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	<title>Mini reportagem - DILIGENTE</title>
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	<title>Mini reportagem - DILIGENTE</title>
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		<title>Na pele de quem floresce contra tudo</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Joana Silva]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 24 Feb 2026 12:38:52 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Destaque]]></category>
		<category><![CDATA[Mini reportagem]]></category>
		<category><![CDATA[Reportagens]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Entre flores feitas de papel e linhas de croché, Maria Natália constrói o próprio sustento e a própria dignidade. Aos 28 anos, concluiu a universidade apesar das tentativas do tio para a impedir de estudar, cuida de crianças para sobreviver [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify; line-height: 150%; page-break-after: avoid;"><i>Entre flores feitas de papel e linhas de croché, Maria Natália constrói o próprio sustento e a própria dignidade. Aos 28 anos, concluiu a universidade apesar das tentativas do tio para a impedir de estudar, cuida de crianças para sobreviver e transforma a criatividade numa forma de resistência e autonomia.</i></p>
<p>“Corram com cuidado para não cair.” A frase repete-se numa varanda em Díli, onde Maria Natália acompanha duas crianças entre risos e passos inseguros. Aos 28 anos, é ali que garante o sustento. Mas o caminho que a trouxe até aqui foi feito de perdas, conflitos familiares e uma resistência silenciosa que se tece, todos os dias, entre flores de papel e fios de croché.</p>
<p>Cuidar das crianças passou a ser o seu sustento diário. O salário permite-lhe assegurar as despesas diárias, o arrendamento da casa e os custos associados ao <em>judicium</em> e à graduação. O valor que recebe está de acordo com o salário mínimo adotado pela Secretaria de Estado da Formação Profissional e Emprego (SEFOPE). Mas antes de se tornar cuidadora, Maria Natália sonhava com outro caminho.</p>
<p>Natural do Suai, Maria Natália concluiu, no ano passado, o curso de Parteira na Universidade Nacional Timor Lorosa’e (UNTL). Terminou a licenciatura contra expectativas e obstáculos. No entanto, apesar do esforço e da qualificação alcançada, ainda não conseguiu uma oportunidade profissional na sua área de formação.</p>
<p>Perante esta realidade, decidiu abraçar o trabalho de cuidadora de crianças, desempenhando-o com o mesmo compromisso e sentido de responsabilidade que aprendeu durante o seu percurso académico. Se a profissão ainda não chegou, a criatividade encontrou-a primeiro.</p>
<p><strong>Transformar papel em esperança</strong></p>
<p>Em setembro de 2024, quando se aproximava da conclusão do curso, Maria Natália descobriu uma nova forma de expressar a sua criatividade. Após assistir a vídeos tutoriais, aprendeu a transformar materiais simples — fitas, papéis de embrulho, caixas, pedaços de madeira e outros objetos — em flores artesanais, ideais para oferecer em ocasiões como <em>judicium</em> e graduações universitárias.</p>
<p>O investimento inicial para adquirir os materiais varia entre 10 e 15 dólares. Após a venda, pode obter pelo menos 60 dólares de lucro. “Quando decidi começar, o meu namorado emprestou-me 10 dólares para comprar os materiais. Depois de vender, devolvi-lhe o dinheiro. Ele também ajuda em algumas tarefas”, contou.</p>
<p>O processo começou de forma simples e simbólica. Juntamente com colegas, reutilizou folhas já usadas nas monografias, após a correção dos docentes. Papéis que antes representavam avaliações académicas ganharam uma nova vida através da imaginação e do trabalho manual.</p>
<p>“Este foi o nosso primeiro processo de aprendizagem com esses papéis. Depois pensei: porque não transformar esta criatividade numa forma de obter rendimento? Não queria depender financeiramente da minha irmã, sobretudo depois do falecimento da minha mãe. Então voltei ao YouTube para procurar exemplos de materiais e técnicas que me ajudassem a aperfeiçoar esta arte”, explicou.</p>
<p>No final de dezembro de 2024, decidiu vender as flores na Universidade Oriental (UNITAL). Chegou cheia de expectativa, acreditando que aquele seria o início do seu pequeno negócio. Contudo, ninguém comprou.</p>
<p>Mais tarde percebeu o motivo: as cores das flores não correspondiam às cores representativas das faculdades da universidade. “Preparei apenas flores azuis claras, como na Faculdade de Medicina da UNTL, mas na UNITAL a cor é amarela. Fiquei apenas cerca de 30 minutos e voltei para casa”, recordou, com um tom nostálgico.</p>
<p>Sentiu o peso da exposição e da comparação pela primeira vez. Ao mesmo tempo, sentiu orgulho por conseguir transformar materiais simples em peças criativas feitas pelas próprias mãos. “Observei que as flores de outras pessoas tinham melhor qualidade. As minhas ainda não estavam ao mesmo nível”, reconheceu.</p>
<p>Poucos dias depois, conseguiu vender flores durante a graduação da UNTL, realizada no Centro de Convenções de Díli (CCD), arrecadando 60 dólares. “Os preços variam entre 1 e 20 dólares, dependendo do tamanho, dos materiais utilizados e do nível de detalhe”, explica com orgulho.</p>
<p>No mesmo ano, vendeu também nas graduações do Instituto de Ciências da Saúde, obtendo valor idêntico. No final de 2025, comercializou as suas flores durante uma semana nas atividades de <em>judicium</em> da Universidade da Paz, onde conseguiu cerca de 300 dólares.</p>
<p>No momento da sua própria graduação, não conseguiu vender porque ninguém a ajudou na comercialização. “Mas, no mês passado, houve a graduação do Instituto Cristal e consegui vender. Agora já não é época de graduações, por isso torna-se mais difícil”, afirmou.</p>
<p><strong>Fios que tecem autonomia</strong></p>
<figure id="attachment_21723" aria-describedby="caption-attachment-21723" style="width: 381px" class="wp-caption alignnone"><img fetchpriority="high" decoding="async" class="size-medium wp-image-21723" src="https://www.diligenteonline.com/wp-content/uploads/2026/02/WhatsApp-Image-2026-02-23-at-20.12.27-381x377.jpeg" alt="" width="381" height="377" srcset="https://www.diligenteonline.com/wp-content/uploads/2026/02/WhatsApp-Image-2026-02-23-at-20.12.27-381x377.jpeg 381w, https://www.diligenteonline.com/wp-content/uploads/2026/02/WhatsApp-Image-2026-02-23-at-20.12.27.jpeg 590w" sizes="(max-width: 381px) 100vw, 381px" /><figcaption id="caption-attachment-21723" class="wp-caption-text">Croché é outra expressão da sua arte | Foto: Arquivo Pessoal</figcaption></figure>
<p>Desde criança que sabe fazer croché. Em 2024, aperfeiçoou a técnica após assistir a vídeos no YouTube e decidiu transformar a habilidade numa fonte de rendimento. “Faço carteiras, malas, mochilas e biquínis. Os preços variam entre 5 e 20 dólares”, explicou.</p>
<p>Enquanto cuida das crianças, promove os seus produtos no TikTok. Recebe encomendas para aniversários, Dia dos Namorados e outras datas especiais. “Depois de as crianças descansarem, aproveito o tempo para preparar as encomendas.”</p>
<p>Chegou também a preparar lanches, como amendoim transformado em diferentes produtos, que deixava no quiosque da mãe do namorado para venda. Atualmente, já não desenvolve essa atividade.</p>
<p>Mas a luta de Maria Natália não se trava apenas no campo profissional. Em casa, a batalha é mais antiga — e mais dolorosa.</p>
<p><strong>Entre tradição e lei: a luta por aquilo que é seu</strong></p>
<p>A vida da família mudou profundamente após a morte da mãe, em 2019. “O meu pai é idoso e doente, já não tem força para trabalhar. As minhas irmãs não o deixam trabalhar”, relatou.</p>
<p>Desde então, descreve a vida como “cheia de tristeza e traumas”. “De 2020 até agora, tem sido um inferno por causa das provações que surgem de várias maneiras, mas continuo a resistir.”</p>
<p>Enfrentou também obstáculos para continuar os estudos. “O meu tio estava zangado e queria que eu deixasse de estudar, alegando que não havia dinheiro para pagar as propinas. A minha avó materna e as minhas irmãs incentivaram-me a continuar e assumiram todas as despesas. Depois de concluir o curso, o meu tio reclamou, dizendo que tinha sido ele a pagar as minhas propinas, mas não é verdade.”</p>
<p>Recentemente, um dos tios reabilitou a casa dos pais. No entanto, tanto a casa como o terreno pertencem aos pais de Maria Natália. Segundo relata, o tio pretende ficar com o imóvel após o falecimento da mãe.</p>
<p>O caso ocorre no Suai, onde a tradição local atribui legitimidade às mulheres relativamente a determinados bens familiares. “Segundo a nossa tradição, o poder está nas mulheres. Mas, neste momento, o meu pai ainda é vivo e nós, os filhos, também existimos”, sublinhou.</p>
<p>Maria Natália afirma que não pretende apresentar queixa, a menos que haja agressão ou tentativa de usurpação forçada: “Se o meu tio agir de forma diferente ou nos agredir, então recorreremos à justiça.”</p>
<p>De acordo com o Código Civil de Timor-Leste, a sucessão legítima estabelece que “são herdeiros legítimos o cônjuge, os parentes e o Estado, pela ordem e segundo as regras constantes do presente título” (artigo 1999.º). A primeira classe de sucessíveis é composta por “cônjuge e descendentes” (artigo 2000.º, n.º 1, alínea a)), que têm prioridade face às classes seguintes (artigo 2001.º). Assim, quando uma esposa falece deixando marido e filhos, são estes os herdeiros prioritários, e não os irmãos da falecida, que apenas seriam chamados na ausência de cônjuge e descendentes.</p>
<p>Apesar de existirem práticas tradicionais de natureza matrilineal em algumas regiões, como em Suai, a lei civil atribui primazia ao cônjuge sobrevivo e aos filhos.</p>
<p><strong>Uma história que reflete um país</strong></p>
<p>A história de Maria Natália não é isolada. Ela inscreve-se num contexto nacional onde o acesso à educação continua a ser um desafio estrutural.</p>
<p>O Censo de 2022 revela que 20% das crianças entre os 6 e os 18 anos não frequentam a escola. Entre os 19 e os 29 anos, a taxa de abandono sobe para 70%. Além disso, 45% da população entre os 3 e os 29 anos não tem acesso à educação.</p>
<p>No caso de Maria Natália, apesar de um dos tios ter tentado impedi-la de continuar os estudos universitários, com o apoio exclusivo das irmãs e da avó materna conseguiu concluir a formação, ainda que continue sem exercer na sua área.</p>
<p>Um relatório da SEFOPE indica que, entre 2009 e 2024, mais de 19 mil timorenses emigraram para países como a Austrália e a Coreia do Sul — cerca de 13 mil para a Austrália e aproximadamente seis mil para a Coreia do Sul. Maria Natália, porém, optou por procurar oportunidades dentro do país.</p>
<p>A vida ainda não lhe deu o lugar na saúde materna que ambiciona. Mas Maria Natália aprendeu que flores não nascem apenas na terra certa — nascem onde alguém insiste em cuidar delas. Entre papéis reutilizados, fios entrelaçados e direitos por defender, continua a construir o seu caminho com as próprias mãos. E, contra todas as tentativas de a cortar, escolhe continuar a florescer.</p>
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		<title>Na pele de um vendedor de peixe: a luta diária de Júlio sobre duas rodas</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Lourdes do Rego]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 18 Feb 2026 09:39:41 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Destaque]]></category>
		<category><![CDATA[Mini reportagem]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Enquanto os primeiros raios de sol rasgam o céu sobre as ruas movimentadas de Hera, uma velha cadeira de rodas avança lentamente por entre a multidão. Sobre ela, um homem. À frente, um balde preto cheio de peixe fresco. Mais [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p><em>Enquanto os primeiros raios de sol rasgam o céu sobre as ruas movimentadas de Hera, uma velha cadeira de rodas avança lentamente por entre a multidão. Sobre ela, um homem. À frente, um balde preto cheio de peixe fresco. Mais do que mercadoria, aquele balde carrega a dignidade de quem se recusa a desistir.</em></p>
<p>Numa manhã clara em Hera, a vida começa cedo. O som das conversas, dos passos apressados e das portas que se abrem mistura-se no ar. No meio dessa azáfama, Júlio Soares, 46 anos, empurra a sua cadeira de rodas com as próprias mãos. Conhece cada curva, cada desnível e cada rosto daquela terra onde nasceu e cresceu.</p>
<p>Veste uma camisa de mangas curtas, calças compridas e um pequeno chapéu para se proteger do sol intenso. À frente da cadeira, pendurado com cuidado, segue o balde preto com peixe fresco. Com voz firme — ainda que nem sempre facilmente compreendida — anuncia a sua venda aos transeuntes e às casas próximas. Espera. Sempre espera que alguém pare.</p>
<p>Há mais de dez anos que vive assim. “Compro aos pescadores e revendo”, diz com simplicidade.</p>
<p>Investe cerca de 10 dólares na compra dos molhos de peixe. Cada molho é vendido por um dólar. No fim do dia, se tudo correr bem, consegue cerca de cinco dólares de lucro — um valor que para muitos pode parecer pequeno, mas que para ele significa o suficiente para continuar.</p>
<p>“Normalmente, compro cinco molhos por um dólar; cada molho tem cinco peixes. Depois junto para formar um molho com sete peixes e vendo por um dólar. Mas há sempre quem regateie e o lucro acaba por ser pequeno.</p>
<p>Todos os dias sai de manhã e regressa apenas ao final da tarde. Percorre Hera sozinho, empurrando a cadeira de rodas sob o calor e o cansaço. “Às vezes volto mais cedo, se o peixe acabar”, explica.</p>
<p>Mas nem sempre acaba. Quando sobra, há um gesto que lhe traz algum conforto: “Se não acaba, são sempre as freiras dominicanas que compram. Isso ajuda muito.”</p>
<p>Júlio vive com deficiência desde a infância. Tinha sete ou oito anos quando começou a perder a força nas pernas. “Dizem que foi uma magia que era para o meu irmão mais velho, mas que acabou por me atingir. Não fui levado ao hospital… e fiquei assim.”</p>
<p>As palavras saem sem revolta, apenas com uma aceitação que parece ter sido construída ao longo dos anos. Sem tratamento médico, a condição permaneceu. A cadeira de rodas tornou-se parte da sua vida.</p>
<p>Apesar disso, nunca deixou que a imobilidade das pernas significasse imobilidade da vida. Aprendeu a adaptar-se, a sobreviver e a trabalhar. Continua solteiro. Escolheu uma vida simples. Diz nunca ter sofrido discriminação, talvez porque toda a gente o conhece desde criança. Em Hera, Júlio é parte da paisagem humana.</p>
<p>Quando não está a vender, descansa à sombra de uma árvore. Ao final da tarde, vai pescar na praia próxima. “O peixe que apanho é para comer com a família. Vou ao fim da tarde e volto à noite. A casa fica perto da praia, é seguro.”</p>
<p>Desde pequeno vive com o tio, na aldeia de Bedik, em Hera. Os pais já faleceram. Os irmãos vivem em Camea, cada um com a sua família. A relação mantém-se, mas Júlio escolheu ficar e lutar pela própria independência. “Guardo uma parte do lucro para reinvestir. O lucro é pequeno, mas é meu.” Na pequena casa onde vive com o tio e os sobrinhos, ajudam-se mutuamente. É pouco, mas é partilhado.</p>
<p>Júlio nunca foi à escola. Queria estudar, mas as dificuldades económicas, a situação familiar e os problemas na fala impediram-no de concretizar esse sonho. Ainda hoje, quando fala com os clientes, precisa de erguer a voz e repetir as palavras. “Tenho de falar alto. Às vezes, o cliente aproxima o ouvido e tenho de repetir duas vezes.” Mas nunca se envergonha. Nunca recua.</p>
<p><strong>O ano em que a água levou o que restava</strong></p>
<p>Em 2024, a chuva caiu sem descanso. A água subiu lentamente até invadir a pequena casa de madeira que lhe servia de abrigo. As paredes frágeis e o telhado simples não resistiram. A inundação levou o pouco que tinha.</p>
<p>“Fiquei muito triste por perder a casa…”, recorda, pausadamente. “Mas recebi ajuda. O padre da região trouxe arroz, sabonete e outros bens.”</p>
<p>A ajuda aliviou a urgência, mas não apagou a dor. Desde então, voltou a viver com o tio e os sobrinhos. A casa que era sua tornou-se memória. E como se não bastasse, pouco tempo depois, outro golpe. Num dia comum de trabalho, enquanto vendia peixe na rua, foi atropelado por uma mota.</p>
<p>“O meu sobrinho levou-me logo ao hospital. Sofri lesões nos ossos da perna. Como já estou paralisado, piorou.” Para alguém que depende dos braços para se mover, qualquer lesão é mais do que dor física — é ameaça direta à sobrevivência. “Senti medo. Mas não fiquei traumatizado. Este é o risco de vender nas ruas.”</p>
<p>Depois de recuperar, voltou. Voltou com o mesmo balde preto, a mesma cadeira de rodas, a mesma determinação. Como se cada regresso fosse uma declaração silenciosa de resistência.</p>
<p>Segundo o Censo de 2022, Timor-Leste registava 17.061 pessoas com deficiência, num universo de cerca de 1,3 milhões de habitantes. Até ao final de 2023, apenas cerca de oito mil recebiam subsídios do Estado. Desde 2024, passou a existir uma pensão mensal de 60 dólares.</p>
<p>Júlio, porém, continua a trabalhar. “Até agora ainda não sei se existe algum subsídio para pessoas na nossa situação”, diz.</p>
<p>E, enquanto fala, as rodas da sua cadeira continuam a girar pelas ruas de Hera. Pequenas, firmes, persistentes. Tal como a esperança que carrega todos os dias — discreta, silenciosa, mas impossível de apagar.</p>
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		<title>Na pele de Isolina: deficiência, discriminação e sobrevivência num mercado sem dignidade</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Joana Silva]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 09 Jan 2026 12:10:42 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Destaque]]></category>
		<category><![CDATA[Mini reportagem]]></category>
		<category><![CDATA[Reportagens]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Dorme ao lado do quiosque, acorda antes do amanhecer e vende café, noodles e recargas de telemóvel num mercado sem água, casas de banho dignas ou segurança. Isolina Sarmento, pessoa com deficiência motora, resiste diariamente à exclusão, à discriminação e [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p><em>Dorme ao lado do quiosque, acorda antes do amanhecer e vende café, noodles e recargas de telemóvel num mercado sem água, casas de banho dignas ou segurança. Isolina Sarmento, pessoa com deficiência motora, resiste diariamente à exclusão, à discriminação e ao abandono institucional no novo mercado de Baucau.</em></p>
<p>Isolina Sarmento dorme no mercado. A cama está encostada aos produtos que vende todos os dias: café, pop mie, cigarros e recargas de telemóvel. Não há paredes a separar o descanso do trabalho, nem chão sólido sob os pés — apenas terra batida. Dorme ali por necessidade e por medo: a estrada é longa, os transportes escassos e os furtos frequentes.</p>
<p>Todas as madrugadas, a mulher de 38 anos acorda cedo para servir quem chega ainda de noite ao mercado de Tuanau, nos arredores de Baucau. É assim que garante a sobrevivência.</p>
<p>O mercado não é apenas o local onde trabalha. É também onde vive, resiste e tenta sobreviver. Com uma deficiência motora visível e poucos recursos, Isolina enfrenta diariamente uma realidade marcada pela precariedade, pela exclusão social e pela ausência de apoio.</p>
<p>Para aumentar o rendimento, faz o que pode. Para além da venda diária, quando há eventos ou atividades especiais, recebe encomendas e produz guardanapos decorativos de vários modelos. Mudou-se para o novo mercado de Tuanau na sequência das ações levadas a cabo pela Secretaria de Estado dos Assuntos da Toponímia e Organização Urbana (SEATOU), uma mudança que alterou profundamente a sua rotina.</p>
<p>Muitos vendedores vindos de zonas mais remotas chegam ao mercado ainda de madrugada, por volta das duas da manhã. Os dias de maior movimento são às quintas-feiras e aos domingos. “Há pessoas que procuram café, pop mie e até apenas água quente para beber. Por isso, costumo acordar cedo para começar a vender”, relatou.</p>
<p>Mas acordar cedo não significa regressar a casa ao fim do dia. A distância, a falta de transportes públicos e o receio constante de furtos levaram Isolina a tomar uma decisão dura: dormir junto ao quiosque. Entre a rotunda de Vila Nova e o mercado são cerca de mil metros de estrada degradada, marcada por lama, buracos, pedaços de asfalto partido e pedras espalhadas pelo caminho.</p>
<p>“Sinto-me muito triste, porque já tenho esta deficiência e o mau estado da estrada cria ainda mais obstáculos. Como posso regressar a casa com frequência? É muito difícil ter acesso a transportes públicos”, desabafou.</p>
<p>A insegurança é uma presença constante. Num determinado dia, ladrões roubaram chapas de zinco e ferros destinados à construção do quiosque. “Depois dessa experiência, não posso deixar as minhas coisas sozinhas”, contou.</p>
<p>As más condições da estrada dificultam também o transporte de mercadorias. “É muito difícil convencer os motoristas a virem até aqui. Quando aceitam, pedem entre três e cinco dólares, dependendo da quantidade de produtos. Houve dias em que tinha apenas uma cesta pequena, não muito pesada, e tive de a transportar sozinha até ao mercado”, explicou.</p>
<p>Entre o peso da mercadoria, a limitação física e o abandono do espaço público, Isolina percorre todos os dias uma estrada que não foi feita a pensar nela — nem em quem, como ela, tenta sobreviver à margem da cidade.</p>
<p><strong>Sem água, sem casas de banho e sem respostas do Estado</strong></p>
<p>Na pequena estrutura onde Isolina Sarmento vive e trabalha, não há separações. Dentro da sua casinha improvisada, uma cama divide o espaço com os produtos do quiosque. Não existe um quarto separado e o chão é de terra batida. Dorme ali para conseguir descansar entre as vendas e, sobretudo, para proteger o pouco que tem. “Não tenho dinheiro suficiente para fazer tudo ao mesmo tempo. Tenho de fazer as coisas por partes, pouco a pouco”, explicou.</p>
<p>A falta de condições básicas é uma realidade diária no mercado de Tuanau e afeta não só Isolina, mas também outros vendedores e cidadãos. Um dos problemas mais graves é a escassez de água potável e o mau estado das casas de banho.</p>
<p>“Sabemos que, na zona de Vila Nova, é muito difícil ter acesso à água. Algumas vezes, funcionários do município trazem água, mas temos de a usar com muito cuidado, para aguentar até à próxima ajuda”, contou.</p>
<p>Quanto às instalações sanitárias, Isolina recorda que as autoridades de Baucau informaram que seriam colocados guardas para cuidar das casas de banho. No entanto, até hoje, diz não ter visto ninguém a desempenhar essa função.</p>
<p>“O que noto é que, sem água, aquelas casas de banho cheiram muito mal. Já vi pessoas a fazer as suas necessidades em qualquer lugar e, um dia, encontrei até um embrulho de resíduos corporais dentro de um saco de plástico, mesmo em frente ao meu quiosque”, relatou.</p>
<p>A degradação do espaço onde vive e trabalha não surgiu por acaso. Está diretamente ligada à mudança forçada do antigo mercado, no centro da cidade de Baucau, para o novo mercado de Tuanau — uma decisão administrativa que alterou profundamente a vida de Isolina Sarmento.</p>
<p>No mercado antigo, explica, as condições não eram ideais, mas eram significativamente melhores. “Os vendedores estavam perto da estrada, o que facilitava apanhar transportes públicos para ir comprar os produtos em pacotes maiores e depois vendê-los aos poucos”, contou.</p>
<p>No ano passado, o Governo determinou a transferência de todos os vendedores para o mercado de Tuanau, no âmbito de ações conduzidas pela SEATOU. Foi a partir desse momento que, segundo Isolina, começaram os problemas.</p>
<p>“A partir daí, começámos a enfrentar todas as dificuldades que já referi. Além disso, os rendimentos também deixaram de ser os mesmos. Ganhamos menos do que no mercado antigo”, afirmou.</p>
<p>Durante o processo de transição, alguns vendedores não conseguiram transportar todos os seus produtos para o novo espaço. Nesses casos, relatou, a equipa da SEATOU e as autoridades municipais procederam de imediato à apreensão dos bens que ficaram para trás.</p>
<p>“Não fiquei satisfeita com essa atitude. Prometeram alargar e melhorar a estrada, mas até hoje nada aconteceu”, criticou.</p>
<p>No novo mercado, explicou, algumas estruturas comerciais foram construídas pelo Governo, enquanto outras barracas foram erguidas pelos próprios vendedores, com recursos próprios. À equipa da SEATOU e às autoridades de Baucau coube apenas a indicação dos terrenos a utilizar. “Disseram-nos que estamos a usar aquele espaço de forma provisória e que o Governo vai construir mais edifícios. Mas não sabemos quando isso vai acontecer”, sublinhou.</p>
<p>Antes de iniciarem atividade no novo mercado, os vendedores tiveram de se registar para obter um lote de terreno. Todo o material necessário para a construção dos quiosques — chapas de zinco, ferros e outros equipamentos — foi adquirido pelos próprios vendedores.</p>
<p>“Não usamos dinheiro do Governo. Tivemos de nos desenrascar para comprar tudo. E, depois de comprarmos, ainda tivemos de lidar com roubos, porque os ladrões aproveitaram a situação”, contou.</p>
<p>A mudança de mercado, que deveria significar organização e melhores condições, acabou por empurrar Isolina Sarmento e muitos outros vendedores para uma realidade ainda mais precária — marcada pela ausência de serviços básicos, por decisões administrativas sem resposta e por uma sensação constante de abandono.</p>
<p><strong>Da infância pobre à deficiência: uma vida marcada pela perda e pelo trabalho precoce</strong></p>
<p>Isolina Sarmento começou a trabalhar ainda em criança. Cresceu numa zona remota de Uatucarbau, no município de Viqueque, onde vendia rebuçados na escola que frequentava. Quando alguns familiares se deslocavam para a cidade, a mãe dava-lhe dinheiro para comprar pacotes de rebuçados, que depois revendia.</p>
<p>O percurso escolar foi interrompido ainda no segundo ciclo do ensino básico.<br />
“Tomei essa decisão porque ninguém me dava dinheiro para comprar material escolar nem para cobrir as necessidades do dia a dia, mesmo com a escola gratuita. Os meus tios não podiam cuidar de mim, porque também tinham filhos. Os anos 90 foram muito difíceis, durante a ocupação indonésia”, recordou.</p>
<p>Mais tarde, quando os tios passaram a trabalhar na horta, produzindo milho, hortaliças, tomate e batata-doce, Isolina assumia a tarefa de vender os produtos. Regressava depois com o dinheiro, que entregava à família. “Eles partilhavam um pouco comigo”, contou.</p>
<p>Isolina perdeu o pai ainda bebé. “Durante a ocupação indonésia não havia câmaras para tirar fotografias. Os meus familiares contaram-me que o meu pai era professor, adoeceu e acabou por morrer. Não faço ideia de como era o rosto dele”, disse, visivelmente emocionada.</p>
<p>Em 2012, enfrentou outra perda profunda: a morte da mãe, vítima de cancro.<br />
“São momentos muito difíceis de esquecer. Pergunto-me porque tive de perder também a minha mãe. Não tenho irmãos. Fiquei sozinha. Graças a Deus, ainda tenho outros familiares que cuidam de mim”, desabafou.</p>
<p>A deficiência motora teve origem na infância. Aos cinco anos, caiu da cama enquanto dormia. Na altura, não foi levada ao hospital. “A minha mãe chamou apenas uma pessoa para fazer massagens. A situação agravou-se e tive febre durante quase um ano. Foi aí que as minhas costas começaram a mudar”, explicou.</p>
<p>Mais tarde, ao compreender a sua condição, viveu momentos de grande sofrimento emocional. “Fiquei muito stressada quando soube, mas, pouco a pouco, fui aceitando essa realidade”, concluiu.</p>
<p><strong>Discriminação, criatividade e um apelo ao Estado</strong></p>
<p>A vida de Isolina Sarmento é também marcada pela discriminação dirigida às pessoas com deficiência. Segundo relata, os preconceitos assumem várias formas: olhares de desprezo, insultos e classificações cruéis.</p>
<p>“Chamavam-nos de feios, cegos, diziam que eu tinha as costas malformadas. Os próprios familiares diziam isso”, contou. Durante muito tempo, nem sequer existia um termo adequado para designar as pessoas com deficiência. “Quando ainda não havia uma palavra certa para nos tratar, ficava muito triste. Depois, quando surgiu um termo específico, isso ajudou um pouco. Mas ainda há cidadãos que continuam a tratar-nos mal”, lamentou.</p>
<p>No mercado, a discriminação traduz-se também em rejeição económica. “Desprezavam-me e diziam que eu não sabia cuidar de mim, que não sabia arranjar-me ou tratar da minha aparência. Então iam comprar noutros quiosques”, relatou.</p>
<p>Apesar de tudo, Isolina encontrou na criatividade uma forma adicional de garantir rendimento. Para além da venda diária, dedica-se à transformação de guardanapos em diferentes modelos decorativos. Dobra-os e organiza-os em pratos, criando figuras como cestos, peixes, ananases e flores artificiais.</p>
<p>Recebe encomendas através de chamadas telefónicas, mensagens no Facebook e no WhatsApp. Conta que começou a aprender observando mulheres mais velhas em festas, ainda em criança.<br />
“Depois tentei aprender sozinha, até conseguir. Mais tarde, quando conheci o YouTube, o TikTok e outras plataformas, comecei a procurar mais referências e a aperfeiçoar os modelos”, explicou. Cada conjunto decorativo é vendido por valores entre três e nove dólares.</p>
<p>Segundo os dados do Censo de 2022, Timor-Leste tem 17.061 pessoas com deficiência, num universo de cerca de 1,3 milhões de habitantes. Até ao final de 2023, apenas cerca de oito mil beneficiavam de um subsídio estatal. A partir de 2024, passou a ser atribuída uma pensão mensal de 60 dólares.</p>
<p>“Antes do ano passado, recebíamos de seis em seis meses. Agora, recebemos de três em três meses, no total de 180 dólares”, explicou. Ainda assim, o apoio não chega. “Mesmo assim, tenho de fazer outros trabalhos para conseguir comprar comida e medicamentos.”</p>
<p>No final da conversa, Isolina deixou um apelo simples, mas firme: “Quero que o Governo crie centros de formação, para que possamos mostrar o nosso talento e ter outras oportunidades.”</p>
<p>O conteúdo <a href="https://www.diligenteonline.com/na-pele-de-isolina-deficiencia-discriminacao-e-sobrevivencia-num-mercado-sem-dignidade/">Na pele de Isolina: deficiência, discriminação e sobrevivência num mercado sem dignidade</a> aparece primeiro em <a href="https://www.diligenteonline.com">DILIGENTE</a>.</p>
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		<title>Na pele de um pescador desde os 8 anos: uma vida de mar e de esperança</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Antónia Martins]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 16 Jul 2025 12:29:40 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Destaque]]></category>
		<category><![CDATA[Mini reportagem]]></category>
		<category><![CDATA[Reportagens]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Rui Mendonça Mendes vai para o mar desde que tem memória. Natural de Aileu, escolhe as águas de Díli para obter rendimento. Carrega nas mãos a herança do pai – a dureza do mar e a esperança diária de garantir [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p><em>Rui Mendonça Mendes vai para o mar desde que tem memória. Natural de Aileu, escolhe as águas de Díli para obter rendimento. Carrega nas mãos a herança do pai – a dureza do mar e a esperança diária de garantir o sustento do lar.</em></p>
<p>Numa tarde de segunda-feira, perto das quatro da tarde, Rui Mendonça Mendes lança a rede ao mar, em frente ao Largo de Lecidere. Depois, volta a sentar-se à sombra de uma árvore, onde estão outros pescadores. Espera até ao pôr-do-sol para confirmar se o mar “foi amigo”.</p>
<p>“O mar sempre foi o meu sustento, o meu refúgio e, às vezes, o meu castigo. Pesco desde os oito anos, desde o momento em que o meu pai me levou para o mar pela primeira vez. Lembro-me de estar ali, junto das redes enroladas, num silêncio que só quem anda no mar sabe entender”, recorda Rui Mendes.</p>
<p>Agora com 40 anos, Rui começou desde cedo a conhecer o mar, apesar de vir da montanha. &#8220;Sou de Aileu e todos sabem que lá não há mar, mas, aqui em Díli, aprendi coisas sobre o mar, além de pescar. Foi o mar que me chamou, e eu não pude resistir. É uma paixão muito grande. Os anos passam e continuo a amar esta profissão, mesmo que, às vezes, o mar me pareça distante e frio”.</p>
<p>Pescar é o trabalho diário de Rui. “Posso pescar muito ou pouco, mas é a minha rotina. A pesca depende da sorte: muitas vezes, a captura é pequena e não passa dos 10 peixes. Quando isso acontece, levo-os para casa, para nos alimentarmos. Por outro lado, sinto uma tristeza profunda, porque não trouxe dinheiro sustentar da minha família”, confessa.</p>
<p>Quando o Rui ainda era criança, o seu pai contava que, no tempo dos portugueses, costumava ir a Díli e observava os portugueses a pescar. “O meu pai aproximava-se deles e, como era curioso, foi aprendendo as técnicas de pesca. A partir daí, começou a fazer a sua própria rede e, pouco depois, começou a pescar por conta própria”, recorda Rui.</p>
<p>Aos 8 anos, o pai chamou-o e disse-lhe que iriam pescar juntos. A primeira coisa que fez foi pegar na rede e levá-la até ao pai, mas percebeu logo que a rede era muito pesada, que a vida de pescador era dura. Não era uma questão de querer ou não, era uma necessidade e Rui tinha de estar pronto para aquele trabalho árduo.</p>
<p>“Na primeira vez em que entrei no mar, estava com medo. Mas sabia que precisava de ajudar o meu pai, porque a pesca era a nossa única forma de obter algum dinheiro para cobrir as necessidades diárias. Assim seguimos, mês após mês, a enfrentar o mar. Lembro-me bem do dia em que tudo mudou: o mar estava muito calmo e tinha chegado a minha vez de lançar a rede ao mar”, enfatizou o pescador.</p>
<p>“No barco, tínhamos de ‘combater’ as ondas. Tudo era diferente, aquele meio de transporte era uma novidade. O barco não segue as estradas, é levado pelas marés e pelas correntes. No mar, tudo à nossa volta é imprevisível”.</p>
<p>Rui recorda um momento particularmente difícil, quando enfrentaram uma tempestade – ondas fortes, chuva e vento – ali, no meio do mar. &#8220;A água começou a entrar e tivemos de usar baldes para tirar a água do barco. Isto, enquanto remávamos em direção à costa. Naquela época, não tínhamos motores para ajudar. Tudo dependia da força dos nossos braços”.</p>
<p>Nesse momento, o pai disse-lhe, com cansaço na voz, mas com uma determinação que o marcou, para nunca se deixar abater pelas dificuldades. &#8220;Se, hoje, eu olhar para a situação e perceber que não é boa, talvez hesite em entrar na água. Mas, quando chega o momento, a necessidade de trazer dinheiro para casa acaba por falar mais alto”, afirmou Rui.</p>
<p>Com as dificuldades que enfrentou ao longo dos anos, Rui agora pesca sozinho. &#8220;Comprei um barco para facilitar o meu trabalho diário. Por exemplo, hoje posso ganhar algum dinheiro, mas preciso de guardar um ou dois dólares para o dia seguinte. Se acabarmos o dinheiro hoje, não sabemos se conseguimos pescar novamente amanhã&#8221;.</p>
<p>Para Rui, criar o seu próprio sustento não é um trabalho como qualquer outro. Não é como trabalhar numa empresa, onde o salário é garantido e calculado mensalmente. &#8220;Trabalhamos por nossa conta. Dependemos da sorte, das condições do mar e das pessoas que compram. Em alguns momentos, a sorte não está ao nosso lado&#8221;. Às vezes, Rui e outros pescadores com diferentes embarcações chegam até à zona de Metinaro à procura de peixe. &#8220;Ninguém manda no nosso trabalho. Pescar depende da nossa habilidade e do nosso esforço”.</p>
<p>Rui chegou a trabalhar numa empresa, mas contrato acabou e voltou à pesca, o ofício que o acompanhou desde criança. &#8220;Preciso deste trabalho para alimentar a minha família e comprar materiais escolares para os meus dois filhos”.</p>
<p>Não há horário fixo para entrar no mar. &#8220;Às vezes, saímos de madrugada ou ao anoitecer. Depois de apanhar o peixe, vamos tentar vender. Vendemos em bancas. Por exemplo, 10 sardinhas custa um dólar. Se vendermos por quilo, o preço pode variar entre 5 e 10 dólares. Num dia, posso ganhar mais de 100 dólares. Mas, noutros dias, não ganho nada”.</p>
<p>Apesar das incertezas que o mar impõe todos os dias, Rui mantém-se firme na sua escolha. A pesca, que começou como uma herança do pai, tornou-se o seu modo de vida, uma profissão marcada pela instabilidade, mas também por um profundo sentimento de pertença.</p>
<p>A história de Rui é também a de muitos outros pescadores timorenses que dependem do esforço diário e da imprevisibilidade da natureza para sobreviver. O mar, para eles, é tanto um meio de sustento como um espelho das suas vidas.</p>
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		<title>Na pele de “Aida”: estudar ou casar à força</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Rilijanto Viana]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 27 Jun 2025 12:59:29 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Destaque]]></category>
		<category><![CDATA[Mini reportagem]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>&#8220;A minha família quis obrigar-me a casar, porque desconfiou que eu mantinha uma relação íntima com o meu namorado”. Aida, 17 anos, divide os seus dias entre a Escola Secundária Geral 10 de Dezembro, onde é finalista, e os espaços [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p><em>&#8220;A minha família quis obrigar-me a casar, porque desconfiou que eu mantinha uma relação íntima com o meu namorado”.</em> <em>Aida, 17 anos, divide os seus dias entre a Escola Secundária Geral 10 de Dezembro, onde é finalista, e os espaços públicos, onde vende café e cigarros para sobreviver, enquanto tenta adiar o casamento que a família quer impor.  </em></p>
<p>O relógio marca 08h15. Em frente ao Palácio do Governo, o mar está calmo e o vento sopra suavemente, trazendo uma leve sensação de frio. Estudantes, funcionários e vendedores ambulantes movimentam-se com a pressa habitual de quem tem um dia de trabalho pela frente. No meio da multidão, está uma estudante de uniforme. Carrega um termo de água quente numa mão e, na outra, uma pequena caixa de plástico com copos de papel, café, cappuccino, açúcar e leite condensado (Enaak). Caminha com cuidado, até encontrar um pouco de sombra debaixo de uma árvore.</p>
<p>Senta-se e começa a organizar os seus produtos, sempre atenta a quem por ali passa. De seguida, abre a mochila e tira uns maços de tabaco, empilhados com a ajuda de um elástico. Levanta-se, dá uns passos em frente, cabeça bem levantada, e começa a mostrar às pessoas os maços de tabaco que tem na mão, interpelando-as timidamente.</p>
<p>Aida (nome fictício), nasceu em Pante Macassar há 17 anos, no Oé-cusse. Mudou-se para Díli com a família, mas hoje já não partilham o mesmo teto. Mora em Beto Tasi e, sem que fizesse por isso, vê-se obrigada a acordar bem cedo, a vestir o uniforme escolar e a procurar uma praça ou a berma de uma estrada para vender café e cigarros. Ao meio-dia, compra um pacote de arroz, de 50 centavos, para almoçar, e segue diretamente para as aulas. &#8220;Tenho de vender cigarros, porque já formei família e preciso de dinheiro para pagar a escola e outras necessidades&#8221;,<em> explica</em>.</p>
<p>A jovem aceita partilhar um pouco do seu passado e conta que a história do casamento não é por vontade própria, mas sim por imposição da família. &#8220;Sentia-me muito triste em casa, porque estava sempre a ser repreendida pelos meus pais. Um dia, fui com o meu namorado visitar a sua família, em Tasi Tolu. Passámos lá o dia e, como já era tarde, os meus pais foram à minha procura. Quando chegaram, viram-me vestida com a camisa do meu namorado e começaram logo a desconfiar de que nós já teríamos tido relações sexuais. Tentámos explicar que não tínhamos dormido juntos, mas eles não acreditaram. Desde então, a minha família pressiona-nos para casar o mais rápido possível&#8221;<em>,</em> conta, num tom pesado.</p>
<p>Naquele momento, Aida tinha 16 anos. Os seus primos e tios terão ido a casa do namorado e agrediram violentamente o casal, deixando-os a sangrar. &#8220;A minha família achou que ele [o namorado] me tinha raptado. O pior foi dizerem que já tínhamos tido relações íntimas. Mas isso não aconteceu. Havia muita gente naquela casa. Não estávamos a sós&#8221;, revela a jovem.</p>
<p>Após as agressões, Aida e o namorado ponderaram apresentar queixa à polícia, mas mudaram de ideias. Afinal, os agressores eram os próprios tios. &#8220;Eles bateram-nos e dissemos que aquilo era crime. O meu tio só dizia: <em>‘</em>se quiserem apresentar queixa à polícia, então vão’. Mas decidimos não fazer, porque eram os nossos tios, e nós, como sobrinhos, não podíamos contrariar&#8221;, afirma.</p>
<p><strong>A família controla o “felizes para sempre”</strong></p>
<p>O casamento forçado continua a ser uma realidade em Timor-Leste. Embora não existam dados concretos sobre o número de jovens obrigados pelas famílias a casar, na sociedade timorense, de um modo geral, as pessoas casam cedo. Segundo um estudo de 2021 da Plan International, 24% dos jovens timorenses com 24 anos já têm filhos e 29% dos que têm 18 anos já estão casados.</p>
<p>O namorado de Aida tem agora 20 anos. Terminou o secundário no ano passado e ainda não conseguiu um emprego estável. O namoro começou em 2023, quando os dois frequentavam a Escola Secundária Geral 10 de Dezembro. Apesar de serem jovens, de não terem filhos, nem um casamento oficializado, os dois já são vistos como um casal. &#8220;Por enquanto, queremos apenas namorar. Casar, só depois de eu terminar os estudos e de termos um emprego fixo. Mas a minha família não aceita isso&#8221;, confessa.</p>
<p>O ambiente familiar mudou drasticamente e Aida foi expulsa de casa, com a própria família a acusá-la de ter tido relações sexuais com o namorado. A estudante teve de procurar outro lugar para viver. &#8220;Os meus pais já não me querem mais. Tive de sair de casa. Falei, então, com o meu namorado e ele mandou-me ir viver com um tio, que ainda é nosso vizinho, em Beto. Esse meu tio compreende a minha situação e aceitou receber-me&#8221;, recorda.</p>
<p>Aida confessa que a sua família ainda não aceita que ela viva com o seu parceiro. &#8220;Os meus tios estão à espera que a família do meu namorado venha primeiro conversar [com os tios] e só depois é que eu posso ir viver com o meu namorado&#8221;. A jovem acrescenta que as famílias já planeiam realizar, em agosto deste ano, uma reunião cultural para formalizar o casamento.</p>
<p><strong>A (de)pressão familiar</strong></p>
<p>Aida é a única filha do primeiro casamento da mãe. Os pais divorciaram-se quando ela ainda era pequena. Mais tarde, a mãe casou com outro homem, com quem teve três filhos. &#8220;A minha mãe e o meu pai adotivo não gostam de mim, nem do meu namorado, e não sabemos o motivo. O meu pai adotivo está sempre a reclamar com a minha mãe por minha causa e isso deixa-a irritada comigo&#8221;, diz, com um ar indignado.</p>
<p>A jovem vai mais longe e afirma ter sido alvo de pressões e maus-tratos por parte da mãe e do padrasto. A pressão, explica, era intensificada pela relação tóxica do casal, que deixava a mãe num estado depressivo. &#8220;A minha mãe chegou a pegar numa corda para se suicidar. Também agarrou numa faca para se esfaquear, só porque eu voltei tarde da escola, mesmo que lhe tenha explicado que aquele era o horário normal&#8221;. É com desespero no olhar que confessa: “ninguém me quer ouvir. Sinto-me sozinha e com peso na consciência&#8221;.</p>
<p><strong>Coragem para uma nova jornada </strong></p>
<p>Excluída do agregado familiar, Aida passou a ser livre e independente. A mãe e o pai já não querem pagar a escola, nem dar dinheiro para transportes ou para outras necessidades. A liberdade, porém, não a desvia do objetivo de concluir os estudos. &#8220;Eu não posso abandonar a escola, tenho de terminar. Por isso, conversei com o meu namorado e começámos os dois a vender cigarros e café na beira da estrada. Assim, conseguimos cobrir as nossas despesas&#8221;, assegura.</p>
<p>De manhã cedo, antes de sair de casa, ajuda nos trabalhos domésticos, na casa do tio: lava a loiça e limpa a casa. Depois, toma banho, veste o uniforme e sai para vender os produtos. Na mochila, leva sempre a camisa da escola, cadernos, lápis e, claro, os cigarros para vender.</p>
<p>&#8220;Não tenho medo de vender nas ruas, porque esta é a minha vida agora. Sou uma filha que foi expulsa de casa&#8221;, diz, com um leve sorriso nos lábios. A coragem, conta, “está sempre presente” e, quando começa a faltar, são os colegas da escola que lhe dão apoio.</p>
<p>Os produtos que vende são comprados pelo seu parceiro, que chegou a trabalhar na construção civil, em Bidau. &#8220;Com o pouco dinheiro que temos, compramos os cigarros para fazer este pequeno negócio. Assim, o dinheiro continua a circular nas nossas mãos. Caso contrário, se surgisse uma emergência, onde iríamos buscar dinheiro? Ainda mais agora, que a família já não quer saber de nós&#8221;.</p>
<p>Fazem turnos para vender nas ruas – “eu vendo de manhã, até ao meio-dia, e ele à tarde, até à meia-noite&#8221;<em> –</em> e tentam combater o cansaço com motivação. “Se não vendermos, quem vai dar dinheiro para comprar cadernos, lápis, tirar fotocópias e para outras necessidades? Os meus pais dizem que já formei uma casa. Agora tenho de encontrar meios para não passar fome”, desabafa.</p>
<p>Em frente ao Palácio do Governo há muitos jovens a vender cigarros e café. As vendas são incertas e tudo “depende da sorte. Às vezes, das oito da manhã até ao meio-dia, só consigo cinco ganhar dólares. Mesmo que seja pouco, eu agradeço sempre&#8221;.</p>
<p>É com alguma tristeza que olha para a rotina de outros jovens, que apenas “colocam o uniforme e seguem diretamente para as aulas”. É nesse momento que o sonho de ser médica se sobrepõe ao cansaço e ao desânimo perante a vida. Aida garante que, &#8220;depois de terminar o secundário, quero descansar um ano para procurar dinheiro e só depois é que vou voltar a estudar&#8221;.</p>
<p>Embora reconheça que a medicina seja uma área que exige muito empenho “e dinheiro para pagar a formação”, a jovem garante que vai estudar com dedicação para alcançar o seu sonho. “Tenho de lutar para ter um futuro melhor&#8221;.</p>
<p><strong>Impactos do casamento precoce </strong></p>
<p>A Plan International destaca que o casamento precoce é uma barreira que leva muitos jovens, tanto raparigas como rapazes, a abandonarem a escola. A organização acrescenta que a situação pode resultar “em dificuldades no acesso ao mercado de trabalho, menor produtividade, maior vulnerabilidade e no risco de se tornarem vítimas de violência, discriminação e exclusão social, tanto na comunidade, como na sociedade em geral”.</p>
<p>Em 2023, o Parlamento Nacional aprovou a Lei de Proteção de Crianças e Jovens em Situação de Perigo (Lei n.º 6/2023, de 01 de março), com o objetivo de promover e garantir os direitos das crianças e jovens, bem como assegurar a sua proteção e bem-estar. Esta lei estabelece que as crianças têm o direito de receber proteção especial por parte da família, da comunidade e do Estado, além do direito à proteção social e ao usufruto dos direitos fundamentais consagrados na Convenção sobre os Direitos da Criança.</p>
<p>O Artigo 18.º da Constituição da República Democrática de Timor-Leste (CRDTL) garante, enquanto princípio geral, o direito das crianças a obter proteção especial por parte da família, da comunidade e do Estado.</p>
<p>A CRDTL e o Código Civil referem que o casamento se deve basear no consentimento livre e mútuo dos noivos. Casamentos forçados podem ser considerados ilegais, especialmente se envolverem menores de idade.</p>
<p>Para o psicólogo timorense, Ângelo Aparício, quando uma pessoa ainda não está devidamente preparada para formar uma família, pode vir a evidenciar sintomas de frustração, ansiedade e perda de controlo emocional. O especialista acrescenta que o casamento precoce pode “ferir emocionalmente os casais”, levando-os a sentir que perderam muitas oportunidades durante a sua juventude.</p>
<p>O psicólogo defende a inclusão de disciplinas que abordem a saúde reprodutiva e o planeamento familiar no currículo escolar, a partir do terceiro ciclo do ensino básico, sem esquecer a responsabilidade parental no acompanhamento do percurso escolar dos filhos. &#8220;Devem ser aplicadas sanções rigorosas aos pais ou tutores que não apoiem a educação dos filhos até ao ensino secundário ou que permitam o casamento precoce&#8221;<em>,</em> reforça, alertando para a urgência de uma lei que estabeleça os “21 anos, ou mais, como idade mínima para casar”.</p>
<p>O Governo e as organizações da sociedade civil vão divulgando planos, ações de sensibilização e intervenções na comunidade para falar de direitos das mulheres e das crianças. A realidade, porém, mostra que ainda há um longo caminho a percorrer e que, tanto a sociedade, como as próprias famílias, continuam a permitir (e a silenciar) situações de perigo e de vulnerabilidade que envolvem crianças e jovens. A história de Aida espelha a realidade de muitas crianças e jovens timorenses, muitas delas abafadas pela “cultura” e por valores que as fazem viver no medo, no silêncio e na solidão.</p>
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		<title>Na pele de Feliciana: sentada aos pés do proclamador, resiste a um país que não a vê</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Rilijanto Viana]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 20 Jun 2025 09:40:23 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Destaque]]></category>
		<category><![CDATA[Mini reportagem]]></category>
		<category><![CDATA[Reportagens]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Aos 72 anos, Feliciana Mendonça senta-se todos os dias junto à estátua do proclamador da independência para vender folhas de bétel e nozes de areca. Viúva, vítima de tragédias familiares e de agressões por parte da equipa de gestão do [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify; line-height: 150%;"><i>Aos 72 anos, Feliciana Mendonça senta-se todos os dias junto à estátua do proclamador da independência para vender folhas de bétel e nozes de areca. Viúva, vítima de tragédias familiares e de agressões por parte da equipa de gestão do mercado de Díli, resiste ao sol e ao cansaço para alimentar a família e manter alguma dignidade.</i></p>
<p>Quase todos os dias, Feliciana Mendonça senta-se em silêncio em frente à estátua do proclamador da independência, Francisco Xavier do Amaral, para lutar pela sua sobrevivência. Apesar de já ter sido agredida pela equipa de gestão do mercado, esta viúva de 72 anos nunca desistiu de sustentar a sua família.</p>
<p>Segundo o Índice de Pobreza Multidimensional da ONU de 2023, cerca de 42% dos 1,3 milhões de habitantes de Timor-Leste vivem em situação de vulnerabilidade e mais de 24% sobrevivem com menos de 2,15 dólares por dia.</p>
<p>O caso de Feliciana não é único: muitos timorenses, sobretudo idosos, mulheres e vendedores informais, enfrentam diariamente a exclusão social e económica num país onde a pobreza ainda dita o destino de muitos.</p>
<p>Sentada humildemente à beira da estrada, Feliciana exibe um rosto vincado, cabelos brancos e um corpo sem forças. Sobre o passeio por onde todos passam apressados, estende uma lona velha de cerca de 50&#215;50 cm para vender o que pode: noz de areca seca, folhas de bétel, tabaco timorense, banana frita e óleo de cobra.</p>
<p>Não tem banco, nem sombra. A sua única proteção é o muro do Ministério dos Transportes e Comunicações, onde se encosta para tentar aliviar o corpo aquecido pelo sol. Muitas vezes, sente tonturas e fraqueza, mas esta mãe de quatro filhos não desiste da sua luta diária.</p>
<p>Há mais de dez anos que Feliciana sobrevive com este negócio, apesar de ser duro e pouco rentável. Sorridente e generosa, tornou-se uma figura familiar para quem por ali passa. Às vezes, recebe caridade de alguns transeuntes, embora essa nunca tenha sido a sua intenção.</p>
<p>A estátua de Francisco Xavier do Amaral é, para ela, um silencioso testemunho de resistência. Foi ali, naquele mesmo passeio, que sofreu agressões por parte da equipa de gestão do mercado do Município de Díli, que lhe apreendeu os produtos — a sua única fonte de rendimento.</p>
<p>Natural de Aileu, vive atualmente em Caicoli com o seu filho mais novo. Casou duas vezes, mas já não se recorda em que anos perdeu os maridos. Do primeiro casamento teve três filhos, dos quais dois faleceram — um num incêndio em Caicoli e uma filha pouco depois de nascer. Do segundo casamento nasceu outro filho, que já tem família, mas ainda não encontrou trabalho.</p>
<p>Sem ninguém que a possa sustentar, Feliciana assume todas as responsabilidades. Sai de casa às cinco da manhã e regressa apenas ao final da tarde. “Os meus filhos não trabalham. Sou eu quem vem vender aqui para sustentar as necessidades da casa. Se o meu primeiro filho não tivesse morrido, ele nunca me deixaria vender à beira da estrada como agora”, contou, com a voz a tremer.</p>
<p>Recorda, com dor, o acidente que lhe tirou o filho mais velho. Há 12 anos, ele vendia gasolina e um balde com um furo provocou um derrame até à cozinha, originando um incêndio. “O fogo queimou todo o meu corpo e a cabeça, mas mesmo assim consegui correr. O meu filho ficou lá dentro. Os vizinhos vieram ajudar a levar-me ao hospital, mas não o conseguiram salvar.”</p>
<p>Fala do filho com orgulho. “Era trabalhador. Quando nos visitava e via que não tínhamos sal ou arroz, ia buscar e deixava na cozinha. O resto do dinheiro, colocava na minha carteira sem eu dar por isso.”</p>
<p>Desde a morte do filho e dos maridos, Feliciana foi obrigada a montar o seu pequeno negócio à beira da estrada. “Já sou idosa e não tenho forças para andar muito. Se me obrigarem a sair daqui, onde vou ganhar a vida? Quem me dá dinheiro para comprar arroz, sal e óleo para comer?”, pergunta, enquanto rega cuidadosamente as folhas de bétel para que não murchem.</p>
<p>Antes, vendia em Audian, mas foi recusada pelos colegas de venda quando pediu para partilhar o espaço junto a uma loja chinesa. “Ninguém me deu lugar. Trouxe os meus produtos para aqui, mas o coração está sempre inquieto, com medo de que me prendam.”</p>
<p>Feliciana relembra um episódio de humilhação: no ano passado, a equipa de gestão municipal apreendeu todos os seus produtos e proibiu-a de voltar a vender no passeio. “Levaram tudo — noz de areca, folhas de bétel, óleo de cobra e as bananas fritas — e meteram dentro do carro. Fiquei sentada, a olhar, com paciência. Se levam para o Estado, tudo bem. Mas se for para uso próprio, cuidado, porque não se deve roubar o que outros vendem aqui com esforço.”</p>
<p>Parte dos produtos não eram dela. O óleo de cobra e as bananas fritas pertencem a vizinhos que lhos entregam para vender à beira da estrada. “Depois de tudo vendido, dão-me um dólar, como pagamento pelo meu cansaço.”</p>
<p>Cada noz de areca custa 50 centavos. As folhas de bétel embrulhadas em folha de bananeira também custam 50 centavos. As folhas mastigáveis com borracha custam 25. O óleo de cobra, em frascos de bebidas energéticas, vende-se a cinco dólares. As bananas fritas, a 50 centavos.</p>
<p>Questionada sobre a razão de não produzir os próprios produtos, responde: “Já não tenho força. As bananas e o óleo têm de ser comprados, e eu não tenho dinheiro. Além disso, como sou idosa, se fritar as bananas pode nem ficar bom para os outros comerem. Por isso, prefiro vender só a noz e o bétel.”</p>
<p>Mesmo que ninguém compre, continua ali sentada, sem perder a esperança. “Às vezes, só faço um dólar por dia. Com esse dinheiro, recarrego a eletricidade ou compro hortaliças para o jantar.”</p>
<p>O que mais a entristece é o preço do arroz. “Muitas vezes, não consigo comprar um saco, porque está caro. Compro o arroz avulso. Às vezes, comemos só arroz sem mais nada. Paciência.”</p>
<p>Atualmente, recebe 240 dólares do apoio a idosos, de três em três meses. Mas esse dinheiro, diz, mal dura um mês. “Tenho de pagar a escola dos meus netos e cobrir as necessidades do dia a dia.”</p>
<p>Em Timor-Leste, considera-se que a terceira idade começa aos 60 anos. De acordo com os dados do censo de 2022, o país tem uma população de 1,3 milhões de habitantes, dos quais 75 mil têm 60 anos ou mais, sendo 34,8 mil homens e 40,2 mil mulheres. A partir de 2024, os idosos (com 60 anos ou mais) começaram a receber uma pensão de velhice no valor de 60 dólares por mês para os que têm entre 60 e 69 anos, 80 dólares para os que têm entre 70 e 79 anos, e 100 dólares para os que têm 80 anos ou mais.</p>
<p>Muitos pensam que Feliciana é pedinte. Um dia, um estrangeiro aproximou-se e deixou moedas à sua frente. “Fiquei na dúvida. Não estou aqui a pedir. Mas ele disse que podia aceitar. Eram dois dólares. Fiquei contente.”</p>
<p>Confessa que sempre reza por quem compra os seus produtos. “Antes de dormir, peço a Deus para proteger quem me ajuda. É o mínimo que posso fazer.”</p>
<p>Quando lhe perguntaram por que escolheu sentar-se precisamente ali, em frente à estátua do proclamador, respondeu com um sorriso: “É para que o avô Xavier veja que ainda há muitos timorenses a sofrer. Peço-lhe todos os dias que os meus produtos sejam comprados depressa, para eu poder comprar comida. Viver aqui em Díli é difícil.”</p>
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		<title>Na pele de uma criança vendedora de cigarros: quando os sonhos resistem à pobreza e ao abandono</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Joana Silva]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 06 Jun 2025 10:12:54 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Destaque]]></category>
		<category><![CDATA[Mini reportagem]]></category>
		<category><![CDATA[Reportagens]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Amanu tem 13 anos e vende cigarros na rua para ajudar os pais e o irmão desempregado. Teve de abandonar a escola depois de vários episódios de agressão por parte de colegas, mas continua a sonhar: quer ser motorista de [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p><em>Amanu tem 13 anos e vende cigarros na rua para ajudar os pais e o irmão desempregado. Teve de abandonar a escola depois de vários episódios de agressão por parte de colegas, mas continua a sonhar: quer ser motorista de autocarro, renovar a casa dos pais e voltar a estudar.</em></p>
<p>No meio da agitação constante da cidade de Díli, onde quase não há silêncio, um rapaz chamado Zenino Pires, de 13 anos, mais conhecido por Amanu, pode ser visto todos os dias a vender cigarros numa esquina da zona do Largo Lecidere. De roupas simples e sorriso persistente, enfrenta o sol escaldante para ajudar os pais idosos.</p>
<p>Filho de pequenos agricultores de Watulari, Amanu cresceu no seio de uma família modesta. Tem um irmão mais velho, que também sustenta a família. Há um ano, ainda era aluno do ensino básico em Watulari. Deveria estar no sexto ano. Mas agora, é uma criança que já não estuda e que migrou para a capital para procurar sustento. Não foi a preguiça que o afastou da escola, mas sim a violência repetida por parte de colegas. “Da última vez, obrigaram-me a comprar cigarros para eles. Como recusei, bateram-me”, contou Amanu.</p>
<p>A recordação mais marcante foi quando foi agredido com um pedaço de madeira por vários colegas. “Bateram-me porque diziam que eu tinha agredido o irmão de um deles. Mas não fui eu. Essas coisas já aconteciam há muito tempo”, recordou em voz baixa.</p>
<p>A decisão de abandonar a escola deixou os pais inquietos. Ainda assim, Amanu insistiu em vir ter com o irmão mais velho, que já estava em Díli, para o ajudar e, um dia, voltar a estudar. Vive agora com ele e ajuda a vender cigarros nas ruas. Antes disso, vendia peixe em Watulari. “A minha mãe e o meu pai não disseram nada, mas sei que ficaram desiludidos”, confessou. O irmão concluiu a universidade, mas continua desempregado, por causa da crise económica e de um sistema marcado pelo nepotismo. “O meu irmão já se formou, mas ainda não conseguiu emprego”, disse Amanu com inocência.</p>
<p>Enquanto outras crianças brincam, Amanu procura formas de ganhar dinheiro. E quando lhe perguntam o que sonha ser, a resposta é simples, mas invulgar: “Quero ser cobrador de autocarro e aprender a conduzir. Depois quero ser motorista e juntar dinheiro para comprar o meu próprio autocarro.”</p>
<p>Uma criança pequena já traçou um futuro inteiro, mesmo sob a sombra da pobreza. Os pais vivem numa casa com paredes de madeira. “Quando tiver o meu próprio autocarro e muito dinheiro, a primeira coisa que vou fazer é arranjar a casa da minha mãe e do meu pai”, disse cheio de esperança.</p>
<p>É o retrato de uma criança que tenta sobreviver ao lado do irmão, numa cidade grande. Os cigarros que vende custam 25 centvados cada e trabalha das primeiras horas da manhã até ao início da tarde. Ganha—se tiver sorte—cerca de 20 dólares por dia. O dinheiro é todo para sustentar a família. “No início, o meu irmão não me deixou ajudar. Mas como estávamos com pouco dinheiro e eu queria muito contribuir, acabou por deixar”, disse em voz baixa.</p>
<p>Atualmente, os dois vivem com um familiar e enfrentam, juntos, as dificuldades da vida em Díli. Embora a Constituição de Timor-Leste reconheça o direito das crianças à proteção contra negligência, abuso e exploração, a realidade está longe da lei.</p>
<p>Segundo a Comissão Nacional de Combate ao Trabalho Infantil, entre 2016 e 2022 foram identificadas quase 52 mil crianças, dos 5 aos 17 anos, envolvidas em formas de trabalho inadequadas à sua idade. Já os dados do censo de 2022 apontam que uma em cada cinco crianças entre os 6 e os 18 anos está fora da escola. Entre os jovens dos 19 aos 29 anos, 70% já não continuam os estudos. No total, cerca de 45% dos timorenses entre os 3 e os 29 anos estão fora da educação formal.</p>
<p>A história de Amanu é o retrato de um sistema que falha em proteger os mais novos. Com apenas 13 anos, viu-se forçado a abandonar a escola por não se sentir seguro. Para sobreviver, passou a vender cigarros, a única forma de ajudar a família. O Estado promete proteção, mas Amanu tem de garantir o pão de cada dia.</p>
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		<title>Na pele de uma mãe pedinte que espera no escuro por um futuro melhor</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Antónia Martins]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 31 May 2025 09:38:09 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Destaque]]></category>
		<category><![CDATA[Mini reportagem]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Quase todas as noites, Martinha senta-se com a filha no passeio de uma rua de Díli à espera de um gesto de solidariedade. Viúva e sem emprego, vive com três filhos numa casa que não os protege da chuva. Pede [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p><em>Quase todas as noites, Martinha senta-se com a filha no passeio de uma rua de Díli à espera de um gesto de solidariedade. Viúva e sem emprego, vive com três filhos numa casa que não os protege da chuva. Pede ajuda ao Estado para recomeçar — mas ninguém lhe responde.</em></p>
<p>A noite cai em Bidau, uma zona movimentada da cidade de Díli. Em frente a uma loja encerrada, uma mãe e a sua filha pequena sentam-se no passeio, envoltas na escuridão e na esperança de um gesto de solidariedade de quem passa. É uma imagem dura, comovente, que se repete quase todos os dias, mas que continua a passar despercebida a muitos.</p>
<p>Martinha de Almeida tem cerca de 40 anos e carrega sozinha o peso de criar três filhos. Casou-se duas vezes. Do primeiro casamento nasceram dois filhos. Do segundo, uma filha. Desde a morte do segundo marido, em 2021, a estabilidade desapareceu e a responsabilidade recaiu inteiramente sobre ela. “Quando o meu segundo marido estava vivo, nunca faltava comida em cima da mesa. Ele trabalhava como guarda numa embaixada. Eu cuidava das crianças de famílias ricas”, recorda.</p>
<p>Sem emprego fixo, sem apoio do Estado e com ajuda familiar escassa, Martinha viu-se obrigada a pedir esmola na rua. Desde 2022, senta-se à noite em frente a uma loja em Bidau. Quem por ali passa, como guardas e vendedores de bananas, já conhece o seu rosto. “Muita gente passa por aqui. Essas pessoas conhecem o meu caso”, conta.</p>
<p>Martinha vive com os filhos em Bemori, numa casa precária onde a água da chuva entra pelo teto. “Quando chove, a água entra através do teto”, descreve. Às vezes, só há canja para comer. Quando pode, vai ao convento das madres pedir ajuda para comprar arroz, sabão e outros bens essenciais. “Nem sempre recebo doações. Às vezes são dois ou três dólares por dia, e tenho de os fazer durar durante dois ou três dias”, lamenta.</p>
<p>Os filhos também sentem o peso da pobreza. O mais velho tem 18 anos, o segundo 12 e a menina mais nova, que a acompanha à noite, tem cerca de cinco anos e ainda não frequenta a escola. Os dois rapazes foram forçados a abandonar os estudos devido às dificuldades económicas. “Não há dinheiro. Os dois mais velhos já deixaram de estudar”, lamenta Martinha. Um deles frequentava a escola Nobel da Paz, onde a mensalidade é de quatro dólares. “Os professores também pediram para comprar uniformes, mas não temos dinheiro. Por isso, eles tentaram procurar trabalho. Qualquer coisa: lavar roupa, pequenos serviços. Mas não encontraram nada.”</p>
<p>Agora, ajudam a mãe a tentar sobreviver. Apesar do esforço, ninguém os quer contratar. Martinha sofre de colesterol elevado e de dores nas pernas, o que dificulta a sua mobilidade. “Tomei os medicamentos receitados pelos médicos, mas não vejo efeito”, afirma. Trabalhou como empregada doméstica, mas foi despedida por já não conseguir estar muito tempo de pé. “Até hoje continuo à procura de trabalho, mas ninguém quer empregar nestas condições.”</p>
<p>Desde dezembro do ano passado, tem batido de porta em porta: foi a Taibessi, Comoro, várias lojas chinesas. Pediu para lavar roupa, fazer limpezas, qualquer trabalho. “Olham para a minha maneira de andar e ficam com medo de me contratar”, desabafa.</p>
<p>&#8220;Para conseguir sabão para lavar a roupa, ainda tenho de pedir ajuda às irmãs (madres), e o arroz que conseguimos comer muitas vezes vem do dinheiro que recebo à noite&#8221;, acrescenta.</p>
<p>Martinha deixou de estudar no segundo ciclo do ensino básico devido a uma grave crise de asma. A sua rotina é simples e dura: limpa a casa, prepara o pequeno-almoço — quase sempre canja — e cultiva papaieiras. “Com sorte, às vezes conseguimos comer carne. Quando tenho algum dinheiro, compro ovos e sate. Mas, numa semana, só dá para comer uma vez.”</p>
<p>Nos dias em que ainda tem alguma comida, fica em casa. Nos outros, sai para as ruas de Díli a pedir ajuda. O seu maior desejo é ver os filhos de volta à escola. “Mas o Governo ainda não deu qualquer apoio. Já fui ao Ministério da Solidariedade Social, mas não recebi nada. Sou viúva. Ninguém me ajuda. Outros familiares recebem apoio do ministério. Eu, não”, lamenta.</p>
<p>Martinha sentiu-se especialmente injustiçada quando viu um vídeo no YouTube, onde a Ministra da Solidariedade Social e Inclusão ajudava uma família em Lagoa de Tasi-Tolu. “Fiquei com inveja. Aquela mulher tinha marido, arrendaram casa, e a equipa do ministério ajudou logo. E a mim? Nada. Parece que não sou cidadã.”</p>
<p>Acredita que, com um pequeno apoio, conseguiria mudar a sua situação. “Se o Governo me ajudasse, já estaria a vender arroz embrulhado ou cigarros. Só preciso de 100 ou 150 dólares para abrir um pequeno negócio.”</p>
<p>Apesar das dificuldades, recusa-se a enveredar por caminhos errados. “Os meus familiares às vezes ajudam, mas não é sempre. E antes de darem algum dinheiro, temos de ouvir insultos. Isso faz-me sentir mal. Por isso, decidi sentar-me aqui. É melhor pedir do que roubar.”</p>
<p>A história de Martinha é o espelho da realidade de muitos timorenses. Segundo o Índice de Pobreza Multidimensional da ONU de 2023, cerca de 42% dos 1,3 milhões de habitantes de Timor-Leste vivem em situação de vulnerabilidade e mais de 24% sobrevivem com menos de 2,15 dólares por dia.</p>
<p>O Censo de 2022 revela que 20% das crianças entre os 6 e os 18 anos não frequentam a escola. Entre os 19 e os 29 anos, a taxa de abandono sobe para 70%. Além disso, 45% da população entre os 3 e os 29 anos não tem acesso à educação.</p>
<p>O conteúdo <a href="https://www.diligenteonline.com/na-pele-de-uma-mae-pedinte-que-espera-no-escuro-por-um-futuro-melhor/">Na pele de uma mãe pedinte que espera no escuro por um futuro melhor</a> aparece primeiro em <a href="https://www.diligenteonline.com">DILIGENTE</a>.</p>
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		<title>Na pele de José de Araújo, o jovem que recusa caridade e desafia a exclusão</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Lourdes do Rego]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 12 May 2025 10:10:36 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Destaque]]></category>
		<category><![CDATA[Mini reportagem]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>José de Araújo tem 30 anos, uma deficiência física e uma vontade inabalável de vencer. Com a sua bicicleta de três rodas, percorre diariamente as ruas de Díli a engraxar e consertar sapatos. Recusa viver da caridade e luta todos [&#8230;]</p>
<p>O conteúdo <a href="https://www.diligenteonline.com/na-pele-de-jose-de-araujo-o-jovem-que-recusa-caridade-e-desafia-a-exclusao/">Na pele de José de Araújo, o jovem que recusa caridade e desafia a exclusão</a> aparece primeiro em <a href="https://www.diligenteonline.com">DILIGENTE</a>.</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p><em>José de Araújo tem 30 anos, uma deficiência física e uma vontade inabalável de vencer. Com a sua bicicleta de três rodas, percorre diariamente as ruas de Díli a engraxar e consertar sapatos. Recusa viver da caridade e luta todos os dias pelo seu sustento com dignidade.</em></p>
<p>Todos os dias, José de Araújo pedala pelas ruas de Díli com uma missão: ganhar a vida a engraxar e consertar sapatos. Aos 30 anos, recusa viver da caridade e luta com coragem e determinação para conquistar o seu sustento. É o mais novo de doze irmãos, nasceu com uma deficiência física, mas nunca perdeu a vontade de ser independente — nem a esperança de construir um futuro melhor para si e para os pais.</p>
<p>O relógio marca dez da manhã. As motas e os carros atravessam apressados a estrada em direção a Caicoli. No meio do movimento, surge uma bicicleta de três rodas. No assento, vai José de Araújo, carregado de sapatos e de força de vontade. O jovem, natural de Viqueque, vive atualmente em Camea, Becora, e percorre todos os dias vários bairros de Díli, das 8h às 18h, à procura de quem precise dos seus serviços de sapateiro ambulante.</p>
<p>José é o único dos 12 irmãos com deficiência física. Conta que teve uma infância saudável, mas aos três anos começou a ter febres altas. Os pais levaram-no ao hospital e, segundo acredita, o medicamento administrado na altura poderá ter causado a sua condição. Tentaram depois tratamentos tradicionais, mas sem sucesso. Desde então, convive com as limitações, mas nunca com o desânimo. “Eu sinto-me feliz e satisfeito. Não guardo mágoas de ninguém. Aproveito a vida que tenho”, afirma com serenidade.</p>
<p>Não se deixou abater pelo estigma nem pela discriminação. Pelo contrário: fez dos preconceitos alheios combustível para continuar. “Alguns diziam que eu nunca conseguiria estudar, mas com esforço e com o que ganhei neste trabalho, consegui formar-me.” Em 2024, concluiu o curso no Departamento de Direito da Deficiência do Instituto de Tecnologia de Díli (DIT, sigla em inglês).</p>
<p>Foi na escola padre Andrade, em Aimutin, que aprendeu a engraxar sapatos, durante uma formação de três anos. Depois de terminar os estudos, decidiu apostar naquilo que sabia fazer bem. Desde então, é com essa habilidade e com as próprias mãos que constrói o seu sustento. Nunca recebeu apoios: “Comprei todo o material com o meu próprio dinheiro. Um rolo de algodão custa um dólar, uso-o para engraxar sapatos e cobro dois dólares.”</p>
<p>Por cada par de sapatos — masculinos ou femininos — cobra dois dólares. Para botas, o preço sobe para cinco, já que exige graxa e couro mais resistentes. Há dias em que arrecada apenas quatro dólares, noutros consegue dez. “Nunca quis ficar à espera que alguém me ajudasse. Quero mostrar à sociedade que nós, pessoas com deficiência, também somos capazes de trabalhar.”</p>
<p>José recebe um subsídio do Estado de 180 dólares, de três em três meses, mas afirma que isso não chega. “Não posso depender só disso. Preciso de sabão, detergente, outras necessidades do dia a dia. Por isso, aprendi a procurar os meus próprios meios.”</p>
<p>Defende que o Governo não pode olhar apenas para casos individuais, mas deve criar condições para que todas as pessoas com deficiência possam viver com dignidade. Um dos grandes obstáculos, aponta, é a falta de acessibilidade. Os bairros onde trabalha muitas vezes não têm condições para ele circular com a bicicleta. “Alguns motoristas andam com muita velocidade e quase nos atropelam. Por isso, andamos por caminhos mais estreitos, mais difíceis.”</p>
<p>Pede ao Governo que construa vias seguras e espaços próprios para pessoas com deficiência poderem exercer as suas atividades. “O Governo proibiu agora que se trabalhe na berma da estrada. Eu preciso de um local fixo, sossegado, onde possa prestar os meus serviços com segurança. Caminhar neste calor, com chuva e em ruas cheias de poeira, afeta muito o meu trabalho.”</p>
<p>Quando sente fome, conta com o apoio de amigos que vendem arroz na rua. “Como ali e pago no fim do mês. Eles conhecem-me e compreendem a minha situação.”</p>
<p>Com o dinheiro que tem conseguido juntar, já comprou 50 chapas de zinco para construir uma casa para os pais. Faltam o cimento, a areia, o alumínio. “Estou a esforçar-me para comprar o resto dos materiais. Quero que os meus pais sintam orgulho do resultado do meu trabalho.”</p>
<p>De sorriso fácil e voz firme, José deixa ainda uma mensagem aos jovens: “Aproveitem as vossas habilidades para ganhar dinheiro. Não fiquem só à espera da ajuda dos outros. Isso só vos ensina a ter preguiça de trabalhar.”</p>
<p>Em Timor-Leste, de acordo com o Censo de 2022, existem 17 061 pessoas com deficiência — 8517 homens e 8544 mulheres. Mas nem todas têm a mesma oportunidade ou força para se levantar todos os dias e pedalar contra as dificuldades, como faz José de Araújo.</p>
<p>O conteúdo <a href="https://www.diligenteonline.com/na-pele-de-jose-de-araujo-o-jovem-que-recusa-caridade-e-desafia-a-exclusao/">Na pele de José de Araújo, o jovem que recusa caridade e desafia a exclusão</a> aparece primeiro em <a href="https://www.diligenteonline.com">DILIGENTE</a>.</p>
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		<title>Na pele de uma vendedora esquecida</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Lourdes do Rego]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 29 Apr 2025 12:32:11 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Destaque]]></category>
		<category><![CDATA[Mini reportagem]]></category>
		<category><![CDATA[Reportagens]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Todos os dias, Maria da Costa senta-se sozinha debaixo de uma árvore, em frente à padaria Brasão, em Díli, estendendo sobre um tapete gasto os sacos de pano que vende para sobreviver. Viúva desde a ocupação indonésia, sem estudos e [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p><em>Todos os dias, Maria da Costa senta-se sozinha debaixo de uma árvore, em frente à padaria Brasão, em Díli, estendendo sobre um tapete gasto os sacos de pano que vende para sobreviver. Viúva desde a ocupação indonésia, sem estudos e com a saúde debilitada, sustenta a família como pode, resistindo à pobreza e à dureza dos dias.</em></p>
<p>No meio da correria de Díli, onde o cheiro a pão quente se mistura com o pó da rua, uma mulher senta-se todos os dias debaixo da sombra generosa de uma árvore. Sem banca, sem proteção, apenas com um tapete gasto, Maria da Costa, que diz não saber ao certo a sua idade, expõe os seus sacos de tecido — a única fonte de sustento que ainda lhe resta.</p>
<p>Em frente à padaria Brasão, enquanto carros e motorizadas passam apressados, Maria resiste ao esquecimento, lutando silenciosamente pela sobrevivência, com a dignidade de quem nunca baixou os braços.</p>
<p>Maria vive em Lahane, uma zona distante do local onde vende. Todos os dias percorre o caminho com a mesma força de vontade. &#8220;Estou aqui a vender sacos para me alimentar. Se não for assim, como é que posso comer?&#8221;, diz, sorrindo timidamente.</p>
<p>Começa o seu dia às cinco da manhã e só regressa a casa depois das seis da tarde. Partilha o espaço com outra vendedora, alternando os turnos. Ao longo do dia, recebe alimentos oferecidos por transeuntes ou estrangeiros que compram pão na padaria, mas nem tudo lhe serve: sofre de alergias alimentares e, muitas vezes, guarda o que não pode consumir para levar para casa. &#8220;Se não posso comer, guardo e levo para casa&#8221;, explica, mostrando marcas visíveis na pele provocadas pelas alergias.</p>
<p>Antes de vender sacos, Maria recolhia latas usadas, que amassava e vendia ao peso. &#8220;Apanhava latas até ficar toda suja, mas não me importava. Se tivesse muitas, ganhava cerca de 15 dólares; se fossem poucas, ganhava 2 dólares&#8221;, recorda. Durante o confinamento obrigatório decretado pelo Governo, Maria continuou a sair para recolher latas. &#8220;Com o coronavírus, posso morrer, mas sem o vírus também morro de fome&#8221;, diz, com um sorriso resignado.</p>
<p>Hoje, considera a venda de sacos mais fácil. &#8220;Não preciso de andar à procura de latas, basta sentar-me e esperar pelos clientes. Se o dia correr bem, posso ganhar 15 dólares. Compro os sacos a 6 dólares numa loja chinesa. Depois de vender, o meu filho vem buscar-me&#8221;, conta.</p>
<p>Maria começou a vender sacos durante a pandemia de COVID-19, numa altura em que o Governo restringiu o uso de plásticos. A escassez criou uma oportunidade que ela soube aproveitar — e que até hoje lhe garante algum rendimento.</p>
<p>Não vê o seu trabalho como um fardo, mesmo já na terceira idade. O dinheiro que ganha, juntamente com a pequena pensão que recebe, serve para as suas necessidades diárias e para ajudar os netos. &#8220;Além de comer, quando há &#8216;lia&#8217; (cerimónias tradicionais), é preciso também juntar dinheiro&#8221;, afirma.</p>
<p>Maria tem dois filhos, ambos empregados de limpeza, e vários netos. Perdeu o marido durante a ocupação indonésia.</p>
<p>Ainda se lembra da dor profunda que não consegue exprimir em palavras, quando ouviu a notícia da morte do marido, Domingos, assassinado no mar de Betano durante a ocupação indonésia. Até hoje, confessa, não sabe exatamente como tudo aconteceu. O que permanece é o vazio da perda e a saudade incurável.</p>
<p>&#8220;O meu marido foi na segunda linha. Morreu em Betano, assassinado. Depois disso, tentei cuidar da nossa vida, mas foi muito difícil. Conformei-me, pensando apenas que foi a nossa contribuição para o país. Não sei exatamente o que aconteceu. Só sei que, quando ouvi que ele tinha morrido, fiquei muito triste. Mas não podia fazer nada&#8221;, diz Maria, com a voz embargada.</p>
<p>Desde então, criou sozinha os dois filhos. Trabalhou de casa em casa como empregada doméstica, lutando para garantir o sustento da família. Com o pouco que ganhava, esforçou-se para dar aos filhos uma oportunidade que ela nunca tivera: a educação.</p>
<p>&#8220;Nunca fui à escola, porque a minha família era muito pobre. Tinha sete irmãos mais novos e tive de ajudar a cuidar deles. Não queria que os meus filhos passassem pelo mesmo. Eles tinham de estudar. Mas, quando chegaram ao ensino secundário, já não consegui pagar. Pedi-lhes para me ajudarem a ganhar dinheiro e, no fim, acabaram por abandonar a escola&#8221;, conta, com um misto de tristeza e determinação.</p>
<p>Hoje, Maria resigna-se ao que a vida lhe permite. O seu corpo, cansado, já não aguenta longas caminhadas. As pernas doem-lhe com frequência. Por isso, dedica-se à venda de sacos e a pequenos trabalhos que ainda consegue realizar, agarrando-se à sobrevivência com a força que nunca a abandonou.</p>
<p>Vive com o filho mais velho no bairro de Lahane, em Díli, numa casa modesta onde convivem seis netos. O filho mais velho tem seis filhos e o segundo também já constituiu família, com vários filhos adolescentes. A casa é apertada, e as dificuldades multiplicam-se, sobretudo pela falta de acesso a água potável. &#8220;Se quisermos água, temos de ir buscar a outro lugar. Lá não há água&#8221;, explica Maria.</p>
<p>Apesar de tudo, há motivos para se orgulhar. Os dois filhos trabalham como funcionários de limpeza na zona de Comoro. Um trabalho humilde, mas que para Maria é um sinal de vitória. &#8220;Quando eles começaram a trabalhar, fiquei muito feliz. Estavam a ajudar a própria família, mesmo que ainda nos falte muita coisa&#8221;, diz, sorrindo.</p>
<p>Dos seus doze netos, a maioria nunca frequentou a escola ou não conseguiu concluir os estudos. Mesmo assim, Maria vê esperança nas gerações mais novas. Alguns netos mais velhos já começaram a procurar trabalho em pequenas lojas e oficinas, tentando aliviar o peso que recai sobre os pais. &#8220;Acredito que, um dia, a vida deles será melhor do que a nossa&#8221;, acrescenta.</p>
<p>Sempre que termina o dia de trabalho, Maria regressa a casa para comer qualquer coisa e descansar. Nos dias de chuva, protege os seus produtos como pode, muitas vezes abrigando-os à entrada da padaria onde vende os sacos — um espaço onde já é conhecida e respeitada.  &#8220;Aqui não é muito difícil, porque, por sorte, o dono da padaria e os funcionários são simpáticos. Se acontecer alguma coisa, eles ajudam&#8221;, conta Maria, com gratidão.</p>
<p>Maria também fala com respeito de um dos pilares da sua cultura: a obrigação de participar as cerimónias tradicionais “lia” que assinalam eventos como nascimentos ou funerais. Essas celebrações exigem muitas vezes um grande esforço financeiro, com a entrega de dinheiro ou a compra de animais como porcos e cabras.</p>
<p>&#8220;Quando há cerimónias tradicionais, temos de gastar dinheiro — às vezes centenas de dólares — ou comprar animais. Mesmo com dificuldades, porque é parte da nossa cultura, sentimos que é obrigatório cumprir, seja para nascimento, morte ou outro ritual&#8221;, explica.</p>
<p>Reconhece que estas obrigações pesam ainda mais na frágil economia familiar. No entanto, recusar seria, para ela, renegar quem é.  &#8220;Nunca falhei numa cerimónia. Mesmo sendo difícil, continuo a participar, porque é assim que vivemos&#8221;, afirma com firmeza.</p>
<p>A história de Maria é o espelho da realidade de muitos timorenses. Segundo o Índice de Pobreza Multidimensional da ONU de 2023, cerca de 42% dos 1,3 milhões de habitantes de Timor-Leste vivem em situação de vulnerabilidade, e mais de 24% sobrevivem com menos de 2,15 dólares por dia.</p>
<p>De acordo com o Censo Nacional de 2022, cerca de 75 mil timorenses têm 60 anos ou mais, entre os quais 40.200 mulheres como Maria, que enfrentam desafios acrescidos devido à idade e às dificuldades económicas.</p>
<p>A partir de 2024, os idosos (com 60 anos ou mais) começaram a receber uma pensão de velhice no valor de 60 dólares por mês para os que têm entre 60 e 69 anos, 80 dólares para os que têm entre 70 e 79 anos, e 100 dólares para os que têm 80 anos ou mais.</p>
<p>Por detrás do sorriso tímido e da força inabalável de Maria, esconde-se a realidade dura de tantos timorenses: pobreza, luta diária, envelhecimento sem segurança. Mas também se revela uma coragem silenciosa, uma fé resistente na vida, mesmo quando ela oferece tão pouco.</p>
<p>Com a aproximação do 1.º de maio, Dia do Trabalhador, a história da Maria lembra-nos que o trabalho mais invisível é, muitas vezes, o mais heroico — e que, mesmo sentada num tapete à beira da estrada, a esperança continua a resistir.</p>
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