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	<title>Factos e Análise - DILIGENTE</title>
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	<title>Factos e Análise - DILIGENTE</title>
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		<title>Subnutrição agrava-se em Timor-Leste enquanto a maioria dos países da ASEAN melhora</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Antónia Martins]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 26 Oct 2026 10:51:49 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Destaque]]></category>
		<category><![CDATA[Factos e Análise]]></category>
		<category><![CDATA[Timor em Perspetiva]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Timor-Leste apresenta o pior resultado entre os países da ASEAN avaliados no Índice Global da Fome 2026. Baixos rendimentos, produção agrícola vulnerável e obstáculos à distribuição ajudam a explicar a persistência das dificuldades de acesso à alimentação. Na Indonésia, a [&#8230;]</p>
<p>O conteúdo <a href="https://www.diligenteonline.com/subnutricao-agrava-se-em-timor-leste-enquanto-a-maioria-dos-paises-da-asean-melhora/">Subnutrição agrava-se em Timor-Leste enquanto a maioria dos países da ASEAN melhora</a> aparece primeiro em <a href="https://www.diligenteonline.com">DILIGENTE</a>.</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p><em>Timor-Leste apresenta o pior resultado entre os países da ASEAN avaliados no Índice Global da Fome 2026. Baixos rendimentos, produção agrícola vulnerável e obstáculos à distribuição ajudam a explicar a persistência das dificuldades de acesso à alimentação.</em></p>
<p>Na Indonésia, a proporção da população em situação de subnutrição desceu de 18,4%, em 2004–2006, para 6,3%, em 2023–2025. No Camboja, passou de 15,5% para 4,7%; no Vietname, de 15,2% para 6,1%. Timor-Leste também melhorou ao longo dessas duas décadas, mas continua numa posição mais desfavorável: a taxa caiu de 28,8% para 16,9%, mantendo-se acima de todos os países da ASEAN com dados disponíveis.</p>
<p><img fetchpriority="high" decoding="async" class="aligncenter wp-image-23738 size-full" src="https://www.diligenteonline.com/wp-content/uploads/2026/10/subnutricao-na-ASEAN.png" alt="" width="1300" height="731" srcset="https://www.diligenteonline.com/wp-content/uploads/2026/10/subnutricao-na-ASEAN.png 1300w, https://www.diligenteonline.com/wp-content/uploads/2026/10/subnutricao-na-ASEAN-516x290.png 516w, https://www.diligenteonline.com/wp-content/uploads/2026/10/subnutricao-na-ASEAN-900x506.png 900w, https://www.diligenteonline.com/wp-content/uploads/2026/10/subnutricao-na-ASEAN-768x432.png 768w" sizes="(max-width: 1300px) 100vw, 1300px" /></p>
<p>A trajetória recente acrescenta uma diferença: em Timor-Leste, a subnutrição voltou a aumentar, passando de 14,5%, em 2017–2019, para 16,9%, em 2023–2025. Cerca de uma em cada seis pessoas não consumia habitualmente alimentos suficientes para satisfazer as suas necessidades de energia. Entre esses dois períodos, a subnutrição diminuiu em cinco dos nove países da ASEAN com dados disponíveis.</p>
<p>O contraste surge também no Índice Global da Fome de 2026, uma avaliação mais ampla que combina subnutrição, duas medidas de desnutrição infantil e mortalidade de menores de cinco anos. Entre as referências de 2018 e 2026, sete dos nove países da ASEAN com pontuação publicada melhoraram. Timor-Leste e Malásia foram as exceções, mas o agravamento timorense foi maior.</p>
<p><img decoding="async" class="aligncenter wp-image-23740 size-full" src="https://www.diligenteonline.com/wp-content/uploads/2026/10/subnutricao-melhoria.png" alt="" width="1300" height="731" srcset="https://www.diligenteonline.com/wp-content/uploads/2026/10/subnutricao-melhoria.png 1300w, https://www.diligenteonline.com/wp-content/uploads/2026/10/subnutricao-melhoria-516x290.png 516w, https://www.diligenteonline.com/wp-content/uploads/2026/10/subnutricao-melhoria-900x506.png 900w, https://www.diligenteonline.com/wp-content/uploads/2026/10/subnutricao-melhoria-768x432.png 768w" sizes="(max-width: 1300px) 100vw, 1300px" /></p>
<p>Membro mais recente da ASEAN, à qual aderiu em 26 de outubro de 2025, Timor-Leste é, com o Laos, um dos dois países da organização na categoria “grave” do índice.</p>
<p>A comparação permite identificar a distância. Para compreender as razões, é necessário olhar para as condições em que as famílias produzem, compram e consomem alimentos.</p>
<p><strong>Progressos regionais, resultados desiguais</strong></p>
<p><img decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-23741" src="https://www.diligenteonline.com/wp-content/uploads/2026/10/subnutricao-e-fome.png" alt="" width="1298" height="779" srcset="https://www.diligenteonline.com/wp-content/uploads/2026/10/subnutricao-e-fome.png 1298w, https://www.diligenteonline.com/wp-content/uploads/2026/10/subnutricao-e-fome-516x310.png 516w, https://www.diligenteonline.com/wp-content/uploads/2026/10/subnutricao-e-fome-900x540.png 900w, https://www.diligenteonline.com/wp-content/uploads/2026/10/subnutricao-e-fome-768x461.png 768w" sizes="(max-width: 1298px) 100vw, 1298px" /></p>
<p>A taxa de subnutrição timorense é aproximadamente 2,7 vezes a da Indonésia e 3,6 vezes a do Camboja. Supera também em mais de três vezes a estimativa de 5,3% para o conjunto do Sudeste Asiático, em 2023–2025.</p>
<p>A distância permanece apesar dos avanços timorenses. No Índice Global da Fome, o país passou de 44,1 pontos em 2006 para 27,3 em 2018, antes de subir para 32,5 em 2026. Parte do progresso foi, assim, contrariada pela evolução mais recente.</p>
<p>O agravamento não foi uniforme. Segundo o relatório, o atraso de crescimento e a mortalidade de menores de cinco anos diminuíram, mas a subnutrição aumentou e a emaciação — baixo peso para a altura — mais do que duplicou face à referência de 2018. O documento enquadra estes resultados num contexto de secas, inundações e choques de preços repetidos.</p>
<p><strong>Uma alimentação que não chega a muitas famílias</strong></p>
<p>Uma análise do Programa Alimentar Mundial estimou que, em 2023, 75% dos agregados familiares timorenses não conseguiam suportar o custo de uma alimentação nutritiva. Para uma família de cinco pessoas, o valor diário necessário passou de 5,68 dólares em 2019 para 10,09 dólares em 2023, um aumento de 78%.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-23742" src="https://www.diligenteonline.com/wp-content/uploads/2026/10/custo-de-alimentacao-nutritiva.png" alt="" width="1300" height="731" srcset="https://www.diligenteonline.com/wp-content/uploads/2026/10/custo-de-alimentacao-nutritiva.png 1300w, https://www.diligenteonline.com/wp-content/uploads/2026/10/custo-de-alimentacao-nutritiva-516x290.png 516w, https://www.diligenteonline.com/wp-content/uploads/2026/10/custo-de-alimentacao-nutritiva-900x506.png 900w, https://www.diligenteonline.com/wp-content/uploads/2026/10/custo-de-alimentacao-nutritiva-768x432.png 768w" sizes="auto, (max-width: 1300px) 100vw, 1300px" /></p>
<p>Este indicador mostra uma barreira fundamental dentro de Timor-Leste. A existência de alimentos nos mercados não garante que as famílias consigam comprá-los. E obter calorias suficientes não significa ter acesso a uma alimentação diversificada.</p>
<p>Uma investigação publicada em setembro de 2026, com participação da Australian National University, da Menzies School of Health Research e do Instituto Nacional de Saúde Pública de Timor-Leste, identificou a estabilidade dos rendimentos como um fator que condiciona a frequência das refeições e a escolha dos alimentos.</p>
<p>O estudo qualitativo envolveu entrevistas a 34 mães em Díli, Ainaro e Ermera, realizadas entre agosto e outubro de 2025. Destacou ainda o papel das mulheres na gestão alimentar e a importância da partilha entre vizinhos na resposta à escassez.</p>
<p>Em 23 dos 34 agregados, o emprego assalariado ou regular era uma das fontes de rendimento. Dezoito tinham rendimentos mensais entre 100 e 500 dólares. Ainda assim, os relatos identificaram instabilidade económica e dificuldades de acesso à alimentação, mostrando que a existência de emprego no agregado não assegurava, por si só, estabilidade alimentar.</p>
<p>Os autores defendem medidas que estabilizem rendimentos e apoiem quem assegura a alimentação e os cuidados familiares.</p>
<p><strong>Produção vulnerável e mercados difíceis de alcançar</strong></p>
<p>Segundo a FAO, entre os agregados rurais timorenses que praticam agricultura, criação de animais ou pesca artesanal, 97% são pequenos produtores de subsistência e dois terços cultivam menos de um hectare. O acesso limitado à irrigação, aos meios de produção e aos mercados condiciona a produtividade.</p>
<p>Para estas famílias, perder uma colheita pode reduzir simultaneamente a comida disponível e o rendimento necessário para comprar outros alimentos. A exposição à seca ou às inundações torna-se mais difícil de enfrentar quando existem poucas alternativas económicas.</p>
<p>A distribuição acrescenta obstáculos. A análise <a href="https://development.asia/insight/addressing-timor-lestes-food-security-and-nutrition">“Addressing Timor-Leste’s Food Security and Nutrition”</a>, publicada na Development Asia, plataforma do Banco Asiático de Desenvolvimento, identifica as estradas rurais deficientes como um entrave ao transporte e um fator de perdas depois das colheitas. Na época das chuvas, os deslizamentos podem interromper acessos, dificultar o abastecimento e contribuir para aumentos de preços.</p>
<p>O país importa cerca de 60% das suas necessidades de consumo de cereais, sobretudo arroz, segundo a FAO. As compras externas compensam insuficiências da produção nacional, mas mantêm o abastecimento sensível às condições dos mercados internacionais.</p>
<p><strong>O que se pode aprender com a região?</strong></p>
<p>A experiência indonésia aponta para a importância de atuar sobre várias etapas do abastecimento. Num <a href="https://www.fao.org/indonesia/news/detail/on-world-food-day--fao-calls-on-scaling-innovations-to-guarantee-healthy-diets-for-all-indonesians/en">comunicado sobre o Dia Mundial da Alimentação de 2026</a>, a FAO atribui os progressos na redução da fome ao investimento continuado na produtividade agrícola, irrigação, logística, distribuição alimentar e nutrição. A organização salienta, ao mesmo tempo, que a alimentação saudável continua economicamente inacessível a uma parte significativa da população.</p>
<p>O exemplo sugere uma distinção relevante para Timor-Leste: reduzir a insuficiência de calorias e garantir uma alimentação saudável são objetivos relacionados, mas exigem acompanhar tanto a quantidade como a qualidade do que as famílias comem.</p>
<p>O próprio relatório do Índice Global da Fome destaca, a propósito do Camboja e com base numa análise publicada em 2016, a associação entre melhorias na nutrição infantil e maiores recursos familiares, educação dos pais, água e saneamento e acesso a cuidados maternos e infantis. Sublinha também que esses ganhos são vulneráveis à subida dos preços e às inundações.</p>
<p><strong>Soluções já identificadas, resultados por demonstrar</strong></p>
<p>Em Timor-Leste, o relatório HAFOUN foi lançado em setembro de 2025 pelo Governo, através do gabinete do Vice-Primeiro-Ministro para os Assuntos Sociais, em parceria com o PAM. Preparado com apoio técnico do PAM e baseado numa avaliação independente da consultora Mettalytics, propõe intervenções que abrangem investigação agrícola, armazenamento, ligações aos mercados e programas de nutrição. A análise incluiu consultas a mais de cem intervenientes, entre agricultores, comerciantes e responsáveis públicos.</p>
<p>Na divulgação dos resultados do estudo, o PAM refere um retorno estimado de 3,50 dólares por dólar investido nas recomendações.</p>
<p>Há também sinais recentes de melhoria no abastecimento. Em agosto de 2026, a FAO estimou preliminarmente que a produção das principais colheitas de milho e arroz desse ano ficou acima da média dos cinco anos anteriores. Os preços do arroz em julho estavam abaixo dos níveis elevados de um ano antes.</p>
<p>Persistem, contudo, riscos para as próximas colheitas. A La’o Hamutuk recordou informação governamental que apontava para uma redução da precipitação entre novembro de 2026 e abril de 2027, com riscos de seca, escassez de água e redução da produção agrícola. Trata-se de uma previsão, não de perdas já observadas.</p>
<p>A comparação com a ASEAN coloca agora uma questão que ultrapassa o ranking: conseguirá Timor-Leste transformar melhorias nas colheitas e no abastecimento numa redução duradoura da privação alimentar? A resposta dependerá de os alimentos chegarem às comunidades durante todo o ano e de as famílias disporem de rendimento para os comprar.</p>
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		<title>Jovens em Timor-Leste: acesso ao trabalho e à formação fica atrás de todos os países da ASEAN</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Antónia Martins]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 05 Oct 2026 11:34:12 +0000</pubDate>
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		<category><![CDATA[Factos e Análise]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Quase três em cada dez timorenses entre os 15 e os 24 anos não estão empregados, não estudam e não frequentam formação. Os dados internacionais colocam Timor-Leste no topo deste indicador entre os 11 países da ASEAN. As estatísticas nacionais [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p><em>Quase três em cada dez timorenses entre os 15 e os 24 anos não estão empregados, não estudam e não frequentam formação. Os dados internacionais colocam Timor-Leste no topo deste indicador entre os 11 países da ASEAN. As estatísticas nacionais mostram diferenças entre municípios e uma elevada informalidade entre os jovens que trabalham.</em></p>
<p>Em 2025, cerca de 29% dos jovens timorenses entre os 15 e os 24 anos estavam simultaneamente fora do emprego, do ensino e da formação. É a proporção mais elevada entre os países da Associação das Nações do Sudeste Asiático, a ASEAN, segundo as estimativas da Organização Internacional do Trabalho disponibilizadas pelo Banco Mundial.</p>
<p>A diferença verifica-se também na comparação com países de rendimento mais baixo da região. No Laos, a proporção era de 22,6%; no Camboja, de 11%. Em Singapura, situava-se nos 6%. A comparação utiliza o mesmo indicador, a mesma faixa etária e o mesmo ano.<img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-23566 size-full" src="https://www.diligenteonline.com/wp-content/uploads/2026/10/Timor-Leste-lidera-jovens-fora-da-formacao.png" alt="" width="1402" height="1122" srcset="https://www.diligenteonline.com/wp-content/uploads/2026/10/Timor-Leste-lidera-jovens-fora-da-formacao.png 1402w, https://www.diligenteonline.com/wp-content/uploads/2026/10/Timor-Leste-lidera-jovens-fora-da-formacao-471x377.png 471w, https://www.diligenteonline.com/wp-content/uploads/2026/10/Timor-Leste-lidera-jovens-fora-da-formacao-900x720.png 900w, https://www.diligenteonline.com/wp-content/uploads/2026/10/Timor-Leste-lidera-jovens-fora-da-formacao-768x615.png 768w" sizes="auto, (max-width: 1402px) 100vw, 1402px" /></p>
<p><em>Fonte: Banco Mundial, estimativas modeladas da OIT para jovens dos 15 aos 24 anos, de ambos os sexos. Valores arredondados a uma casa decimal.</em></p>
<p>Este indicador, conhecido pela sigla inglesa NEET, não equivale à taxa de desemprego. Abrange também jovens que não procuram emprego e que, por isso, ficam fora das estatísticas habituais do desemprego. Também não significa que todos estejam sem qualquer atividade: cuidar de familiares ou produzir alimentos para consumo próprio pode ocupar o quotidiano sem contar como emprego na definição estatística utilizada.</p>
<p>Timor-Leste apresenta igualmente a maior proporção de população com menos de 15 anos entre os países da ASEAN. Segundo as estimativas demográficas das Nações Unidas publicadas pelo Banco Mundial, este grupo representava 33,1% da população timorense em 2025. No Laos eram 29,8%, no Camboja 29,5% e na Tailândia 14,4%. Esta faixa etária é diferente da utilizada no indicador NEET, que abrange os jovens dos 15 aos 24 anos.</p>
<p>Os dados nacionais permitem observar diferenças dentro do país. O relatório sobre a força de trabalho do Censo de 2022, publicado pelo Instituto Nacional de Estatística de Timor-Leste (INETL), identificou 93.776 jovens entre os 15 e os 24 anos fora do emprego, do ensino e da formação: 32,4% desse grupo etário.</p>
<p>Em Bobonaro, a proporção atingia 41,8%; em Covalima, 41,6%; e em Ermera, 39,6%. Em Díli era de 26%. Nos três primeiros municípios, cerca de quatro em cada dez jovens estavam simultaneamente fora do emprego, do ensino e da formação.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-23567 size-large" src="https://www.diligenteonline.com/wp-content/uploads/2026/10/Infografico-sobre-jovens-fora-da-formacao-900x900.png" alt="" width="640" height="640" srcset="https://www.diligenteonline.com/wp-content/uploads/2026/10/Infografico-sobre-jovens-fora-da-formacao-900x900.png 900w, https://www.diligenteonline.com/wp-content/uploads/2026/10/Infografico-sobre-jovens-fora-da-formacao-377x377.png 377w, https://www.diligenteonline.com/wp-content/uploads/2026/10/Infografico-sobre-jovens-fora-da-formacao-150x150.png 150w, https://www.diligenteonline.com/wp-content/uploads/2026/10/Infografico-sobre-jovens-fora-da-formacao-768x768.png 768w, https://www.diligenteonline.com/wp-content/uploads/2026/10/Infografico-sobre-jovens-fora-da-formacao.png 1254w" sizes="auto, (max-width: 640px) 100vw, 640px" /></p>
<p>Os resultados sobre a participação dos jovens no trabalho e no ensino coexistem com um aumento da alfabetização. O relatório do Censo dedicado às crianças e à juventude indica que a proporção de jovens dos 15 aos 24 anos que sabiam ler e escrever passou de 79,1%, em 2010, para 87,3%, em 2022. Persistia, porém, uma diferença territorial: 93,2% nas áreas urbanas, contra 83,9% nas áreas rurais. Estes números medem a alfabetização, não a conclusão do ensino secundário nem a preparação para uma profissão.</p>
<p>Entre os jovens que tinham emprego, predominava a informalidade. O Inquérito à Força de Trabalho de 2021, realizado pelas autoridades timorenses com apoio da OIT, revelou que 93,8% dos trabalhadores entre os 15 e os 24 anos tinham emprego informal. Esta classificação considera características da relação laboral e da proteção associada ao trabalho, como a cobertura pela segurança social e o acesso a determinados direitos.</p>
<p>Dados mais recentes registam um aumento do emprego nas empresas. O Inquérito à Atividade Empresarial de 2025, publicado pelo INETL em setembro de 2026, contabilizou 74.600 pessoas empregadas nas empresas abrangidas, mais 9,7% do que as 68.000 apresentadas para 2024 no mesmo relatório. Este valor de 2024 atualiza os 66.600 anteriormente publicados. Contudo, 81,4% do emprego estava registado em Díli. O levantamento inclui trabalhadores de todas as idades e nacionalidades e não permite determinar quantos dos postos foram ocupados por jovens timorenses. A localização das sedes das empresas pode também influenciar a concentração registada na capital.</p>
<p>No relatório económico de abril de 2026, o Banco Mundial prevê que o investimento privado permaneça limitado e concentrado na construção, no comércio a retalho e na hotelaria. A instituição considera que o ritmo e a composição do crescimento previstos são insuficientes para absorver a população ativa jovem e em expansão, associando a criação de emprego ao aumento da produtividade e ao desenvolvimento do setor privado.</p>
<p>A ligação entre formação e emprego é também abordada pela OIT. Em 13 e 14 de abril de 2026, uma iniciativa da organização, em colaboração com a SEFOPE, formou 47 formadores e técnicos na utilização do portal de emprego SIMU-Web. A formação incluiu o registo de candidatos e empregadores, a publicação de vagas e a divulgação de oportunidades de formação. No relato publicado sobre a iniciativa, um formador de Manufahi identifica dificuldades em orientar os diplomados na procura de trabalho ou de formação adicional.</p>
<p>Quanto às oportunidades regionais, o Banco Mundial salienta que a pertença à ASEAN não assegura, por si só, acesso ao emprego nos outros países. Aproveitar as possibilidades de mobilidade laboral exige qualificações reconhecidas, avaliação de competências, licenciamento profissional e mecanismos de proteção dos trabalhadores.</p>
<p>Os levantamentos disponíveis mostram, assim, diferentes dimensões da situação dos jovens: aumento da alfabetização, elevada informalidade entre os que trabalham e a maior proporção da ASEAN fora do emprego, do ensino e da formação. O crescimento do emprego empresarial registado em 2025 não permite, sem informação por idade, determinar em que medida estas novas oportunidades chegaram aos jovens timorenses.</p>
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		<title>Atraso de crescimento infantil: Timor-Leste continua no topo da ASEAN e afasta-se ainda mais da região</title>
		<link>https://www.diligenteonline.com/atraso-de-crescimento-infantil-timor-leste-continua-no-topo-da-asean-e-afasta-se-ainda-mais-da-regiao/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Antónia Martins]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 27 Sep 2026 12:45:20 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Destaque]]></category>
		<category><![CDATA[Factos e Análise]]></category>
		<category><![CDATA[Timor em Perspetiva]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Quase 45% das crianças timorenses com menos de cinco anos têm atraso de crescimento, segundo um novo inquérito nacional. As estimativas internacionais mais recentes confirmam que Timor-Leste continua a ter a taxa mais alta da ASEAN e que a distância [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p><em>Quase 45% das crianças timorenses com menos de cinco anos têm atraso de crescimento, segundo um novo inquérito nacional. As estimativas internacionais mais recentes confirmam que Timor-Leste continua a ter a taxa mais alta da ASEAN e que a distância para o segundo país aumentou. O problema é mais frequente nas famílias mais pobres e nas zonas rurais e pode afetar a saúde, a aprendizagem e as oportunidades futuras das crianças.</em></p>
<p>Em 2012, Timor-Leste, Laos, Indonésia e Camboja enfrentavam o mesmo problema em grande escala. Entre um terço e mais de metade das crianças com menos de cinco anos tinham atraso de crescimento. Doze anos depois, os quatro países continuam a enfrentar o problema, mas já não estão próximos uns dos outros.</p>
<p>O atraso de crescimento mede a proporção de crianças com menos de cinco anos cuja altura é demasiado baixa para a idade, segundo o padrão de crescimento da Organização Mundial da Saúde (OMS). É um indicador que reflete dificuldades de crescimento acumuladas ao longo do tempo.</p>
<p>Segundo as estimativas conjuntas da UNICEF, da OMS e do Banco Mundial, publicadas em março deste ano, 45,4% das crianças timorenses tinham atraso de crescimento em 2024. No Laos, o segundo valor mais elevado entre os 11 membros da ASEAN, a estimativa era de 29,9%. A Indonésia e o Camboja tinham descido para 22,6% e 22,0%.</p>
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<p><strong>Timor-Leste reduziu a taxa mais devagar do que os vizinhos</strong></p>
<p>A distância entre Timor-Leste e o Laos aumentou de 12,2 para 15,5 pontos percentuais entre 2012 e 2024. Os dois países começaram o período com prevalências muito elevadas, de 52,7% e 40,5%. O Laos reduziu a sua estimativa em 10,6 pontos e Timor-Leste em 7,3.</p>
<p>A Indonésia e o Camboja mostram outra trajetória. Tinham, respetivamente, 34,6% e 34,0% em 2012 e reduziram ambos a prevalência estimada em 12 pontos até 2024.</p>
<p>A diferença é mais clara em termos relativos. Entre 2012 e 2024, Timor-Leste reduziu a prevalência em cerca de 14%, o Laos em 26% e a Indonésia e o Camboja em cerca de 35%. Em média, Timor-Leste baixou 0,6 pontos por ano, contra 0,9 no Laos e cerca de um ponto na Indonésia e no Camboja.</p>
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<p>Os dados mostram que o ritmo de redução timorense ficou aquém do alcançado por outros países da região que também partiram de valores elevados.</p>
<p><strong>Dados nacionais confirmam a dimensão do problema e o fosso no país</strong></p>
<p>O Inquérito Demográfico e de Saúde, realizado entre setembro de 2025 e janeiro de 2026, apurou que 44,9% das crianças com menos de cinco anos tinham atraso de crescimento. No total, 16,5% tinham atraso de crescimento grave.</p>
<p>O novo inquérito mostra que a prevalência varia muito entre grupos de crianças timorenses. No quintil mais pobre, 56,5% das crianças tinham atraso de crescimento, contra 32,3% no quintil mais rico. A prevalência era de 47,6% no meio rural e de 36,7% no urbano.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-23513" src="https://www.diligenteonline.com/wp-content/uploads/2026/09/media-e-desigualdades-516x283.png" alt="" width="750" height="411" srcset="https://www.diligenteonline.com/wp-content/uploads/2026/09/media-e-desigualdades-516x283.png 516w, https://www.diligenteonline.com/wp-content/uploads/2026/09/media-e-desigualdades-768x421.png 768w, https://www.diligenteonline.com/wp-content/uploads/2026/09/media-e-desigualdades.png 865w" sizes="auto, (max-width: 750px) 100vw, 750px" /></p>
<p>As diferenças entre municípios também são amplas. Ermera registou 57,4%, Oe-Cusse 56,9% e Viqueque 54,7%, enquanto Díli e Manatuto registaram 34,9%, os valores mais baixos do país. Mesmo estes municípios ficavam acima da estimativa de 2024 para o Laos.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-23519" src="https://www.diligenteonline.com/wp-content/uploads/2026/09/Atraso-crescimento-municipios-516x290.png" alt="" width="750" height="422" srcset="https://www.diligenteonline.com/wp-content/uploads/2026/09/Atraso-crescimento-municipios-516x290.png 516w, https://www.diligenteonline.com/wp-content/uploads/2026/09/Atraso-crescimento-municipios-900x506.png 900w, https://www.diligenteonline.com/wp-content/uploads/2026/09/Atraso-crescimento-municipios-768x432.png 768w, https://www.diligenteonline.com/wp-content/uploads/2026/09/Atraso-crescimento-municipios.png 908w" sizes="auto, (max-width: 750px) 100vw, 750px" /></p>
<p>O problema começa cedo. Entre os 12 e os 23 meses, 49% das crianças já tinham atraso de crescimento. Entre os 24 e os 35 meses, a proporção era de 55,5%.</p>
<p>A alimentação das crianças mais pequenas ajuda a explicar estes números. No inquérito de 2025–2026, apenas 19,1% das crianças dos seis aos 23 meses tinham consumido, no dia anterior, alimentos ou bebidas de pelo menos cinco dos oito grupos usados para medir a diversidade alimentar mínima.</p>
<p>O custo de uma alimentação nutritiva também pesa. Segundo dados de 2023 citados pelo Programa Alimentar Mundial, 75% dos agregados timorenses não conseguiam pagar uma dieta nutritiva, cujo custo aumentara 78% desde 2019.</p>
<p><strong>O que fizeram outros países da ASEAN e Timor-Leste</strong></p>
<p>No Laos, o Governo reuniu nas mesmas comunidades medidas de nutrição, apoio às famílias, cuidados de saúde, água e saneamento, segundo o Banco Mundial. Nas estimativas conjuntas da UNICEF, da OMS e do Banco Mundial, a proporção de crianças com atraso de crescimento desceu de 40,5% em 2012 para 29,9% em 2024.</p>
<p>A Indonésia adotou uma estratégia nacional que coordena intervenções de saúde, nutrição, proteção social, água e saneamento, desde a administração central até às aldeias, de acordo com o Banco Mundial. No país, a taxa estimada passou de 34,6% para 22,6% entre 2012 e 2024.</p>
<p>No Camboja, a taxa nacional estimada caiu de 34,0% em 2012 para 22,0% em 2024. No mesmo período, o país executou vários programas de saúde e nutrição materno-infantil. Um deles, apoiado pelo Banco Mundial, reforçou os serviços para grávidas, mães e crianças pequenas. Até junho de 2024, tinha financiado a contratação e formação de 4.459 agentes comunitários em nove províncias.</p>
<p>Embora os dados não permitam atribuir a descida em cada país a uma única medida, as três experiências têm pontos em comum: coordenaram vários setores e levaram as intervenções até às comunidades.</p>
<p>Em Timor-Leste, o Plano de Ação Nacional Multissetorial de Nutrição para Combater o Atraso de Crescimento 2024–2030, lançado em 2025, segue a lógica de coordenação entre setores adotada pelos vizinhos. O plano pretende reduzir o atraso de crescimento para menos de 25% até 2030.</p>
<p>Atingir a meta de 2030 implica que Timor-Leste chegue a valores próximos dos que a Indonésia e o Camboja já registavam em 2024. Para isso, terá de reduzir a taxa em mais de 20 pontos percentuais face aos 44,9% apurados no inquérito de 2025–2026. Entre 2012 e 2024, a redução estimada foi, em média, de 0,6 pontos por ano. A meta exige, portanto, uma descida muito mais rápida.</p>
<p><strong>O que os números revelam sobre o presente e o futuro das crianças timorenses</strong></p>
<p>Não há uma causa única. Segundo a OMS, uma alimentação inadequada, infeções repetidas e problemas de saúde e nutrição desde a gravidez podem afetar o crescimento. As condições em que as famílias vivem e cuidam das crianças também contam.</p>
<p>As consequências podem prolongar-se para lá da infância. O atraso de crescimento está associado a maiores riscos para a saúde, o desenvolvimento e a aprendizagem, com possíveis efeitos nas oportunidades futuras.</p>
<p>O Banco Mundial alertava, em 2024, que o atraso de crescimento infantil está associado a uma menor capacidade de aprendizagem e à perda de produtividade na idade adulta. Por isso, a instituição defendia investimentos na nutrição das mães e das crianças desde a gravidez até aos dois anos de idade. Com quase metade das crianças afetadas, o efeito não se limita ao percurso de cada uma e pode pesar na capacidade futura do país.</p>
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		<title>Timor-Leste importa quase dez vezes o que exporta. Peso timorense nas exportações da ASEAN é apenas de 0,004%</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Antónia Martins]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 09 Aug 2026 10:33:26 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Destaque]]></category>
		<category><![CDATA[Timor em Perspetiva]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Em 2025, sem o petróleo, as importações foram cerca de 24 vezes superiores às exportações e o café gerou quase 90% dessas receitas. Segundo o relatório External Trade Statistics 2025, do Instituto Nacional de Estatística de Timor-Leste (INETL), o país [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p><em>Em 2025, sem o petróleo, as importações foram cerca de 24 vezes superiores às exportações e o café gerou quase 90% dessas receitas.</em></p>
<p>Segundo o relatório <em>External Trade Statistics 2025</em>, do Instituto Nacional de Estatística de Timor-Leste (INETL), o país importou mercadorias no valor de 984,9 milhões de dólares e registou exportações totais de aproximadamente 103,6 milhões.</p>
<p>Este total inclui 99,5 milhões de exportações nacionais — mercadorias com, pelo menos, 50% de conteúdo timorense — e cerca de 4 milhões de reexportações, isto é, produtos anteriormente importados que voltaram a sair do país.</p>
<p>Por cada dólar obtido com as exportações totais de mercadorias, Timor-Leste gastou cerca de 9,5 dólares em importações. O défice comercial — a diferença entre importações e exportações — atingiu aproximadamente 881,3 milhões de dólares.</p>
<p>O INETL registou 58,7 milhões de dólares em exportações petrolíferas. Retirando esse valor dos 99,5 milhões de exportações nacionais, restam cerca de 40,8 milhões em bens não petrolíferos produzidos no país.</p>
<p>Quando se comparam as importações com estas exportações nacionais não petrolíferas, Timor-Leste comprou ao estrangeiro cerca de 24 vezes mais do que vendeu.</p>
<p>Em 2024, os 10 países que então integravam a ASEAN exportaram mercadorias no valor de 1 953 mil milhões de dólares e importaram 1 890 mil milhões, registando um excedente comercial de cerca de 63,4 mil milhões.</p>
<p>Nesse ano, o comércio de mercadorias de Timor-Leste equivalia a apenas 0,03% do comércio conjunto dos membros da organização. As exportações timorenses representavam cerca de 0,004% das exportações da região, segundo cálculos do Diligente baseados em dados da ASEANstats.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-23153 size-full" src="https://www.diligenteonline.com/wp-content/uploads/2026/08/ASEANstats-Timor-2024.png" alt="" width="1080" height="1350" srcset="https://www.diligenteonline.com/wp-content/uploads/2026/08/ASEANstats-Timor-2024.png 1080w, https://www.diligenteonline.com/wp-content/uploads/2026/08/ASEANstats-Timor-2024-302x377.png 302w, https://www.diligenteonline.com/wp-content/uploads/2026/08/ASEANstats-Timor-2024-720x900.png 720w, https://www.diligenteonline.com/wp-content/uploads/2026/08/ASEANstats-Timor-2024-768x960.png 768w" sizes="auto, (max-width: 1080px) 100vw, 1080px" /></p>
<p><strong>O que compra Timor-Leste?</strong></p>
<p>Um défice comercial não é necessariamente negativo. Um país pode importar máquinas, equipamentos e matérias-primas que aumentem a sua capacidade produtiva. O impacto depende, porém, da composição das importações, da forma como são financiadas e da capacidade de transformar esse investimento em produção e exportações futuras.</p>
<p>Em 2025, os bens intermédios representaram 430,7 milhões de dólares, ou 43,7% das importações timorenses. São matérias-primas, componentes e outros produtos destinados a ser transformados ou utilizados na produção, como materiais de construção, peças e alguns combustíveis.</p>
<p>Os bens de consumo, destinados sobretudo ao uso direto das famílias — como alimentos, bebidas, roupa, medicamentos e artigos domésticos — corresponderam a 361,9 milhões de dólares, ou 36,7% das importações.</p>
<p>Os bens de capital atingiram 155,8 milhões, o equivalente a 15,8%. Esta categoria inclui máquinas e equipamentos utilizados durante vários anos na produção de outros bens ou na prestação de serviços. Outros 36,5 milhões foram classificados pelo INETL como bens omitidos, não tendo sido integrados nas três categorias principais.</p>
<p>Os combustíveis constituíram a maior categoria de importação, com 209,6 milhões de dólares. Seguiram-se os veículos, com 115,1 milhões; as máquinas e os aparelhos mecânicos, com 69,3 milhões; os cereais, com 66,3 milhões; e os equipamentos elétricos, com 51,8 milhões. Em conjunto, estas cinco categorias atingiram 512,2 milhões de dólares e representaram cerca de 52% das importações.</p>
<p>A Indonésia foi o principal fornecedor de Timor-Leste, com mercadorias no valor de 323,9 milhões de dólares, aproximadamente um terço do total. Seguiram-se a China, com 156,8 milhões, e Taiwan, com cerca de 116 milhões.</p>
<p><strong>O que vende o país?</strong></p>
<p>Depois do petróleo, o café continua a ser, de longe, o produto mais importante vendido por Timor-Leste ao exterior.</p>
<p>O relatório do INETL coloca as exportações de café de 2025 em cerca de 36 milhões de dólares, mais do dobro dos 17,7 milhões registados em 2024. O café gerou perto de 90% das receitas das exportações nacionais não petrolíferas. Todos os restantes bens não petrolíferos produzidos no país renderam, em conjunto, cerca de 5 milhões de dólares.</p>
<p>Esta concentração representa um risco. O Banco Mundial alerta que a dependência do café deixa as receitas das exportações muito expostas às oscilações dos preços internacionais e às condições meteorológicas. Uma descida do preço ou uma má colheita pode reduzir rapidamente as receitas do país, sem que existam outros produtos capazes de compensar essa perda.</p>
<p>As exportações de produtos manufaturados continuam a ser insignificantes. As receitas do turismo, apesar do crescimento, permanecem muito aquém do valor das importações. As remessas dos emigrantes e a ajuda externa compensam parcialmente o desequilíbrio, mas não são suficientes para o eliminar.</p>
<p>O efeito das exportações petrolíferas registadas em 2025 também não altera o problema estrutural. A produção do campo de Bayu-Undan terminou e o país enfrenta agora uma transição económica pós-petróleo.</p>
<p><strong>Porque é que o desequilíbrio persiste?</strong></p>
<p>O Banco Mundial descreve um ciclo económico difícil de quebrar. A elevada despesa pública, financiada por levantamentos do Fundo Petrolífero, estimula o consumo e a procura interna.</p>
<p>Como Timor-Leste produz poucos dos bens de que necessita, uma parte significativa desse dinheiro sai novamente do país através das importações. As importações aumentam o défice externo e os levantamentos do Fundo Petrolífero permitem que a despesa se mantenha.</p>
<p>A capacidade de exportação é, simultaneamente, limitada pelos elevados custos dos transportes, da energia e da logística, pelo acesso reduzido ao financiamento, pela pequena dimensão das empresas e pela dificuldade em cumprir normas internacionais.</p>
<p>A valorização do dólar, moeda utilizada por Timor-Leste, também torna os produtos e os serviços timorenses mais caros para os compradores estrangeiros.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-23154" src="https://www.diligenteonline.com/wp-content/uploads/2026/08/desequilibrio-economica-Timor.png" alt="" width="1600" height="900" srcset="https://www.diligenteonline.com/wp-content/uploads/2026/08/desequilibrio-economica-Timor.png 1600w, https://www.diligenteonline.com/wp-content/uploads/2026/08/desequilibrio-economica-Timor-516x290.png 516w, https://www.diligenteonline.com/wp-content/uploads/2026/08/desequilibrio-economica-Timor-900x506.png 900w, https://www.diligenteonline.com/wp-content/uploads/2026/08/desequilibrio-economica-Timor-768x432.png 768w, https://www.diligenteonline.com/wp-content/uploads/2026/08/desequilibrio-economica-Timor-1536x864.png 1536w" sizes="auto, (max-width: 1600px) 100vw, 1600px" /></p>
<p><strong>O desafio da entrada na ASEAN</strong></p>
<p>A adesão à ASEAN dá a Timor-Leste acesso formal a um mercado de cerca de 680 milhões de consumidores. Contudo, o Banco Mundial salienta que os benefícios não resultarão automaticamente da adesão. Dependerão da capacidade das empresas timorenses para produzir em quantidade suficiente, manter uma qualidade constante e competir em preço e fiabilidade.</p>
<p>Entre os principais obstáculos encontram-se o acesso limitado ao financiamento, os elevados custos comerciais e logísticos e a insuficiência de laboratórios acreditados, serviços de inspeção e sistemas de certificação reconhecidos internacionalmente.</p>
<p>O Banco Mundial defende também procedimentos alfandegários mais eficientes, maior utilização do processamento antecipado das mercadorias e o desenvolvimento do comércio sem papel, com documentos e informações transmitidos eletronicamente.</p>
<p>Na pesca e noutros setores de produtos perecíveis, o cumprimento das normas sanitárias e de qualidade e o investimento em armazenamento, transportes e cadeia de frio serão essenciais para aumentar as exportações.</p>
<p>A integração regional pode, inclusivamente, aumentar o desequilíbrio comercial no curto prazo. A redução dos custos de importação pode fazer crescer as compras ao exterior antes de as empresas timorenses adquirirem capacidade para exportar mais.</p>
<p>A ASEAN oferece a Timor-Leste um mercado maior e um quadro de reformas. No entanto, não substitui a criação de uma base produtiva interna. Sem empresas capazes de produzir, certificar, transportar e vender produtos competitivos, o país continuará a importar muito mais do que exporta.</p>
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		<title>Entre a prudência e a desconfiança: quando a suspeita se torna um hábito</title>
		<link>https://www.diligenteonline.com/entre-a-prudencia-e-a-desconfianca-quando-a-suspeita-se-torna-um-habito/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Lourdes do Rego]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 23 Jul 2026 13:46:34 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Destaque]]></category>
		<category><![CDATA[Factos e Análise]]></category>
		<category><![CDATA[Para Compreender]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Na sua opinião, a maioria das pessoas pode ser confiável ou é preciso ter muito cuidado com elas? Há décadas que esta é uma das perguntas feitas a pessoas de dezenas de países no âmbito do World Values Survey (WVS), [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p>Na sua opinião, a maioria das pessoas pode ser confiável ou é preciso ter muito cuidado com elas? Há décadas que esta é uma das perguntas feitas a pessoas de dezenas de países no âmbito do <em>World Values Survey </em>(WVS), um dos maiores estudos internacionais sobre valores e atitudes.</p>
<p>As respostas revelam muito mais do que uma opinião sobre os outros. Elas ajudam a compreender até que ponto uma sociedade acredita que vale a pena cooperar, participar na vida comunitária e confiar em pessoas para além da família e dos amigos. Quando essa expectativa enfraquece, cresce a tendência para olhar os outros como potenciais ameaças, esperando oportunismo, desonestidade ou prejuízo.</p>
<p>Estudos baseados no WVS mostram que sociedades onde predomina a desconfiança interpessoal tendem a confiar menos nas instituições públicas, a percecionar níveis mais elevados de corrupção, a desconfiar de pessoas que não pertencem ao seu grupo, a participar menos em organizações comunitárias e a encontrar maiores dificuldades para construir redes de colaboração. Nesses contextos, é frequente que a proteção individual seja mais valorizada do que a abertura a pessoas ou grupos diferentes.</p>
<p>Este modo de olhar para o mundo manifesta-se nos pequenos gestos do quotidiano. Alguém oferece ajuda e procura-se imediatamente um interesse escondido. Uma pessoa faz um elogio e suspeita-se de que não é sincero. Escondem-se as conquistas com receio de despertar a inveja alheia. Um colega consegue uma promoção no trabalho e logo surgem boatos sobre favores ou benefícios ocultos. Quem tem hábitos diferentes é visto com reservas, como se a diferença fosse, por si só, uma ameaça. Um estrangeiro é recebido com desconfiança. Há uma sensação constante de que estamos a ser prejudicados. Iniciativas comunitárias e projetos inovadores acabam porque as pessoas passaram a desconfiar, a acusar e a competir umas com as outras.</p>
<p>Em vez de conhecermos as pessoas pelo que fazem, passamos a julgá-las pelo que imaginamos que pretendem fazer.</p>
<p><strong>Um olhar sobre a desconfiança social em Timor-Leste</strong></p>
<p>Entre fevereiro e maio de 2026, realizei um inquérito com 120 pessoas, com idades entre os 20 e os 45 anos (70 homens e 50 mulheres). Todos os participantes eram residentes em Díli e responderam voluntariamente.</p>
<p>A pergunta inicial inspirou-se no inquérito do WVS: “Na sua opinião, a maioria das pessoas é confiável ou é preciso ter muito cuidado com elas?” Entre os participantes, 109 responderam que é preciso ter muito cuidado, por considerarem que, em Timor-Leste, não se pode confiar em toda a gente.</p>
<p>O inquérito incluía ainda um segundo bloco, mais alargado, de questões sobre a confiança social e institucional, no qual os participantes podiam também acrescentar comentários. Entre as respostas: 103 afirmaram percecionar a existência de corrupção na administração pública; 97 consideraram a polícia violenta; 93 disseram que o governo é ineficiente; 78 afirmaram que os estrangeiros procuram sobretudo vantagens económicas; e 110 acreditam que as pessoas, em geral, tendem a agir em benefício próprio.</p>
<p>Os familiares surgem, num primeiro momento, como o grupo em que mais se confia. Ainda assim, 59 participantes afirmaram que nem mesmo nos parentes próximos é possível confiar totalmente.</p>
<p>Depois deste conjunto de questões, foi-lhes perguntado se consideravam que eles próprios eram pessoas confiáveis. Todos os 120 participantes consideraram-se pessoas confiáveis.</p>
<p>Esta última resposta revela uma assimetria entre a perceção dos outros e a autoavaliação individual: a tendência para desconfiar dos outros, enquanto se mantém uma autoimagem positiva.</p>
<p>Ainda que estes dados ofereçam indícios interessantes sobre os padrões de confiança interpessoal, os resultados devem ser interpretados com cuidado. A amostra é limitada e o inquérito tem um carácter exploratório, não permitindo tirar conclusões sobre a população em geral. Além disso, o inquérito não mede se as pessoas são efetivamente confiáveis, mas sim a forma como são percecionadas pelos participantes.</p>
<p><strong>Aprendemos a desconfiar</strong></p>
<p>Ninguém aprende a olhar para o outro de forma desconfiada por acaso. Somos influenciados pelas experiências que acumulamos ao longo da vida.</p>
<p>Quem cresceu em ambientes onde predominavam a negligência, a agressividade, a punição física, a humilhação, o autoritarismo, o abandono ou relações marcadas pela manipulação e pela imprevisibilidade aprende desde cedo que confiar pode ser perigoso.</p>
<p>Nada disto determina o futuro de uma pessoa. Muitos atravessam essas experiências sem desenvolver uma visão desconfiada do mundo. Mas elas podem levar-nos a confundir prudência com uma expectativa permanente de má-fé.</p>
<p>Quando muitas pessoas passam a esperar intenções negativas umas das outras, cria-se um ambiente social de desconfiança, onde a suspeita deixa de ser uma reação a uma situação concreta e passa a ser um padrão pelo qual se interpreta o mundo.</p>
<p>Basta que algumas experiências de traição se transformem em histórias repetidas nas famílias, nas comunidades ou nas redes sociais para que pessoas que nunca foram diretamente lesadas passem igualmente a esperar o pior dos outros.</p>
<p>A suspeita viaja mais depressa do que a confiança, porque o medo é um poderoso transmissor de crenças.</p>
<p>Existe ainda um fenómeno menos evidente. A desconfiança constante tende a criar distância nas relações e produzir aquilo que espera encontrar. Quem acredita antecipadamente que será enganado aproxima-se dos outros com reservas, evita expor demasiado de si próprio, observa cuidadosamente cada mudança de comportamento e interpreta frequentemente as ambiguidades como sinais de perigo.</p>
<p>Se as experiências individuais influenciam a forma como cada pessoa aprende a confiar, também a história pode moldar a forma como as sociedades se veem a si próprias e umas às outras.</p>
<p><strong>Quando a história ensina a desconfiar</strong></p>
<p>Há memórias que não pertencem apenas aos indivíduos. Pertencem também às sociedades. Séculos de ocupação, violência e conflitos deixam marcas que atravessam gerações.</p>
<p>Um povo aprende a sobreviver e, muitas vezes, transmite aos seus filhos não apenas a sua história, mas também as formas de olhar para o mundo que essa história ajudou a produzir.</p>
<p>A desconfiança deixa de pertencer apenas ao domínio da moralidade e passa a ser um instrumento de sobrevivência.</p>
<p>Ao longo da sua história, a ilha de Timor viveu ocupações estrangeiras, guerras entre os diferentes reinos, alianças e traições, bem como tensões entre <em>topasses</em> e <em>liurais</em>. No século XX, a parte leste da ilha conheceu ainda a atuação das <em>colunas negras</em> durante a ocupação japonesa na década de 1940, a colaboração de setores da sociedade com governos estrangeiros, a guerra civil de 1975, conflitos internos na resistência à Indonésia e a violência das milícias pró-integração.</p>
<p>Estes episódios dividiram famílias e deram origem a massacres, torturas, abusos e delações, por vezes praticados pelos próprios vizinhos e amigos. Mesmo após a restauração da independência, persistiram momentos de tensão entre instituições do Estado, partidos políticos, a Igreja e forças de segurança.</p>
<p>A transformação de Timor-Leste em Estado-nação é recente. Durante grande parte da história, a organização social esteve ligada às <em>lisan</em>, aos <em>liurais, aos lia na’in, </em>às <em>uma lulik</em>, às redes de parentesco e às dinâmicas das comunidades locais, com as suas próprias formas de autoridade, territorialidade e memória.</p>
<p>A construção da ideia de um Timor-Leste unificado resulta da combinação de diferentes experiências históricas, visões de mundo, ideologias, memórias silenciadas e projetos de poder que continuam em disputa pela narrativa oficial.</p>
<p>Estes são apenas alguns fatores e não explicam tudo. A relação entre sociedades marcadas por conflitos e a desconfiança social não é linear e pode assumir diferentes níveis de intensidade.</p>
<p>Tal como o processo histórico é complexo, também as causas da desconfiança são diversas, dinâmicas e interligadas. Experiências semelhantes não têm necessariamente as mesmas consequências.</p>
<p>Conhecer as influências do passado ajuda-nos a compreender o presente. Mas é a forma como respondemos a essas heranças que nos permite construir o futuro.</p>
<p><strong>Algumas consequências da desconfiança</strong></p>
<p>Com o tempo, estas formas de interpretar o comportamento dos outros podem tornar-se padrões relativamente estáveis de leitura social, reforçados, por exemplo, pela sensação de instabilidade, desemprego e impotência, pela perceção de que a lei nem sempre é aplicada de forma igual para todos e por condições materiais que limitam a qualidade de vida.</p>
<p>Quando essa forma de interpretação se generaliza, os efeitos podem ser sentidos tanto nos projetos coletivos como nas relações pessoais.</p>
<p>Este tipo de organização social, marcado por níveis elevados de desconfiança, pode também abrir espaço a formas de liderança mais centradas no controlo e na demonstração de força, onde a obediência surge menos do respeito do que do receio da punição. A cooperação, por outro lado, deixa de ser apenas uma escolha e passa a depender da vigilância externa.</p>
<p>Nestes contextos, pode observar-se uma tendência para a formação de grupos assentes em relações de lealdade pessoal, mais do que na partilha de ideias ou de projetos comuns. Do mesmo modo, a expressão de opiniões divergentes pode ser desencorajada por receio de exclusão ou de ser visto como desleal, inimigo ou traidor.</p>
<p>Ainda assim, esta perceção de desconfiança não significa ausência total de confiança. A confiança não desaparece; transforma-se, reorganiza-se, segue outros caminhos, opera em tempos mais longos e obedece a códigos próprios. Ao mesmo tempo, as relações podem permanecer amistosas e cordiais na superfície, com sorrisos e cumprimentos de cortesia, sem que isso implique abertura ou intimidade.</p>
<p>Confiar, no entanto, não é o mesmo que ser ingénuo ou agir sem critério. Entre a desconfiança generalizada e a confiança cega, há um espaço amplo e mais equilibrado a construir.</p>
<p>Talvez aqui caiba o questionamento: a quem interessa uma sociedade desconfiada? Que sociedade queremos deixar às próximas gerações? E o que cada um de nós está a fazer, neste momento, para construir esse futuro?</p>
<p><span style="color: #808080;"><em>Alessandro Boarccaech, psicólogo com especialização em psicologia clínica e da saúde, psicoterapeuta e PhD em antropologia. Professor universitário, coordenador do Centro de Pesquisa em Cultura e Sociedade e editor da revista académica Diálogos da UNTL. Autor de diversos livros e artigos científicos entre os quais Os eleitos do cárcere; A diferença entre os iguais; Dicionário Hresuk-Português; Conhecimento local, curandeiros e Psicologia: causas, sintomas e tratamentos dos transtornos mentais em Timor-Leste.</em></span></p>
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		<title>Porque é que a escolaridade importa para o futuro de Timor-Leste na ASEAN?</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Antónia Martins]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 13 Jul 2026 11:27:54 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Destaque]]></category>
		<category><![CDATA[Timor em Perspetiva]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Entre os onze membros da ASEAN, apenas o Camboja e o Laos apresentam uma população adulta com menos anos médios de escolaridade do que Timor-Leste. Segundo o Human Development Report 2025 do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p>Entre os onze membros da ASEAN, apenas o Camboja e o Laos apresentam uma população adulta com menos anos médios de escolaridade do que Timor-Leste.</p>
<p>Segundo o <em>Human Development Report 2025</em> do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), baseado em dados de 2023, os timorenses com 25 ou mais anos completaram, em média, 6,2 anos de escolaridade. O Camboja regista 5,2 anos e o Laos 6,1. No extremo oposto, encontra-se Singapura, com 12,0 anos, seguida da Malásia (11,1 anos).</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-22857 aligncenter" src="https://www.diligenteonline.com/wp-content/uploads/2026/07/anos-medio-de-escolaridade.png" alt="" width="888" height="363" srcset="https://www.diligenteonline.com/wp-content/uploads/2026/07/anos-medio-de-escolaridade.png 888w, https://www.diligenteonline.com/wp-content/uploads/2026/07/anos-medio-de-escolaridade-516x211.png 516w, https://www.diligenteonline.com/wp-content/uploads/2026/07/anos-medio-de-escolaridade-768x314.png 768w" sizes="auto, (max-width: 888px) 100vw, 888px" /></p>
<p><strong>O que mede este indicador?</strong></p>
<p>Os anos médios de escolaridade correspondem ao número médio de anos de ensino formal concluídos pela população com 25 ou mais anos.</p>
<p>O indicador integra o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) do PNUD e constitui uma das medidas internacionais utilizadas para avaliar o capital humano de um país.</p>
<p>Contudo, não mede a qualidade do ensino nem descreve a realidade atual das crianças e dos jovens que frequentam a escola. Reflete a escolaridade acumulada de toda a população adulta, incluindo gerações que cresceram antes da independência e durante os períodos de conflito. Por essa razão, trata-se de um indicador que evolui lentamente ao longo do tempo.</p>
<p><strong>Porque é importante?</strong></p>
<p>O capital humano engloba a educação, a saúde, as competências e a capacidade produtiva da população.</p>
<p>Segundo o Banco Mundial, o desenvolvimento do capital humano é um dos principais fatores de crescimento económico e de criação de emprego. A instituição estima que cerca de dois terços das diferenças de rendimento entre países desenvolvidos e em desenvolvimento possam ser explicadas por diferenças no capital humano.</p>
<p>Uma população mais qualificada tende a ser mais produtiva, a adaptar-se mais facilmente à inovação e a gerar rendimentos mais elevados. O Banco Mundial refere ainda que cada ano adicional de escolaridade pode aumentar, em média, os rendimentos individuais em cerca de 9% a 10%, embora esse retorno varie entre países e níveis de ensino.</p>
<p>À medida que Timor-Leste aprofunda a integração económica na ASEAN, a qualificação da população poderá assumir um papel cada vez mais importante na atração de investimento, no aumento da produtividade e na competitividade da economia.</p>
<p><strong>O desafio para Timor-Leste</strong></p>
<p>Para o Banco Mundial, o reforço do capital humano deverá estar entre as prioridades estratégicas de Timor-Leste.</p>
<p>A instituição defende que o país poderá desenvolver plenamente o potencial da sua população através de investimentos consistentes na educação, na saúde e no desenvolvimento de competências. Num dos seus relatórios mais recentes, identifica o capital humano como uma das três prioridades de investimento para o país, juntamente com as infraestruturas e o aumento da produtividade agrícola.</p>
<p>O Banco Mundial observa ainda que a despesa pública em capital humano — nomeadamente em educação, saúde e formação — tem permanecido abaixo do investimento realizado em infraestruturas físicas.</p>
<p>Num contexto de maior integração regional, o reforço do capital humano poderá ser um fator determinante para que Timor-Leste aproveite plenamente as oportunidades oferecidas pela ASEAN e aumente a produtividade e a competitividade da sua economia nas próximas décadas.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-22858" src="https://www.diligenteonline.com/wp-content/uploads/2026/07/escolaridade.png" alt="" width="850" height="178" srcset="https://www.diligenteonline.com/wp-content/uploads/2026/07/escolaridade.png 850w, https://www.diligenteonline.com/wp-content/uploads/2026/07/escolaridade-516x108.png 516w, https://www.diligenteonline.com/wp-content/uploads/2026/07/escolaridade-768x161.png 768w" sizes="auto, (max-width: 850px) 100vw, 850px" /></p>
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		<title>Literacia e a expressão escrita do pensamento crítico: desafios da educação em Timor-Leste</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Rilijanto Viana]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 15 Jun 2026 12:14:09 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Destaque]]></category>
		<category><![CDATA[Factos e Análise]]></category>
		<category><![CDATA[Para Compreender]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Imagine a seguinte cena: um professor do ensino secundário pede aos alunos que interpretem as ideias de um autor. A análise deve ser entregue por escrito. As respostas aparecem com frases incompletas, erros ortográficos, ausência de pontuação e vocabulário reduzido. [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p>Imagine a seguinte cena: um professor do ensino secundário pede aos alunos que interpretem as ideias de um autor. A análise deve ser entregue por escrito. As respostas aparecem com frases incompletas, erros ortográficos, ausência de pontuação e vocabulário reduzido. Muitas respostas limitam-se a repetir as palavras do autor ou a explicação do professor, recorrendo a argumentações circulares ou desconectadas do tema.</p>
<p>Esta não é uma situação aleatória. Pode ser observada nas salas de aula de todo o país. Muitos alunos enfrentam dificuldades em escrever de acordo com as normas da gramática padrão e em transformar a compreensão de conceitos e das relações entre ideias em argumentos escritos claros e coerentes.</p>
<p>Frequentemente, estes problemas são reduzidos a explicações que atribuem a responsabilidade às fragilidades da língua de instrução ou às capacidades dos alunos. No entanto, estes argumentos são insuficientes. É necessário olhar também para as lacunas do processo pedagógico, bem como para o modo como a literacia é ensinada e praticada.</p>
<p>Para compreendermos esta dinâmica, é importante perceber que, ao contrário da linguagem oral, que tende a ser adquirida naturalmente através da interação social, a escrita é uma tecnologia cultural que não surge espontaneamente. Exige ensino, aprendizagem e prática continuada. Mais do que um conjunto de regras gramaticais, é uma ferramenta que permite organizar ideias, relacionar conceitos e construir argumentos.</p>
<p><strong>Linguagem, língua e contexto</strong></p>
<p>Quando observamos um estudante a escrever, não está em causa apenas a língua que ele utiliza. Estão também presentes capacidades cognitivas, condições sociais e estados afetivos que influenciam a forma como pensa e comunica. Por isso, convém distinguir três conceitos: linguagem, língua e contexto.</p>
<p>A linguagem é a capacidade humana geral de produzir e interpretar signos (palavras, gestos, imagens, entre outros) para expressar pensamentos, emoções, intenções e conhecimentos. Esta faculdade permite construir significados, organizar a experiência e comunicar com os outros.</p>
<p>A língua é a realização concreta dessa capacidade: um sistema de signos partilhado e organizado por uma comunidade. O tétum, o português, o indonésio e o inglês são exemplos das diferentes manifestações da linguagem.</p>
<p>O contexto refere-se ao conjunto de circunstâncias linguísticas, sociais, afetivas, culturais e históricas em que uma mensagem é produzida e interpretada. O significado não depende apenas das palavras utilizadas, mas também das condições em que esta mensagem é produzida, dos interlocutores envolvidos e dos conhecimentos partilhados. O contexto não é um elemento externo à linguagem, mas parte constitutiva da produção de significado.</p>
<p>Esta interação ajuda-nos a compreender que as dificuldades na leitura, na escrita e na argumentação não dependem apenas da língua e das capacidades individuais dos alunos, mas também dos contextos em que a aprendizagem ocorre, incluindo a forma como a escrita é ensinada, praticada e avaliada na escola.</p>
<p><strong>A capacidade expressiva das línguas</strong></p>
<p>Compreendida esta distinção, importa perceber de que forma ela se relaciona com a capacidade expressiva das línguas e com o pensamento crítico, isto é, a competência para analisar e avaliar evidências, questionar pressupostos, relacionar conceitos e formular interpretações próprias de forma organizada e fundamentada.</p>
<p>Estudos em Linguística, Filosofia da Linguagem e Ciências Cognitivas têm demonstrado que todas as línguas são capazes de expressar qualquer conteúdo concetual de forma comunicável, embora o façam com diferentes graus de economia lexical, precisão e convenções discursivas.</p>
<p>Algumas línguas desenvolveram, em determinados contextos históricos e culturais, vocabulários mais especializados em certas áreas, permitindo condensar em poucas palavras aquilo que noutras línguas exigiria uma descrição mais longa. A diferença está menos na possibilidade de expressão e mais na facilidade, precisão ou variedade de significados disponíveis em cada sistema linguístico.</p>
<p>Quando uma língua não dispõe de um termo específico para determinado conceito, os seus falantes recorrem a descrições, metáforas, empréstimos linguísticos ou neologismos. Este processo de incorporação e transformação não é exclusivo de nenhuma língua em particular.</p>
<p>O alfabeto português, para citar um exemplo próximo a nós, resulta de uma longa evolução histórica: remonta ao alfabeto fenício, passando pelo grego e pelo etrusco, antes de ser adotado e adaptado pelos romanos para a escrita do latim. Ao longo da sua história, o latim interagiu com outras línguas indo-europeias; o português distanciou-se do galego e incorporou influências do árabe, bem como de línguas bantas em África e de línguas indígenas na América do Sul, entre outras.</p>
<p>As línguas não são sistemas fixos ou autónomos, mas estruturas dinâmicas que se desenvolvem através do contacto, da adaptação e da criação contínua de novos recursos expressivos.</p>
<p>As investigações atuais sugerem que as línguas podem influenciar certas formas de categorização e expressão da experiência. Contudo, não existem evidências consistentes de que limitem o pensamento ou impeçam a comunicação de ideias complexas.</p>
<p>O contexto, no entanto, pode limitar o acesso ao conhecimento e influenciar as condições em que este é produzido, compreendido, utilizado e transmitido.</p>
<p>A partir desta perspetiva, compreender os desafios da literacia exige olhar para além da língua e das capacidades individuais. Devemos estar atentos às condições socioeconómicas, às relações de poder, aos valores culturais e às práticas pedagógicas que moldam o acesso desigual ao conhecimento.</p>
<p><strong>Contexto socioeconómico</strong></p>
<p>Se o contexto influencia a forma como o conhecimento é produzido e transmitido, importa então olhar para as condições em que muitos estudantes vivem e aprendem.</p>
<p>Quando observamos os índices socioeconómicos, percebemos que, desde 2012, o salário mínimo permanece em 115 dólares norte-americanos. Apenas 30% da população em idade ativa está empregada no setor formal. Quase metade, 42%, vive em condições de vulnerabilidade social, enquanto 22% enfrentam níveis elevados de insegurança alimentar. Além disso, 25% das mulheres entre os 15 e os 49 anos sofrem de anemia. Entre as crianças, aproximadamente 52.000 estão envolvidas em trabalho infantil, incluindo cerca de 29.000 que realizam trabalhos perigosos, e 47% das crianças com menos de cinco anos apresentam atraso no crescimento (dados do PNUD &amp; OPHI, 2022; UNICEF, 2024; Programa Alimentar Mundial, 2023).</p>
<p>Estes indicadores não descrevem problemas isolados, mas um padrão sistémico de fragilidade socioeconómica. Como consequência, criam-se mecanismos que tendem a favorecer a reprodução intergeracional de vulnerabilidades. A carência material não é apenas uma condição momentânea, mas um horizonte concreto que condiciona escolhas, capacidades e oportunidades.</p>
<p>Em muitas escolas, estas vulnerabilidades coexistem com desafios crónicos que incluem salas de aula sobrelotadas, professores sem a adequada preparação, infraestruturas insuficientes, falta de manutenção e escassez de materiais pedagógicos. Muitos estudantes percorrem diariamente longas distâncias a pé até à escola, o que aumenta o desgaste físico e reduz o tempo disponível para estudar e descansar.</p>
<p><strong>Pedagogia, poder e pensamento crítico</strong></p>
<p>Considere agora esta situação: o professor pede aos alunos que analisem um aspeto do contexto social timorense. Um dos alunos escreve uma crítica ao sistema político partidário, ou aos métodos pedagógicos nas escolas, ou ao atual sistema de barlaque, ou às crenças religiosas. O professor, após ler a resposta, diz que este aluno não respeita a cultura, quer causar confusão, que é irresponsável e fala sem ter conhecimento.</p>
<p>As práticas pedagógicas e as relações de poder influenciam não apenas o que os estudantes aprendem, mas também a forma como se relacionam com o conhecimento, a autoridade e o questionamento.</p>
<p>Num inquérito que realizei sobre a severidade no ensino secundário em Timor-Leste, entrevistei 215 pessoas com idades entre 20 e 25 anos. Os resultados mostraram que 94,4% dos participantes afirmaram já ter sido castigados fisicamente por professores; 80,4% concordavam que os professores podiam recorrer a castigos físicos; e 61,3% tinham a perceção de que os pais concordavam com essa prática. Além disso, 68,8% dos participantes afirmaram que, no futuro, se fossem professores, também recorreriam a castigos físicos como forma de educação.</p>
<p>Numa outra investigação publicada em 2025 sobre as práticas de leitura em Timor-Leste, entrevistei 2437 estudantes do primeiro ano de cinco cursos de licenciatura. Desses, apenas 13 afirmaram ter lido um livro ao longo de todo o ensino primário e secundário. Posteriormente, repeti o inquérito com 420 destes estudantes que já estavam no último ano da licenciatura. Destes, apenas 27 afirmaram ter lido um livro durante o curso, dos quais oito já tinham respondido afirmativamente no primeiro inquérito.</p>
<p>Em Timor-Leste, o processo de ensino-aprendizagem ainda assenta, na prática, numa orientação marcada pela transmissão unidirecional de conteúdos, pelo castigo como instrumento disciplinar e pela memorização mecânica. Esta abordagem tende a privilegiar a acumulação de informação descontextualizada em detrimento do pensamento crítico, da reflexão autónoma e da capacidade de problematizar o contexto social.</p>
<p><strong>A literacia é mais do que frequentar a escola</strong></p>
<p>A alfabetização e a capacidade expressiva de uma língua não devem ser confundidas com o acesso dos seus falantes a práticas de leitura, escrita e produção de conhecimento – e esse acesso depende de condições que vão muito além da sala de aula.</p>
<p>Os problemas da educação devem ser compreendidos no quadro de fatores mais amplos que, para além do que já foi mencionado, incluem também as conceções dominantes de cultura e pedagogia e as dinâmicas sociais que favorecem a conformidade em detrimento do questionamento.</p>
<p>Investir numa educação de qualidade exige não apenas a melhoria das infraestruturas e da formação docente, mas também transformações nas condições de vida da população. A qualidade da educação não pode ser dissociada do contexto histórico, social e material em que se desenvolve.</p>
<p>O pensamento crítico não se ensina apenas através de conteúdos curriculares: desenvolve-se quando os estudantes têm condições materiais para aprender, oportunidades para ler e escrever, e liberdade para questionar e argumentar sem receio de represálias.</p>
<p>Enquanto persistirem as fragilidades socioeconómicas e de infraestrutura, práticas pedagógicas punitivas e burocráticas, a resistência à diferença e as relações de poder que limitam a expressão e a autonomia de pensamento, a escola – e incluo a universidade – continuará a enfrentar dificuldades para se afirmar como um espaço efetivo de desenvolvimento do pensamento crítico.</p>
<p><strong><span style="color: #808080;"><em>Alessandro Boarccaech, psicólogo, semiótico e antropólogo, com especialização em psicologia clínica e da saúde, psicoterapeuta e PhD em antropologia. Professor universitário, coordenador do Centro de Pesquisa em Cultura e Sociedade e editor da revista académica Diálogos da UNTL. Autor de diversos livros e artigos científicos entre os quais Os eleitos do cárcere; A diferença entre os iguais; Dicionário Hresuk-Português; Conhecimento local, curandeiros e Psicologia: causas, sintomas e tratamentos dos transtornos mentais em Timor-Leste.</em></span></strong></p>
<p>O conteúdo <a href="https://www.diligenteonline.com/literacia-e-a-expressao-escrita-do-pensamento-critico-desafios-da-educacao-em-timor-leste/">Literacia e a expressão escrita do pensamento crítico: desafios da educação em Timor-Leste</a> aparece primeiro em <a href="https://www.diligenteonline.com">DILIGENTE</a>.</p>
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		<item>
		<title>Manual de como vencer uma eleição – e por que isso deveria preocupar-nos</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Antónia Martins]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 13 May 2026 10:32:28 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Destaque]]></category>
		<category><![CDATA[Factos e Análise]]></category>
		<category><![CDATA[Para Compreender]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Para vencer uma eleição não bastam boas propostas. É preciso convencer, e para isso existem métodos. Se pretende candidatar-se a algum cargo eletivo – desde chefe de suco a presidente da República – a primeira regra é simples: não tenha [&#8230;]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>Para vencer uma eleição não bastam boas propostas. É preciso convencer, e para isso existem métodos.</p>
<p>Se pretende candidatar-se a algum cargo eletivo – desde chefe de suco a presidente da República – a primeira regra é simples: não tenha pressa. Não anuncie a candidatura cedo demais. Pelo contrário, negue-a. Diga que ainda não pensou nisso, ou que esta decisão não depende de si.</p>
<p>Aproximadamente um ano antes das eleições, comece a aparecer. Nos meios de comunicação, em cerimónias públicas, visite sucos e aldeias, fale com as pessoas na rua e garanta que tudo seja registado. Não como candidato, mas como cidadão preocupado. Alguém que observa, que escuta, que se indigna com o estado das coisas.</p>
<p>Quando o nome já circular naturalmente, anuncie, mas não como ambição. Apresente a candidatura como um sacrifício. O povo pediu. A situação exige. E você, relutantemente, aceitou a missão.</p>
<p>Em alternativa, lance primeiro outro nome para testar reações, medir o terreno e desgastar os adversários. Quando chegar a hora, apresente-se como a solução que faltava.</p>
<p>Vivemos tempos em que a pós-verdade, a sobrecarga de conteúdo e a deterioração do pensamento crítico (<em>brain rot</em>) – causada pelo consumo repetido de material pouco estimulante na internet – condicionam a maneira como pensamos e tornam as opiniões mais importantes do que os factos. Não é uma falha do sistema. É, para muitos, o próprio sistema a funcionar.</p>
<p>Quem controla o discurso público está em vantagem – independentemente do currículo, da experiência e até da competência. Esse controlo passa pelos meios de comunicação: rádio, televisão, imprensa escrita e, sobretudo, algoritmos e <em>feeds</em>.</p>
<p>Para ajudar os futuros candidatos, segue um pequeno manual de como vencer eleições. São 22 estratégias comuns em campanhas políticas. Não existe uma ordem obrigatória. Mas quanto mais destas estratégias usar, maiores serão as suas hipóteses de vitória.</p>
<p><strong>Como moldar a perceção do eleitor</strong></p>
<p><strong>Apelo às emoções</strong>: campanhas eficazes começam por sentimentos, não por argumentos. Estimule o medo, a raiva, a esperança, a indignação. Emoções encurtam o caminho entre a mensagem e a decisão, deixando pouco espaço para análise. Mais do que substituir a razão, as emoções moldam a forma como o eleitor interpreta os factos.</p>
<p><strong>Urgência permanente</strong>: tudo é crise, tudo é decisivo, tudo tem de ser resolvido agora. Quando o eleitor vive em estado de alerta permanente, não tem tempo para comparar, verificar ou duvidar. E é exatamente aí que o candidato se apresenta como a única saída possível. A urgência não precisa de ser real. Precisa apenas de parecer inevitável.</p>
<p><strong>Repetição e familiaridade</strong>: uma afirmação dita muitas vezes ganha aparência de verdade, e o efeito é ainda mais forte quando o tema é difícil de verificar. Quanto menos o eleitor consegue confirmar por si próprio, mais depende do que ouviu com maior frequência. A repetição não funciona pela qualidade do argumento. Funciona porque o cérebro confunde familiaridade com verdade.</p>
<p><strong>Saturação informativa</strong>: inunde o espaço público com discursos, vídeos, declarações e polémicas. O objetivo não é informar, mas esgotar. Quando há demasiado para acompanhar, o eleitor desiste de comparar e verificar, e aceita a versão que lhe exige menor esforço. A confusão, neste contexto, não é um efeito secundário. É o produto final.</p>
<p><strong>Simplificação excessiva</strong>: perante questões complexas – economia, saúde, educação etc. – não tente explicar. Fale pouco, prometa muito e apresente soluções simplistas. Mostre preocupação, reconheça que o assunto é sério e diga que tem uma equipa a trabalhar nisso.</p>
<p><strong>Exploração de vieses cognitivos</strong>: o eleitor não processa informação de forma neutra. E uma boa campanha sabe isso melhor do que ele. Tendemos a valorizar o que confirma o que já acreditamos, a confiar mais na primeira impressão, e a sobrestimar acontecimentos recentes ou marcantes. Uma campanha eficaz não tenta mudar estas tendências, mas entrega o que os eleitores querem ouvir.</p>
<p><strong>Personalização da mensagem</strong>: com dados e algoritmos, campanhas ajustam mensagens a públicos específicos. Diferentes eleitores recebem versões editadas do mesmo candidato, sem saber que estão a ver apenas uma parte da campanha. Não é preciso criar novas opiniões. Basta reforçar as que já existem, com a mensagem certa, para a pessoa certa e no momento certo.</p>
<p><strong>Como construir a narrativa pública </strong></p>
<p><strong>Narrativas pessoais</strong>: um caso concreto, com rosto, nome e emoção, tem um poder que os números raramente alcançam – e cria identificação imediata. Uma família que luta para manter as suas terras, um professor sem recursos, um jovem sem emprego – qualquer pessoa comum pode tornar-se num símbolo da campanha. Os candidatos também podem construir as suas próprias biografias: a infância difícil, os obstáculos superados, as perseguições e tragédias enfrentadas. Estas histórias não precisam de ser falsas – basta escolher o que se conta, o que se exagera e o que se omite.</p>
<p><strong>Força como espetáculo</strong>: a coragem, quando usada como instrumento político, raramente tem a ver com bravura – tem a ver com encenação. Falar alto, não recuar, manter uma postura de confronto permanente não são sinais de liderança sólida. São sinais de que o “eleitor-audiência” responde bem ao espetáculo. As pessoas querem estar do lado vencedor, do mais forte. O candidato que nunca vacila não precisa de ser forte. Precisa de parecer.</p>
<p><strong>Ambiguidade estratégica</strong>: mensagens vagas permitem múltiplas interpretações. E é precisamente essa ambiguidade que as torna eficazes. Um candidato consegue falar para públicos diferentes, cada um entendendo a proposta à sua maneira. A promessa parece clara, mas quando se tenta aprofundar dissolve-se em generalidades. Cada eleitor ouve o que quer ouvir.</p>
<p><strong>Enquadramento e controlo do discurso</strong>: a forma como um tema é apresentado pode ser tão decisiva quanto o seu conteúdo. A mesma medida económica pode ser “corte nos serviços públicos” ou “melhor uso do orçamento”, conforme quem fala e para quem. Pequenas escolhas de palavras destacam certos aspetos, ocultam outros, e determinam o terreno em que o debate acontece. Quem controla a narrativa controla o que as pessoas pensam estar a discutir.</p>
<p><strong>Humor e ironia</strong>: mensagens políticas disfarçadas de humor – memes, piadas, sátiras, cortes engraçados nas redes sociais – circulam com muito menos atrito do que uma declaração direta. O riso desarma a resistência crítica e, enquanto diverte, molda perceções e instala ideias sem que nos apercebamos. E quando alguém tenta contestar, pode sempre dizer-se que não percebeu a piada.</p>
<p><strong>Adaptação do vocabulário ao público</strong>: usar expressões do quotidiano e provérbios locais não é espontaneidade – é preparação. O vocabulário muda conforme a audiência e o lugar: numa aldeia fala-se de uma forma, numa universidade de outra, numa cerimónia tradicional de outra ainda. O eleitor que ouve alguém falar como ele tende a confiar mais nessa pessoa. A proximidade linguística calculada cria a ilusão de proximidade real.</p>
<p><strong>Desacreditar o adversário</strong>: em vez de confrontar propostas com argumentos, ataque a credibilidade do oponente – o seu caráter, as suas intenções, o seu passado. Negue ou ignore as evidências incómodas sobre si próprio. Se alguém acusar – mesmo que tenha provas – diga que é mentira, perseguição, e acuse o acusador de fazer o mesmo ou pior. O objetivo não é provar inocência, mas garantir que a audiência já não sabe em quem acreditar.</p>
<p><strong>Como estruturar e usar o poder político </strong></p>
<p><strong>Construção do “nós” contra “eles”</strong>: dividir o mundo em dois campos opostos é uma das estratégias mais antigas – e continua a funcionar. De um lado, “o povo”; do outro, “as elites”, “os corruptos”, os que nos querem mal. Esta divisão cria pertença, reforça lealdades e transforma qualquer crítica numa forma de traição.</p>
<p><strong>Promessa de novidade e rutura com o sistema</strong>: mesmo quem já é político profissional há muitos anos apresenta-se como novo, como rutura, como alternativa ao sistema. A trajetória passada torna-se irrelevante. Não importa o que não foi feito nas oportunidades que teve, o que conta é a promessa do que ainda não aconteceu. É uma estratégia confortável: o futuro não pode ser verificado.</p>
<p><strong>Autoridade e validação simbólica</strong>: o apoio de figuras reconhecidas – celebridades, especialistas, líderes religiosos e tradicionais – vale mais do que qualquer argumento. O público não avalia o conteúdo da mensagem: transfere para o candidato a confiança e o respeito que já sente por quem fala por ele. Quanto maior a autoridade moral dessa figura aos olhos da comunidade, menos o eleitor sente necessidade de pensar por si próprio. O mesmo princípio aplica-se ao próprio candidato: diplomas, títulos e antigos feitos constroem uma imagem de competência – mesmo que não tenham relação direta com o cargo disputado – que poucos eleitores lembram ou têm tempo para verificar.</p>
<p><strong>Apropriação de valores e identidade cultural</strong>: roupas tradicionais, gestos rituais, referências à <em>Lisan</em> e à fé religiosa enviam uma mensagem ao eleitor antes de qualquer discurso: “sou um de vocês”. Campanhas vitoriosas associam-se a valores consensuais – justiça, fé, tradição – que dificilmente geram oposição. Ao apresentar-se como guardião da cultura e da identidade coletiva, o candidato substitui o debate de ideias pela disputa de quem representa melhor a memória e os costumes do povo.</p>
<p><strong>Alianças de conveniência e neutralização de rivais</strong>: alia-se a partidos e antigos adversários, desde que o objetivo comum seja vencer. Lideranças jovens ou incómodas são afastadas, desqualificadas ou absorvidas para posições de dependência antes de se tornarem uma ameaça. Se necessário, compra-se a lealdade e o silêncio. O resultado é uma estrutura que parece unida em torno de um objetivo comum, mas é apenas mantida por algo mais eficaz: o interesse e o medo.</p>
<p><strong>Controlo da agenda e criação de escândalos</strong>: campanhas bem-sucedidas definem quais temas ocupam o espaço público. Quando necessário, criam-se polémicas e denúncias que desviam a atenção. Esta estratégia também força o adversário a reagir e a explicar-se – retirando-lhe tempo, energia e iniciativa. Quem define o que se discute controla a campanha.</p>
<p><strong>O inimigo permanente</strong>: toda a campanha precisa de um adversário. E um projeto de poder precisa que esse adversário nunca desapareça. Se não há inimigos, crie-os. O alvo pode mudar: hoje é a imprensa, amanhã é um juiz, depois é um grupo político ou religioso. O que não muda é a presença constante de um inimigo. As pessoas unem-se muito mais facilmente contra algo do que a favor de algo.</p>
<p><strong>Clientelismo e uso da máquina do Estado</strong>: quem governa tem uma vantagem sobre os adversários: o acesso ao dinheiro público e à estrutura do Estado. Distribuem-se contratos, entregam-se “presentes”, ampliam-se programas sociais, inauguram-se obras – e não esqueça de registar tudo. O que importa é que, durante a campanha, as pessoas sintam que algo está a mudar e que apoiar o candidato certo pode traduzir-se em vantagens concretas. A diferença para uma política social legítima está no momento, no destinatário e na condição implícita de lealdade.</p>
<p>As campanhas não acontecem de forma aleatória. Por detrás de cada estratégia existe uma estrutura: sistemas eleitorais que favorecem quem já tem poder, regras de financiamento que determinam quem pode competir, e dinheiro que define o alcance da mensagem e a duração da presença pública.</p>
<p>Antes de qualquer discurso ou meme, um candidato precisa de financiadores. E financiadores têm interesses que nem sempre coincidem com os do eleitor comum.</p>
<p>Reconhecer as estratégias é o primeiro passo. O segundo é perceber quem paga por elas – e o que espera ganhar em troca. O resto depende de cada eleitor.</p>
<p>E, talvez, este manual <span style="color: #333333;">possa</span> ajudar-nos a não nos deixarmos enganar. Ou, pelo menos, a fingir que não vimos o truque.</p>
<p><span style="color: #808080;"><em>Alessandro Boarccaech, psicólogo com especialização em psicologia clínica e da saúde, psicoterapeuta e PhD em antropologia. Professor universitário, coordenador do Centro de Pesquisa em Cultura e Sociedade e editor da revista académica Diálogos da UNTL. Autor de diversos livros e artigos científicos entre os quais Os eleitos do cárcere; A diferença entre os iguais; Dicionário Hresuk-Português; Conhecimento local, curandeiros e Psicologia: causas, sintomas e tratamentos dos transtornos mentais em Timor-Leste.</em></span></p>
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		<title>Teoria da Mente: a arte de imaginar o outro</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Rilijanto Viana]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 27 Apr 2026 12:26:59 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Destaque]]></category>
		<category><![CDATA[Factos e Análise]]></category>
		<category><![CDATA[Para Compreender]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Há uma competência que usamos sem pensar, dezenas de vezes por dia: imaginar o que outra pessoa pensa, sente ou sabe. Quando percebemos que um amigo está calado porque está triste, e não aborrecido, quando reconhecemos o sarcasmo num comentário, [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p>Há uma competência que usamos sem pensar, dezenas de vezes por dia: imaginar o que outra pessoa pensa, sente ou sabe. Quando percebemos que um amigo está calado porque está triste, e não aborrecido, quando reconhecemos o sarcasmo num comentário, quando antecipamos que alguém pode não saber o que nós já sabemos, estamos a exercitar aquilo que a psicologia chama de teoria da mente.</p>
<p>A teoria da mente refere-se à capacidade de reconhecer que os outros têm uma vida mental própria – crenças, desejos, intenções, emoções – e que essa vida interior pode ser completamente diferente da nossa.</p>
<p>Antes de continuarmos, vale a pena distinguir três conceitos relacionados, mas distintos. A cognição social designa o conjunto mais amplo de processos que nos permitem interpretar e responder ao comportamento dos outros. Nesse conjunto, a teoria da mente é a capacidade de inferir o que o outro pensa, quer ou sabe – sem que isso implique identificação ou a partilha desses estados. A empatia, por sua vez, acrescenta uma dimensão afetiva: envolve uma resposta emocional ao estado do outro e não apenas o seu reconhecimento.</p>
<p><strong>Uma conquista que começa cedo</strong></p>
<p>A teoria da mente é uma competência que se constrói, progressivamente, ao longo dos primeiros anos de vida. Por volta dos quatro ou cinco anos, a maioria das crianças atinge um marco no seu processo de desenvolvimento: percebem que alguém pode ter uma crença falsa – isto é, acreditar em algo que não é verdade – e que essa crença, mesmo errada, influencia o comportamento dessa pessoa.</p>
<p>Parece simples, mas é uma revolução cognitiva. Antes disso, a criança tende a assumir que toda a gente vê o mundo como ela vê. A partir desse momento, começa a compreender que cada pessoa tem os seus próprios pensamentos.</p>
<p>À medida que crescemos, esta capacidade vai-se tornando mais sofisticada. O adolescente aprende a decifrar a ironia. O adulto interpreta o silêncio. Passamos a ler entrelinhas, a captar intenções por detrás das palavras, a distinguir o que alguém diz do que realmente quer dizer.</p>
<p><strong>O que acontece no cérebro</strong></p>
<p>Por detrás desta aparente naturalidade há uma complexa dinâmica neural. A neurociência identificou uma rede de regiões cerebrais – incluindo o córtex pré-frontal medial (associado à tomada de decisão social), o sulco temporal superior e a junção temporoparietal – que se ativam quando tentamos inferir o estado mental de outra pessoa.</p>
<p>Não existe um único centro no cérebro, mas um sistema distribuído que integra informação social, afetiva e contextual, ao mesmo tempo que articula atenção, memória e regulação emocional.</p>
<p>E é por isso que tudo o que interfere com o desenvolvimento cognitivo – desde carências nutricionais crónicas a situações de stresse prolongado – pode, indiretamente, afetar também a formação da teoria da mente.</p>
<p><strong>Quando interpretar o outro se torna difícil</strong></p>
<p>Como toda a competência humana, a teoria da mente pode desenvolver-se de forma atípica. Em algumas pessoas dentro do espectro do autismo, por exemplo, a interpretação de pistas sociais subtis pode ser difícil – não por falta de interesse no outro, mas porque os circuitos que processam esse tipo de informação funcionam de modo diferente. Perturbações como a esquizofrenia podem também distorcer a forma como interpretamos as intenções dos outros, tornando o mundo social desorientador.</p>
<p>A avaliação clínica desta capacidade – através de tarefas específicas, histórias sociais ou testes de reconhecimento emocional – permite aos profissionais de saúde identificar dificuldades precocemente e intervir de forma direcionada.</p>
<p>Mas há uma dimensão menos evidente e frequentemente ignorada: a de pessoas que, mesmo sem qualquer perturbação diagnosticável, cresceram em ambientes marcados por agressividade, opressão, desconfiança, intolerância, negligência afetiva ou imprevisibilidade.</p>
<p>Nestas situações, a teoria da mente não deixa de se desenvolver. Mas pode tornar-se ajustada a um contexto hostil que já não corresponde aos factos atuais, mas que continua a servir de mapa para interpretar o mundo.</p>
<p>Um exemplo: crescer num ambiente onde demonstrar vulnerabilidade é visto como fraqueza pode levar a pessoa a interpretar as intenções dos outros como perigosas. A capacidade de compreender o outro mantém-se, mas pode tornar-se defensiva: percebe-se o outro, mas protege-se a própria vida interior.</p>
<p>Noutros casos, pode acontecer o inverso. Quem cresceu em relações marcadas pelo controlo ou pela manipulação pode ter dificuldade em confiar nas próprias perceções, o que leva a uma sensação de constante incerteza – como se as intenções dos outros fossem sempre ambíguas ou difíceis de decifrar. Estas dificuldades não são doenças nem falta de inteligência. São adaptações a contextos onde é preciso estar sempre em alerta.</p>
<p>Por outro lado, o desenvolvimento da teoria da mente também depende do contacto com o contraditório. Quando uma criança cresce num ambiente superprotetor e indulgente, onde os seus desejos são sempre satisfeitos, a sua perspetiva raramente é desafiada e os pais tendem a dar-lhe razão, perde oportunidades importantes de aprendizagem social: perceber que os outros pensam de forma diferente, lidar com a discordância e corrigir mal-entendidos. Sem esse atrito, a mente pode ficar excessivamente centrada em si própria, com maior dificuldade em reconhecer a vida interior do outro como algo independente da sua.</p>
<p>Mesmo quando a teoria da mente se desenvolve sem dificuldades aparentes, a forma como interpretamos o outro é sempre filtrada por vieses cognitivos, ideologias, valores, crenças e experiências acumuladas – o que significa que compreender alguém nunca é neutro.</p>
<p><strong>O que se come e o que se lê também forma a mente</strong></p>
<p>A teoria da mente constrói-se a partir de experiências relacionais – mas também depende daquilo que o corpo recebe e daquilo a que a imaginação é exposta. Dois fatores merecem atenção: a alimentação e o contacto precoce com a leitura.</p>
<p>O cérebro de uma criança em desenvolvimento é exigente do ponto de vista nutricional. Estruturas e circuitos que sustentam funções como a atenção, a memória de trabalho e a regulação emocional – todas elas indispensáveis para aprender a ‘ler’ o outro – dependem de um fornecimento adequado de nutrientes específicos.</p>
<p>A deficiência em ferro, por exemplo, compromete a atenção e a velocidade com que o cérebro processa informação – funções importantes para acompanhar uma conversa, perceber expressões ou interpretar situações sociais. A falta de iodo durante os primeiros anos de vida pode afetar o desenvolvimento cognitivo. Os ómega-3 estão associados à regulação emocional, à plasticidade cerebral e à comunicação entre neurónios. O zinco intervém em processos de aprendizagem e memória.</p>
<p>Nenhum destes nutrientes fabrica, por si só, a capacidade de imaginar o que o outro pensa ou sente – mas a sua ausência compromete as condições biológicas mínimas para que a aprendizagem social aconteça.</p>
<p>A insegurança alimentar acrescenta ainda uma camada diferente de dano. Uma criança que cresce sem saber o que comerá amanhã vive num estado de alerta. Esse estado consome energia cognitiva e emocional que, de outro modo, estaria disponível para o contacto social, para a curiosidade pelo outro e para interações de qualidade que alimentam a vida interior e o raciocínio.</p>
<p>O stresse prolongado não é apenas um estado psicológico: altera a forma como o cérebro em desenvolvimento se organiza, tornando-o mais reativo e menos reflexivo.</p>
<p>A leitura age por um mecanismo diferente, mas igualmente importante. Quando uma criança ouve ou lê uma história, é convidada a habitar temporariamente a mente de outra pessoa – a sentir o que a personagem sente, a compreender por que razão age como age, a antecipar as consequências das suas escolhas.</p>
<p>Romances, contos, novelas e poesia – seja através dos livros ou das histórias contadas – oferecem algo que a experiência quotidiana dificilmente proporciona: acesso à vida interior de personagens cujas experiências e formas de ver o mundo são diferentes das do leitor.</p>
<p>Alguns estudos em psicologia e linguística sugerem que leitores habituais de ficção literária tendem a ter maior capacidade de inferir estados mentais alheios. Não porque sejam mais inteligentes ou atentos por natureza, mas porque podem ter praticado a arte de entrar na perspetiva do outro.</p>
<p>Isto coloca uma responsabilidade sobre políticas públicas e práticas familiares. Garantir que as crianças se alimentam bem e leem desde cedo não é apenas uma questão de saúde física ou de desempenho escolar. É também uma questão de desenvolvimento humano no sentido mais amplo: a capacidade de reconhecer o outro como alguém com uma mente própria, digna de atenção e compreensão, começa, em parte, na mesa e na prateleira de livros.</p>
<p><strong> </strong><strong>Família, escola e cultura</strong></p>
<p>A teoria da mente aprende-se sobretudo na interação social. Em casa, nas conversas em família, quando os adultos nomeiam emoções e explicam comportamentos; na escola, na convivência com outras crianças e adultos; nas brincadeiras simbólicas, onde a criança ensaia papéis diferentes; e nas histórias que mostram personagens com mundos interiores ricos e contraditórios.</p>
<p>A cultura também molda esta aprendizagem. Em algumas sociedades, a comunicação é explícita e verbal; noutros contextos, predominam os sinais não verbais, o gesto, o silêncio, a distância. Nenhuma é melhor que a outra, são apenas formas diferentes de interpretar o mundo social.</p>
<p>Mas o que acontece quando esse código social é construído sobre o medo, o autoritarismo, a punição ou a exclusão? A criança pode aprender a interpretar o outro não para se aproximar, mas para se proteger. Torna-se hábil em detetar sinais de perigo, antecipar reações adversas, calcular como não errar e manter o outro à distância. É uma inteligência social, mas orientada para a sobrevivência, não para a conexão.</p>
<p>Em contextos onde as emoções das mulheres são desvalorizadas – tratadas como exagero, instabilidade, sem importância ou manipulação –, há o risco de os rapazes aprenderem a ignorar ou a invalidar a vida interior feminina, e de as meninas aprenderem a duvidar da legitimidade das próprias emoções. Em ambos os casos, empobrece-se a capacidade de compreender a perspetiva do outro.</p>
<p>De um modo geral, as sociedades que assentam na desconfiança – onde o diferente é visto como ameaça, onde a solidariedade é negociada e a competição é norma – dificultam o desenvolvimento da teoria da mente. Não porque as pessoas sejam menos capazes, mas porque o ambiente social não oferece os exercícios necessários: a experiência de ser compreendido, de compreender, de errar na leitura do outro e poder corrigir esse erro sem consequências graves.<strong> </strong></p>
<p><strong>O que nos permite viver juntos</strong></p>
<p>Numa conversa, construímos uma representação do que o outro sabe, sente ou pretende – e fazemos isso de forma tão automática que raramente nos apercebemos do esforço cognitivo que exige. É como respirar: só notamos quando falta ar.</p>
<p>É esta capacidade que torna possível a compreensão social, a cooperação e a negociação de conflitos – tudo o que faz da vida social algo mais do que uma sucessão de encontros. Sem ela, o outro seria apenas um comportamento a observar, não alguém com uma mente para compreender.</p>
<p>E porque se aprende, pode também ser ensinada, protegida, estimulada e aprimorada. O que fazemos com os ambientes onde as crianças crescem – o que lhes pomos à mesa e nas mãos, as regras e culturas que construímos – contribui para a forma como pensamos e interagimos uns com os outros.</p>
<p>É dessa matéria-prima que nascem as pessoas – e as formas como aprendem a pensar umas sobre as outras – que amanhã terão de viver juntas e compreender-se mutuamente.</p>
<p><em><span style="color: #808080;">Alessandro Boarccaech é psicólogo, especialista em psicologia clínica, psicoterapeuta, semiótico e Ph.D. em antropologia.</span></em></p>
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		<title>Crónica de um dia como outro qualquer: quando o ‘nós’ se confunde com o ‘eu’</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Rilijanto Viana]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 09 Apr 2026 12:42:27 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Destaque]]></category>
		<category><![CDATA[Factos e Análise]]></category>
		<category><![CDATA[Para Compreender]]></category>
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										<content:encoded><![CDATA[<p>“Esta noite não consegui dormir. O meu vizinho comprou colunas novas e resolveu ouvir música a noite toda. Por volta das quatro e meia, fui até ele. Lá estavam três pessoas. Uma delas a dormir sentada numa cadeira. As outras duas olharam para mim como se eu fosse um intruso. Pedi que baixassem o volume. Ofendido, o meu vizinho respondeu que estava no seu terreno e que tinha o direito de fazer o que quisesse. Voltei para casa, resignado.</p>
<p>Como já estava acordado e precisava de atualizar alguns documentos, saí cedo. Logo na primeira esquina, um carro entrou na minha rua fazendo a curva em contramão. O condutor buzinou, olhou-me de forma repreensiva e seguiu em frente. Continuei o caminho.</p>
<p>Quando cheguei ao lugar onde precisava de entregar os documentos, já lá estavam várias pessoas. A ordem de chegada não parecia ter qualquer importância. Todos a tentar passar uns à frente dos outros. Enquanto esticava o braço, na esperança de que o atendente pegasse os papéis, desloquei o peso do corpo de uma perna para outra e, nesse espaço que não sabia que existia, alguém entrou e passou à minha frente.</p>
<p>Depois de entregar os documentos, voltei para o carro. Lembrei-me que ainda não tinha tomado o primeiro café do dia. Saí determinado a encontrar uma cafetaria.</p>
<p>No trânsito, motas ultrapassavam pela esquerda e pela direita, carros avançavam a quinze quilómetros por hora – alguns por serem antigos, outros porque o condutor admirava a paisagem ou falava ao telemóvel. Depois de algum tempo, consegui ultrapassá-los, mas quase colidi com uma mikrolete que ora parava, ora avançava, sem qualquer sinal de aviso.</p>
<p>Mais à frente, o trânsito estava parado. Passados quase 10 minutos e 50 metros percorridos, percebi o motivo: alguns condutores paravam no meio da estrada, junto aos vendedores de peixe, para não terem de sair do carro.</p>
<p>Quando finalmente cheguei à cafetaria, sentei-me na única mesa que estava vaga. Sentadas à minha esquerda, quatro pessoas conversavam e riam alto. Na mesa à minha frente, uma pessoa assistia a um vídeo no telemóvel com o volume no máximo. Decidi voltar para casa.</p>
<p>A minha rua estava fechada. Vizinhos tinham montado tendas para uma celebração e interditado o trânsito. Estacionei na rua ao lado. Quando cheguei a casa, encontrei dois familiares à porta; tinham vindo da aldeia exclusivamente para buscar o dinheiro que eu regularmente lhes dava.</p>
<p>Lembrei-lhes que estava desempregado há dois meses e que naquele momento não tinha sequer para pagar a escola dos meus filhos. Após alguns segundos de silêncio, a olharem-me com deceção no rosto, disseram que era uma obrigação minha, que deveria ajudar e que não podia ser egoísta ou desrespeitar a família.</p>
<p>À noite, sozinho a pensar sobre o que fazer, percebi que ao longo do dia estive com várias pessoas e que em nenhum momento me perguntaram como me estava a sentir ou se precisava de alguma coisa. Sem saber o que fazer, demorei a dormir.”</p>
<p>Esta história é uma ficção, ou melhor, uma compilação de diversas histórias que me foram narradas por pessoas diferentes, que falam tétum e pertencem a uma <em>Lisan</em>.</p>
<p>O que estou a propor aqui é uma reflexão sobre o sentimento de solidão e desamparo que muitas pessoas experimentam hoje em dia. Aquela sensação de estar rodeado de pessoas e, ainda assim, sentir que ninguém nos vê.</p>
<p><strong>O paradoxo do individualismo coletivo</strong></p>
<p>À primeira vista, tudo parece comunitário: partilhamos opiniões, aderimos a grupos, vivemos próximos uns aos outros, temos os mesmos hábitos e crenças. No entanto, por detrás desta aparente uniformidade, as ações coletivas, em alguns contextos, podem servir para justificar ações individualistas.</p>
<p>Chamemos a isso individualismo coletivo: uma forma de colocar o <em>eu</em> em primeiro lugar enquanto se fala em <em>todos</em>. Este tipo de individualismo é confortável porque permite sentir-se parte de uma sociedade sem assumir as responsabilidades que a vida em comunidade exige. Oferece a sensação de pertencimento sem renúncia, convivência sem cuidado e discurso sem prática.</p>
<p>Dizemos a nós mesmos: “toda a gente faz assim”, “esta é a minha cultura”, “foi assim que aprendi”, “se os outros fazem eu também posso fazer”, “já que fizeram comigo, então farei com os outros” e, nesta dinâmica, podemos, sem nos aperceber, contribuir para reforçar o individualismo coletivo.</p>
<p>O espaço urbano e a sociabilidade podem passar a ser algo por onde transitamos, mas não pertencemos. O outro, neste cenário, pode transformar-se num incómodo, num desafio, num perigo a tolerar e evitar.</p>
<p>Quando o coletivo é usado sobretudo para legitimar o individual, a confiança entre as pessoas tende a enfraquecer lentamente. Deixamos de esperar reciprocidade e passamos a antecipar a deceção. O gesto de ajudar pode tornar-se calculado; a generosidade, condicional; a proximidade, negociada; a gentileza, uma máscara social; e a solidariedade, um investimento à espera de retorno. Não porque as pessoas sejam indiferentes, mas porque aprenderam, pela experiência repetida, a desconfiar antes mesmo de conhecer.</p>
<p>E assim temos o paradoxo: celebra-se o <em>nós</em> precisamente quando cada um age em função do <em>eu</em>. A família, a comunidade, a cultura tornam-se argumentos para exigir dos outros aquilo que não estamos dispostos a oferecer. É nesta distância entre o discurso e a prática que o individualismo coletivo se instala – silencioso, quase invisível, normalizado. Muitos participam. Poucos se reconhecem.</p>
<p><strong>O desconforto da pertença</strong></p>
<p>Todos os meses, inúmeras pessoas vêm ao meu consultório com sintomas de ansiedade ou depressão. Entre os principais problemas que parte delas diz estar a enfrentar estão as exigências de familiares e determinadas obrigações impostas pela <em>Lisan</em>, sobretudo os pedidos constantes de dinheiro.</p>
<p>O medo de perder o emprego, ou de não conseguir pagar as contas, ou de dececionar a família, ou de ser excluído ou amaldiçoado causa-lhes problemas para dormir, pensamentos obsessivos, irritabilidade, dores no estômago, enxaquecas, tristeza e isolamento social. Em casos mais extremos, relatam uma sensação de estar a perder o contacto com a realidade.</p>
<p>A questão que se coloca não é se os costumes têm valor – têm, e muito. A questão é quando uma prática sociocultural deixa de orientar e passa a oprimir. Quando a obrigação substitui a escolha. Quando o medo substitui o respeito. Quando a ameaça substitui o diálogo.</p>
<p>Neste ponto, já não estamos apenas perante uma expressão de cultura, mas sim perante uma forma de controlo. E o facto de ser antigo não garante, por si só, que seja justo ou saudável. Nem o facto de ser partilhado o torna inofensivo.</p>
<p>Um dos fatores que faz este tema difícil de discutir é a sua invisibilidade. Muitas vezes, quem sofre, sofre em silêncio, porque questionar é interpretado como ingratidão, desrespeito, traição ou arrogância. Quem exige, exige com a consciência tranquila, por acreditar estar a preservar algo “que sempre foi assim”, sagrado e herdado.</p>
<p>E, nesse intervalo – entre o que se impõe em nome da tradição e o que se suporta em nome da pertença – instala-se um sofrimento pelo qual poucos se sentem responsáveis e quem sofre, muitas vezes, nem reconhece a dor. Apenas sente, noite após noite, que algo não está bem.</p>
<p><strong>A atualidade dos costumes ancestrais</strong></p>
<p>Valorizar os costumes ancestrais é importante. Eles trazem sentimento de pertença, continuidade, unidade e influenciam a nossa própria perceção de identidade. Mas o que chamamos de cultura são práticas, normas e formas de pensar construídas ao longo do tempo, sujeitas aos contextos históricos, às disputas de poder e às ideologias de cada época.</p>
<p>Algumas regras e práticas culturais são claras e visíveis, como os tabus e rituais das <em>Lisan</em>, o uso do <em>belak, </em>do<em> tais </em>e do<em> kaebauk</em>, as cerimónias do <em>barlake, </em>as histórias de origem, entre outras.</p>
<p>Mas também fazem parte da cultura as práticas do quotidiano que podem não estar associadas às <em>Lisan</em> e que raramente questionamos: a forma como falamos com as mulheres, como educamos as crianças, os hábitos alimentares (comer arroz e <em>ai manas</em>, por exemplo), o que vestimos, a tendência para os castigos físicos, quem manda e quem obedece, como entendemos o que é diferente, as técnicas para sacrificar animais, mastigar de boca aberta ou fechada, o que fazemos para nos divertir e, até mesmo, o hábito de balançar o carro enquanto abastecemos – a lista segue.</p>
<p>Refletir criticamente sobre o que entendemos por cultura ajuda a preservar o que é valioso. Para isso, não precisamos de comparar com outras culturas nem importar costumes de outros lugares. Podemos começar por analisar se as nossas próprias verdades e visões de mundo são inclusivas e estão a promover a saúde emocional e mental das pessoas e das comunidades.</p>
<p>Por exemplo, de tempos em tempos, renovamos a madeira e o telhado das <em>Uma Lulik</em>. Fazemos isto porque os materiais envelhecem, estragam-se e precisam de ser substituídos. Passamos a usar pregos em vez de cordas. Fazemos as vigas mais resistentes, usamos cimento em lugar de apenas madeira. Na construção de barcos aconteceu o mesmo e hoje usamos motores a diesel em vez de remos. Na pesca, o anzol e a rede substituíram os arcos e flechas de bambu.</p>
<p>Com estas mudanças, não estamos a desrespeitar os costumes e os nossos ancestrais. Pelo contrário, mantemos as práticas do passado com algumas adaptações que melhoram a qualidade do que fazemos.</p>
<p>Este é, provavelmente, um dos nossos maiores desafios na atualidade: como fazer a transição do passado para o presente ou como atualizar as nossas tradições. A pergunta que me parece mais interessante não é “isto é diferente do passado?” – tudo muda com o tempo. A questão mais relevante, na minha opinião, é: “isto está a fazer bem às pessoas?”</p>
<p><strong>E nós?</strong></p>
<p>A mudança exige mais do que palavras ou boas intenções. Ela começa nas pequenas atitudes do dia a dia. Uma sociedade não se constrói somente com estradas, estátuas, prédios altos e casas de dois andares. Constrói-se, sobretudo, com a qualidade das relações que as pessoas cultivam entre si, com a forma como se olham, como se escutam, como se tratam e como lidam com as diferenças.</p>
<p>Só quando o respeito deixa de ser um discurso e se torna uma prática é que o coletivo deixa de ser uma máscara para o individualismo e passa a ser um espaço de convivência e encontro. E isso começa em algo simples: qual foi a última vez que perguntou a alguém como se sentia?</p>
<p>Para finalizar, proponho uma reflexão: será que, no Timor-Leste de hoje, o individualismo aprendeu a falar a linguagem da <em>Lisan</em> – instrumentalizando os rituais, o respeito, a família e os costumes ancestrais não para os preservar, mas para deles obter vantagem, prestígio ou poder? O que estamos realmente a proteger quando invocamos a tradição?</p>
<p><em><span style="color: #808080;">Alessandro Boarccaech é psicólogo, especialista em psicologia clínica, psicoterapeuta, semiótico e Ph.D. em antropologia.</span></em></p>
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