50 anos da Independência: repensar discriminações e estereótipos

"A ideia de pureza é perigosa, pode nos levar a dinâmicas sociais excludentes e a regimes autoritários."/Foto: IA

Falar de discriminação costuma provocar algum desconforto. Ninguém gosta de ser alvo dela nem de pensar que participa, mesmo sem intenção, na produção de desigualdades.

No entanto, é precisamente no quotidiano – nas conversas informais, nos comentários soltos, nas pequenas decisões que tomamos – que os preconceitos se tornam em práticas sociais com impacto direto na vida de outras pessoas. Não são fenómenos abstratos, estão presentes nas ruas, no trabalho, nas escolas, nas redes sociais e nas instituições.

Analisar os preconceitos não é o mesmo que apontar dedos nem procurar culpados. Pelo contrário, fazer isso aumenta o risco de cairmos no ciclo das discriminações e dos discursos moralistas. Enfrentar preconceitos é criar condições para uma sociedade mais inclusiva. Reconhecer os mecanismos de discriminação é o primeiro passo para os combater.

O desafio é coletivo: passa por educação, políticas públicas e, sobretudo, pela disposição de cada um de nós em questionar hábitos, afetos, expressões e crenças que, mesmo sem intenção, podem ferir, excluir ou marginalizar.

Ao enfrentarmos os preconceitos do dia a dia, abrimos espaço para relações mais empáticas, instituições mais acolhedoras e um debate público mais responsável e aberto. No final, contribuímos para a construção de uma sociedade em que a diferença não é ameaça, mas fonte de riqueza cultural e humana.

Fronteiras sociais: o ‘outro’ como espelho

Uma dessas formas de discriminação é a xenofobia. Muitas vezes pensamos que ela é apenas uma rejeição a estrangeiros, mas é um pouco mais do que isso. Existem diferentes dimensões, algumas tão subtis e não conscientes que parecem ‘naturais’.

A xenofobia cultural, por exemplo, manifesta-se quando desvalorizamos práticas e costumes diferentes dos nossos. Expressões como ‘não conhecem as nossas tradições’, ‘estas regras culturais não fazem sentido’ tendem a criar barreiras simbólicas entre os ‘de dentro’ e os ‘de fora’. Pequenas frases, repetidas ao longo do tempo, acabam por reforçar um ambiente de hostilidade e desconfiança. O estrangeiro passa a ser qualquer pessoa que não pertença ao ‘meu grupo’.

Outra manifestação da xenofobia é a económica, que surge quando se acredita que as pessoas migrantes ‘roubam empregos’, ‘baixam a média salarial’, ‘destroem a economia local’ ou ‘sobrecarregam’ os serviços públicos. Este tipo de xenofobia pode dirigir-se tanto a trabalhadores estrangeiros como a migrantes de sucos e aldeias do interior que vêm para Díli procurar melhores condições de vida. Estes argumentos, embora comuns, não se sustentam em dados concretos; são antes reações emocionais a medos coletivos, que podem ser utilizados e intensificados por discursos oportunistas ou populistas.

A discriminação regional – ou xenofobia interna – pode ser percebida quando pessoas de certas regiões, sucos ou aldeias são tratadas como menos capazes, menos instruídas ou menos ‘civilizadas’. Quando dizemos que determinado grupo é ‘agressivo e impulsivo’ ou ‘passivo e calado’, reduzimos as pessoas a rótulos simplistas. Este tipo de preconceito afeta o acesso a oportunidades, a mobilidade social, a maneira como estes grupos são representados no espaço público e pode levar, inclusive, a conflitos armados – lembram-se de 2006?

Talvez a forma mais difícil de identificar seja a xenofobia simbólica, pois não depende de contacto direto com pessoas consideradas ‘de fora’. Basta a circulação, nos meios de comunicação ou nas redes sociais, de imagens, piadas, apelidos pejorativos ou narrativas que associam o ‘outro’ – mesmo que distante – à ameaça, à criminalidade ou à decadência moral. Trata-se de uma manifestação da xenofobia que atua no plano das ideias, frequentemente apresentada como engraçada ou inofensiva, mas que produz efeitos diretos ao reproduzir estereótipos e influenciar perceções, emoções e comportamentos.

A xenofobia pode ser usada para fabricar inimigos e funciona como um mecanismo de camuflagem das desigualdades sociais e dos problemas concretos que afetam a vida das pessoas.

Ao deslocar os medos e frustrações coletivas para um ‘outro’ estereotipado e genérico, não se analisam as causas estruturais e históricas dos problemas, favorecendo a ilusão de pertença e de unidade interna contra um inimigo externo.

Esse ‘outro’ torna-se convenientemente a causa de todos os problemas. Resistir a ele passa a ser encarado como uma obrigação para preservar a sobrevivência, a autonomia e a identidade do grupo, quando, de facto, apenas contribui para perpetuar sistemas de poder, controlo social e desigualdades.

Mas a discriminação quotidiana não se limita a xenofobia. Outras formas igualmente prejudiciais interferem nas relações sociais.

As múltiplas faces da discriminação

A discriminação religiosa afeta tanto minorias confessionais como pessoas sem vínculos religiosos, frequentemente vistas como ameaças à harmonia social ou como agentes de desordem. Outras religiões passam a ser entendidas como ‘erradas’, ‘seitas’ ou oportunistas. Ao deslegitimar ou diminuir a importância de outras crenças – atribuindo-lhes intenções obscuras ou como sendo inimigas da identidade do grupo – abre-se espaço para justificar agressões físicas, destruição de património e segregação social como se fossem respostas legítimas e necessárias.

O etarismo é outra forma de discriminação, que pode recair tanto sobre pessoas idosas como sobre os mais jovens. No caso da juventude, isto pode ser observado em afirmações como ‘esta é uma geração perdida’, ‘os jovens são irresponsáveis’, ‘não possuem conhecimento’, ‘são preguiçosos’, ‘influenciáveis’ ou ‘não estão preparados para liderar’.

Cria-se, assim, o medo da perda dos costumes ou da erosão da coesão social, atribuindo às gerações mais novas uma suposta falta de compromisso, respeito e dedicação. Estes estereótipos não refletem apenas conflitos geracionais, mas disputas de poder, e influenciam desde a educação formal e a inserção no mercado de trabalho até à participação política e à própria construção da identidade pessoal.

Em sociedades multilíngues, como a timorense, a discriminação linguística é outro fenómeno que surge sem que o percebamos. Não se limita ao domínio de uma língua, mas envolve preconceitos com sotaques, pronúncias e modos de falar associados a determinados grupos sociais. Assim, algumas línguas e formas de falar assumem maior status social do que outras. Desvalorizar alguém porque ‘fala diferente’ ou não domina a norma-padrão é uma forma de exclusão social que tem raízes em hierarquias históricas e relações de poder.

Há ainda a discriminação associada ao estado civil ou à condição familiar, que afeta pessoas divorciadas, solteiras, mães adolescentes e órfãos. Expressões como ‘não tem responsabilidade’, ‘vive em pecado’, ‘não tem estrutura familiar adequada’ ou ‘a separação será uma vergonha para a família’ constituem mecanismos de exclusão e julgamento moral.

A discriminação de género ocorre quando as mulheres são vistas como menos capazes ou mais frágeis, quando se mantém a ideia de que certos empregos ‘são para homens’, ou quando o acesso das mulheres a cargos de liderança é condicionado à tutela de uma autoridade masculina. A discriminação contra pessoas LGBTQIA+ manifesta-se em agressões, insultos, exclusão e negação de direitos básicos. As trabalhadoras do sexo enfrentam violência física e simbólica, muitas vezes justificadas por narrativas moralistas que as apresentam como ‘destruidoras de lares’.

A agressão sexual contra mulheres e pessoas LGBTQIA+ é frequentemente normalizada por ideias enraizadas de que estes corpos estão sujeitos aos desejos masculinos.

As pessoas com sofrimento psíquico ou neurodivergentes também são vítimas de discriminação. As suas condições podem ser associadas a uma consequência por terem ‘pensamentos ou comportamentos errados’ ou a um ‘castigo’ espiritual. Há uma tendência a encará-las como ‘fracas’ e sem ‘força de vontade’ para melhorar. Estas pessoas estão expostas a agressões, são mantidas trancadas em casa durante os momentos de crise e tornam-se uma fonte de vergonha para a família.

A discriminação manifesta-se também ao associar os moradores de bairros carenciados a estereótipos como famílias desorganizadas, pouca inteligência, dependência de suporte social e falta de ambição ou motivação, bem como a ambientes perigosos e com elevadas taxas de criminalidade. Em contrapartida, atribui-se automaticamente aos mais ricos características como maior inteligência, competência e espírito empreendedor – como se estas qualidades lhes fossem inerentes devido à sua posição social, e não o resultado de um acesso desigual a recursos, escolaridade e oportunidades.

São muitas as formas de discriminação. Por isso é importante compreender a interseccionalidade, ou seja, a maneira como diferentes discriminações podem combinar-se e reforçar-se mutuamente.

Uma mulher jovem, pobre e solteira ou um homem migrante, pertencente a uma minoria religiosa e com baixa escolaridade, por exemplo, enfrentam vulnerabilidades que não podem ser compreendidas isoladamente. É justamente na interseção destas desigualdades que se concentram as maiores formas de exclusão.

Em busca do ‘verdadeiro’ timorense

Todos estes estereótipos podem nos levar a ideia de ‘pureza’. Assim separamos o timorense verdadeiro do falso. Mas, afinal, quem seria mais ‘puro’: uma pessoa que nasceu em Ataúro ou em Lospalos? São regiões com microclima, geografia, Lisan, histórias de origem, língua, ancestrais, rituais, música, arquitetura e hábitos alimentares distintos – e as próprias pessoas têm características físicas diferentes. Qual deles é ‘mais timorense’?

E uma criança filha de pai indonésio e mãe timorense – ou australiano, português –, ou de pais timorenses, mas que nasceu e cresceu em outro país? Qual destas crianças é ‘mais timorense’? E um descendente de famílias chinesas que estão em Timor-Leste há 250 anos, será menos timorense que os outros? E quanto ao tom da pele: muito escura, escura, clara, albina ou ruiva? Qual o nível de melanina do verdadeiro timorense?

A ideia de pureza é perigosa, pode nos levar a dinâmicas sociais excludentes e a regimes autoritários. Por outro lado, a quem serve e para que serve esta noção de ‘pureza’? Quem está a beneficiar-se com este tipo de pensamento? E até que ponto isto pode nos levar a repetir métodos de controlo social, segregação e manutenção do status quo herdados dos períodos de ocupação estrangeira?

Talvez seja interessante considerar a ideia de que a sociedade timorense é multicultural e que não existe uma única maneira de ser timorense, mas várias e todas são legítimas e merecedoras de espaço para se expressarem. As identidades sociais não são naturais ou fixas, mas construções históricas. E, em Timor-Leste, será que todas as vozes estão a ser ouvidas?

O lugar de fala

Alguém poderá considerar que um texto como este é inconveniente, pois o momento é de celebração. No entanto, celebrações também são momentos de reflexão. Analisar os nossos problemas não diminui as nossas qualidades; pensar sobre o que precisamos de melhorar não desvaloriza as nossas conquistas.

Por outro lado, entendo que se questione o meu ‘lugar de fala’ sobre estes assuntos: homem, cisgénero, heterossexual, não religioso, não pertenço a nenhuma Uma Lulik ou Lisan e não nasci em Timor-Leste. Quanto a isto, não tenho como defender-me. E o estereótipo não me favorece, eu sei.

Mas, se puder acrescentar algo, diria que estas características são apenas uma pequena parte da minha história – há muitas outras – e estão longe de me definir. Dito isto, faço um convite: concentre-se no conteúdo deste texto e pergunte-se se ele faz algum sentido.

Penso que uma das melhores formas de celebrar os 50 anos da Proclamação da Independência é reservarmos um momento para refletir sobre o país que queremos e questionar-nos se estamos, de facto, a desenvolver uma nação inclusiva, onde todas as pessoas possam viver com autonomia e bem-estar. Uma sociedade multicultural não se constrói com silêncios.

Alessandro Boarccaech é psicólogo, especialista em psicologia clínica, psicoterapeuta, semiótico e Ph.D. em antropologia.

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