Timor-Leste aposta num programa inovador que utiliza mosquitos com a bactéria Wolbachia para reduzir a transmissão da dengue, zika e chikungunya. O diretor nacional Florindo Gonzaga garante que a intervenção é segura, já mostrou resultados noutros países e depende também do apoio das comunidades.
Timor-Leste iniciou um programa pioneiro de saúde pública que aposta em mosquitos “aliados” para travar doenças como dengue, zika e chikungunya. O segredo está na bactéria Wolbachia, que impede a multiplicação destes vírus dentro do mosquito. Assim, mesmo que piquem pessoas infetadas, os mosquitos deixam de transmitir as doenças.
Na entrevista ao Diligente, Florindo Gonzaga, Diretor Nacional da Prevenção e Controlo de Doenças do Ministério da Saúde, explica os detalhes da estratégia: desde a criação de mosquitos locais cruzados com Wolbachia — garantindo que mantêm as características timorenses e resistência a inseticidas — até ao início da libertação em Díli, já com mais de oito mil garrafas distribuídas.
O responsável sublinha que a técnica é segura e funciona como complemento às medidas tradicionais, como a fumigação e a eliminação de criadouros, revelando-se especialmente eficaz em zonas urbanas densamente povoadas.
O que é exatamente a bactéria Wolbachia?
“A bactéria Wolbachia está presente naturalmente em cerca de 60% dos insetos, como mosquitos, moscas, baratas, gafanhotos e borboletas. Foi descoberta há muito tempo e, mais tarde, os cientistas perceberam que, quando está presente no mosquito Aedes aegypti, consegue reduzir a transmissão de vírus como a dengue, a zika, a chikungunya e a febre amarela. Embora não elimine completamente estas doenças, a utilização de mosquitos com Wolbachia ajuda a diminuir de forma significativa a propagação destas infeções”, explicou Florindo Gonzaga.
“Mesmo que um mosquito com Wolbachia pique uma pessoa infetada, não consegue transmitir o vírus, ou transmite muito menos. Desta forma, conseguimos reduzir os casos de dengue, zika ou chikungunya”
De que forma a Wolbachia impede a transmissão de doenças como a dengue, a zika, a chikungunya e a febre amarela?
Primeiro, é necessário introduzir a bactéria Wolbachia no mosquito Aedes aegypti. Estas doenças podem ser transmitidas por duas espécies principais, o Aedes albopictus e o Aedes aegypti. Em Díli, de acordo com os levantamentos que realizámos, o Aedes aegypti é muito mais comum, por isso considerámos que a utilização da Wolbachia seria a mais adequada para o nosso país.
Os nossos mosquitos foram enviados para a Monash University, na Austrália, onde receberam a bactéria Wolbachia. O processo é demorado: realizamos cruzamentos entre mosquitos com Wolbachia e mosquitos locais, de forma progressiva, até conseguirmos que cerca de 99% da população tenha Wolbachia, mas mantendo sempre as características dos mosquitos timorenses.
Depois, fizemos testes para confirmar que continuavam resistentes aos inseticidas usados em Timor-Leste. Assim, garantimos que os ovos e as futuras gerações de mosquitos são genuinamente timorenses, mas transportam a bactéria.
A função da Wolbachia é bloquear a replicação dos vírus nas glândulas salivares do Aedes aegypti. Ou seja, mesmo que um mosquito com Wolbachia pique uma pessoa infetada, não consegue transmitir o vírus, ou transmite muito menos. Desta forma, conseguimos reduzir os casos de dengue, zika ou chikungunya.
Como é feito o processo de criação, transporte e libertação dos mosquitos com Wolbachia em Timor-Leste?
Em Timor-Leste, já realizámos a criação da linha de mosquitos com Wolbachia, de modo a garantir que mantivessem características puramente timorenses. Recolhemos os ovos, colocámo-los em cápsulas e transportámo-los da Monash University para cá.
Em Díli, a equipa de Meinzes acompanha os ovos até atingirem o estágio adulto, altura em que os mosquitos são então libertados.
O que acontece quando um mosquito com Wolbachia pica uma pessoa com dengue?
Quando uma pessoa está infetada com dengue e é picada por um mosquito que tem Wolbachia, esse mosquito não consegue transmitir o vírus a outra pessoa.
Já um mosquito comum, sem Wolbachia, pode picar uma pessoa com dengue e, em seguida, transmitir o vírus a outros. Por exemplo, dentro de uma casa, se um membro da família estiver com dengue, os mosquitos comuns podem propagar a doença aos restantes, enquanto os mosquitos com Wolbachia não.
“Antes de implementar este programa, já analisámos o seu progresso e sustentabilidade. Com este método, não precisamos de gastar mais recursos em novas intervenções, porque a própria bactéria mantém-se de geração em geração”
O que acontece quando os mosquitos com Wolbachia cruzam com mosquitos locais sem a bactéria?
Já não estamos a criar novas linhas de mosquitos, mas utilizamos cerca de oito mil em inglês Release Mosquito Container (RMC na sigla em inglês ou em português, Recipiente de Libertação de Mosquitos) para libertar mosquitos com Wolbachia, que depois cruzam com os mosquitos locais. Este processo chama-se mecanismo de incompatibilidade citoplasmática.
Quando um macho com Wolbachia cruza com uma fêmea de Aedes aegypti sem a bactéria — que pode transmitir vírus como dengue, zika, chikungunya e febre amarela — os ovos produzidos não conseguem nascer.
Já quando uma fêmea com Wolbachia cruza com um macho sem a bactéria, os ovos nascem normalmente e todos os descendentes carregam Wolbachia. Se tanto o macho como a fêmea tiverem Wolbachia, o resultado é ainda mais estável, porque todos os descendentes continuam a transmitir a bactéria.
Antes de implementar este programa, já analisámos o seu progresso e sustentabilidade. Com este método, não precisamos de gastar mais recursos em novas intervenções, porque a própria bactéria mantém-se de geração em geração.
Quantos mosquitos com a bactéria Wolbachia já foram libertados em Timor-Leste desde o início do programa?
No dia 8 de agosto, durante o lançamento do programa, começámos a libertar 50 RM. Até agora, já foram distribuídas 8.141 garrafas. Cada garrafa contém, em média, entre 50 e 100 mosquitos com Wolbachia.
“É importante reforçar que esta estratégia não substitui definitivamente a fumigação nem outras medidas de controlo. A Wolbachia é uma intervenção complementar, que vem apoiar essas práticas”
O Ministério da Saúde já tem planos para implementar este programa noutros municípios?
Para já, ainda não. O programa está na fase de implementação em Díli, seguido de monitorização e avaliação. Estamos a libertar mosquitos com Wolbachia durante cinco meses e, após três meses, capturamos alguns para verificar se a bactéria está presente. Se pelo menos 80% dos mosquitos tiverem Wolbachia, isso significa que o programa está a ter sucesso e que está a reduzir doenças como dengue, zika e chikungunya. Só depois poderemos expandir para outros locais.
A implementação é mais eficaz em áreas urbanas, onde a população está concentrada e há maior densidade de mosquitos, ovos e criadouros. É importante reforçar que esta estratégia não substitui definitivamente a fumigação nem outras medidas de controlo. A Wolbachia é uma intervenção complementar, que vem apoiar essas práticas. Desde o início, testámos a resistência aos medicamentos usados na fumigação e na eliminação de criadouros, e os mosquitos apresentaram essa característica.
A fumigação e a eliminação de criadouros matam também a bactéria Wolbachia?
Primeiro, é importante dizer que, quando criámos a linha de mosquitos, utilizámos apenas mosquitos locais, adaptados ao nosso ambiente. Não se trata de mosquitos vindos de fora. Muitas vezes, as pessoas fazem fumigação em casa, mas os casos de dengue continuam a aparecer. A eliminação de criadouros também não resolve totalmente o problema. Isto acontece porque os mosquitos com Wolbachia libertados conseguem sobreviver a essas medidas.
Como é que podemos identificar os mosquitos com Wolbachia se não apresentam características visíveis?
Não é possível distingui-los a olho nu. O que garante a diferença é o processo de criação da linha. Neste momento, já conseguimos atingir 98% de mosquitos com Wolbachia de forma estável, mas essa identificação só é possível através do método de criação e não pela observação.
Como funciona a criação da linha de mosquitos com Wolbachia?
Primeiro, cruzamos mosquitos locais com mosquitos portadores da bactéria Wolbachia, obtendo uma geração com 75% de mosquitos com Wolbachia e 25% de mosquitos locais. Depois, continuamos esse processo até chegarmos a mosquitos com todas as nossas características locais, mas portadores da bactéria. Este é um mecanismo seguro — não é modificação genética, mas sim criação de linha. A modificação genética pode trazer impactos e afetar a evolução, mas a criação de linha não. Já são 14 os países que implementaram a Wolbachia, como Singapura, Indonésia, Austrália, Fiji, Vanuatu, Brasil e Venezuela.
“Na implementação da Wolbachia, o objetivo é apenas eliminar doenças como a dengue, preservando o ecossistema”
Como avalia o progresso desses 14 países com o uso da bactéria Wolbachia?
Na Indonésia, por exemplo, a implementação começou em Jogja e a redução dos casos de dengue foi muito significativa. No Brasil, também se verificou uma grande diminuição nos casos de chikungunya e dengue. Já em Singapura foi diferente, porque optaram por eliminar os vetores. Mas não queremos que isso aconteça no nosso país. No nosso caso, temos exemplos que mostram bem os riscos: quando o exército indonésio quis eliminar algumas serpentes, por estas atacarem soldados, isso acabou por causar o desaparecimento de espécies locais.
Na implementação da Wolbachia, o objetivo é apenas eliminar doenças como a dengue, preservando o ecossistema. Assim, garantimos que a cadeia alimentar se mantém equilibrada — os sapos continuam a alimentar-se de mosquitos e outros insetos a comer larvas. Em Singapura, foram libertados sobretudo mosquitos machos, o que reduziu drasticamente a população de vetores. Nós não queremos isso. Queremos manter os vetores, mas controlando-os com Wolbachia, para garantir o equilíbrio ecológico.
Quer dizer que, no nosso caso, mantemos equilíbrio entre mosquitos fêmeas e machos?
No nosso caso, libertamos sobretudo mosquitos fêmeas, mas também podem ser incluídos machos. Contudo, as fêmeas são predominantes.
Qual é a sua mensagem para a população que ainda não tem informação suficiente da parte da saúde?
À população, digo para não ter medo desta metodologia, porque o objetivo é proteger as nossas crianças, as mulheres vulneráveis e as famílias. Este método já provou, em vários países, que não tem efeitos negativos relatados.
O sucesso depende também da participação da comunidade, que deve apoiar e receber os mosquitos com Wolbachia. É fundamental esclarecer que não estamos a trazer nenhuma nova doença, porque estes mosquitos não transmitem vírus. Já houve estudos ambientais que confirmaram a segurança e não se registaram efeitos secundários.
Por isso, pedimos às comunidades que continuem a colaborar com os profissionais de saúde e com a equipa do Menzies, sempre que formos às casas libertar os mosquitos. Com este esforço conjunto, vamos conseguir reduzir os casos de dengue nos próximos anos. Só este ano já morreram sete pessoas devido à dengue. Em 2022 morreram 58. Não queremos que isso continue. O nosso objetivo é reduzir o número de doentes, diminuir os custos de hospitalização, reduzir a distribuição de alimentos hospitalares e também os gastos com medicamentos.


