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	<title>Perfis - DILIGENTE</title>
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	<title>Perfis - DILIGENTE</title>
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		<title>Abílio Araújo — O Dato Siri Loe II que fez da liberdade a sua Pátria</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Joana Silva]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 11 Oct 2025 12:10:16 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Destaque]]></category>
		<category><![CDATA[Perfis]]></category>
		<category><![CDATA[Pessoas]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Economista, músico, político e chefe tradicional, Abílio da Conceição Abrantes de Araújo levou a causa timorense ao mundo, ajudou a construir pontes na paz, investe hoje na independência económica e mantém viva a memória e a cultura do seu povo. [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p><em>Economista, músico, político e chefe tradicional, Abílio da Conceição Abrantes de Araújo levou a causa timorense ao mundo, ajudou a construir pontes na paz, investe hoje na independência económica e mantém viva a memória e a cultura do seu povo. Um percurso de serviço, coragem e raízes.</em></p>
<p>Entre o som do acordeão e o silêncio das montanhas de Aileu, Abílio da Conceição Abrantes de Araújo aprendeu cedo que a liberdade é uma canção — e que, mesmo quando o mundo parece surdo, vale a pena continuá-la.</p>
<p>Economista, músico, político e chefe tradicional, Abílio Araújo — o Dato Siri Loe II — levou a causa timorense ao mundo, ajudou a construir pontes na paz, investe hoje na independência económica e mantém viva a memória e a cultura do seu povo.</p>
<p>Mas mais do que títulos, o que o define é a coerência entre o que sonhou e o que viveu: um homem que fez da liberdade a sua pátria e da dignidade o seu modo de estar. O seu percurso é o de um timorense inteiro — de mãos na terra, olhar no horizonte e coração aberto à esperança.</p>
<p>Entre os montes de Aileu, onde o nevoeiro se confunde com o fumo das lareiras e o som do gongo anuncia o amanhecer, nasceu, a 18 de outubro de 1949, Abílio da Conceição Abrantes de Araújo. O menino que um dia levaria a causa timorense ao mundo cresceu entre a terra e o silêncio, aprendendo desde cedo que o trabalho e a fé são as raízes mais fundas de um povo.</p>
<p>Filho de D. Rufina da Conceição Araújo — mulher de sabedoria serena, que viveria até aos cem anos — e de António da Costa Araújo, um pai de espírito disciplinado e trabalhador, Abílio herdou de ambos uma herança de dignidade e coragem.</p>
<p>Do lado materno, descende do rei de Soro, no município de Ainaro, e recebeu o título de Dato Siri Loe II, tornando-se chefe da Casa Bismau, a casa sagrada do seu avô. Do lado paterno, herdou também o sangue da liderança — o avô foi chefe da Casa Militar do mesmo reino.</p>
<p>Era o sétimo de oito irmãos. Hoje, apenas a irmã mais nova, Aliança Araújo, continua viva — guardiã, como ele, de uma linhagem que fez da responsabilidade o seu destino.</p>
<p>Apesar da origem nobre, a infância de Abílio foi marcada pela simplicidade e pela dureza. Lavrava várzeas, cuidava de hortas, carregava lenha e água para casa — e, muitas vezes, para os militares portugueses.</p>
<p>Foi assim que conheceu o peso da terra e o valor da solidariedade: “Não se trabalha apenas para nós”, diria mais tarde, “trabalha-se para que todos possam viver com dignidade.”</p>
<p>Das mãos cheias de barro nasceram os gestos do homem de Estado; do olhar que observava o nascimento de um búfalo ou o correr de um rio, nasceu o sentido profundo de harmonia e de paciência que o acompanharia pela vida fora.</p>
<p>Essas memórias — o cheiro da terra molhada, o queijo do primeiro leite, o frio dos rios atravessados ao amanhecer — moldaram o seu carácter. Foi nelas que aprendeu a atravessar as correntes do tempo com serenidade: o mesmo menino que cruzava rios em Aileu seria, mais tarde, o diplomata que atravessaria mares e fronteiras pela liberdade do seu povo.</p>
<p>A infância ensinou-lhe o essencial: que a grandeza começa na humildade, e que a verdadeira nobreza está em servir.</p>
<p><strong>Os anos de formação e o despertar da luta</strong></p>
<p>A escola foi, para Abílio, a primeira travessia rumo ao futuro. Começou a estudar em 1958, em Aileu, e depois continuou o 3º ano na Escola Salesiana de Lahane, em Díli, onde as noites eram iluminadas à luz do petromax e os cadernos viajavam num bornal gasto em vez de mochila. Ali descobriu o poder do conhecimento — e a disciplina que marcaria toda a sua vida.</p>
<p>Aos 12 anos, ingressou no Seminário de Nossa Senhora de Fátima, lugar de silêncio e de fé, onde a música se tornaria companheira inseparável. Foi ali que começou a dirigir o coro e a perceber que a harmonia das vozes podia ser também metáfora da unidade que sonhava para o seu povo.</p>
<p>Não chegou a concluir o 5.º ano do seminário, mas dali levou consigo algo mais duradouro: a noção de que a fé e o estudo, juntos, são formas de libertação.</p>
<p>Quando regressou a Díli, trabalhou como professor para poder continuar os estudos no Liceu Dr. Francisco Vieira Machado, tornando-se um dos primeiros timorenses a frequentar o ensino secundário nessa instituição. Era um jovem reservado e sereno, mas a sua inteligência já despertava atenção.</p>
<p>José Ramos-Horta recorda-o como “um excelente estudante, calmo e atento — como o seu povo —, que construiu o seu percurso com trabalho e inteligência, sem heranças de fortuna”. Xanana Gusmão lembra “um jovem visionário, com ambição e clareza de propósito”.</p>
<p>As palavras dos companheiros de geração descrevem, no fundo, o que Abílio sempre foi: alguém que aprendeu a transformar o estudo em serviço e o ideal em caminho.</p>
<p>Em 1971, ingressou no Instituto Superior de Ciências Económicas e Financeiras, em Lisboa, para estudar Economia. Mas a verdadeira lição começara antes — em 1968, quando, ainda estudante, tomou plena consciência do sofrimento do seu povo sob o regime colonial.</p>
<p>O momento decisivo chegou aos 18 anos, quando, durante uma festa de registo de bens, lhe ofereceram — como símbolo de prestígio colonial — um “presente humano”. Abílio recusou-o, com a lucidez precoce de quem compreendeu que a dignidade humana não se negocia. Aquele gesto de recusa tornou-se o primeiro ato político da sua vida. Foi ali, naquele instante, que a consciência do jovem estudante se transformou na de um combatente pela justiça.</p>
<figure id="attachment_20764" aria-describedby="caption-attachment-20764" style="width: 292px" class="wp-caption aligncenter"><img fetchpriority="high" decoding="async" class=" wp-image-20764" src="https://www.diligenteonline.com/wp-content/uploads/2025/10/abilio2-261x377.jpg" alt="" width="292" height="422" srcset="https://www.diligenteonline.com/wp-content/uploads/2025/10/abilio2-261x377.jpg 261w, https://www.diligenteonline.com/wp-content/uploads/2025/10/abilio2-623x900.jpg 623w, https://www.diligenteonline.com/wp-content/uploads/2025/10/abilio2.jpg 748w" sizes="(max-width: 292px) 100vw, 292px" /><figcaption id="caption-attachment-20764" class="wp-caption-text">1ª manifestação da FRETILIN, em Díli, em 20 de setembro de 1974: Francisco Xavier do Amaran (1º Presidente 1975-1977), Nicolau Lobato (2⁰ Presidente 1977-1978), Abilio Araujo (3⁰ Presidente 1981-1989) e Ramos-Horta (5⁰ Presidente 2007-2012)/Foto: DR</figcaption></figure>
<p>Foi em Lisboa que fundou, com outros jovens timorenses, o Grupo de Apoio aos Estudantes de Timor (GAETEL), uma semente de consciência política que germinaria em todas as frentes da luta pela independência.</p>
<p>Lisboa foi, para Abílio, escola e campo de batalha. Entre os corredores universitários e as reuniões clandestinas, amadureceu o sentido de missão: libertar Timor não era apenas uma causa política, mas uma exigência moral.</p>
<p>Enquanto muitos seguiam caminhos fáceis, Abílio escolheu o mais árduo: o da palavra, do diálogo e da convicção. A diplomacia seria o seu instrumento, mas a sua alma continuava a ser a do menino que atravessava rios — firme, paciente e determinado.</p>
<figure id="attachment_20837" aria-describedby="caption-attachment-20837" style="width: 516px" class="wp-caption aligncenter"><img decoding="async" class="wp-image-20837 size-medium" src="https://www.diligenteonline.com/wp-content/uploads/2025/10/Abilio-na-Casa-dos-Timores-516x290.jpeg" alt="" width="516" height="290" srcset="https://www.diligenteonline.com/wp-content/uploads/2025/10/Abilio-na-Casa-dos-Timores-516x290.jpeg 516w, https://www.diligenteonline.com/wp-content/uploads/2025/10/Abilio-na-Casa-dos-Timores-900x506.jpeg 900w, https://www.diligenteonline.com/wp-content/uploads/2025/10/Abilio-na-Casa-dos-Timores-768x432.jpeg 768w, https://www.diligenteonline.com/wp-content/uploads/2025/10/Abilio-na-Casa-dos-Timores.jpeg 1080w" sizes="(max-width: 516px) 100vw, 516px" /><figcaption id="caption-attachment-20837" class="wp-caption-text">Depois do 25 de Abril de 1974, universitários ocuparam a Casa de Timor, em Lisboa, e mudaram o nome para Casa dos Timores, elegendo Abílio Araújo como presidente. Da direita para a esquerda: 1.ª fila – Borja da Costa, Alice Casimiro (Austrália) e Carlos Boavida (Portugal). 2.ª fila – Marina Ribeiro (Maputo), Abílio Araújo e Afonso Faculto Ruby (Portugal)/Foto: DR</figcaption></figure>
<p><strong>A diplomacia e a construção da paz</strong></p>
<p>A história da libertação de Timor-Leste não se escreve sem o nome de Abílio Araújo. Durante os anos mais sombrios da luta, ele foi a ponte entre a palavra e a esperança — o diplomata que percorreu o mundo com a causa do seu povo na bagagem e o nome de Timor no coração.</p>
<p>Ao lado de José Ramos-Horta e Mari Alkatiri, tornou-se uma das vozes mais firmes da resistência no exterior. Nas capitais estrangeiras, nos corredores discretos da diplomacia e nas assembleias internacionais, Abílio falava de Timor como quem fala da própria vida.</p>
<p>&nbsp;</p>
<figure id="attachment_20766" aria-describedby="caption-attachment-20766" style="width: 516px" class="wp-caption aligncenter"><img decoding="async" class="size-medium wp-image-20766" src="https://www.diligenteonline.com/wp-content/uploads/2025/10/abilio33-516x288.jpg" alt="" width="516" height="288" srcset="https://www.diligenteonline.com/wp-content/uploads/2025/10/abilio33-516x288.jpg 516w, https://www.diligenteonline.com/wp-content/uploads/2025/10/abilio33-900x502.jpg 900w, https://www.diligenteonline.com/wp-content/uploads/2025/10/abilio33-768x428.jpg 768w, https://www.diligenteonline.com/wp-content/uploads/2025/10/abilio33.jpg 1076w" sizes="(max-width: 516px) 100vw, 516px" /><figcaption id="caption-attachment-20766" class="wp-caption-text">Abílio com os outros diplomatas timorenses na Conferência de imprensa em Lisboa, em 1983, sobre conversações de paz entre a FRETILIN e a Indonésia/Foto: DR</figcaption></figure>
<p>Tinha a serenidade dos que conhecem o sofrimento e a firmeza dos que não desistem. “Abílio era reservado e calmo”, recorda Ramos-Horta, “mas dentro dessa calma havia uma convicção inquebrável.”</p>
<p>E Xanana Gusmão completaria mais tarde: “Foi um jovem visionário, com ambição e clareza de propósito.”</p>
<p>Essa clareza manifestava-se não apenas nas palavras, mas nos gestos. Num encontro na Indonésia, quando cantar um hino timorense podia custar a vida, Abílio desafiou os jovens presentes a entoarem “Foho Ramelau”. O canto ecoou como um ato de resistência — uma oração disfarçada de canção.</p>
<p>Era o símbolo do que ele sempre acreditou: que a liberdade não é apenas uma decisão política, é também um estado de espírito. A diplomacia ensinou-lhe que libertar um país exige mais do que coragem — exige paciência, inteligência e capacidade de perdoar.</p>
<p>Quando o fim da ocupação se aproximava, Abílio compreendeu que a independência política seria apenas o primeiro passo; o desafio seguinte seria unir um povo ferido e disperso.</p>
<p>Assim nasceu, em 1999, o Partido Nacionalista Timorense (PNT), criado por ele para ser um espaço de encontro entre as várias frentes — externa, armada e clandestina.</p>
<p>O objetivo era claro: transformar a diversidade da luta num pensamento político coerente, capaz de sustentar a paz. O PNT viria a ser injustamente rotulado de pró-integração, mas Abílio manteve-se sereno.</p>
<p>Para ele, a política nunca foi um campo de rótulos, mas de responsabilidade. Acreditava que, sem reconciliação, a liberdade seria incompleta. E por isso insistia: “O PNT contribuiu para o processo político que culminou na restauração da independência.”</p>
<p>Nas primeiras eleições livres de 2001, o partido elegeu dois deputados à Assembleia Constituinte — o mesmo número da histórica UDT.</p>
<p>Participou na redação da nova Constituição, aprovada com mais de dois terços dos votos, e ajudou a definir as bases da democracia parlamentar timorense. Foi um marco — e também um gesto de maturidade política.</p>
<p>Mais tarde, o espírito conciliador que sempre o guiou levou-o a apoiar as candidaturas presidenciais de Xanana Gusmão (2002) e José Ramos-Horta (2007). Ambos reconheciam nele um homem de diálogo, uma figura que sabia unir quando os tempos pediam união.</p>
<p>Durante uma visita a Aileu, Xanana comentou, entre risos e afeição: “Se existissem telemóveis naquela altura, nada disso teria acontecido — e o Abílio talvez fosse hoje primeiro-ministro.”</p>
<p>Era uma brincadeira, mas também uma verdade simbólica: na resistência, muitas vezes as distâncias eram tão grandes quanto as vontades, e o sonho da independência precisou de todos os que souberam comunicar sem tecnologia — apenas com fé e coragem.</p>
<p>O diplomata que percorrera o mundo regressaria, anos depois, ao seu país com o mesmo espírito de serviço. Mas o reencontro com a terra natal seria uma das experiências mais duras da sua vida.</p>
<p>“Quando voltei em 2001”, recorda, “já não encontrei o meu pai, os meus irmãos e os meus cunhados. O país que eu conhecia em 1974 já não existia.”</p>
<p>Das propriedades destruídas em Aileu e da perda de trinta dos trinta e seis membros da família, ficou-lhe uma dor profunda — mas também a certeza de que a reconstrução de Timor só seria verdadeira se começasse pelas raízes. A dor transformou-se em força.</p>
<p>Abílio voltou-se então para a espiritualidade, para a cultura e para a sabedoria ancestral timorense. Fala dos espíritos dos montes sagrados, do Ramelau (Tatamailau) e do Matebian, como presenças vivas que guardam o destino do povo. “Acreditamos que os nossos avós estão lá no alto, junto do Criador, e que há sempre uma razão para tudo o que acontece.”</p>
<p>Essa visão unia fé e tradição, mostrando que a independência também se faz de reconciliação com os antepassados. Defensor do Barlaque, vê no casamento tradicional a união não apenas de duas pessoas, mas de duas famílias — um pacto de solidariedade e continuidade.</p>
<p>Para ele, os rituais, a música e o respeito pelos antepassados são formas de manter a alma timorense inteira, mesmo depois da guerra.</p>
<p>A sua importância é de enorme reconhecimento, sendo que Abílio Araújo recebeu várias distinções que refletem não apenas a sua luta política, mas também o impacto social e cultural do seu trabalho. Em maio de 2017, recebeu a mais alta condecoração de Timor-Leste, o Colar de Timor-Leste, entregue pelo então Presidente da República Taur Matan Ruak. Este gesto simboliza o reconhecimento da nação pelo papel fundamental de Abílio na luta pela independência e na preservação da identidade timorense.</p>
<p>Em 2022, foi nomeado Membro do Conselho de Estado pelo Presidente José Ramos-Horta, reforçando o seu papel como conselheiro de confiança e como figura de referência no país.</p>
<p><strong>A música como alma e resistência</strong></p>
<p>A música foi sempre o outro nome da sua vida. Antes de ser diplomata, político ou escritor, Abílio Araújo foi músico — e, em certo sentido, nunca deixou de o ser.</p>
<p>A sua primeira escola foi a natureza: o rumor dos ventos nas montanhas, o som das cigarras nas tardes quentes, o compasso ritmado das enxadas nos campos. A música veio-lhe como se viesse da própria terra.</p>
<p>Aos 12 anos, já dirigia o coro do Seminário de Nossa Senhora de Fátima, onde aprendeu que as vozes humanas, quando se unem, produzem algo maior do que a soma de cada timbre — produzem comunidade. Essa descoberta foi talvez o primeiro vislumbre do que viria a ser o seu ideal político: a harmonia como forma de resistência.</p>
<p>Quando mais tarde partiu para Lisboa, a música acompanhou-o como um refúgio e uma missão. Nas longas noites de saudade, o violão tornou-se confidente e testemunha. Foi com ele que escreveu algumas das canções que dariam identidade ao sonho timorense.</p>
<p>Entre elas, “Foho Ramelau”, “Kadalak Suli Mutu”, “Funu Nain, FALINTIL”, que se tornou hino da FALINTIL, “Oan Kosok, Timor Oan Kmurak”, dedicada a uma das suas filhas, e muito mais — melodias que atravessaram a guerra, as prisões e o exílio, até se tornarem a trilha sonora da libertação. “Foho Ramelau”, em particular, tornou-se mais do que uma canção: foi um hino.</p>
<p>Nascida de uma saudade profunda, é uma oração disfarçada de melodia, uma promessa feita aos antepassados e aos que ainda não tinham nascido. Em cada verso, há a imagem do monte sagrado e o eco da resistência de um povo que nunca se ajoelhou.</p>
<p>Abílio acredita que a música é uma forma de “revolução silenciosa”. Enquanto outros empunhavam armas, ele empunhava acordes. E onde a diplomacia não podia chegar, chegava a canção — cruzando fronteiras, sensibilizando governos, unindo corações.</p>
<p>Depois da independência, quis que a arte continuasse a ter um papel central na reconstrução da alma nacional. Fundou e incentivou grupos culturais, apoiou jovens músicos e participou em concertos que misturavam o sagrado e o popular. Para ele, a música é um modo de educar o coração e preservar a identidade. “Um povo que canta”, diz, “é um povo que não morre.”</p>
<p>Com o tempo, a sua obra musical começou a ser reconhecida também fora de Timor-Leste. Vários artistas reinterpretaram as suas composições, e algumas canções foram traduzidas para outras línguas, tornando-se património simbólico da lusofonia.</p>
<p>Mas o que mais o emociona não são os aplausos nem as gravações — era ver crianças timorenses a cantar as mesmas melodias que ele compusera em tempos de escuridão. Quando lhe perguntam o que o inspira, responde sempre com simplicidade: “A música é a voz dos que já partiram e o consolo dos que ainda vivem.”</p>
<p>A fé, que sempre o acompanhou, mistura-se com essa visão espiritual da arte. Fala dos montes Ramelau e Matebian como moradas dos antepassados — lugares de luz onde as almas repousam e de onde emanam forças para proteger os vivos. Acredita que cada timorense carrega dentro de si uma parte dessa montanha, e que a canção é o caminho para a reencontrar.</p>
<p>Quando se fala do país livre, há sempre uma melodia sua a ecoar ao fundo — como se o espírito do Foho Ramelau ainda vigiasse, invisível, sobre as colinas do seu povo.</p>
<figure id="attachment_20767" aria-describedby="caption-attachment-20767" style="width: 265px" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-medium wp-image-20767" src="https://www.diligenteonline.com/wp-content/uploads/2025/10/abilio4-265x377.jpg" alt="" width="265" height="377" srcset="https://www.diligenteonline.com/wp-content/uploads/2025/10/abilio4-265x377.jpg 265w, https://www.diligenteonline.com/wp-content/uploads/2025/10/abilio4.jpg 337w" sizes="auto, (max-width: 265px) 100vw, 265px" /><figcaption id="caption-attachment-20767" class="wp-caption-text">Pela primeira vez, o mundo viu o rosto da invasão indonésia em Timor-Leste através do Livro “FRETILIN Conquers the right to dialogue”, apresentado na Conferência do Pacífico Livre de Armas Nucleares e Independente (NFIPC, inglês), em 1983, em Vanuatu/ Foto: DR</figcaption></figure>
<p><strong>Da política à economia: a nova luta pela independência</strong></p>
<p>Para Abílio Araújo, a luta não terminou com a libertação política. Hoje, o seu foco é a independência económica de Timor-Leste.</p>
<p>Enfrentando os desafios da pobreza, da falta de infraestruturas e dos frágeis serviços de saúde, defende que o desenvolvimento económico é o verdadeiro caminho para a soberania nacional. É um defensor do uso responsável do Fundo Petrolífero, dando prioridade ao investimento na educação, energia, infraestruturas e empreendedorismo. Rejeita o assistencialismo e as ajudas condicionadas, acreditando na autonomia e no mérito.</p>
<p>Desde 2001, promoveu projetos como o IRA-LALARO, destinado a levar eletricidade a todo o país, com apoio do então primeiro-ministro Xanana Gusmão, embora obstáculos governamentais tenham impedido a sua execução plena.</p>
<p>Empresário e investidor, atuou nos setores da agricultura, pescas, energia, construção, turismo e banca, tanto em Timor-Leste como em Portugal, Singapura, Indonésia e Dubai.</p>
<p>Em Díli, vive na sua Casa Kaduna de Asuinus, em Tibar, rodeado por árvores de fruto e pau-rosa que ele próprio plantou — um retrato simbólico do homem que semeia para o futuro.</p>
<p>O grupo criado por Abílio, desde 2002, atua nas áreas de energia, telecomunicações e construção civil, empregando mais de 60 timorenses. A SACOM Construções dispõe de maquinaria pesada; a SACOM Energia fornece combustíveis desde 2014; e a SACOMTEL disponibiliza internet de fibra ótica em Díli, com investimento 100% privado.</p>
<p>Segundo Salvador Tilman, diretor da SACOMTEL, “o Doutor Abílio prefere ouvir os problemas para depois resolvê-los, do que receber relatórios que escondem dificuldades. Nunca deixa salários atrasados e trata todos com respeito, justiça e equidade.”</p>
<p>Abílio detesta a corrupção, valoriza a pontualidade e a ética, e segue o exemplo do pai, para quem o dever vinha sempre antes do direito. Além disso, pratica a caridade com discernimento, apoiando a educação e o desenvolvimento familiar com base no mérito e na responsabilidade.</p>
<p><strong>Luís Cardoso sobre Abílio Araújo: “Um amigo, uma referência, um mito”</strong></p>
<p>O escritor Luís Cardoso descreve Abílio como “amigo, referência e quase um mito vivo”. Desde criança ouvia falar do jovem timorense que, com sacrifício e talento, se tornara exemplo de inteligência e patriotismo.</p>
<p>Conheceram-se no Seminário de Dare, onde Abílio dirigia o coro. Mais tarde, reencontraram-se em Lisboa, quando Abílio chefiava a delegação da FRETILIN e coordenava o Comité 28 de Novembro.</p>
<p>Luís recorda com emoção: “Ele acreditava que eu tinha potencial para ser escritor. Sempre que levava poemas, ele sorria e dizia: ‘Isto também é luta, Luís.’”</p>
<p>Para Cardoso, Abílio é “um verdadeiro senador timorense — um homem de diálogo, cultura e generosidade, capaz de unir as pessoas”. Defende que a sua música Kadalak Sulimutu deveria ter sido o hino nacional de Timor-Leste. “Borja e Abílio eram o espelho da identidade timorense — o poeta e o músico.”</p>
<p>Mais do que um líder, Abílio Araújo é uma corrente que liga gerações — da luta armada ao sonho de prosperidade. É diplomata, músico, pensador e homem da terra. E como canta na sua própria melodia, “os leitos juntos tornam-se um rio” — o rio da unidade e da esperança de um povo que ele ajudou a libertar.</p>
<p>Hoje, Abílio Araújo vive rodeado pelas árvores que plantou em Tibar — mangueiras, jaqueiras, pau-rosa — como quem continua a semear o futuro. Ali, entre o verde e o silêncio, o Dato Siri Loe II observa o país que ajudou a libertar e a reconstruir. Não fala de glória nem de sacrifício, mas de responsabilidade. De trabalho. De fé.</p>
<p>Para ele, cada canção e cada projeto económico têm o mesmo propósito: preservar a dignidade do povo timorense e preparar o amanhã com consciência.</p>
<p>E talvez seja essa a sua maior herança — ter provado que a liberdade não se conquista apenas nas montanhas ou nos palcos da diplomacia, mas também na música, na terra e nos gestos simples de quem acredita que um povo, unido, pode recomeçar.</p>
<p>Quando o vento sopra entre as folhas das árvores que plantou, parece ainda ouvir-se o eco das suas canções — a melodia de um homem que fez da liberdade o som eterno da sua vida.</p>
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		<title>Padre Domingos Maubere: a fé como resistência, a justiça como missão</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Joana Silva]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 19 May 2025 08:36:43 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>Em tempos de guerra, foi padre e mensageiro. Em tempos de paz, tornou-se consciência crítica da nação. Domingos Maubere, o sacerdote que nunca se calou diante da injustiça, partiu a 16 de maio, aos 73 anos, deixando um legado de [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p><em>Em tempos de guerra, foi padre e mensageiro. Em tempos de paz, tornou-se consciência crítica da nação. Domingos Maubere, o sacerdote que nunca se calou diante da injustiça, partiu a 16 de maio, aos 73 anos, deixando um legado de fé, coragem e entrega total ao povo timorense.</em></p>
<p>Internado em estado crítico desde o início do mês no Hospital Nacional Guido Valadares, em Díli, Domingos da Silva Soares – conhecido por todos como Padre Maubere – faleceu a 16 de maio, nos cuidados paliativos. A sua morte gerou comoção nacional, não apenas entre fiéis, mas também entre antigos combatentes, líderes religiosos e políticos, que o recordam como um verdadeiro herói timorense.</p>
<p>Nascido a 12 de maio de 1952, em Letefoho, no município de Ermera, Domingos Maubere sentiu desde cedo o chamamento para servir o povo através da Igreja. A família mudou-se para Fatubessi apenas duas semanas após o seu nascimento. Entre os 10 e os 12 anos, já era conhecido como um jovem diligente e prestável, ajudando a buscar lenha e água e, à noite, ensinando catequese com o apoio de uma senhora da comunidade. “Naquela altura, muitas pessoas foram batizadas”, recorda a irmã, Liberata da Silva Soares.</p>
<p>Partiu para Portugal em 1972. Em plena guerra em Timor, foi ordenado sacerdote na Sé Catedral de Braga, em 1978, após concluir os estudos em Filosofia e Teologia. “Ele recebeu uma carta a dizer que os nossos pais ainda estavam vivos, mas ficou em dúvida. Estávamos escondidos no mato e era difícil ter contacto. Ele não sabia que estávamos vivos, e nós também não sabíamos que já era padre. Só soubemos depois da sua chegada”, contou a irmã.</p>
<p>Regressou a Timor-Leste em 1980, num contexto de brutal ocupação indonésia. Ao chegar ao aeroporto, perguntou de imediato pelos pais. “Disseram-lhe que a mãe já tinha falecido, mas o pai ainda estava vivo.” Foi colocado na paróquia de Ossu, em Viqueque — uma zona fortemente patrulhada pelos indonésios, onde muitos civis eram perseguidos e mortos. “Foi ali a sua primeira experiência difícil”, diz a irmã. “Os militares proibiram o padre de sair de casa. Ele foi muito corajoso. Por isso as pessoas começaram a chamá-lo ‘Maubere’. Não se rendeu, mesmo em situações duras. Atuava como sacerdote, mas também ajudava na causa política.”</p>
<p>Durante a ocupação, ofereceu refúgio a famílias perseguidas, prestou apoio espiritual e denunciou, sempre que possível, as violações dos direitos humanos cometidas em Timor-Leste. Também se tornou mensageiro entre os guerrilheiros e a frente diplomática da resistência, transportando informação, apoio logístico e mensagens entre figuras-chave — uma delas foi Xanana Gusmão. A sua fé inabalável tornou-o símbolo de coragem moral num país devastado pela guerra.</p>
<p>Foi perseguido pelas autoridades indonésias e, em 1983, colocado em prisão domiciliária. Ainda assim, continuou a servir como pároco em várias paróquias do país. “Chegaram a disparar contra o vidro do seu carro e a apontar-lhe armas, mas ele confiava em Deus e nunca teve medo de lutar”, afirma Liberata.</p>
<p><strong>Reconhecimento internacional e papel político</strong></p>
<p>Em 1997, foi novamente para Portugal, onde recebeu o Prémio Internacional da Paz Pax Christi, em reconhecimento pelo seu trabalho junto das comunidades pobres e pela denúncia das atrocidades cometidas durante a ocupação. Nesse mesmo ano, participou na preparação de um congresso com líderes políticos timorenses, que daria origem ao Conselho Nacional da Resistência Timorense (CNRT), do qual se tornou coordenador-geral.</p>
<p>Com a restauração da independência, em 2002, Padre Maubere manteve-se uma voz ativa e crítica. Denunciou a corrupção, a violência contra as mulheres e as desigualdades sociais. Foi uma das poucas figuras da Igreja a levantar a voz contra as falhas dos líderes políticos timorenses.</p>
<p>Em 2008, mudou-se para Macau, onde estudou na Universidade de São José e colaborou com a paróquia da Sé. Reativou o grupo Macau Rai Timor e passou a apoiar espiritualmente a comunidade timorense no território. Mais tarde, foi nomeado vigário para os católicos de língua portuguesa.</p>
<p>Em 2018, tomou posse como pároco da Igreja do Sagrado Coração de Jesus, em Becora, onde serviu até aos seus últimos dias.</p>
<p>Mesmo em tempo de paz, nunca deixou de resistir à injustiça. Em 2020, após desacatos no Parlamento Nacional entre deputados, visitou o plenário e criticou abertamente os seus representantes. “O povo exerceu o seu direito de voto, por isso, pedi aos deputados que discutissem o problema do povo, porque o povo ficou com fome. O povo sofreu. A independência não foi para esta briga.”</p>
<p>A sua irmã lembra que nunca hesitou em dizer o que pensava. “Ele procurava sempre a verdade. Quando via algo errado, dizia que não estava certo.”</p>
<p>Maria Clara, uma cristã da paróquia de Becora, recorda com tristeza: “Quando soube da morte do Padre Maubere, o meu coração ficou pesado, como se tivesse perdido alguém da minha própria família. E, de certa forma, perdi mesmo. Perdemos um pai espiritual, um verdadeiro pastor que caminhou connosco, sobretudo nos momentos mais difíceis.”</p>
<p>O que mais a comovia era a sua humildade. “Vivia de forma simples, escutava, partilhava e servia os pobres. Acreditava na justiça de Deus, mas também lutava para que essa justiça fosse sentida já aqui na terra. Choramos a sua morte, mas também celebramos a sua vida. Acreditamos que ele está agora nos braços do Pai, onde já não há dor nem sofrimento.”</p>
<p>Para Maria Clara, o seu legado continuará a dar frutos. “Que a sua entrega nos inspire a viver com mais fé, mais coragem e mais amor pelos outros.”</p>
<p>Padre Domingos Maubere — combatente da libertação e da justiça — ficará para sempre na memória de um país que ele nunca abandonou. Nem nas montanhas da resistência, nem nos corredores do poder. A sua voz firme, a sua coragem moral e a sua entrega ao bem comum fazem dele um dos rostos mais inspiradores da história timorense contemporânea.</p>
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		<title>Mónica Ximenes: a arte de desafiar preconceitos</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Joana Silva]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 17 Apr 2025 12:37:22 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>Apesar das críticas que enfrentou, sobretudo após criar uma obra com a mensagem &#8220;a vagina não é uma máquina para produzir filhos&#8221;, Mónica Ximenes continua a produzir arte e a expandir o seu trabalho em defesa da liberdade individual. A [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p><em>Apesar das críticas que enfrentou, sobretudo após criar uma obra com a mensagem &#8220;a vagina não é uma máquina para produzir filhos&#8221;, Mónica Ximenes continua a produzir arte e a expandir o seu trabalho em defesa da liberdade individual.</em></p>
<p>A pintura e a tatuagem são os dois mundos criativos de Mónica Albertina Ximenes, de 28 anos, unidos como instrumentos de transformação social. Formada em Saúde Pública pela Universidade de Díli (UNDIL) em 2022, Mónica acredita que a arte é uma forma de expressar, denunciar e também curar.</p>
<p>Muitas vezes, a sua aparência gerava equívocos sobre o seu percurso académico.  “Alguns achavam que eu frequentava um curso técnico. Mas, na verdade, estudei Saúde Pública, uma área que se relaciona com o trabalho de tatuagem, porque também exige procedimentos semelhantes aos da cirurgia. Por isso, é fundamental ter conhecimentos sobre higiene”, explicou.</p>
<p>O interesse artístico começou cedo, incentivado pela irmã, quando ainda adolescente ingressou na Arte Moris (Escola de Arte). A ligação com esta comunidade artística foi determinante: entre 2015 e 2019, Mónica viveu no espaço da Arte Moris, em Comoro, onde aprofundou a sua experimentação visual e a liberdade criativa.</p>
<p>Durante esse período, criou a sua primeira pintura, retratando a mãe a cozinhar.  “Como vivíamos separados — os meus pais em Baucau e nós em Díli —, tinha muitas saudades da comida da minha mãe. Essa saudade inspirou-me a fazer essa obra. Guardei a pintura em casa como recordação do esforço dela e do seu significado. Foi uma história marcante”, recordou.</p>
<p>Após o encerramento forçado da Arte Moris em 2022, por decisão governamental, Mónica passou a produzir obras individuais, quase sempre ligadas a acontecimentos sociais. Desde o ano passado, dedica-se a uma peça inspirada nos despejos administrativos em Bidau, sobretudo no caso de uma mulher obrigada a abandonar a casa após dar à luz.  “Leva tempo a terminar, porque surgem muitas perguntas sobre o significado da obra”, afirmou.</p>
<p><strong>Entre telas e denúncias: a força de pintar o que muitos silenciam</strong></p>
<p>Mónica já participou em vários eventos e concursos. O primeiro foi em 2019, no Museu da Resistência Timorense, com uma pintura sobre uma mulher da resistência, que adaptou recentemente para outro concurso promovido pela Fundação Oriente. A obra retrata o sacrifício das mulheres, usando o seu corpo para salvar o país e a família.</p>
<p>“Pintei-a nua, com um cesto na cabeça e uma vela, que simboliza a luta das mulheres. Acrescentei sete mãos, representando o 7 de dezembro, início da guerra. Algumas mãos seguram armas, livros e outros elementos. O roxo representa as mulheres que perderam os maridos e continuam a lutar para que o Governo reconheça os seus direitos. Algumas tiveram filhos com militares e, mesmo após a independência, continuam a ser alvo de julgamentos”, relatou.</p>
<p>Em 2022, ficou em terceiro lugar numa competição promovida pelo Novo Turismo, em nome do grupo <em>Buibere Nia Riska</em>.  “Essa competição marcou-me especialmente, porque era uma concorrente jovem e, mesmo assim, consegui conquistar um prémio”, recordou com satisfação.</p>
<p>O ano de 2024 trouxe o maior desafio da sua carreira artística. Uma das suas obras viralizou nas redes sociais: uma imagem com a mensagem &#8220;a vagina não é uma máquina para produzir filhos&#8221;, criada para o evento Pride. “A ideia foi pensada em equipa, mas fui eu que pintei. Foi a primeira vez que enfrentei este tipo de problema. Fiquei em pânico. Recebi insultos, <em>bullying</em> e palavrões nas redes sociais. Essa pressão fez-me pensar em fazer uma pausa na arte”, confessou.</p>
<p>Contudo, não recuou. Recuperou forças, refletiu sobre o sistema patriarcal timorense e reafirmou o propósito da sua obra.  “O órgão genital da mulher serve para dar à luz, sim, mas rejeitamos o sistema que nos impõe isso. Muita gente não pensou além da imagem, apenas olhou para o órgão e fez comentários absurdos”, afirmou com firmeza.</p>
<p>Sobre o poder da arte, Mónica acredita que “a arte pode mudar comportamentos. Se dissermos às pessoas para não deitarem lixo no chão, nem todos entendem. Mas, se pintarmos essa mensagem, conseguimos tocar quem nos vê.”</p>
<p>Apesar disso, lamentou que a arte ainda seja pouco valorizada em Timor-Leste.  “Muitas vezes pedem-nos que ofereçamos os nossos quadros, sem reconhecer o valor do nosso trabalho, e até os estragam”, lamentou.</p>
<p>Atualmente, prepara-se para um novo passo: a sua primeira exposição individual, prevista para outubro deste ano. Deixa também uma mensagem aos jovens artistas: “Continuem a pintar. Não desanimem nem se sintam inseguros. A pintura não é apenas a qualidade visual, mas também o conceito e o significado.”</p>
<p>Mónica também se dedica à arte mural, utilizando paredes públicas para transmitir mensagens. &#8220;Recentemente, fui convidada a realizar uma pintura em Dare, dedicada às mulheres resistentes, para dar a conhecer a luta das mulheres durante a ocupação indonésia&#8221;, partilhou.</p>
<p><strong>Tatuar para romper preconceitos: uma mulher que inscreve liberdade no corpo</strong></p>
<figure id="attachment_19428" aria-describedby="caption-attachment-19428" style="width: 283px" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-medium wp-image-19428" src="https://www.diligenteonline.com/wp-content/uploads/2025/04/ART1-283x377.jpg" alt="" width="283" height="377" srcset="https://www.diligenteonline.com/wp-content/uploads/2025/04/ART1-283x377.jpg 283w, https://www.diligenteonline.com/wp-content/uploads/2025/04/ART1-675x900.jpg 675w, https://www.diligenteonline.com/wp-content/uploads/2025/04/ART1-768x1024.jpg 768w, https://www.diligenteonline.com/wp-content/uploads/2025/04/ART1.jpg 810w" sizes="auto, (max-width: 283px) 100vw, 283px" /><figcaption id="caption-attachment-19428" class="wp-caption-text">&#8220;Tatuar é como pintar. Tudo é arte. A diferença é que pintamos nos corpos&#8221;/Foto:DR</figcaption></figure>
<p>Além da pintura, Mónica dedica-se à tatuagem — a sua segunda paixão. O contacto com esta arte começou em 2014, antes de entrar na Arte Moris, quando começou a tatuar o próprio corpo com símbolos. “No início, escondia as tatuagens, porque a sociedade dizia que uma mulher com marcas no corpo não era boa pessoa”, recordou.</p>
<p>Iniciou a profissão de tatuadora em 2022, enfrentando resistência, sobretudo da família, preocupada com a imagem social. Mas essas críticas fortaleceram-na. “Essa resistência deu-me força para me afirmar. Aprendi com colegas, experimentei técnicas em amigos e familiares.” Hoje, é fundadora do seu próprio estúdio, o Art Noko&#8217; Tattoo Rau, em Becora.</p>
<p>Em 2023, criou também uma página no Facebook, onde divulga o seu trabalho e atrai novos clientes. “Tatuar é como pintar. Tudo é arte. A diferença é que pintamos nos corpos”, explicou.</p>
<p>&#8220;Em Timor-Leste, não dispomos de materiais adequados nem realizamos exames prévios como acontece noutros países. Por isso, perguntamos sempre diretamente aos clientes sobre eventuais doenças e utilizamos uma agulha nova para cada pessoa&#8221;, lamenta, sublinhando a sua preocupação com as exigências de higiene. A formação em Saúde Pública reforçou o seu cuidado com as práticas sanitárias e a sua consciência dos riscos invisíveis associados à profissão.</p>
<p>As suas próprias tatuagens carregam significados pessoais. “Tatuei uma borboleta porque gosto da noite — é o tempo mais calmo. A borboleta simboliza as mulheres noturnas. E tatuei folhas de árvores porque adoro a natureza”, explicou.</p>
<p>Além do estúdio, oferece os seus serviços no espaço <em>Kios Matenek</em> aos domingos, a preços acessíveis. Para Mónica, a tatuagem deve ser respeitada como forma legítima de expressão. “As pessoas julgam o corpo da mulher como se ela fosse um objeto. Mas o corpo também é um território de luta contra as injustiças.”</p>
<p><strong>“Ela desafia preconceitos”: o olhar de quem vê a arte como um ato de coragem</strong></p>
<p>Para Jorgita de Valença, amiga e colega de Mónica, a jovem artista destaca-se pela criatividade e pelo olhar crítico sobre temas sociais. “A Mónica começou como pintora, participando em várias exposições e concursos nacionais, e em 2024 esteve no Díli Tattoo Festival, um evento dominado por homens, onde a sua presença foi um verdadeiro ato de coragem”, descreveu.</p>
<p>Desde o início, enfrentou obstáculos pelo simples facto de ser uma mulher livre e crítica num meio ainda conservador. “Ela desafia preconceitos e prova que a arte é uma forma legítima de expressão”, acrescentou Jorgita.</p>
<p>Para a amiga, o percurso de Mónica é mais do que uma conquista individual. “A Mónica inspira-nos e mostra que a arte pode transformar mentalidades. A minha mensagem para ela é: continua a lutar, porque estás a fazer a diferença.”</p>
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		<title>Olandina Caeiro: uma vida inteira a erguer a voz das mulheres timorenses</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Joana Silva]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 02 Apr 2025 13:33:57 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>Resistente, mãe, ativista incansável. Olandina Caeiro enfrentou a prisão, a tortura e o exílio sem nunca desistir da luta por Timor-Leste e pelos direitos das mulheres. A sua voz continua viva na memória de quem com ela caminhou. Foi presa, [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify; line-height: 150%; page-break-after: avoid;"><i>Resistente, mãe, ativista incansável. Olandina Caeiro enfrentou a prisão, a tortura e o exílio sem nunca desistir da luta por Timor-Leste e pelos direitos das mulheres. A sua voz continua viva na memória de quem com ela caminhou.</i></p>
<p>Foi presa, torturada, separada da família e perdeu o emprego e a casa. Mas nem por um instante desistiu de lutar por Timor-Leste e pelos direitos das mulheres. Olandina Caeiro resistiu com coragem durante a ocupação indonésia, defendeu a liberdade quando poucos ousavam falar e, depois da independência, tornou-se uma figura incontornável na construção do Estado e da igualdade de género.</p>
<p>Faleceu a 31 de março de 2025, aos 74 anos, vítima de cancro, no Hospital Prince Court Medical Center, na Malásia. Mas o legado que deixa vai muito além de datas e cargos: é o de uma mulher que, em todas as frentes — da rádio clandestina às mesas de negociação, das manifestações às embaixadas — nunca deixou de fazer ouvir a sua voz.</p>
<p>Maria Olandina Isabel Caeiro Alves nasceu a 02 de novembro de 1951, em Ermera. Professora do ensino primário de formação, cedo mostrou que o seu lugar era na linha da frente. Em 1975, foi uma das fundadoras do Voz de Timor, um dos primeiros jornais do país, e também deu voz à resistência na Rádio Maubere — duas plataformas essenciais para a comunicação com a população durante os dias sombrios da ocupação.</p>
<p>Ainda nesse ano, foi capturada pelos militares indonésios e levada para Kupang. Estava grávida. Deu à luz na prisão, mas nunca mais voltou a ver o marido, combatente das FALINTIL. Libertada quatro anos depois, carregava no corpo e na memória as marcas da tortura. E, ainda assim, continuou.</p>
<p><strong>Entre a sobrevivência e a luta  </strong></p>
<p>Durante os anos 80, ocupou vários cargos na administração pública, mesmo sob domínio indonésio. Em Baucau, em 1989, foi funcionária pública do sistema indonésio, mas nunca deixou de estar ativa na causa da independência. Voltaria a ser presa em 1992, perdendo o emprego e a casa. Recomeçou do zero, abrindo um restaurante em Díli.</p>
<p>Olandina nunca se afastou das lutas sociais. Em 1998, enquanto presidente da organização East Timorese Women Against Violence (ETWAVE), organizou uma manifestação contra a violência de género — numa altura em que poucas ousavam confrontar esse problema em público.</p>
<p>Foi também membro da Comissão Nacional sobre Violência contra as Mulheres, na Indonésia, e integrou o Parlamento Provincial entre 1997 e 1999. As causas sociais, em particular os direitos das mulheres, estiveram sempre no centro da sua atuação.</p>
<p>Após o referendo de 1999, Olandina intensificou a participação política. Em 2001, já durante a administração transitória, foi nomeada comissária da Comissão da Função Pública, contribuindo para a organização do novo aparelho do Estado timorense. No mesmo período, integrou também a Comissão de Acolhimento, Verdade e Reconciliação (CAVR), que documentou as violações de direitos humanos cometidas durante a ocupação.</p>
<p>A sua ação não se limitou às instituições. Foi presidente da Rede Feto em 2003, fundou a Academia do Café de Timor-Leste e, entre 2011 e 2015, desempenhou funções como primeira Cônsul-Geral de Timor-Leste em Denpasar, na Indonésia. Mais tarde, foi embaixadora na Malásia (2017) e no Vietname (2021).</p>
<p><strong>A mulher a quem se recorria nos momentos difíceis </strong></p>
<p>Para muitos, Olandina foi mais do que uma líder: foi um porto seguro. Virgílio Guterres, Provedor dos Direitos Humanos e Justiça, jornalista e seu companheiro na resistência, recorda-a como &#8220;um refúgio, um lugar onde podíamos restaurar forças e esperança&#8221;. Quando a repressão apertava, era nela que os jornalistas e ativistas encontravam confiança para continuar. &#8220;Ela era uma perda fundamental de esperança. Nos momentos de desespero, recorria a ela para restaurar a minha confiança na busca por fontes”, recorda.</p>
<p>No final dos anos 1990, quando a perseguição se intensificou, Olandina refugiou-se em Lisboa. Mas mesmo longe, não parou de defender Timor-Leste.</p>
<p>“O primeiro ensinamento que ela nos deixou foi dar voz às mulheres”, afirmou Virgílio Guterres. Olandina acreditava que nenhuma transformação social seria verdadeira se não incluísse as mulheres. Incentivou-as a ocupar espaços de liderança e combateu o silêncio imposto ao género feminino.</p>
<p>A sua vida foi feita de ruturas e reconstruções. Mas em todas elas, esteve sempre o mesmo princípio: justiça e dignidade para o povo timorense — com as mulheres no centro dessa mudança.</p>
<p><strong>Memória viva entre companheiras de luta  </strong></p>
<p>A história de Olandina Caeiro continua a ecoar na voz de quem com ela partilhou o caminho da resistência. Maria Domingas Alves, conhecida como “Micato”, companheira de luta desde os tempos da clandestinidade, recorda-a como uma mulher de força inabalável.</p>
<p>“Olandina foi uma mulher determinada, com um objetivo claro: garantir o bem-estar do seu único filho, mesmo nas condições mais adversas. Lutámos juntas pela libertação nacional, colaborámos na Fokupers, na Rede Feto e, mais tarde, trabalhámos também na Função Pública, entre 2015 e 2017”, relembra Micato, emocionada.</p>
<p>Para além do vínculo pessoal, Micato destaca o espírito incansável de Olandina. “Ela nunca parou de aprender para melhorar o seu trabalho. Durante a resistência clandestina, cada uma tinha a sua rede de contactos, mas reencontrámo-nos no final de 1997, quando a Fokupers começou a ter um papel fundamental na luta contra a violência de género. Participámos juntas numa manifestação histórica a 25 de novembro. Vi nela uma mulher verdadeiramente comprometida.”</p>
<p>A luta de Olandina não se limitou a Timor-Leste. Também representou as mulheres timorenses em conferências internacionais, nomeadamente em Jacarta, e, após a independência, ajudou a consolidar a Rede Feto, sempre com um sonho em mente: alcançar a igualdade de oportunidades entre homens e mulheres.</p>
<p>A notícia da sua morte abalou profundamente aqueles que a conheceram. Fora do país no momento do falecimento, Micato lamenta não ter podido participar no funeral. “Fiquei comovida ao ver um vídeo onde ela cantava, já doente, aceitando com serenidade a doença que Deus lhe deu. Desejo muita força ao seu filho e às netinhas — que sigam o exemplo desta mulher forte, enquanto mãe e avó.”</p>
<p>Também ela, como tantas outras mulheres timorenses, pagou um preço elevado pela luta: foi presa, torturada e queimada com cigarros durante a ocupação indonésia. “A resistência feminina mostrou ao inimigo que não nos calávamos. Denunciámos as violações e as torturas. Muitas de nós, como a mana Olandina, mesmo trabalhando como funcionárias públicas do sistema indonésio, nunca deixámos de lutar pela independência”, sublinha Micato.</p>
<p>Antes de concluir, deixa um apelo: “A história de mulheres como a Olandina, a Rosa Muki Bonaparte ou a Merita Alves não pode cair no esquecimento. As novas gerações, especialmente as mulheres jovens, precisam de conhecer o passado e dar continuidade à luta pela igualdade.”</p>
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		<title>Zekcy Martins, o jovem que luta pela agricultura sustentável em Timor-Leste</title>
		<link>https://www.diligenteonline.com/zekcy-martins-o-jovem-que-luta-pela-agricultura-sustentavel-em-timor-leste/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Antónia Martins]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 02 Mar 2025 13:58:30 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Destaque]]></category>
		<category><![CDATA[Perfis]]></category>
		<category><![CDATA[Pessoas]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Através da organização Timor-Leste Organic Fertilizer (TILOFE), Zekcy Martins não só promove soluções para a resiliência climática e o apoio à produção agrícola sustentável, como também fomenta um sistema de empreendedorismo comunitário nas áreas rurais. Natural da aldeia Catrai Kraik, [&#8230;]</p>
<p>O conteúdo <a href="https://www.diligenteonline.com/zekcy-martins-o-jovem-que-luta-pela-agricultura-sustentavel-em-timor-leste/">Zekcy Martins, o jovem que luta pela agricultura sustentável em Timor-Leste</a> aparece primeiro em <a href="https://www.diligenteonline.com">DILIGENTE</a>.</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p><em>Através da organização Timor-Leste Organic Fertilizer (TILOFE), Zekcy Martins não só promove soluções para a resiliência climática e o apoio à produção agrícola sustentável, como também fomenta um sistema de empreendedorismo comunitário nas áreas rurais. </em></p>
<p>Natural da aldeia Catrai Kraik, no posto administrativo de Letefoho, Ermera, Zecky Carmo cresceu numa família de agricultores. Licenciou-se na Faculdade de Agricultura do East Timor Coffee Institute, no departamento de Agronomia, em 2018. Durante o percurso académico, acumulou experiências em liderança e agricultura sustentável, participando ativamente na Permacultura de Timor-Leste (PERMATIL) e em formações na Indonésia sobre fertilizantes orgânicos.</p>
<p>Em 2012, teve a oportunidade de frequentar uma formação do Young Help em Díli, onde aprendeu sobre gestão de quintais agrícolas, fertilizantes orgânicos (líquidos e secos) e técnicas de plantação. Mais tarde, aprofundou os seus conhecimentos em Bogor, Indonésia, onde passou três meses em formação. Inspirado pelos colegas agrónomos que conheceu, decidiu continuar os estudos na área da agronomia ao regressar a Timor-Leste.</p>
<p>A elevada taxa de desemprego entre os jovens, especialmente os recém-graduados, levou Zecky a refletir sobre a necessidade de criar uma organização que gerasse oportunidades de trabalho. Assim, ao concluir os estudos, reuniu-se com colegas agrónomos e fundou a TILOFE, baseada no lema: &#8220;É melhor pedir dinheiro para a criatividade do que pedir dinheiro para a nação.&#8221;</p>
<p>Para Zecky, o conhecimento deve ser levado de volta às comunidades para resolver problemas como a seca prolongada, a erosão dos solos e a escassez de água.</p>
<p><strong>Uma economia sustentável baseada na produção orgânica</strong></p>
<p>A produção de fertilizantes orgânicos tornou-se a principal atividade da TILOFE, não só como alternativa aos produtos químicos, mas também como um meio de criação de emprego. A matéria-prima para os fertilizantes provém do estrume de gado, adquirido diretamente às famílias rurais.</p>
<p>&#8220;Em 2021, comprámos 21 mil sacos de estrume bovino ao longo do ano, recolhidos diretamente junto das famílias, permitindo a produção de 120 mil toneladas de fertilizante orgânico. Todos os anos, conseguimos adquirir estrume de cerca de 75 famílias, beneficiando aproximadamente 150 pessoas da comunidade. Desta forma, contribuímos para melhorar o rendimento de várias famílias&#8221;, afirmou Zecky.</p>
<p>Além disso, a TILOFE tem fornecido fertilizantes a agricultores em Ermera, Aileu e Maliana, bem como a viveiros de árvores frutíferas. Instituições como a Escola Internacional de Díli, o Palácio Presidencial e o Hotel Novo Turismo também utilizam os fertilizantes da organização. Recentemente, o próprio Ministério da Agricultura começou a adquiri-los, dobrando a produção anual de mudas para 500 mil.</p>
<figure id="attachment_19050" aria-describedby="caption-attachment-19050" style="width: 715px" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-19050" src="https://www.diligenteonline.com/wp-content/uploads/2025/03/jovens-agricultores-liquica2.jpg" alt="" width="715" height="321" srcset="https://www.diligenteonline.com/wp-content/uploads/2025/03/jovens-agricultores-liquica2.jpg 715w, https://www.diligenteonline.com/wp-content/uploads/2025/03/jovens-agricultores-liquica2-516x232.jpg 516w" sizes="auto, (max-width: 715px) 100vw, 715px" /><figcaption id="caption-attachment-19050" class="wp-caption-text">A produção de fertilizantes orgânicos em Fatuquero, Ermera/Foto: DR</figcaption></figure>
<p>A produção de fertilizantes orgânicos também tem gerado empregos para os jovens de Ermera.  &#8220;Num ano, conseguimos empregar até 30 jovens, alguns em regime de meio período e outros em trabalho sazonal.&#8221;</p>
<p>Atualmente, a TILOFE conta com 13 membros fixos, dos quais sete estão ativos e seis continuam a trabalhar regularmente.</p>
<p>Zecky alerta para os impactos negativos da dependência dos fertilizantes químicos. “Todos os anos, o Ministério da Agricultura aloca verbas do orçamento do Estado para a compra de fertilizantes químicos da Austrália e da Indonésia. As comunidades que já utilizam esses produtos tornam os solos cada vez mais dependentes de fertilizantes químicos após cada colheita. Como consequência, tanto o governo como os agricultores continuam a gastar dinheiro constantemente para os adquirir. Isto tem de mudar, pois tem impactos negativos na produção agrícola e no meio ambiente&#8221;, alertou.</p>
<p><strong>Conservação da água e desafios para o futuro </strong></p>
<p>Zecky também trabalha com jovens e comunidades locais em Ermera na realização de atividades de conservação da água. Graças ao seu esforço, conseguiu ajudar a restaurar fontes de água que estavam a secar devido às alterações climáticas. Essas iniciativas já beneficiam 35 aldeias rurais em Ermera, e o objetivo é expandir a conservação da água para mais 15 sucos na região.</p>
<p>Os desafios na conservação da água estão, sobretudo, relacionados com a disputa pelo acesso às fontes. Zecky explicou. “Em alguns sucos, a água é privatizada. Para nós, é fundamental que o governo defina claramente quais fontes de água são privadas, públicas ou pertencem à comunidade. Esta questão tornou-se uma grande preocupação na sociedade, dificultando o trabalho da TILOFE.&#8221;</p>
<figure id="attachment_19049" aria-describedby="caption-attachment-19049" style="width: 715px" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-19049" src="https://www.diligenteonline.com/wp-content/uploads/2025/03/jovens-agricultores-liquica1.jpg" alt="" width="715" height="536" srcset="https://www.diligenteonline.com/wp-content/uploads/2025/03/jovens-agricultores-liquica1.jpg 715w, https://www.diligenteonline.com/wp-content/uploads/2025/03/jovens-agricultores-liquica1-503x377.jpg 503w" sizes="auto, (max-width: 715px) 100vw, 715px" /><figcaption id="caption-attachment-19049" class="wp-caption-text">Os jovens participaram ativamente na conservação da água/ Foto : DR</figcaption></figure>
<p>Outro obstáculo enfrentado pela TILOFE é a falta de recursos financeiros. O dinheiro obtido com a venda de fertilizantes orgânicos tem de ser repartido entre as atividades de conservação da água e ações de sensibilização, além de apoiar as famílias locais.</p>
<p>&#8220;Em muitas áreas remotas, precisamos de transporte para chegar às comunidades, mas a nossa capacidade financeira é limitada, o que torna difícil cobrir todas as aldeias rurais&#8221;, acrescentou Zecky.</p>
<p>Atualmente, a TILOFE continua a receber apoio financeiro, material e formação da PERMATIL. No passado, também contou com fundos do Serviço de Apoio à Sociedade Civil e da Direção Nacional de Biodiversidade. O jovem espera que o governo continue a apoiar a conservação da água, ajudando as comunidades a tornarem-se mais resilientes às alterações climáticas.</p>
<p>&#8220;Não pedimos muito, mas precisamos de ajuda para adquirir materiais, nomeadamente transporte para os membros da equipa que trabalham no terreno, além de assistência para as comunidades&#8221;, afirmou.</p>
<p>Nas ações de conservação da água, muitas comunidades pedem apoio financeiro, mas Zecky tenta sensibilizar a população para a importância do trabalho voluntário e incentivá-la a colaborar. &#8220;Não temos dinheiro para pagar às comunidades. Esse é um desafio, mas continuamos a trabalhar arduamente, porque a TILOFE não luta apenas por projetos, luta pelas pessoas&#8221;, destacou.</p>
<p>Os resultados desse trabalho têm sido bem recebidos pela população de Ermera, especialmente nos sucos de Mahatata, Samalete e Lasaun, onde antes a água era escassa, mas agora, após os esforços de conservação, as fontes foram recuperadas e estão a ser utilizadas para o consumo diário e a produção agrícola.</p>
<p>Dentro da TILOFE, Zecky valoriza o trabalho em equipa. &#8220;O nosso grupo está sempre pronto para aprender. Não dizemos que sabemos tudo, estamos dispostos a procurar conhecimento com outras pessoas. Continuamos a valorizar o conhecimento local e não vemos as comunidades apenas como beneficiárias, mas como protagonistas das soluções&#8221;, afirmou.</p>
<p>Além disso, capacita os jovens para liderarem as suas comunidades e resolverem conflitos relacionados com a gestão da água. &#8220;As autoridades em Ermera e as comunidades trabalham muito bem connosco, mesmo havendo alguns que não apreciam o nosso trabalho. Mas isso serve de motivação, porque ajuda-nos a melhorar a qualidade do nosso serviço.&#8221;</p>
<p><strong>Preservação das sementes locais e o futuro da TILOFE</strong></p>
<p>Zecky alerta para um problema crescente: a dependência de Timor-Leste de sementes importadas, que muitas vezes não se adaptam às condições climáticas locais. &#8220;Os nossos agricultores sempre disseram que, antigamente, o milho timorense tinha duas variedades: uma para a estação seca e outra para a estação chuvosa. Hoje, com as sementes importadas, a produção demora mais e a durabilidade é menor.&#8221;</p>
<p>A TILOFE tem trabalhado na educação comunitária para sensibilizar os agricultores para a importância da conservação das sementes tradicionais. Paralelamente, lidera campanhas de advocacia para pressionar o governo a criar um Banco Nacional de Sementes.</p>
<figure id="attachment_19051" aria-describedby="caption-attachment-19051" style="width: 715px" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-19051" src="https://www.diligenteonline.com/wp-content/uploads/2025/03/jovens-agricultores-liquica3.jpg" alt="" width="715" height="402" srcset="https://www.diligenteonline.com/wp-content/uploads/2025/03/jovens-agricultores-liquica3.jpg 715w, https://www.diligenteonline.com/wp-content/uploads/2025/03/jovens-agricultores-liquica3-516x290.jpg 516w" sizes="auto, (max-width: 715px) 100vw, 715px" /><figcaption id="caption-attachment-19051" class="wp-caption-text">TILOFE apresenta teatro sobre a importância da conservação sementes locais/Foto: DR</figcaption></figure>
<p><strong>Projetos para o futuro</strong></p>
<p>Este ano, a TILOFE continuará a produção de fertilizantes orgânicos e o trabalho de conservação da água nos 15 sucos de Ermera. Está também prevista a organização de um acampamento nacional com o tema &#8220;Partilhar conhecimento para fortalecer a economia rural&#8221;, com o objetivo de reforçar as redes de produção local em Timor-Leste.</p>
<p>&#8220;Vamos reunir jovens de todos os municípios, incluindo da Região Administrativa Especial de Oecusse Ambeno, para partilhar conhecimentos sobre como enfrentar desafios e desenvolver criatividade para fortalecer a economia das famílias&#8221;, explicou Zecky.</p>
<p>Em parceria com a PERMATIL, a TILOFE também organizará um acampamento internacional que reunirá jovens de cerca de 40 países em Díli. &#8220;Neste encontro, vamos discutir como o conhecimento local pode contribuir para a conservação da água. Assim, eles poderão aprender connosco e nós também aprenderemos com as suas estratégias para enfrentar as mudanças climáticas&#8221;, acrescentou.</p>
<p>Zecky apelou aos jovens para que confiem na sua criatividade, pois acredita que o apoio só se concretiza quando há iniciativa e trabalho árduo. &#8220;Não peço dinheiro a outros países para a minha sobrevivência, mas peço, no mínimo, que o nosso próprio país nos apoie para que possamos realizar as nossas atividades. Devemos trabalhar com dedicação, pois isso será um ponto positivo para a credibilidade de Timor-Leste&#8221;, concluiu.</p>
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		<title>Entre o medo e o cinema: como Bety Reis transformou o trauma da guerra em histórias que emocionam Timor-Leste</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Antónia Martins]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 07 Feb 2025 23:30:11 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Destaque]]></category>
		<category><![CDATA[Perfis]]></category>
		<category><![CDATA[Pessoas]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Com uma infância e juventude marcadas pelo medo e pelo trauma da invasão indonésia, Bety Reis descobriu, após a restauração da independência, que ainda era possível encontrar alegria e partilhá-la com os outros.  Nívea Elisabeth C. dos Reis, mais conhecida [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p><em>Com uma infância e juventude marcadas pelo medo e pelo trauma da invasão indonésia, Bety Reis descobriu, após a restauração da independência, que ainda era possível encontrar alegria e partilhá-la com os outros.  </em></p>
<p>Nívea Elisabeth C. dos Reis, mais conhecida como Bety Reis, nasceu a 1 de março de 1983 e tornou-se a primeira cineasta de Timor-Leste. Como atriz, realizadora e produtora, desempenhou um papel fundamental no desenvolvimento do cinema timorense.</p>
<p>O seu primeiro filme, &#8220;A Guerra de Beatriz&#8221;, realizado em parceria com Luigi Acquisto e lançado em 2013, venceu o prestigiado Prémio Pavão de Ouro no 44.º Festival Internacional de Cinema da Índia.</p>
<p>Bety produziu quatro curtas-metragens na organização Dili Film Works, incluindo um documentário sobre <em>manu futu</em> (luta de galos) e a história fictícia “Vagabong”, em 2011, bem como o documentário “Criança Roubada”, em 2015. Além disso, produziu vídeos para organizações como fonte de rendimento. Mas antes de se tornar realizadora, Bety sonhava com uma carreira muito diferente.</p>
<p><strong>Uma infância roubada pela guerra  </strong></p>
<p>Na infância, Bety sonhava ser advogada, movida pelas dificuldades e injustiças que marcaram a sua vida. Cresceu num ambiente difícil, onde sentiu na pele a injustiça e foi frequentemente vítima de <em>bullying</em> na escola. A certa altura, reagiu e bateu num colega, cujo pai, militar, apareceu na escola com uma pistola. &#8220;O diretor escondeu-me na casa de banho e disse-lhe que eu era apenas uma criança e que me ia castigar&#8221;, recorda.</p>
<p>Bety cresceu com a mãe adotiva, e, quando ela tinha 10 anos, voltou a viver com a mãe biológica. O pai nunca esteve presente, tudo o que sabia era que tinha desaparecido no mato. A infância foi passada entre brincadeiras com amigos, doutrina na Igreja de Motael e banhos de mar. A guerra era algo distante&#8230; até que deixou de o ser.</p>
<p>Na madrugada de 28 de outubro de 1991, ouviu os sinos da igreja tocarem após o assassinato de Sebastião Gomes. Foi então que percebeu que a sua vida nunca mais seria a mesma.</p>
<p>O massacre de Santa Cruz, a 12 de novembro de 1991, marcou a sua vida para sempre. Naquela manhã, foi à igreja assistir à missa, mas foi mandada para a escola. Depois, os estudantes foram mandados para casa, pois haveria uma procissão. Nessa noite, ninguém dormiu. Rezaram, porque alguns familiares nunca mais voltaram.</p>
<p>Os anos seguintes foram ainda mais difíceis. Quando saiu da escola São Pedro, em Comoro, Díli, viu os militares indonésios obrigarem pessoas a juntarem-se a milícias, incluindo idosos, vendedores ambulantes e analfabetos. Muitos juntaram-se apenas para proteger as suas famílias.</p>
<p>Em 1999, após o referendo, a família de Bety, que vivia na zona do Farol, celebrou. Mas a alegria rapidamente se transformou em terror. As casas começaram a ser incendiadas e as milícias entraram na sua casa, disparando tiros.  Ela, a mãe biológica, a irmã mais nova e duas tias ajoelharam-se, aterrorizadas, enquanto as milícias disparavam dentro da casa.</p>
<p>&#8220;Isso aconteceu duas vezes. Felizmente, ninguém da minha família morreu ou foi violado, como aconteceu a algumas das minhas colegas. Eles entraram com catanas, tinham um olhar anormal, olhos vermelhos, insultos na boca&#8230; só queriam matar.&#8221;</p>
<p>Um membro da milícia aconselhou a sua família a esconder-se numa casa onde os militares não costumavam entrar. Passaram a noite encolhidos numa casa de banho.</p>
<p>No dia seguinte, os militares forçaram os timorenses a evacuar para Atambua, na Indonésia. Mas a família de Bety seguiu um grupo que ia para Baucau. Durante a viagem, foram intercetados por uma milícia armada. Um homem colocou uma catana no pescoço de Bety, obrigando-a a sair do carro. Tinha apenas 16 anos. O avô, aterrorizado, deixou cair uma estátua de Maria que segurava nas mãos. A situação poderia ter terminado em tragédia, mas a intervenção de um dos líderes da milícia permitiu que seguissem viagem.</p>
<p>Quando Díli acalmou, a família voltou e viveu dois meses numa tenda no Estádio Municipal.  &#8220;Agradeço por estar viva para contar a história&#8221;, disse Bety, em lágrimas.</p>
<p><strong>O teatro como cura para os traumas da guerra  </strong></p>
<p>Na juventude, encontrou refúgio no teatro, onde percebeu que fazer os outros sorrir e contar histórias era uma forma poderosa de dar voz a quem não a tinha. A sua jornada artística começou no grupo Bibi Bulak, em 2002, onde encontrou não só uma forma de escapar à miséria da guerra, mas também um novo propósito de vida: partilhar sorrisos.</p>
<p>Quando entrou para o grupo Bibi Bulak, Bety decidiu nunca mais olhar para trás. Algumas das suas colegas sofreram traumas irreversíveis e chegaram a desenvolver doenças mentais. Ela própria ainda carrega medos e uma baixa autoestima.</p>
<p>A primeira vez que sentiu um verdadeiro alívio foi quando participou numa dança cultural na comemoração do 20 de maio.  &#8220;Foi ali que percebi que já tínhamos ultrapassado o pior. Desde então, só quis envolver-me em atividades que me fizessem seguir em frente.&#8221;</p>
<p>Foi também no Bibi Bulak que decidiu trocar o curso de Direito pelo cinema. Com o teatro, percebeu que poderia unir comunidades, promover a reconciliação e dar voz a temas difíceis.</p>
<p>Em 2008, foi produzido um grande filme sobre os Balibó 5, e o grupo foi convidado para participar no <em>casting</em>. Mesmo como extra, Bety teve a oportunidade de acompanhar de perto o processo de filmagem, o que lhe permitiu aprender como se produz uma grande obra cinematográfica. Essa experiência despertou nela o desejo de se tornar realizadora. Foi durante esta produção que conheceu Luigi Acquisto, com quem viria a trabalhar mais tarde no seu primeiro filme.</p>
<p><strong>&#8220;A Guerra de Beatriz&#8221;: um filme que emocionou Timor-Leste  </strong></p>
<p>Em 2009, Luigi Acquisto convidou Bety Reis para o <em>casting</em> do filme “A Guerra de Beatriz”. No ano seguinte, juntamente com mais dois colegas, fundaram a Dili Film Works, um espaço de aprendizagem da escrita de roteiros e da produção de curtas-metragens.</p>
<p>A Dili Film Works tornou-se um marco na sua formação, mas enfrentou desafios ao longo dos anos: foi encerrada em 2017 e reaberta em 2021. Atualmente, encontra-se sem atividades devido à falta de financiamento. Foi nesse ambiente que Bety aprendeu a escrever histórias e a trabalhar com vídeo, até conseguir produzir as suas primeiras curtas-metragens.</p>
<p>A sua primeira curta, um documentário sobre <em>manu futu</em> (luta de galos), foi realizada em 2011. O filme explorava a tradição da luta de galos entre os homens timorenses, focando-se no papel de um tio, que trabalhava como árbitro nesses combates. A presença de Bety na arena causou espanto entre os locais, pois acreditavam que a entrada de uma mulher poderia &#8220;fechar&#8221; o espaço. No entanto, determinado a contar a sua história, o tio permitiu que a entrevista acontecesse. Curiosamente, dois meses após a produção, o local foi de facto encerrado.</p>
<p>Ainda em 2011, produziu “Vagabong”, uma curta-metragem sobre um jovem que abriu um negócio de carne de cão, recorrendo ao roubo desses animais. O filme inspirou-se num fenómeno real da época, em que cães eram capturados e abatidos para consumo, num prato conhecido como RW. Na história, o protagonista consegue prosperar no negócio, mas falha em encontrar uma esposa. Desesperado, consulta um <em>matan dook</em> (curandeiro), que lhe diz que a única solução para a sua maldição seria casar-se com uma cadela. O filme gerou controvérsia, sendo mal recebido por aqueles que participavam nesse comércio clandestino.</p>
<p>Em 2015, com financiamento do programa docTV da CPLP, produziu o documentário “Criança Roubada”, que retrata a história de uma criança timorense levada para a Indonésia, representando as mais de 40 mil crianças desaparecidas durante a ocupação.</p>
<p>O documentário foca-se em Abdul, que nasceu José, e foi sequestrado em criança, juntamente com outras dez crianças, sendo transportado numa caixa de munições. A sua família acreditava que ele tinha morrido. Quando a mãe faleceu, pediu para ser enterrada junto ao filho, e a família decidiu declará-lo morto. Anos depois, um esforço conjunto entre os governos de Timor-Leste e da Indonésia e várias organizações conseguiu reunir Abdul com a sua família. Sem recordar o nome dos pais, ele conseguiu identificá-los graças à memória do irmão mais velho e do local onde vivia. Como parte do reencontro, a família realizou um ritual simbólico de aceitação, antes de Abdul regressar à Indonésia, onde já tinha esposa e filhos.</p>
<p>Para Bety Reis, um dos maiores desafios na produção cinematográfica é trabalhar com atores sem experiência, que frequentemente esquecem o roteiro e ainda não estão à vontade diante das câmaras. Além disso, gerir uma equipa de filmagem requer disciplina, criatividade e foco.  &#8220;A disciplina, a vontade de aprender e a dedicação total são essenciais para quem quer ser um bom ator, realizador ou produtor de cinema&#8221;, reflete.</p>
<figure id="attachment_18882" aria-describedby="caption-attachment-18882" style="width: 640px" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-18882 size-large" src="https://www.diligenteonline.com/wp-content/uploads/2025/02/Bety-Reis-na-producao-de-filme-900x600.jpg" alt="" width="640" height="427" srcset="https://www.diligenteonline.com/wp-content/uploads/2025/02/Bety-Reis-na-producao-de-filme-900x600.jpg 900w, https://www.diligenteonline.com/wp-content/uploads/2025/02/Bety-Reis-na-producao-de-filme-516x344.jpg 516w, https://www.diligenteonline.com/wp-content/uploads/2025/02/Bety-Reis-na-producao-de-filme-768x512.jpg 768w, https://www.diligenteonline.com/wp-content/uploads/2025/02/Bety-Reis-na-producao-de-filme.jpg 1500w" sizes="auto, (max-width: 640px) 100vw, 640px" /><figcaption id="caption-attachment-18882" class="wp-caption-text">Bety Reis com um mentor na produção de filme A Guerra de Beatriz/Foto: Bety Reis/Futuros Criativos</figcaption></figure>
<p>Realizar “A Guerra de Beatriz” foi um enorme desafio. Bety Reis ficou responsável por alinhar o roteiro com a narrativa e dirigir os atores, enquanto Luigi Acquisto tratava da parte técnica. &#8220;O filme mistura ficção com realidade. A história de amor é fictícia, mas o massacre de Kraras, em 1983, foi real&#8221;, explica.</p>
<p>Durante as filmagens, a dor do passado ressurgiu entre os habitantes de Kraras, que reviveram memórias do massacre. Um homem, emocionado, quis que o filho participasse no filme. No início, trouxe a criança vestida normalmente. Depois, voltou com ela despida. Por fim, envolveu-a num pano e disse: &#8220;O meu filho é como eu era. Quando o meu pai foi assassinado, segurou-me assim.&#8221; Foi nesse momento que a equipa compreendeu que, além dos homens, também as crianças tinham sido alvo do massacre.</p>
<p>A cena do massacre foi uma das mais difíceis de filmar. Para Bety, parecia que o horror do passado se desenrolava diante dos seus olhos. Durante um dos momentos mais intensos, não conseguiu dizer &#8220;corta&#8221;. Uma das canções mais marcantes do filme, Foho Ramelau, não estava prevista no roteiro, mas foi espontaneamente cantada pelos figurantes, que recordaram que, durante os massacres, os sobreviventes foram obrigados a entoar o hino da Fretilin.</p>
<p>&#8220;Filmar em Maubisse e Liquiçá foi tranquilo, mas em Kraras a história ganhou vida. Sentimos que estávamos a assistir aos acontecimentos em tempo real&#8221;, recorda Bety. A comoção foi tão forte que um dos atores, que interpretava um militar, não conseguiu levantar a arma para iniciar a cena do massacre.</p>
<p>O clima durante as gravações também pareceu refletir a história. No primeiro dia de filmagem em Kraras, choveu. Nos dias seguintes, o tempo permaneceu nublado, recriando involuntariamente o ambiente sombrio daquele período trágico. Os sobreviventes afirmaram que a atmosfera das filmagens era incrivelmente semelhante à do massacre real.</p>
<p>A produção envolveu cerca de 60 pessoas e levou oito semanas para ser filmada, mas a pós-produção prolongou-se por três anos. Um dos maiores desafios foi encontrar um ator para interpretar o jovem Tomás, uma personagem introvertida. Só após inúmeras audições em universidades e escolas conseguiram encontrar o candidato ideal.</p>
<p>Quando o filme foi exibido nos municípios, com apoio do Governo, muitas mulheres afirmaram que a história retratava a sua própria realidade. Algumas relataram que os seus maridos desapareceram e nunca mais foram vistos. Na Austrália, uma mulher levantou-se após a sessão e disse que “A Guerra de Beatriz” contava a sua história. Ela foi torturada, violada e separada do filho, que foi levado pelos militares. Quando conseguiu recuperar-se, procurou incansavelmente o filho — e encontrou-o.</p>
<p>&#8220;Este filme faz com que as pessoas revelem as suas histórias, coisas que durante anos preferiram esconder. Ele representa todas as mulheres timorenses e a própria história de Timor-Leste&#8221;, observa Bety.</p>
<p>Apesar das dificuldades, Bety Reis nunca desistiu do seu sonho. Como mulher, foi frequentemente subestimada e enfrentou obstáculos para obter financiamento timorense para “A Guerra de Beatriz”. No entanto, a sua determinação e empenho levaram o filme ao sucesso, tornando-se uma referência no cinema timorense e uma voz poderosa na preservação da memória histórica do país.</p>
<p><strong>Projetos futuros e desafios do cinema em Timor-Leste  </strong></p>
<p>Atualmente, Bety Reis está a trabalhar num documentário sobre proteção ambiental e num projeto pessoal intitulado “Anguene”, que explora um ritual de Maliana. Trata-se de uma cerimónia semelhante ao <em>Sau Batar</em> (dedicado ao milho), mas, no caso da Anguene, o ritual é dedicado ao arroz.</p>
<p>Além disso, Bety está envolvida na criação de uma associação de cinema, com o objetivo de fortalecer a indústria cinematográfica timorense. Tem também uma curta-metragem em desenvolvimento, cujo conteúdo mantém, por agora, em segredo.</p>
<p>A realizadora sublinha as dificuldades de produzir filmes em Timor-Leste, devido à inexistência de uma indústria consolidada e à falta de apoio governamental. &#8220;Sem financiamento de doadores, é praticamente impossível fazer cinema&#8221;, explica. Quando ainda era atriz, recebia 20 dólares por hora de filmagem. “Se apresentarmos uma proposta em que pretendemos pagar 100 dólares por hora a um ator, ninguém nos vai financiar”, lamenta.</p>
<p>Apesar dos desafios, Bety quer inspirar os timorenses a perseguirem os seus sonhos, independentemente das dificuldades. &#8220;O mais importante não é o tipo de sonho que temos, mas sim não termos medo de aprender, de nos expressarmos e de nos aproximarmos de quem detém conhecimento&#8221;, afirma. &#8220;Cada um tem a sua história. A questão é: como transformá-la numa memória viva?&#8221;</p>
<p>Timor-Leste pode ainda não ter uma indústria cinematográfica consolidada, mas Bety Reis já garantiu o seu lugar na história do cinema do país.</p>
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		<title>Leo Moniz: a música como resistência, identidade e inspiração em Timor-Leste</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Antónia Martins]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 30 Jan 2025 12:59:53 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Destaque]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Leo Moniz, um dos músicos mais icónicos de Timor-Leste, usa a música como uma forma de resistência, identidade e inspiração. Autor de canções marcantes como &#8220;Oras To’o Ona&#8221;, que fortaleceu a luta pela independência, continua a apoiar novos talentos e [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p><em>Leo Moniz, um dos músicos mais icónicos de Timor-Leste, usa a música como uma forma de resistência, identidade e inspiração. Autor de canções marcantes como &#8220;Oras To’o Ona&#8221;, que fortaleceu a luta pela independência, continua a apoiar novos talentos e a defender a valorização da música timorense. </em></p>
<p>Leopoldo Moniz dos Santos Maia, mais conhecido como Leo Moniz, nasceu em 1973, em Same. Filho de Moniz Maia (falecido) e de Leopoldina dos Santos, cresceu num ambiente musical, influenciado pelos pais e familiares que participavam em grupos corais e compunham músicas.</p>
<p>Leo Moniz é considerado uma figura importante no desenvolvimento e promoção da música tradicional de Timor-Leste. Ele inovou ao incorporar elementos tradicionais na música, reduzindo as barreiras entre o estilo musical local e o moderno. Além de ser músico, também é um defensor da cultura que inspira as novas gerações a proteger e promover a cultura timorense por meio da arte e da música.</p>
<p>Desde cedo, mostrou interesse pela música. Durante o ensino primário, em Same, já participava em atividades musicais escolares. Quando se mudou para Díli para continuar os estudos na Escola Pré-secundária SMP 1 Díli e mais tarde na Escola Pública Número 2, em Balide, formou bandas com os colegas e participou em diversas competições musicais.</p>
<p>&#8220;Desde pequeno, identifiquei-me com a música. Criei um grupo na escola e, juntos, participámos em concursos entre escolas. No ensino pré-secundário, permaneci ativo na música e percebi que o meu talento começou a desenvolver-se a partir daí. No entanto, as oportunidades ainda não surgiam. No secundário, continuei a formar bandas com colegas e a explorar novas oportunidades para crescer como músico&#8221;, recorda.</p>
<p>Inicialmente, aprendeu a tocar baixo na escola, mas foi como vocalista que se destacou. Durante os ensaios com uma banda de estudantes, o vocalista principal, Nelson Turquel, incentivou-o a explorar a sua voz.</p>
<p>&#8220;As circunstâncias levaram-me a cantar. Aos poucos, organizámo-nos e começámos a atuar em festas, eventos escolares e até em igrejas&#8221;, relembra.</p>
<p>A sua primeira conquista aconteceu em 1995, quando participou num concurso musical organizado por Dom Carlos Ximenes Belo, em Lecidere, onde conquistou primeiro lugar como cantor solo. “Essa vitória deu-me ainda mais motivação para continuar e procurar novas oportunidades &#8220;, conta.</p>
<p>Hoje, além de músico, Leo Moniz é estudante da Universidade Nacional Timor Lorosa’e (UNTL), onde está na fase final do curso de Ciência Política.</p>
<p><strong>A música como arma na luta pela independência</strong></p>
<p>Durante a ocupação indonésia, Leo Moniz tinha 18 anos e já compreendia que a música poderia ser uma poderosa ferramenta para fortalecer a identidade nacional e a resistência.</p>
<p>Em 1990, começou a compor músicas que refletiam a realidade do povo timorense. “Produzi várias canções, algumas sobre o Natal, outras sobre a vida e muitas outras sobre a situação que vivíamos. Uma delas &#8216;O Rai Timor&#8217; foi escrita após o massacre de Santa Cruz, em 1991. Era um apelo aos políticos indonésios para refletirem sobre a situação do país&#8221;, conta.</p>
<p>Naquela época, gravar músicas era um grande desafio. Os artistas timorenses não tinham acesso a estúdios e precisavam atuar discretamente para evitar represálias. &#8220;Cantávamos apenas em reuniões informais, pois divulgar as músicas era perigoso&#8221;, explica.</p>
<p>Foi apenas em 1998 que Leo Moniz conseguiu gravar a sua primeira música na Indonésia. &#8220;Regressei a Timor-Leste num momento tenso, quando o país se preparava para o referendo. Divulgar as nossas canções era arriscado, mas continuámos a cantar para motivar o povo a resistir e lutar pela independência&#8221;, afirma.</p>
<p>Em 1999, Leo Moniz juntou-se a outros músicos timorenses, incluindo Jeca Smith e Anito Matos, para compor a icónica &#8220;Oras To’o Ona&#8221; (Chegou a hora). A música foi criada durante a missão da UNAMET (Missão das Nações Unidas em Timor-Leste), com o objetivo de incentivar a participação popular no referendo.</p>
<p>&#8220;Dois funcionários da UNAMET souberam do nosso grupo e procuraram-nos para apoiar a criação de uma música que reforçasse a importância do referendo. Queríamos transmitir uma mensagem clara: estava na hora de Timor escolher o seu próprio destino&#8221;, explica.</p>
<p>A canção tornou-se um símbolo de resistência e um incentivo para a população timorense. &#8220;A música representava o sentimento coletivo do povo, que já estava determinado a ser independente. Foi uma forma de unir e fortalecer a nossa luta&#8221;, acrescenta.</p>
<p>No entanto, cantar uma música com uma mensagem tão forte naquela época era perigoso. &#8220;Muitos timorenses alertavam os militares indonésios sobre a letra da música, pois entendiam que ela encorajava a luta pela independência. Por isso, após cada apresentação, precisávamos esconder-nos&#8221;, recorda.</p>
<p>Após o anúncio da vitória do referendo, em 30 de agosto de 1999, o país mergulhou num cenário de violência e destruição provocado pelas milícias pró-Indonésia. Durante esse período, &#8220;Oras To’o Ona&#8221; tornou-se ainda mais popular, sendo um lembrete dos sacrifícios do povo timorense.</p>
<p><strong>Da banda NAIL ao apoio a novos talentos</strong></p>
<p>Leo Moniz recorda que, no início da sua carreira, fez parte da banda NAIL, um grupo que enfrentou inúmeros desafios, mas nunca desistiu de explorar e expressar o seu talento.</p>
<p>&#8220;Mesmo em tempos difíceis, encontrámos formas de desenvolver o nosso talento. Tivemos o apoio e a inspiração de colegas de Babadok, como Nelson Martins, Aurito e um amigo australiano, que nos incentivaram e nos deram coragem para continuar. Eles acreditavam na importância das nossas músicas, pois sabiam que refletiam fielmente a dura realidade que o povo enfrentava naquela época&#8221;, conta.</p>
<p>A música sempre foi mais do que entretenimento para Leo Moniz – foi uma forma de resistência e um meio de dar voz ao povo timorense.</p>
<p>Além da sua carreira como cantor e compositor, Leo Moniz tornou-se uma referência para as novas gerações de músicos timorenses. Muitas bandas e artistas emergentes procuram-no em busca de conselhos sobre como iniciar um percurso na música.</p>
<p>&#8220;Eu faço questão de incentivar tanto indivíduos como grupos. A música exige dedicação e compromisso, e procuro ajudar aqueles que realmente querem evoluir. Um exemplo disso são as bandas Galaxy e Klamar, que me veem como uma referência e inspiração para seguirem em frente&#8221;, afirma.</p>
<p>Para ele, o papel da música vai além do palco – é uma ferramenta de identidade cultural e transformação social.</p>
<p><strong>A luta pela valorização da música em Timor-Leste  </strong></p>
<p>Leo Moniz defende que a arte deve ser prioridade nacional e apela ao governo para que invista no setor, promovendo os talentos da nova geração e fortalecendo a identidade cultural de Timor-Leste.</p>
<p>&#8220;O mundo está sempre ligado à arte, e Timor-Leste precisa desenvolvê-la ainda mais, pois ela representa a nossa identidade no cenário internacional. Temos muitas riquezas artísticas – da escultura à pintura, passando pela música. Os jovens devem promovê-las e o governo deve apoiar essa iniciativa, pois há muitos timorenses talentosos&#8221;, sublinha.</p>
<p>Para isso, considera fundamental criar uma academia de música para capacitar jovens artistas. &#8220;Se nos organizarmos bem e tivermos uma boa gestão, podemos formar uma nova geração de músicos preparados para o futuro, permitindo que conquistem a sua independência artística&#8221;, defende.</p>
<p>Um dos temas que mais preocupa Leo Moniz é a falta de proteção dos direitos autorais em Timor-Leste. Ele alerta para o problema do plágio e para a necessidade de leis mais rigorosas para garantir que os artistas sejam reconhecidos pelo seu trabalho.</p>
<p>&#8220;Sabemos que, no VIII Governo, já foi estabelecida uma lei para regular a música, mas são necessárias mais medidas para garantir a proteção dos direitos autorais. Caso contrário, as obras continuarão a ser copiadas sem o devido reconhecimento&#8221;, critica.</p>
<p>Destaca que muitos músicos timorenses enfrentam dificuldades devido à reprodução e modificação indevida das suas músicas. &#8220;Atualmente, há muita gente que copia músicas sem autorização dos seus autores. Fico triste quando ouço as minhas canções alteradas. Quando criamos música, fazemos isso com o coração. Mas, quando ela é modificada, perde a sua essência&#8221;, lamenta.</p>
<p>Leo Moniz defende que Timor-Leste precisa urgentemente de um decreto-lei que proteja os direitos dos artistas e impeça a apropriação indevida das suas obras. &#8220;Se o governo der atenção a esta questão, podemos garantir que as músicas timorenses permaneçam autênticas e que os artistas sejam devidamente valorizados&#8221;, reforça.</p>
<p><strong>A modernização da música, atuações internacionais e conexão com o público </strong></p>
<p>Leo Moniz também reflete sobre as diferenças entre os artistas da sua geração e os músicos de hoje. Para ele, a modernização trouxe facilidades, mas também desafios.</p>
<p>&#8220;Na minha época, fazíamos tudo manualmente, e as nossas vozes precisavam de ser autênticas. Hoje, com a digitalização, tudo se tornou mais acessível, mas muitos esquecem-se da importância da qualidade musical. Os jovens talentosos devem continuar a aprender e a aperfeiçoar-se, sem depender apenas da tecnologia&#8221;, aconselha.</p>
<p>Ao longo da sua carreira, Leo Moniz nunca frequentou uma escola de música formal, mas aprendeu na prática, pesquisando, experimentando e trabalhando com outros músicos. Já produziu cerca de 60 canções, muitas das quais retratam amor, desafios da vida e a história de Timor-Leste.</p>
<p>&#8220;Nunca fiz um curso de música, mas aprendi com os meus colegas, pesquisando e praticando todos os dias. A inspiração constante e o trabalho conjunto ajudaram-me a expandir o meu conhecimento e a melhorar as minhas habilidades artísticas&#8221;, revela.</p>
<p>Mesmo com uma carreira consolidada, ele continua a colaborar com outros músicos e está envolvido em novos projetos com as bandas NAIL e VI-Almax. &#8220;Estamos a planear lançar uma nova coleção musical e, ainda este ano, vamos lançar sete novas músicas&#8221;, adianta.</p>
<p>Embora ainda não tenha participado em competições musicais internacionais, Leo Moniz já teve a oportunidade de atuar em espetáculos na Austrália, Macau e outros países.</p>
<p>Para ele, o essencial numa apresentação musical não é apenas a técnica, mas a forma como o artista transmite a sua mensagem ao público. &#8220;O que realmente importa não é apenas cantar ou tocar bem, mas sim como conseguimos expressar emoção através da música. A gestualidade, a voz e o sentimento são fundamentais para captarmos a atenção da audiência&#8221;, explica.</p>
<p>Leo Moniz destaca que, ao longo da sua carreira, foi conquistando o reconhecimento do público porque as suas músicas refletem a realidade do povo timorense e transmitem mensagens significativas.  &#8220;O reconhecimento de um artista não acontece de um dia para o outro. É um processo. À medida que as pessoas se identificam com as músicas e compreendem a mensagem, a conexão torna-se mais forte&#8221;, observa.</p>
<p>Leo Moniz, um dos músicos mais icónicos de Timor-Leste, continua a ser uma voz ativa na defesa da cultura e da música timorense, inspirando novos talentos e reforçando a necessidade de proteger a arte no país.</p>
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		<title>Gerson Oliveira: o artista que eleva a música timorense e inspira uma nova geração</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Antónia Martins]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 21 Jan 2025 13:09:18 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>Gerson Oliveira, cantor e compositor timorense, começou a sua carreira em 2006 e alcançou reconhecimento nacional com sucessos como &#8220;Hau Presiza Tebes O&#8221;. Representou Timor-Leste em competições internacionais e continua a lutar pela valorização da música no país, enquanto inspira [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p><em>Gerson Oliveira, cantor e compositor timorense, começou a sua carreira em 2006 e alcançou reconhecimento nacional com sucessos como &#8220;Hau Presiza Tebes O&#8221;. Representou Timor-Leste em competições internacionais e continua a lutar pela valorização da música no país, enquanto inspira jovens a perseguirem os seus sonhos e a promoverem a cultura timorense.</em></p>
<p>David Cezário Gusmão de Oliveira, conhecido pelo nome artístico Gerson Oliveira, é cantor e compositor timorense, tendo lançado a sua primeira música, &#8220;Keta Tanis&#8221;, em 2014. Desde então, as suas canções têm exercido uma forte influência na sociedade timorense, encantando crianças e adultos.</p>
<p>&#8220;Em 2014, lancei a minha primeira música. Mais tarde, compus outra canção e tive a honra de cantá-la no evento da proclamação da independência, a 28 de novembro de 2017, e na cerimónia de inauguração do monumento de Dom Boaventura, em Luak, no município de Manufahi,&#8221; partilhou o artista.</p>
<p>Gerson é o filho mais novo de seis irmãos, nascido de Lourenço de Oliveira e Alícia da Conceição Gusmão. Iniciou os seus estudos na escola primária número 6, em Hudi Laran, Díli, continuou o ensino pré-secundário na SMP 3, em Baucau, e concluiu o ensino secundário na Escola Pública Finantil, em Díli.</p>
<p>Em 2010, prosseguiu os estudos universitários em Surabaya, Indonésia, mas, devido a dificuldades financeiras, teve de regressar a Timor-Leste, onde continuou os estudos na Universidade Oriental de Timor Lorosa&#8217;e (UNITAL), no Departamento de Gestão Política da Faculdade de Ciências Sociais. Atualmente, está no último semestre.</p>
<p><strong>Carreira artística </strong></p>
<p>Gerson iniciou o seu percurso musical em 2006, atuando com colegas em festas e cerimónias de casamento.</p>
<p>&#8220;Entre 2006 e 2012, cantei em festas e casamentos. Depois disso, decidi deixar de atuar nestes eventos para explorar novos horizontes, colaborando com artistas mais experientes e perseguindo os meus objetivos,&#8221; explicou.</p>
<p>Em 2007, participou numa competição musical organizada pela Rádio Timor Kmanek (RTK), o que lhe deu motivação para seguir a carreira musical. Apesar da insegurança inicial no palco, Gerson conseguiu superar o nervosismo e ganhar confiança nas suas apresentações.</p>
<p>&#8220;O nervosismo no palco é natural e comum entre artistas. Para o superar, faço orações e respiro fundo antes das apresentações. No início, foi difícil, mas com o tempo fui melhorando,&#8221; partilhou.</p>
<p>Ao longo da sua carreira, Gerson participou em várias competições musicais locais, como o &#8220;Estrela da Música&#8221;, da RTTL, e outros concursos, como o UNPAZ Idol. Apesar de sonhar, na infância, em ser militar ou polícia, acabou por reconhecer o seu talento para a música e decidiu dedicar-se a ela.</p>
<p>&#8220;Quando era criança, queria ser militar ou polícia, mas, ao perceber o meu talento musical, escolhi concentrar-me nessa área,&#8221; revelou.</p>
<p><strong>Participação internacional e reconhecimento  </strong></p>
<p>Em 2016, Gerson representou Timor-Leste na competição internacional &#8220;The Asia Dangdut Academy&#8221;, na Indonésia, onde alcançou o Top 16 entre 36 participantes de seis países do Sudeste Asiático.</p>
<p>&#8220;Essa experiência abriu-me portas e permitiu-me colaborar com outros cantores timorenses, como Anito Matos. Juntos, criámos o grupo musical Different Voice, com quase 20 músicos, o que me motivou a continuar esta jornada,&#8221; afirmou.</p>
<p>Após regressar a Timor-Leste, Gerson lançou &#8220;Hau Presiza Tebes O&#8221;, uma música que rapidamente se tornou um sucesso nacional.</p>
<p>&#8220;‘Hau Presiza Tebes O’ é, até agora, a música que mais me destacou. Sinto que é conhecida por todos,&#8221; afirmou orgulhosamente.</p>
<p><strong>Desafios e planos futuros  </strong></p>
<p>Gerson destacou os desafios enfrentados pelos artistas em Timor-Leste, como a falta de mercado e a ausência de leis fortes que protejam os direitos autorais.</p>
<p>&#8220;Embora exista uma lei de direitos autorais, falta regulamentação específica para proteger os artistas. Muitas vezes, as nossas músicas são usadas em grandes cerimónias sem a nossa autorização, o que é frustrante. Precisamos de uma lei que nos proteja,&#8221; sublinhou.</p>
<p>Apesar disso, Gerson continua empenhado em inspirar os jovens e promover a música timorense.  &#8220;O meu objetivo é ajudar jovens talentosos fora de Díli, que muitas vezes não sabem como avançar. Quero apoiá-los a alcançar os seus sonhos e contribuir para um futuro melhor da música em Timor-Leste,&#8221; afirmou.</p>
<p>No futuro, Gerson pretende partilhar as suas experiências com os jovens, incentivando-os a estudar e a usar os seus talentos para inspirar outras pessoas.</p>
<p>&#8220;Acredito que, com dedicação e esforço, podemos alcançar grandes feitos. A música não é apenas entretenimento, mas também um meio para promover a paz e espalhar amor,&#8221; concluiu.</p>
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		<title>Almerindo Fernandes: o jovem que revolucionou a horticultura com tecnologia</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Rilijanto Viana]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 17 Jan 2025 13:18:56 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Destaque]]></category>
		<category><![CDATA[Perfis]]></category>
		<category><![CDATA[Pessoas]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Com um sistema de irrigação automático controlado por telemóvel, Almerindo Fernandes transforma a horticultura em Lautém, criando emprego e mostrando que a modernização do campo é o caminho para o futuro de Timor-Leste. Almerindo Fernandes dos Santos Silva, jovem empreendedor [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p><em>Com um sistema de irrigação automático controlado por telemóvel, Almerindo Fernandes transforma a horticultura em Lautém, criando emprego e mostrando que a modernização do campo é o caminho para o futuro de Timor-Leste. </em></p>
<p>Almerindo Fernandes dos Santos Silva, jovem empreendedor de Lautém, está a mudar a forma como a horticultura é praticada em Timor-Leste. Recorrendo a tecnologia avançada e a ideias inovadoras, este agricultor e empresário está a transformar o setor agrícola e a criar impacto social na sua comunidade.</p>
<p>Licenciado em Construção Civil pela Universidade Nacional Timor Lorosa’e (UNTL) em 2016, Almerindo trabalhou durante sete anos na Organização Internacional do Trabalho (OIT), no programa Estradas Rurais para o Desenvolvimento. Apesar de ter um emprego estável, sonhava investir em algo que pudesse garantir o seu sustento a longo prazo. Quando o contrato terminou, decidiu arriscar na horticultura, fundando a sua empresa, Kewe-Ara, em 2017.</p>
<p><strong>Investimento inicial e desafios  </strong></p>
<p>Com apenas 500 dólares americanos, Almerindo comprou uma bomba de água, tubos e mangueiras e pagou salários a trabalhadores para limpar ervas daninhas e operar tratores. A ideia era simples: produzir hortaliças para abastecer a crescente procura local.</p>
<p>Humilde e visionário, escolheu a horticultura porque percebeu que as pessoas precisam de alimentos diariamente, o que torna a agricultura um negócio sustentável. &#8220;Quando as pessoas comem, os agricultores ganham dinheiro. Este negócio está diretamente ligado à vida das pessoas e garante rendimento&#8221;, explicou.</p>
<p>Os desafios foram muitos. Inicialmente, a família não apoiava a sua decisão de voltar ao campo. &#8220;A ideia de que jovens licenciados só devem trabalhar num escritório está muito enraizada. Mas, em muitos países, os agricultores são os mais ricos porque fornecem alimentos às cidades&#8221;, disse. Além disso, enfrentou preconceitos de que a horticultura não era rentável.</p>
<p>“No começo, andava a pé, mas depois que o campo começou a dar resultados, consegui comprar um carro. Isso significa que trabalhar no campo pode ser tão produtivo quanto trabalhar num escritório. O importante é não trabalhar no campo como os nossos avôs faziam, de maneira rudimentar, mas sim modernizar e calcular a quantidade de sementes a serem plantadas e quanto lucro isso pode gerar”, afirmou.</p>
<p>Apesar das dificuldades, Almerindo permaneceu firme. Com resultados concretos, conseguiu convencer a família e expandir o negócio.</p>
<p>Outro desafio enfrentado por Almerindo é a manutenção da bomba de água que transporta o recurso hídrico da ribeira para o reservatório. &#8220;Sem esta bomba, tudo fica mais difícil&#8221;, confessou. Por isso, tem de incluir os custos de manutenção nos cálculos de produção para garantir que o equipamento se mantenha funcional e evite paralisações.</p>
<p>Apesar das dificuldades, o jovem agricultor não perde o foco. Reconhece que o sistema de irrigação ainda não cobre toda a área da sua propriedade devido à sua grande dimensão. “Sei que ainda não conseguimos irrigar todo o campo. Podemos tentar alargar a cobertura, mas para isso precisamos de mais investimento”, explicou, mostrando a sua determinação em continuar a melhorar.</p>
<p>Para Almerindo, o sucesso de um empreendedor depende da capacidade de enfrentar os desafios com coragem e inteligência. &#8220;Não podemos depender excessivamente do apoio do governo ou de outras entidades. Se o subsídio não vier, a empresa pode falir, e já vi isso acontecer a muitos. Temos de ser resilientes e gerir bem os nossos recursos&#8221;, destacou.</p>
<p>Mesmo com as limitações, Almerindo já colhe os frutos do seu esforço. A cada três meses, consegue gerar cerca de 500 dólares americanos com a venda das hortaliças, valor que reinveste no crescimento do negócio. &#8220;Prefiro investir na agricultura do que gastar em luxos desnecessários. Muitas vezes, as pessoas preocupam-se mais com o nosso estilo de vida do que com o que estamos a construir. Mas os resultados, com o tempo, irão falar por nós&#8221;, afirmou, com um sorriso confiante.</p>
<p>Este dinheiro não serve apenas para expandir o negócio. Almerindo utiliza também parte dos lucros para sustentar a sua família e financiar os estudos dos seus irmãos, garantindo um futuro melhor para todos. Ao explicar a sua estratégia de gestão, usou uma metáfora cheia de sabedoria: “É como criar uma galinha. Deixamo-la chocar os ovos e criar pintinhos para garantir o sustento no futuro. Não podemos matar a galinha que ainda põe ovos, porque isso seria destruir aquilo que construímos.”</p>
<figure id="attachment_18735" aria-describedby="caption-attachment-18735" style="width: 566px" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" class=" wp-image-18735" src="https://www.diligenteonline.com/wp-content/uploads/2025/01/3-516x368.jpg" alt="" width="566" height="404" srcset="https://www.diligenteonline.com/wp-content/uploads/2025/01/3-516x368.jpg 516w, https://www.diligenteonline.com/wp-content/uploads/2025/01/3.jpg 715w" sizes="auto, (max-width: 566px) 100vw, 566px" /><figcaption id="caption-attachment-18735" class="wp-caption-text">A cada três meses, consegue gerar cerca de 500 dólares americanos com a venda das hortaliças /Foto: DR</figcaption></figure>
<p><strong>Tecnologia para modernizar a agricultura </strong></p>
<p>Almerindo e o seu irmão, estudante de eletrónica na Indonésia, desenvolveram um sistema de irrigação automática controlado por telemóvel. Este sistema, conectado ao Google Assistente e ao dispositivo Water Bot, permite que as hortaliças sejam regadas remotamente, desde que haja acesso à internet.</p>
<p>A ideia de irrigação automática surgiu do seu irmão, cujo tema da tese incidiu na criação do sistema automático de irrigação. Almerindo, com a sua experiência em sistemas de irrigação, ajudou-o a desenvolver o sistema.</p>
<p>Para evitar que os dispositivos, que são caros e sensíveis, sejam roubados, Almerindo decidiu tomar precauções. “Só usamos os aparelhos, quando estamos no terreno. Se não tivermos cuidado, os equipamentos podem ser roubados, e isso representaria perda de dinheiro, para além de todo o esforço de baixar e instalar a aplicação”, explicou.</p>
<p>&#8220;Posso controlar a irrigação com comandos de voz ou remotamente pelo telemóvel, o que poupa tempo e esforço. A internet é a chave para tudo funcionar&#8221;, explicou. A tecnologia, apesar de já ser utilizada em muitos países, foi adaptada às condições locais.</p>
<p>A ideia valeu-lhe o primeiro lugar na competição de negócios inovadores organizada pelo Ministério do Comércio e Indústria em 2023. O prémio de 2.500 dólares foi complementado com 7.000 dólares do governo, permitindo-lhe expandir a produção e melhorar a infraestrutura.</p>
<p>“Ganhei porque apresentei uma ideia diferente. A minha empresa também tem um impacto social, já que oferece trabalho à comunidade e estágios aos estudantes. Além disso, garantimos o mercado e temos uma existência consolidada desde 2017, o que mostra a consistência ao longo do tempo”, defende.</p>
<p>O dinheiro foi reinvestido na propriedade, na aquisição de veículos para transportar as hortaliças para mercados tradicionais, e na melhoria do sistema de irrigação. “O sistema agora está a funcionar bem, então não estamos preocupados com isso. A nossa principal preocupação é com o solo, que determina a produtividade. Se o solo produzir bem, podemos ganhar dinheiro, caso contrário, é preciso ter paciência”, explicou.</p>
<p><strong>Produção diversificada e impacto local  </strong></p>
<p>Almerindo cultiva hortaliças como alface, espinafre e mostarda durante a estação seca, e tomate, beringela e pimentão durante a época das chuvas. Atualmente, é o principal fornecedor do programa de merenda escolar para escolas em Lautém. Além disso, criou empregos para mulheres da comunidade e oferece estágios a jovens estudantes.</p>
<p>No entanto, o agricultor ainda enfrenta limitações na capacidade de produção. “Recebemos pedidos de entidades como as F-FDTL e o hospital de Lospalos, mas recusámos porque ainda não conseguimos garantir regularidade em grandes quantidades”, lamentou.</p>
<p>Outro desafio é a manutenção dos equipamentos e o impacto das alterações climáticas. “O calor extremo afeta as hortaliças, e durante a seca o volume de água nas ribeiras reduz significativamente. Ainda assim, nenhum desafio me faz desistir”, afirmou.</p>
<p><strong>Planos para o futuro </strong></p>
<p>Almerindo planeia especializar-se numa única variedade de produto agrícola para aumentar a produção e competir no mercado. &#8220;Queremos escolher uma variedade que se torne um ícone e que seja adaptável às condições locais, permitindo-nos produzir em grande escala&#8221;, explicou.</p>
<p>Além disso, deseja transformar a sua propriedade num centro de formação agrícola para jovens. “Muitos jovens evitam o campo porque pensam que não é digno. Queremos mudar essa mentalidade, mostrando que a agricultura moderna pode ser lucrativa e oferecer muitas oportunidades de emprego”, disse.</p>
<p>O jovem deixa um conselho: &#8220;Os terrenos abandonados podem ser transformados em fonte de rendimento. Não tenham medo de começar. Mesmo com pouco, é possível crescer. O importante é investir e acreditar.&#8221;</p>
<p>&#8220;Sou uma pessoa que acredita em factos, não em discursos&#8221;, continuou. Para ilustrar o seu ponto de vista, contou uma história da sua própria experiência. &#8220;Quando plantei feijão-de-corda em 60 canteiros, o meu pai disse-me que ninguém ia comprar. Eu respondi calmamente que era preciso esperar. Quando chegou a época da colheita, as pessoas compraram tudo rapidamente. Naquele momento, ele disse-me que eu devia ter plantado feijão em grande escala desde o início&#8221;, recordou com um sorriso.</p>
<p>Almerindo não vê os desafios como obstáculos, mas como oportunidades para inovar. &#8220;A agricultura, quando bem planeada e modernizada, pode ser tão valiosa quanto qualquer profissão. O importante é olhar para o futuro e não desistir&#8221;, concluiu.</p>
<p>O conteúdo <a href="https://www.diligenteonline.com/almerindo-fernandes-o-jovem-que-revolucionou-a-horticultura-com-tecnologia/">Almerindo Fernandes: o jovem que revolucionou a horticultura com tecnologia</a> aparece primeiro em <a href="https://www.diligenteonline.com">DILIGENTE</a>.</p>
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		<title>Izu Mausoko: o som da resistência e da esperança em Timor-Leste</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Antónia Martins]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 02 Jan 2025 12:54:34 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Destaque]]></category>
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		<category><![CDATA[Pessoas]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>A história de Izu Mausoko é uma sinfonia de resistência, identidade e transformação. Com a sua música, ele dá voz às esperanças e lutas de Timor-Leste, usando as melodias como um instrumento de crítica e inspiração. Deonizio Rodrigues Pereira, conhecido [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p><em>A história de Izu Mausoko é uma sinfonia de resistência, identidade e transformação. Com a sua música, ele dá voz às esperanças e lutas de Timor-Leste, usando as melodias como um instrumento de crítica e inspiração.</em></p>
<p>Deonizio Rodrigues Pereira, conhecido artisticamente como Izu Mausoko, nasceu em Díli, a 4 de maio de 1983. É o segundo filho de Cezarina Lemos e Adelino Rodrigues Perreira. Cantor e compositor timorense, tornou-se conhecido pelo nome artístico “Izu Mausoko”, conquistando o público com a sua música popular.</p>
<p>Cresceu numa família que sempre apoiou os seus objetivos, em particular a sua mãe, que tinha grande paixão pela música, e uma companheira que desempenhou um papel essencial no apoio à sua carreira. A sua veia musical foi também influenciada pelo avô, João Maçasse Maçamba, que era cantor.</p>
<p>Desde pequeno, Izu era visto como o animador da família. Aos 10 anos, participava frequentemente em competições musicais, mas nunca imaginou que pudesse tornar-se cantor profissional. Considerava-se apenas um animador, sem. “Eu próprio não acreditava que ambições artísticas tinha uma boa voz. Só percebi a força da minha voz quando consegui a transmitir as mensagens que queria para outras pessoas através da música”, afirmou.</p>
<p>Em 1997, Izu começou a animar eventos organizados pelas Irmãs Salesianas, cativando o público. Foi nesse contexto que, em 2000, fundou com os seus colegas a banda “Feature Band”, inspirando-se no espírito salesiano para partilhar mensagens através da música.</p>
<p><strong>Mensagens entre ritmos e melodias</strong></p>
<p>Izu Mausoko iniciou a sua trajetória musical como animador na comunidade Salesiana de Balide. Tornou-se vocalista da Feature Band entre 2000 e 2004, mas o grupo terminou após a perda de um dos seus membros. Em 2005, integrou a banda Gembel, onde permanece até hoje, consolidando-se como um figura de destaque no panorama musical timorense, paralelamente ao seu trabalho como artista a solo.</p>
<p>A sua música aborda temas religiosos, tradicionais, sociais e educativos, combinando estilos como folk, balada e reggae. &#8220;A minha linha é mais balada, focada na mensagem, enquanto a banda explora o reggae, centrado na celebração da cultura através da dança&#8221;, explica.</p>
<p>Izu já criou cerca de 100 músicas, das quais 20 foram gravadas e 80 ainda permanecem inéditas, sendo apresentadas em concertos ou eventos. A primeira música gravada em estúdio foi lançada em 2001, no álbum “Sira Mak Fahe”, com uma composição de Inácio Gomes.</p>
<p>Uma das canções mais marcantes de Izu Mausoko, “Lakon Iis Moris no Adeus Belun Doben” (Perder o espírito da vida e adeus, querido amigo), nasceu de uma perda pessoal: a morte do seu grande amigo João Paulo, que faleceu num acidente. Esta canção foi incluída no álbum “Domin Forsa Natureza”, lançado em 2008.</p>
<p>Izu Mausoko alcançou grande reconhecimento com o álbum “Mausoko”, que trouxe letras marcantes como “Titi Gaul”, “Tiu Ayam Potong” e “Mausoko Letra Boot”, entre outras, que se tornaram grandes sucessos da época. Algumas das músicas do álbum foram compostas por Irineo Dias, Niko Mascarinhas e Ameu.</p>
<p>Para além das suas composições originais, Izu também se destacou ao interpretar <em>covers </em>em versões em tétum, como a adaptação de “Aku Milikmu”, que intitulou “Hau O Nian”. Este trabalho contribuiu ainda mais para consolidar o seu nome junto do público timorense.</p>
<p><strong>Outras paixões e desafios</strong></p>
<p>Além da música, Izu Mausoko também esteve envolvido no futebol, tendo representado Timor-Leste  nos Jogos Arafura em 2000, na Austrália, como vice-capitão. Izu começou a jogar futebol em 1996 com o grupo de futebol Apokalipse, do Bairro Central. No entanto, deixou de jogar em 2013 devido a um incidente que o impediu de continuar.</p>
<p>Izu também aprecia pintar e ler, considerando os livros uma janela para o mundo. &#8220;Ler enriquece o nosso conhecimento e ajuda-nos a compreender diferentes situações&#8221;, afirma.</p>
<p>Os desafios enfrentados pelos músicos em Timor-Leste, desde os anos 2000 até hoje, estão profundamente ligados às mudanças históricas e às condições sociais, políticas, económicas e culturais do país. Nos anos 2000, com a independência de Timor-Leste, a falta de infraestruturas modernas, como estúdios de gravação, instrumentos profissionais e tecnologia, dificultava a produção de música com qualidade.</p>
<p>Naquela época, o mercado musical era frágil, com um público limitado e acesso restrito a produções como CDs ou cassetes. Antes de lançar um álbum, os músicos precisavam de arrecadar fundos ao longo de vários meses para cobrir os custos de produção, uma vez que os consumidores compravam cassetes diretamente dos artistas.</p>
<p>A profissão de músico não era vista como uma fonte de rendimento estável, o que levava muitos artistas a enfrentar grandes dificuldades para manter a carreira e promover as suas produções. A falta de proteção dos direitos de propriedade intelectual também trazia sérias consequências, como o plágio, que afetava diretamente os músicos que investiam tempo e criatividade nas suas obras. &#8220;Timor ainda não tem uma plataforma que trate corretamente dos direitos autorais&#8221;, explica.</p>
<p>Além disso, os músicos enfrentam desafios ao incorporar críticas sociais nas suas canções, pois precisam equilibrar a mensagem crítica com inspiração e educação, de forma a evitar ofender ou causar reações negativas no público. “A música deve não apenas criticar, mas também oferecer esperança e contribuir para a mudança e transformação social”, alerta.</p>
<p>Outro desafio importante é a promoção de uma identidade pessoal através das letras, melodias, tonalidades e estilos musicais. Este equilíbrio permite que os músicos e compositores produzam músicas que reflitam críticas sociais e contribuam para mudanças positivas, ao mesmo tempo que mantêm a sua identidade como artistas timorenses.</p>
<p>Atualmente, Izu Mausoko continua a sua trajetória musical. Já gravou duas novas músicas, que abordam o tema da &#8220;saudade&#8221;, e que serão lançadas em janeiro de 2025, acompanhadas de um videoclipe.</p>
<p>“A minha música fala de saudade, mas não de uma saudade de tempos distantes. Fala, sobretudo, de uma saudade a curto prazo, como quando as pessoas se sentem solitárias ou percebem a ausência umas das outras. Por exemplo, quando alguém vai trabalhar e sente uma saudade profunda nesse contexto,” explica Izu.</p>
<p>Com mais de 20 anos de carreira, Izu Mausoko mantém-se como um dos artistas mais influentes de Timor-Leste, usando a sua música para motivar e educar as futuras gerações.</p>
<p>Atualmente, está a colaborar com o CNC (Centro Nacional Chega) para compor uma música que pretende ser uma ponte de cura para os sobreviventes de traumas. “As minhas músicas são, em grande parte, críticas sociais, que abordam a luta pela nação e também a vida de pessoas comuns”.</p>
<p>Além desta parceria com o CNC, Izu já colaborou com várias outras entidades, como o Parlamento Nacional, a USAID, a Comissão de Luta contra a SIDA e a Oxfam, demonstrando o seu compromisso com causas sociais e educativas em Timor-Leste.</p>
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