreviver e, muitas vezes, transmite aos seus filhos não apenas a sua história, mas também as formas de olhar para o mundo que essa história ajudou a produzir.</p>
<p>A desconfiança deixa de pertencer apenas ao domínio da moralidade e passa a ser um instrumento de sobrevivência.</p>
<p>Ao longo da sua história, a ilha de Timor viveu ocupações estrangeiras, guerras entre os diferentes reinos, alianças e traições, bem como tensões entre <em>topasses</em> e <em>liurais</em>. No século XX, a parte leste da ilha conheceu ainda a atuação das <em>colunas negras</em> durante a ocupação japonesa na década de 1940, a colaboração de setores da sociedade com governos estrangeiros, a guerra civil de 1975, conflitos internos na resistência à Indonésia e a violência das milícias pró-integração.</p>
<p>Estes episódios dividiram famílias e deram origem a massacres, torturas, abusos e delações, por vezes praticados pelos próprios vizinhos e amigos. Mesmo após a restauração da independência, persistiram momentos de tensão entre instituições do Estado, partidos políticos, a Igreja e forças de segurança.</p>
<p>A transformação de Timor-Leste em Estado-nação é recente. Durante grande parte da história, a organização social esteve ligada às <em>lisan</em>, aos <em>liurais, aos lia na’in, </em>às <em>uma lulik</em>, às redes de parentesco e às dinâmicas das comunidades locais, com as suas próprias formas de autoridade, territorialidade e memória.</p>
<p>A construção da ideia de um Timor-Leste unificado resulta da combinação de diferentes experiências históricas, visões de mundo, ideologias, memórias silenciadas e projetos de poder que continuam em disputa pela narrativa oficial.</p>
<p>Estes são apenas alguns fatores e não explicam tudo. A relação entre sociedades marcadas por conflitos e a desconfiança social não é linear e pode assumir diferentes níveis de intensidade.</p>
<p>Tal como o processo histórico é complexo, também as causas da desconfiança são diversas, dinâmicas e interligadas. Experiências semelhantes não têm necessariamente as mesmas consequências.</p>
<p>Conhecer as influências do passado ajuda-nos a compreender o presente. Mas é a forma como respondemos a essas heranças que nos permite construir o futuro.</p>
<p><strong>Algumas consequências da desconfiança</strong></p>
<p>Com o tempo, estas formas de interpretar o comportamento dos outros podem tornar-se padrões relativamente estáveis de leitura social, reforçados, por exemplo, pela sensação de instabilidade, desemprego e impotência, pela perceção de que a lei nem sempre é aplicada de forma igual para todos e por condições materiais que limitam a qualidade de vida.</p>
<p>Quando essa forma de interpretação se generaliza, os efeitos podem ser sentidos tanto nos projetos coletivos como nas relações pessoais.</p>
<p>Este tipo de organização social, marcado por níveis elevados de desconfiança, pode também abrir espaço a formas de liderança mais centradas no controlo e na demonstração de força, onde a obediência surge menos do respeito do que do receio da punição. A cooperação, por outro lado, deixa de ser apenas uma escolha e passa a depender da vigilância externa.</p>
<p>Nestes contextos, pode observar-se uma tendência para a formação de grupos assentes em relações de lealdade pessoal, mais do que na partilha de ideias ou de projetos comuns. Do mesmo modo, a expressão de opiniões divergentes pode ser desencorajada por receio de exclusão ou de ser visto como desleal, inimigo ou traidor.</p>
<p>Ainda assim, esta perceção de desconfiança não significa ausência total de confiança. A confiança não desaparece; transforma-se, reorganiza-se, segue outros caminhos, opera em tempos mais longos e obedece a códigos próprios. Ao mesmo tempo, as relações podem permanecer amistosas e cordiais na superfície, com sorrisos e cumprimentos de cortesia, sem que isso implique abertura ou intimidade.</p>
<p>Confiar, no entanto, não é o mesmo que ser ingénuo ou agir sem critério. Entre a desconfiança generalizada e a confiança cega, há um espaço amplo e mais equilibrado a construir.</p>
<p>Talvez aqui caiba o questionamento: a quem interessa uma sociedade desconfiada? Que sociedade queremos deixar às próximas gerações? E o que cada um de nós está a fazer, neste momento, para construir esse futuro?</p>
<p><span style="color: #808080;"><em>Alessandro Boarccaech, psicólogo com especialização em psicologia clínica e da saúde, psicoterapeuta e PhD em antropologia. Professor universitário, coordenador do Centro de Pesquisa em Cultura e Sociedade e editor da revista académica Diálogos da UNTL. Autor de diversos livros e artigos científicos entre os quais Os eleitos do cárcere; A diferença entre os iguais; Dicionário Hresuk-Português; Conhecimento local, curandeiros e Psicologia: causas, sintomas e tratamentos dos transtornos mentais em Timor-Leste.</em></span></p>
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		<title>Porque é que a escolaridade importa para o futuro de Timor-Leste na ASEAN?</title>
		<link>https://www.diligenteonline.com/porque-e-que-a-escolaridade-importa-para-o-futuro-de-timor-leste-na-asean/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Antónia Martins]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 13 Jul 2026 11:27:54 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Destaque]]></category>
		<category><![CDATA[Timor em Perspetiva]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Entre os onze membros da ASEAN, apenas o Camboja e o Laos apresentam uma população adulta com menos anos médios de escolaridade do que Timor-Leste. Segundo o Human Development Report 2025 do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), [&#8230;]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>Entre os onze membros da ASEAN, apenas o Camboja e o Laos apresentam uma população adulta com menos anos médios de escolaridade do que Timor-Leste.</p>
<p>Segundo o <em>Human Development Report 2025</em> do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), baseado em dados de 2023, os timorenses com 25 ou mais anos completaram, em média, 6,2 anos de escolaridade. O Camboja regista 5,2 anos e o Laos 6,1. No extremo oposto, encontra-se Singapura, com 12,0 anos, seguida da Malásia (11,1 anos).</p>
<p><img decoding="async" class="size-full wp-image-22857 aligncenter" src="https://www.diligenteonline.com/wp-content/uploads/2026/07/anos-medio-de-escolaridade.png" alt="" width="888" height="363" srcset="https://www.diligenteonline.com/wp-content/uploads/2026/07/anos-medio-de-escolaridade.png 888w, https://www.diligenteonline.com/wp-content/uploads/2026/07/anos-medio-de-escolaridade-516x211.png 516w, https://www.diligenteonline.com/wp-content/uploads/2026/07/anos-medio-de-escolaridade-768x314.png 768w" sizes="(max-width: 888px) 100vw, 888px" /></p>
<p><strong>O que mede este indicador?</strong></p>
<p>Os anos médios de escolaridade correspondem ao número médio de anos de ensino formal concluídos pela população com 25 ou mais anos.</p>
<p>O indicador integra o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) do PNUD e constitui uma das medidas internacionais utilizadas para avaliar o capital humano de um país.</p>
<p>Contudo, não mede a qualidade do ensino nem descreve a realidade atual das crianças e dos jovens que frequentam a escola. Reflete a escolaridade acumulada de toda a população adulta, incluindo gerações que cresceram antes da independência e durante os períodos de conflito. Por essa razão, trata-se de um indicador que evolui lentamente ao longo do tempo.</p>
<p><strong>Porque é importante?</strong></p>
<p>O capital humano engloba a educação, a saúde, as competências e a capacidade produtiva da população.</p>
<p>Segundo o Banco Mundial, o desenvolvimento do capital humano é um dos principais fatores de crescimento económico e de criação de emprego. A instituição estima que cerca de dois terços das diferenças de rendimento entre países desenvolvidos e em desenvolvimento possam ser explicadas por diferenças no capital humano.</p>
<p>Uma população mais qualificada tende a ser mais produtiva, a adaptar-se mais facilmente à inovação e a gerar rendimentos mais elevados. O Banco Mundial refere ainda que cada ano adicional de escolaridade pode aumentar, em média, os rendimentos individuais em cerca de 9% a 10%, embora esse retorno varie entre países e níveis de ensino.</p>
<p>À medida que Timor-Leste aprofunda a integração económica na ASEAN, a qualificação da população poderá assumir um papel cada vez mais importante na atração de investimento, no aumento da produtividade e na competitividade da economia.</p>
<p><strong>O desafio para Timor-Leste</strong></p>
<p>Para o Banco Mundial, o reforço do capital humano deverá estar entre as prioridades estratégicas de Timor-Leste.</p>
<p>A instituição defende que o país poderá desenvolver plenamente o potencial da sua população através de investimentos consistentes na educação, na saúde e no desenvolvimento de competências. Num dos seus relatórios mais recentes, identifica o capital humano como uma das três prioridades de investimento para o país, juntamente com as infraestruturas e o aumento da produtividade agrícola.</p>
<p>O Banco Mundial observa ainda que a despesa pública em capital humano — nomeadamente em educação, saúde e formação — tem permanecido abaixo do investimento realizado em infraestruturas físicas.</p>
<p>Num contexto de maior integração regional, o reforço do capital humano poderá ser um fator determinante para que Timor-Leste aproveite plenamente as oportunidades oferecidas pela ASEAN e aumente a produtividade e a competitividade da sua economia nas próximas décadas.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-22858" src="https://www.diligenteonline.com/wp-content/uploads/2026/07/escolaridade.png" alt="" width="850" height="178" srcset="https://www.diligenteonline.com/wp-content/uploads/2026/07/escolaridade.png 850w, https://www.diligenteonline.com/wp-content/uploads/2026/07/escolaridade-516x108.png 516w, https://www.diligenteonline.com/wp-content/uploads/2026/07/escolaridade-768x161.png 768w" sizes="auto, (max-width: 850px) 100vw, 850px" /></p>
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		<title>Literacia e a expressão escrita do pensamento crítico: desafios da educação em Timor-Leste</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Rilijanto Viana]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 15 Jun 2026 12:14:09 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Destaque]]></category>
		<category><![CDATA[Factos e Análise]]></category>
		<category><![CDATA[Para Compreender]]></category>
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										<content:encoded><![CDATA[<p>Imagine a seguinte cena: um professor do ensino secundário pede aos alunos que interpretem as ideias de um autor. A análise deve ser entregue por escrito. As respostas aparecem com frases incompletas, erros ortográficos, ausência de pontuação e vocabulário reduzido. Muitas respostas limitam-se a repetir as palavras do autor ou a explicação do professor, recorrendo a argumentações circulares ou desconectadas do tema.</p>
<p>Esta não é uma situação aleatória. Pode ser observada nas salas de aula de todo o país. Muitos alunos enfrentam dificuldades em escrever de acordo com as normas da gramática padrão e em transformar a compreensão de conceitos e das relações entre ideias em argumentos escritos claros e coerentes.</p>
<p>Frequentemente, estes problemas são reduzidos a explicações que atribuem a responsabilidade às fragilidades da língua de instrução ou às capacidades dos alunos. No entanto, estes argumentos são insuficientes. É necessário olhar também para as lacunas do processo pedagógico, bem como para o modo como a literacia é ensinada e praticada.</p>
<p>Para compreendermos esta dinâmica, é importante perceber que, ao contrário da linguagem oral, que tende a ser adquirida naturalmente através da interação social, a escrita é uma tecnologia cultural que não surge espontaneamente. Exige ensino, aprendizagem e prática continuada. Mais do que um conjunto de regras gramaticais, é uma ferramenta que permite organizar ideias, relacionar conceitos e construir argumentos.</p>
<p><strong>Linguagem, língua e contexto</strong></p>
<p>Quando observamos um estudante a escrever, não está em causa apenas a língua que ele utiliza. Estão também presentes capacidades cognitivas, condições sociais e estados afetivos que influenciam a forma como pensa e comunica. Por isso, convém distinguir três conceitos: linguagem, língua e contexto.</p>
<p>A linguagem é a capacidade humana geral de produzir e interpretar signos (palavras, gestos, imagens, entre outros) para expressar pensamentos, emoções, intenções e conhecimentos. Esta faculdade permite construir significados, organizar a experiência e comunicar com os outros.</p>
<p>A língua é a realização concreta dessa capacidade: um sistema de signos partilhado e organizado por uma comunidade. O tétum, o português, o indonésio e o inglês são exemplos das diferentes manifestações da linguagem.</p>
<p>O contexto refere-se ao conjunto de circunstâncias linguísticas, sociais, afetivas, culturais e históricas em que uma mensagem é produzida e interpretada. O significado não depende apenas das palavras utilizadas, mas também das condições em que esta mensagem é produzida, dos interlocutores envolvidos e dos conhecimentos partilhados. O contexto não é um elemento externo à linguagem, mas parte constitutiva da produção de significado.</p>
<p>Esta interação ajuda-nos a compreender que as dificuldades na leitura, na escrita e na argumentação não dependem apenas da língua e das capacidades individuais dos alunos, mas também dos contextos em que a aprendizagem ocorre, incluindo a forma como a escrita é ensinada, praticada e avaliada na escola.</p>
<p><strong>A capacidade expressiva das línguas</strong></p>
<p>Compreendida esta distinção, importa perceber de que forma ela se relaciona com a capacidade expressiva das línguas e com o pensamento crítico, isto é, a competência para analisar e avaliar evidências, questionar pressupostos, relacionar conceitos e formular interpretações próprias de forma organizada e fundamentada.</p>
<p>Estudos em Linguística, Filosofia da Linguagem e Ciências Cognitivas têm demonstrado que todas as línguas são capazes de expressar qualquer conteúdo concetual de forma comunicável, embora o façam com diferentes graus de economia lexical, precisão e convenções discursivas.</p>
<p>Algumas línguas desenvolveram, em determinados contextos históricos e culturais, vocabulários mais especializados em certas áreas, permitindo condensar em poucas palavras aquilo que noutras línguas exigiria uma descrição mais longa. A diferença está menos na possibilidade de expressão e mais na facilidade, precisão ou variedade de significados disponíveis em cada sistema linguístico.</p>
<p>Quando uma língua não dispõe de um termo específico para determinado conceito, os seus falantes recorrem a descrições, metáforas, empréstimos linguísticos ou neologismos. Este processo de incorporação e transformação não é exclusivo de nenhuma língua em particular.</p>
<p>O alfabeto português, para citar um exemplo próximo a nós, resulta de uma longa evolução histórica: remonta ao alfabeto fenício, passando pelo grego e pelo etrusco, antes de ser adotado e adaptado pelos romanos para a escrita do latim. Ao longo da sua história, o latim interagiu com outras línguas indo-europeias; o português distanciou-se do galego e incorporou influências do árabe, bem como de línguas bantas em África e de línguas indígenas na América do Sul, entre outras.</p>
<p>As línguas não são sistemas fixos ou autónomos, mas estruturas dinâmicas que se desenvolvem através do contacto, da adaptação e da criação contínua de novos recursos expressivos.</p>
<p>As investigações atuais sugerem que as línguas podem influenciar certas formas de categorização e expressão da experiência. Contudo, não existem evidências consistentes de que limitem o pensamento ou impeçam a comunicação de ideias complexas.</p>
<p>O contexto, no entanto, pode limitar o acesso ao conhecimento e influenciar as condições em que este é produzido, compreendido, utilizado e transmitido.</p>
<p>A partir desta perspetiva, compreender os desafios da literacia exige olhar para além da língua e das capacidades individuais. Devemos estar atentos às condições socioeconómicas, às relações de poder, aos valores culturais e às práticas pedagógicas que moldam o acesso desigual ao conhecimento.</p>
<p><strong>Contexto socioeconómico</strong></p>
<p>Se o contexto influencia a forma como o conhecimento é produzido e transmitido, importa então olhar para as condições em que muitos estudantes vivem e aprendem.</p>
<p>Quando observamos os índices socioeconómicos, percebemos que, desde 2012, o salário mínimo permanece em 115 dólares norte-americanos. Apenas 30% da população em idade ativa está empregada no setor formal. Quase metade, 42%, vive em condições de vulnerabilidade social, enquanto 22% enfrentam níveis elevados de insegurança alimentar. Além disso, 25% das mulheres entre os 15 e os 49 anos sofrem de anemia. Entre as crianças, aproximadamente 52.000 estão envolvidas em trabalho infantil, incluindo cerca de 29.000 que realizam trabalhos perigosos, e 47% das crianças com menos de cinco anos apresentam atraso no crescimento (dados do PNUD &amp; OPHI, 2022; UNICEF, 2024; Programa Alimentar Mundial, 2023).</p>
<p>Estes indicadores não descrevem problemas isolados, mas um padrão sistémico de fragilidade socioeconómica. Como consequência, criam-se mecanismos que tendem a favorecer a reprodução intergeracional de vulnerabilidades. A carência material não é apenas uma condição momentânea, mas um horizonte concreto que condiciona escolhas, capacidades e oportunidades.</p>
<p>Em muitas escolas, estas vulnerabilidades coexistem com desafios crónicos que incluem salas de aula sobrelotadas, professores sem a adequada preparação, infraestruturas insuficientes, falta de manutenção e escassez de materiais pedagógicos. Muitos estudantes percorrem diariamente longas distâncias a pé até à escola, o que aumenta o desgaste físico e reduz o tempo disponível para estudar e descansar.</p>
<p><strong>Pedagogia, poder e pensamento crítico</strong></p>
<p>Considere agora esta situação: o professor pede aos alunos que analisem um aspeto do contexto social timorense. Um dos alunos escreve uma crítica ao sistema político partidário, ou aos métodos pedagógicos nas escolas, ou ao atual sistema de barlaque, ou às crenças religiosas. O professor, após ler a resposta, diz que este aluno não respeita a cultura, quer causar confusão, que é irresponsável e fala sem ter conhecimento.</p>
<p>As práticas pedagógicas e as relações de poder influenciam não apenas o que os estudantes aprendem, mas também a forma como se relacionam com o conhecimento, a autoridade e o questionamento.</p>
<p>Num inquérito que realizei sobre a severidade no ensino secundário em Timor-Leste, entrevistei 215 pessoas com idades entre 20 e 25 anos. Os resultados mostraram que 94,4% dos participantes afirmaram já ter sido castigados fisicamente por professores; 80,4% concordavam que os professores podiam recorrer a castigos físicos; e 61,3% tinham a perceção de que os pais concordavam com essa prática. Além disso, 68,8% dos participantes afirmaram que, no futuro, se fossem professores, também recorreriam a castigos físicos como forma de educação.</p>
<p>Numa outra investigação publicada em 2025 sobre as práticas de leitura em Timor-Leste, entrevistei 2437 estudantes do primeiro ano de cinco cursos de licenciatura. Desses, apenas 13 afirmaram ter lido um livro ao longo de todo o ensino primário e secundário. Posteriormente, repeti o inquérito com 420 destes estudantes que já estavam no último ano da licenciatura. Destes, apenas 27 afirmaram ter lido um livro durante o curso, dos quais oito já tinham respondido afirmativamente no primeiro inquérito.</p>
<p>Em Timor-Leste, o processo de ensino-aprendizagem ainda assenta, na prática, numa orientação marcada pela transmissão unidirecional de conteúdos, pelo castigo como instrumento disciplinar e pela memorização mecânica. Esta abordagem tende a privilegiar a acumulação de informação descontextualizada em detrimento do pensamento crítico, da reflexão autónoma e da capacidade de problematizar o contexto social.</p>
<p><strong>A literacia é mais do que frequentar a escola</strong></p>
<p>A alfabetização e a capacidade expressiva de uma língua não devem ser confundidas com o acesso dos seus falantes a práticas de leitura, escrita e produção de conhecimento – e esse acesso depende de condições que vão muito além da sala de aula.</p>
<p>Os problemas da educação devem ser compreendidos no quadro de fatores mais amplos que, para além do que já foi mencionado, incluem também as conceções dominantes de cultura e pedagogia e as dinâmicas sociais que favorecem a conformidade em detrimento do questionamento.</p>
<p>Investir numa educação de qualidade exige não apenas a melhoria das infraestruturas e da formação docente, mas também transformações nas condições de vida da população. A qualidade da educação não pode ser dissociada do contexto histórico, social e material em que se desenvolve.</p>
<p>O pensamento crítico não se ensina apenas através de conteúdos curriculares: desenvolve-se quando os estudantes têm condições materiais para aprender, oportunidades para ler e escrever, e liberdade para questionar e argumentar sem receio de represálias.</p>
<p>Enquanto persistirem as fragilidades socioeconómicas e de infraestrutura, práticas pedagógicas punitivas e burocráticas, a resistência à diferença e as relações de poder que limitam a expressão e a autonomia de pensamento, a escola – e incluo a universidade – continuará a enfrentar dificuldades para se afirmar como um espaço efetivo de desenvolvimento do pensamento crítico.</p>
<p><strong><span style="color: #808080;"><em>Alessandro Boarccaech, psicólogo, semiótico e antropólogo, com especialização em psicologia clínica e da saúde, psicoterapeuta e PhD em antropologia. Professor universitário, coordenador do Centro de Pesquisa em Cultura e Sociedade e editor da revista académica Diálogos da UNTL. Autor de diversos livros e artigos científicos entre os quais Os eleitos do cárcere; A diferença entre os iguais; Dicionário Hresuk-Português; Conhecimento local, curandeiros e Psicologia: causas, sintomas e tratamentos dos transtornos mentais em Timor-Leste.</em></span></strong></p>
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		<title>Manual de como vencer uma eleição – e por que isso deveria preocupar-nos</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Antónia Martins]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 13 May 2026 10:32:28 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Destaque]]></category>
		<category><![CDATA[Factos e Análise]]></category>
		<category><![CDATA[Para Compreender]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Para vencer uma eleição não bastam boas propostas. É preciso convencer, e para isso existem métodos. Se pretende candidatar-se a algum cargo eletivo – desde chefe de suco a presidente da República – a primeira regra é simples: não tenha [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p>Para vencer uma eleição não bastam boas propostas. É preciso convencer, e para isso existem métodos.</p>
<p>Se pretende candidatar-se a algum cargo eletivo – desde chefe de suco a presidente da República – a primeira regra é simples: não tenha pressa. Não anuncie a candidatura cedo demais. Pelo contrário, negue-a. Diga que ainda não pensou nisso, ou que esta decisão não depende de si.</p>
<p>Aproximadamente um ano antes das eleições, comece a aparecer. Nos meios de comunicação, em cerimónias públicas, visite sucos e aldeias, fale com as pessoas na rua e garanta que tudo seja registado. Não como candidato, mas como cidadão preocupado. Alguém que observa, que escuta, que se indigna com o estado das coisas.</p>
<p>Quando o nome já circular naturalmente, anuncie, mas não como ambição. Apresente a candidatura como um sacrifício. O povo pediu. A situação exige. E você, relutantemente, aceitou a missão.</p>
<p>Em alternativa, lance primeiro outro nome para testar reações, medir o terreno e desgastar os adversários. Quando chegar a hora, apresente-se como a solução que faltava.</p>
<p>Vivemos tempos em que a pós-verdade, a sobrecarga de conteúdo e a deterioração do pensamento crítico (<em>brain rot</em>) – causada pelo consumo repetido de material pouco estimulante na internet – condicionam a maneira como pensamos e tornam as opiniões mais importantes do que os factos. Não é uma falha do sistema. É, para muitos, o próprio sistema a funcionar.</p>
<p>Quem controla o discurso público está em vantagem – independentemente do currículo, da experiência e até da competência. Esse controlo passa pelos meios de comunicação: rádio, televisão, imprensa escrita e, sobretudo, algoritmos e <em>feeds</em>.</p>
<p>Para ajudar os futuros candidatos, segue um pequeno manual de como vencer eleições. São 22 estratégias comuns em campanhas políticas. Não existe uma ordem obrigatória. Mas quanto mais destas estratégias usar, maiores serão as suas hipóteses de vitória.</p>
<p><strong>Como moldar a perceção do eleitor</strong></p>
<p><strong>Apelo às emoções</strong>: campanhas eficazes começam por sentimentos, não por argumentos. Estimule o medo, a raiva, a esperança, a indignação. Emoções encurtam o caminho entre a mensagem e a decisão, deixando pouco espaço para análise. Mais do que substituir a razão, as emoções moldam a forma como o eleitor interpreta os factos.</p>
<p><strong>Urgência permanente</strong>: tudo é crise, tudo é decisivo, tudo tem de ser resolvido agora. Quando o eleitor vive em estado de alerta permanente, não tem tempo para comparar, verificar ou duvidar. E é exatamente aí que o candidato se apresenta como a única saída possível. A urgência não precisa de ser real. Precisa apenas de parecer inevitável.</p>
<p><strong>Repetição e familiaridade</strong>: uma afirmação dita muitas vezes ganha aparência de verdade, e o efeito é ainda mais forte quando o tema é difícil de verificar. Quanto menos o eleitor consegue confirmar por si próprio, mais depende do que ouviu com maior frequência. A repetição não funciona pela qualidade do argumento. Funciona porque o cérebro confunde familiaridade com verdade.</p>
<p><strong>Saturação informativa</strong>: inunde o espaço público com discursos, vídeos, declarações e polémicas. O objetivo não é informar, mas esgotar. Quando há demasiado para acompanhar, o eleitor desiste de comparar e verificar, e aceita a versão que lhe exige menor esforço. A confusão, neste contexto, não é um efeito secundário. É o produto final.</p>
<p><strong>Simplificação excessiva</strong>: perante questões complexas – economia, saúde, educação etc. – não tente explicar. Fale pouco, prometa muito e apresente soluções simplistas. Mostre preocupação, reconheça que o assunto é sério e diga que tem uma equipa a trabalhar nisso.</p>
<p><strong>Exploração de vieses cognitivos</strong>: o eleitor não processa informação de forma neutra. E uma boa campanha sabe isso melhor do que ele. Tendemos a valorizar o que confirma o que já acreditamos, a confiar mais na primeira impressão, e a sobrestimar acontecimentos recentes ou marcantes. Uma campanha eficaz não tenta mudar estas tendências, mas entrega o que os eleitores querem ouvir.</p>
<p><strong>Personalização da mensagem</strong>: com dados e algoritmos, campanhas ajustam mensagens a públicos específicos. Diferentes eleitores recebem versões editadas do mesmo candidato, sem saber que estão a ver apenas uma parte da campanha. Não é preciso criar novas opiniões. Basta reforçar as que já existem, com a mensagem certa, para a pessoa certa e no momento certo.</p>
<p><strong>Como construir a narrativa pública </strong></p>
<p><strong>Narrativas pessoais</strong>: um caso concreto, com rosto, nome e emoção, tem um poder que os números raramente alcançam – e cria identificação imediata. Uma família que luta para manter as suas terras, um professor sem recursos, um jovem sem emprego – qualquer pessoa comum pode tornar-se num símbolo da campanha. Os candidatos também podem construir as suas próprias biografias: a infância difícil, os obstáculos superados, as perseguições e tragédias enfrentadas. Estas histórias não precisam de ser falsas – basta escolher o que se conta, o que se exagera e o que se omite.</p>
<p><strong>Força como espetáculo</strong>: a coragem, quando usada como instrumento político, raramente tem a ver com bravura – tem a ver com encenação. Falar alto, não recuar, manter uma postura de confronto permanente não são sinais de liderança sólida. São sinais de que o “eleitor-audiência” responde bem ao espetáculo. As pessoas querem estar do lado vencedor, do mais forte. O candidato que nunca vacila não precisa de ser forte. Precisa de parecer.</p>
<p><strong>Ambiguidade estratégica</strong>: mensagens vagas permitem múltiplas interpretações. E é precisamente essa ambiguidade que as torna eficazes. Um candidato consegue falar para públicos diferentes, cada um entendendo a proposta à sua maneira. A promessa parece clara, mas quando se tenta aprofundar dissolve-se em generalidades. Cada eleitor ouve o que quer ouvir.</p>
<p><strong>Enquadramento e controlo do discurso</strong>: a forma como um tema é apresentado pode ser tão decisiva quanto o seu conteúdo. A mesma medida económica pode ser “corte nos serviços públicos” ou “melhor uso do orçamento”, conforme quem fala e para quem. Pequenas escolhas de palavras destacam certos aspetos, ocultam outros, e determinam o terreno em que o debate acontece. Quem controla a narrativa controla o que as pessoas pensam estar a discutir.</p>
<p><strong>Humor e ironia</strong>: mensagens políticas disfarçadas de humor – memes, piadas, sátiras, cortes engraçados nas redes sociais – circulam com muito menos atrito do que uma declaração direta. O riso desarma a resistência crítica e, enquanto diverte, molda perceções e instala ideias sem que nos apercebamos. E quando alguém tenta contestar, pode sempre dizer-se que não percebeu a piada.</p>
<p><strong>Adaptação do vocabulário ao público</strong>: usar expressões do quotidiano e provérbios locais não é espontaneidade – é preparação. O vocabulário muda conforme a audiência e o lugar: numa aldeia fala-se de uma forma, numa universidade de outra, numa cerimónia tradicional de outra ainda. O eleitor que ouve alguém falar como ele tende a confiar mais nessa pessoa. A proximidade linguística calculada cria a ilusão de proximidade real.</p>
<p><strong>Desacreditar o adversário</strong>: em vez de confrontar propostas com argumentos, ataque a credibilidade do oponente – o seu caráter, as suas intenções, o seu passado. Negue ou ignore as evidências incómodas sobre si próprio. Se alguém acusar – mesmo que tenha provas – diga que é mentira, perseguição, e acuse o acusador de fazer o mesmo ou pior. O objetivo não é provar inocência, mas garantir que a audiência já não sabe em quem acreditar.</p>
<p><strong>Como estruturar e usar o poder político </strong></p>
<p><strong>Construção do “nós” contra “eles”</strong>: dividir o mundo em dois campos opostos é uma das estratégias mais antigas – e continua a funcionar. De um lado, “o povo”; do outro, “as elites”, “os corruptos”, os que nos querem mal. Esta divisão cria pertença, reforça lealdades e transforma qualquer crítica numa forma de traição.</p>
<p><strong>Promessa de novidade e rutura com o sistema</strong>: mesmo quem já é político profissional há muitos anos apresenta-se como novo, como rutura, como alternativa ao sistema. A trajetória passada torna-se irrelevante. Não importa o que não foi feito nas oportunidades que teve, o que conta é a promessa do que ainda não aconteceu. É uma estratégia confortável: o futuro não pode ser verificado.</p>
<p><strong>Autoridade e validação simbólica</strong>: o apoio de figuras reconhecidas – celebridades, especialistas, líderes religiosos e tradicionais – vale mais do que qualquer argumento. O público não avalia o conteúdo da mensagem: transfere para o candidato a confiança e o respeito que já sente por quem fala por ele. Quanto maior a autoridade moral dessa figura aos olhos da comunidade, menos o eleitor sente necessidade de pensar por si próprio. O mesmo princípio aplica-se ao próprio candidato: diplomas, títulos e antigos feitos constroem uma imagem de competência – mesmo que não tenham relação direta com o cargo disputado – que poucos eleitores lembram ou têm tempo para verificar.</p>
<p><strong>Apropriação de valores e identidade cultural</strong>: roupas tradicionais, gestos rituais, referências à <em>Lisan</em> e à fé religiosa enviam uma mensagem ao eleitor antes de qualquer discurso: “sou um de vocês”. Campanhas vitoriosas associam-se a valores consensuais – justiça, fé, tradição – que dificilmente geram oposição. Ao apresentar-se como guardião da cultura e da identidade coletiva, o candidato substitui o debate de ideias pela disputa de quem representa melhor a memória e os costumes do povo.</p>
<p><strong>Alianças de conveniência e neutralização de rivais</strong>: alia-se a partidos e antigos adversários, desde que o objetivo comum seja vencer. Lideranças jovens ou incómodas são afastadas, desqualificadas ou absorvidas para posições de dependência antes de se tornarem uma ameaça. Se necessário, compra-se a lealdade e o silêncio. O resultado é uma estrutura que parece unida em torno de um objetivo comum, mas é apenas mantida por algo mais eficaz: o interesse e o medo.</p>
<p><strong>Controlo da agenda e criação de escândalos</strong>: campanhas bem-sucedidas definem quais temas ocupam o espaço público. Quando necessário, criam-se polémicas e denúncias que desviam a atenção. Esta estratégia também força o adversário a reagir e a explicar-se – retirando-lhe tempo, energia e iniciativa. Quem define o que se discute controla a campanha.</p>
<p><strong>O inimigo permanente</strong>: toda a campanha precisa de um adversário. E um projeto de poder precisa que esse adversário nunca desapareça. Se não há inimigos, crie-os. O alvo pode mudar: hoje é a imprensa, amanhã é um juiz, depois é um grupo político ou religioso. O que não muda é a presença constante de um inimigo. As pessoas unem-se muito mais facilmente contra algo do que a favor de algo.</p>
<p><strong>Clientelismo e uso da máquina do Estado</strong>: quem governa tem uma vantagem sobre os adversários: o acesso ao dinheiro público e à estrutura do Estado. Distribuem-se contratos, entregam-se “presentes”, ampliam-se programas sociais, inauguram-se obras – e não esqueça de registar tudo. O que importa é que, durante a campanha, as pessoas sintam que algo está a mudar e que apoiar o candidato certo pode traduzir-se em vantagens concretas. A diferença para uma política social legítima está no momento, no destinatário e na condição implícita de lealdade.</p>
<p>As campanhas não acontecem de forma aleatória. Por detrás de cada estratégia existe uma estrutura: sistemas eleitorais que favorecem quem já tem poder, regras de financiamento que determinam quem pode competir, e dinheiro que define o alcance da mensagem e a duração da presença pública.</p>
<p>Antes de qualquer discurso ou meme, um candidato precisa de financiadores. E financiadores têm interesses que nem sempre coincidem com os do eleitor comum.</p>
<p>Reconhecer as estratégias é o primeiro passo. O segundo é perceber quem paga por elas – e o que espera ganhar em troca. O resto depende de cada eleitor.</p>
<p>E, talvez, este manual <span style="color: #333333;">possa</span> ajudar-nos a não nos deixarmos enganar. Ou, pelo menos, a fingir que não vimos o truque.</p>
<p><span style="color: #808080;"><em>Alessandro Boarccaech, psicólogo com especialização em psicologia clínica e da saúde, psicoterapeuta e PhD em antropologia. Professor universitário, coordenador do Centro de Pesquisa em Cultura e Sociedade e editor da revista académica Diálogos da UNTL. Autor de diversos livros e artigos científicos entre os quais Os eleitos do cárcere; A diferença entre os iguais; Dicionário Hresuk-Português; Conhecimento local, curandeiros e Psicologia: causas, sintomas e tratamentos dos transtornos mentais em Timor-Leste.</em></span></p>
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		<title>Teoria da Mente: a arte de imaginar o outro</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Rilijanto Viana]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 27 Apr 2026 12:26:59 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Destaque]]></category>
		<category><![CDATA[Factos e Análise]]></category>
		<category><![CDATA[Para Compreender]]></category>
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										<content:encoded><![CDATA[<p>Há uma competência que usamos sem pensar, dezenas de vezes por dia: imaginar o que outra pessoa pensa, sente ou sabe. Quando percebemos que um amigo está calado porque está triste, e não aborrecido, quando reconhecemos o sarcasmo num comentário, quando antecipamos que alguém pode não saber o que nós já sabemos, estamos a exercitar aquilo que a psicologia chama de teoria da mente.</p>
<p>A teoria da mente refere-se à capacidade de reconhecer que os outros têm uma vida mental própria – crenças, desejos, intenções, emoções – e que essa vida interior pode ser completamente diferente da nossa.</p>
<p>Antes de continuarmos, vale a pena distinguir três conceitos relacionados, mas distintos. A cognição social designa o conjunto mais amplo de processos que nos permitem interpretar e responder ao comportamento dos outros. Nesse conjunto, a teoria da mente é a capacidade de inferir o que o outro pensa, quer ou sabe – sem que isso implique identificação ou a partilha desses estados. A empatia, por sua vez, acrescenta uma dimensão afetiva: envolve uma resposta emocional ao estado do outro e não apenas o seu reconhecimento.</p>
<p><strong>Uma conquista que começa cedo</strong></p>
<p>A teoria da mente é uma competência que se constrói, progressivamente, ao longo dos primeiros anos de vida. Por volta dos quatro ou cinco anos, a maioria das crianças atinge um marco no seu processo de desenvolvimento: percebem que alguém pode ter uma crença falsa – isto é, acreditar em algo que não é verdade – e que essa crença, mesmo errada, influencia o comportamento dessa pessoa.</p>
<p>Parece simples, mas é uma revolução cognitiva. Antes disso, a criança tende a assumir que toda a gente vê o mundo como ela vê. A partir desse momento, começa a compreender que cada pessoa tem os seus próprios pensamentos.</p>
<p>À medida que crescemos, esta capacidade vai-se tornando mais sofisticada. O adolescente aprende a decifrar a ironia. O adulto interpreta o silêncio. Passamos a ler entrelinhas, a captar intenções por detrás das palavras, a distinguir o que alguém diz do que realmente quer dizer.</p>
<p><strong>O que acontece no cérebro</strong></p>
<p>Por detrás desta aparente naturalidade há uma complexa dinâmica neural. A neurociência identificou uma rede de regiões cerebrais – incluindo o córtex pré-frontal medial (associado à tomada de decisão social), o sulco temporal superior e a junção temporoparietal – que se ativam quando tentamos inferir o estado mental de outra pessoa.</p>
<p>Não existe um único centro no cérebro, mas um sistema distribuído que integra informação social, afetiva e contextual, ao mesmo tempo que articula atenção, memória e regulação emocional.</p>
<p>E é por isso que tudo o que interfere com o desenvolvimento cognitivo – desde carências nutricionais crónicas a situações de stresse prolongado – pode, indiretamente, afetar também a formação da teoria da mente.</p>
<p><strong>Quando interpretar o outro se torna difícil</strong></p>
<p>Como toda a competência humana, a teoria da mente pode desenvolver-se de forma atípica. Em algumas pessoas dentro do espectro do autismo, por exemplo, a interpretação de pistas sociais subtis pode ser difícil – não por falta de interesse no outro, mas porque os circuitos que processam esse tipo de informação funcionam de modo diferente. Perturbações como a esquizofrenia podem também distorcer a forma como interpretamos as intenções dos outros, tornando o mundo social desorientador.</p>
<p>A avaliação clínica desta capacidade – através de tarefas específicas, histórias sociais ou testes de reconhecimento emocional – permite aos profissionais de saúde identificar dificuldades precocemente e intervir de forma direcionada.</p>
<p>Mas há uma dimensão menos evidente e frequentemente ignorada: a de pessoas que, mesmo sem qualquer perturbação diagnosticável, cresceram em ambientes marcados por agressividade, opressão, desconfiança, intolerância, negligência afetiva ou imprevisibilidade.</p>
<p>Nestas situações, a teoria da mente não deixa de se desenvolver. Mas pode tornar-se ajustada a um contexto hostil que já não corresponde aos factos atuais, mas que continua a servir de mapa para interpretar o mundo.</p>
<p>Um exemplo: crescer num ambiente onde demonstrar vulnerabilidade é visto como fraqueza pode levar a pessoa a interpretar as intenções dos outros como perigosas. A capacidade de compreender o outro mantém-se, mas pode tornar-se defensiva: percebe-se o outro, mas protege-se a própria vida interior.</p>
<p>Noutros casos, pode acontecer o inverso. Quem cresceu em relações marcadas pelo controlo ou pela manipulação pode ter dificuldade em confiar nas próprias perceções, o que leva a uma sensação de constante incerteza – como se as intenções dos outros fossem sempre ambíguas ou difíceis de decifrar. Estas dificuldades não são doenças nem falta de inteligência. São adaptações a contextos onde é preciso estar sempre em alerta.</p>
<p>Por outro lado, o desenvolvimento da teoria da mente também depende do contacto com o contraditório. Quando uma criança cresce num ambiente superprotetor e indulgente, onde os seus desejos são sempre satisfeitos, a sua perspetiva raramente é desafiada e os pais tendem a dar-lhe razão, perde oportunidades importantes de aprendizagem social: perceber que os outros pensam de forma diferente, lidar com a discordância e corrigir mal-entendidos. Sem esse atrito, a mente pode ficar excessivamente centrada em si própria, com maior dificuldade em reconhecer a vida interior do outro como algo independente da sua.</p>
<p>Mesmo quando a teoria da mente se desenvolve sem dificuldades aparentes, a forma como interpretamos o outro é sempre filtrada por vieses cognitivos, ideologias, valores, crenças e experiências acumuladas – o que significa que compreender alguém nunca é neutro.</p>
<p><strong>O que se come e o que se lê também forma a mente</strong></p>
<p>A teoria da mente constrói-se a partir de experiências relacionais – mas também depende daquilo que o corpo recebe e daquilo a que a imaginação é exposta. Dois fatores merecem atenção: a alimentação e o contacto precoce com a leitura.</p>
<p>O cérebro de uma criança em desenvolvimento é exigente do ponto de vista nutricional. Estruturas e circuitos que sustentam funções como a atenção, a memória de trabalho e a regulação emocional – todas elas indispensáveis para aprender a ‘ler’ o outro – dependem de um fornecimento adequado de nutrientes específicos.</p>
<p>A deficiência em ferro, por exemplo, compromete a atenção e a velocidade com que o cérebro processa informação – funções importantes para acompanhar uma conversa, perceber expressões ou interpretar situações sociais. A falta de iodo durante os primeiros anos de vida pode afetar o desenvolvimento cognitivo. Os ómega-3 estão associados à regulação emocional, à plasticidade cerebral e à comunicação entre neurónios. O zinco intervém em processos de aprendizagem e memória.</p>
<p>Nenhum destes nutrientes fabrica, por si só, a capacidade de imaginar o que o outro pensa ou sente – mas a sua ausência compromete as condições biológicas mínimas para que a aprendizagem social aconteça.</p>
<p>A insegurança alimentar acrescenta ainda uma camada diferente de dano. Uma criança que cresce sem saber o que comerá amanhã vive num estado de alerta. Esse estado consome energia cognitiva e emocional que, de outro modo, estaria disponível para o contacto social, para a curiosidade pelo outro e para interações de qualidade que alimentam a vida interior e o raciocínio.</p>
<p>O stresse prolongado não é apenas um estado psicológico: altera a forma como o cérebro em desenvolvimento se organiza, tornando-o mais reativo e menos reflexivo.</p>
<p>A leitura age por um mecanismo diferente, mas igualmente importante. Quando uma criança ouve ou lê uma história, é convidada a habitar temporariamente a mente de outra pessoa – a sentir o que a personagem sente, a compreender por que razão age como age, a antecipar as consequências das suas escolhas.</p>
<p>Romances, contos, novelas e poesia – seja através dos livros ou das histórias contadas – oferecem algo que a experiência quotidiana dificilmente proporciona: acesso à vida interior de personagens cujas experiências e formas de ver o mundo são diferentes das do leitor.</p>
<p>Alguns estudos em psicologia e linguística sugerem que leitores habituais de ficção literária tendem a ter maior capacidade de inferir estados mentais alheios. Não porque sejam mais inteligentes ou atentos por natureza, mas porque podem ter praticado a arte de entrar na perspetiva do outro.</p>
<p>Isto coloca uma responsabilidade sobre políticas públicas e práticas familiares. Garantir que as crianças se alimentam bem e leem desde cedo não é apenas uma questão de saúde física ou de desempenho escolar. É também uma questão de desenvolvimento humano no sentido mais amplo: a capacidade de reconhecer o outro como alguém com uma mente própria, digna de atenção e compreensão, começa, em parte, na mesa e na prateleira de livros.</p>
<p><strong> </strong><strong>Família, escola e cultura</strong></p>
<p>A teoria da mente aprende-se sobretudo na interação social. Em casa, nas conversas em família, quando os adultos nomeiam emoções e explicam comportamentos; na escola, na convivência com outras crianças e adultos; nas brincadeiras simbólicas, onde a criança ensaia papéis diferentes; e nas histórias que mostram personagens com mundos interiores ricos e contraditórios.</p>
<p>A cultura também molda esta aprendizagem. Em algumas sociedades, a comunicação é explícita e verbal; noutros contextos, predominam os sinais não verbais, o gesto, o silêncio, a distância. Nenhuma é melhor que a outra, são apenas formas diferentes de interpretar o mundo social.</p>
<p>Mas o que acontece quando esse código social é construído sobre o medo, o autoritarismo, a punição ou a exclusão? A criança pode aprender a interpretar o outro não para se aproximar, mas para se proteger. Torna-se hábil em detetar sinais de perigo, antecipar reações adversas, calcular como não errar e manter o outro à distância. É uma inteligência social, mas orientada para a sobrevivência, não para a conexão.</p>
<p>Em contextos onde as emoções das mulheres são desvalorizadas – tratadas como exagero, instabilidade, sem importância ou manipulação –, há o risco de os rapazes aprenderem a ignorar ou a invalidar a vida interior feminina, e de as meninas aprenderem a duvidar da legitimidade das próprias emoções. Em ambos os casos, empobrece-se a capacidade de compreender a perspetiva do outro.</p>
<p>De um modo geral, as sociedades que assentam na desconfiança – onde o diferente é visto como ameaça, onde a solidariedade é negociada e a competição é norma – dificultam o desenvolvimento da teoria da mente. Não porque as pessoas sejam menos capazes, mas porque o ambiente social não oferece os exercícios necessários: a experiência de ser compreendido, de compreender, de errar na leitura do outro e poder corrigir esse erro sem consequências graves.<strong> </strong></p>
<p><strong>O que nos permite viver juntos</strong></p>
<p>Numa conversa, construímos uma representação do que o outro sabe, sente ou pretende – e fazemos isso de forma tão automática que raramente nos apercebemos do esforço cognitivo que exige. É como respirar: só notamos quando falta ar.</p>
<p>É esta capacidade que torna possível a compreensão social, a cooperação e a negociação de conflitos – tudo o que faz da vida social algo mais do que uma sucessão de encontros. Sem ela, o outro seria apenas um comportamento a observar, não alguém com uma mente para compreender.</p>
<p>E porque se aprende, pode também ser ensinada, protegida, estimulada e aprimorada. O que fazemos com os ambientes onde as crianças crescem – o que lhes pomos à mesa e nas mãos, as regras e culturas que construímos – contribui para a forma como pensamos e interagimos uns com os outros.</p>
<p>É dessa matéria-prima que nascem as pessoas – e as formas como aprendem a pensar umas sobre as outras – que amanhã terão de viver juntas e compreender-se mutuamente.</p>
<p><em><span style="color: #808080;">Alessandro Boarccaech é psicólogo, especialista em psicologia clínica, psicoterapeuta, semiótico e Ph.D. em antropologia.</span></em></p>
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		<title>Crónica de um dia como outro qualquer: quando o ‘nós’ se confunde com o ‘eu’</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Rilijanto Viana]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 09 Apr 2026 12:42:27 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Destaque]]></category>
		<category><![CDATA[Factos e Análise]]></category>
		<category><![CDATA[Para Compreender]]></category>
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										<content:encoded><![CDATA[<p>“Esta noite não consegui dormir. O meu vizinho comprou colunas novas e resolveu ouvir música a noite toda. Por volta das quatro e meia, fui até ele. Lá estavam três pessoas. Uma delas a dormir sentada numa cadeira. As outras duas olharam para mim como se eu fosse um intruso. Pedi que baixassem o volume. Ofendido, o meu vizinho respondeu que estava no seu terreno e que tinha o direito de fazer o que quisesse. Voltei para casa, resignado.</p>
<p>Como já estava acordado e precisava de atualizar alguns documentos, saí cedo. Logo na primeira esquina, um carro entrou na minha rua fazendo a curva em contramão. O condutor buzinou, olhou-me de forma repreensiva e seguiu em frente. Continuei o caminho.</p>
<p>Quando cheguei ao lugar onde precisava de entregar os documentos, já lá estavam várias pessoas. A ordem de chegada não parecia ter qualquer importância. Todos a tentar passar uns à frente dos outros. Enquanto esticava o braço, na esperança de que o atendente pegasse os papéis, desloquei o peso do corpo de uma perna para outra e, nesse espaço que não sabia que existia, alguém entrou e passou à minha frente.</p>
<p>Depois de entregar os documentos, voltei para o carro. Lembrei-me que ainda não tinha tomado o primeiro café do dia. Saí determinado a encontrar uma cafetaria.</p>
<p>No trânsito, motas ultrapassavam pela esquerda e pela direita, carros avançavam a quinze quilómetros por hora – alguns por serem antigos, outros porque o condutor admirava a paisagem ou falava ao telemóvel. Depois de algum tempo, consegui ultrapassá-los, mas quase colidi com uma mikrolete que ora parava, ora avançava, sem qualquer sinal de aviso.</p>
<p>Mais à frente, o trânsito estava parado. Passados quase 10 minutos e 50 metros percorridos, percebi o motivo: alguns condutores paravam no meio da estrada, junto aos vendedores de peixe, para não terem de sair do carro.</p>
<p>Quando finalmente cheguei à cafetaria, sentei-me na única mesa que estava vaga. Sentadas à minha esquerda, quatro pessoas conversavam e riam alto. Na mesa à minha frente, uma pessoa assistia a um vídeo no telemóvel com o volume no máximo. Decidi voltar para casa.</p>
<p>A minha rua estava fechada. Vizinhos tinham montado tendas para uma celebração e interditado o trânsito. Estacionei na rua ao lado. Quando cheguei a casa, encontrei dois familiares à porta; tinham vindo da aldeia exclusivamente para buscar o dinheiro que eu regularmente lhes dava.</p>
<p>Lembrei-lhes que estava desempregado há dois meses e que naquele momento não tinha sequer para pagar a escola dos meus filhos. Após alguns segundos de silêncio, a olharem-me com deceção no rosto, disseram que era uma obrigação minha, que deveria ajudar e que não podia ser egoísta ou desrespeitar a família.</p>
<p>À noite, sozinho a pensar sobre o que fazer, percebi que ao longo do dia estive com várias pessoas e que em nenhum momento me perguntaram como me estava a sentir ou se precisava de alguma coisa. Sem saber o que fazer, demorei a dormir.”</p>
<p>Esta história é uma ficção, ou melhor, uma compilação de diversas histórias que me foram narradas por pessoas diferentes, que falam tétum e pertencem a uma <em>Lisan</em>.</p>
<p>O que estou a propor aqui é uma reflexão sobre o sentimento de solidão e desamparo que muitas pessoas experimentam hoje em dia. Aquela sensação de estar rodeado de pessoas e, ainda assim, sentir que ninguém nos vê.</p>
<p><strong>O paradoxo do individualismo coletivo</strong></p>
<p>À primeira vista, tudo parece comunitário: partilhamos opiniões, aderimos a grupos, vivemos próximos uns aos outros, temos os mesmos hábitos e crenças. No entanto, por detrás desta aparente uniformidade, as ações coletivas, em alguns contextos, podem servir para justificar ações individualistas.</p>
<p>Chamemos a isso individualismo coletivo: uma forma de colocar o <em>eu</em> em primeiro lugar enquanto se fala em <em>todos</em>. Este tipo de individualismo é confortável porque permite sentir-se parte de uma sociedade sem assumir as responsabilidades que a vida em comunidade exige. Oferece a sensação de pertencimento sem renúncia, convivência sem cuidado e discurso sem prática.</p>
<p>Dizemos a nós mesmos: “toda a gente faz assim”, “esta é a minha cultura”, “foi assim que aprendi”, “se os outros fazem eu também posso fazer”, “já que fizeram comigo, então farei com os outros” e, nesta dinâmica, podemos, sem nos aperceber, contribuir para reforçar o individualismo coletivo.</p>
<p>O espaço urbano e a sociabilidade podem passar a ser algo por onde transitamos, mas não pertencemos. O outro, neste cenário, pode transformar-se num incómodo, num desafio, num perigo a tolerar e evitar.</p>
<p>Quando o coletivo é usado sobretudo para legitimar o individual, a confiança entre as pessoas tende a enfraquecer lentamente. Deixamos de esperar reciprocidade e passamos a antecipar a deceção. O gesto de ajudar pode tornar-se calculado; a generosidade, condicional; a proximidade, negociada; a gentileza, uma máscara social; e a solidariedade, um investimento à espera de retorno. Não porque as pessoas sejam indiferentes, mas porque aprenderam, pela experiência repetida, a desconfiar antes mesmo de conhecer.</p>
<p>E assim temos o paradoxo: celebra-se o <em>nós</em> precisamente quando cada um age em função do <em>eu</em>. A família, a comunidade, a cultura tornam-se argumentos para exigir dos outros aquilo que não estamos dispostos a oferecer. É nesta distância entre o discurso e a prática que o individualismo coletivo se instala – silencioso, quase invisível, normalizado. Muitos participam. Poucos se reconhecem.</p>
<p><strong>O desconforto da pertença</strong></p>
<p>Todos os meses, inúmeras pessoas vêm ao meu consultório com sintomas de ansiedade ou depressão. Entre os principais problemas que parte delas diz estar a enfrentar estão as exigências de familiares e determinadas obrigações impostas pela <em>Lisan</em>, sobretudo os pedidos constantes de dinheiro.</p>
<p>O medo de perder o emprego, ou de não conseguir pagar as contas, ou de dececionar a família, ou de ser excluído ou amaldiçoado causa-lhes problemas para dormir, pensamentos obsessivos, irritabilidade, dores no estômago, enxaquecas, tristeza e isolamento social. Em casos mais extremos, relatam uma sensação de estar a perder o contacto com a realidade.</p>
<p>A questão que se coloca não é se os costumes têm valor – têm, e muito. A questão é quando uma prática sociocultural deixa de orientar e passa a oprimir. Quando a obrigação substitui a escolha. Quando o medo substitui o respeito. Quando a ameaça substitui o diálogo.</p>
<p>Neste ponto, já não estamos apenas perante uma expressão de cultura, mas sim perante uma forma de controlo. E o facto de ser antigo não garante, por si só, que seja justo ou saudável. Nem o facto de ser partilhado o torna inofensivo.</p>
<p>Um dos fatores que faz este tema difícil de discutir é a sua invisibilidade. Muitas vezes, quem sofre, sofre em silêncio, porque questionar é interpretado como ingratidão, desrespeito, traição ou arrogância. Quem exige, exige com a consciência tranquila, por acreditar estar a preservar algo “que sempre foi assim”, sagrado e herdado.</p>
<p>E, nesse intervalo – entre o que se impõe em nome da tradição e o que se suporta em nome da pertença – instala-se um sofrimento pelo qual poucos se sentem responsáveis e quem sofre, muitas vezes, nem reconhece a dor. Apenas sente, noite após noite, que algo não está bem.</p>
<p><strong>A atualidade dos costumes ancestrais</strong></p>
<p>Valorizar os costumes ancestrais é importante. Eles trazem sentimento de pertença, continuidade, unidade e influenciam a nossa própria perceção de identidade. Mas o que chamamos de cultura são práticas, normas e formas de pensar construídas ao longo do tempo, sujeitas aos contextos históricos, às disputas de poder e às ideologias de cada época.</p>
<p>Algumas regras e práticas culturais são claras e visíveis, como os tabus e rituais das <em>Lisan</em>, o uso do <em>belak, </em>do<em> tais </em>e do<em> kaebauk</em>, as cerimónias do <em>barlake, </em>as histórias de origem, entre outras.</p>
<p>Mas também fazem parte da cultura as práticas do quotidiano que podem não estar associadas às <em>Lisan</em> e que raramente questionamos: a forma como falamos com as mulheres, como educamos as crianças, os hábitos alimentares (comer arroz e <em>ai manas</em>, por exemplo), o que vestimos, a tendência para os castigos físicos, quem manda e quem obedece, como entendemos o que é diferente, as técnicas para sacrificar animais, mastigar de boca aberta ou fechada, o que fazemos para nos divertir e, até mesmo, o hábito de balançar o carro enquanto abastecemos – a lista segue.</p>
<p>Refletir criticamente sobre o que entendemos por cultura ajuda a preservar o que é valioso. Para isso, não precisamos de comparar com outras culturas nem importar costumes de outros lugares. Podemos começar por analisar se as nossas próprias verdades e visões de mundo são inclusivas e estão a promover a saúde emocional e mental das pessoas e das comunidades.</p>
<p>Por exemplo, de tempos em tempos, renovamos a madeira e o telhado das <em>Uma Lulik</em>. Fazemos isto porque os materiais envelhecem, estragam-se e precisam de ser substituídos. Passamos a usar pregos em vez de cordas. Fazemos as vigas mais resistentes, usamos cimento em lugar de apenas madeira. Na construção de barcos aconteceu o mesmo e hoje usamos motores a diesel em vez de remos. Na pesca, o anzol e a rede substituíram os arcos e flechas de bambu.</p>
<p>Com estas mudanças, não estamos a desrespeitar os costumes e os nossos ancestrais. Pelo contrário, mantemos as práticas do passado com algumas adaptações que melhoram a qualidade do que fazemos.</p>
<p>Este é, provavelmente, um dos nossos maiores desafios na atualidade: como fazer a transição do passado para o presente ou como atualizar as nossas tradições. A pergunta que me parece mais interessante não é “isto é diferente do passado?” – tudo muda com o tempo. A questão mais relevante, na minha opinião, é: “isto está a fazer bem às pessoas?”</p>
<p><strong>E nós?</strong></p>
<p>A mudança exige mais do que palavras ou boas intenções. Ela começa nas pequenas atitudes do dia a dia. Uma sociedade não se constrói somente com estradas, estátuas, prédios altos e casas de dois andares. Constrói-se, sobretudo, com a qualidade das relações que as pessoas cultivam entre si, com a forma como se olham, como se escutam, como se tratam e como lidam com as diferenças.</p>
<p>Só quando o respeito deixa de ser um discurso e se torna uma prática é que o coletivo deixa de ser uma máscara para o individualismo e passa a ser um espaço de convivência e encontro. E isso começa em algo simples: qual foi a última vez que perguntou a alguém como se sentia?</p>
<p>Para finalizar, proponho uma reflexão: será que, no Timor-Leste de hoje, o individualismo aprendeu a falar a linguagem da <em>Lisan</em> – instrumentalizando os rituais, o respeito, a família e os costumes ancestrais não para os preservar, mas para deles obter vantagem, prestígio ou poder? O que estamos realmente a proteger quando invocamos a tradição?</p>
<p><em><span style="color: #808080;">Alessandro Boarccaech é psicólogo, especialista em psicologia clínica, psicoterapeuta, semiótico e Ph.D. em antropologia.</span></em></p>
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		<title>50 anos da Independência: repensar discriminações e estereótipos</title>
		<link>https://www.diligenteonline.com/50-anos-da-independencia-repensar-discriminacoes-e-estereotipos/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Joana Silva]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 29 Nov 2025 01:34:57 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Destaque]]></category>
		<category><![CDATA[Factos e Análise]]></category>
		<category><![CDATA[Para Compreender]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Falar de discriminação costuma provocar algum desconforto. Ninguém gosta de ser alvo dela nem de pensar que participa, mesmo sem intenção, na produção de desigualdades. No entanto, é precisamente no quotidiano – nas conversas informais, nos comentários soltos, nas pequenas [&#8230;]</p>
<p>O conteúdo <a href="https://www.diligenteonline.com/50-anos-da-independencia-repensar-discriminacoes-e-estereotipos/">50 anos da Independência: repensar discriminações e estereótipos</a> aparece primeiro em <a href="https://www.diligenteonline.com">DILIGENTE</a>.</p>
]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>Falar de discriminação costuma provocar algum desconforto. Ninguém gosta de ser alvo dela nem de pensar que participa, mesmo sem intenção, na produção de desigualdades.</p>
<p>No entanto, é precisamente no quotidiano – nas conversas informais, nos comentários soltos, nas pequenas decisões que tomamos – que os preconceitos se tornam em práticas sociais com impacto direto na vida de outras pessoas. Não são fenómenos abstratos, estão presentes nas ruas, no trabalho, nas escolas, nas redes sociais e nas instituições.</p>
<p>Analisar os preconceitos não é o mesmo que apontar dedos nem procurar culpados. Pelo contrário, fazer isso aumenta o risco de cairmos no ciclo das discriminações e dos discursos moralistas. Enfrentar preconceitos é criar condições para uma sociedade mais inclusiva. Reconhecer os mecanismos de discriminação é o primeiro passo para os combater.</p>
<p>O desafio é coletivo: passa por educação, políticas públicas e, sobretudo, pela disposição de cada um de nós em questionar hábitos, afetos, expressões e crenças que, mesmo sem intenção, podem ferir, excluir ou marginalizar.</p>
<p>Ao enfrentarmos os preconceitos do dia a dia, abrimos espaço para relações mais empáticas, instituições mais acolhedoras e um debate público mais responsável e aberto. No final, contribuímos para a construção de uma sociedade em que a diferença não é ameaça, mas fonte de riqueza cultural e humana.</p>
<p><strong>Fronteiras sociais: o ‘outro’ como espelho</strong></p>
<p>Uma dessas formas de discriminação é a xenofobia. Muitas vezes pensamos que ela é apenas uma rejeição a estrangeiros, mas é um pouco mais do que isso. Existem diferentes dimensões, algumas tão subtis e não conscientes que parecem ‘naturais’.</p>
<p>A xenofobia cultural, por exemplo, manifesta-se quando desvalorizamos práticas e costumes diferentes dos nossos. Expressões como ‘não conhecem as nossas tradições’, ‘estas regras culturais não fazem sentido’ tendem a criar barreiras simbólicas entre os ‘de dentro’ e os ‘de fora’. Pequenas frases, repetidas ao longo do tempo, acabam por reforçar um ambiente de hostilidade e desconfiança. O estrangeiro passa a ser qualquer pessoa que não pertença ao ‘meu grupo’.</p>
<p>Outra manifestação da xenofobia é a económica, que surge quando se acredita que as pessoas migrantes ‘roubam empregos’, ‘baixam a média salarial’, ‘destroem a economia local’ ou ‘sobrecarregam’ os serviços públicos. Este tipo de xenofobia pode dirigir-se tanto a trabalhadores estrangeiros como a migrantes de sucos e aldeias do interior que vêm para Díli procurar melhores condições de vida. Estes argumentos, embora comuns, não se sustentam em dados concretos; são antes reações emocionais a medos coletivos, que podem ser utilizados e intensificados por discursos oportunistas ou populistas.</p>
<p>A discriminação regional – ou xenofobia interna – pode ser percebida quando pessoas de certas regiões, sucos ou aldeias são tratadas como menos capazes, menos instruídas ou menos ‘civilizadas’. Quando dizemos que determinado grupo é ‘agressivo e impulsivo’ ou ‘passivo e calado’, reduzimos as pessoas a rótulos simplistas. Este tipo de preconceito afeta o acesso a oportunidades, a mobilidade social, a maneira como estes grupos são representados no espaço público e pode levar, inclusive, a conflitos armados – lembram-se de 2006?</p>
<p>Talvez a forma mais difícil de identificar seja a xenofobia simbólica, pois não depende de contacto direto com pessoas consideradas ‘de fora’. Basta a circulação, nos meios de comunicação ou nas redes sociais, de imagens, piadas, apelidos pejorativos ou narrativas que associam o ‘outro’ – mesmo que distante – à ameaça, à criminalidade ou à decadência moral. Trata-se de uma manifestação da xenofobia que atua no plano das ideias, frequentemente apresentada como engraçada ou inofensiva, mas que produz efeitos diretos ao reproduzir estereótipos e influenciar perceções, emoções e comportamentos.</p>
<p>A xenofobia pode ser usada para fabricar inimigos e funciona como um mecanismo de camuflagem das desigualdades sociais e dos problemas concretos que afetam a vida das pessoas.</p>
<p>Ao deslocar os medos e frustrações coletivas para um ‘outro’ estereotipado e genérico, não se analisam as causas estruturais e históricas dos problemas, favorecendo a ilusão de pertença e de unidade interna contra um inimigo externo.</p>
<p>Esse ‘outro’ torna-se convenientemente a causa de todos os problemas. Resistir a ele passa a ser encarado como uma obrigação para preservar a sobrevivência, a autonomia e a identidade do grupo, quando, de facto, apenas contribui para perpetuar sistemas de poder, controlo social e desigualdades.</p>
<p>Mas a discriminação quotidiana não se limita a xenofobia. Outras formas igualmente prejudiciais interferem nas relações sociais.</p>
<p><strong>As múltiplas faces da discriminação</strong></p>
<p>A discriminação religiosa afeta tanto minorias confessionais como pessoas sem vínculos religiosos, frequentemente vistas como ameaças à harmonia social ou como agentes de desordem. Outras religiões passam a ser entendidas como ‘erradas’, ‘seitas’ ou oportunistas. Ao deslegitimar ou diminuir a importância de outras crenças – atribuindo-lhes intenções obscuras ou como sendo inimigas da identidade do grupo – abre-se espaço para justificar agressões físicas, destruição de património e segregação social como se fossem respostas legítimas e necessárias.</p>
<p>O etarismo é outra forma de discriminação, que pode recair tanto sobre pessoas idosas como sobre os mais jovens. No caso da juventude, isto pode ser observado em afirmações como ‘esta é uma geração perdida’, ‘os jovens são irresponsáveis’, ‘não possuem conhecimento’, ‘são preguiçosos’, ‘influenciáveis’ ou ‘não estão preparados para liderar’.</p>
<p>Cria-se, assim, o medo da perda dos costumes ou da erosão da coesão social, atribuindo às gerações mais novas uma suposta falta de compromisso, respeito e dedicação. Estes estereótipos não refletem apenas conflitos geracionais, mas disputas de poder, e influenciam desde a educação formal e a inserção no mercado de trabalho até à participação política e à própria construção da identidade pessoal.</p>
<p>Em sociedades multilíngues, como a timorense, a discriminação linguística é outro fenómeno que surge sem que o percebamos. Não se limita ao domínio de uma língua, mas envolve preconceitos com sotaques, pronúncias e modos de falar associados a determinados grupos sociais. Assim, algumas línguas e formas de falar assumem maior <em>status</em> social do que outras. Desvalorizar alguém porque ‘fala diferente’ ou não domina a norma-padrão é uma forma de exclusão social que tem raízes em hierarquias históricas e relações de poder.</p>
<p>Há ainda a discriminação associada ao estado civil ou à condição familiar, que afeta pessoas divorciadas, solteiras, mães adolescentes e órfãos. Expressões como ‘não tem responsabilidade’, ‘vive em pecado’, ‘não tem estrutura familiar adequada’ ou ‘a separação será uma vergonha para a família’ constituem mecanismos de exclusão e julgamento moral.</p>
<p>A discriminação de género ocorre quando as mulheres são vistas como menos capazes ou mais frágeis, quando se mantém a ideia de que certos empregos ‘são para homens’, ou quando o acesso das mulheres a cargos de liderança é condicionado à tutela de uma autoridade masculina. A discriminação contra pessoas LGBTQIA+ manifesta-se em agressões, insultos, exclusão e negação de direitos básicos. As trabalhadoras do sexo enfrentam violência física e simbólica, muitas vezes justificadas por narrativas moralistas que as apresentam como ‘destruidoras de lares’.</p>
<p>A agressão sexual contra mulheres e pessoas LGBTQIA+ é frequentemente normalizada por ideias enraizadas de que estes corpos estão sujeitos aos desejos masculinos.</p>
<p>As pessoas com sofrimento psíquico ou neurodivergentes também são vítimas de discriminação. As suas condições podem ser associadas a uma consequência por terem ‘pensamentos ou comportamentos errados’ ou a um ‘castigo’ espiritual. Há uma tendência a encará-las como ‘fracas’ e sem ‘força de vontade’ para melhorar. Estas pessoas estão expostas a agressões, são mantidas trancadas em casa durante os momentos de crise e tornam-se uma fonte de vergonha para a família.</p>
<p>A discriminação manifesta-se também ao associar os moradores de bairros carenciados a estereótipos como famílias desorganizadas, pouca inteligência, dependência de suporte social e falta de ambição ou motivação, bem como a ambientes perigosos e com elevadas taxas de criminalidade. Em contrapartida, atribui-se automaticamente aos mais ricos características como maior inteligência, competência e espírito empreendedor – como se estas qualidades lhes fossem inerentes devido à sua posição social, e não o resultado de um acesso desigual a recursos, escolaridade e oportunidades.</p>
<p>São muitas as formas de discriminação. Por isso é importante compreender a interseccionalidade, ou seja, a maneira como diferentes discriminações podem combinar-se e reforçar-se mutuamente.</p>
<p>Uma mulher jovem, pobre e solteira ou um homem migrante, pertencente a uma minoria religiosa e com baixa escolaridade, por exemplo, enfrentam vulnerabilidades que não podem ser compreendidas isoladamente. É justamente na interseção destas desigualdades que se concentram as maiores formas de exclusão.</p>
<p><strong>Em busca do ‘verdadeiro’ timorense</strong></p>
<p>Todos estes estereótipos podem nos levar a ideia de ‘pureza’. Assim separamos o timorense verdadeiro do falso. Mas, afinal, quem seria mais ‘puro’: uma pessoa que nasceu em Ataúro ou em Lospalos? São regiões com microclima, geografia, <em>Lisan</em>, histórias de origem, língua, ancestrais, rituais, música, arquitetura e hábitos alimentares distintos – e as próprias pessoas têm características físicas diferentes. Qual deles é ‘mais timorense’?</p>
<p>E uma criança filha de pai indonésio e mãe timorense – ou australiano, português –, ou de pais timorenses, mas que nasceu e cresceu em outro país? Qual destas crianças é ‘mais timorense’? E um descendente de famílias chinesas que estão em Timor-Leste há 250 anos, será menos timorense que os outros? E quanto ao tom da pele: muito escura, escura, clara, albina ou ruiva? Qual o nível de melanina do verdadeiro timorense?</p>
<p>A ideia de pureza é perigosa, pode nos levar a dinâmicas sociais excludentes e a regimes autoritários. Por outro lado, a quem serve e para que serve esta noção de ‘pureza’? Quem está a beneficiar-se com este tipo de pensamento? E até que ponto isto pode nos levar a repetir métodos de controlo social, segregação e manutenção do <em>status quo</em> herdados dos períodos de ocupação estrangeira?</p>
<p>Talvez seja interessante considerar a ideia de que a sociedade timorense é multicultural e que não existe uma única maneira de ser timorense, mas várias e todas são legítimas e merecedoras de espaço para se expressarem. As identidades sociais não são naturais ou fixas, mas construções históricas. E, em Timor-Leste, será que todas as vozes estão a ser ouvidas?</p>
<p><strong>O lugar de fala</strong></p>
<p>Alguém poderá considerar que um texto como este é inconveniente, pois o momento é de celebração. No entanto, celebrações também são momentos de reflexão. Analisar os nossos problemas não diminui as nossas qualidades; pensar sobre o que precisamos de melhorar não desvaloriza as nossas conquistas.</p>
<p>Por outro lado, entendo que se questione o meu ‘lugar de fala’ sobre estes assuntos: homem, cisgénero, heterossexual, não religioso, não pertenço a nenhuma <em>Uma Lulik</em> ou <em>Lisan</em> e não nasci em Timor-Leste. Quanto a isto, não tenho como defender-me. E o estereótipo não me favorece, eu sei.</p>
<p>Mas, se puder acrescentar algo, diria que estas características são apenas uma pequena parte da minha história – há muitas outras – e estão longe de me definir. Dito isto, faço um convite: concentre-se no conteúdo deste texto e pergunte-se se ele faz algum sentido.</p>
<p>Penso que uma das melhores formas de celebrar os 50 anos da Proclamação da Independência é reservarmos um momento para refletir sobre o país que queremos e questionar-nos se estamos, de facto, a desenvolver uma nação inclusiva, onde todas as pessoas possam viver com autonomia e bem-estar. Uma sociedade multicultural não se constrói com silêncios.</p>
<p><span style="color: #666699;"><em>Alessandro Boarccaech é psicólogo, especialista em psicologia clínica, psicoterapeuta, semiótico e Ph.D. em antropologia.</em></span></p>
<p>O conteúdo <a href="https://www.diligenteonline.com/50-anos-da-independencia-repensar-discriminacoes-e-estereotipos/">50 anos da Independência: repensar discriminações e estereótipos</a> aparece primeiro em <a href="https://www.diligenteonline.com">DILIGENTE</a>.</p>
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		<title>Um dia para ser lembrado: as manifestações estudantis de setembro</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Antónia Martins]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 19 Sep 2025 11:32:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Destaque]]></category>
		<category><![CDATA[Factos e Análise]]></category>
		<category><![CDATA[Para Compreender]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Na manhã do dia 15 de setembro, centenas de jovens reuniram-se em frente ao Parlamento Nacional para protestar. Entre as reivindicações estavam o cancelamento da compra de carros novos e o fim da pensão vitalícia dos deputados. Trata-se de uma [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p>Na manhã do dia 15 de setembro, centenas de jovens reuniram-se em frente ao Parlamento Nacional para protestar. Entre as reivindicações estavam o cancelamento da compra de carros novos e o fim da pensão vitalícia dos deputados. Trata-se de uma exigência antiga que ressurge de tempos em tempos.</p>
<p>Para a compra de carros, o governo alocou um orçamento de quatro milhões de dólares americanos (arredondei para menos) e, de acordo com a Lei n.º 7/2017, um deputado pode receber uma pensão vitalícia e assistência médica gratuita após exercer o cargo – de forma interpolada ou contínua – por um período mínimo de cinco anos.</p>
<p>Desde o início, o ambiente estava tenso. Os polícias exibiam armas, pareciam ansiosos e gritavam com os estudantes para que mantivessem distância do Parlamento. Reunidos em frente à Universidade Nacional (UNTL), do outro lado da rua e a poucos metros do Parlamento, os estudantes iniciaram discursos e palavras de ordem.</p>
<p>No meio da rua, encaravam os polícias enquanto dançavam, cantavam e saltavam. Os polícias, por sua vez, tentavam, com empurrões e gritos, manter os estudantes dentro dos limites. Houve ofensas e provocações de ambas as partes.</p>
<p>De repente, ouviram-se disparos de arma de fogo, seguidos de bombas de gás lacrimogéneo. Em pânico, muitos estudantes correram para dentro da universidade na tentativa de se proteger. Porém, a entrada, com apenas dois metros de largura, não era suficiente para a passagem da multidão.</p>
<p>A cena que se seguiu foi chocante. Na sua maioria, eram mulheres jovens, bem como algumas pessoas com limitações físicas, que caíram no chão e aqueles que vinham atrás tombaram sobre elas, e assim sucessivamente. Dezenas de pessoas ficaram amontoadas umas sobre as outras. Tentavam levantar-se e lutar para respirar, sufocadas pelo gás e pelo esmagamento.</p>
<p>No meio do caos – explosões, feridos e o gás a espalhar-se – ajudei alguns a levantarem-se. Levei os que estavam magoados para a sala dos estudantes e para a sala dos professores da faculdade; outros, com náuseas e irritações nos olhos, conduzi à casa de banho. Enquanto isso, orientava os que tinham condições de correr a dirigirem-se para o outro lado do campus, aparentemente mais seguro.</p>
<p>Foi então que reparei num jovem de pés descalços, de calções e com a camisola rasgada. Caminhava com extrema dificuldade. Percebi que tinha limitações físicas, talvez em consequência de uma paralisia infantil, mas não era o momento para fazer esse tipo de diagnóstico. Com os olhos vermelhos e a lacrimejar devido ao gás, andava desorientado, sem conseguir ver nada. Levei-o até uma sala onde já se encontravam outros estudantes, um refúgio temporário.</p>
<p>Passados alguns minutos, o silêncio tomou conta do ambiente. No chão, estavam dezenas de sapatos, chinelos, bonés, cadernos e bolsas, abandonados ou perdidos durante a correria.</p>
<p>Pouco a pouco, os jovens regressaram ao local do protesto. Os coordenadores convocavam os manifestantes a reagruparem-se, insistindo sempre: ‘a manifestação é pacífica’, ‘não atirem pedras’, ‘cuidado com os infiltrados’ (pessoas que se misturavam com os manifestantes para causar confusão). Entre cânticos e palavras de ordem, voltaram a ocupar a rua.</p>
<p>No entanto, menos de dez minutos após terem retomado o protesto, ouviram-se novamente disparos. Um dos tiros atingiu a parede a menos de três metros de onde me encontrava. Em seguida, mais bombas de gás. Nova correria. Pânico. Já não corriam – eram arrastados uns pelos outros. Pessoas a chorar, a vomitar, desmaios, outros a correr às cegas por terem os olhos irritados pelo gás, a cair e a magoarem-se.</p>
<p>Ao longo daquele dia, os policiais entraram no campus, abriram portas das salas de aula e expulsaram, a bofetadas e aos gritos, os jovens que ali procuravam abrigo. A maioria era raparigas e rapazes assustados.</p>
<p><strong>Para onde ir?</strong></p>
<p>Até ao início da manifestação, existiam alguns atritos entre os líderes dos diferentes grupos envolvidos na organização. Um dos membros do comité organizador disse-me que, embora todos tivessem concordado em seguir as orientações da associação de estudantes – que havia decidido por uma demonstração pacífica – ainda havia discordâncias quanto aos métodos a utilizar.</p>
<p>Eram estudantes de várias universidades, com diferentes orientações políticas, motivações, origens e opiniões. Não é fácil organizar um grupo tão numeroso e heterogéneo.</p>
<p>A ação violenta da polícia acabou por estimular, entre os estudantes, aqueles que defendiam uma atuação mais agressiva e incisiva. Durante algumas horas, os representantes dos estudantes perderam o controlo sobre a ação de alguns grupos de manifestantes. Foi o suficiente para que pneus fossem queimados nas ruas, uma viatura do Estado fosse depredada e incendiada, e pedras fossem lançadas contra o edifício e a área de estacionamento do Parlamento Nacional.</p>
<p>No segundo dia, o movimento estava com menos participantes nas ruas. Registaram-se mais confrontos entre a polícia e os estudantes. Os oficiais da PNTL entraram novamente nas salas de aula da UNTL e expulsavam, a bofetadas e aos gritos, os jovens que lá estavam. Não importava que estes não estivessem a causar qualquer transtorno; pelo contrário, estavam a tentar ficar o mais longe possível.</p>
<p>Por duas vezes – pelo menos as que pude ver – os manifestantes levaram até aos polícias alguns homens que alegavam ser ‘infiltrados’. Os jovens diziam que eles não eram manifestantes, mas estavam lá para causar confusão e violência. Estranhamente, os oficiais resistiram em autuar estas pessoas, mas, devido à insistência dos estudantes, acabaram por conduzi-las para longe dos protestos.</p>
<p>Diante disso, perguntei a alguns dos jovens envolvidos o que havia acontecido. Eles disseram-me que os manifestantes haviam identificado aqueles homens como sendo infiltrados a serviço da polícia. ‘Eles estavam a atirar pedras’ e a instigar os outros manifestantes ‘a bater na polícia’.</p>
<p>A ideia de que havia infiltrados passou a circular. Surgiu, também, a notícia de que o líder da juventude de um dos partidos políticos que apoiam o governo havia convocado os seus membros para confrontarem os manifestantes. Identificaram uma pessoa que usava credenciais falsas de jornalista para ter acesso aos estudantes e provocá-los.</p>
<p>Todos estavam apreensivos, pois algumas pessoas estavam no hospital devido a ferimentos provocados por tiros com balas de borracha, e um dos organizadores das manifestações teria sido detido na sua própria casa e, desde então, ninguém sabia onde ele estava.</p>
<p>Ao conversar com alguns estudantes, eles disseram que estavam a pensar em não voltar no dia seguinte, pois sentiam-se inseguros, com medo e por não se identificarem com os rumos que a manifestação estava a tomar.</p>
<p>Neste ponto, a notícia dos protestos, a ação violenta da polícia e os atos de vandalismo de alguns manifestantes já circulavam nos média nacional e internacional. A PNTL passou a ser criticada por vários setores da sociedade.</p>
<p>As imagens dos polícias a agredir os jovens, a lançar bombas de efeito moral, a ostentar armas de fogo e a perder o controlo emocional – inclusive gritando e discutindo entre si – transmitiam a sensação de uma corporação violenta e despreparada.</p>
<p><strong>As redes sociais e as manifestações populares</strong></p>
<p>As redes sociais desempenharam um papel importante tanto na divulgação de informações como na propagação de desinformação. As imagens da violência circularam, mensagens de apoio começaram a chegar e os manifestantes perceberam que não estavam mais sozinhos. Todos puderam acompanhar, pela internet, o que se passava.</p>
<p>Por outro lado, nas redes sociais também circulavam notícias falsas, como a morte de um jovem durante as manifestações (na verdade, a morte havia ocorrido em Ermera, num acidente de carro), prisões que não tinham sido realizadas e ferimentos graves que ocorreram noutro momento. Esse tipo de desinformação gerava confusão e ansiedade, dificultando a perceção dos factos e reforçando o sentimento de insegurança e medo.</p>
<p>Além disso, nas redes sociais, imagens dos protestos no Nepal eram colocadas lado a lado com as imagens das manifestações em Díli; a luta dos palestinianos pela sobrevivência era associada ao contexto timorense; vídeos do major Reinaldo a convocar o povo a resistir a opressão; e até memes e recortes de falas antigas de deputados, ora a apoiar, ora a contestar a compra de carros e a pensão vitalícia, eram partilhados em diversos grupos.</p>
<p>Iniciou-se uma ‘disputa de narrativas’, com imagens e relatos seletivos que procuravam moldar o entendimento dos protestos segundo diferentes interesses.</p>
<p>Como em toda ‘guerra híbrida’, algumas mensagens reforçavam a imagem de violência e caos para deslegitimar a mobilização estudantil, enquanto outros amplificavam atos de resistência pacífica e solidariedade, polarizando a opinião pública. E claro, não faltaram insultos, boatos e acusações de todo o tipo, tornando o ambiente virtual tão tenso quanto as ruas.</p>
<p>Isto evidenciou como o mesmo evento pode ser interpretado de formas diversas, dependendo dos vieses cognitivos e do enquadramento das informações nas redes.</p>
<p><strong>17 de setembro, um dia para ser lembrado</strong></p>
<p>No terceiro dia, na manhã de 17, o ambiente estava totalmente diferente. No dia anterior, os coordenadores do movimento tinham-se reunido para avaliar as suas estratégias e os resultados obtidos até então. A PNTL fez o mesmo. Sem que combinassem, mudanças foram feitas em ambos os lados.</p>
<p>Por volta das 9 horas, já havia centenas de pessoas. O clima era amistoso. Houve discursos, e o comandante da Polícia foi convidado a falar, mas não estava lá no momento.</p>
<p>Os jovens organizaram os grupos: cada setor tinha os seus coordenadores, responsáveis por orientar os manifestantes, garantir a segurança do seu perímetro e observar a eventual presença de ‘infiltrados’.</p>
<p>Mais grupos chegavam a todo o momento e eram saudados com aplausos e entusiasmo; em pouco tempo, a rua estava repleta de manifestantes.</p>
<p>Os oficiais da PNTL continuavam armados e a proteger a entrada do Parlamento, mas com uma postura mais relaxada e tranquila; alguns deles sorriam e conversavam com os estudantes. Estes, por sua vez, organizaram a distribuição de água para os manifestantes e ofereciam-na também aos polícias, que aceitavam de bom grado.</p>
<p>Não houve empurrões, gritos ou ameaças. Em vez disso, houve muita música, canto, palavras de ordem, declamação de poemas, discursos e a participação de pessoas sem relação com o movimento estudantil. Setores da sociedade civil mobilizaram-se para fornecer água, alimentos e apoio público às reivindicações.</p>
<p>A PNTL mudou a sua abordagem e a equipa destacada para a linha de frente. Vários dos polícias que lá estavam tinham frequentado recentemente ou ainda frequentavam cursos universitários. Houve uma maior proximidade e empatia entre polícias e manifestantes.</p>
<p>O resultado foi um dia sem conflitos, sem atritos e sem ameaças – democrático, alegre, recetivo e festivo. Foi o dia que contou com o maior número de participantes.</p>
<p>Enquanto isso, representantes dos estudantes reuniram-se com os deputados. Foram quase sete horas de conversa. Transmitido pelas redes sociais, o encontro revelou jovens bem preparados, que sabiam do que falavam, firmes e determinados, mas, ao mesmo tempo, respeitosos.</p>
<p>O encontro terminou com a garantia da suspensão da compra dos carros para este ano e com a disponibilidade – de alguns parlamentares – de elaborar uma proposta para rever o sistema de pensão vitalícia dos deputados. Um pequeno avanço.</p>
<p>Na minha opinião, este dia deve ser lembrado como um exemplo de que é possível protestar com firmeza sem recorrer à violência, de que a polícia pode exercer o seu trabalho com eficácia sem o uso da repressão excessiva e de que todos ganham com o diálogo entre ideias diferentes. O adversário não precisa de ser visto como um inimigo.</p>
<p><strong>Anomalia</strong><strong> ou sinal de mudança</strong></p>
<p>Ainda é cedo para saber se as estratégias utilizadas na manifestação de 17 de setembro foram apenas uma anomalia, se fazem parte de um padrão cíclico da dinâmica social que surge e desaparece de tempos em tempos, ou se representam um evidente sinal de mudança.</p>
<p>Em História, a relação entre causa e efeito não é óbvia nem linear; é complexa, multifatorial, pode retroceder e, por vezes, os efeitos alteram as próprias causas.</p>
<p>A dinâmica sociocultural timorense é marcada por um sistema patriarcal, hierárquico, moralista e autoritário, onde liderança se confunde com agressividade, educação com punição, respeito com submissão, convicções com intransigência e mudança com subversão. Hoje, as ameaças e os traumas emergem dentro da própria sociedade e os seus conflitos internos, e não de inimigos externos. Mudanças culturais levam tempo e muito trabalho.</p>
<p>A aprendizagem que fica é que, reunidos em grupo, somos mais fortes; mudanças estruturais na sociedade não são fáceis, mas são necessárias e possíveis; quanto mais aberta à participação de diferentes ideias e perspetivas, mais rica se torna; é possível discordar com empatia; a agressividade não é o único nem o mais eficaz meio de resolver os problemas; e a juventude está a mostrar que tem o que dizer e quer ser ouvida.</p>
<p>Por isso, penso ser importante valorizarmos o que ocorreu na manhã do dia 17 de setembro e parabenizar os manifestantes, os polícias que lá estavam, a sociedade civil que apoiou e os deputados que se disponibilizaram a conversar com os estudantes.</p>
<p>Mas – sempre há um ‘mas’ – não podemos ser ingénuos ou utópicos: o resultado das reivindicações e a sua influência simbólica, política, emocional e social, é um capítulo cheio de tensões e disputas de poder, que continua a ser escrito.</p>
<p><em><span style="color: #808080;">Alessandro Boarccaech é psicólogo, especialista em psicologia clínica, psicoterapeuta, semiótico e Ph.D. em antropologia.</span></em></p>
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		<title>Economia da atenção, algoritmos e a ‘neutralidade’ das tecnologias digitais</title>
		<link>https://www.diligenteonline.com/economia-da-atencao-algoritmos-e-a-neutralidade-das-tecnologias-digitais/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Joana Silva]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 12 Sep 2025 11:01:05 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Destaque]]></category>
		<category><![CDATA[Factos e Análise]]></category>
		<category><![CDATA[Para Compreender]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Nas últimas duas décadas, a tecnologia da informação contribuiu para a transformação das formas de comunicação, consumo e organização social. Atualmente, captar e manter a atenção tornou-se uma das ‘moedas’ mais valiosas do mundo digital. Redes sociais, serviços de streaming, [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p>Nas últimas duas décadas, a tecnologia da informação contribuiu para a transformação das formas de comunicação, consumo e organização social. Atualmente, captar e manter a atenção tornou-se uma das ‘moedas’ mais valiosas do mundo digital.</p>
<p>Redes sociais, serviços de <em>streaming</em>, jogos <em>online</em> e mecanismos de recomendação seguem uma lógica simples: reduzir o esforço do utilizador e aumentar o tempo de permanência e interação.</p>
<p>No entanto, a nossa capacidade de atenção é limitada. Estudos em psicologia e neurociências indicam que a concentração média numa tarefa – ou atenção sustentada – é de cerca de 10 a 20 minutos, enquanto, no ambiente digital, a atenção seletiva – a capacidade de focar num estímulo específico e ignorar as distrações ao redor – pode dispersar-se em menos de um minuto.</p>
<p>Para contornar essas limitações, as empresas de tecnologia investem em algoritmos cada vez mais complexos, criados para reconhecer as nossas preferências e oferecer conteúdos personalizados.</p>
<p>Vídeos curtos, mensagens de texto concisas, emojis, polémicas virais, estímulo às reações em vez de produção original, fofocas e <em>feeds</em> automáticos são algumas das estratégias usadas para prender a nossa atenção. Enquanto o <em>like</em>, o número de seguidores, os comentários positivos, o fluxo de informações e as recompensas intermitentes ativam o sistema de recompensa do cérebro, mantendo-nos conectados por mais tempo.</p>
<p>Em 2024, segundo dados da <em>International Telecommunication Union </em>das Nações Unidas, da GSMA <em>Intelligence</em> e do <em>Eurostat</em>, as pessoas passaram em média 6h40min por dia <em>online</em>, seja a navegar na internet, a usar redes sociais ou a consumir outros conteúdos digitais.</p>
<p>Quanto mais eficazes são essas plataformas em capturar a nossa atenção, maior o lucro que geram – e mais influência exercem sobre o que vemos, ouvimos, pensamos e sentimos.</p>
<p>Esta dinâmica é conhecida como a ‘economia da atenção’, ou seja, num mundo saturado de informação, o recurso escasso não é o conhecimento, mas a nossa capacidade de foco e concentração. O conceito, proposto inicialmente por Herbert Simon em 1971, continua atual: em sociedades hiperconectadas, aquilo que conquista a nossa atenção ganha relevância, enquanto o restante se dispersa no excesso de informação.</p>
<p><strong>A fricção na tecnologia da informação</strong></p>
<p>No contexto digital, o termo fricção é usado para descrever qualquer obstáculo ou resistência que dificulte a experiência do utilizador. Por isso, os programadores criam interfaces cada vez mais fluídas, intuitivas e automáticas.</p>
<p>Por exemplo, no Facebook o <em>scroll</em> infinito e as reações rápidas facilitam a interação. No TikTok, os vídeos começam automaticamente num <em>feed</em> personalizado. O YouTube oferece reprodução automática, legendas e um <em>miniplayer</em> flutuante. No Instagram, vídeos e <em>stories</em> reproduzem-se com um simples deslizar. O Twitter dá prioridade a <em>tweets</em> considerados relevantes, enquanto o LinkedIn sugere mensagens prontas e valida competências com um clique.</p>
<p>Por trás desta fluidez, estão algoritmos de aprendizagem automática que aprendem com os dados dos utilizadores e ajustam o conteúdo oferecido com base no histórico de interações.</p>
<p>Faça um teste: experimente clicar aleatoriamente num vídeo no Youtube no qual não tem interesse. Provavelmente, em apenas dois ou três cliques em conteúdos semelhantes, o seu <em>feed</em> será completamente reorganizado.</p>
<p>As grandes plataformas, cujo modelo de negócios depende da maximização do tempo de uso e da recolha de dados, resistem à introdução de obstáculos à fluidez da experiência. Há um conflito entre o <em>design</em> orientado para o lucro e o <em>design</em> orientado para o bem-estar.</p>
<p>Mesmo quando são introduzidas fricções, muitas vezes, elas consideram mais os interesses económicos da empresa – como dificultar o cancelamento de serviços pagos ou promover produtos – do que a autonomia do utilizador.</p>
<p>Com o tempo, podemos deixar de escolher ativamente o que ver, ouvir ou ler e passar a ser guiados por sugestões automáticas. Esta seleção algorítmica não apenas antecipa os nossos gostos, como também os molda.</p>
<p>Ao oferecer repetidamente conteúdos semelhantes, reforça o viés de confirmação, diminui a diversidade de experiências e cria ‘bolhas’ de conteúdo e ‘câmaras de eco’.</p>
<p>Cada vez mais estudos apontam que as redes sociais podem afetar o sistema de recompensa cerebral da mesma forma que as substâncias viciantes. Quanto mais fácil for clicar, deslizar ou reagir, maior é o risco de uso automatizado e compulsivo.</p>
<p>A fluidez extrema pode prender-nos em ciclos de estímulo e recompensa, capazes de desencadear sintomas de ansiedade, frustração, insónia, irritação, tristeza e insatisfação.</p>
<p>Diante desse cenário, muitos países estão a desenvolver projetos de regulamentação da internet. Só entre 2023 e 2024, mais de 40 estados dos Estados Unidos processaram as plataformas digitais, acusando-as de recorrer a estratégias subtis de condicionamento comportamental para manter crianças e adolescentes conectados por mais tempo.</p>
<p><strong>A internet não é neutra</strong></p>
<p>Ao contrário do que podemos ser levados a pensar, a internet não funciona ‘na nuvem’: ela depende de uma infraestrutura física e complexa. Cada sítio visitado, vídeo transmitido ou mensagem enviada viaja por meio de uma rede de cabos submarinos, fibras óticas, satélites e roteadores interconectados.</p>
<p>As informações não estão ‘no ar’, mas armazenadas em servidores distribuídos por mais de 10 mil centros de dados, localizados sobretudo nos Estados Unidos, Reino Unido e Alemanha.</p>
<p>Há dois pontos que quero destacar aqui. O primeiro, a ‘internet’ não é neutra. Os softwares, algoritmos e tudo o que envolve o uso das tecnologias digitais são projetados por pessoas que possuem interesses, vieses e ideologias. Assim, o visual, o tipo de tecnologia e a forma como interagimos não são ao acaso e nem a única maneira possível.</p>
<p>A <em>Cambridge Analytica</em>, empresa britânica de consultoria fundada em 2013, é um exemplo da criação e utilização de softwares com fins políticos. Tornou-se conhecida por recolher e analisar dados de milhões de utilizadores do Facebook, a partir dos quais elaborava perfis psicológicos detalhados.</p>
<p>Com base nesses perfis, enviava mensagens personalizadas capazes de influenciar perceções e comportamentos eleitorais. Os casos de maior repercussão foram a campanha presidencial dos Estados Unidos em 2016 e o plebiscito do <em>Brexit</em>, no Reino Unido. Ambos demonstram como a atenção e os dados capturados pelas tecnologias digitais podem ser convertidos em poder político.</p>
<p>Em janeiro de 2025, a Meta anunciou mudanças nos serviços de moderação das suas plataformas e encerrou o serviço de verificação de factos. A decisão foi justificada como uma defesa da liberdade de expressão. Conforme o relatório da própria empresa (<em>Integrity Reports, First Quarter</em> 2025), nos três primeiros meses após esta medida registou-se um aumento dos casos de <em>bullying</em> e de conteúdos violentos na rede.</p>
<p>Acha que foi apenas uma coincidência que os donos das principais <em>Big Techs</em> estivessem presentes na cerimónia de posse do atual presidente dos Estados Unidos? Um deles foi mesmo escolhido para coordenar o Departamento de Eficiência Governamental (DOGE, sigla em inglês), especialmente criado para si.</p>
<p>Ou, ainda, já se questionou sobre os motivos que levaram, em 2025, o presidente dos Estados Unidos a ameaçar anexar o Canadá e a Gronelândia, ou a exigir terras na Ucrânia como contrapartida pela mediação da guerra?</p>
<p>Estes países são aliados e parceiros dos Estados Unidos, mas também possuem ‘terras raras’, ou seja, regiões ricas em 17 elementos químicos essenciais para a produção de tecnologias estratégicas, como baterias, ímanes, semicondutores e telecomunicações, entre outros.</p>
<p>Em geopolítica, nada é aleatório – mesmo as ideias mais alucinadas ou meramente retóricas –, e as <em>Big Techs</em> são atores cada vez mais influentes neste jogo.</p>
<p><strong>Consumo energético e a tecnologia da informação</strong></p>
<p>O segundo ponto é que todo o sistema digital precisa de energia para funcionar. Em 2024, somente os centros de dados do Google consumiram 30,8 TWh – mais do que países como Lituânia, Luxemburgo, Timor-Leste ou Uruguai.</p>
<p>A Agência Internacional de Energia (IEA) indicou que, em 2024, o consumo global dos centros de dados com inteligência artificial foi de 415 TWh (o equivalente a cerca de 120 milhões de casas europeias durante um ano) e deverá duplicar até 2030.</p>
<p>Para se ter uma ideia, até uma simples pergunta, como ‘qual o nome do atual presidente de Timor-Leste?’, exige um processo complexo: após ser enviada do telemóvel ou computador, percorre cabos e redes, chega a um centro de dados, é processada por dezenas de servidores e, só depois, a resposta faz o caminho inverso até ao utilizador.</p>
<p>Essa interação, que dura entre 2 e 3 segundos, consome energia equivalente para manter uma lâmpada de 10 watts acesa durante cinco minutos. Ou ainda, para escrever um texto de no máximo 100 palavras, a Meta consome 46,5 Wh, o mesmo que manter 4 lâmpadas de LED acesas durante uma hora.</p>
<p>Quando as perguntas se tornam mais complexas, quando os textos são longos ou quando usamos imagens e vídeos, o gasto energético aumenta exponencialmente.</p>
<p>A isso somam-se milhões de litros de água usados no arrefecimento dos servidores e a emissão de toneladas de carbono para a atmosfera. A Microsoft, apenas para treinar o ChatGPT-3, consumiu pelo menos 700 mil litros de água para arrefecimento dos seus servidores. Conforme a reportagem da BBC News publicada em julho deste ano, os centros de dados que utilizam inteligência artificial poderão consumir entre 4 e 6 mil milhões de metros cúbicos de água até 2027.</p>
<p>O relatório sobre a economia digital de 2024, elaborado pelo Escritório da ONU para o Comércio e Desenvolvimento (Unctad), apontou que o setor de tecnologia da informação é responsável, em média, por 1,6 gigatoneladas de emissões de dióxido de carbono (CO<sub>2</sub>) na atmosfera. Número que aumenta anualmente com o crescimento das empresas de criptomoedas, jogos <em>online</em>, motores de busca, redes sociais e aplicações de texto. O resultado é que a pegada ecológica da inteligência artificial ultrapassa o consumo energético de nações inteiras.</p>
<p>Neste sentido, expressões como ‘armazenamento em nuvem’, ‘digital’, ‘virtual’, ‘inteligência artificial’, ‘liberdade’ ou ‘automatizado’ não são apenas metáforas, mas recursos semióticos que criam a imagem mental de uma tecnologia ‘limpa’, ‘não poluente’, ‘sem ocupar espaço’, ‘barata’, ‘livre de interesses’, ‘justa’ e ‘democrática’.</p>
<p><strong>A terceirização do pensamento</strong></p>
<p>Em 2025, foi publicado um estudo realizado por investigadores do <em>Massachusetts Institute of Technology</em> (MIT), onde analisaram o uso de modelos de linguagem (LLMs), como o ChatGPT, no desenvolvimento cognitivo de estudantes.</p>
<p>Para isso, foram comparados três grupos: um que usou apenas o cérebro (<em>brain-only</em>), outro que utilizou motores de busca (como o Google) e um terceiro que contou com o apoio de LLMs. Foram analisados fatores como a atividade cerebral (via eletroencefalograma), a qualidade e originalidade dos textos e a perceção de autoria dos participantes.</p>
<p>Os resultados mostraram que o grupo que utilizou LLMs reduziu a conectividade neural, o envolvimento cognitivo e a sensação de propriedade sobre os textos, enquanto o grupo ‘só cérebro’ apresentou maior ativação neural e melhor recordação.</p>
<p>Além disso, os ensaios produzidos com LLM revelaram menor diversidade linguística e temática, sugerindo que o uso prolongado de ferramentas automatizadas pode comprometer a aprendizagem e a autonomia cognitiva.</p>
<p>O cérebro humano tende a economizar energia, procurar a coerência e minimizar o esforço. Quando usamos ferramentas de inteligência artificial para ‘pensar’ por nós ou consumimos apenas conteúdos que reforçam aquilo em que já acreditamos, o cérebro acostuma-se com esse tipo de estímulo. Isso pode reduzir o esforço cognitivo necessário para processar novas informações ou lidar com o contraditório.</p>
<p>Se esse comportamento começa na infância, pode influenciar o desenvolvimento do lóbulo frontal, a área do cérebro responsável pelo raciocínio lógico, pela tomada de decisões e pela resolução de problemas. A longo prazo, pode comprometer habilidades cognitivas mais complexas, a reflexão crítica, a memória e a capacidade de controlar as emoções e lidar com a diversidade de ideias.</p>
<p><strong>Tecnofobia ou tecnoutopia: que caminho escolher?</strong></p>
<p>A resposta é: nenhum dos dois. O objetivo aqui não é ser alarmista, profetizar o apocalipse, nem incentivar o movimento dos <em>offline</em> ou dos tecnocrentes. Muito pelo contrário.</p>
<p>Este artigo que está a ler só foi possível porque usei energia elétrica, escrevi num computador, pesquisei artigos e dados na internet e enviei o texto aos editores através de uma aplicação de mensagens.</p>
<p>A tecnologia da informação, em si mesma, não é boa nem má. Mas também não é neutra ou impermeável às disputas de poder e de controlo social.</p>
<p>A maneira como usamos a internet influencia a nossa saúde física e mental, o desenvolvimento cognitivo, a capacidade de aprendizagem, o meio ambiente e o modo como nos organizamos em sociedade.</p>
<p>Por isso, considero importante refletirmos sobre os impactos psicológicos, educativos, socioculturais e ambientais do uso das tecnologias digitais, bem como sobre os interesses económicos, políticos e ideológicos que os condicionam.</p>
<p><span style="color: #999999;"><em>Alessandro Boarccaech é psicólogo, especialista em psicologia clínica, psicoterapeuta, semiótico e Ph.D. em antropologia.</em></span></p>
<p>O conteúdo <a href="https://www.diligenteonline.com/economia-da-atencao-algoritmos-e-a-neutralidade-das-tecnologias-digitais/">Economia da atenção, algoritmos e a ‘neutralidade’ das tecnologias digitais</a> aparece primeiro em <a href="https://www.diligenteonline.com">DILIGENTE</a>.</p>
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