Abílio Araújo — O Dato Siri Loe II que fez da liberdade a sua Pátria

Abílio Araújo/Foto: Diligente

Economista, músico, político e chefe tradicional, Abílio da Conceição Abrantes de Araújo levou a causa timorense ao mundo, ajudou a construir pontes na paz, investe hoje na independência económica e mantém viva a memória e a cultura do seu povo. Um percurso de serviço, coragem e raízes.

Entre o som do acordeão e o silêncio das montanhas de Aileu, Abílio da Conceição Abrantes de Araújo aprendeu cedo que a liberdade é uma canção — e que, mesmo quando o mundo parece surdo, vale a pena continuá-la.

Economista, músico, político e chefe tradicional, Abílio Araújo — o Dato Siri Loe II — levou a causa timorense ao mundo, ajudou a construir pontes na paz, investe hoje na independência económica e mantém viva a memória e a cultura do seu povo.

Mas mais do que títulos, o que o define é a coerência entre o que sonhou e o que viveu: um homem que fez da liberdade a sua pátria e da dignidade o seu modo de estar. O seu percurso é o de um timorense inteiro — de mãos na terra, olhar no horizonte e coração aberto à esperança.

Entre os montes de Aileu, onde o nevoeiro se confunde com o fumo das lareiras e o som do gongo anuncia o amanhecer, nasceu, a 18 de outubro de 1949, Abílio da Conceição Abrantes de Araújo. O menino que um dia levaria a causa timorense ao mundo cresceu entre a terra e o silêncio, aprendendo desde cedo que o trabalho e a fé são as raízes mais fundas de um povo.

Filho de D. Rufina da Conceição Araújo — mulher de sabedoria serena, que viveria até aos cem anos — e de António da Costa Araújo, um pai de espírito disciplinado e trabalhador, Abílio herdou de ambos uma herança de dignidade e coragem.

Do lado materno, descende do rei de Soro, no município de Ainaro, e recebeu o título de Dato Siri Loe II, tornando-se chefe da Casa Bismau, a casa sagrada do seu avô. Do lado paterno, herdou também o sangue da liderança — o avô foi chefe da Casa Militar do mesmo reino.

Era o sétimo de oito irmãos. Hoje, apenas a irmã mais nova, Aliança Araújo, continua viva — guardiã, como ele, de uma linhagem que fez da responsabilidade o seu destino.

Apesar da origem nobre, a infância de Abílio foi marcada pela simplicidade e pela dureza. Lavrava várzeas, cuidava de hortas, carregava lenha e água para casa — e, muitas vezes, para os militares portugueses.

Foi assim que conheceu o peso da terra e o valor da solidariedade: “Não se trabalha apenas para nós”, diria mais tarde, “trabalha-se para que todos possam viver com dignidade.”

Das mãos cheias de barro nasceram os gestos do homem de Estado; do olhar que observava o nascimento de um búfalo ou o correr de um rio, nasceu o sentido profundo de harmonia e de paciência que o acompanharia pela vida fora.

Essas memórias — o cheiro da terra molhada, o queijo do primeiro leite, o frio dos rios atravessados ao amanhecer — moldaram o seu carácter. Foi nelas que aprendeu a atravessar as correntes do tempo com serenidade: o mesmo menino que cruzava rios em Aileu seria, mais tarde, o diplomata que atravessaria mares e fronteiras pela liberdade do seu povo.

A infância ensinou-lhe o essencial: que a grandeza começa na humildade, e que a verdadeira nobreza está em servir.

Os anos de formação e o despertar da luta

A escola foi, para Abílio, a primeira travessia rumo ao futuro. Começou a estudar em 1958, em Aileu, e depois continuou o 3º ano na Escola Salesiana de Lahane, em Díli, onde as noites eram iluminadas à luz do petromax e os cadernos viajavam num bornal gasto em vez de mochila. Ali descobriu o poder do conhecimento — e a disciplina que marcaria toda a sua vida.

Aos 12 anos, ingressou no Seminário de Nossa Senhora de Fátima, lugar de silêncio e de fé, onde a música se tornaria companheira inseparável. Foi ali que começou a dirigir o coro e a perceber que a harmonia das vozes podia ser também metáfora da unidade que sonhava para o seu povo.

Não chegou a concluir o 5.º ano do seminário, mas dali levou consigo algo mais duradouro: a noção de que a fé e o estudo, juntos, são formas de libertação.

Quando regressou a Díli, trabalhou como professor para poder continuar os estudos no Liceu Dr. Francisco Vieira Machado, tornando-se um dos primeiros timorenses a frequentar o ensino secundário nessa instituição. Era um jovem reservado e sereno, mas a sua inteligência já despertava atenção.

José Ramos-Horta recorda-o como “um excelente estudante, calmo e atento — como o seu povo —, que construiu o seu percurso com trabalho e inteligência, sem heranças de fortuna”. Xanana Gusmão lembra “um jovem visionário, com ambição e clareza de propósito”.

As palavras dos companheiros de geração descrevem, no fundo, o que Abílio sempre foi: alguém que aprendeu a transformar o estudo em serviço e o ideal em caminho.

Em 1971, ingressou no Instituto Superior de Ciências Económicas e Financeiras, em Lisboa, para estudar Economia. Mas a verdadeira lição começara antes — em 1968, quando, ainda estudante, tomou plena consciência do sofrimento do seu povo sob o regime colonial.

O momento decisivo chegou aos 18 anos, quando, durante uma festa de registo de bens, lhe ofereceram — como símbolo de prestígio colonial — um “presente humano”. Abílio recusou-o, com a lucidez precoce de quem compreendeu que a dignidade humana não se negocia. Aquele gesto de recusa tornou-se o primeiro ato político da sua vida. Foi ali, naquele instante, que a consciência do jovem estudante se transformou na de um combatente pela justiça.

1ª manifestação da FRETILIN, em Díli, em 20 de setembro de 1974: Francisco Xavier do Amaran (1º Presidente 1975-1977), Nicolau Lobato (2⁰ Presidente 1977-1978), Abilio Araujo (3⁰ Presidente 1981-1989) e Ramos-Horta (5⁰ Presidente 2007-2012)/Foto: DR

Foi em Lisboa que fundou, com outros jovens timorenses, o Grupo de Apoio aos Estudantes de Timor (GAETEL), uma semente de consciência política que germinaria em todas as frentes da luta pela independência.

Lisboa foi, para Abílio, escola e campo de batalha. Entre os corredores universitários e as reuniões clandestinas, amadureceu o sentido de missão: libertar Timor não era apenas uma causa política, mas uma exigência moral.

Enquanto muitos seguiam caminhos fáceis, Abílio escolheu o mais árduo: o da palavra, do diálogo e da convicção. A diplomacia seria o seu instrumento, mas a sua alma continuava a ser a do menino que atravessava rios — firme, paciente e determinado.

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Depois do 25 de Abril de 1974, universitários ocuparam a Casa de Timor, em Lisboa, e mudaram o nome para Casa dos Timores, elegendo Abílio Araújo como presidente. Da direita para a esquerda: 1.ª fila – Borja da Costa, Alice Casimiro (Austrália) e Carlos Boavida (Portugal). 2.ª fila – Marina Ribeiro (Maputo), Abílio Araújo e Afonso Faculto Ruby (Portugal)/Foto: DR

A diplomacia e a construção da paz

A história da libertação de Timor-Leste não se escreve sem o nome de Abílio Araújo. Durante os anos mais sombrios da luta, ele foi a ponte entre a palavra e a esperança — o diplomata que percorreu o mundo com a causa do seu povo na bagagem e o nome de Timor no coração.

Ao lado de José Ramos-Horta e Mari Alkatiri, tornou-se uma das vozes mais firmes da resistência no exterior. Nas capitais estrangeiras, nos corredores discretos da diplomacia e nas assembleias internacionais, Abílio falava de Timor como quem fala da própria vida.

 

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Abílio com os outros diplomatas timorenses na Conferência de imprensa em Lisboa, em 1983, sobre conversações de paz entre a FRETILIN e a Indonésia/Foto: DR

Tinha a serenidade dos que conhecem o sofrimento e a firmeza dos que não desistem. “Abílio era reservado e calmo”, recorda Ramos-Horta, “mas dentro dessa calma havia uma convicção inquebrável.”

E Xanana Gusmão completaria mais tarde: “Foi um jovem visionário, com ambição e clareza de propósito.”

Essa clareza manifestava-se não apenas nas palavras, mas nos gestos. Num encontro na Indonésia, quando cantar um hino timorense podia custar a vida, Abílio desafiou os jovens presentes a entoarem “Foho Ramelau”. O canto ecoou como um ato de resistência — uma oração disfarçada de canção.

Era o símbolo do que ele sempre acreditou: que a liberdade não é apenas uma decisão política, é também um estado de espírito. A diplomacia ensinou-lhe que libertar um país exige mais do que coragem — exige paciência, inteligência e capacidade de perdoar.

Quando o fim da ocupação se aproximava, Abílio compreendeu que a independência política seria apenas o primeiro passo; o desafio seguinte seria unir um povo ferido e disperso.

Assim nasceu, em 1999, o Partido Nacionalista Timorense (PNT), criado por ele para ser um espaço de encontro entre as várias frentes — externa, armada e clandestina.

O objetivo era claro: transformar a diversidade da luta num pensamento político coerente, capaz de sustentar a paz. O PNT viria a ser injustamente rotulado de pró-integração, mas Abílio manteve-se sereno.

Para ele, a política nunca foi um campo de rótulos, mas de responsabilidade. Acreditava que, sem reconciliação, a liberdade seria incompleta. E por isso insistia: “O PNT contribuiu para o processo político que culminou na restauração da independência.”

Nas primeiras eleições livres de 2001, o partido elegeu dois deputados à Assembleia Constituinte — o mesmo número da histórica UDT.

Participou na redação da nova Constituição, aprovada com mais de dois terços dos votos, e ajudou a definir as bases da democracia parlamentar timorense. Foi um marco — e também um gesto de maturidade política.

Mais tarde, o espírito conciliador que sempre o guiou levou-o a apoiar as candidaturas presidenciais de Xanana Gusmão (2002) e José Ramos-Horta (2007). Ambos reconheciam nele um homem de diálogo, uma figura que sabia unir quando os tempos pediam união.

Durante uma visita a Aileu, Xanana comentou, entre risos e afeição: “Se existissem telemóveis naquela altura, nada disso teria acontecido — e o Abílio talvez fosse hoje primeiro-ministro.”

Era uma brincadeira, mas também uma verdade simbólica: na resistência, muitas vezes as distâncias eram tão grandes quanto as vontades, e o sonho da independência precisou de todos os que souberam comunicar sem tecnologia — apenas com fé e coragem.

O diplomata que percorrera o mundo regressaria, anos depois, ao seu país com o mesmo espírito de serviço. Mas o reencontro com a terra natal seria uma das experiências mais duras da sua vida.

“Quando voltei em 2001”, recorda, “já não encontrei o meu pai, os meus irmãos e os meus cunhados. O país que eu conhecia em 1974 já não existia.”

Das propriedades destruídas em Aileu e da perda de trinta dos trinta e seis membros da família, ficou-lhe uma dor profunda — mas também a certeza de que a reconstrução de Timor só seria verdadeira se começasse pelas raízes. A dor transformou-se em força.

Abílio voltou-se então para a espiritualidade, para a cultura e para a sabedoria ancestral timorense. Fala dos espíritos dos montes sagrados, do Ramelau (Tatamailau) e do Matebian, como presenças vivas que guardam o destino do povo. “Acreditamos que os nossos avós estão lá no alto, junto do Criador, e que há sempre uma razão para tudo o que acontece.”

Essa visão unia fé e tradição, mostrando que a independência também se faz de reconciliação com os antepassados. Defensor do Barlaque, vê no casamento tradicional a união não apenas de duas pessoas, mas de duas famílias — um pacto de solidariedade e continuidade.

Para ele, os rituais, a música e o respeito pelos antepassados são formas de manter a alma timorense inteira, mesmo depois da guerra.

A sua importância é de enorme reconhecimento, sendo que Abílio Araújo recebeu várias distinções que refletem não apenas a sua luta política, mas também o impacto social e cultural do seu trabalho. Em maio de 2017, recebeu a mais alta condecoração de Timor-Leste, o Colar de Timor-Leste, entregue pelo então Presidente da República Taur Matan Ruak. Este gesto simboliza o reconhecimento da nação pelo papel fundamental de Abílio na luta pela independência e na preservação da identidade timorense.

Em 2022, foi nomeado Membro do Conselho de Estado pelo Presidente José Ramos-Horta, reforçando o seu papel como conselheiro de confiança e como figura de referência no país.

A música como alma e resistência

A música foi sempre o outro nome da sua vida. Antes de ser diplomata, político ou escritor, Abílio Araújo foi músico — e, em certo sentido, nunca deixou de o ser.

A sua primeira escola foi a natureza: o rumor dos ventos nas montanhas, o som das cigarras nas tardes quentes, o compasso ritmado das enxadas nos campos. A música veio-lhe como se viesse da própria terra.

Aos 12 anos, já dirigia o coro do Seminário de Nossa Senhora de Fátima, onde aprendeu que as vozes humanas, quando se unem, produzem algo maior do que a soma de cada timbre — produzem comunidade. Essa descoberta foi talvez o primeiro vislumbre do que viria a ser o seu ideal político: a harmonia como forma de resistência.

Quando mais tarde partiu para Lisboa, a música acompanhou-o como um refúgio e uma missão. Nas longas noites de saudade, o violão tornou-se confidente e testemunha. Foi com ele que escreveu algumas das canções que dariam identidade ao sonho timorense.

Entre elas, “Foho Ramelau”, “Kadalak Suli Mutu”, “Funu Nain, FALINTIL”, que se tornou hino da FALINTIL, “Oan Kosok, Timor Oan Kmurak”, dedicada a uma das suas filhas, e muito mais — melodias que atravessaram a guerra, as prisões e o exílio, até se tornarem a trilha sonora da libertação. “Foho Ramelau”, em particular, tornou-se mais do que uma canção: foi um hino.

Nascida de uma saudade profunda, é uma oração disfarçada de melodia, uma promessa feita aos antepassados e aos que ainda não tinham nascido. Em cada verso, há a imagem do monte sagrado e o eco da resistência de um povo que nunca se ajoelhou.

Abílio acredita que a música é uma forma de “revolução silenciosa”. Enquanto outros empunhavam armas, ele empunhava acordes. E onde a diplomacia não podia chegar, chegava a canção — cruzando fronteiras, sensibilizando governos, unindo corações.

Depois da independência, quis que a arte continuasse a ter um papel central na reconstrução da alma nacional. Fundou e incentivou grupos culturais, apoiou jovens músicos e participou em concertos que misturavam o sagrado e o popular. Para ele, a música é um modo de educar o coração e preservar a identidade. “Um povo que canta”, diz, “é um povo que não morre.”

Com o tempo, a sua obra musical começou a ser reconhecida também fora de Timor-Leste. Vários artistas reinterpretaram as suas composições, e algumas canções foram traduzidas para outras línguas, tornando-se património simbólico da lusofonia.

Mas o que mais o emociona não são os aplausos nem as gravações — era ver crianças timorenses a cantar as mesmas melodias que ele compusera em tempos de escuridão. Quando lhe perguntam o que o inspira, responde sempre com simplicidade: “A música é a voz dos que já partiram e o consolo dos que ainda vivem.”

A fé, que sempre o acompanhou, mistura-se com essa visão espiritual da arte. Fala dos montes Ramelau e Matebian como moradas dos antepassados — lugares de luz onde as almas repousam e de onde emanam forças para proteger os vivos. Acredita que cada timorense carrega dentro de si uma parte dessa montanha, e que a canção é o caminho para a reencontrar.

Quando se fala do país livre, há sempre uma melodia sua a ecoar ao fundo — como se o espírito do Foho Ramelau ainda vigiasse, invisível, sobre as colinas do seu povo.

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Pela primeira vez, o mundo viu o rosto da invasão indonésia em Timor-Leste através do Livro “FRETILIN Conquers the right to dialogue”, apresentado na Conferência do Pacífico Livre de Armas Nucleares e Independente (NFIPC, inglês), em 1983, em Vanuatu/ Foto: DR

Da política à economia: a nova luta pela independência

Para Abílio Araújo, a luta não terminou com a libertação política. Hoje, o seu foco é a independência económica de Timor-Leste.

Enfrentando os desafios da pobreza, da falta de infraestruturas e dos frágeis serviços de saúde, defende que o desenvolvimento económico é o verdadeiro caminho para a soberania nacional. É um defensor do uso responsável do Fundo Petrolífero, dando prioridade ao investimento na educação, energia, infraestruturas e empreendedorismo. Rejeita o assistencialismo e as ajudas condicionadas, acreditando na autonomia e no mérito.

Desde 2001, promoveu projetos como o IRA-LALARO, destinado a levar eletricidade a todo o país, com apoio do então primeiro-ministro Xanana Gusmão, embora obstáculos governamentais tenham impedido a sua execução plena.

Empresário e investidor, atuou nos setores da agricultura, pescas, energia, construção, turismo e banca, tanto em Timor-Leste como em Portugal, Singapura, Indonésia e Dubai.

Em Díli, vive na sua Casa Kaduna de Asuinus, em Tibar, rodeado por árvores de fruto e pau-rosa que ele próprio plantou — um retrato simbólico do homem que semeia para o futuro.

O grupo criado por Abílio, desde 2002, atua nas áreas de energia, telecomunicações e construção civil, empregando mais de 60 timorenses. A SACOM Construções dispõe de maquinaria pesada; a SACOM Energia fornece combustíveis desde 2014; e a SACOMTEL disponibiliza internet de fibra ótica em Díli, com investimento 100% privado.

Segundo Salvador Tilman, diretor da SACOMTEL, “o Doutor Abílio prefere ouvir os problemas para depois resolvê-los, do que receber relatórios que escondem dificuldades. Nunca deixa salários atrasados e trata todos com respeito, justiça e equidade.”

Abílio detesta a corrupção, valoriza a pontualidade e a ética, e segue o exemplo do pai, para quem o dever vinha sempre antes do direito. Além disso, pratica a caridade com discernimento, apoiando a educação e o desenvolvimento familiar com base no mérito e na responsabilidade.

Luís Cardoso sobre Abílio Araújo: “Um amigo, uma referência, um mito”

O escritor Luís Cardoso descreve Abílio como “amigo, referência e quase um mito vivo”. Desde criança ouvia falar do jovem timorense que, com sacrifício e talento, se tornara exemplo de inteligência e patriotismo.

Conheceram-se no Seminário de Dare, onde Abílio dirigia o coro. Mais tarde, reencontraram-se em Lisboa, quando Abílio chefiava a delegação da FRETILIN e coordenava o Comité 28 de Novembro.

Luís recorda com emoção: “Ele acreditava que eu tinha potencial para ser escritor. Sempre que levava poemas, ele sorria e dizia: ‘Isto também é luta, Luís.’”

Para Cardoso, Abílio é “um verdadeiro senador timorense — um homem de diálogo, cultura e generosidade, capaz de unir as pessoas”. Defende que a sua música Kadalak Sulimutu deveria ter sido o hino nacional de Timor-Leste. “Borja e Abílio eram o espelho da identidade timorense — o poeta e o músico.”

Mais do que um líder, Abílio Araújo é uma corrente que liga gerações — da luta armada ao sonho de prosperidade. É diplomata, músico, pensador e homem da terra. E como canta na sua própria melodia, “os leitos juntos tornam-se um rio” — o rio da unidade e da esperança de um povo que ele ajudou a libertar.

Hoje, Abílio Araújo vive rodeado pelas árvores que plantou em Tibar — mangueiras, jaqueiras, pau-rosa — como quem continua a semear o futuro. Ali, entre o verde e o silêncio, o Dato Siri Loe II observa o país que ajudou a libertar e a reconstruir. Não fala de glória nem de sacrifício, mas de responsabilidade. De trabalho. De fé.

Para ele, cada canção e cada projeto económico têm o mesmo propósito: preservar a dignidade do povo timorense e preparar o amanhã com consciência.

E talvez seja essa a sua maior herança — ter provado que a liberdade não se conquista apenas nas montanhas ou nos palcos da diplomacia, mas também na música, na terra e nos gestos simples de quem acredita que um povo, unido, pode recomeçar.

Quando o vento sopra entre as folhas das árvores que plantou, parece ainda ouvir-se o eco das suas canções — a melodia de um homem que fez da liberdade o som eterno da sua vida.

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